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pcsp P C S P

Nezumi fitava o céu noturno tentando encontrar respostas para perguntas que mal sabia formular, ou qualquer lógica que pudesse auxiliá-lo a tomar alguma decisão. Fazia três anos que não via Shion e, mesmo que tentasse refutar, o sentimento de querer revê-lo crescia dentro de si, assim como a incerteza do que o esperava nos destroços da No. 6. Incertezas... Shion ainda estaria lá? Por ele? E o que ele sentia exatamente? Durante muito tempo, ele acreditou que poderia reconstruir a sua vida. Mas... Faltava algo; faltava Shion. E não seriam os céus que trariam as respostas, mas talvez alguém pudesse ajudá-lo a compreender a si mesmo. * NezumixShion * Yaoi/Romance * Universo Anime * Lemon no capítulo 2* Disclaimer: No. 6 não me pertence, não ganho coisa alguma pra escrever essa ficção. Spoilers: A fanfic se passa alguns anos depois do último capítulo do anime. Cuidado com os spoilers!


Fanfiction Anime/Manga Sólo para mayores de 18.

#lgbt #Safu #Nezushi #Pós-série #yaoi #Universo-anime #spoilers #Número-Seis #No--6 #shion #nezumi #lemon #homossexualidade #gay
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Capítulo 1: O Milagre


  N/A: Olá gente! o/
Muitos de vocês não devem me conhecer, pois é a primeira vez que publico no fandom de No.6... Mas eu gosto demais do anime então espero que gostem da minha fanfic! Me digam a sua opinião ok? ^^ Resolvi fugir um pouquinho do meu fandom habitual e cá estou. Até porque estou querendo experimentar novos ares há tempos, hehehe!
Quanto a música da songfic, se chama Years go by da banda Stratovarius. Pode não ser do gosto de muita gente aqui... Mas é uma música muito especial pra mim e marcou um momento bem importante na minha vida. Eu nunca usei uma musica tão pessoal numa fanfic, então... Eh...
Espero que gostem!  



CONTEMPLAÇÃO

Capítulo  I: 

O Milagre


Era uma noite estrelada. Longe da poluição da No.6 que sempre infectava o Distrito Oeste, o céu era sempre repleto de estrelas brilhantes. Mais uma noite comum, como tantas outras: bela, selvagem, intensa; ainda sim, Nezumi às vezes sentia falta da poluição e do ar pesado da região onde costumava morar.

Não, era mentira. Não era exatamente disso que ele sentia falta, mas sim do que aquela poluição lhe lembrava. Shion.

Esta noite, Nezumi não conseguia dormir e desistiu de continuar lutando contra os lençóis em seu pequeno chalé. Caminhou pelas ruas vazias até encontrar o seu parque favorito, o qual ficava no topo de uma clareira. Deitado na grama verde e bonita, ele olhava para o céu como se esperasse algum tipo de resposta, talvez algum consolo ou algo que pudesse compadecer com sua dor e resolver todos os seus problemas.

Mas além das estrelas, que nada respondiam, ele só via a escuridão. Céus, ele estava tão cansado de correr no escuro!

_ O que devo fazer? – murmurou para si mesmo, ou seria para o céu escuro salpicado de pontos brilhantes?

Era difícil entender a si mesmo e, no fundo, essa era a única busca que ainda fazia: compreender-se. E isso era algo muito mais difícil do que ele imaginou inicialmente, quando decidiu abandonar tudo para trás. Ele deixou Shion, convencido de que o mundo responderia suas dúvidas e que, um dia, ele poderia voltar até seu "cabeça-de-vento" favorito e...

E o que?

O que ele queria? O que ele devia fazer? Era tudo tão... Complicado!

Irritado, Nezumi sentou-se na grama úmida onde estava deitado até então, arrancando algumas folhas e jogando-as longe para extravasar um pouco da raiva que sentia. A verdade é que ele estava frustrado, não com a pobre grama, mas consigo mesmo. Era de se esperar que depois de três anos ele chegasse ao menos perto de compreender o que queria! Mas não era o seu caso. Ele ainda estava muito, muito longe de obter a tão almejada resposta.

Por quê? Ele não fazia ideia. Era como correr em círculos dentro de uma caixa escura. E enquanto isso o tempo corria!

Antes de Shion surgir em sua vida, às coisas eram bem mais simples, não havia mistério algum: Nezumi queria vingar o seu povo, destruir a No. 6, e para isso sobrevivia até que o momento certo chegasse. Quando ficou sabendo de toda a catástrofe das abelhas parasitas, Nezumi sentiu-se tão realizado que não conseguia se conter de tanta felicidade.

Lá estava a almejada vingança! Era tão fácil, tão... Perfeito! Seria lindo, um show que ele assistiria de camarote! Ele realmente achou que iria gargalhar com gosto ao ouvir os gritos de desespero de cada morador daquela cidade amaldiçoada! Ele tinha certeza que agiria assim, que nada o deixaria mais feliz!

Mas tudo mudou.


Look around, do you see?

So many things have changed...

<>

Olhe ao redor, você vê?

Quanta coisa mudou...


É, muita coisa mudou. Shion alterou toda sua percepção de vida, ao ponto que ele só se deu conta da bagunça emocional em que se enfiou ao ver os malditos muros da No.6 no chão. Não foi somente aquela barreira quem ruiu, mas tudo o que ele acreditava também; o 'eu' que conhecia também não foi poupado e tudo o que lhe restava agora eram dúvidas.

Naquele crepúsculo, enquanto observava o milagre que Shion realizou, ele percebeu que aquilo era algo... Incompreensível. Era imensurável! Shion conseguiu o "meio termo", conseguiu destruir os muros da No. 6 e salvar os habitantes; Shion conseguiu o impossível.

Até hoje ele não compreendia ao certo o que sentiu quando observou as ruínas daquela muralha, outrora tão intimidadora e assustadora. Só sabia dizer que foi um sentimento imenso, tão forte que...

...Ele teve medo.

Muito medo, mas do que, exatamente, era difícil dizer. Ele simplesmente não conseguia chegar a nenhuma conclusão quando pensava naquela sensação de pavor crescente, embora esse sentimento fosse o responsável por ele estar ali naquela noite. O fato é que esse medo lhe fez fugir. Ele precisou se afastar, nem teve escolha! Separou-se de Shion com um singelo "beijo de despedida" e partiu.

Para onde? Nem ele sabia responder.

Os anos se passaram e trouxeram para si uma vida não muito diferente da que vivia no Distrito Oeste, mas muito mais digna do que outrora. Nezumi conseguiu um emprego como ator em um teatro local, nos arredores da No. 4, uma das regiões provenientes do Tratado da Babilônia.

Inicialmente sentiu-se mal por estar próximo de uma "segunda No. 6", mas com o tempo percebeu que essa cidade não era como a maldita e amaldiçoada No. 6 que destruiu sua vida. A forma de administração era diferente: não havia um governo. Tudo era extremamente rural e muito mais simples, porque as pessoas daquela região preferiram abrir mão da tecnologia avançada para ter uma cidade pacífica.

E, Nezumi tinha que concordar, todos se saíram muito melhor nisso do que a No. 6. Inclusive, os arredores da No. 4 eram como um grande subúrbio: as pessoas dali costumavam ir até a cidade trabalhar quando era horário de expediente, e retornavam para casa ao entardecer. Não havia muros, nem destruição, nem dor; não havia excessos.

Claro, sempre haveria o mal da raça humana incrustada nos lugares: roubos, mortes, crimes... Entretanto não há como fugir da patologia humana, sempre motivada pelo egoísmo e sede por poder. Mas a cidade evoluíra de tal forma que o contrato social silencioso entre eles parecia funcionar com mais eficiência do que o egoísmo das pessoas. Talvez aquela sociedade atingiu o sucesso devido a forma como educaram as novas gerações, era difícil saber. A questão é que simplesmente deu certo.

Milagrosamente, deu certo!

Algumas vezes Nezumi pensou em buscar Shion na No. 6 (onde ele provavelmente ainda morava) e mostrar para ele a sociedade da No. 4 e seus distritos, mas desistia da ideia logo quando ela surgia em sua cabeça. Afinal de contas, por que ele desejaria ver novamente aquele cabeça-de-vento? Ele encontrou um lugar pacifico para viver, um lugar feliz. Tinha seu trabalho, sua casa (bem mais aconchegante que a anterior, diga-se de passagem), sua rotina...

Ali era seu novo lar, não era?

Parou de respirar por alguns instantes, revendo seus últimos pensamentos com calma.

Faltava algo.

Neste momento, ergueu sua cabeça e contemplou o horizonte, finalmente percebendo que chegava a alguma conclusão, ainda longe do que ele esperava, mas enfim era algo palpável. Se deu conta de que, durante muito tempo, tentou se justificar dizendo que não deveria voltar e buscar Shion, ou sequer visitá-lo, por não desejar destruir novamente o seu conto de fadas; dizia para si mesmo que provavelmente o garoto estava feliz com sua mãe, reconstruindo a cidade, divertindo-se com seus amigos da vida que um dia foi arrancada de si.

Isso nada mais era do que uma desculpa que ele mesmo inventou. Ele se enganou de tal forma com essa mentira que nunca, nunca mesmo, cogitou a possibilidade de que Shion sentisse falta dele. Será que sua ausência o machucou de alguma forma?

Será que Shion ainda lhe esperava?

Será que ele lhe odiava por isso?


And you should know by now (that)

I never meant to hurt you at all.

<>

E você deveria saber agora (que)

Eu nunca tive intenção de te machucar.


_ Será? – sussurrou baixinho, sentindo um medo irracional lentamente invadir o seu corpo.

E se não fosse exatamente isso? E se Shion sequer se lembrasse dele? E se ele estivesse feliz de verdade, e o seu retorno trouxesse infelicidade e insatisfação para ele? Pode-se dizer que Shion não passou os melhores momentos de sua vida ao seu lado, não é mesmo?

O Distrito Oeste não tratou qualquer um de seus moradores muito bem, a abelha parasita quase matou Shion, ele muitas vezes o tratou mal, pois não era da sua natureza ser muito bonzinho. E, como se não bastasse, foi ao seu lado que Shion presenciou a morte de diversas pessoas, inclusive de sua amiga Safu.

No fim das contas, Nezumi não trouxe nada de bom para a vida de Shion, só o acompanhou em experiências terríveis, ou pior: foi o causador de algumas delas.

Mas Shion trouxe tanta coisa boa para si... Tanta coisa...!

Instintivamente levou a mão direita até o coração apertando-o, tentando diminuir a dor interna que sentia toda vez que se lembrava de Shion. Depois do primeiro ano de reflexão, ele concluiu que aquele aperto no peito se tratava de um sentimento de saudade.

Saudade do que exatamente? Shion o ensinou coisas boas, é verdade, mas ele também passou por vários momentos ruins em sua companhia. Provavelmente os traumas lhe afetaram menos do que ao garoto mais novo, mais ainda sim... Por que diabos ele sentiria saudades de uma época em que teve que escalar uma pilha de corpos mortos para conseguir se salvar?

Porque ele estava ao seu lado e você o ama.

Nezumi olhou por cima do ombro, procurando o dono da voz que acabara de ouvir, mas não encontrou ninguém. Parecia estranhamente com a voz de...

_...Elyurias? – sentia-se um tolo completo por ter chamado a deusa Elyurias daquela maneira, como se ela pudesse, de qualquer forma, estar interessada em seus problemas particulares.

Claro, se um dia Nezumi foi cético, era impossível continuar a sê-lo depois de tudo que observou ao lado de Shion. Ele acreditava em Elyurias, a deusa de seu povo. Ele cantava para ela toda semana, agradecendo mentalmente a oportunidade que teve de presenciar a mudança da No.6 e a união com o Distrito Oeste.

Não era exatamente a vingança que ele tinha em mente, mas depois de conhecer Shion ele não conseguia mais desejar destruir a cidade; seu Shion estava lá.

Pera aí, seu Shion? Seu? Desde quanto Shion se tornou seu?

Nezumi, aceite a mudança. Vai ser mais fácil assim.

E lá estava a maldita voz novamente!

_ Eu sei que não é Elyurias falando, isso é loucura! – ele aumentou consideravelmente o tom de voz, se pondo de pé em um pulo e fitando o seu arredor com olhos perspicazes. Seja lá quem estava lhe pregando essa peça, ele iria encontrar e fazer com que essa pessoa pagar pela petulância!

Quando desistiu de observar a sua retaguarda e voltou o olhar adiante, deu de cara com ninguém mais ninguém menos do que Safu.

Aquietou-se diante do sentimento de surpresa, sentando de qualquer jeito no chão e olhando abobalhado para a garota que não parecia envelhecer um único dia desde que a vira sendo controlada por Elyurias, há longos três anos.

Seria... Um milagre?

_ Você... Morreu! – ele disse abobalhado, e esse não era um cumprimento muito encorajador.

Mesmo assim, Safu sorriu e se sentou a sua frente, cruzando as pernas. Ainda lhe lançando um olhar gentil. Nezumi piscou e a imagem não desapareceu.

_ É. Eu morri. – ela respondeu, ainda sorrindo. – Mas você não pareceu tão assustado quando me viu da outra vez.

Nezumi piscou mais uma vez, tentando se lembrar do que ela falava. E então ele se conscientizou do absurdo daquela situação: ele estava conversando com um fantasma. Qual era a coerência daquilo? Pior: porque ele tentava encontrar alguma coerência naquele diálogo? Tenha a santa paciência!

E subitamente ele compreendeu, recordando-se do momento em que acreditou que Shion tinha morrido e nunca mais o teria ao seu lado. Perdido na dor absurda que sentiu naquele momento, Nezumi cantou pela alma de Shion e, quando se preparava para desistir da vida e seguir os passos do garoto de cabelos brancos, Safu reapareceu e continuou o cântico onde ele parara.

Entretanto, naquele momento ele estava tão cheio de esperanças de que ela poderia fazer alguma coisa por Shion que sequer teve tempo para se sentir surpreso ou assustado; tudo o que importava era Shion voltar. E tão logo o mais novo abriu os olhos, tantas coisas aconteceram que ele não questionou a presença de Safu e Elyurias. Mas, sim, era verdade: ele viu Safu depois da sua morte.

_ Não complique as coisas Nezumi. – ela continuou a falar, balançando despreocupadamente a mão direita. – Não é como se eu gostasse de voltar para esse mundo, sabe? –Safu deu mais um sorriso gentil, dessa vez um tanto pesaroso. –Aqui não é mais minha casa.

Nezumi encarou a garota, não conseguindo evitar o pensamento de que aquela situação era realmente estranha. Não importava que já tivesse encontrado-a morta antes, quando ela salvou Shion; nada conseguiria tornar aquela situação menos estranha só porque era o segundo encontro entre os dois.

_ Mas você está sendo tão cabeça dura que não tive escolha! E olha que eu fui paciente! Esperei durante três anos, achando que você chegaria a uma conclusão antes disso!

_ Mas... Mas como... Mas por que...? – ele parecia tão perdido que sequer conseguia encontrar as palavras certas.

Safu sentia vontade de rir, mas não iria prejudicar ainda mais a confusão mental de Nezumi, até porque ele não era o tipo de pessoa que permitia ser subjugado. Ela precisava que ele compreendesse o essencial, afinal de contas. E depois ele chamava Shion de "cabeça-de-vento", tsk.

_ Pare de tentar encontrar a razão pra tudo na vida. Existem coisas que precisam ser vividas, e que não possuem razão alguma.

_ Eu...

Mas ele calou-se, refletindo nas palavras que a garota disse. Ela o observava com olhos esperançosos, acompanhando cada mudança na expressão facial do homem a sua frente animadamente.

Nezumi nunca colocou as coisas dessa forma.

_ Eu... Eu não preciso de uma razão.


In my life I have been an outcast,

But now I've been reborn.

And I see things so clear.

<>

Toda minha vida eu fui um excluído,

Mas agora eu renasci.

E vejo as coisas tão claras.


_ Phewww, finalmente hein! – ela exclamou, colocando-se de pé, abrindo os braços e girando ludicamente pela clareira. – Finalmente! Ah Nezumi, eu já estava começando a duvidar da sua inteligência!

Mas ele não prestava atenção no que Safu fazia, seus olhos acinzentados estavam desfocados. Apesar de ter sido instruído a não pensar, ele pensava sem parar na velocidade da luz.

Não havia sentido. E não precisava ter um sentido para que a saudade de Shion se instalasse em seu coração. Era algo que além de não ter sentido, ele simplesmente não controlava; estava lá, crescendo dentro dele. Não havia razão e não precisava tê-la! Apenas precisava aceitar, e decidir o que fazer.

_ Safu, o que eu devo fazer? – ele ergueu o olhar para a garota, que franziu o cenho em irritação. Francamente, o que ele disse de errado agora?

Foi surpreendido com um cascudo forte em sua cabeça e soltou um ruído de dor, segurando-a enquanto olhava para cima. A garota parecia nervosa, e provavelmente foi ela quem acabou de socá-lo, visto que massageava o punho.

_ Fantasmas são mais sólidos do que eu imaginava.

_ Olha lá como fala comigo! – respondeu ela enfezada, mas logo amaciou suas feições, estendendo a mão para ajudar Nezumi a se levantar.

Sem muito pensar, ele aceitou o gesto de bom grado, erguendo-se num salto com a ajuda do impulso da garota. Safu podia ser um espírito e toda aquela situação podia ser uma loucura, mas Nezumi sentia-se especialmente contente por perceber que estava ainda mais alto do que ela.

Os anos passaram, afinal de contas. Sorriu com um ar de superioridade, mas a garota manteve os olhos sérios, fitando-o com intensidade.

_ Nezumi, você sabe o quão especial o Shion é para mim, não sabe? - ela questionou suavemente, com um ar nostálgico em sua voz.

_ Eu sei. Você o a ama. – Nezumi fez uma pausa. – Ele te amava também.

Para falar bem a verdade, essa era uma das coisas que mais deixavam Nezumi incerto do que deveria ser feito. Shion parecia amar muito Safu, ao ponto de passar por todo risco de vida que passou numa tentativa de salvá-la. Ele sentia... Ciúmes.

Será que Shion algum dia lhe amou da mesma forma que amava Safu? Será que ele faria o mesmo por ele?

_ Pare de pensar coisas ridículas, eu consigo ouvir seus pensamentos tolos sabia disso?

Ele a observou assustado, sem conseguir disfarçar a expressão irritada pelo ultraje da falta de privacidade. Ela sorriu envergonhada, como se pedisse por perdão.

_ Não é algo que eu possa controlar. – justificou-se Safu com a voz constrangida. – Você foi designado para os meus cuidados, sabe? Nós... Temos algum tipo de ligação, apesar de não termos nos conhecido em vida.

Nezumi ponderou sobre as palavras da garota, esperando alguma outra explicação, em vez disso, Safu apenas ergueu o rosto fitando o céu com uma expressão subitamente sonhadora. Ele franziu o cenho, ainda esperando por respostas, mas o silêncio permaneceu entre os dois, deixando-o ligeiramente irritado.

_ O que quer dizer? – indagou, franzindo o cenho e cruzando os braços numa posição defensiva.

_ Eu cuido de você Nezumi. De lá. – ela apontou para cima, e o outro ergueu o olhar, esperando avistar alguma coisa.

Mas não viu nada além do manto azul escuro salpicado pelas estrelas.

_ Do paraíso. Minha casa agora. – ela suspirou. – Eu queria muito cuidar de Shion sabe, mas eu fiquei presa a você. Elyurias nos trata como irmãos.

_ Nós não somos irmãos.

_ Não irmãos de sangue, mas de certa forma somos bastante unidos. O fato de apenas nós dois conhecermos a música de Elyurias nunca te fez pensar a respeito?

Na verdade... Não. Para ser franco, ele só conseguia pensar em Shion, todas as coisas correlacionadas a Safu ou outras pessoas que conheceu em sua outra vida permaneceram no esquecimento. Shion era a única constante em seus pensamentos relacionados ao passado ou a quem ele era; era o único ponto em aberto e o único que precisava ser constantemente lembrado.

_ E se você não consegue pensar em outra pessoa a não ser nele, o que você ainda está fazendo aqui?


Open your eyes and realize

Hard times are over if you want...

<>

Abra seus olhos e perceba

Que os tempos difíceis terminam se você quiser...


_ Não é tão simples. –respondeu ele. Safu lhe lançou um olhar impaciente. – E se ele não estiver mais me esperando?

_ Você prefere morrer com a dúvida em vez de arriscar e descobrir? – foi a resposta quase que imediata da menina de cabelos castanhos, jamais deixando o contato visual ser interrompido.

Ela suspirou novamente, controlando-se para mais uma vez não perder a paciência. Elyurias ficaria excepcionalmente decepcionada se ela não conseguisse realizar sua missão com calma. Porém era realmente frustrante lidar com alguém tão cabeça-dura quanto Nezumi. Era tão claro que ele amava Shion, então por que ele simplesmente não se rendia a esse sentimento e fosse tentar ser feliz? Ela simplesmente não conseguia entender. Nezumi tinha aquilo que ela sempre desejou ter, mas não parecia ser consciente disso.

Safu suspirou pesadamente, decidindo parar seus pensamentos por aí. Não ajudaria Nezumi desse jeito, consequentemente não ajudaria Shion. Ela precisava fazer o outro entender a questão e incentivá-lo a buscar a resposta; incentivá-lo a procurar por Shion.

_ Eu sempre fui uma pessoa muito racional Nezumi. – disse ela depois de um tempo. Nezumi descruzou os braços e a fitou sem compreender onde ela queria chegar. – Era a melhor da minha escola! Eu tinha uma explicação científica para todos os acontecimentos ao meu redor. Mas...

_Mas...?

_ Teve uma coisa que eu nunca consegui explicar... E isso era o meu amor pelo Shion. – ele fez uma careta, e Safu mostrando a língua pelo simples prazer de provocá-lo. – E não precisa fazer essa cara de ciúmes, ok? Eu estou morta, se lembra?

Ela se virou de costas, agora apreciando a bela paisagem que o outro olhava antes de sua chegada. Estavam no ponto mais alto do parque e dali dava para ver os pequenos pontos de luz da cidade, assim como tinham uma bela vista do céu; era quase como se fosse um mundo de luzes brilhantes. Era realmente uma visão esplêndida...!

Inevitavelmente, Safu redirecionou seus pensamentos para àquele lugar. Será que a No.6 estava com um céu tão belo como aquele?

_ Eu fiquei tanto tempo tentando encontrar a resposta pras coisas que não tive a oportunidade de me aproximar mais de Shion. – explicou ela, ainda sem encarar o outro. – Éramos amigos e ele me amava como amiga e... Talvez... Se eu não tivesse ido estudar fora, talvez as coisas fossem diferentes.

Safu precisou fazer uma pausa. Como dizer a Nezumi que talvez se ela não tivesse viajado, talvez Shion e ela estivessem juntos como um casal? Os acontecimentos que se seguiram não foram culpa de Nezumi. Ela não o culpava pela sua morte, sequer tinha qualquer ressentimento por ele. Apenas queria que ele fizesse Shion feliz.

_ Eu sei que ele se encantou com você a primeira vista e jamais deu abertura pra outras experiências, mas... Bom... Se eu tivesse tentado com mais afinco, as coisas poderiam ter sido diferente entre nós. – ela o observou por cima do ombro. – Eu morri com a dúvida na minha cabeça. A certeza de que eu o amava e isso não tinha explicação científica, mas a dúvida de se poderíamos ter algum futuro como casal, se eu tivesse corrido atrás de meus ideais. Eu já tinha um currículo excelente, uma careira brilhante... Não precisava atender àquele curso na No. 5.

_ Eu... Eu sinto muito.

Ele realmente sentia, em partes. Obviamente sentia um pouco de alívio pela garota não ter insistido, porque provavelmente Shion teria cedido mais cedo ou mais tarde. E, mesmo que não fosse apaixonado por ela, amor se construía com a convivência; Shion lhe ensinou isso. Ele sentiu seu rosto corar. Não gostava de denominar o que sentia por Shion como amor, mas depois de ler Shakespeare durante tantos anos... Era impossível chegar a outra conclusão.

Nezumi amava Shion, e mesmo não tendo lógica, não havia mais como negar.

Safu riu, provavelmente escutando seus pensamentos. Mas fingiu não ser esse o motivo, continuando a conversa de antes.

_ Não sinta por mim. Deixe de ser cabeça dura e perceba onde está a resposta pros seus problemas Nezumi!


Open your mind,

Reach for the stars,

Answer is there for us to find.

<>

Abra sua mente,

Alcance as estrelas,

A resposta está aí para que a encontremos.


E então, como em um passe de mágica, tudo parecia mais claro na mente de Nezumi. Tudo... Shion... Safu... No. 6... Elyurias. Ele precisava de Shion, e, se o queria, então deveria procurá-lo, indo até a No.6 onde, provavelmente, o outro estaria!

Mas... O que diabos ele ainda estava fazendo ali!?

_ Obrigado. – ele murmurou para a garota, correndo a todo vapor para longe dali.

Enquanto se afastava ouviu a risada de Safu uma última vez, o som da voz dela desaparecendo enquanto ele se distanciava. Ele acelerou ainda mais a velocidade de sua corrida, indo para sua casa pegar o básico e ir viajar até onde Shion estava, ainda assim escutou um último aviso de Safu:

_ Não ouse voltar pra essa cidade sem falar com ele!

Dessa vez, quem sorriu foi ele. Não sabia como descrever o sentimento de contentamento que tomava conta do seu corpo e de todos os seus atos. Ele estava realmente feliz, como a muito tempo não estivera. Não por ter a certeza de que ele teria seus sentimentos correspondidos ou de que teria sucesso em sua jornada de volta. Mas feliz por finalmente tomar uma decisão: a de que algumas respostas estão dentro de si mesmo, e não em algum lugar específico do mundo.

Que tolo fora em se distanciar dessa forma atrás de respostas, quanto tempo havia perdido! Mas agora finalmente se encontrara.

Era a hora de encontrar seu Shion.


Years go by,

Never know when it's too late.

<>

Os anos passam,

Nunca sabemos quando é tarde demais.


_ Não...! – ele exclamou, quando finalmente No.6 apareceu no seu campo de visão.

A cidade não foi reconstruída; ela estava inabitada.

O ar sombrio que pairava acima de cada prédio em ruínas era tenebroso, e a escuridão da noite nada ajudava para melhorar a visão. Nenhum barulho além dos passos de Nezumi ou de animais silvestres era ouvido ali. Nenhuma luz estava acesa.

Todos se foram.

_ NÃO! – gritou ainda mais alto, correndo em direção aos destroços da cidade, abandonando a mochila há alguns passos de distância.

Nezumi sentiu o desespero tentar dominá-lo por completo. Ele viera de tão longe para encontrarisso? Não. E então a ideia de voltar ao Distrito Oeste lhe passou pela cabeça. Talvez ainda existisse alguém lá, talvez alguém pudesse explicar para onde todos foram, daí poderia encontrar Shion. Ele não poderia perder as esperanças na primeira dificuldade que encontrou. E, de certa forma, ele sabia que precisava ser punido por ter demorado tanto.

Porém, quando ele atravessou os destroços da cidade amaldiçoada até os restos do muro, que agora nada mais eram do que concreto cheio de musgo escorregadio, Nezumi viu todas suas esperanças serem esmagadas pela realidade.

Não era apenas a cidade que parecia desabitada, o Distrito Oeste também parecia abandonado.

Estava ainda mais selvagem do que parecia ser na época que ali morara. Havia entulhos por todas as partes, alguns cobertos por limo, uma ou outra árvore crescia tornando o lugar ainda mais sombrio; não havia nenhuma iluminação, dando àquelas casas o aspecto de que algum ser sobrenatural ali vivesse.

A decepção que sentia era quase palpável, enquanto seus olhos fitavam com desânimo toda aquela paisagem abandonada. Não era possível! Para onde todas aquelas pessoas foram? Não foram todos os habitantes que morreram, apenas os egoístas que subjugaram o poder de Elyurias!

_ SHION!! – Ele gritou.

Sua voz ecoava pela cidade fantasma, tornando tudo ainda mais solitário. Uma a uma, suas esperanças eram mutiladas pela insegurança. O que faria agora? Justamente agora que encontrou as respostas que precisava? Justamente quando ele sabia que precisava estar ao lado de Shion. Por que justamente agora...? Sentia as primeiras lágrimas se formarem em seus olhos, os primeiros sinais de desespero.

Era... Tarde demais!

Ele corria, cada vez mais rápido, pulando por cima dos destroços do muro que já estava parcialmente encoberto pela mata nativa. Entrou algumas quadras dentro do coração da cidade, mas ao fim parou de correr.

Não tinha a menor ideia de onde ir.

Nezumi sabia que Shion e Karan moravam em um quarto acima do estabelecimento comercial da família, a pequena padaria de Karan. Mas se a cidade estava inabitada daquela forma, como poderiam continuar com o negócio? Certamente não moravam mais ali.

_ O que aconteceu...? – Nezumi se perguntou com a voz falha, caindo de joelhos no chão e olhando o céu estrelado. – O que aconteceu aqui?!?

Viajou durante três dias, mas já era noite novamente. Engraçado, a cidade poluída pelas máquinas agora tinha o céu de uma mata nativa, parecido com aquele que observava toda noite na No. 4. Ele daria tudo, tudo, para sentir o odor de poluição novamente! Só porque assim ele saberia onde encontrá-lo!

Era inacreditável se dar conta que No.6 ruíra de qualquer forma. Ele nem precisou fazer algo para que sua vingança se concretizasse: Ela estava em ruínas! E tudo que ele conseguia sentir era desespero, não havia um pingo de satisfação.

Não havia gargalhada, nem mesmo uma comemoração.

Onde estava Shion?!

_ S-shion... – ele murmurava, chorando e soluçando, não se importando em manter a dignidade de suas ações; não havia ninguém para observar seu momento de fraqueza, afinal de contas.

Seu peito doía como doera apenas uma vez. E a lembrança daquele momento lhe veio em mente: o corpo de Shion banhando em sangue e seus olhos fechados, não havia quaisquer resquícios de vida em seu corpo. A dor que sentia naquele instante era igual a que sentira naquela vez, como se não existisse mais qualquer motivo para continuar. Será que... Será que Shion e os outros habitantes da No. 6 e do Distrito Oeste morreram?

_ N-não, não pode... – calou-se, mordendo o lábio inferior e tentando refletir.

Era possível não era? Ele conhecera a No. 4, mas não sabia como eram as outras regiões do mundo. No. 6 poderia ter sido saqueada por uma das outras cidades, os seus habitantes feitos de escravos! Ele não tinha a menor ideia de como era a vida em sociedade das outras regiões!

Céus... Shion poderia...

_ Oh Deus... – Nezumi sentiu vontade de vomitar por imaginar no pior, mil possibilidades ruins atravessando sua mente em poucos segundos.

O mundo era tão grande, tanta coisa ruim poderia ter acontecido com aquele cabeça-de-vento! Shion não tinha maturidade para viver em uma sociedade diferente da que estava acostumado! Ele o protegera demais no período em que passou no Distrito Oeste, ele ainda continuava inocente demais! E se algo ainda pior do que as mazelas daquele lugar atingiu os antigos moradores daquela região?

A cada pensamento, um pior do que o outro, sobre o que poderia ter ocorrido com Shion, suas lágrimas se secavam aos poucos, e logo foram seus soluços até que o único som que produzia era sua respiração levemente entrecortada. Nezumi não se movia, apenas sentia o vento gelado tocando em sua pele; ele estava apático para o mundo.

Mas não iria desistir. Não podia desistir só porque falhou uma vez! Ele não poderia se permitir fraquejar ainda mais, porque agora finalmente tinha um objetivo na sua vida: encontrar Shion. Ainda havia um motivo para continuar respirando, continuar insistindo. A sua meta anterior foi completada: a No. 6 estava destruída e ele sequer ligava para isso!

Só que dessa vez seu objetivo era outro. Era algo muito mais nobre e que certamente lhe deixaria feliz. Por isso, ele gastaria o restante da sua juventude atrás daquela pessoa.

Era tudo que lhe restava! Tudo que ainda desejava ter para si: aquela pessoa que não saia de sua cabeça sequer por um minuto.

Ele não iria perder a fé, não sem antes lutar até o fim! Chega de esperar as coisas acontecerem ou as soluções surgirem espontaneamente. Dessa vez Nezumi sabia o que tinha que fazer; dessa vez era ele quem tinha que correr atrás de seu objetivo. Já perdera tempo demais!


Years go by

Yourself will seal your faith

<>

Os anos passam

Você mesmo sela sua fé


Mal acabou de tomar essa decisão e um pequeno ruído atrás de si chamou sua atenção, fazendo-o olhar para trás e arregalar os olhos em surpresa.

_ Hamlet?

Não, ele só podia estar delirando. Seria outro milagre?

O ratinho branco, o qual Shion denominara Hamlet (nome que ele jamais aprovou, diga-se de passagem) o olhava com atenção. Nezumi balançou a cabeça, sentando-se no chão na frente do pequeno animal. Mesmo se o rato não fosse outro delírio da sua cabeça, já que ratos brancos são bem raros em ambientes como aquele, o animal muito provavelmente não era Hamlet.

O Hamlet que conhecia já tinha um ano quando ele reencontrou Shion, e mais três anos se passaram. Na separação dos dois, Shion ficou com Hamlet, mas mesmo se tivesse cuidado com muito esmero do animal, era impossível ara um rato viver tanto tempo, certo?

_ Não vai me dizer que é mais um fantasma me visitando dessa vez, direto do paraíso animal? – Nezumi murmurou com sarcasmo para ninguém em particular, sem achar a menor graça em suas palavras.

Alheio aos pensamentos de Nezumi, o bichinho não gostou nem um pouco de ser ignorado e mordeu com toda força a ponta do dedo de seu ex-dono, arrancando um ruído de dor e indignação do humano.

_ Mas que diabos...?!

Agora quem é o fraco? – o rato falou.

Espera aí... O rato... Falou?

Não, não era o rato. Nezumi mal conseguiu evitar o sorriso quando entendeu o que acontecia e, principalmente, enquanto reconhecia aquela voz. Imediatamente, ele pegou o ratinho com agilidade em suas mãos, tendo a completa certeza de que era um de seus ratos robôs. Todavia, estava enganado, pois realmente era um rato vivo, de carne e osso; e ao redor de seu pescoço havia um pequeno aparelho, e provavelmente de lá saíra o som.

A voz que lembrava e muito a do seu Shion.

_ Shion? – Nezumi questionou, sentindo-se estúpido por falar com o rato daquela forma, mas tentando averiguar se havia escuta no aparelho de reprodução.

Ninguém respondeu, então provavelmente era apenas um reprodutor de ondas de rádio. Mas o rato pareceu se agitar ao ouvir o nome de Shion.

_ Hamlet... É você mesmo? – ele perguntou ao bichinho, segurando-o na palma da mão e observando a forma como ele balançara a cabecinha de leve. Era Hamlet, com toda certeza! Somente os seus ratos treinados podiam agir daquela forma.

Ele ia instruir para que Hamlet o levasse até a pessoa que instalou aquele objeto em seu corpo, apesar de começar a achar que não era Shion. Era muito provável que ele estivesse ouvindo coisas, já que seu dia foi incrivelmente longo e exaustivo. Se ele forçasse a memória, ele lembrava que a voz de Shion era diferente, mais aguda e aquela que ouviu parecia até um pouco mais grave do que ele estava acostumado. Talvez, por causa do desespero, ele obviamente ele ligou qualquer contato humano com a existência de Shion.

O que uma pessoa procurando por esperanças não é capaz de fazer, não é?

De qualquer forma, antes que pudesse dar as instruções para Hamlet, o pequenino saltou de sua mão e fugiu para a direção oposta, escapulindo dentre seus pés.

_ Ei! Espera! – Nezumi gritou, procurando o rato novamente em seu campo de visão e se colocando de pé em um pulo. Ele correra alguns metros, mas agora o aguardava, em pé nas patas traseiras, como se quisesse...

...Como se quisesse que Nezumi o seguisse!

Oh. A ironia! Ele não fizera algo parecido com Shion há alguns anos?

A esperança renascia, cada vez mais forte. Nezumi nem se dera conta de quando começou a correr exatamente, seguindo o roedor como se não houvesse amanhã.

Por mais estranho que parecesse, o rato não o levou para fora da cidade. Ele acreditava que iria novamente avistar o horizonte belo do deserto próximo da No. 6, mas foi guiado para dentro das ruas do Distrito Oeste, fazendo um caminho que por ele era muito conhecido.

Afinal, era difícil esquecer o caminho de sua antiga moradia.


Don't look the answer from horizon,

It's closer than you think.

<>

Não olhe a resposta no horizonte,

Está mais próxima do que você imagina.


Parou de correr, praticamente derrapando, ao avistar Hamlet entrar no subterrâneo onde costumava morar. Respirou profundamente, tentando recobrar seu fôlego e aquietar seu coração. Entretanto, ele apenas estabilizou sua respiração; seu o coração acelerava cada vez mais.

Estava ansioso. Seja lá quem estivesse naquele lugar, poderia ajudá-lo com pistas a respeito do desaparecimento de Shion. E, no fundo, ainda tinha a esperança de que seria o próprio Shion o novo dono de Hamlet. As coincidências eram grandes demais!

Recobrando a coragem, Nezumi desceu cada degrau coberto pelo musgo com rapidez e agilidade, percorrendo o longo corredor ansiosamente. Ao chegar à porta de seu pequeno apartamento, levou a mão trêmula até a maçaneta, e com um ruído ensurdecedor abriu a porta. Ele admitia que estava com medo pela possibilidade de apenas encontrar mais um fantasma. Mas ao abrir a porta e ver aquela pessoa, toda a insegurança se dissipou, assim como o mundo ao seu redor.

Shion estava ali. De carne e ossos; o milagre mais real de todos!

O outro estava um pouco diferente, mas, é claro, o tempo passou. Os cabelos brancos estavam mais longos, amarrados em um rabo de cavalo curto e baixo, ligeiramente ondulados. A franja alva cobria sua testa e contrastava com o olhar escarlate, embora ainda houvesse certa infantilidade cintilando naquelas íris; os lábios finos curvados em um sorriso amplo e gentil, exatamente do jeito que ele lembrava que era. Shion estava de pé, mais alto do que Nezumi se lembrava, e, infelizmente, com a mesma altura que ele. Nezumi percebeu também que os ombros do outro ficaram um pouco mais largos, e que Shion também ganhou massa muscular com os anos.

Os anos passaram. E Shion continuava lindo.

_ Okaeri.¹ – Shion falou com animação, ainda parado no mesmo lugar, sua voz mais madura do que o mais velho recordava, mas ainda sim indistintamente sua. – Eu... Eu optei por te esperar.

_ Me esperar?

_ Hai... Todos foram para a No. 3, ela nos ofereceu asilo. Minha mãe, Inukashi, Hikiga e o bebê estão lá... Foram há dois anos e meio, mas eles vem as vezes me visitar, mas nunca ficam muito tempo, porque arranjaram emprego e...

_ Shion. – Nezumi o censurou, como tipicamente fazia quando o outro perdia a linha e falava sem parar.

E Shion sorriu e se calou, aguardando que Nezumi falasse algo, mas o outro apenas continuava a observá-lo com um olhar tão suave que parecia Eve, e não o Nezumi com quem ele se acostumou. Ainda assim, tê-lo ali lhe deixava tão feliz que Shion simplesmente não sabia como comportar aquela alegria dentro de si. Ele esperou tanto para que Nezumi voltasse! Sabia que o outro voltaria para ele, apenas não sabia quando, mas sempre teve essa certeza. E agora o outro estava ali, tão perto!

Por sua vez, Nezumi não conseguiu dizer nada, apenas observava o garoto lhe lançar aquele olhar esperançoso. Não importava que Shion tivesse o mesmo tamanho que ele: Shion sempre seria o seu garoto. Esse pensamento fez com que Nezumi sorrisse brandamente, sem nunca cortar o contato visual.

_ O que foi? – indagou Shion, um pouco desconfortável pelo comportamento diferente do comum.

_ Você cresceu. – o outro respondeu com a voz rouca, talvez um pouco decepcionado.

Demorou tanto tempo para voltar a si que perdeu a maturidade de Shion. Quantas outras coisas ele perdeu enquanto ficava insistindo em obter uma lógica sobre o impossível? E quantas outras coisas poderia ter descoberto ao lado de Shion? Era uma pena que tivesse perdido isso tudo, mas agora ele teria tempo para desfrutar da companhia do outro. Dessa vez, ele compensaria o tempo perdido.

Pego de surpresa, Shion piscou algumas vezes, tentando entender o que Nezumi queria dizer. Isso era algo ruim? Crescer? Não conseguia enxergar algo errado nisso. Às vezes a lógica de Nezumi lhe deixava completamente perdido, mas esse era o talento do outro; e também era algo que ele sentiu falta.

Além disso, Nezumi também tinha crescido consideravelmente, e não apenas em altura. Suas feições estavam mais adultas, um indício de barba por fazer aparecia em seu rosto, demonstrando que provavelmente viajara durante alguns dias e não tivera como conseguir uma lâmina de barbear. Seu rosto estava mais angular, seus olhos...

Seus olhos estavam iguais. Intensos, talvez ainda mais do que antes. E ainda assim estavam esplêndidos, como sempre. Era o seu Nezumi, afinal de contas. Não havia problema se ele crescera... Não havia problema mesmo!

_ Você também. – ele respondeu por fim, dando um passo a frente conjuntamente com Nezumi, hipnotizado pelos olhos acinzentados que há tanto tempo não via.

Pelo menos, não pessoalmente, porque aqueles olhos sempre estavam presentes nos seus sonhos. Todas as noites, seja nas mais solitárias ou mesmo quando as suas pessoas queridas vinham lhe visitar; não importava. Aqueles olhos sempre estiveram muito presentes em seus devaneios.

Shion tinha vontade de correr, de abraçá-lo, de agradecer com fervor por ele finalmente, finalmente, ter voltado. Tinha tantas perguntas para fazer, tantas coisas para contar... Mas não iria agir assim, não senhor!

Não queria que Nezumi ainda o visse como um garoto curioso e afobado, como uma criança. Ele não era mais criança! Ele estava longe disso e, definitivamente, não queria ser tratado como uma.

Depois de três anos de reflexão, acreditava que compreendera perfeitamente o que sentia por Nezumi. E não era um sentimento infantil. Era algo muito longe disso! Era um sentimento que latejava em seu peito, e crescia silenciosamente, alastrando-se pela sua mente e pelo seu corpo. Não era apenas um sentimento de gostar ou se importar com alguém, ele também sentia a urgência do toque, a necessidade de aproximação. Da mesma forma como ele ansiava as palavras de Nezumi, ele também ansiava o seu corpo; Shion o queria por completo. E, quando tudo isso se tornava demais, sua mente pregava peças e seus sonhos se modificavam para algo nada puritano.

Definitivamente, não era coisa de criança; talvez de adolescente, mas criança não.

Contudo, apesar de saber exatamente quem era e o que sentia por Nezumi, Shion não conseguia evitar a vergonha de finalmente estar junto a sua fonte de desejo; a pessoa que ele amava. A cada passo que dava, seu coração aumentava o ritmo de batidas cardíacas, ao ponto de machucá-lo; suas mãos suavam e seus olhos se focaram nos lábios que ele tanto desejava provar. Quando estava próximo do outro o suficiente para abraçá-lo, abaixou o olhar, sentindo seu rosto corar bastante.

Droga, ele vai tirar sarro de mim. – não pode deixar de pensar e fechando os olhos bem apertados, sentindo suas orelhas ficarem quentes.

No mesmo instante que fez isso, Shion sentiu os dedos gelados de Nezumi no seu queixo, forçando-o a erguer o rosto e a olhá-lo. Sem perceber, Shion tragou o ar e esqueceu como fazia para expirar, tamanha a intensidade nos olhos impenetráveis do outro. O olhar suave de Eve foi substituído pelo sarcástico de Nezumi, e isso o encheu de nostalgia assim como fazia com ele sentisse uma vontade quase irresistível de quebrar a distância entre seus rostos.

_ Mas existem coisas que não mudam, não é majestade? – murmurou Nezumi, tão próximo de seus lábios que Shion sentiu todo seu corpo se arrepiar.

Graças a Deus que existem coisas que não mudam...!

_ D-desculpe. – falou, apenas para manter o costume, abaixando o olhar mais uma vez e voltando a observar os lábios que tanto desejava tocar com os seus.

_ Tsk. Cabeça de vento...

Ainda mantendo os dedos firmes no queixo do outro, Nezumi viu os olhos de Shion se fecharem em uma rendição silenciosa, e delicadamente guiou o rosto do outro até o seu, fazendo seus lábios se tocarem em roçar suave. Dessa vez, felizmente, não era um beijo de despedida: era um beijo que marcava o retorno.

A rejeição não passou pela cabeça de nenhum deles; não havia mais dúvidas. Se um dia existiu algum receio quando eram mais novos, agora só existia a certeza que o sentimento era compartilhando por ambos. Não havia incertezas, nem naquele momento, nem no futuro; estariam juntos. E essa certeza era compartilhada em meio aquele beijo suave que trocavam, onde um reconhecia o outro como a razão para continuar. Seus corpos precisavam um do outro para se completarem, e aquele pequeno ósculo ainda não era tudo o que ansiavam; precisavam de mais.

O beijo, antes tão suave, um mero tocar dos lábios, foi aprofundado em uma leve sucção por Nezumi, enquanto Shion instintivamente se agarrava no pescoço do outro, puxando-o para ainda mais perto, criando coragem para invadir a boca do outro com sua língua e sendo imediatamente correspondido. Shion gemeu baixinho em meio ao ósculo, inalando perfume característico de Nezumi, enquanto sentia os pelos do rosto do outro roçar em sua pele, deixando-o completamente extasiado.

Nezumi se surpreendeu com o gesto de Shion e com o braço livre rodeou as costas do outro, apertando a cintura de Shion com suavidade, sentindo que o mais novo estremeceu em contentamento. Os pequenos sons que Shion produzia, abafados pelo beijo, estavam enervando os seus sentidos, quase enlouquecendo-o e guiando-o até uma felicidade tão irracional que Nezumi não sabia como demonstrar, exceto acariciando a cintura do mais novo por cima da camisa e beijando Shion ainda mais intensamente.

Em seguida, com a mão que segurava o queixo de Shion, Nezumi acariciou o pescoço do outro, até embrenhar seus dedos pelos cabelos e puxá-los levemente, até deixá-los livres do prendedor para poder segurar firme a nuca de Shion. Seus lábios não se separaram em nenhum momento e tudo o que ouviam eram os suaves ruídos estalados do beijo que trocavam.

Shion sentia-se levemente tonto, não conseguindo respirar direito, mas também não conseguindo criar coragem para se desvencilhar daquele beijo; porém era necessário. Com um último estalo úmido, ele apartou os lábios, sem deixar de acariciar a nuca de Nezumi, sentindo os fios sedosos do cabelo do outro sobre seus dedos. Ele inspirou profundamente e logo sentiu que o outro mordia seu lábio inferior, provocando-lhe um arrepio da base da coluna até sua nuca, fazendo-o suspirar manhosamente.

_ Tadaima.² – Nezumi murmurou, sem fôlego, mantendo sua testa unida a de Shion, procurando os olhos de rubi que tanto gostava.

Assim que aquele olhar rubro lhe encarou, Nezumi não pôde deixar de notar em como sentiu falta daquelas pedras preciosas... Shion era incrivelmente único! E, acima de tudo, era seu. Isso o deixava tão feliz que ele agora era incapaz de compreender como ficou tanto tempo longe do outro. Nezumi fechou os olhos, beijando Shion mais uma vez nos lábios, dessa vez impedindo que o outro aprofundasse o beijo, para que ele pudesse apreciar mais o pescoço alvo tão tentador.

_ Hum? – o outro respondeu, não compreendendo o cumprimento naquele momento, ainda perdido pelo sentimento de prazer deixado após o beijo e sem realmente querer que Nezumi parasse de beijar seu pescoço.

Era realmente muito difícil se concentrar em qualquer coisa que não fosse os lábios de Nezumi próximos ao seu ouvido, sua língua lambia a área com uma lentidão que, Shion tinha certeza, era proposital.

Mas ele estava curioso, queria entender o que o outro queria dizer com "Tadaima".

Shion se distanciou e observou incrédulo o olhar incrivelmente intenso e cúmplice que o outro lhe dava, cintilando em lágrimas não derramadas.

Shion gostava de chamar os olhos de Nezumi de "cor de mercúrio", e não era só pela sua paixão pela ciência. Nezumi tinha olhos de mercúrio mesmo: belos, fascinantes, únicos... E extremamente perigosos, tóxicos, mortais.

Mas repleto de lágrimas daquela forma, pareciam mais uma nuvem carregada, indicando o início de uma tempestade. Provavelmente era isso mesmo que acontecia no coração do seu amor: uma tempestade de sentimentos.

_ Tadaima.– repetiu Nezumi, controlando-se ao máximo para não chorar. Tinha uma reputação a zelar! Oras! – Agora sim estou em casa...

Shion sorriu, e também sentiu lágrimas se formarem em suas pálpebras. Mas para poupar Nezumi de um colapso mental pelo excesso de orgulho ferido, fechou os olhos, ainda mantendo o belo e recompensador repuxar de lábios à vista do moreno.

_ Então agora sim, Nezumi... – aproximou-se ainda mais dele, roçando seus lábios aos deliciosamente doces do mais velho. – Okaeri. – murmurou baixinho, antes de beijá-lo mais uma vez, decidindo se entregar por inteiro àquele sentimento.

E somente naquele instante Shion compreendeu: os anos podiam passar, a vida poderia mudar, até mesmos os sentimentos poderiam mudar, contudo existia algo imutável: a essência. Essa matéria vital que nascia, se transformava e eternamente viveria dentro de cada um. A essência nunca mudaria.

A prova disso é que Nezumi estava ali; Nezumi voltou para casa. Porque ele não era apenas o amor de Nezumi, mas também o lar do outro. A mesma lógica se aplicava a ele também, por isso que ele esperou por tanto tempo, tantos anos; e não se arrependia.

E não havia maior milagre do que aquele.


Years go by, oh how they go by.

<>

Os anos passam, oh como eles passam.


... Continua...


Notas finais:

¹ - Okaeri significa bem vindo ao lar. No Japão, há o costume de saudar assim quem volta para sua casa.

² - Tadaima seria o equivalente a estou de volta, é utilizado como uma resposta ao Okaeri, ou dito antes deste. Não importa a ordem. 

24 de Noviembre de 2018 a las 22:19 0 Reporte Insertar 0
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