Her name is Seguir historia

lu-inoue1541002911 Lu Inoue

Quando nos encontrávamos ela nunca tinha mudado nada nem mesmo as roupas. No começo eu era pequeno demais para entender e questionar, mas há medida que o tempo foi passando eu comecei a entender, tinha total consciência de que aquela garota sem nome, já não pertencia mais ao nosso mundo, algo de sobrenatural havia nela.


Cuento Todo público.

#demonio #bosque #floresta #lenda-urbana #sobrenatural #drama #romance
5
3451 VISITAS
Completado
tiempo de lectura
AA Compartir

Her name is...


Quando eu era pequeno costumava passar os finais de semana nas montanhas com minha mãe. Meu pai  trabalhava  como detetive policial e quase não parava em casa, e meu irmão mais velho havia falecido em um acidente de carro fazia pouco tempo.

Minha mãe entrou em estado critico depressivo, deixando-nos apreensivos e, com medo de que ela fizesse uma besteira, a levamos no médico e este orientou a convivência com a natureza, porém quem fazia isso era eu, pois ela se dopava de remédios e dormia o final de semana inteiro.

A cidade de Hakone era nosso destino todo o final de semana. Havia uma senhora idosa que tomava conta do chalé onde nos hospedávamos, ela cuidava da nossa alimentação e conforto. Com mamãe medicada o dia todo, não me sobrava muita opção a não ser passear pela aldeia conhecendo cada cantinho daquela cidade.

Devo admitir que também estava abalado pela morte  do meu irmão, havia uma sensação de vazio no meu coração e doía cada vez que eu pensava nele. Queria que ele voltasse, nossa casa era solitária, triste e vazia sem a sua presença, os nossos dias se passavam lentamente e... meus pais pareciam sem vida. Cada canto que eu olhava me lembrava dele, nossas brigas e brincadeiras, lágrimas e risadas.

 Naquele dia enquanto voltava para a pousada, minha mente infantil se encontrava confusa, tive o vislumbre de o ver parado na entrada de uma floresta, sorrindo em para mim Fui a sua direção e ele correu para dentro do bosque, não perdi tempo, o segui correndo, desejando tê-lo de volta.

A cada passo eu me distanciava mais da aldeia, o chamei inúmeras vezes e ele não me escutava. Acabei me embrenhando naquela mata. De repente ele parou encostado em um tronco velho, estava prestes a alcançá-lo, porém acabei caindo em uma armadilha para urso, prendendo a minha perna direita.

Meu Kami como estava apavorado naquele dia! Encontrava-me escondido em meio a densas flores, um lugar completamente impossível de ser encontrado por alguém. Uma sensação de pânico tomou conta do meu corpo, comecei a chorar desesperado, implorar por socorro, mesmo as hipóteses de ser encontrado serem nulas.

Eu era apenas um garotinho de seis anos, amedrontado, assustado e ferido. Para piorar tudo minha perna doía demais, o sangue escorria como se fosse um rio e, as pontas cortantes da armadilha estavam quase perfurando a carne. Eu gritei pela minha mãe e por ajuda, mas parecia estar isolado do mundo, o que me restava naquele momento era esperar a morte se aproximar para me levar ao encontro de Osamu.

Quando o desespero e o cansaço me abateu, os meus movimentos começaram a ficar mais lentos e a visão completamente embaralhada, consegui ainda enxergar uma garota em meio aquela mata, ela usava uniforme colegial de verão, a saia era verde e a blusa branca, os cabelos eram lisos e longos na altura da cintura, usava óculos redondo. Foram poucas características dela que consegui vislumbrar antes de desmaiar, ela poderia ser o anjo que veio me buscar para o céu.

Não sei por quanto tempo fiquei desacordado, só sei que quando acordei estava deitado em um colchonete baixo, num local escuro e assustador, pisquei algumas vezes tentando recobrar a consciência, notei que minha perna estava enfaixada. Com o olhar forçado em meio à penumbra eu a procurei, uma trêmula, luz de vela foi acesa.

Olhei amedrontado, para a garota a minha frente, a mesma deveria ter entre 15 a 16 anos, ela me ofereceu água em uma espécie de cuia, estava com muita sede e acabei aceitando. Fechei os olhos novamente e só me lembro de depois ter acordado na floresta próximo ao chalé onde estava hospedado.

O sol estava se pondo quando retornei para o chalé, ninguém perguntou sobre a faixa que estava em minha perna, tudo continuou normal. No dia seguinte sai pela vila à procura da garota, pedi minha mãe algumas moedas, passei na pequena e única, mercearia que havia na cidade e comprei um confeito, escolhi uma caixinha bonitinha para que a senhora colocasse o doce.

O grande problema era “como achar aquela garota?”. A aldeia era pequena, mas como estávamos no fim de semana não tinha escola então não teria como guardá-la na saída.

Andei a manhã inteira a sua procura, vi muitas moças da sua idade, mas nenhuma com as mesmas descrições. Retornei para o chalé perto da hora do almoço, na parte da tarde continuei a andar, sentei em um jardim bonito em uma praça central da cidade.

Os jovens do local pareciam se concentrar todos ali, mas ela não estava entre eles então voltei para onde estava hospedado e a noite voltamos para nossa casa em Tamachi.

Eu precisava de alguma forma agradecer aquela garota, acho que a fixação em encontrá-la em algum canto daquela cidade tão pequena, acabou me fazendo mais distante da ideia da perda do meu irmão.

Passei a semana toda pensando em como encontrá-la, talvez ela fosse muito pobre e morasse sozinha naquela cabana no meio da floresta? Era uma forte hipótese na minha mente infantil e aventureira.

Quando a sexta chegou, minha mãe pegou um metrô para o lugar onde eu tanto esperava ir, fixei minha atenção na janela e fui imaginando o que aquela moça teria em sua cabeça para morar no meio do mato e em um lugar tão assustador. Estava tão empolgado com a ideia de encontrá-la e agradecer, teria que comprar outro confeito, obviamente.

Chegamos ao início da noite no chalé, a senhora idosa, nos esperava com uma deliciosa refeição, jantamos e fomos descansar, a viagem havia sido longa e cansativa. Minha excitação era tanta que no dia seguinte acordei mesmo antes do sol raiar, mas tive que permanecer no quintal, pois não havia movimento algum na cidade e poderia ser perigoso sair sozinho naquele horário.

O tempo passou e o dia clareou bonito, com um céu sem nuvens, tomei meu café da manhã e segui meus planos, passei na mercearia e comprei um confeito, escolhi uma bela caixinha e me embrenhei na floresta a procura da garota que me salvou. Imagine o perigo, uma criança de seis anos em uma floresta densa e repleta de riscos, poderia me machucar novamente como naquele dia, só que não estava preocupado, só queria encontrar aquela garota novamente.

Andando mais um pouco encontrei a cabana antiga onde parecia ser sua casa. Era uma casinha de madeira antiga e bem tradicional, a pintura já nem existia mais, as janelas estavam sujas e com partes quebradas, parecia saída da era feudal. O silêncio pairava no ar, sendo quebrado apenas pelo cantar dos pássaros. Engoli um pouco de saliva, me aproximando, um pouco amedrontado, mas orgulhoso de mim mesmo por ter encontrado aquele local.

Ergui a mão a fim de bater na porta, uma vez que não sabia por quem chamar, mas antes que eu batesse a garota apareceu do nada bem ao meu lado.

— Não deveria estar aqui… — Ela sussurrou com o vento.

    Recuei alguns passos para trás, completamente assustado com sua aparição repentina, mas em um impulso enfiei uma das mãos ao bolso e tirei a caixinha com o confeito. Ela estava parada de frente para mim, as linhas do seu rosto estavam em uma expressão severa, parecia mesmo que não gostava de pessoas, talvez por isso morasse sozinha.

    Era agora ou nunca, estendi o singelo presente que tinha trago.

— E-Eu só queria agradecer por ter me ajudado. Sinto muito por ter vindo, aceite isso, por favor! — Ofereci e mantive a cabeça baixa, torcendo para que ela aceitasse, por sorte senti suas mãos geladas, tocando as minhas, ao pegar a caixinha.

— Isso é… — A garota sussurrou encantada com a caixinha. — É como se isso me trouxesse alguma lembrança.

— Talvez você tenha visto na mercearia.

— Mercearia? — Olhou confusa.

— É, na cidade, sabe?

Ela ficou com o olhar perdido por algum tempo e depois voltou a sua expressão severa de antes.

— De qualquer forma ficarei com isso, mas quero que saia daqui, essa floresta está repleta de perigos. Volte para onde veio e não me procure mais.

— Você não vai comer? — O que eu estava fazendo, ela me dava muito medo.

— Comer?

— Sim, aí dentro tem um confeito, talvez você goste.

— Comer… — Olhou confusa para a caixinha, mas a abriu e pegou o confeito, parecia nunca ter visto um em sua vida. Quando ela comeu, seu rosto se iluminou. — Isso é incrível!

— Nunca comeu um doce antes?

— Eu não sei… — Respondeu olhando para a caixa, como se desejasse que houvesse mais.

— Como é o seu nome? — Perguntei e ela ainda continuou perdida olhando para a caixa do doce.

— Nome? — Olhou para mim e piscou algumas vezes. — Eu não sei… — Mas logo seu rosto se fechou em uma expressão séria e ela falou ríspida. — Eu sei é que você deve voltar agora. É perigoso ficar aqui.

    Achei melhor obedecer, me despedi com uma reverência e virei de costas, olhei para todas aquelas árvores e aquilo pareceu um labirinto, ela pareceu ler meus pensamentos.

— Vou te levar para fora daqui!

    Seguimos pela floresta, ela ia à frente, ainda encantada com aquela caixinha boba que nem eu sendo tão novinho tinha achado tanta graça. Estava extremamente frio, eu estava agasalhado e ainda sim tremia muito, mas ela não estava com o mesmo uniforme e notei que não usava sapatos.

— Você não sente frio? — Perguntei curioso.

— Não. — Foi direta e seca. — Siga por ali e chegará ao lugar de onde veio, nunca mais entre aqui, este lugar é extremamente perigoso. — Alertou convicta, dando as costas e começando a correr, seus cabelos lavanda esvoaçando e destacando em meio a todo aquele verde.

— E não é perigoso para você? — Perguntei o mais alto que consegui e ela freou e estacionou no mesmo lugar.

— Eu sou o perigo que habita esse lugar, garoto! — Me olhou por cima do ombro.

Depois desse dia você deve estar pensando que eu fiquei morrendo de medo e nunca mais voltei, mas sabe o que acontece quando você pede para uma criança ficar longe da tomada ou do fogo? Pois é, eu não a obedeci e no final de semana seguinte voltei a procurar por ela e levei mais confeitos.

No começo ela foi hostil e arredia, mas eu tinha tocado no seu ponto fraco que eram os doces, então começamos a passar muito tempo juntos, eu saia de manhã levava um obento e passava o dia todo conhecendo a floresta, animais e lugares, mas ela não tinha um nome, não tinha família, não tinha nada?

Enquanto isso mamãe pareceu reagir de forma positiva, aos poucos parou de se dopar de remédios e ficando cada vez melhor. Dessa forma começamos a ir menos vezes para aquela cidade, passou a ser duas vezes por mês, uma vez por mês, até chegar a ser de ano em ano e nesse período eu criei um hábito de escrever diários para levar para a minha “amiga da floresta”.

Quando nos encontrávamos ela nunca tinha mudado nada nem mesmo as roupas. No começo eu era pequeno demais para entender e questionar, mas há medida que o tempo foi passando eu comecei a entender, tinha total consciência de que aquela garota sem nome já não pertencia mais ao nosso mundo, algo de sobrenatural havia nela.

Aos meus doze anos eu achava maravilhoso como aquela garota ficava feliz ao receber meus diários para ler, ela dizia que era maravilhoso poder ver o mundo através dos meus olhos, seu gosto por doces ainda era grande.

Aos treze anos comecei a ver filmes e ler livros sobre criaturas sobrenaturais, eu lia todo o conteúdo que conseguia encontrar, cheguei a criar um blog. com nome falso. para escrever sobre isso e para receber histórias e contos.

Aos quatorze anos as garotas começaram a se declarar para mim, me davam chocolates, deixavam cartinhas no meu armário, então me peguei pensando que nenhuma delas era tão interessante quanto a garota sem nome. Ela tinha todos os meus pensamentos. Quando mamãe decidiu não ir mais para aquele chalé, eu anunciei que iria sem ela.

Aos quinze anos eu estava lá do lado dela e ainda era a mesma, já éramos tão íntimos e ao mesmo tempo tão distantes, então ela me olhou com seriedade, depois de um dia inteiro matando a saudades, e me disse:

— Não quero que venha mais aqui. Essa tem que ser a última vez.

— Se eu tivesse te obedecido, olha o tanto de coisas que não viveríamos juntos.

— Eu sei, fico feliz que não tenha me obedecido, porém, agora você não é mais criança e nada pode te proteger.

— Me proteger do que?

— De mim… — Ela estava extremamente séria, como nunca vi antes. — Você tem que me prometer.

— Não posso.

— Eu não quero machucar você.

— Então não machuque.

— Não posso controlar isso.

— Eu posso descobrir uma forma, tenho estudado sobre essas coisas.

— Essas coisas? — Perguntou confusa.

— Sobre criaturas sobrenaturais. Sabe me dizer o que é você?

— O que eu sou? — Ela olhou para a floresta e em seguida voltou seus âmbares expressivos para mim.

— Sim, porque eu nunca vi um youkai usar óculos. — Brinquei

— Isso não te assusta? — Perguntou me olhando nos olhos.

— Seus óculos? Não, até acho um charme. — Era para ser uma brincadeira boba, mas aquela simples frase me fez sentir como se todo sangue do meu corpo tivesse subido para minha face.

— Sabe do que eu estou falando. — As cores alaranjadas da tarde, coloriam seu rosto e cabelos. — Sou uma criatura sem nome, sem passado, da qual você pouco sabe. Eu li no seu diário, li nos livros que me trouxe, as pessoas têm nomes, sobrenomes, elas tem todo um passado, mas eu não tenho nada e eu não sei responder a sua pergunta, não sei te dizer o que eu sou.

— Não importa. Você é minha amiga. Eu encontrei você quando perdi alguém muito importante para mim e não era enxergado pelos meus pais. Você não precisava ter me ajudado aquele dia na floresta, mas ajudou. Não importa quem você é na vida ou que você tem, mas sim quem você tem… — E a vi baixar as barreiras por um breve momento, acariciei seu rosto gelado, tão próximo ao meu. — E você tem a mim agora. — E fui tomado de uma ousadia que não reconheci em mim, e em um impulso colei nossos lábios em um beijo terno.

Sua boca era tão gelada quanto sua pele, mas ela estava rendida, a envolvi em meus braços e minha língua pediu passagem entre seus lábios, para minha surpresa ela cedeu, o encontro entre as nossas línguas fez com que uma violenta onda de choque percorresse por todo meu corpo, com certeza uma das melhores sensações que já havia sentido na minha vida. Ficamos perdidos naquele beijo macio, molhado, escorregadio.

Ela rompeu o beijo, completamente atordoada.

— É PERIGOSO… NÃO CHEGA MAIS PERTO DE MIM, NÃO ENTRA NA MINHA FLORESTA! — Ela começou a dar passos longos para trás, estava atordoada. — VOCÊ NÃO ENTENDE, NÃO ENTENDE VOCÊ NÃO É MAIS CRIANÇA, NÃO PODE MAIS FICAR PERTO DE MIM OU VAI SER DEVORADO COMO OS OUTROS.

— De-vo-ra-do? — Repeti confuso, enquanto ela se virava e saía correndo, sumindo por entre as árvores.

Aquele foi o último dia em que a vi. Se eu a obedeci? Nunca, definitivamente, mas todas às vezes que eu entrava na floresta, parecia ficar andando em círculos e acabava voltando para o ponto onde entrei. Comecei a pesquisar o máximo sobre ela, fiz perguntas e mais perguntas para quase todos na cidade, queria saber se mais alguém a tinha visto, acabei descobrindo que eu era falado na cidade, as pessoas julgavam que eu era maluco, esses rumores foram parar nos ouvidos dos meus pais e eles acabaram me proibindo de ir para aquela cidade.

Continuei minhas pesquisas sobre seres sobrenaturais e não havia um dia que eu não se lembrasse dela, não se lembrasse daquele beijo e de como ela baixou suas defesas para mim por alguns momentos e se rendeu. Eu não era louco, mas o mundo todo parecia querer me convencer disso. Consequência disso foi que as minhas notas caíram muito na escola, meus pais foram chamados, foi encaminhado para um psicólogo, que concluiu que a garota sem nome, era criação da minha mente, para superar a perda do meu irmão, Osamu, e a negligência dos meus progenitores. Uma faxina foi feita em meu quarto, livros, matérias, pesquisas, tudo sobre o mundo sobrenatural foi deletado, queimado, jogado fora. Passei meses sendo medicado e tratado como se fosse doente mental.

Aos dezesseis anos já tinha aprendido a jogar o jogo deles, nunca mais foi tocado o assunto e se alguém tocasse eu dizia que a garota sem nome, era algo da minha imaginação e que já havia superado. Eu aprendi a mentir muito bem, só dessa forma conseguia esconder as minhas emoções e pensamentos em relação a isso.

Com dezessete anos terminei a escola e me formei com mérito, fui orador da turma no dia da formatura, deixando todos felizes e orgulhosos. No outro ano comecei o curso preparatório para a academia militar. Estava buscando um meio de poder voltar àquele local e ter autoridade para perguntar sobre o que eu quisesse sem ser taxado de louco e assim me tornei investigador.

Os anos passaram, fiz todo o curso da academia militar e aos vinte e quatro eu já era investigador da polícia de Tóquio. Morava sozinho num apartamento no centro da cidade, sem meus pais por perto pude voltar com tudo as minhas pesquisas sobre as coisas sobrenaturais, tanto que tinha uma sala repleta delas, àquilo era meu segredo, todas as minhas folgas e horas vagas eram dedicadas aos meus estudos, eu sabia que ela estava lá naquele lugar, sabia que mesmo dizendo que não eu tinha que voltar.

Eu só não sabia como voltar ainda, não tinha achado uma deixa. Na verdade ainda era doloroso me lembrar dos risos e deboches daquela gente, óbvio que muitos anos se passaram, mesmo assim… Quando havia perdido um pouco das esperanças, meu parceiro Motomiya Daisuke, chegou com um jornal e este continha à notícia do misterioso desaparecimento de jovens formandos, exatamente naquela floresta. Aquilo era um sinal, estava na hora de voltar naquela cidade e encontrá-la mais uma vez.

Nunca estive tão animado para investigar um caso.

Daisuke tinha se tornado quase um irmão para mim, ele notou minha empolgação e começou a perguntar até que acabei contando toda história, para minha surpresa ele acreditou ou fingiu muito bem, mas acabou se empolgando bastante com o caso e teve a ideia de chamar um amigo nosso, Joe Kido, para fazer um retrato falado da garota, como ela usava um uniforme nós a encontraríamos em algum registro escolar.

Tendo o desenho em mãos, partimos no mesmo dia para a cidadezinha, chegando à noite, nos hospedando na mesma pousada de anos antes, porém aquela senhora idosa não se encontrava mais e sim uma moça bem mais jovem. Na manhã seguinte começamos nossas investigações, por sorte o povo de lá pareceu não ter me reconhecido, deixei Daisuke na biblioteca, lendo os livros de anuários escolares e fui até a mercearia da cidade comprar algo para comermos.

Os confeitos estavam especialmente lindos aquele dia, não resisti a comprar alguns, mas o mais bonito eu escolhi e pedi uma caixinha bonita, a mais bonita de todas. Depois de tantos anos voltei naquela floresta, nada havia mudado, tudo continuava a mesma coisa. Caminhei até a casinha de madeira, entrei a procurando por todos os lados e nenhum sinal dela, saí e continuei andando em círculos pela mata, a cada árvore que cruzava o meu coração palpitava querendo sair do peito, com esperança de que ela aparecesse para me dar uma bronca, mas infelizmente não aconteceu, acabei voltando, decepcionado, para o mesmo lugar que entrei.

Suspirei pesaroso retirando a caixinha do bolso, passei as pontas dos dedos por cada detalhe imaginando o seu lindo sorriso ao ver aquele presentinho. Depositei um beijo sobre a mesmo e o coloquei ao pé de uma das árvores, “onde quer que você esteja, aceite isso, por favor”.Saí de cabeça baixa, derrotado, com lágrimas atrevidas ardendo em meus olhos, embaçando minha visão e rolando por minha face,  sem permissão.

Ergui minha cabeça limpando as lágrimas, uma pessoa estava em minha frente, mais especificamente, era a senhora da pequena mercearia, a mesma que há anos me vende àqueles confeitos e os coloca em belas caixinhas para mim.

— Por favor, só você pode acabar com isso! — Seu tom de voz era desesperado, assim como sua expressão facial.

— O que? Do que a senhora está falando? — Estava atordoado, balancei a cabeça algumas vezes.

— Você era só um garotinho não é? Fez amizade com o demônio que habita essa floresta, levava os doces da minha loja para ela, como oferenda…

— Ela não é um demônio, senhora e não eram oferendas, eram presentes.

— É você mesmo. Eu sabia, foi Kami quem o mandou de volta.

— Há anos atrás eu implorei para que alguém me dissesse, confirmasse que havia, sim, alguém na floresta e essa cidade riu da minha cara, me chamou de louco e a senhora sabia e não se manifestou?

— Eu tinha medo, todos que sabiam não riram de você, apenas se calaram, por medo, mas agora ela está incontrolável. Antes um jovem morria por ano, mas agora tem sido muitos, a fome dela está maior. Ela não sai da floresta, mas sabe como atraí-los, mas naquela época você já era um adolescente em idade perfeita para ser devorado, no entanto ela não te devorou…

— Calma senhora. Quem é ela e como assim devorar. A pessoa que eu conheci só devorava doces…

— Existe uma lenda antiga de que uma colegial foi assassinada nessa floresta, mas antes ela foi humilhada e violada das piores formas, seu corpo nunca foi encontrado, seus assassinos nunca foram encontrados, nesse mesmo ano os homens da cidade, acima de 15 anos de idade, foram sumindo um a um e apenas suas roupas eram encontradas na entrada da floresta.

— A senhora está dizendo que…

Neste momento Daisuke chegou correndo com um anuário na mão.

— Achei a sua garota! — Sorriu vitorioso, mostrando a foto da garota, comparando com o desenho.

Era ela.

“Inoue Miyako, 17 anos, formanda da classe de 1986.”

Arranquei o anuário de suas mãos lendo todas as informações, suas aptidões, planos para faculdade, seus gostos. Fiquei surpreso com tudo isso e a partir dessa descoberta, reviramos todos os jornais antigos com notícias contendo este nome.

Ficamos um bom tempo da tarde à procura de informações e quando encontramos me pareceu que aconteceu exatamente o que aquela senhora contou. Um dia antes de sua formatura Inoue foi ao colégio, haviam chegado alguns computadores e ela era a única pessoa na cidade que sabia mexer no aparelho. Ah, há 31 anos, computadores eram mais raros, ainda mais em uma cidade pequena. Ela os instalou, programou e ensinou para algumas pessoas como utilizava, mas sumiu na volta para casa e nunca mais foi vista.

— Opa, pera ae cara. Então você está dizendo que acredita na lenda qual a tia da mercearia te contou?

— Daisuke, eu conheci essa garota da foto “Inoue Miyako”. Ela não sabe seu nome, não se lembra do passado, mas é ela e não envelheceu. Como eu poderia não acreditar? — Esbravejei mostrando a foto. — É ela, mas ela não sabe, não tem memórias.

— Meu avô costumava dizer que quando uma pessoa vende sua alma ao diabo ela perde suas memórias e fica a cargo dele. — Me assustei com a voz calma de Iori atrás de mim, mas o que?

— O que você está fazendo aqui?

— Eu estou de folga e liguei para marcar algo, o Daisuke disse que vocês vieram caçar sua namorada fantasma, eu achei que poderia ser interessante!

— Eu também estou aqui. — Olhei para o lado contrário e encontrei Takeru que trazia uma enorme mochila. — Já andei pela cidade e gravei o máximo de depoimentos sobre o caso. Cara isso vai dar um livro maravilhoso, vou ficar famoso. Melhor do que Crepúsculo é você e sua namorada demônio, devoradora de homens.

— Ela não é minha namorada, não é um demônio e… Daisuke isso era pra ser segredo! — Falei quase matando o ruivo.

— Desculpa cara, mas quando vi que era verdade eu não resisti e tive que compartilhar com os amigos! — Se defendeu com a boca cheia de rosquinhas.

— Só que essa euforia toda dos seus amigos, vai resultar em uma tragédia em grande escala. — Todos olharam para onde veio à voz e era a dona da mercearia. — Seus amigos pesquisando e fazendo alarde fez com que a população parasse de ignorar e agora eles querem revidar.

— Revidar? Como assim? — Perguntamos todos juntos.

— O povo da cidade está se reunindo para ir caçar o demônio e matá-la. — Seu rosto se forma uma expressão sombria.

— E porque só fizeram isso agora? — Takeru indagou curioso.

— Porque agora eles têm algo que ela vai querer aparecer para proteger…

E todos olharam para mim.

— Puta que pariu! — Blasfemou Daisuke, já levando a mão até sua arma eu automaticamente fiz o mesmo, assim como os nossos amigos, mas ouvimos o som de várias árvores se mexendo e armas sendo engatilhadas.

— Fiquem quietinhos se não quiserem morrer. — Um homem alto e barbudo, surgiu de trás de uma das arvores ordenando rispidamente. — Momoe, vá para casa! — Se virou para a senhora da mercearia.

— Isso não está certo! — Ela choramingou.

— Momoe, aquela coisa na floresta não é mais a sua irmã mais nova. Nós temos que dar um fim nisso.

— Colocando a vida de um inocente em risco? — Protestou à idosa, chamada Momoe.

— É a única forma. Tire-a daqui. — O homem gritou e outros vieram e começaram a levar à idosa para longe de nós.

— Diga o nome dela, faça com que ela se lembre! Isso a libertará! — Ela saiu arrastada e gritando para eu chamar a… A criatura pelo seu nome.

Um grupo de pessoas nos cercou, rendendo-nos como reféns e tomando as nossas armas de maneira covarde. Sem outra saída fomos obrigados a entrar na floresta junto com os outros homens da cidade, também haviam mulheres muito revoltadas, algumas chorando a morte de seus filhos, clamando por justiça.

— Ser chamado de doidinho foi o melhor que já te aconteceu por essas bandas, mauricinho! — Um idiota zomba da minha cara.

— Fiquem sabendo que sou investigador, vão se dar mal por isso. — Respondi sem pensar.

— Isso não vale nada nesse momento… Vamos amarrar ele nessa árvore. — Um daqueles homens me jogou bruscamente contra a árvore.

Eles me amarraram com cordas grossas em uma árvore e disseram que não iam me amordaçar, pois, queriam que ela ouvisse meus gritos. Meus amigos estavam paralisados de medo, confesso que também estava apavorado, mas nem tanto pelas torturas que pretendiam fazer comigo, eu temia por ela, se ela viesse e certamente viria, havia muitos deles e…

— Hey vadia! Apareça, vai deixar seu namoradinho morrer assim? — E o mesmo que gritou, começou a me dar vários socos na barriga, depois no rosto, me fazendo cuspir sangue e um homem mais velho assumiu o seu lugar e começou a enfiar bambus embaixo das minhas unhas e era impossível não gritar com tanta dor. Kami amado, esse é um dos piores métodos de tortura que existe.

— Como vai ser boneca? Vai deixá-lo morrer? Tudo bem, nós temos a noite toda, vamos cortar pedacinho por pedacinho e deixar de presente para você! — Ele deu uma gargalhada insana, enquanto Takeru acabou desmaiando ao imaginar a cena. — Então bonitão, o que quer perder primeiro, o olho direito ou o esquerdo?

Meu corpo estava doendo demais, as mãos tremiam em espasmos por conta dos machucados feitos pelos bambus. Preferia ser torturado até a morte a ela aparecer e eles a matarem na minha frente. Estava prestes a ser acertado novamente quando uma fera enorme pulou sobre o desgraçado, arrancando sua cabeça, me deixando banhado de sangue. Os demais entraram em pânico, não sabiam se corriam ou se atiravam, a fera dava coice nas armas deixando seus oponentes indefesos, enquanto eles se espalharam e ela saiu no encalço, nessa deixa Daisuke aproveitou e pegou a faca do cara que teve a cabeça arrancada soltando-me.

— Temos que sair daqui antes que aquela coisa volte. — Ele quase não tinha forças para falar.

— Não posso deixá-la. — Falei entre gemidos de dor, arrancando os bambus das minhas unhas.

— Tá maluco cara? Cê viu o tamanho daquela coisa? Viu as presas? — Daisuke tentava me puxar consigo. Iori já corria na frente, com Takeru nas costas, quando ambos foram derrubados por ela.

— NÃO OS MACHUQUE! — Gritei e ela me olhou, os olhos estavam esverdeados fluorescentes, completamente assustadores, rosnou alto em minha direção. — Não os machuquem, não queriam estar aqui, por favor.

A besta abandonou meus amigos e estes aproveitaram para se esconderem entre as árvores. Ela começou a caminhar lentamente em minha direção e quando estava próxima era mais assustadora, muito mais do que nas imagens que vi. Sangue e baba escorriam de sua boca gotejando para o chão, ela me farejou para reconhecer o meu cheiro e começou a se transformar, finalmente eu estava diante dela novamente.

As dores sumiram, estava com as pernas bambas e o coração disparado. Senti tanto a sua falta, era difícil de acreditar que ela estava em minha frente novamente.

— Agora você já sabe… — Sussurrou com lágrimas escorrendo pelo rosto e eu me aproximei. — Não! Eu não queria que você visse isso, não queria que fosse assim, mas é isso que eu sou desde que me lembro. Sai daqui enquanto há tempo.

— Não! — Me aproximei mais, ela estava trêmula e meus amigos estavam incrédulos, Takeru acordou e soltou um puxado “fala sério”. — Vão embora! — Gritei para eles. — Eu não quero deixar você.

— Que lindo! — O homem barbudo apareceu,  apontado uma arma.

— Sabe que não pode me matar com isso, não é? — Ela o enfrentou.

— Eu sei, mas posso matar alguém que você ama! — Sorriu sarcástico dando um tiro em minha direção.

Tudo aconteceu em câmera lenta, olhei para o meu peito e sangue escorria por ele, ela berrou meu nome, de forma que ecoou pela floresta e logo deu lugar a um rugido estridente e transformada e fera ela o dilacerou em milhares de pedaços. Senti-me quedar no chão, como se todo o peso do meu corpo tivesse esvaído, resultando a nada.

— Ken… — Ouvi sua voz me chamando com suavidade. — Você não merecia isso, nunca deveria ter voltado pra me ver. — Segurou meu rosto entre as mãos. — Eu não sou nada, não tenho nada, nem nome eu tenho, mas você tinha tudo…

— Miyako… — A dor e a pressão no meu peito me impediam de falar, de respirar. Nada mais importava, eu só queria que ela lembrasse.

Completamente atordoada, se abaixou bem próxima a minha boca.

— O que?

— Miyako! Inoue Miyako… Você teve uma vida, família, três irmãos, amigos que te amavam, era inteligente, se destacava muito nas notas, entendia de tecnolo…

Ela me fitou profundamente, parecendo se lembrar de toda a sua vida. Seu corpo começou a emitir uma luz extremamente brilhante e deitou-se sobre o meu corpo ferido, encostando nossas fontes, então eu pude ver tantas lembranças de sua vida. A infância, as brincadeiras, as paixonites, as brigas com os irmãos, o trabalho na loja, a paixão por aparelhos eletrônicos e tecnologia limitada da época.

Ela tinha seu grupinho de amigos, o seu melhor amigo era um garoto chamado Izumi Koushiro, juntos ambos reativaram um pequeno estúdio de rádio e começaram a transmitir para toda cidade, revezavam dando notícias locais, mandando mensagens apaixonadas em um programa que chamavam de “românticos anônimos”. Ela amava música, amava falar e apresentar os programas.

Logo seu grupo de amigos formado por Tachikawa Mimi, que era a filha do prefeito e apresentava o programa de culinária, trazendo uma receita a cada dia, Yagami Hikari que era tímida e gostava de fotografias não fazia parte das apresentações, mas sempre estava ajudando como podia, junto com seu irmão, Yagami Taichi, ficava por conta de trazer notícias e comentários sobre futebol, Takenouchi Sora falava sobre moda masculina e feminina e o programa de música ficava a cargo de um garoto chamado Ishida Yamato, o qual também tinha uma pequena banda.

A vida era simples naquela pequena cidade, mas agitada e feliz, ela tinha muitos sonhos e um deles era ir para Tóquio para viver na agitação e ver a vida acontecer de verdade, queria estudar na faculdade de ciências tecnológicas.  

Sua família tinha acabado de abrir uma mercearia na cidade, onde ela e seus irmãos trabalhavam juntos. Um dia Miyako teve uma ideia de fazer caixinhas decoradas para colocar os confeitos que vendiam, a princípio as irmãs foram contra, achavam que um pequeno confeito era algo muito ridículo para se presentear alguém, então como era teimosa colocou sua ideia em prática por si mesma e estourou, os alunos começaram a comprar e deixar nos armários de seus amados. A coisa explodiu de uma forma tão inesperada que as irmãs passaram a fazer as caixinhas decoradas, até mesmo o irmão, mas em segredo e um dia seu amigo Yamato, chegou timidamente na loja e depois de olhar quinhentas coisas sem sentido, se dirigiu a ela e perguntou.

— Ei Miya, essa ideia das caixinhas foi sua?

— Claro que foi, minhas irmãs só pensam em presentes caros e meu irmão é um ogro.

— EU OUVI ISSO! — Mantarou, seu irmão mais velho, esbravejou de lá do fundo da loja.

— Se você ganhasse algo assim, ficaria muito feliz? Entenderia o recado, sabe se… — O loiro parecia ser um desastre com sentimentos.

— Ela vai adorar. Tenho uma aqui que é a cara da Sora-chan. — Ela disse já escolhendo uma caixinha.

— Mas eu não disse… Eu… Ta tão na cara assim? — Perguntou encabulado.

Miyako assentiu e ambos riram, depois de alguns dias os amigos começaram a namorar.

Aquele era o último ano de Miyako naquela cidade, ela finalmente iria para Tóquio e seguiria seus sonhos, ajustou pela última vez a aparelhagem de som para o baile de formatura no dia seguinte, ajudou nos testes da banda de Yamato, assistiu o último jogo de Taichi, foi fotografada junto com a turma, por Hikari, escolheu seu vestido para a festa de formatura.

Quando arrumou as caixinhas novas que havia feito com suas irmãs, imaginou o quanto queria ganhar uma, mas, era ironia do destino, que tantos casais se formaram por causa da sua ideia, mas ela mesma continuava solteira. O telefone tocou a tirando de seus devaneios, era o computador novo que havia chegado à escola e só ela e Izumi sabiam mexer, mas só em sua casa tinha telefone.

Animada, engoliu o café da manhã, vestiu seu uniforme, pegou a bicicleta, se despediu da família e saiu. Pelas ruas cumprimentou vários conhecidos. Chegou ao colégio, cheia de animação, em pouco tempo já tinha montado o computador e o deixado pronto para ser usado, explicou como funcionava, óbvio que algo bem básico mesmo. Quando terminou, seu estômago já anunciava que estava na hora do almoço.

Quando chegou a sua bicicleta encontrou uma caixinha, daquelas de sua loja, junto com um bilhetinho.

“Quer saber quem eu sou? Me encontra na clareira ao meio dia.”

Era tudo que ela queria, se formaria e iria embora daquela cidade, mas talvez tivesse para quem voltar.

    Quando ela chegou à clareira não havia ninguém. Ela esperou por um tempo, mas começou a se sentir idiota, enganada, quando as lágrimas começaram a cair de seu rosto sentiu que era hora de ir embora, mas se viu cercada pelos piores garotos da cidade. Eles riram e debocharam dela, mas por quê? Nunca tinha feito nada a eles. Não que se lembrasse, tentou se lembrar, mas nada lhe veio em mente, tentou fugir, correu entre as árvores tentando se esconder, mas foi inútil e as piores coisas lhe aconteceram, coisas tão cruéis quanto ela nunca poderia ter previsto nem em seus piores pesadelos.

Fiquei estarrecido e chocado com tudo que lhe aconteceu. Ela não teve a mesma sorte que eu naquele dia de encontrar alguém que pudesse a salvar, estava à beira da morte após um dia inteiro sendo torturada e humilhada, deixada em meio à floresta nua e ensanguentada. Já não sentia mais nada, só tinha a certeza que nunca fez nada para merecer tudo aquilo.

— “Posso te fazer esquecer tudo isso e fazer justiça, basta que me diga seu nome.”.

Uma voz estranha falou em seu ouvido. A proposta era incrivelmente tentadora e naquele momento em que se encontrava não pensou duas vezes, faria tudo o que fosse necessário para esquecer tudo aquilo, então reuniu suas últimas forças e entregou seu nome a criatura que lhe propôs, assinando um pacto, perdendo as suas memórias em troca de fazer acabar com aqueles que a torturaram.

 

(...)

Abri meus olhos para encarar os âmbares marejados de Miyako.

— Eu sinto muito… Você não merecia… — Sussurrei, meu peito estava em pedaços, muito mais do que pela dor do tiro. Ela era tão jovem e cheia de energia, contagiava as pessoas, unia todos, era sonhadora e inteligente, não tinha feito nada a ninguém, mas acho que a crueldade não escolhe por mérito.

— Tudo vai ficar bem agora. Você devolveu meu nome, devolveu minhas lembranças. Eu fui feliz, fui amada, tive muitos bons amigos, saber disso me deixa em paz…

O sol começava a raiar e seus raios entravam, timidamente, por entre as folhas das árvores, meus amigos ainda estavam ali, na mesma posição olhando para nós.

— Miyako-chan? — A voz de Momoe a chamou. — Você pode descansar em paz agora.

— Você… Aquelas caixinhas? Você sabia?— Miyako perguntou emocionada.

— Sim onee-chan, eu sempre soube… Eu te amo. Todos nós sofremos muito sem você aqui, mas agora você pode ir para onde você realmente merece.

— Onee-Sama… Obrigada… Eu te amo…

— O que está acontecendo? — Meus amigos perguntaram em uníssono.

O corpo de Miyako começava a se transformar em pequenas centelhas de luz. Eu não tinha forças para segurá-la, não conseguia erguer um dedo para tocá-la.

— Obrigada Ken-kun. Eu senti muitas coisas quando me trouxe aquela caixinha pela primeira vez. Você foi um garotinho muito corajoso e se tornou um homem incrível, me desculpe ter sido assim…

— Não me deixe aqui. Não quero ficar em um mundo onde você não esteja. Eu te amo. Eu te amo muito Miyako-san.

— Eu também te amo. — Ela me beijou e dessa vez havia calor, muito calor, eu já não sentia mais dor, nem frio, não sentia medo, tudo era luz.

Tive ligeira percepção de ouvir meus amigos chorando por mim, mas a despedida sempre é difícil mesmo, tenho certeza que eles sabem que isso era tudo que eu mais queria.

Existem muitas formas de viver ao lado de alguém que se ama e algumas não são exatamente as formas convencionais. Eu devolvi seu nome e ela me deu o mundo, uma eternidade ao seu lado, na beleza da imensidão, no lado oposto do véu, onde a dor já não existe. Seu nome era Inoue Miyako, a garota que eu amei, quando ainda nem sabia o que era amor.

9 de Enero de 2019 a las 22:57 0 Reporte Insertar 4
Fin

Conoce al autor

Lu Inoue Animes, filmes, series e Fanfictions... Rock clássico, instrumental, pop e hip hop... Romance, hot, terror, suspense e magia... Isso é um pouco de mim, desenhista, colecionadora de action figures, autora e leitora ativa, amiga divertida, leal e dedicada. O que você está esperando, sou tudo de bom, vem pro meu mundo

Comenta algo

Publica!
No hay comentarios aún. ¡Conviértete en el primero en decir algo!
~