Dia de cão Seguir historia

guardapalavras tiago freitas

Não esteja seguro que o seu gatinho anda feliz com a comida que lhe dá. Pode ser que sem se perceber, possa estar a criar um monstro.


Cuento No para niños menores de 13.

#surreal #gato #comida #loucura #conto #humor-negro #cómico #trágico #violento #cão
Cuento corto
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Obcessão

Baltazar estava farto! Enjoado de todos os dias se ver

obrigado a engolir aqueles cubinhos enfadonhos e

repugnantes a que chamavam, deprimentemente

comida. Jurara vezes sem conta que não mais iria comer

aquelas refeições, feitas das mais suculentas partes da

vaca, da mais deliciosa galinha ou do peixe mais fresco

dos oceanos, que ele sabia bem serem uma data de

mentiras, escritas em vulgares latas cheias de cor e

imagens ilustrando gatos estupidamente saudáveis. 

Meu Deus! Como odiava aquele aparato publicitário, onde as

ditas refeições, manipuladas artificialmente, 

aparentavam um tal aspeto que fariam qualquer humano

as desejar secretamente. 

 A dada altura já pouco comia.

Limitava-se a questionar indignado junto do seu bonito

pratinho de porcelana, onde estaria a semelhança entre

o pedaço regurgitado que tinha à frente e a tão

proclamada iguaria conventual. Certo é que, para mal

da sua espécie, continuavam a enganar donos idiotas que

acreditavam piamente estarem a dar aos seus “gatinhos”

o melhor gourmet do mundo. E como todos os humanos,

que vêm o que é bom com os olhos e não com o

paladar...

 Revoltou-se realmente quando certo dia, do telhado de

sua casa, reparou no terrível cão da vizinha, mastigando

vorazmente a sua refeição da manhã. Baltazar vira nos

seus olhos toda a expressão da felicidade. Alarvemente,

num prazer quase pecaminoso, o brutal cão parecia-lhe

ao longe, manter um leve sorriso de troça, como se se

tivesse apercebido da sua cobiça. “Maldito brutamontes!”,

pensou, enquanto cravava com força as garras

afiadas nas pobres telhas cor de laranja.

 Não sei se era por já não comer há uns dias, mas certo é

que já sonhava com Max a devorar aquelas pratadas de

biscoitos crocantes, ao som de belas melodias

encantadoras e muitos passarinhos à sua volta. Quando

acordava dos seus devaneios, corria para o telhado e

fixava-se horas a fio sem despregar olho daquele

reluzente prato metalizado, que lá estava, imponente,

poisado no jardim do lado. À medida que o tempo

passava e a cena se repetia, ficou definitivamente

obcecado. Tão obcecado que tinha resolvido que iria

comer da comida do cão, nem que lhe caíssem os

bigodes!


Faltava arranjar um plano para o fazer sem que Max

se opusesse no seu caminho, e nem quero imaginar se

isso acontecesse. Max era daquele tipo de cão com cara

de porco e uma baba incessante ao canto da boca, que

realmente lhe dava um aspecto muito pouco atractivo,

para não mencionar a sua imensa massa corporal,

disforme tipo sapo, que nada o favorecia quanto à

elegância. Na realidade um autêntico aborto avantajado,

que a natureza, maldosamente nos deu a contemplar.

No início, limitou-se a pensar, em círculos contínuos,

como uma mosca de asa amputada, em agonia, sem

compreender porque não consegue atingir os céus em

direcção ao monte de esterco mais próximo. Depois

trabalhou horas a fio, rascunhou centenas de planos,

maquinando até à exaustão. Nada o levava à tão

desejada refeição sem que Max estivesse por perto. É

que sempre que havia comida na taça, havia Max

debruçado sobre ela, e quando a besta disforme não

estava por perto, tambem não valia a pena lá ir, pois

Max conseguira aquele mimo de corpo pouco

convencional, às custas de uma fome

impressionantemente devoradora. Fussangava até a

última migalha. 

 Tornava-se bestial assistir a uma

refeição daquele animal adorado quase ao fanatismo

pela sua única dona, que já há muito enviuvara.

Baltazar sufocava em ansiedade, a sua obcessão

encontrava-se no limiar da loucura. Na sua cabeça só já

existia uma maneira de atingir os fins, que por muito

brutal e sanguinária que fosse, já não o levariam atrás.

Se era a única maneira, que assim fosse! Coitado, tinhase

tornado num gato completamente perturbado.

Ultimou os últimos preparativos na cave da sua casa. Na

penumbra de um dos cantos, tornava-se assustador vê-lo

limpar o tambor da magnum 45 que ele havia

desencantado algures, com os olhos baços e

esbugalhados que pareciam sair das órbitas. Estava

magro que nem um cão, isto se nos lembrarmos que Max

já não era bem um cão. 

 Atuaria na manhã seguinte.

O sol começara a despontar lá fora, na sua cabeça a

manhã tinha demorado uma eternidade a chegar. Não

pregara olho a noite inteira, limitou-se a ficar aninhado

sem se mexer, no mesmo canto húmido da cave

subterrânea onde se tinha refugiado, com a arma

carregada, firme entre as suas patas trémulas da

fraqueza a que tinha chegado. Sabia que teria que ser

rápido e frio a agir, pois ao mínimo descuido, ao mínimo

toque de consciência, Max poderia ser-lhe fatal.

Imaginar-se retalhado, perfurado até aos ossos, por

mandíbulas e caninos monstruosamente pré-históricos,

era algo que lhe provocava um medo que lhe invadia os

nervos.

“Sem alma, sem piedade...”, dizia em voz baixa para si

mesmo, interiorizando o espírito da coisa, enquanto

caminhava decidido e cauteloso através do último terço

do gradeamento que separava os dois jardins vizinhos.

Quando chegou ao fim, respirou fundo duas ou três

vezes, lançou um olhar furtivo para se dar conta do

terreno inimigo, e ver se a velha bruxa já despejara o

mal da sua loucura no prato do seu queridinho, que

estava prestes a ir para os anjinhos, (aposto que a velha

iria levar aquilo como um novo enviuvamento.)

Finalmente chegara a hora mais dramática. Empunhou a

arma e saltou em direcção ao cão, determinado e

alucinado como nunca se tinha visto um gato. No

primeiro momento da ação o bicho nem reparou, tal era

o estado de hipnose a que a paparoca o sujeitava, mas

logo sentiu a fúria de Baltazar quando este lhe deu um

valente pontapé rotativo, certeiro no seu focinho já de si

achatado. Partindo-lhe os dois caninos superiores e de

queixo à banda, Max nem teve tempo de cambalear, logo

de seguida já tinha o canhão apontado entre os olhos.

Haviam de lhe ver o focinho nos momentos que se

seguiram. Um rio de mijo descontrolado escorria-lhe

pelas patas a baixo, num pranto miserável agarrado ao

pêlo de Midas. Até pela mamã chamou. O gato nem

queria acreditar no triste e deplorável espectáculo que

aquele bruta-montes estava a dar. Nunca lhe tinha

passado pela cabeça que iria ser assim. Por instantes o

felino vacilou, por momentos quase ia tendo pena...mas

foi só por momentos. Bastou-lhe premir o gatilho uma

vez para espalhar a mioleira de Max sobre uma vasta

área de relva verdejante.

Estava feito! Iria finalmente provar o sabor da vitória,

que se encontrava totalmente desprotegida sobre uma

taça de inox que até lhe pareceu mais reluzente e

admirável. Ainda nem estava bem a acreditar que o tinha

realmente conseguido, e da expectativa ao momento da

confirmação foi um instantinho. Meteu à boca o primeiro

biscoito de cão e...era maravilhoso! Um paladar único,

crocante, intenso, derretia-se devagarinho na boca

permitindo uma degustação prolongada de elevado

prazer sensorial.

Como qualquer bom assassino, Baltazar não resistira a

assistir ao funeral da sua vítima. A “viúva” estava com

um ar desolador, no meio de outros presentes, amigos da

“família”. Max encontrava-se num pequeno caixão

transparente, em fibra de vidro, desenhado na Alemanha

especialmente para si. Não deixava de ser macabro,

vistos que se encontrava sem cabeça, impossível de

reconstituir. Em substituição colocaram uma batata,

talvez para lembrar que o bicho não era completamente

destituido de cérebro. De qualquer forma foi um funeral

com pompa e circunstância, cheio de flores, alguns ossos

e muitos gatos embalsamados, atirados para o fundo da

campa à medida que um padre, verdadeiro, vindo

directamente do Vaticano, se esforçava para nos falar de

um suposto paraíso canino, onde Max seria feliz para

sempre, rodeado de belos campos abastados de enormes

colinas de comida gordurosa e infinita. Entre estes e

outros encantos dignos dos mais profundos sonhos de um

cão, a “viúva “ resolveu desmaiar.

Nos dias que se seguiram ao tão comovente enterro, a

situação tinha-se tornado alarmante. A quantidade de

cães brutalmente assassinados já tinha ultrapassado uma

dúzia, sem contar com os efêrmos que definhavam à

fome por falta de ração. Desaparecia do mercado de uma

forma misteriosa a uma velocidade vertiginosa, deixando

atrás de si um rasto de caos e anarquia. A polícia parecia

desorientada e sem saber como reagir. Não tinham ideia

do que estaria por de trás de tamanha acção de violência

e horror.

Quando finalmente as autoridades resolveram agir e

investigar sobre tão profunda crise, o número de vítimas

tinha já quadriplicado. Foi decretado estado de

emergência canino em toda a região. As organizações

internacionais abriam corredores humanitários e

pequenos campos de refugiados eram montados para

acolher matilhas imensas de vira-latas. As consultas

psiquiátricas dispararam em flecha, com cães e outros

animais em profunda depressão e estado de choque. As

raças mais pequenas sofriam sobretudo de violentas

cólicas nervosas. Os donos, esses, passaram a dobrar as

suas doses de xanax e outros sedativos que há anos

estavam habituados a tomar.

Baltazar não conseguia parar, encontrava-se cada vez

mais diabólico, mortal e atingira uma proporção física

deveras impressionante. A sua cave tinha-se tornado, por

assim dizer, um autêntico bunquer pós-holocausto. Havia

sacos de ração por todo o lado, atulhados até ao tecto.

Também tinha conseguido um autêntico arsenal de armas

de que se servia todos os dias: granadas, minas,

matracas, catanas, diversas armas de fogo, soqueiras

(que eram muito do seu agrado) e até um novo lançarockets

desmontável, já estreada sobre um aristocrata

cocker Irlandês. Cada biscoito que punha à boca era um

incentivo para continuar a alimentar a sua loucura e a

consequente chacina, e claro, o próprio arcaboiço. Quem

o visse assustava-se, Baltazar tinha perdido toda a

aparência de um gato e deveria agora pesar cerca de uns

trinta quilos e ter o triplo do tamanho normal. O focinho

estava áspero, o pêlo perdera todo o brilho e o andar

pesado e desajeitado davam a entender todo o seu

aspecto criminal.

Já só saia de noite, o que tornava a sua missão mais

difícil, mas não podia arriscar mais. Era um gato

procurado. Haviam gangs de cães revoltados e ferozes

por todo o lado, sedentos por fazer justiça com as

próprios mãos. Em toda a cidade circulavam cartazes

anunciando chorudas recompensas por informações

crediveis, que ajudassem as autoridades à sua

identificação e consequente detenção. Passaram a

Chuver o mais variado tipo de estórias e testemunhos,

contava-se a verdade e a mentira. Do mais ridiculo ao

espectacular havia relatos para todos os gostos. Eu

próprio vos conto um episódio dos ultimos dias de

Baltazar, fidedigno e uma verdadeira narrativa de

horror. Uma estória dramática de roubo, violação e

crime que acabou no espancamento até à morte de um

indefeso caniche. Num daqueles fins de tarde em que as

noites caiem depressa, uma inconciênte velhinha,

passeava o seu boby lá para as bandas do tropical jardim

municipal, que é de plástico para poupar nos custos de

manutenção. O ritual era alegre e habitual. Enquanto o

“pantufa” se aliviava nas imediações, a senhora lá ia, um

pouco mais atrás, contemplando as bonitas bananeiras

made in Taiwan, apanhando de quando em quando os

cocós civicamente, que a merda de cão nos jardins

públicos não é de facto um presente desejável.

Subitamente apercebeu-se da presença de uma terceira

entidade. Um ser negro, enorme, de arfar pesado e

fantasmagorico aproximava-se nauseabundo e predador

nas costas do cachorro. Paralizada e cheia de cagaço

ainda ensaiou um aviso ao distraido “lambe cona”. Nem

um subliminar grunhido gotural se lhe escapou da goela.

O resto já vocês podem imaginar, um salpicado de pintas

vermelhas na doce penumbra da noite...

Baltazar o monstro infernal, Baltazar o insaciavel. Como

foi possivel? A mente de um felino é misteriosa! A velha

senhora essa continua incontinente, presa para sempre á

cama de um qualquer lar ilegal e deprimente.

Tudo chegaria ao fim, e realmente chegou. Certa noite,

tinha Baltazar vindo de mais um bem sucedido ataque

nocturno, quando chegou o intendente da polícia e mais

um reforço do 15º batalhão das forças especiais do

regimento local, que lhe cercaram a casa. Tinham-lhe

finalmente descoberto o covíl. Lá de fora fez-se ouvir um

estridente som de megafone, dizendo-lhe que a casa

estava cercada e que se rendesse. Ouviu também uma

série de mentiras, (que iria ter um tratamento justo, que

não haveria violência contra ele...), balélas! O seu

coração batia a um ritmo acelarado e empunhou de

imediato a arma que trazia sempre junto a ele. Lá fora,

juntara-se ao som das sirenes um imenso ruído de uivos e

latidos de cães que lhe entravam na cabeça e lhe

consumia os nervos. Assustava-lhe mais a ideia de um

linchamento às mãos de uma matilha de cães em fúria,

do que a própria polícia e todo o seu aparato militar,

afinal não existiam leis para julgar e punir felinos. Estava

pronto a ripostar caso fosse necessário, não estava

disposto a entregar-se assim tão facilmente. Tinha-se

tornado uma máquina de guerra versão felina. Encostouse

a uma das esquinas mais escura e protegida por uma

barreira de sacos de comida. Bátegas de suor do tamanho

de morangos emanavam do seu rosto, os seus olhos

reluziam como faróis de um camião prestes a atravessarse-

nos no caminho. A sua cabeça processava a duzentos

hora sem por isso conseguir reagir. A expectativa

provocara um silêncio tumular, apenas se vislumbrava

um imenso emaranhado de holofotes que se cruzavam

irrequietos.


A polícia nunca chegou a agir, pois Baltazar suicidara-se.

Não por covardia, mas sim por outra razão. Enquanto

estivera encurralado no seu próprio esconderijo,

agonizando por uma solução de fuga que era quase nula,

um dos sacos da barreira que o protegiam caiu no chão,

pondo a descoberto a literatura dos ingredientes que

faziam aquelas tão soculentas refeições, as mesmas a

que ele se predispusera fazer tudo para obter. Ao lê-las,

quase por acaso, ficou chocado com a tremenda

revelação que lhe foi dada a conhecer.

Não conseguiu evitar as lágrimas , um miado de

desespero saiu-lhe das mais profundas entranhas

enquanto escorregava lentamente encostado à parede

em direcção ao chão. A penumbra encarregou-se de dar

um aspecto ainda mais dramático à cena. Encostou a

arma à nuca e balbuciou umas últimas palavras antes de

premir o gatilho, “como seria possível aqueles biscoitos

serem feitos com restos de gato!...”


TF.

10 de Diciembre de 2018 a las 15:19 0 Reporte Insertar 0
Fin

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tiago freitas Excepcional amante do maravilhoso, explorador de sonhos e compulsivo leitor de histórias.

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