Crônicas de uma infância feliz Seguir historia

sweet-mary Mary

Quem lê minhas palavras chega perto de me conhecer antes de me abraçar, essa é a verdade. Não afirmo que me conheça plenamente, estou tentando chegar perto de me aceitar para evitar desgostos provocados por erros reincidentes. Compactuo com as lágrimas por não subestimar sua inesgotável necessidade de me fazer parar, tomar o fôlego e virar à direita ou à esquerda, de acordo com o caminho escolhido.


Historias de vida Todo público.

#nostalgia #infância #escritora-mary #anos90 #anos2000 #autobiográfico
Cuento corto
0
3.1mil VISITAS
Completado
tiempo de lectura
AA Compartir

Crônicas de uma infância feliz

Foi-se o tempo em que meu maior impasse era decidir se levaria bolacha recheada em um pote fechado para o lanche ou se gastaria na cantina os dois reais que meus pais me davam. Rendia um monólogo decidir entre uma lata de refrigerante e/ou um pacote de salgadinho, quem sabe também um punhado de balas e chicletes, uma tortuguita de caramelo para lá de deliciosa.

Clamo com nostalgia a época em que eu me sentia feliz da vida quando comprava um caderno de capa dura na qual um personagem de desenho animado estava estampado para o deleite de meus olhos gulosos - venhamos e convenhamos, Mickey Mouse e sua amada Minnie — e quando saía da livraria com uma caneta aromática da Uniball que era um objeto de ostentação junto com o conjunto de 48 cores da Faber Castell e aquele fichário do Smiley que se abria com um zíper, os pequenos prazeres infanto-juvenis que tão bem desfrutei, do modo que me coube.

Toda vez que era escalada (a contragosto das demais meninas) em algum time, mentalmente o apelidava de Tabajara. Nunca fui artilheira e minha inabilidade total com o esporte me faz pensar naquelas férias de julho em que os Jogos Olímpicos de Atlanta eram assunto unânime nas pautas dos noticiários televisivos, radiofônicos e impressos, e eu junto ao meu irmão brincava no quintal de casa, eu acreditando piamente que seria jogadora de vôlei.

Ao menos no balanço nunca houve competição, eu só queria voar cada vez mais alto, sem me importar se o vento desalinharia meus cabelos. Se me desse na veneta eu pedia sem receios para ir ao cabeleireiro e cortar na altura que bem desejasse, me sentia bem de qualquer maneira. Arrependida, bastava deixar crescer, assim sem neura nenhuma. No entanto, eu tinha 14 a última vez que me sentei em um balanço, estava dando adeus ao corpo de criança, ao mundo do faz-de-conta para acenar sem cerimônias para a tumultuada transição que tornou uma menina calma um vulcão de emoções inesperadas.

Palavras, meras conjunções e sua exemplificação mais caricata do que não deveria penetrar a raiz do pensamento, mas gerou obsessão, insegurança, refreio da essência. Uma simples gota de chuva desatava pânico. Um mundo para lá de estranho. Mergulhar quadrados de chocolate no iogurte de morango é a mania que nunca hei de perder, eles combinam tão bem quanto à essência de Sundown ao verão, um ajuste desengonçado de medidas e as recriminações diante do espelho, lá onde meus olhos enxergavam um monstro indigno de amor, sem passado nem futuro, uma loucura só.

O reflexo que eu desprezava e hoje abraço é de uma menina cheia de medo, os olhos estampando desamparo, alguém que queria ter o seu lugar em algum grupo, um canto seu no mundo todo, uma página que ninguém rasgasse, a sensação tão gostosa de ser amada. A armadura que utilizei não se ajustava ao meu querer, a estratégia adotada e tão passível de falhas, no entanto quem nasce acertando todas sem um único deslize?

A extrema carência me incitou a desenhar sonhos que nunca existiram e reescrever trechos para representar situações adversas, confesso que essa dose de insensatez me libertou depois de reconhecida. Peço perdão sobretudo a mim mesma por ter sido fraca, por ter me importado em demasia com o que pensavam as pessoas, isso minou minha liberdade, me impediu de descobrir antes de quebrar a cara que eu não precisava daquelas amizades de plástico para ser feliz, nunca precisei. Aquela pretensão de que tanto debochavam e desencorajavam era (e é) o meu dom, a asa invisível que me ensinou a voar através da força dos meus sonhos que sempre foram maiores que do portão da escola para dentro. O verdadeiro amor não estava ali, nunca esteve.

A criança sofreu sorrindo amplamente, crente de que nunca teria uma oração ignorada. A adolescente chorava diante de todos, externando a inadequação. Ser forte foi o dever de casa não cumprido, era um pedido muito confidencial, colocado em prática, depois derrubado. A adulta encobre as lágrimas com sorriso, guardando no peito as situações engraçadas do crescimento, suspirando com doçura pensando naqueles pequenos mimos suficientes para apagar as nuvens do céu, os comportamentos proibidos que quando infringidos além de gerar um frio na barriga também davam aquela certeza de que não havia impossível.

Tudo era novo, portanto, emocionante. A música preferida a tocar no rádio quando a fita estava no ponto, esperando por ela. A alegria rolar no gramado com o Fila Brasileiro que era duas vezes maior que eu e o que tinha de grande esbanjava de mansidão, deitar sua cabeça enorme em meu colo minúsculo e ele dormir ali ronronando. Abrir um pacote de presente e encontrar aquela boneca que sonhei por meses, o dia em que não fui eliminada da queimada na 3ª série (isso nunca mais se repetiu), quando cantei minha música favorita para a turma inteira e nunca me ocorreu que a letra caía perfeitamente para mim (último ano da escola), um chuvoso domingo de janeiro em que nós banhistas fomos surpreendidos por um temporal e ainda crianças corríamos quase sendo puxados pelas rajadas de vento que não apenas bagunçavam os cabelos, como eram capazes de destelhar casas e postes de luz; escondidos debaixo do toldo de uma igreja em construção à medida que aqueles violentos pingos de chuva desaguavam sobre o céu cinza, trovejando tão firmemente, a noite em que eu contrariei todo mundo e peguei um sapo no colo, alguns falavam que eu ficaria cega se tocasse nele, sendo que já se passaram quinze anos e minha visão é muito saudável, obrigada.

A maioria dos bons momentos que vivi não foram registrados em nenhuma rede social até onde é do meu conhecimento, mas seguem despertando positividade, recordando — no caso de eu insistir em esquecer — que não fui sempre essa criatura por demais calada e cheia de ficar escondida em uma concha por medo de "ofuscar" as bullies covardes que por não suportarem a felicidade alheia julgam para derrubar, não sorriem para acolher. Palavras de baixo calão e mal colhidas não deveriam influenciar, entretanto na hora da dor não nego que paraliso, não sei o que responder e quando penso nos melhores argumentos estou deitada na cama procurando o sono que se esqueceu de chegar.

Quem lê minhas palavras chega perto de me conhecer antes de me abraçar, essa é a verdade. Não afirmo que me conheça plenamente, estou tentando chegar perto de me aceitar para evitar desgostos provocados por erros reincidentes. Compactuo com as lágrimas por não subestimar sua inesgotável necessidade de me fazer parar, tomar o fôlego e virar à direita ou à esquerda, de acordo com o caminho escolhido. E que venham mais quadradinhos de chocolate mergulhados na cascata de iogurte de morango porque se a alegria tem um gosto, para mim é esse, gosto da infância que acaba, mas segue imortal.

20 de Marzo de 2019 a las 03:46 0 Reporte Insertar 0
Fin

Conoce al autor

Mary Curitibana, futura jornalista, escritora em constante progresso, escorpiana com ascendente e lua em peixes. Apaixonada por todas as singelezas da natureza, onde se encontra o olhar compassivo de Deus. Em matéria de livros, filmes e músicas, minha lista tende a crescer, mas sempre há aqueles que têm um espacinho especial no meu coração. Prazer, eu sou a Mary.

Comenta algo

Publica!
No hay comentarios aún. ¡Conviértete en el primero en decir algo!
~