Spring Day Seguir historia

donnjoker Donn Joker

As flores já desabrocham nas árvores, as ruas sendo cobertas por um tapete multicolorido de pétalas macias, cheirosas e suaves de se tocar, as mulheres mais sonhadoras respiram o suave perfume dessas flores enquanto imaginam quando terão a chance de provar as doçuras do amor, mas ainda é inverno para Eren Jaeger, há mais de um ano é inverno. [Créditos do desenho maravilhoso são totalmente da Liih Toledo // Angst]


Fanfiction Anime/Manga Sólo para mayores de 18. © Os personagens não me pertencem, mas a estória é totalmente minha.

#drama #gay #lgbt #ereri #angst #tragédia #snk #riren #universo-alternativo #Doença-de-Hanahaki #Levi-Ackerman #Eren-Jaeger #Mikasa-Ackerman #JeanKasa-mencionado
Cuento corto
4
4.6mil VISITAS
Completado
tiempo de lectura
AA Compartir

Túlipas Amarelas

Era primavera quando Eren o viu pela primeira vez, o sol havia nascido não fazia muitas horas e Eren só conseguia pensar “finalmente” enquanto batia a digital no aparelho para registrar sua saída no horário exato, ele saiu do hospital despedindo-se da recepcionista e do segurança na portaria e do lado de fora aconchegou-se mais contra seu grosso casaco, apesar da mudança de estação isso não aconteceu tão rapidamente com o clima, mesmo que a neve já tivesse derretido, o inverno deixara vestígios de frio obrigando as pessoas a usarem casacos e toucas.

Eren estava atravessando a rua em direção ao seu café favorito para mais uma dose de cafeína quando ao olhar para o outro do lado da rua ele o viu, alguns fios de cabelos negros escapavam pela touca cinza que o homem usava, óculos de grau na ponte do nariz e um grande casaco escuro cobrindo o pequeno corpo, o rosto afilado e pálido estava fechado em uma pequena carranca enquanto ele se atrapalhava para abrir as portas metálicas da biblioteca que Eren passou muitas vezes na frente e nunca deu um olhar mais crítico; o jovem médico sentiu a vontade de ajudar florescer em seu peito mas o som alto de uma buzina acabou tirando-o de seu transe, ele fez um sinal de desculpas ao motorista e terminou de atravessar a rua, já na calçada Eren voltou a focar o olhar na entrada do estabelecimento, mas o homem pálido já havia conseguido abrir as portas e entrar deixando à vista apenas a plaquinha de “Open” na porta de vidro, sem muito o que fazer além de repassar a imagem em sua mente várias vezes para que não esquecesse o moreno tornou a seguir caminho para a cafeteria onde ele pediu um grande copo de café expresso sem açúcar e caminhou em direção ao metrô na intenção de voltar para o aconchego de seu apartamento.

Após esse dia, Eren ainda conseguiu ver o homem mais duas vezes, no mesmo horário, então ele passou a bater digital no mesmo horário para que ao passar pela rua ele pudesse admirar o homem bonito de longe; Eren tinha plena consciência de que stalkear ele de longe era uma péssima ideia, mas ainda assim ele também achava uma péssima ideia ir falar com o homem e afinal de contas, que mal faz apenas olhar de longe?

A segunda vez em que Eren o viu, ele estava mais perto, ainda era primavera e sua amiga Mikasa o convidou para uma pequena confraternização em comemoração à sua formatura, o jovem médico estava vagando pela casa da amiga, observando a decoração e os quadros – esquivando-se das pessoas que queriam conversar, Eren nunca fora muito de ter amigos ou assunto – espalhados pelas paredes quando ao passar pela janela ele o viu, sentado no banco de pedra embaixo de uma árvore de sakuras, pequenas pétalas rosadas caíram em seu cabelo escuro mas ele não parecia incomodado enquanto lia seu pequeno livro de bolso, também fugindo dos convidados tagarelas; Eren se permitiu observá-lo um pouco mais de perto, a taça de vinho em sua mão serviu como desculpa já que vez ou outra ele a bebericava para disfarçar sua clara espionagem – ainda que o homem parecesse totalmente alheio.

- Você é péssimo em disfarçar. – debochou Mikasa e ela riu divertida quando viu Eren sobressaltar por conta do susto, a taça de vinho quase caiu no carpete mas ele foi ágil em pressionar os dedos no vidro frágil impedindo que caísse ou que o líquido derramasse, o rosto formou uma carranca enquanto ele desviava o olhar do homem que ainda lia seu livro sem importar-se com o seu redor.

- Então me ajude a morrer. – resmungou com certo mal humor que fez Mikasa rir novamente, ele terminou de virar o resto de vinho aos lábios antes que acabasse ocorrendo um acidente e toda sua atenção se voltou para a mulher diante de si, os olhos escuros dela vagaram para onde Eren estava olhando segundos atrás.

- O nome dele é Levi Ackerman. – respondeu após alguns segundos de silêncio, a atenção de Eren já havia se voltado para Levi que lia seu livro completamente alheio ao fato de que era observado pelos dois, mais algumas pétalas da árvore caíram em sua cabeça e colo, mas ele só deu atenção quando uma cai na página do livro, o jovem médico observou o modo como o outro homem delicadamente pegou a pequena flor e colocou ao seu lado no banco de pedra. – Então quer dizer que você tem um crush no meu primo?

- Não... Eu só acho ele bonito, muito bonito. – sussurrou a última parte antes de virar-se para olhar Mikasa que tinha um sorrisinho matreiro nos lábios rosados e brilhantes por conta do gloss labial. – Mas eu sei que você tem um crush no Jean, então estamos quites.

O sorriso imediatamente sumiu dos lábios da mulher, o leve tom rosado que tomou suas bochechas fez Eren sorrir e antes que ela pudesse dizer algo o jovem médico deu um último olhar à Levi para logo depois seguir em direção ao corredor de volta para a mesa de bebidas em busca de uma nova taça de vinho, ele bebeu e observou Levi pelo resto da confraternização, ignorando os olhares e provocações de Mikasa.

Mas após isso a Ackerman tornou-se sua principal informante sobre Levi, sim, Eren deveria falar diretamente com o homem, ele nunca discordou de Mikasa quando ela o acusava de ser um covarde; mas Levi parecia sempre tão em paz com seu próprio silêncio e espaço, Eren não queria atrapalhá-lo porque ele sabia que acabaria gaguejando, corando e se enrolando completamente nas palavras de forma que no final das contas ele seria apenas um cara ridículo perturbando.

Eren manteve sua rotina de sair no mesmo horário, pontualmente para que pudesse ver Levi por poucos minutos, em alguns dias ele mandava mensagens para Mikasa que o informava sobre a situação do primo, os dois também passaram a sair mais então logo o jovem médico já sabia que Levi possuía vinte e dois anos, trabalhava na biblioteca em meio período e durante a noite cursava faculdade de letras, sua parente mais próxima era a própria Mikasa já que o pai abandonara sua mãe grávida e esta por vez morreu poucos anos atrás por conta de uma gripe potencializada pela AIDS, os dois Ackerman só tinham um ao outro e um tio que os visitava durante os feriados, ainda assim eles preferiam seu próprio espaço e isso explicava o fato de não morarem juntos; sabendo disso Eren quase arrumou coragem para falar com Levi, apertar o corpo menor em seus braços num abraço forte, deixar-lhe beijos na testa e murmurar que ele não estava sozinho, mas uma manhã após dar alguns poucos passos em direção à biblioteca, Eren sentiu o estômago afundar por conta do medo e voltou para trás, nesse dia ele praticamente correu em direção ao metrô e quando chegou em casa sua garganta foi assolada por um forte acesso de tosse; nesse dia quente de primavera, Eren Jaeger tossiu ruidosamente até que na palma de sua mão sobre a boca estivesse uma pequena pétala amarela, maculada pela sua saliva.

O verão não demorou para chegar, menos de seis meses se passaram e Eren ainda observava Levi de longe, o fato de que suas roupas quase não se adaptaram ao clima – o Ackerman na maioria dos dias estava vestindo roupas pretas, ou um fino casaco escuro diferente de Eren que mesmo em suas roupas brancas de trabalho sentia como se estivesse em um forno, foi rara a vez em que ele o viu vestindo uma camisa branca de botões – e sua pele menos ainda, ela permanecia tão pálida quanto quando Eren o viu pela primeira vez durante o início da primavera e a aparência macia só o fez ter mais vontade de tocá-lo, seu trabalho tornou-se cada dia mais estressante e ver o Ackerman do outro lado da rua abrindo as portas da biblioteca o fazia um pouco melhor, em uma dessas vezes Eren foi pego olhando, seu corpo travou no lugar enquanto os olhos escuros de Levi o encarava por trás das lentes de seu óculos de grau, mas suas bochechas apenas esquentaram fortemente quando o homem abriu um pequeno sorriso, – apenas um mover de lábios desajeitado que deixou à mostra alguns dentes brancos, mas que prendeu toda a atenção de Eren – ajeitou a armação na ponte do nariz e acenou levemente com a mão livre das chaves antes de entrar para a biblioteca como sempre, o jovem médico ficou ali parado com as bochechas em chamas por longos segundos que só tiveram fim quando uma mulher esbarrou em seu ombro e xingou-o para que ele saísse do caminho; novamente Eren correu até o metrô, novamente ele escondeu-se em seu apartamento solitário e passou toda a tarde se amaldiçoando por ser um covarde, diabos! Ele poderia ao menos ter acenado de volta! Mas não, Eren travou no lugar e observou Levi como um idiota, como ele havia previsto que faria meses atrás.

Nessa noite o Jaeger não dormiu, seu peito aquecido assim como suas bochechas enquanto sua mente recordava o sorriso de Levi como um filme curto demais para seu gosto e coração, mas logo sua garganta também esquentou em dor e incômodo, os olhos lacrimejaram e o fôlego tornou-se apenas um desejo quando Eren começou a tossir fortemente, a garganta trancada, em busca do fôlego que também não estava em seus pulmões, contraiu dolorosamente enquanto as lágrimas finas escorriam de seus olhos azul-turquesa; a ideia de beber água passou longe em sua mente, ele já havia feito essa burrada anteriormente e o resultado havia sido completamente desastroso, então sua única esperança foi tossir com toda a força que podia, alguns minutos e no carpete claro de seu quarto, envoltas em saliva e pequenos respingos de sangue estavam cerca de sete pétalas de tulipa amarela; a cor característica de sol e verão manchada pelo vermelho característico do outono.

Eren passou poucos segundos olhando as pétalas que ele havia cuspido antes de levantar-se às pressas e correr até o banheiro onde ele se abaixou de joelhos no piso branco, a cabeça abaixada enquanto sua garganta violada pela dor expulsava todo seu jantar unido à um pouco de sangue, ao terminar o jovem médico sentou-se na tampa fechada do vaso e levou as mãos aos longos cabelos castanhos incerto do que fazer; já era de seu pleno conhecimento que ele sofria da doença de hanahaki, ainda o surpreende ser vítima de algo tão raro e... Idiota; meses atrás quando a quantidade de pétalas aumentou de uma para duas ou mais, Eren rapidamente usou de seu benefício no hospital para procurar um médico, o Dr. Erwin com quem o próprio Jaeger já havia trabalhado junto muitas vezes pediu alguns exames, mas foi como ambos já sabiam, não havia cura para Eren além da aceitação da pessoa para com quem ele estava apaixonado, certamente isso deveria servir como motivação ao jovem médico, mas não; Nada além do amor de Eren por Levi havia mudado, nem sua coragem, ou determinação para falar com o Ackerman, ele não condenaria o homem a aceitá-lo por conta de sua doença idiota.

- Vomitar tulipas e espinhos não é pior do que ser amado por pena. – murmurou para si mesmo no branco solitário e silencioso de seu banheiro, ele acionou a descarga e levantou-se para lavar a boca e o rosto, aproveitou para prender os cabelos antes de voltar para o quarto onde agachou-se para pegar as pétalas sujas de sangue e saliva que ganharam lugar no lixo do banheiro, por alguns segundos seu olhar encarou os respingos vermelhos no carpete mas por fim o jovem médico deitou-se em sua cama, os ouvidos apreciando o silêncio de seu apartamento, mas o coração rejeitando toda a sensação de estar solitário, os dedos deslizaram pelo lençol vazio ao seu lado e Eren acabou por adormecer de exaustão, sua mente presa no pensamento de que seria bom não ter tanto espaço assim, não ter tanto silêncio, não ser tão frio.

Mais três meses se passaram e então o outono chegou com a promessa de frio eminente logo em seus primeiro dias, Eren tornou a ver Levi envolto em seu casaco grande e preto, com uma adição de que a cor da vez era laranja e vermelho, não esquecendo do fato de que todo o bairro rapidamente entrou em clima de Halloween, o roxo, preto e verde escuros predominam alguns estabelecimentos; o café onde Eren sempre vai, por exemplo, adotou um rico cardápio onde o ingrediente principal são as abóboras, mesmo que o jovem médico nunca tenha sido de comemorações, ele aprecia uma boa torta e foi pensando nisso que ao invés de seguir diretamente para o metrô, Eren dirigiu-se até a cafeteria, estressado e com um mal humor que poderia transformar o céu azul claro acima de sua cabeça em um cinza escuro e desanimador; Levi não estava abrindo a biblioteca quando Eren saiu pontualmente.

Ainda que seu mal humor fosse visível de longe, Eren invocou sua boa educação lhe dada pela falecida Carla Jaeger quando a garçonete se aproximou com um pequeno sorriso inseguro, mas ela anotou os pedidos com competência e o jovem médico até tentou sorrir um pouco na intenção de tranquilizar a moça, breves minutos depois e a mesma garçonete aproximou-se com uma bandeja de prata em mãos, ela serviu Eren com sua fatia de torta de abóbora e uma copo alto de chocolate quente que aquece os dedos nus do médico, seu olfato apreciou o cheiro do chocolate com marshmallows e canela assim como seu paladar quando o líquido quente tocou sua língua deliciosamente.

- Obrigado. – ele agradeceu gentilmente à mulher que terminou de registrar a conta em seu bloquinho antes de entregar a folha a Eren, ele confirmou rapidamente e pescou a carteira no bolso para pegar uma quantia maior do que a conta mostrava. – Fique com o resto como gorjeta, por favor.

A garçonete saiu com um aceno de cabeça e a tentativa de esconder o sorriso nos lábios pintados de um rosa claro, novamente sozinho o jovem médico pegou o par de talheres dispostos na mesa e levou um pedaço de torta à boca, o gosto provou incrível em sua língua e ele logo engoliu para que pudesse comer mais, tão rápido quanto ele recebeu o pedido logo seu prato estava vazio e Eren aproveitou a vista da grande janela ao seu lado para observar as pessoas na rua, a porcelana mantendo seus dedos aquecidos e o líquido dentro dela fazendo o mesmo com sua garganta dolorida; conforme os meses passaram tem se tornado cada vez mais difícil e dolorido vomitar as pétalas, não demoraria muito para que elas viessem como flores inteiras... Eren apenas riu baixo de si mesmo antes de levar a caneca aos lábios, nunca em sua vida ele imaginou que um dia morreria por conta de um jardim florescendo em seus pulmões, de todas as mortes que ele vê diariamente, certamente morrer sufocado com uma flor é a mais idiota, tanto quanto o motivo por trás desse florescer.

- Você sabe... – a voz rouca e suave que soou tão próxima fez o jovem médico sobressaltar-se levemente em seu lugar, o chocolate quente bateu contra a parede de porcelana e se não fosse o baixo nível do líquido ele teria caído nos dedos de Eren que vagou os olhos levemente arregalados para sua frente só para que eles ficassem ainda mais abertos em surpresa pois diante de si estava Levi, vestindo o mesmo casaco grosso e escuro, uma touca bege nos cabelos negros e o óculos um pouco abaixo da ponte do nariz que ele ajeitou com o dedo do meio antes de desviar os olhos de seu copo em mãos para o rosto de Eren, ele sorriu desajeitado como na outra vez, mas foi suficiente para que o coração do jovem médico acelerasse no peito e uma leve comichão tomou conta de sua garganta; ele quis rir de nervoso com o pensamento de ter um acesso de tosse na frente do Ackerman que o levaria a vomitar pétalas amarelas salpicadas de vermelho e seu lanche recém engolido. – A biblioteca é pública, você pode pegar até cinco livros se fizer um rápido cadastro... Não é tão grande quanto a biblioteca do centro, mas nosso acervo é maior do que parece... Digo, olhando de fora... Como você faz.

- O-Oque? – murmurou um pouco perdido, sua concentração havia se dirigindo um pouco mais para baixo do nariz de Levi, onde os lábios rosados e rachados se moviam conforme o homem mais baixo falava calmamente, a voz rouca sendo muito apreciada pelos ouvidos de Eren que com toda a certeza relembraria esse momento muitas vezes quando estivesse sozinho em seu frio apartamento, mas então as palavras passaram a fazer mais sentido quando o jovem médico saiu de seu torpor e suas bochechas inevitavelmente tomaram a tonalidade de um rosa escuro que nem mesmo sua pele morena esconderia, o sorriso de Levi aumentou e mesmo morrendo de vergonha, Eren só conseguiu ficar encantando com as sardas que faziam um caminho de uma bochecha, passando pelo nariz afilado até a outra no rosto pálido do Ackerman.

- Você fica olhando a fachada da biblioteca quase todo dia... Por alguns bons minutos, com uma cara de quem acha que deveria entrar. – explicou com um tom de riso na voz e o jovem médico só pensou no quanto um buraco para esconder sua cabeça, ou talvez seu corpo inteiro, seria maravilhoso; em todos esses dias observando Levi entrar ele nunca parou para pensar que as portas da biblioteca poderiam ser espelhadas como a do hospital, enquanto o jovem médico olhava seu reflexo covarde e com a pior das caras de idiota apaixonado, do lado de dentro Levi também via isso... Eren mais do que nunca desejou que uma tulipa bem espinhosa estivesse à caminho em sua garganta para que ele pudesse morrer ali mesmo. – Bem... Eu preciso ir, já estou um pouco atrasado. – os lábios de Eren quase se moveram para que ele pudesse verbalizar um “eu sei” mas seus dentes foram rápidos em prender o inferior e sua cabeça moveu-se em um aceno leve, os dedos apertados em torno da caneca de porcelana quente; os dedos pálidos de Levi apertaram-se em seu próprio copo de algum líquido quente e ele lambeu os lábios antes de virar-se para a saída. – Eu só queria que você soubesse.

Levi não demorou muito ali e Eren seguiu-o com os olhos, quando o homem olhou os dois lados antes de atravessar a rua, quando seu corpo de baixa estatura virou a esquina em direção à rua principal que o levaria até a biblioteca, seus dedos batucavam a porcelana em mãos e ele levou a caneca aos lábios para beber o líquido doce, o coração acelerado no peito e a coceira na garganta como uma reprimenda de sua covardia em dizer mais que um “o que” e corar tanto que faria inveja em uma colegial; o jovem médico tentou não pensar muito nisso enquanto terminava sua bebida, ele ignorou o olhar inteligente da garçonete com um aceno de mão enquanto saía da loja, o sino na porta soou atrás de si e seu rosto foi acariciado por uma rajada de vento frio que o fez afundar-se mais contra seu casaco grosso, os olhos vagaram incertos para o caminho que Levi havia feito poucos minutos atrás, Eren deveria seguir por ali também se quisesse voltar para casa mais rápido já que o caminho encurtava a caminhada, mas não, o Jaeger vestiu-se com seu casaco de medo e covardia, engoliu a sensação espinhosa em sua garganta – mentalmente ele se convenceu de que se não havia a sensação de uma flor vindo, não era real e ele poderia lidar, mas não foi bem assim e a dor pareceu alimentar-se de sua negação – e ignorou o ritmo retumbante de seu coração para ordenar a seus pés se virarem para a direção que o levaria para o caminho mais distante até o metrô, um que não passaria de frente para a biblioteca onde Levi estava, onde a solução para sua morte estava.

Indo contra todos os conselhos de Mikasa e o convite de Levi, o jovem médico não conseguiu refrear o costume de bater digital pontualmente, mas quando seus pés ganhavam a calçada do hospital, ele os forçava a se virarem para o caminho mais longo até o metrô, evitando passar em frente da biblioteca, aumentando a dor em seu peito e agravando a saúde de seus pulmões; já era final do outono quando Eren já não conseguia mais manter suas refeições no estômago por conta dos constantes acessos de tosse que o faziam vomitar qualquer alimento unido à pétalas, quase flores inteiras com caule e espinhos, por vezes o jovem médico vomitava apenas uma poça de sangue e caules espinhosos perdidos durante a contração de seu reflexo faríngeo, seu horário de sono também não era dos melhores desde que ele formou-se, trabalhando do começo da noite ao início da manhã, com toda a certeza alguém que dorme durante as tardes não tem o melhor dos sonos, mas a tosse apenas potencializou sua insônia; Eren passou a manter-se acordado na maior parte do tempo na intenção de evitar ter que acordar desesperado por estar afogando-se em seu próprio vômito sangrento, no trabalho sua única sorte foi o fato de que seus pacientes não podem mais reclamar de seus acessos de tosse, mas ainda assim ele redobrou a higiene durante as horas em que passava no hospital e Eren pode dizer que tornou-se um expert em fugir de Erwin que insistia em apoiar-lhe na tentativa de aproximar-se de Levi, da mesma forma ele fugiu das mensagens insistentes de Mikasa, que há essa hora já estava com Jean e o encorajava constantemente.

Porém, ficar acordado também se mostrou não ser a melhor das ideias já que tudo que Eren conseguia pensar eram os lábios rosados e rachados, o sorriso branco e levemente torto se uma atenção à mais fosse-lhe dedicada mas que ainda assim quase fizeram Eren sorrir em contágio, a pele pálida e as sardas no nariz e bochechas, os cabelos escuros assim como os olhos, os traços afilados e delicados, mas que não diminuíram a imagem forte e máscula do homem, nem mesmo sua baixa estatura diminuía isso e Eren queria gritar consigo mesmo, arrancar essa sensação do peito porque meses haviam se passado, faria um ano e ele continuava perdidamente apaixonado por Levi; desejando ter o Ackerman ao seu lado, poder tocá-lo, ver seu sorriso e abraçá-lo; dormir tornou-se um martírio não só por conta das tosses, mas sua consciência que suga os desejos mais profundos do coração de Eren e o faziam sonhar com como seria o abraço de Levi, sua voz rouca e suave dizendo-lhe que tudo estaria bem à partir de agora, sem mais tulipas, que Eren só perderia o fôlego por conta dos beijos do Ackerman ou de seus abraços apertados, mas então o jovem médico acordava e sua única vontade era chorar e gritar.

Eren se recusou a chorar. Os únicos momentos em que ele não podia segurar as grossas lágrimas e os soluços altos eram os que ele sofria por conta de uma belíssima tulipa de pétalas abertas presa em sua garganta, arranhando todo o caminho de seus pulmões, a sensação de seu coração estar sendo ferido pelos espinhos e a esperança de que isso tirasse a paixão de si, até que ele pudesse colocá-la para fora junto de seu sangue que tomava quase toda a flor fazendo-a parecer vermelha com respingos de amarelo. Ele também recusou-se a jogar as flores fora, Eren as pegava entre os dedos sem importar-se com os espinhos flagelando sua pele, lavava toda a saliva e sangue das belíssimas pétalas abertas como se fossem um pedaço de seu coração e as deixavam morrer em vasos de vidro espalhados pela casa, semana passada ele havia conseguido encher um vaso médio e observou enquanto as pétalas murchavam, o amarelo vívido da desesperança mudando para um mais claro, e então outro sem vida até que ficassem secas e despedaçadas de rejeição, e pensava que o mesmo podia acontecer com o amor em seu coração; o vaso no criado-mudo em seu quarto também estava quase cheio e Eren quis rir ao ver isso como um recorde pessoal.

O outono pareceu arrastar-se assim como as folhas laranjas e vermelhas que caíam das árvores tornando-as apenas galhos cinzas e secos, congelados pelo frio eminente, não ver Levi durante a saída logo pela manhã só tornou a sensação de arrastamento ainda maior, mas Eren podia dizer que já estava acostumado com o novo caminho, ele se obriga a isso, sempre com os olhos azul-turquesa no chão para que sua atenção não desviasse em direção à rua que o levaria para ele; apesar de parecer que três meses haviam dobrado para seis, foi fácil identificar que o inverno havia chegado quando as manhãs tornaram-se mais frias, e o tapete branco de neve começou a cobrir as ruas e casas, mesmo que não gostasse Eren teve que começar a usar seu carro para que pudesse atravessar todo o frio e neve para chegar ao trabalho, ele nem queria pensar que toda essa viagem diária seria para que no final das contas tivesse de aturar Erwin falando em seus ouvidos, conselhos, recomendações e encorajamentos que Eren já não suportava mais – sinceramente ele vinha pensando em pedir as contas, seu pai era um médico e por conta do dinheiro o jovem Jaeger também entrou no ramo, um cargo totalmente diferente mas que lhe rendia um bom pagamento; agora, já estando tão perto de morrer ele realmente não precisaria mais do cargo e seu superior não era um homem de muitas perguntas já que entregou os papéis à Eren sem muita insistência, só faltava-lhe assinar.

O frio estava mais rigoroso quando Eren tornou a ver Levi, o jovem médico vestiu seu jaleco e luvas descartáveis pronto para trabalhar quando seus olhos azul-turquesa miraram o rosto pálido do Ackerman, apesar do bolo na garganta por estar diante do homem após tantos meses se escondendo dele, Eren encontrou sua voz quebrada e trêmula no fundo da garganta, o silêncio da sala não exigiu muito esforço ou tom para que a voz pudesse chegar até Levi, os lábios do jovem médico tremulavam enquanto ele dizia seu nome completo, um sorriso quase tímido no rosto enquanto explicava a origem; Jaeger veio do alemão que significa caçador e Eren veio do celta que significa santo, foi uma forma que sua mãe religiosa encontrou para amenizar o sobrenome, mas isso nunca foi algo que incomodou o jovem médico.

- Meus pais morreram cedo, não tanto para não me verem formado... Minha mãe dizia que era o sonho do meu pai e dela, fico feliz em saber que foi realizado. – comentou com certo humor trêmulo na voz baixa, os olhos ainda longe do rosto de Levi, toda a coragem que ele não tivera em um ano estava ali, estampada e exposta implorando para ser usada, ele decidiu voltar a falar antes que se engasgasse em seu silêncio trêmulo, as palavras saíram meio gaguejadas e incertas diante de seu nervosismo. – Na verdade eles não gostaram muito da área que escolhi, sinceramente nem eu entendo muito bem o porquê da escolha, apenas... Achei diferente.

Quando todos os detalhes mais relevantes sobre sua vida terminaram, Eren finalmente criou coragem para olhar o rosto pálido de Levi, primeiro os lábios rachados, o nariz afilado onde as sardas marrons se estendiam de uma bochecha à outra e então os cílios longos e escuros assim como seus cabelos curtos, o jovem médico sentiu as bochechas quentes como naquele dia em seu apartamento, as mãos trêmulas e suadas, o estômago apertado e o coração batendo forte no peito, ele podia jurar que a próxima coisa a sair pela sua boca seria o órgão palpitante e não flores, mas ainda assim Eren se obrigou a engolir o bolo dolorido como se fosse um caule espinhoso.

- E você é Levi Ackerman, vinte e dois anos, recém-formado em Letras. – murmurou com a voz trêmula e quase inaudível, mas ninguém precisava ouvir sua voz, seus dedos ainda tremiam muito e suavam dentro das luvas quando as pontas tocaram a pele de Levi, ele avaliou um pouco a sensação antes de tirar o látex descartável com um puxão impaciente, a pele sob a sua mostrou estar como o inverno e a quentura nas bochechas de Eren intensificou-se, descendo pelas maçãs do rosto até a linha de sua mandíbula apertada de forma que os dentes ficaram doloridos, ele fechou os olhos quando teve de empunhar força nas pontas dos dedos por conta do frio metálico que havia deslizado pelas falanges e mordeu o lábio inferior, tirando sangue da pele quente quando sua mão no peito de Levi afundou suavemente e um soluço agoniado soou pela sala branca quando Eren teve de abrir os olhos para encarar a mácula de bisturi que ele havia deixado no peito pálido de Levi, bem onde o coração estava alojado. - M-Morte cerebral o-oriunda de um traumatismo craniano... – sua voz falhou terrivelmente quando os soluços altos vieram e suas pernas quase perderam a força se não fossem as mãos apoiadas na maca metálica abaixo de si, a imagem do corpo frio e nu de Levi tornou-se um borrão iluminado pelas luzes brancas da sala conforme as grossas lágrimas escorriam por seu rosto, seu estômago parecia estar alimentando-se de suas estranhas tamanha a dor que Eren sentia ao ver seu amor estirado ali, o corpo desnudo como se sua honra não valesse muito, mas o próprio médico legista havia acabado de flagelar sua pele como se não fosse nada e ele apenas queria se bater por isso, mas os minutos foram passando no relógio de parede e Eren teve de voltar ao trabalho; ele engoliu o bolo de pétalas e espinhos em sua garganta, tentou amenizar a mão trêmula que segurava o bisturi antes de voltar sua atenção para o corpo pálido de Levi. – Atropelamento envolvendo um motorista embriagado. Horário da morte às 3hr:00min da madrugada. – o legista fuçou um dos bolsos de seu jaleco em busca de sua caneta-lanterna e com o cuidado que ele tratava suas flores levantou as pálpebras do Ackerman, Eren constatou que os olhos do homem não eram de um castanho escuro quase pretos e sim azuis, ele guardou a informação para si em seu coração e todo o resto do exame geral foi feito assim, recolhendo pequenos detalhes que muitos achariam insignificantes; uma cicatriz no joelho, uma marca de nascença na coxa e outra no umbigo que também possuía uma marca de piercing, as pintas discretas nas costas e mãos levemente calejadas, mas nada disso preparou Eren para o momento em que ele teve de assinar os papéis, a etiqueta amarela em seus dedos trêmulos que uma hora ou outra teve de ganhar lugar no dedão do pé de Levi, Eren não saiu da sala até que o médico responsável pelo resto da papelada aparecesse e ainda assim ele quis gritar por todos os andares do hospital enquanto o rosto pálido e coberto de sardas do Ackerman era coberto pelo saco preto de zíper.

Eren bateu digital mais tarde do que em todos seus outros dias de trabalho, dirigir até sua casa foi um grande piloto automático, ele ignorou as ligações e mensagens de Mikasa para que pudesse enviar um e-mail ao seu superior com sua assinatura e devidos documentos, mesmo não sendo de pedir as coisas o jovem médico deixou como observação que o pedido fosse aceito o mais rápido possível independente das burocracias, após isso tudo o que ele fez foi deitar em sua cama, encolhido no espaço frio e grande demais para apenas uma pessoa, diferente dos outros dias e meses Eren não segurou quando as lágrimas vieram, ele as deixou fluírem de seus olhos até os lençóis, deixou que os soluços altos e agoniados reverberassem por seu quarto. Diferente dos outros dias e meses, Eren chorou até ser tomado por um acesso de tosses – e não o contrário – que o levaram a vomitar mais espinhos do que flores, as poucas pétalas de um vermelho rubro respingado de amarelo não tão vívido, algo morto e sem esperança.

Quando ele finalmente decidiu responder à Mikasa, ela desejou-lhe um “sinto muito” e Eren só conseguiu pensar que “sinto muito” nem ao menos é um sentimento, a Ackerman até o convidou para o velório mas ele havia enterrado Levi dias atrás quando fechou seu corpo pálido dentro de um saco preto para deixá-lo em uma gaveta fria e solitária, onde ele seria tratado como apenas mais um infeliz que não tivera a sorte de ter mais alguns dias; o contato com Mikasa não durou muito apesar de sua preocupação e sem que o Jaeger pudesse se dar à vontade de perceber, já era primavera novamente.

Para Eren não fez diferença já que todo dia era inverno, não fez diferença quando ele teve um acesso de raiva, nem quando o ex-legista juntou todos os vasos com flores murchas e podres, os vidros espatifando-se em mil pedaços por todo o piso branco de seu apartamento, tornando o lugar quase sempre silencioso um pouquinho mais barulhento diante do som do vidro frágil rompendo, a água colorida pela podridão das flores molhando o piso e os joelhos de Eren fraquejando sobre os estilhaços que abriram pequenas fendas em seus joelhos para que o vermelho se juntasse a bagunça colorida à sua volta; sua garganta coçava terrivelmente quando o choro iminente veio, grossas lágrimas em seus olhos cansados e marcados por olheiras profundas, mas Eren se obrigou a estender a mão e o corpo até a mesa de centro em busca de papel e caneta para que ele pudesse riscar rapidamente, a tosse presa em sua garganta veio algumas vezes e o ex-legista não pôde evitar tossir respingos vermelhos na folha.

Paciente: Eren Jaeger
Causa da morte: Amor, a maldita e idiota Hanahaki, anemia, desidratação.
Horário da morte: 6hr:30min, primavera de 2017
Local da morte: rua xxx-xxx, ao atravessar a rua, diante da biblioteca
Legista: Eren Jaeger


Ele apenas soltou o caderno de lado tendo a certeza de que a água no chão não tornaria difícil ler as letras na folha caso ela ficasse molhada, a caneta foi parar em qualquer canto mas seu corpo simplesmente deitou-se na bagunça de estilhaços e água, as pontas contra a pele de suas costas não o incomodou tanto quanto a coceira em sua garganta, as lágrimas persistem em correr por seu rosto quando o primeiro acesso veio, com a força de todos os meses em desenvolvimento, mas Eren não resistiu contra a sensação de estar sufocando; ele não buscou por ar desesperadamente quando o broto aberto e macio como cetim alcançou-lhe o reflexo de vômito, o ex-legista apenas virou o rosto para o lado quando não pôde mais segurar a bílis em sua boca e vomitou, a mão apertada no piso de madeira e outra no peito agarrando sua camisa de botão branca quando os pulmões passaram a queimar por conta da falta de ar, a garganta abrindo e fechando em esforço para expulsar o que trancava a passagem já que Eren não tentaria fazê-lo.

Com lágrimas grossas nos olhos, desespero e dor por todo seu corpo e mente doentes, corpo jogado em uma bagunça molhada de vermelho, amarelo morto e branco pontiagudo, Eren Jaeger só conseguiu pensar no quão idiota é morrer de amor.

As flores já desabrocham nas árvores, as ruas sendo cobertas por um tapete multicolorido de pétalas macias, cheirosas e suaves de se tocar, as mulheres mais sonhadoras respiram o suave perfume dessas flores enquanto imaginam quando terão a chance de provar as doçuras do amor, mas ainda é inverno para Eren Jaeger, há mais de um ano é inverno e continua sendo mesmo quando seu corpo frio é encontrado no piso de seu apartamento, os lábios levemente abertos tem um filete de sangue seco mas o que os deixa assim é um broto vermelho meio aberto de tulipa não totalmente expelido, sua autópsia não é das mais estranhas, não são poucas pessoas que morrem por conta da Hanahaki, mas não são muitas pessoas que possuem um jardim inteiro florescendo nos pulmões e do coração, brotos amarelos podres que lentamente iam ser substituídos por pétalas vermelhas vivas como o sangue que estava espalhado pelo chão, seria cômico o fato de que agora realmente era o amarelo quem respingou o vermelho.

O tão rejeitado amarelo estava sendo substituído pelo desejado vermelho, mas não importa que tenham flores desabrochadas, porquê agora todo dia, mês e ano é inverno, em toda estação é sempre frio e solitário.

25 de Noviembre de 2018 a las 20:26 0 Reporte Insertar 1
Fin

Conoce al autor

Donn Joker 18// Meus fones de ouvido tocam de tudo e mais um pouco, música pra mim é vida, não imagino meus dias sem isso, e eu tenho fics para todas as horas (sério mesmo), mas isso não quer dizer que elas estejam finalizadas ou tenham sentido... Ás vezes eu só preciso desabafar mesmo e faço isso principalmente escrevendo.

Comenta algo

Publica!
No hay comentarios aún. ¡Conviértete en el primero en decir algo!
~