Komorebi Seguir historia

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Alguns significados são exclusivos, algumas definições simplesmente não comportam traduções. Yuuichirou Amane sempre definia sua relação com Mikaela Shindo como "familiar", talvez pelo simples motivo de não haver uma palavra que a definisse melhor do que aquela em seu idioma. No entanto, será que esta era a melhor interpretação? Ao que tudo indicava, as circunstâncias diferenciadas daquele mês de dezembro poderiam provar a Yuuichirou que existem sentimentos únicos, indefinidos e indescritível, mas que nem por isso deixam de ser concretos ou incompreendidos pelos demais. Afinal, mesmo que ele tenha sido o último a compreender a intensidade deste sentimento intraduzível, não significa que ele já não o sinta há muito, muito, muito tempo... [UA] *MikaYuu* *Romance* *Comédia* *Yaoi* *Temática Natalina* Disclaimer: Os personagens da fanfic pertencem a Takaya Kagami e Yamato Yamamoto; a trama, no entanto, me pertence.


Fanfiction Anime/Manga Sólo para mayores de 18.

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Capítulo 1


— Yuu-san?

— Hm?

— Qual a sua cor favorita?

— Azul. Por quê?

— Estou vendo as opções de cores no novo lançamento da Adam&Eve e quero comprar pra você de Natal. Azul então, ok.

— Adam&Eve?

— Achei que sua vida sexual não fosse tão chata... Você realmente não conhece a marca?

— Shinoa! — Yuuichirou exclamou, sentindo seu rosto aquecer ao corar — Você não está falando da sexshop, está?

— Oho! — a garota parecia se divertir com a vergonha do amigo: de maneira empolgada ela clicava sem parar no touchpad, realizando a compra do presente — Sabia que sua vida sexual com o Mikaela-san não era tão monótona assim, se você conhece a marca ent-...

Yuuichirou se debruçou sobre a mesa para alcançar o notebook de Shinoa, empurrando sua tela e fechando-a bruscamente. Manteve-se jogado sobre a mesa de leitura, fitando Shinoa com um olhar encabulado, apesar de tentar ao máximo demonstrar apenas irritação.

— Eu não quero nada desse tipo, muito menos no Natal! — sibilou, tentando controlar seu tom de voz para não ser expulso da biblioteca (a bibliotecária já havia chamado sua atenção antes, mas era tudo culpa da Shinoa e seu senso de humor ácido!). Yuuichirou sentia até mesmo suas orelhas esquentarem enquanto observando o olhar sacana da amiga, odiando cada momento de satisfação que ela sentia ao perceber que conseguiu, mais uma vez, encabulá-lo — Não ouse comprar presente de sexshop pra mim... De novo!

Hmm... Alguém certamente não superou ainda o presente de aniversário. — Shinoa constatou, alargando ainda mais o seu sorriso.

— Ah Yuu-san, você é tão fácil de tirar do sério! — ela suspirou, divertindo-se e fazendo absolutamente nada para esconder sua satisfação. Em seguida, empurrou a mão dele para longe de seu notebook, abrindo novamente a tela e virando-a para que ele pudesse ver seu navegador — Não é nada do tipo, estou querendo comprar uma camiseta pra você.

Naquele momento, Yuuichirou se sentiu duplamente envergonhado ao constatar porque ela realmente estava em um site on-line de roupas, e não em uma sexshop. Sentou-se novamente, cruzando os braços, exibindo uma expressão encabulada de insatisfação enquanto olhava para a parede da biblioteca como se houvesse algo muito interessante pendurado nela.

— Nunca se sabe... Espero qualquer coisa de você. — ele murmurou, tentando se redimir e torcendo para que sua coloração normal voltasse logo.

— Não tenho culpa, tirar sarro do "virgenzinho" é um dos meus passatempos favoritos.

— Você deve ter uma vida bem chata então!

Shinoa simplesmente sorriu, dando uma piscadinha para o amigo e colocando a camiseta no carrinho de compras da loja online.

Yuuichirou sabia que a vida de Shinoa estava longe de ser monótona, mas ele tinha que tentar sair por cima da situação de alguma forma (mesmo que a tentativa não tivesse dado muito certo). Ele ainda ficou emburrado por alguns minutos, mantendo seu olhar imerso em uma expressão de irritação, passando as mãos impacientemente nos cabelos de tempos em tempos, bagunçando-os ainda mais que o costume (tinha que parar com essa mania de dormir com o cabelo molhado e acordar com ele indomável).

— Eu não entendo porque você insiste em insinuar que eu e Mika estamos juntos... — comentou depois do longo silêncio, surpreendendo Shinoa pela retomada do assunto.

Yuuichirou falou bem baixinho, envergonhado e temeroso que alguém fora da conversa captasse o conteúdo de suas palavras; o local estava praticamente vazio, somente aqueles que ficaram de exame final ainda estavam na biblioteca, e estes desesperadamente estudava com muito afinco, de modo que ele considerava que essas pessoas não prestariam atenção na conversa de meros dois colegas de faculdade. Ainda sim, com Shinoa, toda cautela é bem-vinda: até porque todo mundo no campus sabia sua fama de encabular publicamente seus amigos e aguardava ansiosamente por um "show".

— Não sei porque você insiste em afirmar que não estão. — ela respondeu, debruçando na mesa enquanto trocava para a janela de uma rede social e via as fotos de seus amigos, parando ora ou outra para apreciar mais a fundo alguma imagem de Mitsuba — Vocês são praticamente casados, não vivem um sem o outro, seria ridículo se não estivessem juntos.

— O que quer dizer? — ele parecia surpreso com a afirmação, piscando em questionamento e ajeitando sua postura na cadeira — Eu e Mika não agimos como um casal!

— Yuu-san, para que tá ficando ridículo já.

— Eu estou falando sério!

Isso fez com que Shinoa desprendesse seus olhos acaju da tela do computador e fitasse firmemente os olhos verdes cheios de indignação de seu amigo. Para a sua surpresa, ela observou genuína sinceridade na expressão dele, o qual, apesar de ainda parecer envergonhado com o rumo da conversa, parecia confuso com o que ela afirmava.

— Você tá brincando, né? — questionou, distraidamente fechando a tela do computador e cruzando os braços sobre a mesa, apoiando-se e debruçando-se um pouco, deixando seus cabelos cor de lavanda esconderem seus braços — Eu achei que vocês estavam em, no mínimo, uns dois anos de relacionamento!

— QUÊ?! — Yuuichirou gritou, pondo-se de pé em um pulo. A bibliotecária o censurou de longe com um "shii" que ecoou por toda ala de estudos, e ele sentiu seu rosto esquentar mais uma vez quando voltou a sentar e conversar baixinho com a amiga — Você tá louca? Mika é só...

Mas então ele parou de falar, não sabendo ao certo como definir a sua relação com uma pessoa tão importante na sua vida, mas sentindo-se extremamente idiota por colocar a palavra "só" e "Mika" na mesma frase: porque Mikaela definitivamente não era "só" alguma coisa.

Mikaela Shindo era, em certos aspectos, o oposto de Yuichirou Amane: com seus cabelos loiros, olhos azuis claros e graciosidade que o fazia parecer da realeza, Mikaela poderia ser descrito por muitos como um "anjo"; enquanto Yuuichirou não sentia que possuía qualquer qualidade que o fazia ser algo além do que "estabanado": tá certo, ele poderia ser considerado bonito (não ao lado de Mikaela, porque ele ofuscava qualquer beleza humana com a sua graciosidade celestial, pelo menos era assim que ele via a situação), mas mesmo com seus olhos verde vibrantes, seus cabelos negros difíceis de domar e o restante de suas características não o faziam se destacar entre a multidão.

— ... "sua família", não é mesmo? — Shinoa complementou sua frase, ainda olhando-o de forma analítica, interrompendo momentaneamente seus pensamentos.

Yuuichirou assentiu com um balançar afirmativo da cabeça.

Mikaela era sua família, não havia frase melhor para descrever sua relação e ele constantemente utilizava essa definição como resposta, mas mesmo assim ele sabia que essa expressão poderia ter mil interpretações. Teve até uma ocasião na qual Yoichi Saotome, seu amigo mais gentil e bonzinho, perguntou timidamente se Yuuichirou considerava Mikaela seu irmão.

Ele negou veementemente.

Não havia um papel específico para Mikaela dentro de uma família; ele não era nenhum membro da família de fato, mas também era todos ao mesmo tempo. E, além do mais, Yuuichirou tinha de fato uma família; por mais anormal que ela fosse, é lógico que ele amava seu tutor Guren Ichinose, mesmo que ele fosse um completo babaca prepotente. Aliás, Yuuichirou conseguia colocar Guren no papel de seu irmão mais velho (e não de pai, como era de se esperar), mas Mikaela...

— Só porque vocês se conheceram no orfanato e conviveram juntos, não quer dizer que não possam ter o relacionamento que querem ter, Yuu-san. — ela complementou, sem um pingo de provocação em seu tom de voz, pretendendo apenas dar um conselho verdadeiro.

Yuuichirou continuou a encarar a parede atrás da garota, perdido em pensamentos e suas lembranças...

Seus pais o torturaram desde a idade pequena, sofrendo ambos com uma esquizofrenia grave e afirmando veementemente que Yuuichirou era um "demônio". Quando tinha oito anos, na véspera de Natal, após uma tentativa de assassinato precedida de uma espécie de ritual de exorcismo, muitos gritos e a intervenção mais do que tardia dos vizinhos, Yuuichirou foi retirado do convivo com os pais e, ferido fisicamente e psicologicamente, levado ao Orfanato Hyakuya. Após uma investigação criminal, seus pais foram internados e permanecem até então em tratamento, sem muita melhora.

Inicialmente, as crianças não queriam se aproximar de Yuuichirou: as circunstâncias da perda da guarda de seus pais foram motivo de manchetes em Tóquio, e os mais novos se perguntavam se ele realmente seria um demônio; já as crianças mais velhas, e até mesmo alguns adultos, tinham medo que Yuuichirou herdasse a esquizofrenia dos pais, até porque há comprovação cientifica que esse tipo de distúrbio mental tem chances de ser passado para consanguíneos, tornando-o predisposto a desenvolver, haja vista seus dois progenitores sofriam do problema. Todos temiam que, em algum momento, Yuuichirou fosse surtar e tentar matar a todos, seja por ser um demônio ou um esquizofrênico em potencial.

Mas Mikaela, o qual também morava no orfanato e também sofreu abuso parental, não deu ouvidos a nenhuma dessas fofocas. Aproximou-se de Yuuichirou no momento que o conheceu, sempre com um sorriso maravilhoso nos lábios e uma persistência invejável. Na defensiva, o pequeno Yuuichirou não deu atenção a tentativa de amizade, e Mikaela chegou ao excesso de comprar briga com ele para chamar sua atenção. No decorrer dos primeiros anos no orfanato, Yuuichirou foi abrindo seu coração ao garoto loiro, apesar de sempre fingir que não formaram um vínculo forte. Com o tempo, outras crianças se aproximaram dele e, mesmo não admitindo, todos eles, inclusive Mikaela, se tornaram sua família.

No entanto, ele não pôde usufruir desta felicidade por muito tempo.

Yuuichirou tinha acabado de completar doze anos de idade quando uma tragédia horrível aconteceu: um incêndio acidental se iniciou na calada da noite e, quando despertaram, já não havia mais como controlar. Todos tentaram fugir da casa, Mikaela agarrou seu braço às pressas e o guiou para fora. Infelizmente os dois foram os únicos sobreviventes da tragédia e, por mais que Yuuichirou se debatesse e tentasse voltar para o prédio em chamas e salvar os outros, Mikaela não o soltou por nenhum momento e controlou sua histeria com uma força que nenhum dos dois sabiam que ele possuía.

Quando foram resgatados e colocados em uma ambulância, Yuuichirou se deu conta de que Mikaela era tudo que lhe restava no mundo. Seus olhos azuis e brilhantes pelas lágrimas simbolizavam uma luz no fim do túnel, e a tristeza encobria o coração de ambos da mesma forma como as cinzas banhavam a pele dos dois. Apenas com o olhar, eles compreenderam perfeitamente a dor que dividiam, e Mikaela apenas estendeu as mãos para Yuuichirou, o qual empurrou os paramédicos e correu para os seus braços, sem vergonhas ou medo de julgamentos, apenas consolando e sendo consolado da forma que apenas um familiar pode fazer.

Depois daquela noite, ambos ficaram separados em orfanatos diferentes por alguns meses, mas logo foram adotados. Yuuichirou estava apático demais para protestar pela adoção como geralmente fazia na época do Orfanato Hyakuya, porque já não havia motivos para querer ficar no novo orfanato, nem sequer motivos para sair de lá; ele não se importava com mais nada. Todavia, seu momento de apatia acabou resultando em algo muito bom a longo prazo: com o tempo, foi adquirindo uma relação forte com Guren e, pouco mais de um ano depois de sua mudança, a vizinha Krul Tepes acabou adotando Mikaela, trazendo o convívio da sua "família" para o seu dia-a-dia mais uma vez.

Assim que entraram na faculdade, Mikaela e Yuuichirou se mudaram para um pequeno apartamento mais próximo do campus, para comodidade de ambos e porque, sendo bem sinceros, já estavam mais do que loucos para morarem juntos novamente. Logo adquiriram uma rotina extremamente confortável e nunca tiveram problemas com a nova convivência, ao ponto de que os amigos de Yuuichirou (os quais conheciam Mikaela devido a insistência dele em obriga-los a interagir) brincarem constantemente que eles eram casados.

Ou pelo menos ele achava que não passava de uma brincadeira...

— Yuu! — Shinoa exclamou ainda tentando manter o tom de voz baixo; ele se deu conta de que ela tinha dado a volta na mesa e agora estava ao seu lado, abaixando-se um pouco para ficar à sua altura (mas bem pouco; afinal, apesar de ele estar sentado, ela era muito mais baixinha do que ele) — Não tem problema nenhum você considerar Mikaela-san sua família, vocês são feitos um para o outro. Você sabe que dentre as figuras familiares existe a "esposa" e "marido", né?

— Pare de falar besteiras!

— E você seria a esposa, Yuu-san.

— SHINOA!


(***)


— Yuu-chan... Yuu-chan, acorde.

Yuuichirou abriu os olhos, mas logo piscou pesadamente, sentindo um incomodo grande com a claridade do local. Após alguns segundos, conseguiu visualizar melhor e se deu conta de que estava na sala, deitado no sofá. Mikaela o olhava de cima, com um sorriso suave em seus lábios, e a iluminação artificial da sala atravessava as frestas de seus cabelos parecia intensificar ainda mais o azul de seus olhos; Yuuichirou não pôde deixar de se lembrar do efeito que a luz do sol causava abaixo das árvores, passando por suas frestas, algo que sempre lhe causava uma sensação aconchegante.

Para se poupar de maiores embaraços, optou por atribuir essa comparação besta ao sono.

— O que aconteceu? — ele questionou em meio à um bocejo exagerado. Compreendendo melhor seus arredores, logo percebeu que, de alguma forma, ele estava deitado com a cabeça sobre o colo do outro.

Mikaela deu uma risada breve, levando sua mão até o rosto de Yuuichirou e tirando os cabelos negros que quase encobriam seus olhos, acariciando sua testa no processo.

— Você estava dormindo quando eu cheguei da aula. Tentei te acordar, mas você me abraçou e me puxou pro sofá. Quando eu vi, já não tinha mais como me mover sem você acordar. —explicou, divertindo-se com a forma que Yuuichirou corava gradativamente com suas palavras — Ai eu desisti e deixei você dormir um pouco mais, mas agora minha fome chegou num nível crítico. Você precisa me libertar, Yuu-chan!

Yuuichirou se sentou bruscamente, desviando o olhar enquanto tentava diminuir seu nível de vergonha. Ele não costumava se encabular perante Mikaela, nem mesmo quando fazia algo vergonhoso como esse abraço adormecido; porém, depois da fatídica discussão com Shinoa, estava difícil se controlar.

Por mais absurda que aquela conversa como um todo tenha sido.

— Desculpe. — Yuuichirou murmurou, recebendo um beliscão de brincadeira de Mikaela em seu ombro, gesto que o fez encará-lo com uma careta.

— Eu não ligo, você sabe. Pare com isso, ok? — Mikaela murmurou, sorrindo em contentamento e puxando Yuuichirou pelo braço para arrastá-lo para a cozinha — Você vai me ajudar a fazer o jantar.

— Eu não quero, Mika!

Os dois ainda discutiram por alguns minutos e Mikaela venceu depois de trazer à tona algumas promessas que Yuuichirou fizera recentemente (e ele até então não tinha cumprido). Só que depois que o mais novo quase cortou o dedo tentando ajudar na cozinha, Mikaela permitiu que ele apenas se sentasse e o assistisse cozinhar, já que ele parecia estar com sono demais pra ter firmeza no corte. Ele bocejou satisfeito e se jogou na cadeira mais próxima, apreciando a movimentação de Mikaela com um olhar mais analítico do que antes (provavelmente em decorrência das insinuações de Shinoa).

Sendo bem sincero, Yuuichirou nunca superou a beleza de Mikaela. Os dois já estavam com vinte anos, se conheciam há mais de dez, mas ele não conseguia se acostumar com aquela aparência: Mikaela era muito bonito por si só, mas em decorrência de sua descendência e particularidades de seus traços, ele chegava a ter uma beleza exótica (pelo menos perante os padrões do Japão).

Yuuichirou e Mikaela não eram japoneses típicos. A mãe de Yuuichirou era descendente irlandesa, e foi dela que ele herdou seus olhos verdes cor de esmeralda; ainda sim, muitas características físicas dele ainda eram orientais, puxadas do pai. Já Mikaela era nissei [1] e nasceu na Rússia; sua falecida mãe era o único vínculo sanguíneo que ele possuía com o Japão, e como seu pai era russo, Mikaela obviamente herdou muitas características da família paterna, tal qual os olhos azul-claro, cabelos loiros e altura um pouco maior que a média japonesa. Ele não gostava nada de falar do seu passado, e tudo que Yuuichirou sabia sobre a descendência do amigo era que sua família resolveu se mudar para o Japão pouco depois de ele nascer; talvez por desprezar mais o seu falecido pai do que sua mãe, Mikaela optou por adotar a nacionalidade japonesa quando atingiu a idade de escolha e, apesar de ter nascido em solos russos, não possuía dupla-nacionalidade.

Mesmo morando numa capital gigantesca como Tóquio, Yuuichirou não costumava ver pessoas com características como Mikaela todos os dias, então nada mais natural do que se perder, de tempos em tempos, nos traços marcantes do amigo e assistir sua movimentação como se fosse o mais interessante dos programas de TV.

Naquele momento não era diferente: Mikaela insistia em deixar os cabelos que já chegavam quase à altura do ombro soltos, mas depois que eles começaram a atrapalhar demais sua movimentação na cozinha, ele retirou do pulso um elástico de cabelo fino e amarrou um rabinho de cavalo bem pequeno na base da nuca, ainda se incomodando com o pouco de sua franja que definitivamente precisava de um corte. Ele cozinhava muito bem, desde que eram jovens; com o passar dos anos, suas habilidades só melhoraram ainda mais e Yuuichirou não podia negar que aguardava cada nova receita de Mikaela com muitas expectativas e agua na boca.

— Você foi bem na prova? — o loiro questionou por cima do ombro, enquanto flambava alguma coisa no fogão. O cheiro estava mais do que apetitoso, e Yuuichirou sentia seu estômago roncar em antecipação.

— Não sei. Eu juro que tentei estudar de tarde, mas a Shinoa apareceu na biblioteca e destruiu meus planos, falando um monte de besteiras sem sentido e a bibliotecária expulsou a gente de lá. — respondeu, suspirando pesadamente e se lembrando de seu desastre acadêmico (Guren não ia perdoá-lo dessa vez); Mikaela o observou de canto de olho, e Yuuichirou sentiu o peso do julgamento em seus ombros — Não me olhe assim! Foi culpa dela!

— "Um monte de besteiras" tipo o que?

— Nada relevante...

O loiro fez um barulho de contemplação com a garganta, como se não acreditasse totalmente na afirmativa de Yuuichirou, mas decidindo não insistir na pergunta.

— Eu só quero férias! — Yuuichirou declarou, esticando os braços para o alto em um gesto de redenção — Quem precisa de média nessas disciplinas estúpidas, hein!?

— Claramente você, se não o Guren vai te matar e você sabe disso.

Yuuichirou fez um biquinho por ter sido contrariado; no fundo não estava tão preocupado, afinal essa disciplina era uma optativa e, se não passasse, não traria tantos problemas pro seu currículo (se ele soubesse que o professor iria dar aulas até meados de dezembro, certamente não tinha escolhido essa disciplina). Só seria uma grande perda de tempo, jogar fora tantos dias de aula...

Não adianta pensar nisso agora. A esperança é a última que morre!

— Então... O que você está fazendo? — Yuuichirou questionou, aproximando-se de Mikaela com passos rápidos e espionando por cima de seu ombro — Filé mignon flambado?

— Está aprendendo a diferenciar os cortes? — Mikaela questionou, um pouco impressionado pelo outro ter adivinhado sua receita de primeira.

— Nah, é só o que eu desejo comer nesse exato momento. — Yuuichirou respondeu, envolvendo seus braços ao redor da cintura do outro em um abraço por trás, feliz por seu amigo mais uma vez ler sua mente enquanto aproveitava-se da aproximação para tentar roubar alguma coisa da frigideira.

Mikaela previu sua movimentação e o afastou com um tapa no braço.

— Controle sua fome. — Mikaela respondeu, sorrindo suavemente enquanto continuava a cozinhar — Então foi só uma coincidência mesmo, ou você pode ter comentado esses dias que estava com vontade e ficou na minha mente. Nunca saberemos...

— Se não fosse coincidência, você ia fazer pra mim amanhã, né? — ele questionou, apoiando-se no balcão com um sorriso radiante nos olhos.

— Lógico que não. Faz você sua comida, seu folgado!

— Mika!

Yuuichirou começou a protestar, mas Mikaela o ignorava, cozinhando enquanto assobiava. A discussão era uma brincadeira, já que ambos sabiam que, por mais que Mikaela afirmasse veementemente o contrário, ele certamente mimava o moreno a cada oportunidade que tinha (e o outro sabia e se aproveitava bastante destes mimos).

Enquanto Yuuichirou sorria enquanto fingia indignação, a voz de Shinoa ecoou em sua cabeça mais uma vez: "Vocês são praticamente casados, não vivem um sem o outro, seria ridículo se não estivessem juntos". Isso fez com que ele afastasse rapidamente do outro, voltando a se jogar em uma cadeira do conjunto de jantar ao dar as costas para o amigo, o qual parecia confuso com essa atitude.

— Aconteceu alguma coisa?

— Nada... Eu só... Hm... Nada não.

Ok, ele não podia negar: pensando bem, até que ele e Mikaela realmente eram próximos demais, vivam imersos em um contato físico numa frequência pouco comum para amigos ou familiares. Mas Shinoa estava exagerando, eles não faziam nada de anormal juntos! Quer dizer, a não ser o fato de que eles dormiam na mesma cama, mas isso foi porque comprar a cama de casal saia mais barato do que comprar duas de solteiro, e mesmo que agora eles tivessem dinheiro pra comprar uma nova cama, achavam mais prático continuar assim e-...

— Yuu-chan. — Yuuichirou levantou a cabeça ao ouvir seu apelido (o qual ele costumava odiar tanto, mas que depois de anos de insistência se tornou uma forma reconfortante de ser chamado; somente Mikaela poderia chamá-lo desta forma tão infantil, no entanto).

Ao conseguir sua atenção, Mikaela o puxou para perto, unindo sua testa à dele e olhando profundamente em seus olhos. Yuuichirou se sentiu encabulado pela súbita aproximação, algo que não costumava ser um problema para eles, mas que naquele dia não estava sendo muito confortável de lidar. Por isso, fechou os olhos e parou de respirar, torcendo para não corar novamente.

— Você está estranho. — Mikaela concluiu, achando curioso como Yuuichirou estava se comportando tão diferente em situações totalmente rotineiras para eles — É por que o Natal está chegando?

— N-não, eu só...

Mas Yuuichirou não conseguiu finalizar sua resposta. O que ele poderia dizer? "Não, na verdade estou pensando que a gente se trata como um casal e não sei o que isso significa"? Ele não poderia ser sincero neste momento, até porque com toda certeza do mundo Mikaela nunca cogitaria pensar em algo a mais com ele e o censuraria pelo simples fato de perder tempo pensando uma bobeira dessa. Seria vergonhoso e geraria um desconforto entre eles.

Tudo culpa da Shinoa!

Mikaela, alheio ao que se passava na cabeça do outro, já pensava no pior: não sabia ao certo se Yuuichirou recebeu o recado de outra forma, mas essa tarefa lhe foi incumbida e ele teria que contar a verdade para ele; era melhor acabar logo com isso:

— Eu ia dar esse recado depois do jantar, mas acho melhor te dizer antes e depois te animar com a comida. — Mikaela murmurou baixinho, acariciando a lateral do rosto do outro e fazendo-o abrir os olhos — Guren vai viajar esse fim de ano, ele pediu pra eu te contar porquê... Sabe como ele é, né: ele finge não dar a mínima, mas não tem coragem de falar isso pra você. Enfim, ele não vai poder fazer a visita com você, nem passar o Natal na sua companhia, porque Kureto o enviou para um congresso do outro lado do mundo e não deu brechas para recusas.

Yuuichirou sentiu sua garganta fechar e a melancolia o atingir, fazendo-o esquecer momentaneamente de sua vergonha.

Guren era, legalmente, o pai adotivo de Yuuichirou; na prática, ele era uma espécie de irmão mais velho extremamente insuportável, mas dono de toda admiração de Yuuichirou e, certamente, o exemplo que ele desejava seguir. Foi Guren quem deu ao garoto a vontade de estudar, superar seus traumas e limitações e se tornar alguém; cada mínima palavra de congratulação dele conseguia deixar Yuuichirou nas nuvens por vários dias.

Em essência, Guren era uma dualidade: agia como se o trabalho não fosse importante em sua vida e reclamava bastante de suas funções, mas era só receber uma ligação de seu chefe que voava para diversos lugares do mundo, deixando Yuuichirou, à época adolescente, na companhia de Shinya Hiiragi: irmão do chefe de Guren e, por mais bizarro que parecesse, irmão de Shinoa. Ele demorou anos para entender esse parentesco de Shinya e como ele e Guren podiam ter tanta intimidade, mas tudo ficou extremamente claro quando Yuuichirou flagrou os dois trocando calorosos beijos na sala de jantar em uma noite de primavera de seu último ano da escola. Yuuichirou até hoje finge que não sabe de nada.

Apesar de Guren as vezes viajar a trabalho, ele se esforçava ao máximo para passar todos os feriados com Yuuichirou, principalmente o Natal: não apenas por ser uma data extremamente familiar, mas também porque a véspera de Natal foi um dia muito traumatizante na vida do garoto e ele se comportava especialmente carente nesta ocasião; fora isso, eles sempre faziam a dita cuja "visita" juntos, e Guren se esforçava para estar presente ao lado de Yuuichirou nessas ocasiões.

Pelo visto, desta vez Guren não seria seu porto-seguro...

— Guren é um babaca. — Yuuichirou concluiu, virando o rosto e tentando esconder a tristeza do seu olhar.

— Você sabe que eu estou do seu lado pro que der e vier. — Mikaela respondeu com seriedade, entristecido por ver seu amigo tão chateado. — Eu posso ir com você...

Mikaela sabia como os natais eram especialmente ruins para Yuuichirou. Não que fossem bons para ele, mas pelo fato de seu ainda ter seus pais vivos, a situação era imensamente mais complicada: Yuuichirou ainda visitava todos os anos seus pais no hospício na época do Natal. Por quê? Porque ele era uma pessoa maravilhosa, benevolente demais, ao menos sob o ponto de vista de Mikaela.

É importante deixar claro que Mikaela não era uma pessoa de grandes elogios, por preferir demonstrar seus sentimentos com atitudes e não com palavras; talvez por isso Yuuichirou não fizesse ideia o quanto seu amigo o admirava. Mikaela o considerava extremamente bondoso, e só o fato dele ainda dar algum apoio aos pais que o trataram tão mal quando ele era pequeno, já estava provado o tamanho de seu coração. Sendo sincero, ele não seria capaz de tanta benevolência se seus pais ainda estivessem vivos, e certamente nunca derramou lágrimas de saudades deles.

Apesar de ele não concordar que essas pessoas merecessem sequer um pingo de atenção de Yuuichirou, ele respeitava suas escolhas e as apoiava. Guren também compartilhava de sua opinião, mas acompanhava o garoto ao hospício todos os anos, porque também não queria deixá-lo sozinho com aquelas pessoas. Yuuichirou sempre ficava muito chateado depois das visitas e Mikaela havia oferecido sua presença nesses momentos mais de uma vez, mas ele recusava todos os anos, aceitando apenas e exclusivamente a companhia de Guren.

E, a julgar pela expressão do rapaz, ele novamente recusaria sua oferta.

— Não precisa, Mika. — ele respondeu, se colocando de pé rapidamente, ainda escondendo o rosto — Eu vou tomar um banho rápido enquanto você termina de cozinhar, ok?

Mikaela não tentou impedi-lo de sair da cozinha, sabendo que ele desejava uns minutos a sós para lidar com a notícia. Afinal de contas, estar em uma família não significa apenas oferecer seu auxilio e amor a todos os momentos possíveis, mas também ter o bom senso de saber e compreender os momentos de privacidade do seu familiar.

E de Yuuichirou, Mikaela definitivamente entendia.


(***)


Shinoa-Anã [22:01]: "Yuu-san, já encontrou seu príncipe encantado?"

Shinoa-Anã [23:35]: "Pela demora pra responder, tenho certeza que teve uma noite de muito amor e sexo, não é mesmo?"

Shinoa-Anã [01:12]: "Nossa a maratona está incrível, nada de você me responder. =D"

Shinoa-Anã [06:15]: "Eu me pergunto qual seria o nome do ship, MikaYuu ou YuuMika? Acho que vou fazer uma votação no grupo da galera."

Shinoa-Anã [08:20]: "Yuu-san, MikaYuu ganhou de lavada! Nem o Yoichi votou em YuuMika, sinto muito. Mas não se preocupe, como uma madrinha maravilhosa que eu serei, te ajudarei a encontrar o vestido de casamento perfeito!"

Yuucifer [08:25]: "Eu vou te matar! Você não dorme não, porra?!"

Shinoa-Anã [08:31]: "OMG! Você acordou!! Como eu poderia dormir quando o meu virgenzinho favorito está consumando seu relacionamento que só ele não sabia que existia!? São muitas emoções! Tá doendo? Precisa de ajuda? Paracetamol? <3"

Yuucifer [08:44]: "Eu te odeio."

Shinoa-Anã [08:46]: "Ouuun está emburrado porque tá dolorido! Eu tenho uma pomada aqui que com certeza vai resolver todos os seus problemas!"

Yuuichirou atirou seu celular para longe de seu alcance para não continuar respondendo sua amiga-da-onça e se envergonhando cada vez mais. Cobriu o rosto com um dos braços, com preguiça demais para se levantar.

Era sábado, dia que ele e Mikaela geralmente passavam todinho na cama vendo Netflix até encontrarem algo mais produtivo para fazer fora de casa durante a noite. As vezes saiam juntos e a sós, as vezes encontravam o grupo de amigos de um ou do outro, mas independentemente da programação noturna uma coisa era certa: Mikaela sempre dormia até o meio-dia.

E este sábado não era diferente.

Mikaela tinha um sono muito pesado e Yuuichirou poderia destruir o quarto se quisesse, mas o loiro não moveria um músculo. Quando questionado a respeito, ele sempre dizia que seu sono de beleza era sagrado e que o fato de ele não acordar com facilidade era o que fazia sua pele ser tão linda (a julgar pela maneira como Yuuichirou achava Mikaela perfeito, ele até que acreditava nessa bobagem, mas costumava beliscar Mikaela quando ele falava essas besteiras — e sempre recebia risadas em resposta). Desta forma, Yuuichirou não se importou em jogar longe o celular ou de deixar seu barulho de frustração escapar de sua garganta.

Ele virou de lado e encarou o amigo por alguns minutos, apreciando a pacificidade de seu sono: encontrava-se de barriga para baixo, puxando o cobertor para perto de seu rosto e parecendo uma criancinha adormecida. Yuuichirou sorriu docemente, aproveitando o momento para acariciar os cabelos loiros à sua frente; Mikaela tinha os cabelos muito macios, e ele sempre tinha o habito de fazer essa carícia antes do amigo acordar.

"Vocês são praticamente casados, não vivem um sem o outro, seria ridículo se não estivessem juntos."

— Shinoa é como um pesadelo que não vai embora da nossa memória nem quando a gente acorda. — Yuuichirou falou para si próprio, suspirando fundo, se sentando na cama e se espreguiçando, colocando-se de pé em seguida.

Apesar de dificilmente algum amigo em comum acreditar, Yuuichirou era uma pessoa muito disposta pelas manhãs (e extremamente sonolenta durante à noite). Afinal de contas, Guren o obrigou a acordar cedo durante todos os seus finais de semana para treinarem luta com espadas, um hobbie que Guren ensinou a Yuuichirou e se tornou um vínculo só dos dois.

Falando em Guren, ele não podia esquecer de avisar que recebeu o recado. Por isso, se levantou e buscou o celular no pé da cama, abrindo o aplicativo de mensagens para encontrar o contato de Guren, se dando conta de que ele havia mandando uma mensagem na noite anterior que ele nunca chegou a abrir.

Guren-babaca [22:50]: "Yo, moleque, Mikaela te deu meu recado?"

Yuucifer [08:55]: "Guren, eu não vi a mensagem ontem. Mika me disse que você vai viajar na semana do Natal. Ta ok, já estou sabendo."

Guren-babaca [08:55]: "Eu não queria, Yuu. Mas Kureto tem um iceberg no lugar do coração e você sabe que não posso deixar de fazer essas viagens a serviço."

Yuuichirou não podia negar que se sentia arrasado por Guren não passar as festividades com ele, mas não iria colocar essa pressão em suas costas. Guren comia o pão que o diabo amassou com seu chefe, e ele sabia que se houvesse uma escolha, ele não viajaria antes do dia 26 de dezembro. Fazer o que, merdas acontecem, e Yuuichirou tinha que começar melhor com essas adversidades.

Após alguns segundos sem resposta, Guren mandou outra mensagem.


Guren-babaca [08:56]: "Eu vou compensar, ok?"

Yuucifer [08:56]: "Você podia compensar agora mesmo em não ficar bravo comigo pela notícia que tenho que te dar... Que tal?"

Guren-babaca [08:56]: "Você foi mal na prova, de novo. E isso não é uma pergunta."

Yuucifer [08:57]: "E você, como um pai muito justo, vai me perdoar já que eu te perdoei por você não passar o Natal na cidade, né?"

Guren-babaca [08:57]: "Você joga sujo, moleque. E não me chame de pai, me sinto velho."

Yuucifer [08:57]: "Você é velho, Guren-senil."

Guren não tinha nem dez anos a mais do que Yuuichirou, mas quem ali estava se prendendo a detalhes?

De qualquer forma, ele deu a conversa por encerrada, saindo do quarto com o celular na mão: Mikaela podia sempre preparar os jantares mais maravilhosos da face da terra, mas os afazeres de casa de sábado ficavam por conta do mais novo.

E, sinceramente, Yuuichirou ainda estava se sentindo estranho demais para flagrar o despertar de Mikaela; ele precisava pensar, e muito, sobre todas as dúvidas que surgiram em sua cabeça depois da conversa com Shinoa.


(***)


— MIKAAA!!!

— Pare de gritar pela casa, Yuu-chan! Mas que coisa!

— Me ajude, Mika!! Onde está minha carteira?!

Yuuichirou procurava por todos os cantos sua carteira, não sabendo ao certo onde foi o último lugar que a viu. Já procurou em todas as gavetas, todas as superfícies, todos os armários, até dentro da geladeira ele chegou a buscar, mas nada de encontrar seus documentos. Já estava prestes a desistir e ligar para seu banco e cancelar seu cartão de crédito, quando o loiro apareceu balançando sua carteira de couro com um sorriso de canto de boca à postos.

— Serve essa?

Yuuichirou pegou o objeto e olhou para Mikaela com ares desconfiados.

— Você escondeu ela de mim? — indagou, erguendo a sobrancelha.

Mikaela suspirou fundo e balançou a cabeça em negação, cruzando os braços enquanto dava uma breve risadinha anasalada.

— Francamente Yuu-chan, até parece que eu faria isso. Admita, você simplesmente não sobreviveria um dia sem a minha presença na sua vida.

Muito provavelmente isso era verdade, mas Yuuichirou jamais admitiria algo assim. Nem em um milhão de anos!

— Onde estava? — Ele perguntou, sentando-se no sofá para amarrar seus calçados e ajeitar a barra da calça.

— Na sua mochila, é obvio.

— Não é obvio! Eu procurei lá!

— Ao que parece, não procurou direito.

Yuuichirou estalou a língua nos dentes e terminou de enlaçar seus cadarços, colocando-se de pé e guardando a carteira no bolso traseiro de sua calça. Mikaela colocou as mãos na gola de sua camiseta, ajustando-a casualmente, fazendo com que Yuuichirou ficasse estático, analisando a movimentação do outro com cautela.

Depois de um final de semana analisando cautelosamente todo o entrosamento entre ele e seu melhor amigo, Yuuichirou chegou a conclusão de que Shinoa não falara coisas tão absurdas assim: eles realmente agiam como um casal e, mesmo que não acontecessem beijos nem interações sexuais, havia muitos momentos de abraços, carícias e intimidade extrema. Céus, chegava ao absurdo de Mikaela circular pelo banheiro enquanto ele tomava banho sem nenhuma vergonha na cara, e Yuuichirou se recordava de ter feito a mesma coisa algumas (dezenas) de vezes! Até mesmo na hora de assistir Netflix eles pareciam um casal: Mikaela e Yuuichirou deitavam de conchinha no sofá porque "é mais confortável do que ficar sentado, e só temos um sofá, né?" e...

— Você realmente está ok, Yuu-chan? — Mikaela questionou, fitando Yuuichirou com ares preocupados — Tem certeza que não quer que eu vá com você?

Yuuichirou piscou levemente, suspirando fundo e inclinando-se um pouco para frente, abraçando Mikaela com carinho e sentindo o cheiro de morango de seu shampoo. Instantaneamente o loiro circundou seus braços ao redor do ombro do outro, acariciando de leve suas costas em meio a carícia.

Cedo ou tarde, eu vou ter que conversar com ele sobre isso. — Yuuichirou concluiu, apertando mais seu abraço e temendo que Mikaela fosse desaparecer de seus braços.

Yuuichirou ainda não sabia definir o que sentia por Mikaela. Era difícil colocar seus sentimentos em definições humanas, porque ele sabia que o que sentia era muito mais complexo que isso. Nunca chegou a pensar em ter um relacionamento amoroso com Mikaela até Shinoa bagunçar sua cabeça (ou melhor, fazê-lo enxergar o óbvio que ele preferia não ver), e agora ele não sabia mais como agir para que tudo voltasse a ser como era antes.

Mas como era antes? Quando a relação deles mudou e ficou assim? Foi tudo tão natural que Yuuichirou nem sabia definir quando! Quando foi que Mikaela começou a tratá-lo como um marido cauteloso, em vez de um colega de apartamento? Céus, os dois eram universitários, aquele apartamento era pra parecer uma república bagunçada, e não uma casa de família: nenhum dos dois chegou a trazer alguém para passar a noite, ou fazer qualquer cagada que geralmente universitários faziam. Se fosse parar para pensar, desde o inicio da moradia em conjunto eles agiam assim.

Não, o comportamento vinha de mais além: Yuuichirou se lembrava muito bem como ele e Mikaela cuidavam das crianças mais novas no orfanato, adotando uma espécie de figura familiar para eles. Eles chegavam ao absurdo de reversar para olhar as crianças menores, e até as colocavam pra dormir. Agiam como pais, em uma maneira infantil no estilo "brincar de casinha", mas ainda sim foi um comportamento natural que os dois adotaram sem que ninguém os impusesse a responsabilidade. Eles simplesmente se comportavam como um casal de comercial de margarina, e não faziam a menor ideia de como tudo isso começou.

E, mesmo assim, eu gosto desse jeito. Eu não quero que mude. Eu não quero ser apenas "melhor amigo" dele.

— Yuu-chan! — Mikaela exclamou, interrompendo o abraço e segurando o rosto de Yuuichirou com as duas mãos —Eu vou com você, espere só eu pegar meu casaco e-...

— Mika. — Yuuichirou se inclinou para frente, unindo sua testa à dele e também levando suas mãos ao rosto dele. Ele planejava falar mais, falar muitas coisas, confessar muitas coisas. Mas não era o momento certo e, por isso, Yuuichirou apenas balançou a cabeça em negação e se afastou, dando-lhe as costas — Eu... eu volto logo.

Mikaela ficou estático, sentindo seu coração contrair de preocupação. Observou a saída de Yuuichirou, que fechou a porta suavemente em suas costas sem olhar para trás, e permaneceu de pé, pensativo, por no mínimo três minutos. Doía ver sua pessoa mais especial sofrer desse jeito, e ele não poder fazer nada para ajudar. Não há como ajudar quem não quer ser ajudado, afinal de contas.

Mas existe uma pessoa que desrespeita totalmente a lei da privacidade e pedido de distância nessa vida. — ele pensou, procurando seu celular no campo de visão — Nesse caso, acho que só ela pode ajudar.


(***)


— Não sei porque vocês complicam algo que é mais do que simples.

— Nem todo mundo tem a sorte de ter o álcool em seu favor e gerar confissões que dão certo a longo prazo, Kimizuki!

O garoto de cabelos curtos e cor-de-rosa, Shiho Kimizuki, fez um barulho de insatisfação com a garganta, encarando Mitsuba através de seus óculos com ares de julgamento. Seu namorado, Yoichi, se fez de desentendido, encarando a bebida em suas mãos como se não tivesse ouvido a acusação implícita da amiga loira (ou como se não estivesse, naquele exato momento, de mãos dadas com Kimizuki por debaixo da mesa).

Yuuichirou empurrou para longe seu copo vazio de bebida, deixando a cabeça cair na mesa molhada pelas diversas doses derramadas e recebendo censura dos amigos pela atitude dramática.

— Yuu-san, você vai chegar em casa fedendo a vodka, levante a cabeça. — Shinoa murmurou entre um soluço e uma risada, um pouco alterada por causa da bebida, mas definitivamente ela era a mais sóbria entre os colegas.

Eis o que havia acontecido: Mikaela, desesperado ao ver Yuuichirou tão cabisbaixo ao sair para visitar seus pais no hospício, em um momento de extrema demonstração de amor e ao engolir seu orgulho próprio, telefonou para Shinoa e pediu ajuda.

Agora, é importante mencionar que Mikaela e Shinoa não tinham uma relação conturbada: só que Mikaela era muito, muito, muito ciumento; e só Yuuichirou não percebia isso. É claro, Mikaela ainda engolia o orgulho e saia na presença dos amigos de seu amigo, mas todo mundo conseguia perceber que qualquer demonstração de afeto dele para com as outras pessoas fazia com que o loiro se mordesse de ciúmes. Ele controlava bem, no entanto, e nunca prejudicou de forma alguma a relação de Yuuichirou com as outras pessoas.

Se ele engoliu seu orgulho para pedir ajuda a algum deles, era quase que um caso de vida ou morte. Quando percebeu de quem era o número que a telefonava, Shinoa não pode negar que atendeu a ligação extremamente preocupada (se ele chegou ao ponto de ligar, coisa boa não tinha acontecido). Mikaela então contou que Yuuichirou andava muito estranho e ele não sabia se era por conta da visita aos pais ou outro motivo, mas que não havia permitido que ele o acompanhasse neste compromisso, e por isso afirmou que estava preocupado. Em suma, Mikaela praticamente implorou para Shinoa fazer alguma coisa para ocupar a mente de Yuuichirou ou, ao menos, dar a oportunidade dele desabafar e melhorar seus ânimos.

"Você é inconveniente o suficiente pra aparecer na frente do hospício e arrastá-lo pra algum lugar" Mikaela argumentara, e Shinoa nem sequer se incomodou em contestar, era a verdade afinal de contas "Já se eu fizer uma coisa dessa, ele vai se sentir sufocado, porque eu já tentei os últimos três dias fazer ele falar e nada..."

Shinoa iria ajudar seu amigo do peito de qualquer forma, mas ela fez com que Mikaela implorasse por alguns minutos. Porque sim. E lá estava ela agora, com seus três amigos e namorada, todos bêbados (sendo que Yuuichirou certamente estava com o maior grau alcoólico do bar inteiro, quem dirá da mesa), em um dos únicos estabelecimentos que abriram na noite do dia 23 de dezembro. Shinoa rapidamente organizou todo mundo para encontrá-la naquele local, afirmando que se tratava de uma situação de emergência; esperou Yuuichirou na saída do hospício, o puxou para seu carro sem maiores explicações e ele só calou seus xingamentos ao chegar no local e perceber que todos já o aguardavam.

O que mais esperar de Shinoa Hiiragi?

Ainda sim, ninguém questionou expressamente qual era a situação de emergência, sabendo que se tratava de algo ligado a Yuuichirou (ao julgar pela expressão entristecida do rapaz), deixando com que partisse dele falar sobre o assunto. Depois de algumas horas de conversas sobre assuntos variados, o assunto "casal Mikaela e Yuuichirou" veio à tona, e ele se manteve quieto por algum tempo, bebendo vários drinques enquanto todos discutiam.

Agora, finalmente, Yuuichirou se soltou o suficiente para falar. Ou reclamar, como preferir.

— Isso é tudo culpa sua, Shinoa! — Yuuichirou acusou, ainda mantendo sua cara enfiada na madeira úmida da mesa do bar — Tudo!

— Ah, para de idiotice! — Kimizuki esbravejou, levantando a cabeça de Yuuichirou à força pelos cabelos.

O moreno tentou se jogar em cima de Kimizuki e iniciar uma briga que muito provavelmente resultaria em expulsão do bar e, na pior das hipóteses, umas horinhas na penitenciária. Por conta disso, Shinoa resolveu intervir energicamente, porque nada fizesse, Mikaela nunca mais confiaria nela.

— Segura o Kimizuki! — ela ordenou à Yoichi, o qual foi muito efetivo em apenas forçar o rapaz de cabelos rosas para olhá-lo e beijá-lo abruptamente em seguida (quem precisa de força bruta quando se há uma arma como essa?).

Yuuichirou e as garotas ficaram estáticos por alguns segundos, boquiabertos, mas logo o moreno se lembrou do que iria fazer e tentou novamente pular para cima de Kimizuki; Shinoa e Mitsuba foram efetivas em segurá-lo dessa vez.

— O que foi que eu fiz, Yuu-san? — Shinoa indagou, tentando fazer a atenção de Yuuichirou desviar o quanto antes para ela; mesmo que ele estivesse bêbado e desengonçado, as duas não conseguiriam segurá-lo por muito tempo.

— Você! — Yuuichirou esbravejou, girando o corpo para encará-la e quase caindo da cadeira no processo, apontando o dedo no rosto de Shinoa e tentando focalizá-la com sua visão alterada pelo álcool — V-você me fez questionar tudo!

— Ahhh Yuu-san, não se culpe. Eu causo esse efeito nas pessoas! Sei que meu charme é irresistível e pode fazer com que uma pessoa do lado purpurina da força questione sua sexualidade. — ela responde casualmente, jogando o cabelo para trás em um gesto de chacota e provocação — Eu sei, eu sei. Não se culpe, vai passar! É uma recaída! Sugiro duas horas e pornô gay como forma alternativa de tratamento.

— Yuu, eu realmente espero que não seja isso que você está querendo dizer, caso contrário eu vou ajudar o Kimizuki a quebrar a sua cara. — Mitsuba ameaçou, estreitando seus olhos azul-arroxeados perigosamente para o amigo, expressando o ciúmes que raramente deixava exposto aos demais.

Shinoa deu uma piscadinha para Yuuichirou, evidentemente feliz pelo comportamento de Mitsuba; apesar de as duas namorarem há muito tempo, Mitsuba era muito comedida com relação a esse relacionamento, ao contrário de Shinoa (que era o mais escandalosa possível sobre o assunto), e volta e meia esta gostava de provocar sua namorada até receber uma reação como essa.

Yuuichirou girou os olhos, irritado com tudo e todos naquele momento. Era muito difícil ser o único solteiro de um grupo de amigos, ainda mais em um momento de tantas incertezas como aquele.

— O dia que eu me interessar por uma garota, com certeza não vai ser uma anã sádica como a Shinoa. — ele se defendeu para Mitsuba, que ainda o olhou de maneira suspeita por alguns instantes.

— Hm. — ela concordou, assentindo a cabeça.

— Mi-chan! — Shinoa exclamou, colocando a mão acima do coração com uma falsa expressão de ofendia — Você tem que me defender!

— Ele falou a verdade, como que posso te defender contra fatos incontestáveis? — a loira se defendeu, dando de ombros.

— Yuu-kun. — Yoichi o chamou suavemente, atraindo a atenção de todos para ele.

Kimizuki estava bem mais passivo ao seu lado, e exibia as bochechas um pouco coradas pela demonstração pública de afeto; apesar de todo mundo saber há meses que o casal estava firme e forte (e começaram a namorar naquele exato bar, naquela exata mesa, em uma situação bem parecida), eles nunca trocaram beijos na frente dos demais. Já Yoichi, surpreendendo todo o grupo de amigos, não parecia nem um pouco envergonhado com o que fizera.

— Então o que aconteceu? — ele questionou gentilmente — Você não é de beber assim, alguma coisa tem que ter acontecido pra você ficar assim.

Yoichi sempre é a voz da razão entre nós... — Yuuichirou pensou, encarando o amigo com afeto; Yoichi era, sem sombra de dúvidas, o mais "normal" entre eles, e sem sua presença eles com certeza brigariam de maneira bem mais séria do que as eventuais discussões (e socos, no caso de Yuuichirou e Kimizuki).

— Aconteceu alguma coisa na visita dos seus pais? — Shinoa tentou dar um rumo mais concreto à conversa, e todos aguardaram a resposta com expectativa.

— Não. O de sempre: "você é um demônio e tem que morrer!", "você é a mancha na família Amane!", "não é à toa que um demônio como você se tornou gay!", etc etc etc. — Yuuichirou murmurou com desprezo e, apesar do tom de voz, estava evidente em seu olhar o quanto doía repetir essas palavras — Eu já estou acostumado.

Seus amigos ficaram em silêncio por alguns momentos, cada qual indagando como é possível Yuuichirou passar por isso todos os anos e ainda se submeter a visitá-los e tentar ignorar todas as ofensas que lhe eram direcionadas. É claro que deveria ser um pouco mais fácil lidar com isso agora do que quando era um mero garotinho indefeso, mas ainda sim era uma atitude que nenhum deles compreendia perfeitamente. Apesar de não admitirem em voz alta, todos concordavam com Mikaela nesse quesito: Yuuichirou era benevolente demais.

— Então o que houve? — Mitsuba indagou, colocando seus cabelos atrás da orelha e penteando-os com as mãos — O que a Shinoa fez de tão grave?

— Mi-chan!! Eu sou inocente! — Shinoa tentou se defender, novamente expressando falsa indignação — Por que você não confia em mim?!

— Porque eu tenho experiência com suas artimanhas, Shinoa.

— Awn, isso é uma maneira de dizer que você me ama? — ela retrucou, enrolando uma das madeixas de Mitsuba com os dedos, recebendo um tapa estalado na mão logo em seguida.

— Fale, BakaYuu. — Kimizuki interrompeu as garotas, fazendo-as se calar e voltarem a atenção para o rapaz.

Yuuichirou suspirou, passando as mãos pelos cabelos já totalmente bagunçados e molhados pela bebida (ele estava realmente mal se acabou se sujando desse jeito), se perguntando como iria admitir seu dilema para seus amigos. Era vergonhoso, claro que era, e possivelmente se ele não tivesse bebido não teria a coragem de abrir suas incertezas para todos dessa forma. Mas ele estava perdido demais, e Guren estava longe demais; ele tinha que receber uma luz de algum lugar.

— Shinoa disse que eu e Mika vivemos uma vida de casado.

— E qual a novidade disso? — Kimizuki questionou, sem nenhuma provocação no tom de voz, parecendo genuinamente perdido — Isso todo mundo sabe desde sempre e-....

— A novidade é que eu não tinha percebido isso antes. — o outro respondeu, abaixando a cabeça em vergonha — Pelo menos não até sexta.

Os quatro amigos trocaram olhares confuso, cada qual deixando a mente fervilhar em perguntas próprias. Alguns, como Shinoa e Yoichi, já sabiam mais ou menos o dilema que Yuuichirou passava; os outros dois estavam totalmente perdidos, tentando compreender o motivo da instabilidade emocional dele.

— Pera ai, por que você tá preocupado com isso? — Kimizuki foi o primeiro a questionar — Você queria esconder da gente?

— Shiho, — Yoichi chamou a atenção do namorado, fazendo-o encará-lo; ele sorriu, achando adorável a expressão de confusão nos olhos acaju do outro — Mikaela-san e Yuu-kun não são um casal.

— Como assim? — Kimizuki parecia extremamente indignado com aquela resposta — Só eu achava que eles estavam juntos?!

— Não, não era só você. — Mitsuba murmurou, colocando a mão no queixo, pensativa — Eu tinha certeza que eles namoravam. Não estou entendendo mais nada!

— Yuu-san vive um relacionamento que só ele não sabia, pessoal. — Shinoa respondeu, dando de ombros, como se fosse a conclusão mais óbvia do ano — Eu também só descobri a verdade sexta, mas até que faz sentido. Como que Yuu-san iria namorar todo esse tempo e não ficar de cama de tempos em tempos depois de tanto transar com o Mikaela-san? Não batia as informações, né?

Yuuichirou a olhou com uma careta que prometia dor e sofrimento; Shinoa respondeu seu olhar com a mais falsa expressão de inocência do mundo.

— Por que você não contou nada!? Você até veio com aquele papo besta no grupo de "nome do casal", eu achei que ele tinha admitido pra você! — Mitsuba a censurou.

Shinoa coçou o pescoço, dando uma risadinha encabulada.

— Ah... E quando foi que vocês me levaram a sério? — ela se defendeu, parecendo não perceber que estava se ofendendo por tabela; Mitsuba deu um tapa na própria testa.

— Pare de falar besteira, Shinoa! E vocês não estão ajudando! — Yuuichirou respondeu, colocando os cotovelos na mesa e apoiando a testa em suas mãos — Eu não estou sabendo mais como agir ao lado dele!

— Oras Yuu, se você não quer nada com ele e de fato vocês não namoram, aja como sempre agiu. — Kimizuki falou, ainda não entendendo o motivo de tanto desespero.

— Acontece que eu não sei direito o que eu quero....

Novamente os quatro se silenciaram por alguns instantes, parecendo estupefatos com a situação. Shinoa foi a primeira a se pronunciar, colocando-se de pé em um gesto espalhafatoso, abrindo os braços em uma expressão de glória, e afirmando em alto e bom som:

— O SHIP NAVEGA! É REAL! É CANON! — ela rodopiava, animada, arrancando olhares curiosos dos ocupantes da mesa ao lado.

— Shinoa, cale a boca! — Mitsuba a censurou, puxando-a pela saia e a forçando a sentar — Yuu precisa da gente, não das suas bizarrices!

— Mas eu estou feliz, Mi-chan! — a garota de cabelos cor de lavanda murmurou — Eu quero que o Yuu-san encontre seu príncipe encantado! Esse é um passo pequeno para a humanidade, mas um grande passo para o fim das minhas piadas sobre a virgindade dele!

— Sentirei falta dessas piadas. — Kimizuki murmurou para Yoichi, bem baixinho, e o garoto deu uma risadinha breve.

— Yuu-kun, — Yoichi o chamou mais uma vez, deslizando um pouco do canto-alemão onde estava sentado e passando um braço de forma reconfortante ao redor do corpo de Yuuichirou, ainda segurando firme a mão de Kimizuki para evitar confrontos desnecessários — Essa confusão de sentimentos é normal quando se apaixona por um amigo. Eu e Shiho também sentimos isso, e tenho certeza que a Mitsuba e Shinoa também passaram por isso.

— Eu não. Eu sempre quis que a Mi-chan sentasse na minha cara desde o momento que a vi saltitando com aquelas marias-chiquinhas lindas e aquela mini-saia maravilhosa. — Shinoa exclamou, juntando as mãos em um ar de nostalgia, dando um suspiro suave em seguida como se estivesse falando de amores etéreos e não sobre sexo oral — Saudades daquela mini-saia...

— SHINOA! EU VOU TE FAZER DORMIR NO SOFÁ ATÉ O ANO NOVO! — Mitsuba exclamou, empurrando o corpo de Shinoa para longe, ignorando a risadinha que recebeu em resposta, e desprendendo sua atenção para Yuuichirou numa tentativa de controlar sua vergonha — Se serve de consolo, antes eu achava que queria matar a Shinoa, e as vezes ainda tenho minhas dúvidas se prefiro beijá-la ou sufoca-la. Então acho que a dúvida é normal, principalmente até vocês terem algo de fato.

Yuuichirou ficou pensativo mais uma vez, e os quatro amigos trocaram olhares, não sabendo ao certo o que mais deveriam falar para ajudar no dilema. Antes que um deles pudesse formular uma nova argumentação, o rapaz tornou a questionar:

— Vocês realmente acham que seria melhor eu e o Mika namorarmos?

— Olha Yuu-san, falando sério agora — Shinoa foi a primeira a responder, e todos se indagaram por quantos minutos ela seria capaz de falar com seriedade — Essa decisão só você pode tomar, mas a julgar pela forma como você sempre olha pra ele, com aquele sorriso besta de quem está vendo a coisa mais preciosa do mundo, e pelo carinho que eu sei que ele tem por você, vocês foram feitos um para o outro.

— Eu acho o Mikaela meio fechado e com muito pedigree pro BakaYuu, mas tenho que concordar com a Shinoa. — Kimizuki complementou, ganhando um olhar assassino de Yuuichirou em resposta.

— Eu aproveitaria a oportunidade Yuu, senão você pode dar o azar de conhecer alguém tão excêntrico como a Shinoa e, meu amigo, garanto que não é fácil. — Mitsuba argumentou, suspirando cansada — Ao menos Mikaela é um cara normal.

— Tenho minhas dúvidas, Mi-chan. — Shinoa murmurou, com ares sinistros de quem não iria levar a tentativa de "falar sério" por muito tempo naquela conversa — Você sabe o que dizem dos quietinhos, né? Mikaela-san deve ter carteirinha VIP na Adam&Eve. Nosso virgenzinho vai sofrer, tadinho.

— Yuu-kun, Mikaela te ama. — Yoichi foi o último a se pronunciar, mas com certeza falou algo crucial em relação aos demais argumentos, sorrindo docemente e calando os demais com a intensidade dessa declaração — Se tem alguém que vai te fazer feliz, tenho certeza que será ele.

O indeciso ficou quieto por breves segundos, tentando fazer sua mente alterada pela bebida pensar sobre a situação que estava enfrentando: claramente seus amigos aprovavam um possível relacionamento, mas e o próprio Mikaela? Será que ele teria um pingo de interesse em tentar algo assim? Será que valeria a pena colocar em risco uma relação tão maravilhosa que eles possuíam em nome de uma dúvida, uma meratentativa?

Seria hipocrisia dizer que Yuuichirou tinha certeza de que daria tudo certo se Mikaela retribuísse seu interesse, afinal, ele não havia sequer cogitado isso até três dias atrás. Por outro lado, eles já tinham todos os "contras" que um relacionamento gera, sendo esses em sua grande maioria decorrentes da convivência. Dizem que a paixão pode ser muito forte, mas a convivência é sempre um obstáculo a se enfrentar e muitos casais não conseguem vencê-lo. Eles já tinham essa convivência, já dividiam suas contas e suas responsabilidades, sabiam cada defeito e cada qualidade um do outro — em suma, eles tinham tudo isso ao seu favor. Yuuichirou certamente amava Mikaela como ninguém no mundo, e o achava o anjo mais belo que o mundo celestial já viu.

Mas e se não tivessem química? E se não desse certo a longo prazo? Pior, e se Mikaela o achasse um completo idiota por confundir as coisas, e na realidade tivesse sentimentos por outra pessoa como... sei lá.. Lacus Welt. Só de cogitar essa possibilidade, Yuuichirou sentiu um aperto forte em seu coração e uma vontade exorbitante de chorar.

— Vocês acham que o Mika gosta de mim desse jeito? — ele questionou com a voz chorosa, piscando rápido na tentativa de não deixar a emoção falar alto demais e se envergonhar num local público.

— Sim. — todos os quatro responderam sem pestanejar.

— Tenha dó de nós, Yuu-san. — Shinoa respondeu, jogando os braços para cima como se pedisse forças aos céus — Mikaela tem aquele olhar perigoso de predador quando a gente tá perto de você. Ele morre de ciúmes de você, e se isso não é um indicio que ele te quer na cama dele com a bunda cheia de lubrificante, não sei o que mais seria.

Yuuichirou ainda estava impressionado demais com a resposta unanime pra se atentar para a provocação de Shinoa.

— Mikaela é um anjo! — ele argumentou, estupefato — Como vocês podem dizer que ele tem olhar de predador quando vocês tão comigo?

— Mikaela, "anjo"? — Kimizuki questionou, deixando uma risada sarcástica escapar — Tá mais pra vampiro possessivo, Yuu. Tá aí, acho que isso comprova que você é apaixonado, já que não consegue ver o que tá na cara. Paixão deixa as pessoas cegas pra realidade, não deixa?

— Shiho, não seja assim. — Yoichi censurou o namorado, atraindo a atenção de Yuuichirou antes que eles brigassem — Mikaela-san com certeza tem ciúmes porque ele ainda não tem nada concreto com o Yuu-kun. Ele está inseguro, com medo de perder a oportunidade, mas sem coragem de tomar uma atitude. Se vocês engatarem um namoro, eu acho que essa insegurança vai passar e ele vai parar de tentar matar a gente com o olhar.

— Como você pode ter essa certeza, Yoichi? — Mitsuba questionou, um pouco surpresa pela convicção do rapaz.

— Porque eu era como ele. — Yoichi respondeu, um pouco encabulado com a confissão, sentindo suas bochechas corarem enquanto falava — Eu morria de medo do Shiho e eu nunca chegarmos a lugar algum e, sinceramente Yuu-kun, eu cheguei a achar que vocês dois teriam algo. Por isso eu te perguntei se Mikaela era como um irmão pra você, eu estava "sondando o terreno". Por fora eu estava sorrindo, mas por dentro eu sofria cada vez que você e Kimizuki rolavam pelo chão numa briga. Eu tinha tanto ciúmes...

Todos olharam assustados para Yoichi, realmente impressionados com o que acabaram de ouvir. Yoichi sempre fora um doce de pessoa, nunca parecia se irritar ou ter qualquer sentimento negativo, então era uma surpresa muito grande imaginar que ele foi capaz de se sentir dessa forma, ainda mais esconder de todos a realidade do que se passava em seu coração.

Quando finalmente se deu conta da insinuação que acabara de ouvir, Yuuichirou fez uma expressão horrorizada, logo precedida por uma careta de nojo ao pensar na possibilidade de ter algo com o Kimizuki.

— Você tá louco, Yoi? — Kimizuki exclamou em voz alta, um pouco alterado com aquela perspectiva — A única chance que eu tenho de tocar no corpo do Yuu é só se for pra socar a cara dele na parede!!

— Bom... Quem disse que ciúmes é algo racional? — o garoto se defendeu, dando de ombros.

— Como eu nunca percebi isso? — Shinoa indagou, praticamente horrorizada por não ter percebido essa dinâmica antes; olha o tanto de piada que ela perdeu durante todo esse tempo! Inadmissível! — Eu sempre percebo tudo!

— Você escondeu muito bem mesmo. — Mitsuba comentou, impressionada — Tenho até medo de saber o que passa na sua cabecinha, Yoichi.

O garoto de olhos verde-oliva e cabelos castanhos sorriu encabulado, aproximando-se novamente de Kimizuki e o abraçando de lado.

— É melhor guardar minhas ideias só pra mim, hehe.

— Você é um mistério, Yoichi...

A conversa prosseguiu nesses termos por um bom tempo, mas Yuuichirou optou por não questionar mais nada aos amigos. Estava claro que qualquer atitude deveria partir dele, e se Mikaela realmente gostava dele e até o presente momento não tinha tomado uma atitude, não tomaria uma tão cedo. Seus amigos podiam ajudar até certo ponto, mas é ele quem deveria chegar a uma conclusão, sozinho.

E, enquanto Yuuichirou não tomava uma atitude, havia várias opções no cardápio para tomar...


... Continua ...


[1] Nissei: é como são chamados os filhos de japoneses nascidos fora do Japão. O Japão é um país que não aceita dupla-cidadania (até os 22 anos, a pessoa que possui a cidadania japonesa e a de outro país precisa escolher entre uma delas). No caso dessa fanfic, o Mika tinha dupla-cidadania russo-japonesa, mas optou pela japonesa.


N/A: Bom, esse é o primeiro capítulo! Eu queria terminar tudo e postar tudo no Natal (até porque a festa de Natal propriamente dita vai ser no capítulo que vem, então faria mais sentido), mas não deu. Era pra ser oneshot, virou twoshot, que novidade... Sempre faço isso. Aff.

E ah, Shinoa me representa espiritualmente e é meu personagem favorito. Não xingem ela, ok? *beija a Shinoa* Linda. Sobre o Yoichi esconder alguns sentimentos e tal... É uma referência aos capítulos mais atuais do mangá. =) Quem só viu o anime, sinceramente recomendo o mangá.

Enfim, espero que tenham gostado! Espero que acompanhem a fanfic pra ler o final, não sou acostumada a escrever fanfic sem carga mediana/pesada de drama, então espero que a leitura tenha sido divertida. Juro que tentei kkkkkkk!

Um beijão a todos, boas festas e muito amor para vocês!

Comentários são os melhores presentes de Natal, viu? xD

1 de Diciembre de 2018 a las 21:40 0 Reporte Insertar 0
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