A Toca do Fafnir - O Hipocampo Seguir historia

laquino Leonardo Aquino

Não havia nada incomum por trás da loja de antiguidades chamada de "A Toca do Fafnir". Pelo menos, era o que seus clientes acreditavam. Entretanto, Alastar, o dono da loja, possuía um segredo. E foi em uma manhã comum que ele descobriu, após uma tentativa falha de sequestro, que outras pessoas poderiam conhecer esse segredo. Em busca de respostas, ele começa uma intensa perseguição às pessoas que tentaram raptá-lo, com a ajuda de antigos e novos amigos. Ou estaria ele, na verdade, perseguindo seu passado? O Hipocampo é a primeira aventura ao redor da loja em que objetos com grandes histórias encontram novos destinos.


Aventura Todo público.

#aventura #superpoderes #nanowrimo #baixafantasia #urbano #ficção-urbana
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1. A Toca do Fafnir


— É sempre um prazer recebê-la na Toca do Fafnir, Ivone. — Disse com um sorriso no rosto, enquanto checava se havia colocado tudo dentro da sacola de papel repousada no balcão.

A mulher à sua frente era uma senhora gordinha, quase no começo dos seus setenta anos. Batia na altura do seu tórax, cabelos curtos e brancos escondidos por um belo chapéu de aba longa para se proteger do forte sol do lado de fora.

A loja em si era protegida do sol. Os raios só chegavam com força na entrada, tateando o chão como cães olhando para o dono, com receio de entrar em casa.

A mulher soltou uma pequena e carismática risada de retribuição, enquanto pegava a sacola.

— A gente encontra cada coisa linda por aqui! Uma pena que a loja fique tanto tempo fechada, Alastar! — Reclamou a senhora.

— Bem, eu preciso buscar novidades pros meus clientes! — Desculpou-se.

— Por isso que está na hora de encontrar uma senhora Reilly para lhe ajudar! — Respondeu a senhora em um tom que se encontrava entre o conselho e a provocação, fazendo-o rir.

— Achei que fosse mais fácil contratar um funcionário! — Retrucou, fazendo com que Ivone acenasse negativamente para a sua evasiva.

— É um absurdo um rapaz tão bonito estar solteiro! Eu já tentei trazer minha sobrinha para olhar a loja, — A senhora lhe deu uma piscadela após a última frase, antes de continuar em um tom reprovador — mas os jovens de hoje só querem ficar enfurnados em casa com a cara afundada no celular... — A senhora voltou a atenção até a sacola que carregava e deixou de lado, momentaneamente, as suas pretensões com a vida amorosa de Alastar. — Mas ainda estou impressionada com esses lindos brincos! Você disse que esperou dez dias para consegui-los? — Perguntou divertidamente.

— Nove, na verdade! O paradeiro só era revelado quando o sol estava em uma determinada posição. Foi o plano da antiga dona para escondê-lo. Ela deixou bem claro no testamento que não queria que nenhum membro daquele "bando geneticamente vil e avarento que por infortúnio teve o desprazer de chamar de família" se aproximasse dos seus bens. Aparentemente, ela não acreditou que escrever seria o suficiente para afastar as mãos dos parentes do par de brincos favorito dela. Foi uma briga feia!

A mulher soltou uma risada mais alta.

— Você conta cada uma! E você fez o que durante esses dez dias?

— Lendo... dormindo... esperando. Confesso que não teve muita emoção nessa parte da história.

— Ainda, tenho certeza! — Brincou a senhora. — Mas vou lá, meu anjo! Tenha um bom dia!

— Bom dia para você também, Ivone! — respondeu, acompanhando-a até a porta da loja.

A placa de madeira da loja, pendurada em uma haste de ferro presa à parede alguns centímetros acima de sua cabeça, balançou com uma leve brisa, fazendo o sol percorrer de cima a baixo o desenho do dragão deitado envolto pelas palavras: "Toca do Fafnir". Um pouco mais acima, um enfeite de rabo de dragão descia pela janela do segundo andar, onde morava, dando a falsa impressão de ter um buraco na parede.

— Você pretende ficar aberto por mais quanto tempo? — Perguntou Ivone.

— Não faço ideia! — Respondeu, dando de ombros. — Até surgir uma proposta nova... O de sempre!

A senhora suspirou e apontou para ele com um sorriso:

— Senhora Reilly! — Após isso, Ivone voltou a caminhar com passos curtos pela calma rua, enquanto ajeitava seu chapéu.

Sorria desajeitado para as costas da senhora, quando uma bicicleta parou em frente à loja.

— Alastar? — Perguntou uma voz feminina ofegante ao seu lado.

Foi pego de surpresa ao ouvir seu nome, mas balançou a cabeça afirmativamente, antes de olhar quem perguntava. A ciclista era uma garota cujo os cabelos, negros como os olhos, caíam um pouco abaixo das orelhas. Usava uma camiseta amarela sem estampa, jeans escura e uma boina de tecido marrom. Após ver a confirmação do rapaz, continuou:

— Chegou uma encomenda para você lá no depósito!

Ergueu a sobrancelha para a ciclista, antes de externar sua dúvida:

— Certo, mas... não vão entregar? Eu nem estava esperando nada!

— É que o sistema de entregas ficou inexplicavelmente fora do ar e o depósito está um caos! — Disse de prontidão. — Então talvez demore para chegar... bastante! Estou passando aqui para avisar...

Não sabia o que significava "estar fora do ar". Era uma frase que simplesmente não fazia sentido, mas assim eram os computadores para Alastar, no final das contas. Balançou a cabeça afirmativamente, como geralmente fazia quando alguém usava algum jargão tecnológico.

— Certo. Só preciso fechar a loja e eu vou buscar a encomenda.

A ciclista acenou em concordância e saiu pedalando pela rua apressada, antes que conseguisse agradecê-la.

Entrou na loja assobiando uma melodia improvisada, enquanto deslizava o dedo pelos objetos organizados à sua direita. Começou por uma moldura dourada, que estavam prestes a jogar fora, passando por uma estátua que conseguiu ficar intacta sob escombros antigos e um lindo espelho de um teatro falido.

— Uma hora serão vocês! — Disse baixinho.

Foi até o balcão e pegou um pequeno molho de chaves pendurado na parte de baixo da escada que levava até a sua casa.


***


O dia estava exaustivamente quente no lado de fora, daqueles que fazem você saltar de sombra em sombra pelo caminho sem ser taxado como louco.

O depósito ficava à quinze minutos de caminhada, mas fazia questão de cumprimentar os conhecidos pelo trajeto, fazendo com que demorasse, pelo menos, o dobro do tempo.

Alastar não dirigia. Distraía-se muito facilmente com as coisas ao seu redor e não achava prudente fazer isso a mais do que dez quilômetros por hora. Também gostava de caminhar, além de odiar da ideia de não poder parar para conversar com um conhecido. O carro lhe tirava os prazeres de andar pela vizinhança. Havia também um problema matemático: Eram três pedais e só tinha dois pés. E os que tinham dois pedais devia ser conduzido usando apenas um, por motivos que lhe escapavam.

Passou pela porta de vidro na entrada para clientes do depósito e viu que o local estava praticamente vazio. Uma senhora de idade e dois homens carrancudos esperavam sentados na pequena sala, enquanto uma mulher era atendida no balcão.

Retirou um papel do dispensador de senha amarelo e viu os números "023" impressos em tinta azul.

Sentou-se em uma das cadeiras próximas a parede e esperou impacientemente ser atendido. Dez minutos, que pareceram duas horas, se passaram até uma campainha estridente tocar ao mesmo tempo em que sua senha aparecia no pequeno monitor acima do balcão.

— Olá, bom dia! — Cumprimentou Alastar, enquanto se aproximava. — Meu nome é Alastar Reilly e vim buscar uma encomenda por causa do sistema fora do ar de vocês...

As sobrancelhas grossas do balconista se apertaram e Alastar se sentiu como se tivesse falado algo estúpido.

— Sistema fora do ar? — Questionou o homem — Do que você está falando?

— Eu também não sei! Como os sistemas ficam fora do ar? Ele fica envolto por vácuo, impedindo que vocês mexam nele? — Retrucou, enquanto dava de ombros — Só sei que uma moça de bicicleta me disse que havia uma encomenda minha aqui para buscar. Ela sabia até meu nome...

O atendente coçou a cabeça por alguns segundos, enquanto mexia no computador à sua frente.

— Alastar Reilly, né? — Perguntou, antes de anotar o nome em um papel e lhe pedir educadamente. — Um minuto, por favor!

O homem saiu por uma porta lateral e, pelo vidro ao fundo, viu ele percorrer várias estantes com caixas de papelão de diversos tamanhos. Após alguns minutos de buscas infrutíferas, o balconista retornou sem jeito.

— Olha, desculpe, mas não tem nada pro senhor não. E o sistema está funcionando corretamente também...

Enquanto ouvia o homem, uma ideia incômoda se formou em sua cabeça o fazendo sair do depósito às pressas: Seja lá qual foi o motivo, havia sido deliberadamente afastado de onde estava.

Fez o caminho de volta em poucos minutos desejando estar errado, mas o infeliz pensamento se confirmou ao dobrar a rua da loja e encontrar a porta escancarada. Pulou os dois degraus da entrada e viu todos seus objetos revirados. Livros retirados das estantes descuidadamente, objetos caídos no chão, o balcão desorganizado. Subiu as escadas ao fundo da loja e encontrou sua casa igualmente revirada. Olhou cômodo por cômodo mas não havia mais ninguém. Seja lá quem fez aquilo foi muito rápido. Rápido o suficiente para não ter feito sozinho.

Voltou para a loja no andar inferior e percebeu que a caixa registradora estava intacta. E, pela rápida olhadela ao redor, não percebeu nada de valioso faltando, levantando apenas mais dúvidas em sua cabeça. O que diabos queriam? Por quê?

A porta não mostrava sinais de arrombamento e Alastar gostou ainda menos do seu criminoso. Preferia que tivessem arrombado a porta e tomado cuidado com sua loja, não o contrário.

Virou a placa de entrada que sinalizava pelo postigo que a loja estava fechada e suspirou frustrado antes de subir as escadas para pegar vassoura, pá e sacolas. O resto do seu dia seria reservado para limpar o local e ver o que havia sido permanente danificado.


***


Varria pequenas lascas de madeira misturadas com uma pequena camada de poeira de uma estante derrubada, quando ouviu duas batidas na porta.

— Estamos fechados! — Avisou em voz alta, sem prestar atenção.

Apesar do aviso, a pessoa bateu à porta mais três vezes e Alastar foi irritado até a entrada da loja. Assim que chegou, apontou, pelo postigo, para a placa de sinalização, mas nesse momento notou que a pessoa do outro lado da porta era a ciclista que havia lhe mandado até o depósito mais cedo naquele dia. Ela olhava para ele de forma serena e apontou para a maçaneta da loja em retribuição ao seu gesto.

Não teve reação exata na hora. Abriu a porta depois de perceber que estava a alguns segundos encarando-a estupefato. A moça entrou na loja, ignorando por completo a expressão confusa de Alastar, e começou a raspar o dedo por uma das estantes caídas da loja.

Esperou por alguns segundos para observar as ações da garota, mas ao ver que ela continuava andando ao redor da loja em silêncio, recuperou a voz e perguntou:

— O que você quer? Primeiro você me tira da loja por motivo nenhum. Quando volto, minha loja e minha casa estão viradas de pernas pro ar, e agora você aparece e fica dando voltas sem falar nada.

— Eu te tirei para que não fosse pego! — Respondeu a garota. Sua voz era baixa, mas não de forma ameaçadora. Era um silêncio meigo, que causava certa sonolência se ouvisse por um longo período.

— Pego? — Perguntou confuso.

— Sim, pego! Capturado! Sequestrado! — Ela continuava andando ao redor da loja, sem prestar atenção nele.

— E por qual motivo eu seria pego, capturado ou sequestrado? E por quem?

— Você não conhece mesmo ninguém que poderia fazer isso?

Alastar começou a perder a paciência.

— Não, eu tenho essa loja há muitos anos e não faço ideia quem viraria de pernas pro ar um antiquário. Agora, por quê não começa a responder minhas perguntas também, senhorita...

— Sweetchild. Monica Sweetchild. — Respondeu, enfim a garota, enquanto mexia no bolso da calça. — Meu irmão foi sequestrado alguns meses atrás— Ela lhe mostrou uma foto de um garoto com cerca de quinze anos, mas com traços semelhantes a da garota. — Eu havia saído e quando voltei para casa encontrei a porta escancarada e ele não estava mais no quarto. Nunca mais o vi, desde então... por isso estou correndo atrás deles...

— Mas porquê? — Perguntou Alastar, devolvendo a foto.

— Provavelmente está ligada ao seu segredo.

— Meu segredo? — Inqueriu Alastar. — Que segredo? Não sei de segredo nenhum!

— Claro que não sabe! — Disse Monica impaciente, enquanto levantava uma perna atrás da outra e se sentando de pernas cruzadas a quase um metro do chão, apoiando o cotovelo no joelho direito.

Ao ver aquilo, Alastar correu para fechar a cortina da loja, averiguando antes se não havia ninguém os assistindo do lado de fora.

— Nenhum grito de espanto. — Disse Mônica. — E a primeira preocupação foi a de me esconder. Esse segredo! — Voltando a posição original. — O que você pode fazer? Ficar invisível?

Alastar caminhou em direção à parede e começou a andar por ela, como se a gravidade não existisse.

— Ah! Como uma lagartixa!

— Lagartixa? — Disse ofendido. — Não sou uma lagartixa! — Pulou da parede, dando um mortal para trás e caindo de pé. — Já viu uma lagartixa fazer isso?

A garota deu de ombros, antes de responder:

— Nunca parei para observar o incrível mundo das habilidades de lagartixas, mas a questão é que talvez você tenha sido perseguido por causa disso!

— Mas ninguém sabe que eu faço isso! Eu não saio por aí, andando pelas paredes! — Começou a levantar uma das estantes, enquanto conversava.

— Eu também não saio levitando por aí! Mas eles sabem! Eles entraram na minha casa, pegaram meu irmão e vasculharam tudo!

— Eles quem? E o que estão procurando afinal? — Perguntou Alastar, apoiando-se na estante e encarando-a. Havia mais perguntas: Como ela sabia que estavam atrás de pessoas com habilidades e como ela sabia que ele era uma dessas pessoas, mas achou melhor observá-la, antes de perguntar.

— Procurando? — Monica o olhou com dúvida.

— Se eles estavam atrás de pessoas apenas, por qual motivo vasculharam a minha loja toda? — Explicou Alastar. — Não era só me pegar e ir embora? Você não sabe mais nada?

— Eu não sei! Estou atrás deles em busca do meu irmão! — Respondeu a garota. — Você não notou nada faltando? Nada que possa dar uma pista?

— Não... Nãoaindapelo menos — Respondeu o rapaz, enquanto olhava ao redor da loja, esperando encontrar uma pista milagrosamente.

— Mas aqui é uma loja, certo? Não tem câmera?

— Uhn... receio que não... — Disse Alastar sem jeito.

— Sério? — Disse surpresa. — É tão comum que lojas tenham...

— Eu creio não ter certeza de como mexer em uma. Então não acho que seja preciso... — Riu Alastar sob o olhar de indignação de Mônica.

— Então eu vou atrás deles! Já perdi muito tempo aqui e não sei quanto tempo demorou para que eu conseguisse pegar esse rastro deles... Adeus, Alastar, se cuida! E instale câmeras!

— Espere! — Disse Alastar, mas ela já havia saído apressada da loja sem se despedir. — Talvez a gente ache alguma coisa por aqui... — Olhou ao redor para a bagunça e suspirou mais uma vez. — Talvez eu devesse comprar um aspirador de pó...

15 de Febrero de 2019 a las 23:30 4 Reporte Insertar 3
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GQ Gabriela Quintino
Acompanho há alguns anos a evolução da escrita do Leonardo, e é muito interessante como ele trabalha a aventura fantástica de um modo muito puro, sem se preocupar em adicionar elementos que funcionam meramente como adereços irrelevantes para a história. A Toca do Fafnir está se mostrando uma história com personagens muito interessantes, especialmente as femininas. Particularmente, espero ver ainda mais sobre elas nos próximos capítulos.
Bárbara Oliveira Bárbara Oliveira
Só quero deixar os meus parabéns por um primeiro capitulo tão envolvente, estou encantada por Alastar.
6 de Marzo de 2019 a las 22:02

  • Leonardo Aquino Leonardo Aquino
    Brigado, de verdade!!! =) O Alastar é um personagem que eu criei uns anos atrás e decidi testar uma história com ele. Espero que continue gostando dos próximos capítulos! 6 de Marzo de 2019 a las 22:11
  • Bárbara Oliveira Bárbara Oliveira
    Dá pra sentir boa profundidade nele e eu concordo muito com a confusão dele pra dirigir. 6 de Marzo de 2019 a las 22:14
~

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