Os cortes Seguir historia

sweet-mary Mary

Os cortes são repudiados pela sociedade que interpreta o grito de socorro de uma alma dilacerada como covardia, vitimismo, deficiência moral, insanidade, "sede por atenção", "chilique de menina mimada que reclama da vida à toa", dentre outros impropérios que ferem tanto quanto aqueles arranhões que deixam na pele a certeza de que ela suportou coisas até por demais antes de internalizar esse berro. As mesmas pessoas que a destruíram com atitudes e palavras são as que mais se vitimizam e potencializam o sentimento de culpa que ela carrega por ser quem é, por ter seu próprio jeito de amar, por destoar do protótipo que deveria seguir para ser "aceita" com todas as ressalvas possíveis. Ela é apenas ela. Os julgamentos que você fizer a respeito dizem mais a respeito de você do que dela.


No-ficción No para niños menores de 13.

#incompreensão #tristeza #preconceito #solidão #desabafo #transtornos-alimentares #depressão #automutilação
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N/A: *** aviso de gatilho ***

Se você possui problemas com relação à automutilação, não sei se esse texto será bom para você, porém se você se identificar, será muito bom ter a sua opinião, lembrando que EM NENHUM MOMENTO estou fazendo apologia ao ato de se machucar, pelo contrário, sempre tento entender que quando uma pessoa se corta é porque algo está acontecendo dentro dela e esses cortes são a voz dela, o meio encontrado para expurgar a dor, então não posso julgar... E quem sou eu na ordem do dia para isso?

Os cortes falam aquilo que o coração não ousaria dizer em voz alta. Não têm sentido ou direção certos, tampouco são premeditados. Esses desenhos sangrentos, disformes e pouco inspiradores são a voz daquela a quem o mundo dá as costas.

A lâmina seduz a pele macia sussurrando que essas eventuais cicatrizes não serão tão feias quanto àquelas deixadas do lado de dentro por todas as pessoas que vão passando pela vida dela e a beliscando, iludindo, mentindo, traindo, tratando-a como uma sucata qualquer, levando embora sua essência, sua confiança, retalhando sua inocência e a julgando por não ser de ferro, por cair de joelhos e admitir em muitos momentos que a cruz é pesada demais para se carregar sozinha.

As asas de seda se retesaram no casulo. No calor do infame desespero, ela não pensou no nome de alguém a quem jamais gostaria de machucar, não encontrou uma canetinha para rabiscar uma borboleta ou um coração vazado.

Havia quatro anos que ela não se machucava. Foi uma saída de emergência que após a execução apenas deixou o ardor na pele, aquela queimação que em medida proporcional não se compara com a dor da inadequação, as dolorosas palavras proferidas no calor de uma discussão.

A dor física cede. A rejeição, não. O preconceito é a lâmina que retalha o desejo de viver, todavia a covarde é ela por fincar na pele a representação de todas as humilhações que engoliu sem revidar.

Lágrimas de vergonha banharam o rosto e se converteu em soluços de tristeza, vergonha, fracasso. Ela o cobriu com as mesmas mãos que poderiam ter desenhado uma borboleta com o nome daquela pessoa com quem mais queria estar no mundo todo.

Os cortes são repudiados pela sociedade que interpreta o grito de socorro de uma alma dilacerada como covardia, vitimismo, deficiência moral, insanidade, "sede por atenção", "chilique de menina mimada que reclama da vida à toa", dentre outros impropérios que ferem tanto quanto aqueles arranhões que deixam na pele a certeza de que ela suportou coisas até por demais antes de internalizar esse berro.

As mesmas pessoas que a destruíram com atitudes e palavras são as que mais se vitimizam e potencializam o sentimento de culpa que ela carrega por ser quem é, por ter seu próprio jeito de amar, por destoar do protótipo que deveria seguir para ser "aceita" com todas as ressalvas possíveis.

Ela é apenas ela. Os julgamentos que você fizer a respeito dizem mais a respeito de você do que dela.

Para quem respira o medo de ter medo, estar dentro de um lugar pequeno demais para asas desproporcionais sufoca, o ar se esforça para chegar até os pulmões e oxigenar as ideias difusas, mas trabalha com dificuldade porque o corpo se encontra cansado, debocham os incautos de que essa falta de força para executar tarefas básicas não passe de lero-lero, frescura, sem saberem que essa postura rude, egoísta e mesquinha faz com que ela dê meia-volta e desista de abrir o coração, se encolha cada vez mais.

"Você vive aí nesse seu mundinho...”.

É claro que ela vive reclusa no próprio mundinho!

Se em todos os outros lugares a presença é um peso, que nesse cantinho haja paz, harmonia, conforto e liberdade.

Esses rabiscos soturnos não embelezam o mural, apenas servem para que ela tenha uma boa desculpa para vestir blusas de manga comprida quando não faz tanto frio assim.

Tanto se fala sobre reciprocidade, empatia e compaixão. Essas palavrinhas tão lindas estampam parágrafos e enaltecem a voz do narrador, todavia há uma incoerência entre escrever e agir de acordo, viver o que se prega, escutar e refletir. Milhares de paradoxos que renderiam mais assunto para discussão. A única verdade dona de si é a hipocrisia, que distribui as cartas pela mesa com empáfia.

Ela está sempre disposta a emprestar os ombros para as pessoas chorarem, os ouvidos e o tempo para que desabafem, apenas errando em aguardar reciprocidade. Quando a angústia sufoca o discernimento e os olhos úmidos clamam por amor, se encontra sempre só.

"Você é muito fechada, tem que se abrir mais...”.

E quando ela decide abrir o coração, seu amor é rejeitado, não só o romântico, todo tipo de amor. Todas as migalhas imploradas para se ter um espaço no mundo de alguém. Toda vez que confia sua vida acreditando que tem com quem contar e descobre da pior forma que lobos disfarçados de cordeiros estão à espreita, tubarões terrestres farejando sangue.

Ela, que foi abusada e sofre por ser pelas entrelinhas a culpada pela inconsequência de alguém que no ápice do egoísmo falou por dois e tocou a vida sem se preocupar com o carma que gerou, com o coração que quebrou, com o consenso que roubou, com a inocência que destruiu. Demonizá-la não torna o trauma indissolúvel, apenas faz com que a aversão por si mesma aumente, te faz insensível e egoísta.

Você nem deveria apontar esse dedo imundo para julgá-la e questionar os porquês, uma vez que não foi o seu corpo que sofreu uma violência que deixou cicatrizes internas que ela terá de carregar consigo até o túmulo, você não estava lá para testemunhar aquele crime covarde contra a pureza de uma pessoa que não merecia passar por tamanha desgraça, então guarde seus moralismos fundamentados no machismo e se limite a opinar apenas quando suas palavras não serem tão afiadas quanto a lâmina que hoje colocou fim a quatro anos de lutas diárias para não se machucar.

A empatia, a reciprocidade e a compaixão são seletivas.

Hoje de manhã ninguém perguntou se ela dormiu bem, se o motivo de não arrumar o quarto vai além da “preguiça” porque berrar e fazer com que ela se sinta culpada por não ter ânimo nem forças para executar tarefas simples só dispara esses gatilhos. O fato de estar deixando de se alimentar é um pedido de socorro tão claro quanto o céu, ela está deixando de viver aos poucos porque não encontra paz em lugar algum, não recebe amor, não enxerga uma saída. Num indefinido amanhã, todos se perguntarão o que poderiam ter feito para evitar o inevitável.

Ela fez silêncio todas as vezes que seu coração quebrou, mas o mesmo não fizeram as pessoas que transformaram a menina sonhadora e alegre numa sombra, apenas. Uma sombra que se encara no espelho e evita os próprios olhos.

Ela ama dormir porque pode sonhar que não é ela, que vive em outro mundo, que as coisas não são como são porque quando desperta, é a tristeza quem a cumprimenta com sarcasmo lembrando-a de que seus sonhos são utopias e o tempo está passando, levando embora a juventude e lhe negando uma única oportunidade de ser feliz. Aguardar respostas de orações, acreditar em sinais tolos, inventar motivos para não ousar, não arrebentar o cordão de proteção, decidir, enfim, por si.

Moralmente falando, o inferno será a sua morada final, sem saberem os incautos que o inferno já é aqui mesmo...

14 de Marzo de 2019 a las 16:31 0 Reporte Insertar 119
Fin

Conoce al autor

Mary Curitibana, futura jornalista, escritora em constante progresso, escorpiana com ascendente e lua em peixes. Apaixonada por todas as singelezas da natureza, onde se encontra o olhar compassivo de Deus. Em matéria de livros, filmes e músicas, minha lista tende a crescer, mas sempre há aqueles que têm um espacinho especial no meu coração. Prazer, eu sou a Mary.

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