Eu, Kadu Seguir historia

francisco-siqueira1546149452 Francisco Siqueira

***** Registro junto à Biblioteca Nacional: 706.330 / livro: 1.365 / folha: 152 ***** Na atualidade, onde está em voga "ser gay", surge na contramão a visão de Kadu, um adolescente de 17 anos que acredita ter sua orientação sexual guardada a sete chaves, julgando mantê-la sob total controle, apenas assumindo essa postura nas salas de bate papo virtuais, onde evidentemente consegue conservar-se no anonimato, livre de manifestações preconceituosas e intolerantes, porém o surgimento de uma paixão inesperada e avassaladora pelo melhor amigo, Matheus, um "carinha" extrovertido, sem papas na língua, enturmado e HÉTERO, o levará a questionar inevitavelmente todas as suas convicções, lançando-o num caminho sem volta de autodescoberta, onde acabará por aprender que segredos e mentiras caem como castelos de areia quando menos se espera, e que nem sempre a visão que temos de nós mesmos é aquela do mundo que transita ao nosso redor.


LGBT+ No para niños menores de 13. © Registro junto à Biblioteca Nacional

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Eu, Kadu

“Na adolescência tudo parece o fim do mundo, mas é apenas o começo”.


Segundo a Organização Mundial de Saúde, a adolescência começa por volta dos 10 anos e termina aos 19, e durante esse intervalo, tanto o corpo como as ideias, se transformam e a necessidade de construir uma identidade acaba gerando enfrentamentos psicológicos. Ah! E tudo isso ao mesmo tempo, proporcionando uma aventura recheada de emoções à flor da pele, nos levando a acreditar que esse rito de passagem nada mais que é uma antessala para o fim do mundo, onde ninguém nos compreende e nem mesmo nós nos compreendemos.

A propósito, sou Kadu. Na verdade, Carlos Eduardo Saldanha Junior e tenho 17 anos.

Sobre mim... Bem, talvez seja melhor começar pela minha família. O que os doces são para um diabético e a água é para o fogo, minha mãe e meu pai são um para o outro. Nunca encontrei nenhum sinal de compatibilidade entre eles.

Meu pai, doutor Carlos Eduardo Saldanha, é um célebre cardiologista, dono de uma rede de clínicas especializadas na área em que atua, e cuja reputação incontestável inspira referências não só no Rio de Janeiro, mas também em quase todo território nacional. Seu comportamento ponderado e sem extravagâncias, somados à sua eterna disponibilidade, o tornou, aos olhos de todos os outros na sua profissão, um exemplar genuíno de ser humano no que diz respeito ao próximo. Contudo, vale ressaltar que se esse próximo fizer parte do seu seio familiar, não irá receber muito (ou quase nada) de sua atenção.

Ter uma agenda profissional tão apertada, que o faz chegar a casa quando todos estão deitados, e sair antes que se levantem, ou que o leve a uma constante rotina na ponte aérea para participar de algum congresso, simpósio ou seminário, não deve ser algo simples de se lidar. Mas a vida é feita de escolhas, não é mesmo, e segundo Caio Fernando Abreu, quando você dá um passo à frente, inevitavelmente alguma coisa fica para trás.

Em contrapartida, minha mãe, Marcela Albuquerque de Araújo Saldanha, herdeira de um dos maiores produtores de papel e celulose do país e também de um império no ramo hoteleiro, é tida como uma das mais extrovertidas e irreverentes socialites cariocas, colecionando amigos influentes, sapatos com saltos altíssimos, e, claro, bolsas. Muitas bolsas. Desde a pomposa, elegante e sofisticada Lady Dior a uma Chanel 2.55.

Ah! Como toda diva que se preze, ela também não abre mão de ter o melhor cabeleireiro do Rio de Janeiro ao seu dispor. E isso a qualquer hora do dia ou da noite.

Evidente que seu nome figura na lista dos eventos mais badalados, assim como ela também escolhe a dedo os semideuses que terão o privilégio de colocar os pés nas animadas e luxuosas recepções que promove para em média 200 convidados. Até aí, tudo bem. Que mal há em se ter uma mãe celebridade, que todos praticamente veneram? Porém, o espelho tem duas faces e as camadas que separam madame Albuquerque de Araújo Saldanha da senhora Marcela são muitas, e quem, de fora de nossa família, conseguir ultrapassá-las, encontrará uma mulher de personalidade forte, altiva, de características excêntricas, constantemente levantando a voz a fim de se fazer ouvir e dona de um humor que oscila do ligeiramente doce ao extremo amargo.

Se tivéssemos em um jogo aonde fosse necessário o adversário destacar alguns pontos relevantes da personalidade de cada um dos meus genitores, ele não pestanejaria em responder: doutor Carlos Eduardo, taciturno, um ser humano com dificuldade de demonstrar emoção ou carinho de maneira natural; já dona Marcela seria apontada como a antítese da condescendência, a mestre Yoda da arte da manipulação, a porta-estandarte do hedonismo.

Por sinal tenho duas irmãs mais velhas, já que Deus teve misericórdia da minha alma não permitindo que eu fosse filho único desse peculiar casal. Com toda certeza eu não iria saber lidar com essa questão e já teria fugido para a Indonésia ou qualquer outro fim de mundo parecido.

A primogênita, Maria Clara, que irá se casar no sábado, sem sombra de dúvida é a pessoa mais sensata, racional e comedida dentro desse apartamento de “apenas” 700 metros quadrados na Barra da Tijuca. Enquanto Filipa, além de potencializar radicalmente todos os complexos e traumas por ser a filha do meio, não passa de uma reprodução perfeita, praticamente esculpida em carrara, “da obra de arte” que é a nossa mãe, com todas as suas neuras, desequilíbrios e um humor extremamente bipolar. Provas vivas do quão diferente podem ser duas filhas criadas pelos mesmos pais (ou babás), vivendo na mesma casa e tendo recebido a mesma educação.

Agora, sim. Quanto a mim... Por me identificar com ocupações intelectuais consideradas inadequadas para a minha idade em detrimento a outras atividades mais populares, acabo recebendo dessa sociedade sedenta por criar estereótipos, o rótulo de nerd, cuja essência pejorativa me reduz a um ser humano solitário, um forte candidato ao posto de um eremita com sérias dificuldades de integração social, e que, sem fugir à regra, “carrega o fardo” de uma inteligência não convencional.

Não me importo com essas alcunhas, em parecer uma muralha intransponível, inalcançável, e tampouco me faço de rogado em receber os louros pela minha dedicação aos estudos. Mas o que ninguém sabe, na verdade, é que essa reserva, ou esse suposto isolamento que insisto em cultivar, são meros mecanismos de defesa de um jovem gay que não tem coragem de se assumir diante de um estado social que insiste em padronizar a sexualidade humana. E isso em pleno século XXI, enxergando os homossexuais como minorias, transformando-os em uma espécie de escória da sociedade, resistindo em vê-los como indivíduos, um cidadão como outro qualquer.

Como se já não bastasse, este mesmo estado alimenta pesquisas obstinadas a explicar o que consideram um dos maiores mistérios do comportamento humano, apesar de não existir nada além do óbvio para entender. Perguntar o que leva uma pessoa a ser gay é uma atitude preconceituosa que pressupõe que a heterossexualidade não necessita de explicação. Tão desagradável quanto ver a energia gasta para tentar justificar os motivos que levam uma criatura a nascer canhota e não destra.

Estou cursando o último ano do ensino médio no CGAM, Colégio Germano Augusto Magalhães, uma das instituições particulares mais bem conceituadas, tradicionais e elitistas do Rio de Janeiro, que a partir da metade da década dos anos 2000, teve suas atividades transferidas para a então emergente Barra da Tijuca, deixando para trás o démodé bairro onde se localiza a tão afamada Princesinha do Mar.

Há sessenta anos, ele, o CGAM, sustenta honrosamente o orgulho de sempre formar excelentes alunos com uma respeitável base intelectual e cultural, inclusive alguns homens e mulheres, que se tornaram figuras públicas, fizeram parte do seu corpo discente, ainda que um bom número desses exemplares pareça ter jogado fora, ou esquecido, o conhecimento que receberam.

Até mesmo um ex-presidente de nosso amado país pisou no solo sagrado deste Olimpo do ensino, onde pais, emergentes e sofisticados, continuam assinando suas folhas de cheque, acreditando piamente no simples fato de que seu filho, seu precioso tesouro, por estar matriculado em uma escola (de elite), tem a garantia necessária para o seu pleno desenvolvimento moral.

Ok. É possível que eu esteja parecendo um daqueles adolescentes mergulhados num mar de bizarrice intelectual de modo a justificar sua pretensa rebeldia. Um folclórico arrogante sem noção. Um lagarto petulante elevando-se à condição de um semideus, mas que não consegue enxergar além do próprio umbigo, escondendo-se por detrás do exibicionismo exacerbado nas redes sociais a fim de tentar maquiar a fragilidade da sua autoafirmação e conhecimento. Já desisti de contar todas as vezes que me sinto como um peixe fora da água dentro desse oceano extenso e ao mesmo tempo tão raso como um pires, por onde navega, convenientemente, a alienação da pequena parcela privilegiada da sociedade, sempre preocupada em manter o padrão de vida burguês sem ser importunada.

Sim. Recuso-me a fingir ignorância diante da realidade de como gira o mundo fora das paredes do condomínio podre de chique em que vivo com minha família. Sei muito bem como funciona a engrenagem do universo quase surreal que existe dentro das selvas de pedras que são os shoppings que pululam pela Barra da Tijuca. Uma Disneylândia onde é oferecido o retrato de uma vida perfeita e maravilhosa, cujo passe livre é permitido considerando nossos atributos físicos, ou o quanto endeusamos figuras públicas que nem sequer desconfiam da nossa existência, e principalmente, o que carregamos (ou nossos pais) em nossas carteiras.

Seja você mesmo, porque os outros já existem, sugeriu Oscar Wilde, e é o que venho fazendo, apesar de em certos momentos não ser muito fácil manter o equilíbrio depois que as cortinas se fecham e eu me deparo com a encenação de vidas perfeitas caindo por terra, na mesma medida em que sorrisos iluminados mascaram culpa e negação.

Decididamente o fato de ter sido criado cercado por privilégios que a maioria das pessoas nem sequer sonha, vem me deixando imerso num oceano de contradições. Mas já decidi. Vou cursar medicina para quando puder praticá-la ter a oportunidade de ajudar os menos favorecidos, apesar do meu pai, sabendo dessa minha pretensão, já ter feito planos mirabolantes para que eu assuma a mesma carreira que a sua, assim como a rede de clínicas que leva o seu nome.


PS.: segundo dona Marcela, desde que eu conserve os dois os pés no chão e tenha o mínimo de bom senso em manter um trabalho digno para me sustentar, sem subjugar, é claro, a tradição do sobrenome de nossa família, não haverá problema algum em fazer, ocasionalmente, as vezes de Eva Perón cuidando de alguns descamisados.


Enfim, é o que tem pra hoje, e enquanto esse dia não chega, faço a minha parte da melhor maneira possível, não causando atritos e me esforçando em ser um bom filho de modo a não dar motivos para que meus pais se preocupem comigo além do necessário, sobretudo no que diz respeito à minha vida escolar, onde sou um aluno extremamente aplicado, dedicando-me às matérias do meu currículo com esmero e quase sempre sendo destaque em atividades dentro de sala de aula, mesmo sem almejar tal relevância.

Fisicamente não me considero um príncipe encantado. Pelo contrário. Com este meu rosto triangular, meus olhos claros, os lábios carnudos e simétricos, sobrancelhas e pestanas escuras, os cabelos castanhos, e o tom da pele branca, tendendo para o amarelado, acredito me aproximar do mais ordinário dos cidadãos. Xadrez e losangos geralmente se chocam nas roupas que uso. E minhas camisas, quase todas, possuem colarinhos, e as camisetas, logotipos que variam entre símbolos de super-heróis, títulos de filmes clássicos a uma diversidade de designs com a marca NASA. E de vez em quando frases aleatórias também estampam minhas camisetas, como a que estou usando hoje, imagem não encontrada.

Por sinal, minha estatura mediana e meu biótipo magro nunca me abandonaram, e talvez pelo fato de também usar óculos (atualmente de armadura preta e grossa) acabo reproduzindo para as pessoas ao meu redor uma compleição beirando a fragilidade. Também nunca me importei com isso, apesar de por algum tempo, no colégio, há uns três anos, ter sido alvo de provocações de rapazes idiotas que acreditam, estupidamente, que força e superioridade se demonstram constrangendo alguém que não se encaixa dentro de seu limitado universo Neandertal ultramachista. Durante um pouco mais de uma semana fui tachado de gayzinho enrustido, acusado de maneira leviana de usar dentro de casa as roupas das minhas irmãs, sendo obrigado a olhar para os cretinos apertando suas virilhas enquanto me assediavam nos banheiros do colégio.

Confesso que não sei o quão fui atingido por todo esse disparate, ou talvez nunca quisesse pensar no assunto, porém, à época, optei por reagir da maneira mais indiferente possível. Fosse por covardia, por plena consciência de que eu estava dentro de uma batalha perdida ou por medo de encarar uma luta insana e acabar confirmando a suspeita dos idiotas, definitivamente não sei dizer. Contudo, minha reação de completo desprezo deve ter minado as desconfianças sem fundamento de cada um deles, pois me deixaram em paz da noite para o dia.

Minha vida só teria sido um verdadeiro inferno nas mãos desses cretinos se por acaso tivessem conseguido reunir provas incontestáveis sobre minha orientação sexual. Sei do que são capazes quando encontram uma vítima perfeita para exacerbar toda estupidez e intolerância, montados em sua prepotência homofóbica. Sei muito bem o que fizeram com o Allyson, discriminando e hostilizando impetuosamente sua existência dentro do CGAM. E para quê? Que prazer mórbido os incentiva a humilhar o próximo? Já perdi a conta das vezes em que mergulhei neste poço sem fundo, me perguntando o que os leva a agir dessa maneira, ou ainda pior, aos seus iguais espalhados pelo mundo, que se arvoram no direito de agredir física, psicológica e moralmente o seu semelhante.

Será que eles sabem que o sexo é um sentimento variável, espontâneo, e que cada um age de uma forma e cada pessoa nasce com determinada tendência?

A homossexualidade não é um monopólio do ser humano, pelo contrário, ela também existe dentre mais de 200 espécies de mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes e insetos. Então por que no jogo da vida são distribuídas somente as cartas que nos incentivam a crescer e amadurecer seguindo (muita das vezes sem compreender) os rígidos padrões que nos despreparam para aceitar o “diferente”?

Por que nos forçamos a acreditar que basta modificar as Leis para que tudo esteja resolvido e assim as formas preconceituosas de desrespeito aos direitos humanos e à cidadania desaparecerão como que por encanto, num estalar de dedos?

Enquanto as regras forem pré-determinadas por uma sociedade heteronormativa, é obvio que nada de diferente a tudo isso vai acontecer, até mesmo porque há pessoas que assimilam essas regras sem nenhum problema, particularmente os representantes do sexo masculino que sentem atração pelos seus iguais, convencidos de que são héteros pelo fato de não ter identificação nenhuma com o estereótipo gay.

Não. Não descobri a pólvora. Esses espécimes existem há tempos. Eu infelizmente conheci um desses bem de perto. Eles se blindam de maneira tal, visto que precisam permanecer na “mesa do jogo da vida” a qualquer custo, e recorrem, quase sempre, a um relacionamento de fachada, levando uma vida dupla sob a superfície de um casamento tradicionalmente feliz. E pouco se importam com a dignidade da pobre alma que estão arrastando para chafurdar ao seu lado no lamaçal da própria covardia.

A lei da natureza é clara: só os mais fortes sobrevivem, entretanto alguns animais, por reconhecem sua fragilidade, burlam essa máxima e acabam por desenvolver a mesma capacidade dos sapos, corujas e outros tantos insetos, que dominam a habilidade de se camuflar em ambientes que têm as mesmas cores e formatos que seus corpos.

Em suma, verdade cada um possui a sua, razão também, como declarou Jorge Amado em Tieta do Agreste, mas do alto dos meus 17 anos, mesmo sabendo da possibilidade de muitas experiências que ainda me aguardam pela frente, posso afirmar de que não serei um PhD em hipocrisia ou tampouco vou manter uma união por conta da expectativa de amigos e parentes.

Em comum com todos esses “homens” terei apenas um “armário” para me esconder, já que me fecharei em copas a fim de evitar explicações eternas e desnecessárias sobre minha identidade sexual, criando, no frigir dos ovos, namoradas ou relacionamentos fictícios. Pensando bem, serei como quase todos os adultos, que inventam histórias para esconderem seus segredos.

Qual será minha válvula de escape? O meu refúgio? As salas de bate papo virtuais. Não serei o primeiro e estarei longe de ser o último ser humano a buscar eternamente nas redes sociais, enquanto mergulhado em uma angústia recorrente e conflitante, como ondas debruçadas na praia em um frenesi de dor, o parceiro ideal, perfeito e infalível para no final da noite frustrar-me por não conseguir suprir minhas expectativas (inatingíveis) de uma história de conto de fadas.

Talvez não venha a ser uma vida perfeita, talvez nutrir essa ideologia seja radical demais até mesmo para um adulto de meia idade, quanto mais para um adolescente de 17 anos. Mas alguns indivíduos ainda preferem estar sozinhos por sentir-se mais seguros do que estarem rodeados de pessoas que possam feri-los.

Bem, pelo menos esse era o meu PLANO HERMETICAMENTE PERFEITO, não fosse a descoberta repentina e ABSURDA, a quase um ano, de que eu estava gostando do Matheus, o meu melhor amigo. Onde eu estava com a cabeça quando me permiti olhar para ele com outros olhos? Por mais que eu busque e rebusque não consigo encontrar o ponto de partida de toda essa loucura. Realmente não sei como tudo isso começou, nem por que, só sei que quando dei por mim já era tarde demais e eu estava apaixonado.

Espera.

EU ESTOU perdidamente apaixonado.







5 de Enero de 2019 a las 18:49 0 Reporte Insertar 4
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