1726, A Bela Dama Seguir historia

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Basílio após décadas cego só tinha um simples desejo: ver sua mulher nua. Mas por que ela estava sendo tão difícil? [Tw: metáforas a transexualidade]


Cuento Sólo para mayores de 18.

#história-de-época #conto #tw #Eloah
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Diversidade Feminina


Sua genitália define o rumo de sua vida.


1726, às ruas do centro sufocavam os corajosos que se atreviam em passar por elas. O sol tão forte queimava a pele das pessoas amontoadas, e o rosto de todos tinha a presença de um sorriso e um olhar de esperança. Um prato cheio pra saqueadores, que se camuflavam facilmente entre a multidão.

Aquela situação não passava de uma prova de como era fácil entreter a população. Não era necessário organizar grandes espetáculos ou lhes dar alimentos - coisa que parecia faltar em meio aquela gente que era tão magra e doente. Apenas era preciso mostrar alguma ideia "revolucionária", mesmo que não mudasse em nada no cotidiano da maioria.

–Senhores - uma enfermeira chamou a atenção com um grito - A operação teve seu fim, o médico e o padre já estão com os resultados em mãos.

Algumas pessoas davam as mãos, praticando suas orações e jogando suas energias positivas para o hospital que estavam em frente. Todos pareciam está rezando pra que a operação tivesse dado certo, todos exceto a dama que observava a população de da janela do hospital. Ela segurava seu terço com força, repetindo suas súplicas.

–Por favor, falhe, diga que seu estado piorou, que seus olhos putrefaram - sussurrava contra o santo que foi ensinada a rezar.

Infelizmente a pobre mulher não pôde ter mais nem um segundo de esperança, pois a enfermeira voltou a falar, divulgando a grande notícia de que o país havia sido berço de um milagre e também uma grande conquista na medicina. O fazendeiro mais rico e poderoso da região, Adri Basílio, que perdeu sua capacidade de enxergar aos trinta anos, e agora com cinquenta, completou com sucesso sua cirurgia que revertia sua cegueira.

O povo à frente do Hospital gritou em alegria imaginando o grande futuro que os aguardava, de uma forma bem patética claro, uma gente miserável e roubada como aquela jamais teria condições de bancar uma cirurgia como a que foi feita. E em meio às grandes comemorações e gritos de felicidade, a pobre dama derramou uma lágrima de tristeza.

Tivera tanto trabalho pra impedir que a cirurgia acontecesse, tudo em vão. Suas tentativas de atrasar o tratamento, os remédios que deixou de dar entre outras coisas, tudo inútil. A única coisa que lhe restava agora era chorar e esperar seu fim.

–Com licença, senhora? - uma enfermeira apareceu, chamando pela dama, que acabou se assustando com uma segunda presença no local.

–Pois não?

–A reconheci pelo seu lindo vestido - a mulher sorriu com o elogio. Já estava acostumada a ser elogiada pelas suas vestimentas, e boa parte de sua fama era pela sua aparência sempre impecável mesmo com o calor e empecilhos que a cidade podia proporcionar. Muitas pessoas comentavam como era um desperdício uma mulher tão linda ser casada com um homem cego. Uma pena que agora isso tinha mudado. – Seu marido te espera. Disse que não quer ver ninguém primeiro que você.

–Diga que logo irei.

–Senhora - a enfermeira a chamou mais uma vez - Não tens que esconder seu choro, todos sabemos como está emocionada. Suas lágrimas significarão apenas o seu amor pelo senhor Basílio.

Geralmente a dama não se mostrava acessível com pessoas de classes mais baixas que a sua. O motivo não era apenas porque lembrança de seu passado rodeado pela pobreza, como também era pra evitar ouvir coisas tão ridículas como aquela. À enfermeira parecia satisfeita por ter conseguido arrancar um sorriso singelo segundos atrás, coisa que só aconteceu por conta do frágil estado emocional que a mulher se encontrava.

– Na próxima vez que dirigir a palavra a mim desse jeito, eu mesma organizarei sua execução, em praça pública com uma corda em seu pescoço.

Se parte de sua fama era sua beleza, a outra parte era por ser considerada a mulher mais temida da cidade, quem sabe do país. Responsável pelo assassino de devedores e inimigos de Basílio, muitas vezes matava homens, mulheres, e até mesmo crianças -geralmente quando as sequestravas em forma de aviso- sem demostrar nenhuma piedade. Seu cabelo curto manchado de sangue era a marca presente em todos as caricaturas que faziam de si.

Uma figura tão destemida não podia ser vista aos prantos. A dama escondeu seus medos, em passos firmes e seguros foi andando em direção à sala do médico. Ao passar pela janela ficou exposta ao povo, que não economizou seus gritos pela mulher, e isso a deixou um pouco mais confiante até chegar na porta do quarto do marido.

–Onde está Eloah? Quero que minha esposa seja a primeira mulher que eu verei - o tom sempre firme e intimidador de Basílio deixou os médicos que estavam na sala assustados.

Toda sua insegurança voltou a tona quando ouviu a voz de Basílio. E se o homem não a achasse bonita suficiente para si? Se não achasse seu corpo atraente? Se desaprovasse seus seios, cinturas, e principalmente seu pênis? A mulher estava assustada, pronta pra sair correndo, mas um médico a viu, e a puxou para dentro do quarto antes que pudesse ter alguma reação.

Jamais se perdoaria se desse ao seu marido uma primeira impressão de ser uma mulher fraca. Conseguiu mudar seu estado tão rápido que surpreendeu até a si mesmo, mas nenhuma reação foi tão chamativa quanto de Basílio. Seu corpo ainda não tinha se acostumado com a volta da visão, seus sentidos estavam precários e confusos, tanto que quando tentou se levantar e correr até sua esposa foi direto ao chão.

Ninguém teve coragem de tocar um dedo no senhor, com exceção claro, de sua esposa, que o ajudou a se levantar.

–Sempre soube que era bonita, mas não tanto assim – Basílio tocava no rosto da mulher como sempre fazia pra reconhecê-la, querendo ter certeza que aquela moça tão linda era realmente sua.

–Fico feliz que tenha me achado tão bonita assim.

–Linda - o homem corrigiu, Eloah não conseguiu segurar seu sorriso, que só o deixou ainda mais apaixonado - Depois de tantos anos estou finalmente podendo apreciar seu rosto.

Também era a primeira vez que Eloah percebia como os olhos de Basílio eram castanhos, e mesmo sabendo das barbaridades que seu marido fazia todos os dias, e que agora só piorariam, viu em suas orbes uma certa segurança. A fazendo pensar que talvez não deveria ter se preocupado tanto.

Aquele casamento havia sido de longe a melhor coisa que tinha feito, todo sangue derramado havia válido a pena.


A mulher vinda de uma família de feirantes cresceu ouvindo contos sobre Basílio. Sua autoridade mesmo com sua deficiência a fazia admirá-lo de forma excessiva, porém apenas longe, já que era proibida de sair da casa, pois como sua doce mãe sempre dizia "uma aberração dessas tem que ficar escondida entre quatro paredes."

Eloah não nasceu deformada, ou teve um comportamento estranho que fosse motivo de preocupação. Durante seus primeiros anos de vida sua família tinha o pensamento de que era um menino, os traços femininos, cabelos longos e ausência de pelo eram apenas detalhes questionáveis. O real problemas foi quando seu corpo começou a se desenvolver.

Primeiro que as mudanças corporais chegaram mais cedo do que de costume. Seus belos seios de da inveja cresceram aos onze anos, foram apertados com faixas pra impedir que se desenvolvesse mais, causando uma dor inesquecível para Eloah. Por sorte isso não estragou nenhuma parte de si. As curvas corporais delicadas e provocantes chegaram aos doze, estas causaram tanto repudio na mãe que por muitos meses a dama se vestiu apenas com farrapos pra conseguir esconder toda sua beleza. Até com seu cabelo havia problemas, ele era cortado frequentemente, por conta disso até quando atingiu a fase adulta a dama nunca deixou seus fios passarem dos ombros.

O motivo de tamanho desprezo pela sua filha envolvia o pai de Eloah, que jamais disfarçava os olhares maliciosos sobre sua primogênita. A mãe sentia ciúmes de ter que dividir atenção de seu homem, que por sua vez não economizou horas se masturbando no banheiro pensando na filha, porém nunca chegou a tocá-la de verdade. A garota não merecia um novo trauma além de todos que já estava enfrentando.

Existia sua religião também, todo seu conservadorismo não aceitava a ideia de um ser como aquele convivendo em sua família.

Mesmo sendo chamada todos os dias de aberração, Eloah se recusava a aceitar o rótulo. Lia e relia a Bíblia várias vezes tentando entender sua situação, passava dias gastando seus joelhos, ajoelhada em orações fazendo diversas perguntas a Deus sem nunca obter uma resposta. A procura pelo divino era a única opção que tinha, pois não tinha acesso nenhum a qualquer outra informação, e nem podia buscar já que o único lugar que era autorizada a ir era um bosque atrás da casa.

"Talvez o senhor não tinha certeza de qual seria sua melhor forma, então decidiu dar as duas." Foi a explicação do padre, o único da cidade que sabia e tentava ajudar Eloah. “Lembre-se que seu nome significa divino.”

A garota mantinha uma boa relação com o padre, que vez ou outra a visitava pra fazer consultas. Sempre estranhou as consultas que recebia, o homem sempre a mandava tirar a roupa, que era algo que fazia sentido pois tudo se tratava de seu corpo, contudo os toques maliciosos entregavam as óbvias segundas intenções que existia por trás daqueles encontros. Jamais iria conseguir compreender os métodos do padre, a primeira vez que gozou nas mãos do reverendo ou quando o mesmo enfiou seu membro em sua boca foram momentos em que Eloah ficou com um belo ponto de interrogação em sua mente.

Porém acima de tudo, a dama jamais perdera contato com o mestre da igreja, tanto que fez questão que a cirurgia do marido fosse benzida pelo homem.

Sua família tinha como base de ideais religiosos, e Eloah falhou em evitar o pecado de nutrir ódio pelos outros. Odiava todos na casa com exceção de si mesma. Quando tomava banho e observava seu corpo no espelho não se via como um monstro, e sim como uma evolução de sua espécie, pois conseguia ser esplêndido nos dois sexos. Odiava seus pais por não aceitarem sua visão, e por tentarem mudá-la constantemente.

A pessoa por quem mais destilava raiva era pela pessoa mais doce da casa, sua irmã mais nova. Ana Lena era uma menina comum, sem nenhuma diferença cromossômica, com apenas um sexo definido e um corpo de acordo com sua idade, aos olhos da irmã mais velha, era uma criança bem sem graça.

Mas seu ódio não vinha por conta da forma tediosa da garota, e sim por todo tratamento que ela recebia. Enquanto Eloah dormia em fêmur, comia restos e era ofendida diariamente, Ana Lena tinha a melhor área da casa ao seu dispor, suas refeições eram praticamente banquetes levando em consideração sua pobreza e era chamada de esperança da família. Por mais difícil que fosse Elaoh nunca demonstrou o verdadeiro desprezo que sentia pela caçula, fingia ser sua amiga, e sempre pedia para ela contar como era a realidade fora da casa.

Suas histórias eram as únicas coisas que não deixava a menina inútil, foi por ela que soube da notícia que mudaria toda sua vida.

Um acidente na estrada da cidade havia acontecido, até aí nada realmente surpreendente, a falta de estrutura era tanta que alguém se acidentando por ali tinha virado algo extremamente comum. A única diferença era que não foi um simples comerciante a se machucar, e sim Basílio, o que era suficiente pra fazer a cidade entrar em colapso por conta da preocupação.

O homem saiu ileso, mas não se pôde dizer o mesmo sobre sua primeira esposa, que teve uma morte instantânea. Eloah nunca conseguiu entender o que realmente tinha acontecido com ela, mas não se importou, sempre recebia notícias pela metade por incompetência da irmã.

Um grande velório foi organizado em homenagem a mulher. De sua janela observou luzes fortes de milhares de velas. O evento era tão grande que a garota imaginava a dor forte que o coronel estava passando para lidar com sua perda. Porém estava totalmente enganada, com um luto que não chegou a durar um mês, Basílio anunciou a população que estava a procura de uma nova noiva.

Suas exigências não eram muito diferentes do que as de costume. A mulher precisava ter uma boa aparência, deveria ser saudável e não poderia possuir nenhuma deficiência (tendo em vista que teria que ajudar o marido), e teria que está disposta a ser uma boa companheira. Comum, a única coisa estranha era a faixa etária das moças, elas precisavam ter menos que dezessete anos, nenhuma idade mínima foi divulgada.

O fator da idade não foi um problema pra sua família já que havia uma bela garota treze anos morando ali, Ana Lena. Como esperado, seus pais pensaram em apresenta-la ao homem. Seria uma grande oportunidade para menina, viveria em uma casa rica e ainda poderia ajudar a família. Enquanto Eloah continuaria sendo esquecida.

–Posso conhecê-lo também? – perguntou sem muita esperança na resposta que receberia.

–Não seja patética, trate de esconder sua existência quando estiverem aqui.

Sua mãe foi franca, mas diferente das outras vezes que ouvia palavras de ódio, Eloah não pretendia passar o dia chorando se lamentando, pela primeira vez iria agir.

–Irmã, amanhã eu vou precisar me levantar cedo. Por favor, vamos voltar - a menina apertava forte a mão da mais velha. Ana Lena estava assustada, desviando das árvores com medo que qualquer animal a tocasse.

–Não se preocupe, você está nervosa não é? Estou fazendo isso pra lhe acalmar.

Era de madrugada, véspera do dia que Basílio ia visitar sua casa, e as duas irmãs estavam caminhando no bosque. Eloah nem um pouco preocupada, conhecia aquele lugar com a palma de sua mão, na verdade estava se sentindo ansiosa.

–Chegamos - anunciou.

–Um rio? O que tem de tão especial nisso?

–Não questione. Nós vamos entrar, não precisa tirar a roupa.

Ana Lena estava confusa. Não sabia como a água fria e a correnteza forte de um rio poluído poderia lhe fazer bem de alguma forma. Só continuou obedecendo às ordens pelo amor e confiança que sentia pela irmã. Sempre viu Eloah como uma imagem a ser admirada, e jamais pensou que alguma vez a garota pensou em lhe fazer mal. Bela inocência infantil, alguém com uma mente tão ingênua como aquela não poderia iniciar uma vida adulta. Eloah pensou em Basílio, o homem não merecia uma esposa tão ruim daquele jeito, outro motivo pra acabar de vez com Ana Lena.

Área que estavam era funda e isolada, Eloah não estava dentro d'Água, mas segurava forte a mais nova pelos braços para que não afundasse, enquanto ouvia repetidamente a pergunta "por que você não entra comigo?"

–Vamos dar um mergulho? - Eloah propôs, e a menina balançou a cabeça dizendo não.

O pânico estampado em seu rosto com as tentativas desesperadas de tentar sair da água eram exatamente o estado que queria deixar a irmã. Gostaria que os seus últimos momentos fosses agoniantes, e já que tinha conseguido isso, já podia acabar com aquilo; a afogando.

Mergulhou o corpo da menor pela primeira vez, e fez isso algumas vezes, até que tirou suas mãos dos ombros de Ana Lena, e colocou em seu pescoço, apertando forte. A menor sentiu a falta de ar, que só piorou quando voltou a água. A menina se debatia, balança seus braços desesperados acompanhado com as milhares de bolhas que soltava.

Observar seu corpo imóvel boiando na água suja foi satisfatório por tudo que representava. Todas as comparações, vezes que foi rebaixada, desprezada e ignorada, tudo isso concentrado em uma única pessoa na água. Sorriu. Se a soltasse a correnteza a levaria embora, não era forte como um rio mas naquela noite suas mãos estavam firmes pra não ter preocupações. Prepararia pedras pra encher as roupas de Ana Lena, pedras esconderiam o que podiam.

De volta pra casa, seus pais continuavam dormindo da mesma forma que antes. Para si, no rio só tinha se passado minutos, mas haviam ficado lá quase duas horas. O tempo passava rápido quando fazia algo prazeroso, no caso era matar sua irmã. Significava que Eloah estava atrasada em seus preparos, ela precisava ficar linda pra quando o Basílio chegasse.


Os cabelos curtos continuaram com o mesmo penteado que costumava a usar. O vestido que antes serviria pra Ana Lena se encaixou perfeitamente nas curvas de Eloah, um pouco curto a deixando um tanto quanto provocante, mas nada vulgar pros padrões de sua família. Além de todo seu corpo, o que mais chamava atenção era com certeza o seu rosto, que estava pintado com cores claras.

Nunca antes em toda sua vida tinha usado ‘’tintas’’ na face. Sempre tivera medo que sua mãe a visse daquele jeito e lhe desse algum castigo, mas se olhando no espelho, se sentia imensamente arrependida. Era uma beleza tão grande que chegava a ser injusto com o mundo não dividir aquela visão.

Sentia-se hipnotizada pelo próprio reflexo, tanto que não notou quando a porta foi aberta, e só percebeu a presença da mãe no quarto a mesma segurou seu rosto e lhe desferiu um tapa. A mulher estava a procura de Ana Lena, afinal era o quarto dela, pretendia buscar a menina para arrumá-la pro coronel, não encontrar a filha que já deveria ter sacrificado anos atrás.

Encontrar aquele monstro - era assim que a chamava- era suficiente para deixar a mãe com raiva logo pela manhã.

–Isso é uma tentativa de parecer uma garota normal? - a mulher segurava o rosto da filha, com uma força que deixava a pele de Eloah avermelhada - Volte pros seus trapos, continua ridícula da mesma forma.

–Se me tocar mais uma vez, eu juro que você nunca mais verá Ana Lena de novo.

A mãe tomada pela raiva não notou o sumiço da filha, e assim que percebeu soltou Eloah. Por sempre ver o pior da primogênita, nunca duvidou que ela fosse capaz de fazer algum mal com sua caçula.

–O que você fez com ela? - era a primeira vez que via sua mãe em desespero, além das suas orações malditas pedindo por uma filha normal.

Se falasse que Ana Lena estava morta, ninguém pouparia asu vida. Seria considerada uma aberração completa, pois além do seu corpo podre também teria uma alma despedaçada. Ao dar esperança aos pais que a menor estava bem poderia chantageá-los de várias formas.

–Não importa, mas se um de vocês não me obedecer, podem dar adeus a ela. - falava também se referindo ao seu pai, que observava na porta tudo calado.

O homem bêbado não era um real problema, pois não fazia nada além de ficar chocado com as vestimentas de Eloah. Assim como qualquer mortal, ficou encantado pela beleza extraordinária da garota.

–Quais são suas intenções com isso?

–Conhecer meu marido.

Não conseguia acreditar no que ouvia, a mãe precisou cravar suas unhas em seus braços pra se segurar e não estrangular Eloah.

–Quer acabar com a pouca dignidade que resta nessa família? Tentar enganar Basílio é a mesma coisa que assinar sua morte. Se for para morrer, dê pelo menos um prazer pra sua pobre mãe, e me deixe te sufocar com minhas próprias mãos.

O medo de não ser aceita era algo presente nos pensamentos de Eloah desde a primeira ideia de fugir, então não se preocupou com isso dessa vez.

Eloah era muito mais do que simples órgãos que estavam no meio de suas pernas, tinha bem mais pra conseguir conquistar alguém.

–Não estou indo pra morte, como disse, estou indo conhecer meu marido.

Sem se importar com as ameaças que lhe diziam, a garota voltou a se arrumar.

O veículo que parou na frente da casa era algo tão luxuosa que Eloah nem mesmo sabia o nome, muito menos já tinha imaginado entrar. Era puxado por cavalos que pareciam mais nutridos do que a si própria, e os homens que saíram eram diferentes do que qualquer pessoa que já tinha visto. Pobreza não refletia neles.

Diferente do que todos esperavam, não foi preciso recebê-los. Os homens abriram a porta, entraram sem pedir qualquer tipo de licença ou apresentação, Basílio no meio deles, com seu timbre firme foi direto: Estou a procura de Ana Lena, treze anos, disposta a ser minha noiva.

Nos primeiros segundos a voz parecia ter sumido de sua garganta. O Basílio de sua imaginação não era nem um pouco intimidador perto do real, a pistola presa em seu cinto também a assustava. Só reuniu a coragem para falar porque jamais se perdoaria se mostrasse fraqueza na frente da mãe.

–Antes de tudo gostaria de pedir perdão. Meu pai é um velho alcoólatra, confundiu o nome de sua filhas, disse o nome da filha falecida no lugar do meu.

Mesmo sendo verdade a parte do "falecida", só usou a tal palavra como forma de provocação.

–Diga seu nome, e sua idade. - Os olhos do coronel eram um grande vazio esbranquiçados, sem qualquer vida. Tê-los em sua direção era apavorante, mas por significar uma possível liberdade Eloah foi capaz de ver charme naquelas orbes vagas.

–Eloah, quinze anos.

–É bonita? – Basílio perguntou a um homem que estava ao seu lado, parecia ser de confiança pois foi ele quem estava o guiando.

–É linda... Creio que é a mais bonita de todas que já visitamos - as palavras do homem encheram a garota de confiança - Por que nunca lhe vi pela cidade?

–Minhas atividades são feitas em casa.

O fato de não ser conhecida era algo suspeito Saber de sua aparência pareceu ser suficiente ao coronel, que se aproximou de Eloah. A garota prontamente segurou seu braço, e o levou até o sofá mofado de sua casa. Basílio esperava que sua nova pretendente se sentasse ao seu lado, mas não havia espaço. Sem se preocupar em ser empurrada, Eloah se sentou no colo do homem, conseguindo ver um sorriso no rosto do mais velho, e uma pequena oração vinda de sua mãe.

–Será que é tão bela assim quanto dizem?

–Não sei - levou uma das mãos de Basílio até seu rosto, que alisou e analisou seus traços - O que acha?

–Talvez realmente seja.

Além dos seus atos que podiam ser considerados ousados, Basílio sentia que a garota sentada no seu colo possuía uma inocência diferente. Nada lembrava das prostitutas que encontrava na sua juventude, ou das crianças anteriores que tinha visitado, era diferente do que sua vivência já tinha proporcionado.

A conversa não ocorreu de uma forma muito diferente, no entanto era inevitável dizer que não era uma cena desconcertante. O coronel era um homem grande, seu estilo de vida tinha deixado sequelas irreversíveis em sua aparência, enquanto Eloah estava mais adorável do que nunca. Era perturbador a imagem oposta que tinham, mostrava tudo que a jovem teria que passar. Porém quem teria coragem de apontar o dedo e dizer a falta de ética naquilo?

–Sinto a presença de duas pessoas que não conheço, deve ser seus pais, não ouvir eles falarem uma palavra sequer. - a falta de visão não fazia com que Basílio analisasse menos o ambiente. Geralmente percebia muito mais, mas a garota que tinha a mão apoiada em sua coxa estava tirando sua atenção.

–Eles ficaram muito calados desde a morte de Ana Lena. Não vamos deixar que o luto deles nos atrapalhe, não somos culpados pela idiotice de minha irmã.

O desrespeito era gigante, isso era tão suspeito. Basílio estava cada vez mais encantado e desconfiado se sua futura noiva.

O tempo que passou na casa foi bem maior do que imaginava. Precisava resolver seus outros problemas, e ainda tinha que visitar outras meninas. Estas foram totalmente esquecidas, depois de Eloah, o coronel não se sentia disposto a conhecer ninguém mais.

Receber a notícia que já iria embora deixou Eloah preocupada. Não tinha pensado no que faria quando voltasse a ficar sozinha, sua mãe com certeza não estaria fácil de lidar, e ainda teria que trazer a irmã supostamente viva de volta, como pensar numa solução quando havia a possibilidade de ser morta pela ira de sua progenitora. Não podia deixar Basílio ir embora, pelo menos não sem levá-la junta.

–Por que não me leva agora? - a coragem de dizer o que quisesse com os pais não se repetia com Basílio. Sua vontade era de tomar sua frente e ir consigo sem permissão, mas não tinha a garantia de que isso não resultaria em um fuzilamento.

–O que a faz pensar que será a escolhida? - uma risada baixa de sua mãe foi ouvida ao fundo.

–Porque você merece uma esposa que seja a sua altura. E eu posso ser essa mulher.

Sua escolha certa nas palavras foi o que a salvou de um resto de vida miserável. Basílio segurou Eloah pelo braço, a jogando dentro de seu veículo onde foram juntos até sua luxuosa fazenda.

Nenhum dos funcionários que trabalhavam no lugar esperava que uma garota chegasse tão rápido, e a surpresa não fez com que poupassem Eloah de todos os cuidados de rainha que a garota sempre soube que merecia. Sua única hesitação foi na hora do banho, não deixou que nenhuma criada a banhasse. Esse hábito foi algo que se prolongou até sua vida adulta.

Viver em um lugar tão rico e diferente do que estava acostumado era um sonho, aproveitaria o máximo se não houvesse a preocupação com seus pais. Com certeza estavam esperando por Ana Lena, e procurariam por si caso demorasse mais.

Procurou pelo homem de confiança de Basílio, que descobriu ser seu ajudante pessoal, o mesmo que a elogiou na visita. Com um choro falso, desespero atuado, e um pouco de sedução em toques excessivos, Eloah fez um pedido ao homem; "Preciso dos meus pais mortos". A história que inventou como desculpa foi parecida com a verdadeira, seus pais a odiavam por conta de sua aparência, e destruiriam sua vida caso não agisse. O homem a quem recorreu ajuda se comoveu mais do que o normal, no dia seguinte, Eloah recebeu a notícia que seus pais foram encontrados mortos em casa.

Foi muita ingenuidade por parte da loira acreditar que Basílio não descobriria. Era surpreendente o coronel não saber sobre sua existência até poucos dias atrás, pois tudo que acontecia na cidade passava pelos seus ouvidos. Não demorou nem um dia pra Basílio descobrir do caso, e ir tratar do assunto com Eloah.

Os pressentimentos da garota eram os piores possíveis. Sua cabeça já planejava planos pra quando fosse jogada na rua, poderia ir morar com o padre que tanto admirava seu corpo, ou viraria prostituta enquanto não conseguisse um lugar para ficar. Porém como se as coisas começassem a dar certo, Basílio não ficou com raiva, o homem na verdade ficou impressionado com tanta frieza.

–Alguém tão forte assim é o que eu preciso pra ser minha esposa. – Basílio disse enquanto segurava as mãos tremendo de Eloah.

A realidade era que já pretendia assassinar a família da garota que escolhesse, não queria uma esposa presa a parentescos. Ter uma que conseguia matar os mesmos era perfeita para si. Não era atoa que meses mais tarde Eloah virou responsável pela fazenda e promoveu vários assassinatos.

Diferente da ideia que sua mãe tinha colocado em sua cabeça. Viver com um homem não foi um inferno, seu marido não usava violência e muito menos a tratava mal. Eram um casal perfeito, com exceção das vezes que transavam. Em todas as vezes Eloah fez Basílio beber, o que não era difícil já que o homem era um completo viciado, deixando-o tão bêbado que não percebia a existência de um pênis entre suas pernas. A única dificuldade era nas vezes que precisava esconder seu membro, que tornava a situação dolorosa.

Ter seu membro espremido em roupas íntimas apertadas não fazia com que Eloah fosse uma mulher sexualmente frustrada. Até porque se seu marido não a deixasse satisfeita, existia uma senzala cheia de escravos que não se importavam com nenhum detalhe sei, além da igreja com seu tão querido padre.

A dama sempre acreditou que seu casamento seria eterno. Porém agora Basílio tinha voltado a enxergar.

A multidão de desocupados que ocupavam a área na frente do hospital foi expulsa pelos guardas de Basílio, que dispararam tiros para o alto suficientes para fazer todos correrem. O homem ainda possuía dificuldades pra andar, e Eloah não negava seu braço pra que ele se ele pudesse se apoiar. O casal estava se direcionando a saída, quando alguém os chamou.

–Senhor? Gostaria de parabenizá-lo pelo sucesso de sua cirurgia.

–Reverendo Carvalho - o padre ergueu sua mão, e Basílio a beijou, a forma que as autoridades religiosas eram tratadas - Eu que o agradeço, sem você e o poder divino eu não conseguiria melhorar.

–Que Deus abençoe essa sua nova fase. E senhora - o padre se virou a Eloah, e assim como o marido também beijou sua mão - Imagino sua animação com o coronel, mas não deixe que isso interfira suas idas a igreja, e principalmente os confessionários.

A malícia na frase só pôde ser percebida por Eloah. A dama assentiu, com certeza não deixaria de frequentar a minúscula área de madeira onde confessava, e criava novos pecados.

O casal se despediu, e foram embora em direção ao centro da cidade. As ruas terríveis com um povo pior ainda era algo que entediava Eloah. A mulher via quase que diariamente aqueles bairros, e mesmo que Basílio também visitasse, o homem observava tudo com uma concentração absurda, procurando detalhes como o número de pelos dos ratos escondidos nas frutas, e das manchas de peste dos feirantes. Em algumas vezes Eloah teve que orientá-lo a fazer coisas como não olhar pro céu pra não perturbar seus olhos.

–Esse lugar continua o mesmo lixo de vinte anos atrás.

Assistir a miséria não era uma das coisas mais emocionantes. O coronel trocou a visão da janela pra encarar sua esposa, a devorando em cada canto que seus olhos chegavam. Ignorou estarem em uma carruagem acompanhado de um cocheiro, Basílio rasgou parte do vestido da mulher pra ver mais sua pele, e a teria deixado nua se não tivesse chegado em casa.

Sua fazenda ainda era maior do que se lembrava. Nem conseguia imaginar a complexidade dos diversos processos que aconteciam ali. Sabia que isso era coisa de Eloah, que ministrava do seu patrimônio como ninguém, por isso não se preocupou em analisar se havia algum problema acontecendo. Direcionou sua atenção a imensa senzala afastada da casa principal.

O lugar tinha sua maior parte ocupada por materiais e grãos, e minoria era o lugar onde os escravos ficavam. Apertados e sem nenhuma condição decente, era assim que dezenas de homens e mulheres viviam.

–Querida? - chamou por Eloah - Busque o melhor chicote que temos, e amarre algum escravo no tronco. Algum rebelde.

Prontamente Eloah pegou um chicote com um dos trabalhares que estavam próximos. Chicoteou o chão algumas vezes tendo certeza que aquele couro seria capaz de rasgar uma pele, e entregou ao marido.

Não havia escravos rebeldes. No passado existiram alguns que respondiam e se negavam a realizar suas tarefas, foram mortos da forma mais brutal que a criatividade de Eloah conseguiria pensar. Isso serviu de exemplo pros outros, que além de serem mais educados também não queriam dormir com o cheiro de corpo necrosando, afinal os cadáveres eram jogados na senzala.

A dama não sentiria remorso em escolher um inocente ao sofrimento, não era porque eles lhe causavam alguns orgasmos que iria tratá-los como humanos. Porém ignorou os homens enfileirados, e buscou pelos braços uma mulher que cuidava do seu bebê despreocupadamente. A escrava olhou surpresa, deixou seu bebê sobre o feno onde estavam sentadas, e acompanhou Eloah até fora da senzala.

-Amarrem-na no tronco. - ordenou, e os homens em volta obedeceram instantaneamente.

A escrava começou a gritar afirmando que não tinha feito nada, gritos ninguém a ouviu, muito menos Basílio, se sua esposa tinha escolhido ela era porque havia algum motivo, não questionaria, só queria se divertir. A blusa da mulher foi rasgada pra deixar sua pele exposta, seus seios roçavam na Madeira. Ainda não tinha sido acertada, mas o medo já tinha sido suficiente pra fazê-la chorar. Do que adiantou ser uma serviçal tão boa, se isso não fez com que escapasse da irá de Eloah?

O coronel apertou o couro, e chicoteou a costa da escrava, que de primeira já conseguiu cortar sua pele. Fazia muitos anos que não fazia aquilo, em sua lógica não existia graça se não pudesse assistir ao sofrimento alheio, e aquela mulher com certeza sofria, seus gritos provavam isso. Basílio continuava sendo um dos mais fortes, e por conta dessa força não demoraria muito até não sobrar parte inteira da mulher.

A dama observava a cena com prazer. Adorava ver o sofrimento feminino simplesmente porque odiava todas as mulheres do mundo. As odiava porque sabia que nunca seria tratada como elas, enquanto todas eram normais Eloah era dita somente como um erro.

Pelo menos podia aliviar seu ódio através do seu poder.

Algo era óbvio, Eloah não tinha como fugir do seu marido durante a noite. Nas manhãs poderia inventar mil motivos pra ficarem longe um do outro, com trabalhos e compromissos, porém quando o dia acabava, toda atenção da loira tinha que ser destinada a Basílio.

Logo na primeira noite o homem tentou tocar sua esposa. Não se preocupou se estavam cansados, ou se Eloah não sentia bem, Basílio necessitava de sua mulher, que só conseguiu se livrar de transar naquele dia porque afirmou que não se sentia a vontade expor seu marido ao sangue dos seus dias inférteis.

Não deixou que Basílio ficasse sem nada. Sexo oral virou a prática mais frequente entre o casal, o homem tinha acesso a quase todo o corpo da esposa, várias vezes chupava e gozava entre seus seios. Não podia dizer que não se satisfazia, mas se sentia frustrado por não ter o que realmente desejava. Diferente de Eloah, o coronel não era infiel, a única pessoa que queria era a mulher, que já estava duas semanas o afastando. Porém não deixaria que nem mais um dia passasse.

Duas facas cruzadas decoravam a parede ao lado da cômoda da mulher. O tamanho eram grande e o formato se assemelhava a de uma faca de cortar carne, porém com uso totalmente opostos. Aquelas facas eram armas, mas que no momento estavam servindo de espelho. Eloah as usava pra ver seu reflexo na retirada se sua maquiagem pra dormir.

A lâmina não era grande suficiente pra ter uma visão completa do quarto, por conta disso não conseguiu perceber quando seu marido entrou no quarto, e a abraçou por trás.

–Vai me dar o que eu quero hoje? - seus lábios passaram pelo pescoço de Eloah, enquanto ia deslizando o vestido da mesma pra fora do seu corpo. Os atos eram um tanto grosseiros, mostravam sua ansiedade.

A mulher tentava controlar seu nervosismo, conseguindo fazer isso bem. Deixava Basílio admirar e alisar seu corpo sem parece que estava pegando fogo por dentro.

–Quer alguma bebida?

–Não posso, meus remédios não fazem efeito misturados ao álcool – Basílio apertou um pouco mais forte do que deveria a cintura de Eloah, demonstrando raiva em sua fala. A parada repentina com suas bebidas estava causando uma abstinência terrível em si, era mais estresse do que podia suportar sozinho, por sorte tinha sua esposa para lhe acalmar. Para mulher era só um motivo a mais pra odiar aqueles xaropes - Mas eu também não quero beber, essa noite quero está mais sóbrio do que nunca.

Os óleos que antes Eloah usava foram ao chão, Basílio empurrou tudo que ocupava lugar pra ter espaço suficiente para prensar o corpo de sua mulher contra a cômoda. Geralmente não era violento com ela, mas sua necessidade acompanhado com seu gemido de dor parecia um estimulante.

–Vá com calma, por favor - seu corpo estava imóvel, Basílio a segurava pelos pulsos. Eloah sempre se considerou uma mulher grande, mas parecia minúscula com o corpo do marido em cima do seu. - Apague a luz pelo menos...

–Por que está com tanto medo de mim? Já fizemos isso tantas vezes... - o coronel rasgou o sutiã de Eloah, que foi ao chão de forma tão insignificante que nem percebeu, o lugar que antes era apertado pelo tecido recebeu os beijos árduos de Eloah - E jamais pensei que teria que lhe obrigar. Infelizmente preciso disso.

Pensamentos embaralhados e estresse juntos não formavam uma cabeça saudável. Desde que o mundo se fez claro de novo para si, Basílio sentia uma enorme confusão dentro do seu corpo. O coronel havia sido o primeiro homem a uma cirurgia experimental, remédios fortes demais pra um acompanhamento inexistente, toda volta de seus olhos sangravam e coçavam e a destruição dos seus órgãos internos mexiam consigo. Sua visão voltou mas continuava cego, pareceria que a única coisa que enxergava era o desespero que sua perturbação projetava. Basílio só via uma forma de se sentir melhor, fazendo sua coisa favorita que era adorar sua deusa.

Adorar Eloah.

Para dama, os atos seguintes se passaram em câmera lenta. Basílio alisava seu tronco, assim como fez com sutiã pretendia dar o mesmo fim a sua calcinha, assim que seus dedos penetraram sua roupa íntima o homem sentiu algo diferente do que esperava, puxando sua mão no mesmo segundo e também se afastando de Eloah.

–Por favor... Apague a luz, vamos fazer o quê você quiser mas deixe as velas apagadas. - a mulher chorava. Tentou se aproximar de Basílio, mas foi impedida e empurrada na parede.

–Meus remédios estão me deixando louco querida. Já estou vendo coisas erradas agora, imagine na escuridão. - ele falava rindo o que só assustava ainda mais a dama - Pode tirar o resto de sua roupa, não quero me enganar...

A mulher estava pronta pra protestar, usar desculpas de vergonha, mas assim que abriu a boca Basílio lhe lançou um olhar que acabou com todos seus argumentos. Não tinha muito com que enrolar, já estava praticamente toda exposta. Respirou fundo e segurou sua vontade de fechar os olhos, lentamente foi retirando sua última peça, deixando finalmente seu pênis a mostra.

De todas as milhares de reações que imaginou pra quando o marido descobrisse seu segredo, o que aconteceu foi totalmente diferente do esperado. Basílio caiu no chão, de joelhos apoiado pelos braços, e vomitou. Seu corpo não conseguiu aguentar a surpresa, e teve como reação colocar tudo pra fora.

A dor de Eloah começou ao ver o marido sentindo nojo de si, não podia acreditar que Basílio estava naquele estado apenas por vê-la. O desgosto das pessoas era com certeza o sentimento que a mulher mais detestava. Repulsa era algo muito forte, depois da morte dos seus pais Eloah prometeu que ninguém mais sentiria isso sobre si, doía saber que essa promessa havia sido quebrada por quem mais amava.

Algumas horas depois Eloah percebeu que o tempo que o homem ficou jogado no chão era sua chance de fugir, e se arrependeu amargamente de ter desperdiçado essa chance pra ajudá-lo a se levantar. A mulher não se importou com a sujeira, se abaixou ao lado do marido lhe oferecendo ajuda, porém ao invés de segurar sua mão, Basílio segurou seu pescoço.

As posições mudaram muito rapidamente. Basílio praticamente pulou em cima da mulher, ficando por cima de si sem diminuir o aperto em seu pescoço. Aquela situação lembrou muito o dia que afogou Ana Lena no rio, e isso fez com que a situação só ficasse ainda mais humilhante.

–Você se lembra do meu ex ajudante? - a mulher confirmou com a cabeça - Ele um dia me confessou que tinha transado com você. Eu não sou idiota Eloah, sabia que tinha algo errado, porém ele me disse que você tinha o corpo mais lindo que ele já tinha tocado, até me irritou a forma como ele falou de sua vagina, eu acreditei nele, mesmo depois quando estourei a cabeça ele com um tiro eu acreditei. Mas acreditei principalmente em você, como que você pode ter me enganado todos esses anos?

O ajudante não tinha nem um pouco de importância para Eloah, nem mesmo lembrava o motivo de terem ido pra cama. Quando ele sumiu, a mulher supôs que havia sido demitido, mas agora notava que sem ele seu casamento com Basílio possivelmente duraria bem menos.

Era algo confuso. Todos o aceitaram tão bem, por que Basílio também não podia ser assim?

–Eu nunca te enganei. - Eloah falava com sua voz trêmula - Em todos esses anos eu me esforcei pra ser a melhor esposa possível, porque eu te amo.

O homem foi afrouxando suas mãos, o rosto de Eloah já estava quase azul pela falta de ar, e largou a mulher se afastando. Por um segundo a mulher pensou que suas palavras teriam tranquilizado Basílio, se o homem não tivesse gritado.

–EU TENHO VERGONHA DE UM DIA JÁ TER AMADO VOCÊ! - seu grito foi alto que os criados que estavam um andar a baixo se assustaram. Infelizmente nenhum teria a coragem de interferir naquela briga.

Todo corpo de Basílio estava sendo consumindo por raiva. Descontava sua fúria nos móveis do quarto, que estavam sendo chutados e quebrados em várias partes possíveis, porém estavam sendo todos em vão. Nada conseguiria fazer o homem se acalmar.

–Me diz - voltou a falar - O que você faria caso eu nunca descobrisse? Continuaria mentindo fingindo que não é apenas um travesti asqueroso?

De todas as coisas que já havia sido chamada, nada se comparou aquela ofensa. Pretendia ficar calada pra evitar que a situação piorasse, mas isso virou uma tarefa impossível.

–O fato de eu ser diferente nunca foi um problema pra você - Eloah se recusava em usar a palavra homem - Quando eu cuidava de você quando chegava ferido, quando eu te fazia ter mais de cinco orgasmos em uma noite, até quando você rebolou em cima de mim, nunca foi um problema.

Não tinha inventado aquela história apenas pra enfurecer Basílio, até porque não ganharia nada com isso. O fato realmente tinha acontecido, o homem estava mais bêbado do que o normal, e agindo de forma estranha como se tivesse pedindo pra que Eloah o fodesse. Nunca antes a mulher tinha exercido o papel de ativa em uma relação, então decidiu experimentar. Não gostou tanto quanto das vezes que era passiva, mas não podia dizer o mesmo de Basílio. Que não apenas conduziu seu membro até sua entrada, como também cavalgou várias vezes. O homem não recebeu preparo, Eloah não sabia como era o jeito certo de fazer, mas no dia seguinte não sentiu dor ou se sentiu estranho. Até então nunca tinha estranhado aquela situação.

Saber que tinha sido violado por Eloah não deixou apenas surpreso, como também com mais raiva ainda. Basílio voltou a se aproximar da mulher, que estava do jeito que tinha deixado; deitada no chão. Com a mão direita segurou os cabelos da esposa, tão brutalmente que seu pescoço quase virou, e com a esquerda fechou os punhos, e acertou um soco certeiro no rosto angelical abaixo de si.

Basílio tinha descoberto que quebrar móveis não diminuiria sua raiva, espancar Eloah sim.

A pele de Eloah era como um papel em questão de fragilidade. A firmeza de sua personalidade não era a mesma de seus ossos No primeiro soco seu rosto já ficou avermelhado, e com o decorrer as cores foram mudando até chegar ao roxo. A força usada era tanta que uma hora ouviu um estalo, não tinha certeza se quebrara a arca dentária ou a mandíbula da mulher. Só sabia que pela quantidade absurda de sangue que estava cuspindo, o machucado estava grande. Não apenas seu rosto, quanto também seu couro cabeludo também sangrava pela força que seu fios eram puxados. O homem pretendia arrancar seu escalpo daquela forma.

Os seus punhos estavam mais vermelhos do que esperava. O rosto de Eloah já mostrando seus primeiros sinais de deformação. Basílio não pretendia parar, só fez pelas lágrimas excessivas da mulher que estavam incomodando.

–Eu prometo que esqueço isso - Eloah tinha dificuldades de falar, sua garganta ardia pelos seus gritos. Não conseguia abrir um dos olhos, estavam inchados e doendo, além dos dentes. Detestava ser submissa daquela forma, porém sua vontade de sobreviver era maior que seu orgulho. -Posso dar um jeito no meu corpo, só me deixe continuar sendo sua esposa.

–Desista, você nunca vai ser uma mulher de verdade.

As palavras eram tão iguais da sua mãe. Eloah até pôde ouvir a voz da mulher, e isso sabia o que fazer quando sua mãe fazia isso, ria, e a contrariava. Dessa vez não foi diferente.

–Sim, eu sou. Nada que você fale vai mudar.

Falar não era a intenção de Basílio. O homem queria tirar todo resquício que pudesse dar características femininas a Eloah, independente da dor que causaria, na verdade era isso que desejava. Voltou a Eloah, a observando com tanto desprezo que não quis por suas mãos em seu corpo. Decidiu usar os pés, Basílio aproveitou o fato da mulher está deitada de lado pra poder chutar e pisar em seus seios com mais facilidade, e também que causaria ainda mais angústia.

Antes de ir até a esposa naquela noite Basílio estava trabalhando, então entrou no quarto ainda com suas roupas pesadas, e um exemplo delas era suas botas de couro, firmes e grossas que estavam fazendo um bom serviço em ferir os peitos de Eloah. Eram arrastados no chão com tanta brutalidade que seu mamilos já não sangravam pois haviam sido arrancados. A mulher gritava, chorava e tentava se afastar mas tudo só resultava em mais sangue cobrindo seu corpo.

Alguns chutes foram um pouco abaixo, acertando suas costelas que ardiam como se fossem partir ao meio. O casal não duvidava que talvez elas partissem mesmo.

O corpo de Eloah, que tanto era admirado, agora parecia uma carcaça morta cheia de vermes, vermes por conta da tremedeira. A posição fetal era uma forma falha e patética de tentar se proteger, mesmo que não tivesse mais o que proteger. A única coisa que parecia ainda funcionar em seu corpo era suas pernas, mas que no momento não serviam pra nada pois não tinham forçar pra se erguer.

Basílio observava sua obra. Tinha completado seu objetivo, Eloah nada lembrava a um ser humano, porém pra sua própria surpresa ainda conseguia ver sua esposa naquela "carniça". Quanto mais sua consciência ia voltando ia percebendo que ainda poderia adorar sua deusa daquela forma, porém jamais admitiria isso.

O homem não percebia, mais quanto mais observava mais sua expressão ficava triste. Eloah não entendeu, ela era dilacerada e era ele que se sentia mal?

–Onde está a mulher com quem eu passei os últimos anos?

–Estou aqui. Sempre estive.

Estava quase desmaiando pela intensa agonia de ter seu corpo se despedaçando, só conseguia falar porque não daria a Basílio seu silêncio. Eloah refletia as explicações, abstinência de álcool causava violência, remédios fortes deturpavam a mente, novas realidades causavam enlouquecimento, podia usar todas essas desculpas pra explicar a monstruosidade de Basílio. Preferia acreditar em todas as possibilidades do que aceitar que o homem havia feito aquilo pelo fato de Eloah ter apenas uma característica diferente.

–Quem chegou agora...- deu uma pausa pra cuspir sangue, acompanhado de um dente - Foram esses malditos olhos.

Para surpresa da mulher, Basílio ficou paralisado, com seus olhos de forma arregalada. Eloah jamais entenderia do porque sua fala lhe causou tanto pânico. Mas o homem entendia muito bem. Anos atrás, em uma época que Eloah nem mesmo tinha nascido alguém lhe disse "Enquanto você enxergar nunca será feliz". Agora fazia sentido.

Basílio olhou em volta do quarto, e buscou pelas facas que no início da noite Eloah usava como espelho.

Procurou também uma pintura de sua esposa, não que fosse difícil, o quarto era repleto de caricaturas da moça. Fazia isso porque queria que sua última visão fosse a beleza descomunal da mulher, na teoria foi, de forma literal sua real última visão foi o metal se aproximando.

Ao ouvir o grito do seu marido, Eloah pensou que o homem havia cometido suicídio, por isso se virou para observá-lo, mas acabou tendo que assistir a cena de Basílio se cegando.

A faca era grande, só sua ponta poderia fazer o trabalho completo; rasgar. Mas não lhe parecia suficiente, então ele usou até a metade, retalhando.

A dor havia retardado sua noção de espaço, não podia afirmar nada, mas sabia que o metal atingiu diretamente sua pupila, destruindo além de sua córnea, sua íris castanha que até poucas horas Eloah tanto admirava. A faca foi estocada duas vezes em seu olho, de uma forma tão funda e totalmente letal pra sua pobre retina.

Quando fora retirada, o Globo vermelho e esmagado ainda estava preso ao nervo óptico - deformação essa possivelmente causada pela cirurgia – Basílio precisou puxar com força pra ser rompido. Toda aquela cena estava sendo marcada pela dor, mas Eloah imaginou que romper aquele "fio" foi o pior sentimento pois a mulher podia jurar que o grito foi mais intenso.

Toda violência que foi usada no seu olho esquerdo foi duplicado no direito. Talvez porque sua agonia já fosse tanta que ele não imaginasse que podia piorar. Sem se limitar em apenas pra frente e pra trás, Basílio retalhou seu globo também para os lados, chegando a cortar a pele, aumentando espaço pro sangue jorrar.

O único sentimento ruim em observar tudo foi que não foi Eloah que massacrou aqueles olhos. Aquele era seu maior desejo, mas vê-lo sendo puxado para fora também lhe foi prazeroso de certa forma.

Aquele seria o fim? Ambos morrendo por um ódio sem sentido? Qual era o motivo de tanto extermínio por um nada?

Eloah usou suas últimas forças pra ir se arrastando até Basílio, com uma sensação que seus braços seriam arrancados a qualquer momento. A mulher ia fazendo um trilha de sangue e vomito, com sua carne exposta, que antes eram seus seios, e seu membro esfregando pelo chão.

Subiu no corpo do marido, pois se fosse morrer, gostaria que fosse em cima da última pessoa que teve a audácia de ter dito que não era uma mulher legítima. Essa era a única certeza que Eloah tinha, o resto dos seus pensamentos eram apenas pontos de interrogação.

Basílio percebeu algo em si, e assim que identificou a primeira coisa que fez foi segurar o pescoço de Eloah, mas não teve forças pra sufocá-la, pela primeira vez achou o marido tão fraco, abaixou seus braços e com ele trouxe sua esposa junto, como em um abraço.

Um abraço marcado pelo sangue dos dois que se misturavam.

-Ainda sou sua esposa...

A dama realmente não sabia se morreria ou não. Sua única salvação seria se o marido que acabou de espancá-la tivesse pena de si, e duvidava que isso acontecesse.

Estava à beira da morte, e a única coisa que conseguia fazer era se questionar; merecia todo aquele ódio apenas por não possuir uma vagina?


5 de Marzo de 2019 a las 01:40 0 Reporte Insertar 0
Fin

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Tosunnie Apaixonada por finais felizes, mas não sei trabalhar com eles.

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