Uma Chance Para Recomeçar Seguir historia

laylasan LaylaSan

[RenBya] [Universo Alternativo] ~ [07/07] Medicina. A ciência que uniria vidas tão distintas, almas opostas, que precisavam completar uma a outra. Abarai Renji, um jovem médico viu sua vida mudar da noite para o dia quando se viu obrigado a dar aulas para Kuchiki Byakuya, filho de seu patrão, que viu a própria vida também mudar quando o médico ruivo decidiu ajudá-lo a enfrentar o demônio que há sete anos o oprimia e era obrigado a chamar de pai.


Fanfiction Anime/Manga Sólo para mayores de 21 (adultos). © Todos os direitos reservados

#sexo #yaoi #violência #universoalternativo #tortura #rukia #renji #renbya #nudez #morte #ichigo #drama #byakuya #bleach
0
3649 VISITAS
Completado
tiempo de lectura
AA Compartir

Início

Renji P.O.V

 

Aqueles seis anos haviam finalmente passado.

 

Cursar medicina havia sido um sonho realizado desde o momento de aprovação no vestibular até o último dia de aula e, posteriormente, a formatura. Foram dias e dias de dedicação, noites sem dormir, dias sem ver nada mais que paredes brancas e quadros negros carregados de informações a princípio assustadoras, que somente aos poucos iam entrando na mente, ainda que algumas relutassem, e conseqüentemente precisassem de mais atenção para se encaixar entre as outras e a informação pudesse ser absorvida por completo.

 

A especialização havia sido outro grande marco, cardiologia sempre fora meu maior sonho, e tivera um professor que parecia disposto a alimentar meus ideais, não cansava nunca de ouvir que era um dos mais aplicados e merecia uma carreira transbordando sucesso.

 

Muito soberbo da parte dele, mas naqueles dias era o que eu precisava para continuar seguindo quando meus olhos só queriam se fechar por alguns minutos, e não podiam. Cursar medicina era como travar uma guerra com suas necessidades mais íntimas e conseguir colocar elas em equilíbrio com a enxurrada de conteúdos que vinha junto com a escolha daquela profissão era uma vitória que nem todos conseguiam alcançar.

 

Muitos da minha época haviam desistido. Eu, por algumas vezes, quis fazer o mesmo, mas com muito esforço e apoio de pessoas importantes continuei escalando aquela montanha até me ver recebendo o diploma das mãos deste professor em especial, que por indicação me colocara numa das melhores clínicas particulares do país. Há três anos havia me formado, mas nunca perdera o contato com ele. Há dois trabalhava na área e há seis meses estava ali na clínica, exercendo, a meu ver, a melhor profissão que o mundo poderia disponibilizar.

 

Mas, antes de tudo, vamos às apresentações formais. Abarai Renji, vinte e seis anos, cardiologista, ruivo e bonitão e... Tá.

 

Acho que é só.

 

Bem, os últimos seis meses haviam sido quase que os melhores de minha vida, não só por estar naquela clínica em específico, mas porque tinha horários e dias fixos para trabalhar, detalhe que na vida de muitos médicos não existia. Eu não podia mentir, era reconfortante ter esses horários planejados, que poucas vezes eram quebrados, quando algum paciente especificamente meu se submetia a algum processo cirúrgico e eu me via obrigado a acompanhar, o que acontecia no hospital ao lado da clínica, também de mesmo dono, mas um pouco mais, digamos, público, que a clínica.

 

Eu não reclamava daqueles momentos, ainda que meus horários não fossem fixos e minhas noites não fossem respeitadas eu amaria minha profissão da mesma maneira que a amo estando ali, tendo um cronograma especial. Era gratificante poder ajudar todas as pessoas que passavam em minha vida, de minha parte não havia discriminação, a dedicação seria sempre a mesma.

 

Mas, eu tinha minhas dúvidas se aquele sentimento era compartilhado entre outros médicos ali, ou quase que inteiramente de minha parte.

 

E aquela dúvida se estendia ao dono daquela clínica.

 

- Abarai-san, Kuchiki-sama o está chamando em sua sala.

 

Agradeci a enfermeira que rapidamente se retirou de minha sala. Aquele espaço não muito grande, mas aconchegante o suficiente para me fazer sentir bem das oito da manhã até as seis da tarde, quando vou embora, sentindo deixar uma parte de mim para trás.

 

Mas, naquele momento um frio começava a despontar na ponta da minha coluna. Normalmente o dono, Kuchiki Yuzo, não costumava chamar ninguém durante o horário de trabalho, salvo momentos em que havia algum problema. Mas, aquela sexta-feira estava mais tranquila que o mar morto, e, ironicamente, quando ele chamava algum médico nesses momentos calmos era porque alguma tempestade estava se formando.

 

Eu só esperava que não fosse nada comigo. Mas, não podia determinar somente devaneando sobre os motivos que o fizeram me levar até sua sala. Quando dei por mim, pedia licença para entrar naquele recinto que parecia mais um mausoléu.

 

- Entre.

 

Sua voz era a mais sombria que eu já havia ouvido na vida. Sua sala seguia o mesmo tom, com suas paredes de cor marrom, tão forte e inadequado a um ambiente como uma clínica, mas que de alguma forma parecia adequado ao homem que a habitava. Os detalhes eram fortes ali dentro, a mesa no centro da sala era de madeira, uma cor tão forte quanto a das paredes. O único ponto de luz eram as duas grandes janelas laterais que estavam livres da cobertura das cortinas brancas que não esbanjavam grandes detalhes, mas era a única peça completamente adequada ao ambiente.

 

Entretanto, aquele ponto branco não trazia paz e calma o suficiente para lutar contra as duas grandes estantes que se erguiam imponentes atrás da poltrona de couro do dono. Estas que ainda eram companheiras de outras duas que ficavam de frente para sua mesa.

 

- Senhor Kuchiki...

- Renji, quero lhe apresentar minha família. – E ele se levantou categoricamente, como se quisesse impressionar alguém que, se fosse a mim, não estaria surtindo nenhum efeito. Mas, só então notei que havia mais duas pessoas com ele ali. – Minha esposa, Kuchiki Amaya e meu filho... Kuchiki Byakuya.

 

Os dois se viraram ao mesmo tempo para mim, então notei que ambos usavam, ainda que de maneiras diferentes, as famigeradas kenseikan, presilhas que mostravam a nobreza da família Kuchiki. Não me era muito importante aquilo, no entanto, estava acostumado a vê-las nos cabelos negros de meu patrão. Coloração compartilhada pelos fios de sua esposa e seu filho.

 

Amaya tinha os cabelos ondulados e longos, bem longos, que faziam um contraste bonito aos olhos com o vestido branco e comportado que usava, mas que a valorizava. Mostrava ser uma mulher bem educada e serena, um tanto quanto diferente de seu filho, que mais parecia uma réplica de Yuzo.

 

Byakuya era realmente sério, e, assim como a mãe, tinha cabelos longos e negros, mas eram tão lisos quanto os de seu pai, e não tão compridos, herdando também dele os olhos de tom acinzentado. Trajava uma roupa social como a de seu pai que lhe caía perfeitamente bem, mas o deixava muito mais velho que a idade que aparentava ter.

 

Cumprimentei-os com educação e voltei-me para o Kuchiki-pai, que me olhava seriamente.

 

- Renji, meu filho, Byakuya, está cursando medicina, já no terceiro ano, e quer se especializar em cardiologia. Pensei que você poderia lhe dar algumas aulas, teóricas e práticas, afora as que ainda vai ter na faculdade, para que ele vá se acostumando com a rotina de um verdadeiro médico.

 

Eu não sabia o que esperar daquelas palavras, daquele pedido quase que inesperado vindo daquele homem, parecia quase uma perda significativa de compostura, apesar de ele ainda se manter da mesma maneira, apenas esperando minha resposta.

 

Aquele frio da minha espinha estava agora completamente espalhado pelo meu corpo, eu sentia que estava me metendo em um túnel sem saída, mas estava tentado demais para não seguir por aquele caminho, talvez no final houvesse a luz da esperança.

 

Ok, eu estava exagerando. Mas, aquele frio na espinha não poderia ser qualquer coisa.

 

Mas, de qualquer forma, assenti. E o vi sorrir para mim, de uma forma contida e carregada com aquela sombra que o acompanhava.

 

Byakuya P.O.V

 

Eu não sabia exatamente o que esperar daquele novo plano de meu pai. Mas, não disse nada. Cumprimentei o tal Renji e o vi hesitar claramente antes de responder alguma coisa, mas eu já imaginava que não fosse negar, raramente alguém negava algo a meu pai.

 

Todavia, ele não parecia muito contente com aquilo. Era um homem bastante peculiar, os cabelos ruivos e longos, presos numa trança. Não podia imaginar que meu pai aceitaria um médico como aquele, que quebrava algumas regras impostas por quase todos os hospitais e clínicas. Talvez meu pai fosse mais peculiar do que pensava, mas também não achava aquilo importante.

 

Vi-o se retirar e a sala mergulhar em um silêncio sepulcral até o sorriso carregado de escárnio de meu pai voltar para seu rosto, e ele retornar para seu trabalho, ignorando a mim e minha mãe. Fitei-a diretamente e ela me sorriu triste, mas não disse nada, nunca dizia. Apenas baixou o olhar e mencionou sair da sala.

 

- Você pode ir, Amaya. Mas, o Byakuya vai ficar comigo até a clínica fechar hoje.

 

Assenti levemente e vi minha mãe sair dali, quase que... Feliz. Ninguém poderia julgar seus atos, afinal somente ela sabia como era sua vida. Eu já sabia do efeito que sua presença fazia em mim, mas este apenas se acentuou quando me vi sozinho com aquele homem, que indicou a poltrona a mim, como se fosse um estranho recém-chegado, ou alguém com quem estaria prestes a assinar um grande contrato.

 

Não disse nada e apenas fiz o que mandou, enquanto via-o terminar seu trabalho. Sabia que aquele sorriso em seu rosto era por minha causa, por conta da overdose que teria com as doses de tédio que começariam a se incrustar em mim, matando algo que ele vinha atingindo há sete anos.

 

Renji P.O.V

 

Eu me sentia um pouco, senão completamente incomodado com aquele pedido. Nunca imaginei que Yuzo poderia pedir algo assim, ainda mais a mim, eu sabia que por não ser do mesmo nível social ele me via com olhos indiferentes, quase esfregando as posses que tinha, que aparentemente se estendiam a sua esposa e filho.

 

Aquele... Como era mesmo? Byakuya? Ele era tão sério e frio, como o próprio pai. Mas, eu achava que havia algo de diferente nele, mesmo que fosse quase um retrato do pai, mas não podia dizer com clareza o que, nem tinha tempo sobrando para divagar sobre aquilo, não quando alguns pacientes marcados começaram a aparecer.

 

Mesmo assim estava tenso, quase não conseguindo me concentrar nas pessoas a minha frente. Marquei alguns exames para a paciente que me esperava quando retornei da sala de Yuzo, mas não conseguia prestar atenção ao que dizia. Com muito custo consegui lembrar o nome do remédio que devia receitar e marquei dois exames e um retorno para dali alguns meses, e assim segui atendendo todas as pessoas que estavam marcadas para a parte da manhã.

 

Depois de algum tempo não lembrava mais da pequena e rápida reunião na sala de meu chefe, mas quando me vi sozinho, quase perto do horário do almoço, relaxei, mas notei que aquele pedido não me saía da cabeça. Eu era formado há três anos e tinha uma experiência considerável, mas não achava que Yuzo me considerava apto realmente para dar aulas a quem quer que fosse, e isso incluía, principalmente, seu filho.

 

Mesmo assim já havia concordado. E tentei mudar o rumo de meus pensamentos para não ter uma indigestão quando finalmente fui almoçar, na própria clínica, que dava como “cortesia” a refeição para os funcionários.

 

Mas, bastou esquecer para relembrar de novo, quando vi o tal Byakuya ali numa das mesas, não almoçando, apenas fitando algumas árvores que ficavam perto do refeitório, uma pequena fração da grandiosidade natural ao redor da clínica que o Kuchiki havia mandado conservar.

 

E me peguei pensando no quão difícil era não pensar sobre aquele... Não podia dizer garoto, mas ele não me parecia um adulto realmente, apesar de o adjetivo cair-lhe melhor. Talvez ele o fosse, e de qualquer forma parecia gostar de ser tratado daquela forma, o que constatei quando o ouvi conversar rapidamente com a recepcionista.

 

Era frio como um iceberg. Mas, talvez tivesse seus motivos, ou fosse apenas herança genética. Mais uma vez, não podia determinar.

 

E não podia deixar de constatar como parecia um doido pensando sobre aquilo, como se houvesse sido o pior dos pedidos, dos pecados, dos males, quando na verdade não pareceu apenas mais que um favor estranho, que, sinceramente, não tinha problema em fazer.

 

O mais difícil, talvez, fosse lidar com aqueles dois icebergs que o filho de Yuzo carregava consigo. Pareciam uma barreira intransponível, e eu não achava que ele parecia disposto a ter aulas com qualquer um que fosse ali. Não parecia alguém tão social, mas só podia esperar para ter certeza ou quebrar a cara com meus próprios pensamentos sem fundamento.

 

E também só conseguiria relaxar longe dos olhos daquela família. Antes mesmo de terminar o horário do almoço já me encontrava de volta em minha sala, apenas esperando os pacientes da tarde, enquanto lia um livro recentemente adquirido.

 

Não fiz muito depois do almoço, não havia muitos pacientes naquela sexta-feira, parecia uma maneira peculiar e irônica da vida, dizendo-me com atitudes incomuns que eu não conseguiria desvencilhar minha mente médica da mente pessoal, que trazia aqueles três de volta a mim, quase como se estivesse obcecado com aquilo.

 

Talvez estivesse impressionado.

 

Mal sabia que a cereja do bolo ainda viria, quando, antes de ir embora Yuzo me chamou uma última vez em sua sala, avisando-me que seu filho seria meu “aluno” já na segunda-feira, dizendo-me descaradamente que deveria ficar das sete da noite até as onze na clínica, pois, o tal Byakuya estudava das oito da manhã às seis da tarde e aquele era o único horário disponível.

 

De segunda a sexta-feira.

 

Eu queria matá-lo, esquartejar aquela cara cínica, mas apenas concordei e respirei fundo quando me vi já em meu carro, prestes a sair da clínica.

 

Maldito seja Abarai Renji e o dia em que escolheu ser generoso com Kuchiki Yuzo.

 

xXx

 

Na segunda quase esqueci completamente que meu horário havia mudado e faria hora extra. Yuzo me passou informações sobre como queria que Byakuya fosse ensinado, mas com seu cinismo contido não disse nada sobre meu salário.

 

Eu não trabalhava pelo dinheiro, mas desconfiava que amor a profissão não costumasse pagar as contas do fim do mês e ele pretendia estender meu horário de trabalho a bel-prazer. Conhecendo-o, ainda que pouco, sabia que se noites mal dormidas por conta dessa nova rotina chegassem a me atingir ele iria exigir explicações e despejar uma série de baboseiras em cima de mim dizendo o quão sério era e que aquela clínica não aceitava preguiçosos.

 

Estava claro que não podia deixar aquele pedido se estender a dimensões tão ruins, mas o xinguei mentalmente durante todo o dia, esperando apenas o final do mês chegar, já com planos em mente.

 

Enfim. Depois da bendita dor de cabeça sobre o filhinho mimado do papai atendi compenetrado a todos os pacientes, despejando o amor aquela profissão escolhida em cima daquelas pessoas. Algumas me sorriam com afinco, outras apenas cumprimentavam, mas eu estava satisfeito em saber que meu trabalho era bem-feito e não tinha motivos para não conseguir dormir bem à noite.

 

Agendei compromissos, retornos e exames, corri para atender a todos naquela segunda-feira carregada, ainda que fosse uma clínica particular, e quando finalmente tive tempo de fitar o relógio era hora de ir embora, ao menos para os outros funcionários.

 

Não sabia se Yuzo ia ficar ou não, mas não me importava com aquilo. Fui a uma espécie de pub perto da clínica comer alguma coisa e passei numa livraria antes de voltar para minha nova profissão. Os relógios já marcavam sete horas quando adentrei minha sala, encontrando-o lá.

 

Lia alguma coisa num dicionário de medicina, o que constatei quando ele o fechou e me encarou, cumprimentando-me com um aceno respeitoso de cabeça, que retribuí. Sentei-me em frente a ele e respirei fundo antes de dizer alguma coisa, fitando seus olhos, que mostravam mais cansaço do que ele parecia querer mostrar.

 

- Aposto que sua faculdade lhe arranca boas noites de sono. – Disse apoiando os cotovelos na mesa. Ele me encarou.

- Deve imaginar que sim, cursou a mesma coisa.

 

Eu queria matá-lo. Era um maldito mimado, tanto quanto o pai. Talvez a mãe fosse a única salvação daquela família. Respirei fundo e tentei de novo.

 

- Seus olhos. Eles aparentam cansaço. – Ele cerrou os olhos e eu quase desisti daquilo tudo – Porque não diz a seu pai que está cansado de estudar período integral e essas aulas particulares só vão te cansar mais?

- Eu estava naquela sala sexta-feira, e ouvi claramente quando ele disse para você me dar aulas, não conselhos. Mas, a desencargo de consciência, fui eu quem pediu.

 

Eu queria cometer um assassinato pela primeira parte da frase, mas me contive quando ouvi a segunda. Era mentira. E ele pareceu notar quando ergui uma sobrancelha, mas não estava disposto a dizer nada, de forma que também me permiti participar daquela guerra, quando o vi dar de ombros e retirar alguns livros da mochila.

 

Arrisco dizer que só falou bastante comigo naquela hora para me situar sobre o que estava vendo na faculdade, se não provavelmente não o faria. Mas não me importava mais, ele sabia usar as garras dele e eu aprendi a usar as minhas, então seria uma briga justa.

 

A diferença era que as minhas garras eram parte do conteúdo daquele livro. Eu podia dizer que era inteligente e toda a dedicação pela medicina me fazia ter confiança no que falava e como agia. Mas, me surpreendi quando, explicando coisas simples para situar a nós dois, ele pareceu não entender.

 

Eu não era de perder a paciência fácil, e não estava falando nada que ele ainda não tivesse ouvido falar na faculdade, mas apesar de toda a postura ereta e o olhar arrogante, ele parecia desconsertado no meio daquelas palavras, das figuras, da medicina em si. Apesar de parecer muito inteligente, ele parecia um recém-nascido no meio daquilo tudo, mas parecia orgulhoso demais para demonstrar alguma falha, apesar de ter percebido que eu notara aquilo.

 

Tentei não tocar naquele ponto. Entre idas e vindas meu relógio despertou, e quando notamos estava na hora de irmos embora.

 

Nossa despedida não poderia ser pior, ele apenas colocou tudo dentro da mochila e saiu sem dizer nada, dando-me um pequeno e respeitoso aceno de cabeça. Os bons costumes ele seguia com afinco e da mesma forma respeitosa me despedi com um aceno. Algumas coisas martelaram em minha mente por bons minutos, até que consegui me levantar e ir embora.

 

Byakuya P.O.V

 

Ele era... Intrometido demais.

 

E apesar de dizer a mim mesmo que ele não havia percebido minha mentira, mascarada sobre as palavras duras, ele percebera sim. E aquilo podia ser perigoso. Não podia me arriscar a deixá-lo perceber muito mais coisas, não precisaria de muito para que chegassem aos ouvidos de meu pai. Mas, naquele momento estava cansado demais para conseguir arquitetar planos elaborados demais. O motorista fitava-me de soslaio, mas não lhe dei atenção, fitando as ruas já tão escuras e que passavam como borrões por meus olhos.

 

Respirei fundo, obrigando-me a esquecer certas coisas que já havia enterrado há alguns anos. Contei até dez enquanto o carro circundava a rua da mansão até a entrada. Quando me vi finalmente do lado de dentro fiz meu caminho de sempre até o segundo andar, não encontrando ninguém até chegar a meu quarto.

 

Eu sabia que se não estivesse me esperando na sala onde recepcionava visitas, ele estaria ali. E me encarou como das outras vezes, levantando-se até chegar a mim.

 

- Aprendeu alguma coisa que prestasse?

 

Não tinha forças para brigar com ele. Apenas assenti e seus olhos se iluminaram ao notarem o cansaço que carregava, como se apenas agora estivesse satisfeito com alguma coisa vinda de mim. Não tinha costume de ignorá-lo, algumas marcas me serviam de aviso quando não lhe respondia algo, mas ele parecia contente demais com seus ideais mórbidos e seu egocentrismo para perder a paciência comigo.

 

Saiu gargalhando de meu quarto, fechando a porta com uma força desnecessária. Estava retirando as kenseikan e tentei manter a postura enquanto o fazia, mesmo que mais ninguém estivesse ali comigo. Aprendi a estar atento a qualquer coisa que pudesse aparecer de surpresa, e me certifiquei de trancar a porta antes de retirar aquela pasta de minha mochila.

 

Fitei rapidamente aqueles desenhos perfeitamente protegidos ali, mas sem conseguir encará-los por muito tempo, eles continham algo de mim que ficara esquecido por muito tempo e no momento não parecia ter forças para conseguir agüentar o jorro de sentimentos que cairiam em mim.


Fechei-a com um baque surdo e a devolvi a seu lugar. Estava cansado demais para jantar. Tão logo me vi longe daquelas presilhas meu corpo tombou, e apesar de não ser de meu feitio, deixei que o ficasse onde caiu, desejando apenas que o sono viesse e as dores fossem embora.

 

xXx

 

Não poderia dizer que as horas passaram rápido, eu que havia dormido menos. O tempo não mudava seu fluxo em nenhum momento, e naquele instante não era diferente. Mesmo não sendo muito cedo minha mente já funcionava com tudo que tinha e meus pensamentos estavam claros como a água, ainda que com pontos turvos, por conta do cansaço.

 

Não podia fazer muito a respeito. Tomei um banho rápido, apenas para conseguir ser o Byakuya que ele desejava ver, e diferente dos demais dias, fitei-me no espelho.

 

Eu odiava espelhos. Odiava ver aquela pessoa morta que era refletida tão nitidamente e não parava de acusar a si mesmo, dizendo que as coisas só haviam chegado a tal por conta de erros próprios, covardia e muito medo. Vinte anos não podiam ser minha idade, não naquela situação, não com aquela vida. Parte de mim tinha vontade de quebrar todos os espelhos pelos quais passasse em frente, fosse em casa, fosse fora dela. Mas, aquilo era impensável.

 

E não queria me dedicar a fitar espelhos. Já era desgastante fazer qualquer coisa em sua presença, tinha que guardar energias para enfrentar outros demônios fora dali.

 

Sete horas saí da mansão.

 

Renji P.O.V

 

Eu estava quase morto. Quase?

 

Só faltava enterrar.

 

Eu deveria, sem dúvida, mandar matar Kuchiki Yuzo. Precisei de um banho frio para conseguir ao menos abrir decentemente os olhos, mas saí com tanto frio do banheiro que xinguei a mim mesmo pela ideia mirabolante. Não era muito sem um copo de café, e praticamente ressuscitei quando pude saborear aquele líquido despertador, melhor remédio que arrumei para agüentar a pressão da faculdade.

 

Era plausível a escolha do café por muitos como estimulante para se manter acordado.

 

Sete horas saí de casa e tão logo cheguei à clínica comecei a atender as pessoas que se aglomeravam de maneira quase educada em minha porta, a maioria de dois médicos que haviam faltado aquele dia, ou, pelo menos, estavam bastante atrasados. Foi necessário algum tempo para distribuir de maneira adequada os atendimentos, que acabei por intercalar entre meus pacientes e dos médicos que não estavam lá.

 

As maiores reclamações vieram sobre o fato de se pagar tanto em consultas para ter que esperar tanto tempo por um atendimento. Eu sabia que aquilo não era para mim e que Yuzo provavelmente já estava sabendo daquilo, mas ele não ia se arriscar a aparecer na frente daquelas pessoas cheias de raiva por precisarem esperar mais do que normalmente o faziam.

 

Ao menos era o que eu achava, e estava certo. Ele não apareceu em nenhum momento, não podia determinar porque, mas não apareceu. Se soubesse antes que iria atender tanta gente não teria tomado tanto café, que estava começando a me dar azia. Mas, não havia como voltar atrás. O café havia me revigorado, de qualquer forma, mas não tirara o cansaço que estampava claramente meu rosto.

 

Algumas pessoas – apenas pacientes meus – perguntaram se estava tudo bem, eu apenas disse que estava com alguns problemas difíceis, mas que estavam se resolvendo aos poucos.

 

- Meu bom rapaz. Quando estiver com problemas, tente deixá-los de lado por alguns momentos, suficientes para que possa refletir que, se esses problemas não têm solução não há com o que se preocupar, e se eles têm, não há motivos para perder o sono.

 

Consegui sorrir com aquilo. Beijei amavelmente aquela mão enrugada da amável senhora que atendia desde que chegara à clínica. Era a voz da experiência me dando conselhos que poderiam servir em algum momento, que não aquele.

 

Fora a pior mentira que consegui inventar.

 

E acabei me lembrando da mentira daquele garoto-homem chamado Byakuya. Ele sabia que eu não tinha acreditado naquilo, e pela má resposta que me dera eu sabia que havia algo mais do que aquela frase que despejara em mim. Ele parecia tão arrogante quanto o pai, deveria dizer que estava cansado demais para conseguir aproveitar qualquer palavra que pudesse vir de mim. Era incrível a capacidade com que aquele assunto me engolfava, mesmo que mal conhecesse Byakuya. Talvez ele tivesse seus motivos para agir daquela forma e era naquilo que queria me agarrar.

 

Afinal de contas ainda havia muito que fazer, o dia estava apenas começando.

 

Byakuya P.O.V

 

Aquilo era malditamente constrangedor.

 

Mas, eu não conseguia me manter firme na cadeira. Meus olhos insistiam em fechar e eu insistia em brigar com o sono, chegando em um momento tão inoportuno como aquele. Sentar na frente só piorava tudo, e eu nunca havia ouvido meu nome tantas vezes como naquele começo de manhã.

 

Mas, talvez estivesse começando a não ligar. Não mais. Aquela maldita voz feminina não parava de me chamar, mas suas palavras e explicações se perdiam nas curvas negras da minha mente, tão turva quanto possível, pela exaustão. Quando finalmente me perguntou por que estava tão pálido sem atenção pude responder que não havia dormido bem.

 

Foi o necessário para que as conversas paralelas começassem. Eu conhecia aquilo, bastava um acender o pavio e aquele virava o centro das atenções, como se um alvo estivesse colocado em si pronto para aceitar, querendo ou não, aqueles vocábulos equivocados, provocativos e acusadores. A grande maioria ali parecia não acreditar no que eu havia dito, mas não me importava com seus pensamentos mínimos e limitados. A mulher parou de me encarar depois de alguns minutos e continuou com suas explicações insuportáveis sobre as múltiplas funções do coração.

 

Em seguida veio a aula de anatomia e o comentário do professor, dizendo que se aquela pessoa estivesse viva eu provavelmente a teria matado pelo menos dez vezes.

 

Eu não era de sorrir, de rir, me expressar. Mas, depois de muito tempo consegui sorrir um pouco e disse que me concentraria melhor naquilo, apesar de ele apenas negar, dizendo que não estava bravo e entendia meu cansaço, achando que o era por conta da faculdade.

 

Eu o admirava por conta de seus ideais e do apoio que dava a todos os alunos, mas não pude deixar de achá-lo bobo por conta daquela afirmação tão inocente quanto um bebê. Se meus problemas fossem fruto do cansaço acumulado pela faculdade de medicina eu poderia me considerar a pessoa mais feliz do mundo.

 

Mas, estava longe disso.

 

No entanto, após aquela aula estaríamos no horário de almoço. A melhor hora para fugir de todos aqueles olhares, de professores e alunos, fosse por minha postura calada, fosse por minhas kenseikan, que pareciam atrair mais pessoas que o necessário, apesar de esta ser sua função.

 

Vil, mas era sua função. E minhas presilhas não eram as únicas que exerciam funções vis no mundo. Retirei as roupas da aula de anatomia e descalcei as luvas de látex, dispensando-as na lixeira posta na entrada do laboratório. Sem dizer nada peguei algo em específico em minha mochila e segui a passos firmes pelo campus até chegar à área verde, onde a maioria dos alunos de artes plásticas se encontrava para desenhar a natureza viva que envolvia a faculdade.

 

Meu sono pareceu esvair quando me deparei com aquilo. Mas, a verdade era que estava inerte demais para conseguir esboçar qualquer reação que costumava aparecer quando estava sozinho ou ali na hora do almoço. Meus desenhos jaziam descansando em meu colo e me deixei encostar-se a uma árvore próxima a cerejeira tão famosa da faculdade. Perdi a conta de quantas vezes respirei fundo, tentando conter algo desconhecido em mim.

 

Talvez estivesse perdendo controle de algumas coisas e precisava descobrir o que, e porque aquilo estava acontecendo. Eram sete anos, estava anestesiado de sensações e sentimentos intrusos e destrutivos, mas algo martelava fortemente em mim e não podia determinar se era bom ou ruim.

 

Algo me dizia que, se nem meus desenhos estavam salvando minha vida daquela escuridão imposta era porque algo muito ruim estava se aproximando. Algo maior do que eu podia controlar.

 

Havia perdido o sono, mas desta vez por motivos diferentes.

 

Renji P.O.V

 

Voltei tão relaxado quanto atarefado do almoço. Não podia imaginar que os dois médicos não fossem aparecer à tarde, mas o que me surpreendeu, de fato, foi a quantidade de pessoas que apareceram quase que por brotamento na porta de minha sala. Por ser uma clínica particular, e as consultas serem agendadas e tão caras como eram eu não podia imaginar que veria mais de trinta pessoas precisando ser atendidas num período de uma hora, obrigatoriamente por um cardiologista e eu ser o único dali.

 

Eu podia ser considerado um super-homem por ter conseguido atender aquelas pessoas naquele período tão curto. Inacreditavelmente elas saíram satisfeitas com o atendimento, mas minha própria comparação com o herói dos quadrinhos me fez lembrar, novamente, de Byakuya.

 

Quando terminei todos meus pacientes me deixei deitar na maca um pouco, passava das seis e dez e não estava preocupado se alguém iria aparecer.

 

Nesse meio tempo várias coisas me vieram à mente, entre elas uma necessidade quase angustiante de pedir ao garoto-homem (eu precisava parar de pensar nele assim) para que falasse com seu pai sobre aquelas aulas, antes que ele mesmo começasse a achar que era um super-homem e caísse doente a meus pés.

 

Eu não me importaria em atendê-lo, mas não precisava de Kuchiki Yuzo me importunando por conta de algum colapso que seu mimado filho pudesse ter, como se a culpa fosse minha. Eu não queria fugir de nada, mas não queria ver alguém sucumbir a minha frente e eu não fazer nada. Tinha de lutar contra as palavras horrendas que saíam de sua boca e impedir que algo de ruim pudesse acontecer com ele.

 

Eu queria fazer aquilo, e estava determinado. Mas, todos aqueles devaneios haviam me cansado mais do que pudesse imaginar. Levantei dez para sete da noite e fui até a janela aos fundos de minha sala, olhar a noite. A janela dava para o fundo da clínica e seu jardim, tão bonito como os jardins do éden. A grama era bem podada, mas alta o suficiente para fazer contraste com os pés de rosa que enfeitavam a parte verde do chão, repartida em dois, formando uma rua de pequenas pedras, suaves aos pés, que no fim do caminho davam para uma linda cerejeira, muito maior do que as que já havia visto, e que era sempre rodeava e ovacionada em silêncio por seus galhos e pétalas que formavam uma espécie de moldura a seu redor, quase como que protegendo-a de tudo e todos.

 

Era o lugar mais bonito dali. Mas não pude admirar muito, não demorou para que algumas batidas na porta me trouxessem de volta para a realidade. Permiti a entrada e vi Byakuya entrar suavemente pela porta me acenando com a cabeça e se sentando na cadeira a frente da minha, separadas apenas pela mesa. Esperei que se sentasse e avisei que sairia um pouco.

 

Ele assentiu e me retirei da sala.

 

Byakuya P.O.V

 

Aquela sensação não queria me deixar.

 

Mas, eu não era conhecido por manter sensações por mais tempo que o seguro, e não queria prestar atenção ao que sentia, não quando, diferente até mesmo para mim, me atrevi a ver o que o tal Renji tanto olhava quando cheguei. Uma lufada me atingiu por dentro. Eu não sabia o que era aquela sensação forte dentro de mim, mas senti o coração comprimir ao ver o perfeito contraste de cores, luz e sombra adornando com o brilho forte da lua aquele jardim do qual eu desconhecia a existência.

 

Quando dei por mim, espantei-me. Não por estar agindo mais que o normal, mas por estar... Sorrindo. De verdade, como sorria antes de tudo mudar. Não era um sorriso grande, nunca fui de grandes expressões, mas era sim verdadeiro, eu conseguia sentir.

 

Mas, tratei de mudar aquilo. Por um momento pensei ter visto lágrimas em meus olhos, mas aquilo não iria acontecer, eu sabia que não. Recompus-me e me sentei novamente, esperando Renji voltar. Tirei os livros da mochila e ela pareceu suspirar de alívio. Eu a entendia, aqueles livros estavam machucando minhas costas há três anos e cada dia parecia mais difícil manter a postura, tanto a física quanto a mental.

 

Eu já não sabia mais no que me segurar, estava à deriva. Concentrar-me naquelas palavras era o melhor que podia fazer, e quando Renji apareceu eu já me perdia naquele mundo asqueroso chamado medicina.

 

...

 

Aquela noite estava tão carregada que eu já não sabia mais quem era. Ele perguntou vinte vezes, em uma hora, se eu havia entendido alguma coisa. Em todas eu assenti tão falsamente que sim, que estava me perguntando quem era aquele Byakuya, parecia um protótipo mal elaborado que foi descartado por ter sentimentos demais a mostra.

 

- Você não entendeu nada, entendeu?

 

Meu coração estava acelerado, mas minha expressão continuava impassível. Eu neguei, neguei e neguei três vezes, neguei quantas vezes fosse preciso para que ele parasse com aquela discussão sobre eu estar mentindo, mas ele era mais insistente do que podia imaginar, e me pediu para lhe explicar o que havia acabado de me dizer.

 

- O professor é você.

- Não jogue comigo desse jeito.

 

Neguei mais uma vez e sua postura mudou. Estava incrivelmente mais ereta que a minha, e eu conhecia minhas próprias posturas bem o suficiente para saber que apenas meu pai era um “inimigo a altura” naquele quesito.

 

Sua voz se tornou mais autoritária e aquilo despertou em mim aquele Byakuya de sempre, que rebateu suas falas sérias no mesmo tom, tentando tomar o controle da situação novamente. Mas, a sucessão de acontecimentos que vieram nos próximos minutos me fez perder todo o controle conquistado. Ele continuou falando, enchendo minha mente com suas palavras difíceis e seus termos dignos de exorcismo.

 

Até que me vi dando um basta naquilo. Bati com força as mãos na mesa e me levantei, pedindo licença e saindo da sala. Precisava tomar o controle de mim mesmo antes que qualquer coisa chegasse a meu pai.

 

Renji P.O.V

 

Eu não conseguia entender porque tantas mentiras, tantas interpretações mal-feitas, falsas, e porque aquele homem – eu podia chamá-lo assim – tão cheio de si, exalando regras de etiqueta começou a se curvar aos poucos e perder a cor do rosto e a dureza dos olhos. Aquilo era uma surpresa, não o conhecia muito para saber como o era em momentos de descontração, apesar de nossas aulas serem quase um passeio fora da rotina.

 

Ao menos para mim. Ele, no entanto, não parecia se sentir assim, e algo me incomodava naquela cena, até o momento em que ele bateu com força na mesa e saiu. Seus olhos estavam tão cansados e rodeados de olheiras, apenas aumentando algumas suspeitas que estavam despontando em mim. Mas, ele se manteve para si durante todo o tempo em que ficou comigo, até quando explodiu e saiu da sala.

 

Não hesitei em abrir sua mochila. Não sabia o que procurar ali para poder lhe ajudar, mas alguma coisa talvez pudesse me servir de indicador para ajudá-lo de alguma forma. O mais suspeito era uma pasta que não servia muito para alunos de medicina, mas bastou olhar para o primeiro papel e meus olhos se arregalaram o máximo que podiam.

 

Aquela era a Monalisa. Mas, o incrível não era ser ela, e sim ser uma réplica perfeita do verdadeiro quadro, em termos de desenho e pintura. Eu não era especialista no assunto, mas sabia que aquele era o trabalho de um verdadeiro gênio das artes plásticas.

 

- Não mexa nisso!

 

Não o vi voltar, mas me surpreendi com sua expressão quase... Assustada. Ele avançou sobre mim, mas o contive com uma mão, ao menos o máximo que consegui. Seu olhar então se voltou para mim, seus olhos acinzentados lutavam contra uma dor quase lancinante e eu pude, então, juntar todas as peças daquele quebra-cabeça.

 

- Você não gosta de medicina, não é?

 

Duas lágrimas mancharam-lhe o rosto.

28 de Diciembre de 2018 a las 12:00 0 Reporte Insertar 0
Leer el siguiente capítulo Descoberta

Comenta algo

Publica!
No hay comentarios aún. ¡Conviértete en el primero en decir algo!
~

¿Estás disfrutando la lectura?

¡Hey! Todavía hay 6 otros capítulos en esta historia.
Para seguir leyendo, por favor regístrate o inicia sesión. ¡Gratis!

Ingresa con Facebook Ingresa con Twitter

o usa la forma tradicional de iniciar sesión