Elástico Seguir historia

ditto Liiz Lestrange

Dois jovens, dois adultos, duas almas entrelaçadas por um karma milenar, um laço complicado e uma infinidade de erros no meio do caminho.


Fanfiction Anime/Manga Sólo para mayores de 18.

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Meias Verdades


 


— Pai?

A voz fria o surpreendeu. O garoto vinha o evitando fazia dias. Ainda que já houvesse conformado-se mais ou menos com o comportamento impetuoso e, por vezes, rude, o repentino silêncio e olhares hostis – quase ofendidos – vinham o preocupando naquela semana. Não teve um bom pressentimento sobre aquela conversa.

— Fala – tentou soar agradável e despreocupado, mas, sob o olhar acusador do próprio filho, um nó se formou em sua garganta. Boruto parecia relutante em perguntar-lhe o que quer que fosse. Talvez incerto se queria realmente saber a resposta.

— Você ama a minha mãe?

Um súbito pânico assaltou-lhe como um cubo de gelo descendo pela espinha dorsal.

— Quê? – rebateu consternado – Que tipo de pergunta é essa?

— A Sarada disse... – o jovem freou a justificativa e respirou fundo, cerrando os olhos como se o ato lhe exigisse um esforço sobre-humano – Quer saber, esquece. Eu não quero nem ouvir.

O filho deixou a casa batendo a porta, sem dirigir ao pai sequer um último olhar.


 

—///—



Caminhavam havia um bom tempo, era uma tarde agradável, parecia bastante apropriada para um primeiro encontro. Tinha que admitir que estava divertindo-se, a garota aos poucos ia se soltando e, após tantas horas juntos, já havia a ouvido falar naquele dia mais que em todos os anos desde que a conhecera – não porque estava tagarelando, mas por, até então, jamais tê-la ouvido falar mais que duas ou três frases curtas numa única conversa.

Hinata era bonita. Havia passado a adolescência escondendo-se por baixo de roupas largas e moletons, mas, com a maturidade, passou a ganhar mais confiança e foi, de pouco à pouco, revelando a silhueta mais bem desenhada e invejável dentre todas as jovens da vila. O rosto não deixava por menos: traços delicados e harmoniosos, a pele e o cabelo impecáveis e contrastantes, adornados pelo rosado natural nas bochechas davam-lhe uma aparência de boneca ou mocinha de filme antigo. Nos lábios avermelhados, um sorriso, ainda tímido, mas sincero e caloroso. Parecia absurdo que uma garota tão indiscretamente atraente houvesse passado tantos anos despercebida por todos, mas, conhecendo-a bem (ou, mais apropriadamente, por não a conhecer bem até então, mesmo depois de tanto tempo) a quase invisibilidade da menina era uma condição razoável.

Apesar de tudo, não fora pela beleza que Naruto aceitara quando ela finalmente tomou coragem de chamá-lo para um encontro. Hinata era esforçada e tinha o coração no lugar. Mesmo sendo quieta, era inteligente e sabia ser interessante numa conversa sobre o que quer que fosse, além de tê-lo dado um apoio crucial em um momento de pânico e ter se disposto a sacrificar a própria vida por ele – dois atos que pesavam-lhe com um sentimento de dívida. Estes fatores, em conjunto com um punhado de angústias que não tinham relação alguma com a menina, o fizeram aceitar o convite sem sequer pestanejar.

O assunto esgotou-se quando chegaram ao pier. Sentada na beira estava a silhueta de uma lembrança distante de alguém que já não estava mais por perto, Naruto desviou o olhar de sua própria memória e voltou a mirar a jovem tímida em sua frente.. Tudo nela parecia perfeito e, ainda assim, sentia alguma coisa faltando. Não conseguia apontar nela nada que o incomodava, mas sentia aquele incômodo impertinente.

Por mais agradável que estivesse se saindo o encontro, Naruto não tinha mais vontade de conversar. O silêncio viera em boa hora, a recordação que o local lhe trouxera deu-lhe também uma amarga determinação. O momento e cenário eram ideais, Hinata provavelmente havia reparado no mesmo e aguardava quieta. Ele levou uma mão suavemente ao rosto da garota e, aos lábios dela, os seus. Ela demorou a permitir que aprofundasse o beijo. Nervosa, assustada, inexperiente, deixava o controle e o ritmo totalmente à mercê do garoto. Muito diferente de que Naruto havia se acostumado.

A boca dela tinha um gosto agridoce de dever cumprido. Ao passo que levou os braços em torno dela e abraçou-lhe a cintura, teve certeza de que estava tomando uma decisão: abandonava, naquele momento, a aventura de sua criancice e abraçava junto à mulher a constância e certeza da vida adulta. Talvez não fosse aquele o desejo mais desesperado de seu coração, mas uma ambição que trazia desde muito pequeno e estava decidido a não abandonar, fosse como fosse, porque era a única coisa que tinha.



—///—



Naruto acordou sem humor nem apetite. Esgueirou-se pra fora da cama sem acordar a esposa e tomou uma xícara de café preto antes de sair de casa. Faltavam-lhe ainda uns quarenta ou cinquenta minutos para o horário habitual de entrar no trabalho, mas criou esperanças que, talvez, se adiantasse boa parte da papelada antes do horário do almoço, conseguiria algum tempo livre para descansar a mente no fim da tarde. Era uma esperança miúda, no entanto, após a guerra a taxa de mortalidade havia caído drasticamente e, a de natalidade, aumentado em proporção. Com esse exorbitante crescimento da população, duplicou-se também o trabalho. “Parece que esse povo só sabe matar o tédio trepando que nem coelhos”, lembrava-se de ter reclamado a Shikamaru certa vez. “Vindo do Hokage que já teve dois filhos antes dos trinta”, ele retrucara, calando sua boca.

Seguindo seu caminho habitual para o gabinete, avistou passar uma figura baixa de cabelos negros dolorosamente familiares e parou de andar de imediato.

— Sarada! – chamou-a evitando soar preocupado, a jovem virou-se com calma e ajeitou os óculos ao identificá-lo.

— Bom dia, Sétimo!

— Bom dia!

Ele sorriu calorosamente e se aproximou um pouco.

— Você tá ocupada? Eu queria conversar contigo um minutinho.

Ela torceu o canto dos lábios num sorriso.

— Ah... – disse-lhe com conclusão – Já imagino o que seja. Pode falar, sou toda ouvidos.

— Vem comigo até o escritório? Prefiro ficar à sós.

— Tá bem, você é quem manda.

Ao contrário do que se esperaria de uma criança em seus quinze anos ao ser chamada para uma conversa particular com um adulto, ela não tinha sequer sombra de insegurança. Tão certa de si como quem tem o controle da situação – e naquela situação, o tinha de fato. Ela caminhou confiante e firme ao lado do homem, o acompanhando em silêncio até sua sala, onde sentaram-se frente à frente, ele em sua cadeira, atrás da escrivaninha, e ela puxou uma do canto.

— Como andam as coisas na sua casa? – ele perguntou com simpatia, procurando descontrair o ambiente – Tá tudo bem, você e sua mãe?

— Tá sim.

— Que bom... - sentia-se um tanto idiota de estar tão pressionado por uma garota da idade de seus filhos. Sarada sabia muito bem qual era o assunto que ele queria trazer e, mais do que isso, devia calcular com precisão a insegurança nos seus gestos e o valor da informação que tinha. Ela sequer disfarçava, ostentava no olhar sua posição naquele diálogo. Naruto havia por muito tempo questionado se o talento terrivelmente eficaz de intimidação que a pequena tinha era herdado do pai ou da mãe, posto que ambos eram também muito hábeis naquela arte do olhar, mas concluiu que só podia ser uma soma dos dois.

— Foi pra isso que você me chamou?

Naruto enrijeceu o olhar e respirou fundo. Sarada permanecia impassível.

— Não. Escuta, você sabe como o Boruto é, ele é muito apegado à mãe, a gente não se dá muito bem.

— Eu sei.

— Eu não sei o que você falou pra ele, mas faz uns dias que ele tá de cara fechada comigo e... Ontem ele me fez uma pergunta estranha...

— Que pergunta? – a menina tinha um certo ar arrogante enquanto fingia-se de desentendida e orquestrava seu cinismo com uma precoce maestria. Naruto franziu o cenho.

— Perguntou se eu amo minha esposa. – Ela mordeu o lábio. – Eu quis saber de onde ele tinha tirado uma coisa dessas e ele soltou que foi alguma coisa que você disse.. Mas não contou o quê.

Sarada sorriu.

— Não se preocupe, não vou falar pra mais ninguém.

— Falar o quê, Sarada?

— Estou curiosa, - disse a menina ajeitando os óculos – você tá testando pra saber até onde eu sei ou tem mais de uma coisa que você tem feito que eu poderia saber?

— Eu tenho muita certeza de que não fiz nada de errado. Eu tenho responsabilidades e eu cumpro com elas, você me conhece bem.

— Tem razão, eu conheço você muito bem. Melhor do que eu conheço meu próprio pai, na verdade. –  Ela deu um breve suspiro e olhou pela janela com ares de melancolia, depois voltou a encarar o homem com uma sutil ansiedade. – Aliás, você deve conhecer ele melhor do que eu, não deve ser nenhuma novidade pra você que eu nunca vi meu pai sorrir pra ninguém, nem pra minha mãe, do jeito que ele sorri pra você.

Cada músculo de seu corpo enrijeceuse com a insinuação da garota, um sutil brilho no olhar dela denunciou  que Sarada havia notado a tensão. Bingo.

— O que você quer dizer com isso?

— Também não precisa ser muito genial pra perceber o jeito que você muda quando ele tá na cidade e como você demora pra voltar ao normal quando ele vai embora.

— Aonde você quer chegar, Sarada? - ele insistiu, elevando a voz.

— Todo mundo mais pode ser tão cego quanto for, mas eu presto muita atenção nos detalhes, sabe? Uma troca de olhares aqui, um sorrisinho ali, um carinho na mão quando a tia tá distraída...

— Você está imaginando coisas. E pior: botando coisa na cabeça do Boruto. Eu já tenho coisas demais pra me preocupar pra ter agora que me resolver por uma coisa que eu não fiz, mas agora meu filho acha que eu tô mentindo pra ele ou pra minha esposa...

— Certo, você não mente pra eles.

— Não, Sarada!

— Então suponho que você possa ser sincero comigo, também.

— Não que nada disso te diga respeito…

— Se diz respeito ao meu pai, então diz a mim também. E se não for, então não existe motivo pra você me esconder essa informação.

— Que informação?

— Você vai falar a verdade?

— Eu nem sei que tipo de informação que…

— Me promete! – ela insistiu, deixando seu lado infantil transparecer pela primeira vez naquela conversa.

Naruto respirou fundo, beliscava as palmas das mãos com nervosismo, mas parou e as pousou fechadas sobre a mesa.

— Tá certo. Prometo, vou falar a verdade.

Tinha alguns palpites sobre a pergunta que viria, algumas mais difíceis de contornar com honestidade do que outras. Só havia uma que não estava disposto a responder e mentiria sem pensar duas vezes. Sarada parecia estar estudando as palavras que queria usar, ela era esperta. Tinha certeza que vários cenários se passavam pela cabeça dela naquele instante e ela analisava qual deles era mais certeiro e possibilitava menos esquivas da resposta. Seus olhos afiados quase cintilavam por detrás dos óculos que ajeitou com cuidado pelas beiradas.

— Você e meu pai – ela começou pausadamente – alguma vez se envolveram de uma forma romântica?

Naruto fechou os olhos e se encostou para trás na cadeira enquanto enchia os pulmões de ar devagar. Levou as mãos ao rosto para massagear as têmporas, não era a pergunta mais fácil de se contornar. Reservou-se ao direito de preparar-se e pensar bem sobre o que iria dizer antes de responder. Com um último suspiro para se recompor, voltou a endireitar-se na cadeira e coçar o queixo devagar antes de encarar a menina.

— Olha só, Sarada, seu pai e eu… Sim, nós tivemos uma coisa - disse numa voz suave, se esforçando ao máximo para abaixar a guarda e demonstrar segurança. Sarada, como não podia deixar de ser, estava preenchida de ar exuberante de triunfo antes mesmo de ouvir o final da frase. Ele mordiscou os lábios pensativo e respirou fundo brevemente. – Nós… como se diz isso? Nós nos relacionamos romanticamente por um tempo, sim, e isso foi há muitos, muitos anos atrás e acabou ali. Não foi nada muito oficial, nós nunca falamos em namoro nem nada do tipo nessa época. A gente tinha só dezoito anos, foi uma infantilidade, não deu certo, nós terminamos e eu comecei a namorar sério com a Hinata pouco depois. A intimidade que eu tenho com o seu pai não é por causa de uma bobeira que aconteceu há quinze anos atrás. Não, nós temos uma amizade que vem de muito antes e se manteve depois disso, nós passamos juntos por coisas que você não conseguiria nem imaginar, nossa conexão tem muito menos a ver com uma aventurinha adolescente que acabou faz mais de uma década e tem mais a ver com… a gente não ter um braço - ele ergueu a mão da prótese e a apontou balançando a cabeça. – e com as ruínas no Vale do Fim, acredite ou não. É uma coisa que começou há séculos atrás, muito maior do que só eu e ele. Eu não sei o que você falou pro Boruto, mas você entendeu errado. E falou errado pra ele, também, me ofende você sequer pensar que eu estaria tendo um caso escondido da minha família…!

— Se você diz que não fez nada, eu acredito. Juro! Você sempre foi muito correto, acho mesmo difícil você fazer qualquer coisa que machucaria alguém de propósito. Mas o que você faz ou deixa de fazer não muda o que você sente, não é? Meu pai não ama mamãe, disso eu não tenho dúvidas, foi só questão de tempo pra eu juntar os fatos. Pra ser sincera, eu já percebi faz anos.

— Sarada, escuta, as coisas não são do jeito que você pensa. Eu entendo de onde vem a sua confusão, mas você tá procurando respostas no lugar errado...

— Eu sei que meu pai te ama, Sétimo! Eu vejo isso, é muito forte!

— O que você sabe de alguma coisa?! Você tem só quinze anos e mal conhece seu pai! – Seu tom saiu de repente muito mais agressivo sem que planejasse. A garota abaixou os olhos com chateação e inspirou fundo em silêncio, Naruto apoiou os cotovelos sobre a mesa e voltou a massagear as têmporas. – Desculpa. Eu entendo seus motivos, mas… Você tá se intrometendo em assuntos que não compreende.

— Desculpa por isso, eu não queria causar nenhum conflito entre você e o Boruto, eu só achei que, talvez, se ele tentasse entender o seu lado... Bom, ele não costuma entender o lado de ninguém, aquele idiota, acho que foi cedo demais pra tocar no assunto.

Ele suspirou.

— O que exatamente você disse?

— Ahn... Ele tava reclamando alguma coisa sobre você estar ocupado demais vivendo sua vidinha perfeita e não ligar pra ele...

— E aí te ocorreu que falar que eu nunca amei a mãe dele e tenho um caso extraconjugal com o seu pai ia ser uma boa ideia?

— Quis dizer que sua vida não tá tão perfeita assim e o senhor também tá infeliz, mas... é, ele deve ter entendido mais por esse lado.

Naruto estalou a língua.

— Me parece que foi exatamente isso que ele entendeu. Quero saber como raios eu vou tirar essa ideia da cabeça dele, agora...

— É uma ótima pergunta, porque eu acho que a essa altura ele já comprovou por si mesmo. Ele não quis me ouvir quando eu falei, mas se ele acabou se convencendo...

— Não tem nada pra comprovar, Sarada. E você deveria me ajudar e ir falar com ele, também.

— Não acho que isso te ajudaria muito, Hokage-sama, nada do que você disse me convenceu.

— Eu já disse que não tem nada acontecendo entre o Sasuke e eu!

— Mas eu tenho certeza que ele te ama e tenho muitos motivos pra acreditar que você o ama também!

Naruto fez um sinal exasperado para que ela abaixasse a voz, Sarada se remexeu irritada na cadeira e cruzou os braços. Ele estalou a língua e coçou a cabeça.

— Eu já falei, nossa conexão não tem nada a ver com um romance bobo de adolescência, é coisa muito maior do que até nós mesmos.

— E isso não explica muita coisa, não? Citar umas estátuas quebradas e apontar seu braço não exatamente justifica meu pai fazer carinho em você enquanto ele não gosta nem de encostar na minha mãe.

— É uma longa história. – ele cortou desconfortável, voltando as atenções irritado para a papelada sobre a mesa.

— Bom, se um dia tiver um tempo pra me contar, eu sou toda ouvidos.

— Pergunte pro seu pai – disse-lhe seco – quando ele pisar por aqui de novo. Agora licença que eu preciso trabalhar.

— É só isso que você sabe fazer ultimamente, pelo jeito – ela retrucou emburrada se levantando da cadeira – Talvez é por isso que o Boruto também acha que você não ama a sua própria família.

— Não é justo você sair jogando os problemas da sua família pra cima da família dos outros! Se você acha que seu pai não liga pra sua mãe isso é problema do casamento deles e você resolva com eles. Minha relação com o meu filho já é conturbada o suficiente sem você criar mais conflito a toa!

— Quer saber, – ela vociferou – o Boruto tem razão sobre você!

Sarada virou as costas e saiu batendo os pés, fechando a porta às suas costas com grosseria. Naruto engoliu seco, e afundou o rosto nas mãos sentindo um familiar latejamento começar. As coisas não estavam dando sinal de resolução. Procurou na primeira gaveta um frasco e de dentro pescou um comprimido. O dia seria longo e a última coisa que precisa era uma dor de cabeça para atrapalhar ainda mais.



—///—



A garota apertou o nó do lenço que embrulhava o bentō e se apressou. Não tinha certeza se era culpa da mãe, que sempre ficava meio afobada e mais distraída que o normal quando o pai estava em casa, ou se ele mesmo houvesse deixado o pacote para trás, mas assim que chegou em casa viu o bentō esquecido sobre a bancada da cozinha e saiu correndo para levá-lo. Não fazia mais que meia hora desde que Sasuke havia se despedido das duas ao portão da Vila e saído caminhando, tinha esperanças de alcançá-lo se fosse rápida o suficiente.

Achava até gracioso, aquela ocasião era apenas a segunda vez que via o próprio pai (ainda que ele houvesse passado mais tempo treinando Boruto do que com ela), mas a primeira fora justo graças à desculpa de entregar um bentō que havia conseguido encontrá-lo. Daquela vez, todavia, estivera tentando entregar o almoço para o Sétimo. Estranhamente, foi o Sétimo a quem ela avistou primeiro, era difícil não reconhecer a blusa laranja destacando-se à distância. Ela parou de correr e se escondeu por instinto. Seu pai estava ali também, conversavam, mas estavam longe demais para ouvir. Imaginou que o Hokage também se esquecera de entregar alguma coisa, não seria surpresa vindo dele.

Estava prestes a deixar seu esconderijo e ir até eles, mas algo prendeu sua atenção. Seu pai abaixou a cabeça para guardar alguma coisa na bolsa e, quando se ergueu novamente, o cabelo lhe cobria o rosto. Foi quando o Sétimo levou a mão até ele e arrumou sua franja para trás da orelha. Sarada congelou com uma sensação estranha. Podia muito bem não ser nada, não precisava ser nada, certo? Eles eram amigos desde muito criança, pelo que sabia. Mas parecia ser alguma coisa. Estava de tão longe, talvez nem estivesse enxergando direito o que acontecera para ter certeza, mas parecia ter sido demorado demais, zeloso demais, íntimo demais… Uma curiosidade desconhecida a fez ficar e continuar observando. Eles conversaram mais um pouco, depois abraçaram-se. Sarada sentia um enorme comichão para ativar o sharingan, mas tinha certeza que, mesmo distante, eles notariam a presença de seu chakra se o fizesse, então esforçou-se para enxergar sem isso. O problema em si nem era tanto seu pai, dentre todas as pessoas do mundo, abraçar alguém com tanta naturalidade, por mais fora do comum que isso já fosse por si só, mas porque a luva preta destacava-se de longe contra a cabeça loura. Seu pai acariciando os cabelos do outro homem daquela forma quando ele mal conseguia se despedir dela - sua própria filha - sem ser estranho para ambos lhe dava, de repente, uma dimensão do quanto desconhecia sobre ele.

Os dois se afastaram devagar, pareciam estranhamente amuados, mas nada de estranho ocorreu além disso. Sasuke deu dois passos de ré, sem desviar os olhos, antes de se virar para ir embora e, quase assustando-se com a própria dispersão, a garota se lembrou do que viera fazer e deixou seu esconderijo para correr atrás dele.

— Papai! Espera!

Os dois se viraram para a garota ao mesmo tempo. Naruto abriu um sorriso extenso e acenou para ela.

— Sarada-chan!

Sasuke nada disse, mirou a filha com curiosidade e esperou que ela os alcançasse.

— Eu vim trazer seu bentō…

— Ah… — ele pegou o embrulho e o encarou por um segundo antes de guardá-lo na bolsa - Perdão, esqueci de pegar antes de sair.

— Mamãe ia ficar chateada se você não levasse, então… eu trouxe antes que ela percebesse.

— Obrigado...

— Não liga, não, ele é assim mesmo — o Sétimo comentou em tom de brincadeira — Se eu não fico aqui de tocaia, também, ele ia embora sem nem se despedir, acredita?

Sasuke deu uma risadinha anasalada.

— Pra que eu vou atrás de me despedir se eu sei que você vai estar aqui de tocaia de qualquer jeito?

O Hokage lançou a ele um sorriso contido e alguma coisa na troca de olhares entre os dois fez a garota sentir que não deveria estar ali. Uma ideia maluca passou pela sua cabeça, mas ela tratou de se repreender por sequer ter cogitado aquilo.

— Bom, vamos voltando, Sarada? — Naruto suspirou pousando a mão em suas costas.

— Hm-hum…

— Boa viagem, vê se não some por muito tempo!

Seu pai não respondeu, mas acenou aos dois e lhe deu um pequeno sorriso antes de voltar ao seu caminho. Era bom que o Sétimo fosse tagarela por natureza, porque a menina permaneceu quieta e pensativa demais por toda a caminhada de volta até a vila.



—///—




Boruto chegou em casa mais tarde que o normal, cumprimentou a mãe e a irmã e marchou de cara fechada para o quarto, ignorando o pai. Lançando um olhar preocupado à esposa antes de levantar-se do sofá, Naruto foi atrás do garoto.

— Filho, posso falar com você um minuto? – perguntou antes de entrar. Ele respondeu com um murmúrio e um olhar impaciente. Naruto entrou no cômodo e fechou a porta às suas costas – Eu falei com a Sarada hoje cedo...

— Foi destruir meu namoro também?

— Eu fui perguntar o que ela tinha te dito! – retrucou irritando-se – Já que você se recusa a falar as coisas pra mim, eu tenho que achar alguém que se disponha a explicar o que tá acontecendo.

— Eu poderia dizer o mesmo, não é? – Boruto ergueu-se da cama enfurecido – É verdade, o que ela disse, não é? Há quanto tempo você vem mentindo pra toda a sua família?

Naruto respirou fundo e procurou manter a calma. Encarou o filho nos olhos com firmeza, evitando transparecer qualquer traço de insegurança.

— Eu nunca menti pra ninguém, você tá sendo muito injusto comigo, tirando conclusões precipitadas...

— Eu tô sendo injusto? Depois de tudo o que a minha mãe fez por você e você nunca realmente amou ela! Esse casamento é só um fardo pra você!

— É claro que não! Claro que não! É muito injusto você me acusar assim, você não sabe o quanto eu amo vocês!

— Não parece, a maior parte do tempo parece que você vive de inventar desculpa pra não olhar na nossa cara…

— Eu tenho um trabalho, Boruto!

— Tem mesmo? Ou é só o seu álibi?

— Eu me esforço todo dia pra dar uma vida boa pra você e sua irmã! Se você tivesse um pingo de gratidão ia me agradecer por todos os sacrifícios que eu faço pra manter essa família bem...

— Essa família nunca esteve bem, pai, esse é o problema! Todo esse tempo você só fingiu que tava tudo bem e fez a gente fingir também pra parecer que a gente é feliz, mas ninguém aqui é! Minha mãe passa o dia inteiro sozinha em casa, você só vem falar comigo pra brigar! Se você odeia tanto assim estar aqui, vai embora! Não tá fazendo nenhuma diferença! Você mal pisa em casa, fica jogando desculpa no trabalho, mas antes de ser Hokage você arranjava outros motivos pra não ficar aqui! É missão, é papelada, é reunião, é alguém que precisa de ajuda em casa, parece que qualquer coisa é mais importante pra você do que eu... Do que a gente! A única pessoa nessa casa que você ainda dá atenção é a Hime, e só porque ela é muito legal pra jogar na sua cara o pai de merda que você é!

— Boruto, olha como você fala comigo!

— Vai fazer o quê? Eu não tenho medo de você! Você é que tinha que ter medo, minha mãe sabe que toda vez que o seu amiguinho vem pra cidade vocês dois saem pra trepar pelas costas dela?

— BORUTO!

A porta abriu com um estrondo, revelando Hinata com os olhos arregalados e apreensão estampada no rosto.

— Que gritaria é essa? O que tá acontecendo? – perguntou a mulher olhando do esposo ao filho com nervosismo.

— Eu ODEIO ele!— gritou o adolescente passando tempestuoso pela mãe, assustando-a, e correndo para fora.

— Boruto!— ela chamou antes de ouvir a porta da casa bater ao longe. Hinata voltou-se para o marido atônita – Naruto, o que aconteceu?

Ele encarou-a atordoado e passou as mãos na cabeça, procurando respirar fundo. As coisas estavam saindo bem diferente do que havia planejado e fugindo de controle rápido demais.


18 de Enero de 2019 a las 23:35 0 Reporte Insertar 6
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