Colcha de Retalhos Seguir historia

sr.-artie Sr. Artie

Em uma manhã ensolarada, enquanto visitava as ruínas do Templo de Afrodite, você surgiu em minha vida, não me dando escolhas além de me apaixonar por você. Contudo, com o tempo, as suas promessas e o seu jeito deturpado de amar fatiaram minha essência e me enclausuraram dentro do nosso apartamento, até que um dia eu consegui juntar meus retalhos e criar um colcha em que jurei jamais deixá-lo colocar suas mãos de novo.


Cuento Sólo para mayores de 18.

#sadfic #gatilho #relacionamentoabusivo #drama #angst
Cuento corto
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Capítulo Único: Colcha de Retalhos

Notas da História:

O enredo dessa história é de minha autoria; não copie, produza. Plágio é crime.

História betada pela Rebel Princess (Nyah - Liga dos Betas)

História baseada na música Bored da Billie Eilish

História postada no Wattpad, Nyah e SocialSpirit

Capa da História por Fellurian


Notas do Capítulo:

Gente, essa é minha segunda one original, estou contente com o resultado final. Antes da leitura, fiquei cientes que a obra aborda um relacionamento abusivo, dito isso, ela pode servir de gatilho, então pensem com cuidado antes de começar a lê-la.

No mais, espero que gostem.





Colcha de Retalhos

By: Sr. Artie

Capítulo Único


Excentricidade.

Por horas, busquei uma palavra capaz de definir aquilo que éramos e que, ao mesmo tempo, representasse você em sua completude. Enquanto os outros casais convergiam para um mesmo centro, destoávamos sobre eles, descrevendo uma órbita em torno de um padrão anômalo que cabia unicamente em nós. Diferíamos do normal, com a nossa própria originalidade.

A singularidade explicada pelos físicos, que compreende uma área do espaço-tempo, era a analogia perfeita para nos resumir. Ao estarmos juntos, as leis físicas eram ineficazes, porque a curvatura do espaço estendia-se além do infinito e o tempo deixava de ser um determinante, apenas eu e você importávamos - humanos experimentando o amor e acreditando que eram deuses; nos sentíamos eternos.

O fato é que, por muito tempo, éramos distintos, e eu amei essa qualidade nossa. Como prova de que significávamos o oposto do banal, nosso primeiro encontro fora incomum, quase excepcional segundo minha cabeça apaixonada da época.

O mundo prega e afirma todos os dias que Paris é a cidade do amor, mas eu e você caímos um pelo outro bem longe da França. Estávamos na Grécia, na cidade de Rodes, visitando as ruínas do templo de Afrodite, deusa da beleza e do amor, quando os nossos olhares se cruzaram, distorcendo toda a realidade em nosso entorno e nos premiando com um dos momentos mais intenso de nossas vidas.

Não me recorre à mente algum filme em que os personagens tenham vivido uma história de amor na Grécia, o país só era usado na cinematografia para retratar cenários de guerra durante a antiguidade. Os romances retratados nunca terminavam bem, principalmente ao se ter um deus envolvido. Talvez esse fosse um spoiler que deixamos escapar ou nossos olhos não conseguiam enxergar tão bem quando estávamos emergindo do mesmo mar que Afrodite surgiu, a espuma que deu origem a divindade possivelmente nos cegou.

Naquele dia, depois de nossos olhares se encontrarem, você permaneceu com sua atenção voltada para mim, embora não se chegasse para puxar assunto. A criação que recebi de minha mãe não me condicionou a ser o tipo de mulher que se mantém no canto à espera do homem em que ela está interessada. Fui ensinada para ir atrás daquilo que desejo, independente do que fosse, e, ali, eu queria você; então me aproximei.

— Desde menininha, Grécia antiga sempre foi uma de minhas paixões — disse me pondo ao seu lado, ainda fitando as ruínas.

Percebi que você quase saltou de susto pela minha aproximação repentina, isso me fez sorrir um pouco, porque sua reação meiga me fez mais cativa por ti. Gostaria antes de saber onde estava pisando, provavelmente não teria deixado me levar tanta vezes por um sorriso como aquele. Entretanto, pelo local que estávamos, desejei acreditar que era um plano divino, Afrodite finalmente estava me abençoando com suas dádivas.

Humanos dobram-se mais fácil que papel, caem em mentiras sem esforço algum e se moldam a elas com precisão. A maioria acredita na benevolência alheia, mesmo sem motivos para tal, e eu acreditei que Afrodite, naquele dia, estava me agraciando. Uma troca de olhar intensa e um sorriso foram suficientes para me fazer crer na bondade inexplicável de um ser divino, nunca me dando o trabalho de questionar o porquê de uma deusa decidir me ajudar. A minha arrogância me fez cair dentro do seu jogo e me custou anos para sair dele.

Com rapidez, você se recuperou do susto que havia te dado, me respondendo de forma tranquila:

— Também amo a Grécia desde que me entendo por gente. No começo, a cultura politeísta fora o que me chamou mais atenção. Era interessante conhecer cada um dos deuses e suas personalidades, reconhecendo os excessos e pecados humanos que eles, imortais, tinham — você ainda não olhava para mim e eu estava ansiosa para que seus olhos caíssem sobre os meus mais uma vez. — A outra coisa que me fez cair de amor fora a arquitetura, pensar que eles chegaram tão longe na construção dos templos, fazendo uso de longas colunas como base de apoio, detalhando à mão cada traço único, não tive escolha além de amar de esse país.

As palavras que saíram de sua boca me agradaram mais do que seu sorriso. Achava que meu interesse por ti não poderia aumentar até que te ouvi comentar sobre a arquitetura local.

— Você parece entender bem sobre as construções da Grécia Antiga.

Sua cabeça acenou positivamente e seus dentes foram revelados, formando um sorriso enorme, e só então você me respondeu.

— Sou arquiteto.

Depois de sua revelação, eu acreditei que o destino teria um plano divertido para nós dois. Alegre, falei.

— Eu também!

A conversa ocorreu naturalmente em seguida. Passamos o resto da visita colados e comentando as peculiaridades das construções e ninguém poderia decidir qual de nós estava mais apaixonado pela arquitetônica. Eu chutaria que você, porque eu estava ocupada me apaixonando por ti. Se antes eu tinha dúvidas se o acaso buscava nos unir, essas incertezas foram sumindo pouco a pouco enquanto gastávamos nosso tempo juntos em conversa.

A primeira surpresa foi saber que éramos da mesma cidade e que frequentávamos os mesmos locais. Não conseguia acreditar que jamais havíamos trombado um no outro e, por essa razão, estava mais certa que o destino estava interessado em nós. Talvez Afrodite e Fortuna tivessem se unido para nos trazer até aquele momento de pura sorte, pelo menos era o que eu julgava ser, mas nem todas as suas surpresas foram agradáveis.

Permanecemos o resto da trip pela Grécia juntos. O meu segundo momento favorito dessa viagem, contigo ao meu lado, era o de quando visitamos o Partenon de Atena e sua mão buscou pela minha, interligando os nossos dedos enquanto o seu dedão permanecia fazendo um carinho leve contra minha derme alva. Era um gesto bobo, mas eu estava apaixonada e qualquer coisa mínima tomava proporções gigantescas.

Interessante eu não ter notado na época, mas durante todo o passeio, você se manteve falando coisas acerca da construção do templo e comentando sobre a história da deusa da guerra justa e da sabedoria. Não tinha uma única informação que você me contasse que eu já não soubesse, embora tivesse conhecimento sobre mais alguns detalhes que você.

Contudo não me atrevi a te interromper. Nestes poucos dias, tinha notado como você gostava de ser o centro das atenções, então distraidamente, logo no início de nossa relação — na verdade, antes mesmo de termos uma —, comecei a me apagar para que você conseguisse brilhar mais. Aos poucos, comecei a morrer. Poderia chamar isso de suicídio? Talvez, mas não gosto da ideia de me culpar por causa de seus defeitos, eles não são culpa minha e não vou me responsabilizar pelo tipo de pessoa que você é.

No decorrer da viagem, não passamos da troca de carícias e do calor dos nossos corpos. Não tivemos declarações ou pedidos de namoro, estávamos somente vivendo a intensidade de nossa paixão e não nos atrevemos ir além disso naquele momento. No entanto, ao retornarmos para nossa cidade, continuamos nos vendo com frequência e eu estava cansada de esperar por um pedido que partisse de ti. Por mais que eu fosse do tipo que pede a pessoa em namoro sem problema algum, minha intuição me alertava que você não iria gostar de que fizesse isso contigo, então me contive; até que, em um desses encontros, te pedi em namoro. Lembro-me de sua reação atordoada, do seu rosto retorcido como se não acreditasse nas palavras que acabara de ouvir, mas não me importei.

— Sim, eu aceito — sua confirmação veio um tempo depois, um pouco incerta, só que não me importei. Sorri, me levantando da cadeira em que estava e correndo para te abraçar, envolvendo seu pescoço com meus braços e te beijando apressada. Seu desconforto não me incomodou, estava feliz demais para que sua conduta, já esperada por mim, tirasse o brilho de alegria dos meus olhos.

Inocência minha achar que conseguiria sempre me manter firme e inabalável diante de suas ações ou palavras desgostosas. Aquela não fora a única vez que consegui me manter forte e sobressair sua negatividade, porém foi uma das poucas em que venci e sou capaz de contar nos dedos das mãos quantas vezes foram. Discordar de você implicava em uma batalha e raramente eu ganhava; perder é tão desmotivante que cansei de lutar e deixei que você levasse todas.

A nossa primeira briga séria aconteceu quando eu fui convidada para trabalhar no grande projeto de um estádio. De todas as pessoas de minha vida, você foi quem escolhi para saber de antemão. Recordo-me do meu sorriso animado e do meu entusiasmo, mas, em momento algum, você me retribuiu ou fingiu estar, no mínimo, feliz. Sua única reação fora perguntar quem estaria trabalhando comigo, já que se travava de uma obra de grande porte e apenas uma pessoa ficaria muito sobrecarregada. Não estranhei sua pergunta, por isso te respondi, escutando, em seguida, o primeiro grito seu direcionado a mim.

A exclamação embebida de ódio veio quando te contei o nome do meu parceiro, era um ex-colega de classe seu, com quem teve desentendimentos no passado. Você enumerou vários motivos para que eu largasse aquele empreendimento, todos envolvendo seu desafeto, mas não aceitei nenhum deles. Abracei meu corpo com os braços ao ouvir seu berro, porém me mantive forte e continuei dizendo não. Eu já tinha largado meus amigos e desistido de minha vida social por sua causa, minha carreira não seria afetada.

Todavia, aquela era uma das batalhas da qual eu não sairia vencedora, sabia desde o início quando você não demonstrou a menor empolgação pela notícia que compartilhei. Por mim, pelo meu orgulho, fingi que estava lutando contra o assombro que você representava, mas nós dois tínhamos conhecimento que não passava de fachada.

— Você não vai e não vamos continuar com essa discussão estúpida — sua voz estava alterada e eu gritei quando sua mão atingiu a parede que se encontrava as minhas costas, passando perto de meu rosto.

Não tive a opção de me opor, você saiu de casa logo depois, deixando-me sozinha e atordoada, com um grito de medo preso no fundo da minha garganta, enquanto escorregava para o chão e caía no choro. Só que, mesmo que você tivesse continuado ali, não iria me opor a sua ordem, porque aquela era a primeira vez que você me vencia por meio da violência e eu não possuía forças para tentar me sobrepujar.

No dia seguinte, você surgiu com um buquê de flores e um pedido de desculpas. Sua voz estava calma e doce e suas palavras pareciam saber exatamente no que suas palavras do dia anterior me feriram, entretanto não funcionou, me mantive irredutível, não permiti que você exercesse qualquer persuasão barata sobre mim. Então escutei seu choro, bem diante de mim, você estava se desfazendo em lágrimas, repetindo que o remorso estava te corroendo e que não conseguiria ficar em paz até que eu te perdoasse.

Eu cedi, te dei meu perdão.

Nessa hora, você soube, eu não teria mais a menor das chances contra ti.

Desisti do meu trabalho, me enclausurei no meu apartamento, abrindo a porta apenas para que você entrasse e saísse. Depois do ocorrido, você passou a me tratar com mais zelo, ganhei vários presentes em um intervalo curto de tempo. Nós dois estávamos bem, as coisas estavam calmas e era o suficiente para mim, mas só isso duraria até o dia em que você se desapontasse comigo e ele não tardou a chegar.

Em uma semana qualquer, meus melhores amigos me visitaram. Descobri que ter alguma companhia além da sua entre as paredes frias daquele prédio era reconfortante e divertido, porém lógico que você discordou de mim quando te contei da visita surpresa que recebi.

— Pensei que já tinha sido claro sobre essas pessoas “amigas” não serem boas o suficiente para você.

Opus-me a sua opinião e defendi aqueles que estavam do meu lado desde a adolescência, foi quando o primeiro tapa veio e o primeiro roxão apareceu, consequentemente, fazendo com que eu mentisse para minha mãe — o que nunca tinha acontecido —  para te acobertar.

Logo cortei as relações com a minha família. Mamãe estava fazendo muitas perguntas sobre cada mancha roxa que destoava da minha pele alva e eu não estava mais conseguindo encontrar mentiras para te proteger, então preferi mantê-la longe. Você me convenceu que era o certo a se fazer e foi isso que fiz. Não restou ninguém na minha vida além de você. Aos poucos, sem que eu percebesse, perdi todas as pessoas em quem poderia me apoiar ou clamar por socorro. Um soldado não pode vencer uma guerra sozinho, você sabia disso, então tirou meus reforços e decretou sua vitória.

Através da coerção, você me derrotou sempre que desejou. Colocou-me para baixo, me ameaçou e me fez refém dentro do nosso relacionamento. Sozinha, trancada e esquecida dentro do meu apartamento, eu vivi os piores anos da minha vida. Teve dias em que sufoquei de angústia e cogitei pôr um fim a todo aquele calvário, porém o medo de ti me impediu de ir em frente, de sair de casa e pedir ajuda.

Continuei parada no mesmo lugar, vendo dia após dia o ciclo se repetir. Brigávamos e, às vezes, você me batia, saindo de casa em seguida, enquanto eu permaneci para trás, coletando os meus cacos. Com o tempo, estava tão quebrada que os remendos criados por mim já não mais seguravam os meus estilhaços. Semelhante às ruínas do templo de Afrodite, onde nos conhecemos, não havia mais como me restaurar, não se eu continuasse ao seu lado. Eu sabia disso, mas fugir era impossível quando todas as suas ameaças soavam altas, como sirenes em aviso do que me aconteceria se partisse.

Ninguém pode salvar alguém que não tem o desejo de ser salvo e, por mais que eu desejasse todos os dias me livrar de sua crueldade, a única pessoa que poderia fazer isso por mim era eu mesma e esse dia demorou, mas há a promessa de que o sol sempre aparece depois de uma tempestade e ele surgiu para mim, iluminou o meu céu e afastou a monstruosidade que você era.

Existe uma razão para um país comemorar sua independência todos os anos: é essencial celebrar e relembrar sempre a importância dos eventos que sucederam nossa liberdade. Eu comemoro mensalmente o dia em que tomei a decisão de te largar e ela foi a melhor escolha que fiz na minha vida.

Fadigada da nossa rotina tóxica, em um dia, revirei meus pertences antigos e encontrei um diário velho de quando era uma criança sonhadora. Não tenho certeza de como meus olhos úmidos pelas lágrimas conseguiram ler o conteúdo de uma página específica, mas fora o que havia escrito ali que me salvou.

Com uma caligrafia desleixada e um português impreciso, uma menina tinha escrito que, quando chegasse à maturidade, desejava ser a maior arquiteta da sua cidade e o bem mais precioso de sua mãe. Desejava encontrar o amor de sua vida de uma forma inesperada, não queria aquela melação toda dos filmes, no entanto, a pessoa com quem escolheu dividir a sua vida deveria ser o seu parceiro para todos os momentos, porque não aceitaria ter um relacionamento sem a cumplicidade que o de seus pais tinha.

Percebi que a menina que eu era não teria o menor orgulho da mulher que me tornei, tinha decepcionado a única pessoa com quem não deveria falhar: eu.

Nos anos do nosso relacionamento, contando as inúmeras vezes que você fez com que me sentisse sem valor, eu jamais chorei como naquele dia, com meu antigo diário em mãos. Molhei as folhas finas e amareladas, borrei a escrita descuidada e permiti que aquele choro limpasse de mim os vestígios de seu veneno. Me purifiquei de você ali mesmo e, pela primeira vez desde que você havia me convencido que me isolar do mundo era a melhor opção, abri a porta e, desacompanhada de sua presença, saí.

As primeiras pessoas que procurei foram meus amigos. Escutei as vozes assustadas e surpresas deles ao atenderem a ligação de um telefone público e escutarem o meu timbre do outro lado. Eles me pegaram na rua, me levaram para casa de um deles e me ouviram contar os anos de abuso que sofri. Não cheguei a contar tudo, porque a campainha soou alta e desesperada e, quando minha amiga abriu a porta para atender quem estava do lado de fora, você rompeu para dentro da casa alheia, berrando meu nome.

Eu tremi ao te ver ali, irado. Contudo, quando notei que estava rodeado de rostos familiares e de pessoas com quem poderia contar, você deixou de me causar medo. As palavras raivosas que estavam sendo esbravejadas contra mim já não surtiam efeito, te ouvir me diminuir passou a causar um resultado oposto, engrandeci naquela sala e finalmente coloquei para fora o amargor que você me fez provar. Depois de um extenso período sendo silenciada, encontrei minha voz para poder me defender de você.

Convicta em não permitir que suas mãos jamais tocassem em minha pele e que sua voz nunca mais soasse mais alta que a minha, falei:

— Os jogos que você praticava comigo não eram divertidos — tentei manter a voz baixa e calma, mas a sensação de liberdade e de soberania me embriagaram e logo meu tom aumentou e as palavras voavam para fora de minha boca, vorazes como um ninho de vespas. — As mentiras que me foram contadas por ti e as promessas que nunca foram cumpridas me destruíram. Na nossa relação, eu não fui levada em consideração, somente você importava.

Óbvio que você não permaneceria calado enquanto eu te desafiava, demonstrando que o seu poder sobre mim, embora ainda existisse e levasse um longo tempo para sumir, não continuaria me fazendo cativa. Sua obsessão sobre mim não perduraria, tinha demorado anos e custado vários pedaços da minha essência, mas você não iria me apequenar mais um vez. A única coisa que você receberia de mim seria meus nãos, seria isso que levaria consigo ao partir.

— Não ouse subir seu timbre comigo — e lá estava sua arrogância, a empáfia cravejada em seu rosto soberbo. — Não agrave a sua situação porque está na presença dessa gentinha que te cercou por toda a sua vida. Pare de se achar grande, você não é.

Tinha algo sobre ti que sempre vi, mas tapei meus olhos qualquer uma das vezes em que meu cérebro registrou seu comportamento pedante: sua postura constantemente era insolente, impregnada de petulância e cinismo. Em virtude disso, estava você ali, na casa de outra pessoa, alguém que sequer conhecia, diminuindo-a pelo simples fato de ela não ser alguém de seu agrado.

Meu amigo, dono da morada, exaltou-se, com razão, pelo seu comentário desrespeitoso e tentou te calar à força, mas você recuou um passo. Violência só era um caminho para resolver as coisas se seu oponente fosse menor que você, como eu era.

— Cala a droga de sua boca e se mande daqui! — Bradou meu amigo. — Você não é um convidado aqui e eu não vou suportar algum desaforo vindo de alguém podre como você. Saia!

Um dos seus piores defeitos era não saber escutar a opinião da qual você discorda. Assisti, no decorrer de nossa relação, você gritar com qualquer um que ousasse se opor àquilo que tu defendia, nem mesmo sua mãe escapou de seus berros mal-educados e machistas. Demorei um tempo para reconhecer aquilo que você era e mais um pouco para conseguir chamá-lo adequadamente, mas é importante dar nomes às coisas, então estava te nomeando, te distinguindo, enfim, reconhecendo sua natureza perversa.

— Te dei o que você disse que eu precisava! — Berrei. — Cada coisa que me implorou e mais, me fragmentei e te ofereci meus retalhos, tudo em nome do amor que você me prometeu sentir — recriminei. — Mas sempre que me machucava, você corria e, logo em seguida, voltava pedindo perdão e jurando que ficaria ao meu lado — acusei, sentindo a garganta apertar e arder  devido à mágoa e ao choro que tentava segurar ferozmente.

— Fiz tudo isso por amor! — Anunciou alto e eloquente.— Você sabe que te amo, meu único desejo é protegê-la  — eis sua última cartada, aquela que sempre me fazia continuar contigo, porém eu não tornaria a desapontar a menina que fui, não mais.

— Nunca quis acertar nenhuma pontuação — quase sussurrei, cabisbaixa —, só desejei o seu amor de graça, mas você cobrou um preço alto para que pudesse me amar e, mesmo assim, falhou nisso.

Custava para mim aceitar que você sequer chegou a pensar que essa situação fora justa. Eu não tinha mais medo de ti;  naquele ponto, só queria que você me libertasse.

Eu não te queria mais e só desejava que você entendesse isso.

Te faltou recursos para me fazer sua prisioneira novamente. Rebaixar-me a ponto de eu me sentir desvalorizada sem você e mentir para me ludibriar com suas palavras doces já não eram mais armadilhas capazes de me aprisionarem. Devagar, invalidei seus truques e anulei a autoridade que provinha de ti.

Então, percebi seu rosto vermelho e os seus olhos úmidos, um prelúdio da choradeira que estava por vir. Sempre que eu conseguia me sobrepor aos seus artifícios, existia algo que ainda me mantinha ligada a você: seu choro. Nenhuma das vezes que você desmoronou diante de mim, desesperado e necessitado de mim, eu consegui resistir.

— Por favor — pediu angustiado, permitindo que as lágrimas vertessem pelo seu rosto —, volte comigo. Vamos embora para nossa casa, nosso lar. Você não pode jogar fora tudo o que construímos com tanta facilidade.

— Aquele apartamento nunca foi meu lar, ele era a sua prisão e eu, sua prisioneira — esclareci.

— Você precisa de mim, só te restou eu na sua vida — sua voz quebrantada mostrava sinais de ressentimento e, outra vez, você mentia. Eu não precisava de você, era o oposto disso. Era verdade que você quase havia conseguido me isolar, mas eu estava cercada de amigos e minha família me aceitaria de volta quando eu voltasse, mamãe me perdoaria.

— O que te faz ter certeza de que é tudo que preciso? — Perguntei, exasperada. A pressão que o choro preso em minha garganta fazia, sumiu, e a ira causada pelas mentiras que chegavam em sibilos baixos em meus ouvidos, inundou-me. — Todas as vezes que você foi embora e me deixou despedaçada, isso me ensinou a viver sem ti. Sozinha, por todo esse tempo, estive me salvando. Só me responda uma coisa: não está vendo que eu estou ficando entediada? Estou vazia! — Declarei aos gritos. — A fadiga venceu nossa relação, finalmente ela se rompeu e sou grata ao universo por isso.

Minhas últimas palavras te atingiram mais fortemente do que eu achei que iriam, em seus olhos, a fúria que os dominava sumiu, dando lugar  à opacidade da derrota, reconhecendo que tinha perdido seu domínio sobre mim.

Sem a arrogância que emanava de ti, com o orgulho quebrado e presunção desfeita, assisti, liberta, sua figura derrotada, com o rosto manchado pelo choro fingido, de ombros caídos e olhar voltado para o chão, sair da casa que você havia praticamente invadido. Você venceu quase todas as batalhas, mas eu tinha ganhado a guerra. O sabor da vitória nunca me foi tão gostoso.

Agora, com mais calma e, certamente, mais feliz, estou relembrando esse passado obscuro porque hoje comemoro um ano da minha independência. 365 dias que o meu eu criança salvou o meu eu adulto. No fim de tudo, fui minha própria heroína.

Indo de encontro às possibilidades mais óbvias, resolvi celebrar minha liberdade exatamente onde nos conhecemos. O dia em que você partiu da casa da minha amiga não foi o último que fui procurada por ti e isso me fez perceber que me livrar por completo de você levaria tempo. E levou. Durou meses em que precisei me reconectar com a criança sonhadora que eu era, aquela menina empoderada e consciente, conhecedora de si mesmo. Por isso voltei aqui, para cortar as primeiras raízes que você plantou em mim e, enfim, ser alguém liberta.

Também há outro motivo, retornei para me desculpar com Afrodite, por dormir em cima da história da deusa e resumi-la a um encontro destinado entre dois amantes. Ela estava bem acima disso.

As pessoas associam Afrodite apenas a beleza superficial e ao amor romântico esquecem que a divindade surgiu da espuma marítima, nascendo do desabrochar de uma concha, nua e bela, livre e selvagem como o mar de onde brotou. Para tanto, a deusa representa algo bastante importante, algo que, enquanto permaneci ao seu lado, me esqueci: amor próprio.

Por essa razão, é preciso frisar e pontuar diariamente que, apesar de você, triunfei. Estive tomada pela dor do seu amor por um período extenso e depois pelo tédio de te amar, mas, enfim, estou embriagada com a melhor sensação: a de me amar.


15 de Enero de 2019 a las 21:19 0 Reporte Insertar 2
Fin

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