Death of a Bachelor Seguir historia

donesattan Beni H.

Família. Substantivo feminino. Grupo de pessoas vivendo sob o mesmo teto? Grupo de pessoas com ancestralidade comum? Deserdada. Hinata Hyuuga finalmente está morta, e livre. Demitido. Sasuke Uchiha finalmente está morto, e livre. Esse é o momento em que eles aprendem que família não é só aquela com a qual você compartilha um laço sanguíneo, e que, no momento em que essa lhe virar as costas, haverão pessoas para lhe segurar antes de cair. Amigos. A família que você escolheu, e que vai lhe apoiar em todos os momentos de dificuldade. A família que irá ajudar a matar Hinata e Sasuke. E, assim que seus caminhos se cruzam, haverá mais uma morte. Mas eles nunca foram de fazer velórios, de qualquer forma.


Fanfiction Anime/Manga Sólo para mayores de 18.

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Impossible Year

Impossible Year

Não há luz do sol

Este ano impossível

 

Hinata

 

Deserdada. Eu não podia estar mais surpresa.

O que é uma mentira do caralho, já que eu estava ciente de que seria deserdada no momento em que pus os pés naquele avião. Eu só não esperava que fosse acontecer tão cedo. Depois de um ano de merda, agora isso estava realmente acontecendo.

Hyuuga Hinata teria que morrer.

Ino tentou me consolar enquanto colocávamos nossas malas no novo apartamento, mas nada me fazia diminuir a raiva que eu sentia naquele momento.

.

Desde sempre eu andei na linha.

Eu fui uma boa menina e tomei conta da minha irmã mais nova, Hanabi, desde que minha mãe havia falecido, após dar à luz a ela. Abri mão de uma vida normal para me tornar uma mãe precoce para Hanabi, quando eu era sequer uma adolescente, já que meu pai estava muito ocupado com a porra do seu escritório de advocacia para dar atenção para sua filha recém nascida.

Senti falta da minha mãe todos os dias.

Os criados da casa tinham pena de mim, e isso era visível toda vez que eu saia de casa correndo pela manhã, atrasada para a escola, com a roupa amarrotada e o rosto cansado por ter passado a noite em claro.

Quando eu já estava na sexta série, Neji veio morar conosco, após seus pais morrerem em um acidente.

Eu me senti triste por ele, mas, saber que haveria alguém que tinha uma idade aproximada a minha naquela casa, para que eu não me sentisse sozinha enquanto cuidava de Hanabi foi uma das melhores notícias que já recebi.

Me lembro que chorei no quarto de Hanabi durante toda a noite anterior a chegada dele, em expectativa.

Quando ele chegou, não foi exatamente como eu pensei que seria. E eu me senti frustrada por ter colocado expectativas que não foram cumpridas quando me deparei com ele. Digo isso pois Neji não era uma pessoa fácil de conviver, e era três anos mais velho que eu.

Era um garoto escorregadio e grosso, que se esquivava de conversas e que não perdia uma oportunidade de me olhar com um rosto que dizia simplesmente que eu era uma coitada e ele era melhor do que eu.

Bastardo idiota.

E ainda era bonito. E isso era uma puta injustiça com o resto do planeta Terra porque eu, na sexta série, como uma garota que ficava presa em casa dia e noite, não tinha contato com muitos garotos, e um rapaz bonito obviamente despertava em mim pensamentos contraditórios, como querer passar a mão em seu cabelo sedoso ao mesmo tempo que eu também queria enfiar sua cara no asfalto e pisar em cima.

Essa relação estranha e sufocante entre nós dois durou por dois anos, até que eu entrasse na oitava série e Hanabi já estivesse maiorzinha. Neji, depois de muito trabalho da minha parte, amoleceu seu coração para nós duas. Lembro de chorar enquanto ele me abraçava, me dizendo ter chego ao cúmulo de indignação pela falta de atenção que Hiashi nos dava, e passou a tomar conta de nós duas.

Eu tinha pesadelos e ele ia até meu quarto, deitava comigo e me acalentava até que eu dormisse, sem me preocupar com outro pesadelo.

Eu admito que me apaixonei por ele depois, aos treze anos de idade. Mas, como sabia que ele, aos seus dezesseis anos, nunca retribuiria meu sentimento, eu permaneci como sua priminha mais nova, sua amiga, e isso já era o bastante vindo de Neji.

Ele me levava aos lugares com Hanabi, sempre cercado de amigos, que eram legais e gentis comigo e com ela, e assim fiz minha primeira amiga: Temari, irmã mais velha de Gaara, que era um dos melhores amigos de Neji.

Na escola meu relacionamento com as pessoas começou a melhorar, e Temari me apresentou outras pessoas, da minha idade, com quem eu pudesse conversar, sair, e viver um pouco. E foi quando conheci Ino, que mais tarde se tornaria minha melhor amiga, e ficou mais evidente para todos que, depois de viver como uma adulta antes do tempo, eu estava finalmente sendo uma adolescente.

Ela me levava a festas, enquanto sua mãe ficava cuidando de Hanabi, e em um ano nós viajamos para mais praias japonesas do que posso me recordar, sempre acobertadas por seus pais, que eram pessoas incríveis e sempre apoiaram nossa amizade.

Assim que entrei no colegial e Hanabi ja estava perto do Segundo Fundamental, Neji se formou no último ano e nos deixou. Foi seguir o sonho de se tornar médico nos Estados Unidos e, junto com o grupo de amigos que eu já considerava família, foram para o país americano, me deixando no Japão, apavorada com a ideia de voltar para aquela rotina que eu tinha na sexta série.

Mas Ino não deixou que isso acontecesse e prometeu que, mesmo sem Temari e os meninos, nós ainda podíamos fazer amigos e juntar nosso dinheirinho para encontrá-los na América quando acabássemos a escola. Eu concordei, e fizemos um pacto de sempre estarmos juntas. Após esse pacto, em um rompante de bondade, Ino nos inscreveu em aulas de teatro.

— Para que você aprenda a não ser tão tímida e se permita mais. — ela disse, me abraçando enquanto entrávamos no prédio.

Lá conhecemos Karin e Sakura, e foi quando eu percebi minha verdadeira paixão. Atuar.

E também quando tudo começou a desmoronar.

 

Apenas dias negros e céu cinzento

E nuvens cheias de medo

 

Assim que Hiashi percebeu que eu finalmente estava crescendo, e quando viu que eu havia começado aulas de teatro, meu mundo virou de cabeça para baixo e não foi no bom sentido.

Para meu pai, machista incorrigível e, infelizmente, orgulhoso disso, uma filha sua não poderia fazer teatro, já que era algo que mulheres fáceis e putas fazem.

Hipócrita. Hiashi, o senhor é hipócrita, já que é um dos maiores entusiastas de assistir a mulheres como Scarlett Johansson tirando a roupa em uma tela grande.

Foi a primeira de muitas vezes que liguei desesperada para Neji assim que Hiashi começou a gritar e a bater na porta do quarto como se fosse quebrá-la.

Hanabi estava agarrada a mim, chorando, e Neji me atendeu e escutou a gritaria que meu pai estava causando em casa, se culpando por ter ido embora e nos deixado ali.

Ele fez o que pode e ligou para Hiashi assim que as coisas estavam mais calmas, conversando com ele e intercedendo por mim, dizendo que o teatro seria só um hobby e que servia para me deixar menos tímida, como uma terapia.

Obviamente, depois de conversar com um homem, Hiashi me permitiu fazer teatro desde que isso não afetasse minhas notas, já que eu estava perto de escolher o que queria fazer da vida.

Mal sabia ele que teatro já era o que eu queria fazer da vida.

Permaneci com notas impecáveis e, com a ajuda de Ino e das meninas, consegui um emprego de meio período na lanchonete que ficava em frente a floricultura da família Yamanaka, onde minha amiga ajudava diariamente.

Juntava o dinheiro do meu salário e aos fins de semana ia para as aulas de teatro com Ino, ambas animadas demais por conseguir pagar por nosso próprio curso, embora nossos pais tecnicamente tivessem condições de fazer isso.

Era um sentimento nosso, aquele de ser independente e estar arcando com algo que nos faria bem.

Mesmo que, ao chegar em casa diariamente, toda a felicidade acabasse.

Hiashi continuou a beber e ser o macho alfa de sempre, por isso cada vez menos eu passava as noites em casa e, se possível, levava Hanabi comigo para onde quer que fosse.

As brigas em casa eram frequentes e, com o tempo, passei a aprender como ignorá-lo de forma que suas palavras duras não me atingiam mais.

Três anos. Foi o tempo que levou para que o inferno recomeçasse.

Eu finalmente me formei na escola e Hanabi já estava acabando o Segundo Fundamental. havia ido muito bem nas apresentações do grupo teatral e, ao contrário de Ino, que fazia o teatro por diversão, eu já havia pego os papéis para cortar algumas matérias da faculdade de artes cênicas, reduzindo-a de quatro para apenas dois anos.

Neji ia chegar em duas semanas para passar um tempo conosco antes das aulas voltarem, e eu planejava dizer ao meu pai o que havia decidido fazer da minha vida.

Minha conta bancária, a qual abri sozinha no início do ensino médio, estava bem abastecida, e eu já tinha traçado todos os planos e as maneiras de contar que eu iria terminar o curso de teatro em uma faculdade nos Estados Unidos, bem próxima de Neji. Todas as minhas amigas já se preparavam para contar a seus pais que também sairiam do Japão para irem fazer suas respectivas faculdades na América, então aquelas duas semanas foram pura ansiedade, já que eu, quase com dezessete anos, ia finalmente me ver livre daquela casa.

Assim que vi Neji desembarcar ao lado de uma morena muito bonita, a qual ele me dissera se chamar Tenten, logo antes de colocá-la no telefone para falar comigo, não me aguentei de felicidade e pulei nos braços de ambos, os abraçando e chorando de ansiedade do jantar que teríamos aquela noite.

Ver meu primo feliz com uma namorada despertou em mim uma pequena dor em meu íntimo, mas nada se comparava a felicidade de vê-lo apaixonado e feliz, por isso nao pude sentir nada mais ou menos do que carinho e gratidão por Tenten, que parecia uma pessoa ótima.

Eu havia preparado um banquete enorme para aquela ocasião, e inclusive havia chamado Ino e seus pais para estarem conosco, pois eles também sentiam a falta de Neji. O jantar, que começara tão bem, com brincadeiras de todos com as novas manias que o jovem Hyuuga e sua namorada haviam adquirido em três anos longe e perguntas sobre todos os nossos amigos que ficariam as festas de fim de ano fora do Japão, desmoronou assim que eu e Ino começamos a contar nossos planos, animadas e ansiosas para que todos ficassem tão animados quanto nós ficamos.

A maioria ficou, com exceção de uma pessoa: Hiashi Hyuuga.

 

E tempestades cheias de tristeza

Que não desaparecem

 

— Mas que porra e essa que vocês estão me falando? — O rosto de Hiashi ficou vermelho, em cólera, enquanto ele falava, e, tanto eu como Ino, nos calamos, espantadas demais com sua reação.

O Senhor Inochi colocou o guardanapo no prato com uma calma mortal, ultrajado pelo linguajar de Hiashi ao se dirigir a sua filha e a mim.

— Pai… — Hanabi sussurrou, desconfortável, tentando fazer com que ele se controlasse na frente das visitas.

Olho de Tenten para o senhor e senhora Yamanaka, e finalmente para Ino e depois Neji, meu rosto ficando vermelho e a garganta fechando, com vontade de chorar, pela vergonha que aquele homem estava me fazendo passar.

Maldito Hiashi.

— Hiashi — iniciou o pai de Ino —, peço que modere seu linguajar na frente dos jovens. Elas estão educadamente compartilhando seus planos de estudarem no exterior, eu não vejo como isso pode ser r-

— Minha filha não irá para lugar nenhum ser uma puta!

Tenten tomou um susto com a voz alta e ameaçadora de meu pai, e segurou a mão de Neji com força, para que ele não levantasse e socasse o tio ali mesmo.

— Senhor Hiashi, eu não vejo motivo para dizer isso, ela só falou sobre fazer a faculdade de teatro e-

— Isso e um assunto de família, garota, então não se meta. Hinata não vai sair daqui para tirar a roupa em qualquer que seja essas escolinhas onde mulheres fáceis dizem que trabalham, e ponto final. Ela tem que fazer uma faculdade decente antes que eu-

— Já chega! — gritaram Inochi e Neji em uníssono, e meu primo se levantou, batendo o punho na mesa, ao mesmo tempo que segurei as mãos de Hanabi na minha e disse, com a voz alta e firme.

— Eu vou, e não há nada que você possa fazer. — Todos pararam suas ações na hora e me encararam, abismados, como se eu fosse muda até meia hora atrás — Essa e a minha vida e você não pode continuar bagunçando ela! Eu fui uma boa menina até agora e eu só recebi desprezo do senhor, e agora eu vou viver a, como eu já disse, minha vida. Nós vamos sair daqui.

Eu já estava pronta para me levantar, quando sua risada ferina me fez congelar no lugar, antes que ele se levantasse e pegasse o prato vazio, o atirando no chão ao meu lado.

— Acho bom você começar a limpar essa sujeira, porque você não vai a lugar nenhum. — Abro a boca para retrucar e ele me impede com um gesto rápido, fazendo menção a me dar um tapa no rosto, fazendo com que eu me encolhesse — Você pode se achar muito esperta, mas esquece que não pode levar Hanabi daqui sem minha autorização. E eu não autorizo. Você vai, mas assim que sair, vai ter que esquecer que tem uma irmã e o que eu fizer da vida dela a partir daí é de culpa inteiramente sua.

A senhora Yamanaka guinchou de indignação e se levantou, erguendo o dedo em riste para o meu pai, o rosto vermelho e trêmulo antes de falar:

— Eu vou processar você por ameaçar as pobres meninas desse jeito e-

— Senhora Yamanaka, obrigada… — Hanabi a interrompeu, se levantando e indo até ela, abaixando seu braço e balançando a cabeça em negativa enquanto eu me abaixava para os cacos de porcelana dos pratos.

— Acho melhor nos vermos depois. — digo, quase em um sussurro, negando também quando vejo qualquer um deles tentar protestar, e vejo o Inochi se retirar enfurecido, com Ino e sua mulher em seu encalço.

— O que significa isso? — Neji foi enfático, seu maxilar travado, com aparente raiva.

Meu pai nada disse e saiu do cômodo com um sorriso triunfante.

Claro, ele teria o que tanto queria.

Neji quis brigar, quis se juntar aos Yamanaka e processar Hiashi, nos emancipar, deixar-nos longe do domínio dele, mas eu sabia que isso só iria causar mais complicações para mim e Hanabi, então os impedi de fazer o que quer que fosse para prejudicar o Hyuuga mais velho. Ele não era só dono de um dos maiores escritórios de advocacia da Ásia, como também era um dos homens mais influentes no continente. Ele poderia simplesmente acabar com a família Yamanaka, e levar Neji e Tenten junto.

Eu só queria que eles ficassem fora de perigo, e fiz como Hiashi desejava.

Mandei Neji e a namorada voltarem para os EUA o mais rápido que pude e, mesmo com o coração na mão, meu primo concordou em ir. Convenci as meninas a irem fazer seus cursos sem mim, e apenas Ino ficou, alegando que nosso pacto não permitia que ela me deixasse e dizendo que podia muito bem começar o curso de botânica ali e terminar em alguns anos em outro país, e que assim ficaria mais perto de seus pais.

Eu sabia que ela estava com medo de nos deixar sozinha com meu pai e isso me fez chorar em seu colo. Chorar de felicidade por ter alguém que se preocupe tanto comigo a ponto de mudar a rota de seus sonhos para não me deixar só.

Eu amava Ino como uma irmã.

Fiquei em Osaka, e me matriculei na faculdade de administração, embora continuasse a fazer teatro escondida, com a ajuda de Hanabi, que agora era uma jovem animada e de personalidade forte, e da família Yamanaka, que me acolhia como uma filha para eles.

Em dois anos eu, finalmente, aos dezoito anos, me formei atriz, e Neji veio com Tenten para acompanhar Hanabi, Ino e sua família à minha formatura, da qual Hiashi sequer ficou sabendo.

Depois de me formar, passei a fazer peças de teatro locais sem o conhecimento de meu pai, enquanto passava pelo meu terceiro ano de uma faculdade que eu não queria fazer. Eu comecei a ganhar bem e a guardar dinheiro para mim, ainda sem que Hiashi soubesse.

Ino, que havia conseguido dobrar o tamanho da floricultura de seus pais, havia se tornado minha agente, e escolhia a dedo o que eu poderia ou não fazer para que minha carreira em ascensão em Osaka não fosse ameaçada por meu pai. Neji e Hanabi eram os únicos que, além de minha agente e melhor amiga, sabiam do meu sucesso, e comemoravam o fato de que minha atuação já era elogiada por críticos estrangeiros que iam ao Japão, apostando em mim como a nova promessa da Ásia nos palcos e no cinema.

Mas o sossego durou pouco. Visto que o sobrenome Hyuuga era bem conhecido por todo o país, mesmo que eu fizesse o possível e o impossível para não usá-lo e permanecer invisível, tudo foi por água abaixo quando eu fui confirmada no elenco de um filme americano e, infelizmente cedo demais, Hiashi descobriu sobre isso, e ainda ficou sabendo que Ino e Neji estavam me ajudando a conseguir ainda mais filmes estrangeiros.

Foi a briga mais séria que tivemos.

Ele estava transtornado, obviamente tomou o controle de minha “carreira” e a encerrou publicamente, dizendo que eu não faria mais filmes ou qualquer produto de atuação, incluindo comerciais. Anunciou ainda que em um ano, assim que eu terminasse a faculdade, ele ia me passar a administração de um de seus escritórios, e que eu ficaria ali em Osaka.

Para sempre.

 

Apenas tufões e monções

Este ano impossível


 

Foi o ano mais longo da minha vida, no qual eu acalmava Neji, que queria me tirar do Japão a todo momento, e consolava Hanabi, que estava com quase dezesseis anos, e tinha medo de ser mandada a um internato. Passei a trabalhar como estagiária no escritório Hyuuga do qual eu seria dona e, com o bom salário, fui morar com Ino, em uma casa vizinha a minha antiga, para que pudesse estar com Hanabi o tempo todo, e era infeliz.

Aos poucos, os tablóides foram esquecendo o escândalo da estrela em ascensão que teve a carreira destruída pelo pai, as pessoas pararam de me procurar e eu não podia atuar mais. Estava acabada.

Eu tinha que fazer algo.

E fiz. Eu não continuaria sendo a boa menina que ele queria que eu fosse, então me levantei e, com a ajuda de Ino e Hanabi, comecei a entrar com um processo de emancipação de minha irmã mais nova, enquanto a mesma arrumava um emprego, pronta para juntar seu dinheiro e me ajudar.

Entrei em contato com Neji e pedi ajuda para morar nos EUA com um visto de trabalho ou estudo, e ele me ajudou, vendo um apartamento para que eu dividisse com Ino e Hanabi, e arrumando um estágio para mim na parte administrativa do hospital em que ele estava fazendo residência.

Ino arrumou por si só uma vaga para cuidar de algumas estufas na faculdade para a qual ela transferiu sua matrícula, devolveu a casa que havíamos alugado, e voltou a morar com os pais, e eu com o meu. Todos sabiam o que estava para acontecer, menos Hiashi.

Parece fácil falando agora, mas esse processo todo durou meses e mais meses, nos quais estávamos correndo no Japão, e Neji estava correndo com Tenten nos EUA, para que pudesse dar tudo certo.

Assim que o processo de emancipação de Hanabi foi concluído, pouco antes de meu aniversário de vinte e um anos, eu peguei minhas coisas e apenas joguei aos pés de Hiashi os papéis que anunciavam que não devíamos mais nada a ele, enquanto Hanabi levava as malas para fora.

Ele me olhou nos olhos e disse que, a partir do momento que saíssemos, eu estava totalmente deserdada e jogada no mundo como uma filha de ninguém, um alguém sem sobrenome e família.

E eu gentilmente o anunciei que, se ele quisesse arrancar o nome Hyuuga de mim, eu ficaria muito feliz em usar o sobrenome Yamanaka. E que não me importava com o que ele iria fazer com o dinheiro. Tudo isso antes de olhar em seu rosto deformado pelo ódio e passar pela porta, entrar no carro do senhor Inochi, e ir em direção ao aeroporto.

Assim que chegamos, tive que me despedir de uma Hanabi que, chorosa, me contou que entraria no avião com destino a França e iria seguir seu sonho de estudar moda em Paris. Depois disso, dei uma última olhava para o senhor Yamanaka antes de abraçá-lo e entrar no avião para os EUA, acompanhada de Ino.

.

Dadas as explicações, pode ser difícil de acreditar que eu estou nervosa por ter sido deserdada, mas eu tenho uma boa razão. Assim que o avião em que eu e Ino estávamos, horas depois, estava para pousar, recebi a ligação de Hiashi, me informando que eu não teria mais direito a nada quando ele morresse, e que ele arrumaria um herdeiro homem, adotando um jovem universitário de direito, para que ele pudesse ficar com tudo que era da família Hyuuga.

E eu estaria bem com isso se ele não tivesse tomado posse do inventário de minha mãe e fosse privar a mim, e a Hanabi, de receber o que ela lutou a vida inteira para nos deixar. Tudo que mamãe havia conquistado agora fazia parte de uma porra de montante de dinheiro idiota que Hiashi daria para qualquer estúpido que quisesse enriquecer facilmente, enquanto eu e Hanabi não teríamos mais direito a nada que nossa mãe havia deixado.

— Hina, nós podemos recorrer a essa decisão, você sabe. — Neji diz, passando as mãos por meus cabelos enquanto Tenten se senta ao meu lado e me oferece uma xicara de café, a qual seguro com a mão esquerda — E você não precisa do dinheiro dele, nem de nada dele. Nós estamos aqui, e você conseguiu.

— Você sabe que, pra mim, você sempre será uma Yamanaka, como eu. — Ino sorri gentilmente enquanto segura minha mão livre, e sorrio de volta, tomando um gole do café antes de respirar fundo e limpar o rosto que estava cheio de lágrimas secas.

— Obrigada. Vocês são incríveis mesmo. — Sorrio novamente e tomo mais um gole de café — Eu só acho melhor não contar para Hanabi por enquanto.

Todos assentem, e termino minha bebida, me levantando e respirando fundo, antes de amarrar meus cabelos com um elástico e estalar os dedos. Preciso me distrair e nada melhor do que uma faxina.

— Vamos arrumar esse apartamento bagunçado, então?  — Tenten começa a rir e nega com a cabeça, vindo até mim e jogando o braço por cima de meus ombros.

— Pode esquecer essas caixas e ir direto para o banheiro tomar uma ducha. — Encaro Neji com a sobrancelha arqueada e ele apenas cruza os braços e dá de ombros, como se desse a entender que quem manda e a Tenten.

Isso era bem claro já.

— Vamos, tem muita gente que não te vê a anos e quer te reencontrar! — Abro a boca para reclamar e dizer que estava cansada demais para festas, mas Ino não me deixa sequer falar e me empurra na direção do banheiro do apartamento.

Sorrio, erguendo as mãos em rendição e indo por conta própria tomar o banho. Seria bom reencontrar todas as pessoas boas que passaram pela minha vida no Japão e vieram. Eles sempre me mandavam mensagens e sentiam minha falta, como eu sentia a deles.

Entro no banheiro e tiro a roupa, ainda ouvindo as risadas de Ino e Tenten na sala, enquanto ouvia Neji dizer que iria pedir uma pizza para comermos antes de irmos encontrar os outros. Sorrio enquanto fecho os olhos ao sentir a água quente caindo em meu corpo, finalmente deixando a frustração dar lugar ao alívio.

Eu havia conseguido. Finalmente estava longe de Hiashi, e havia tirado minha irmã de perto dele também. Eu agora seria independente e tomaria as rédeas da minha vida.

E, embora eu ainda estivesse zangada com as atitudes de Hiashi, eu percebi que, pela primeira vez, depois de um ano horrível, eu poderia começar a viver.

Então talvez não fosse tão ruim assim ter sido deserdada, certo?

 

Não há bons momentos

Este ano impossível

 

Sasuke

 

Demitido. Eu não podia estar mais feliz.

E ao mesmo tempo não podia ter sido mais humilhado. Depois de ter aberto mão de minha vocação, de minha felicidade, e de meu sonho, para usar a porra de uma gravata e fazer umas reuniões com velhos inúteis sobre negócios e números, eu estava demitido.

E o pior, meu chefe, que eu chamo carinhosamente de pai, quando não o chamo de demônio, não fez nem questão de esconder seu contentamento em confirmar que eu era o fracasso administrativo que ele previra, no momento em que ele me demitiu.

Eu espero que ele se lembre que eu tenho direito a arrancar dele a porra de uma boa quantia por todos os anos de serviço naquela empresa de merda.

Eu vou aproveitar até o último centavo que eu puder tirar dele, desde a homologação, até todo o resto.

Sasuke Uchiha estava finalmente morto para Fugaku. E para mim também.

.

Desde pequeno segui os passos de meu irmão mais velho, Itachi, que sempre foi considerado o gênio da família Uchiha.

Mesmo sendo japonês, morei desde sempre nos Estados unidos, lugar onde meu pai estabeleceu sua sede, bem antes que eu nascesse.

Entrei nas mesmas escolas, com os mesmos professores, mas mesmo assim não conseguia bater as notas que Itachi atingia sete anos antes. Meu pai me dizia que eu devia ser mais como ele, que meu irmão era um gênio e que esse era o destino dos Uchiha.

Sempre meu pai. Fugaku Uchiha era dono de uma das maiores redes de bancos do mundo. Isso mesmo, do mundo, portanto eu deveria ser perfeito, já que todos os olhos estavam em mim e no meu irmão, que felizmente nascera um gênio dos negócios.

O que era ruim para mim, já que o esporte favorito do meu velho era comparar os dois filhos. Não era culpa de Itachi, ele sempre foi um irmão incrível, e sempre me apoiou e me defendeu quando pôde, mas ele não podia evitar ser apaixonado por números desde que nasceu.

A primeira vez que me destaquei em algo na escola foi aos nove anos, quando pintei, sozinho, um quadro de tinta a óleo que mostrava perfeitamente as cerejeiras no nosso quintal. Todos os professores de artes, e alguns coordenadores, chamaram meus pais para anunciar que colocariam a pintura em exposição, e que eu era um prodígio das artes e tinha um olho incrível e muita sensibilidade.

Nos olhos de minha mãe, Mikoto Uchiha, renomada escultora que ganhara vários prêmios ao longo da carreira, era possível ver o orgulho de quem viu o filho herdar seus dons. Já nos olhos de meu pai, a raiva se tornou ódio no momento em que ele, com a calma de uma víbora, se levantou, passou por mim, pegou a pintura das mãos de meus professores e a destruiu na frente de todos.

O espanto foi geral e Itachi, que estava de pé próximo a porta da coordenação até o momento, veio em minha direção e segurou minha mão, me tirando dali enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas.

Não sei o que aconteceu na sala depois que saí, de mãos dadas com meu irmão, que me guiava por corredores vazios na escola, até que chegássemos ao pátio, onde ele me fez sentar em uma das mesas e sorriu para mim, batendo de leve com os dedos em minha testa, enquanto dizia:

— Sasuke, sua pintura estava incrível, você sabe disso, não é mesmo? — Consegui dar um sorriso mínimo e assenti com a cabeça.

— Mas o papai não gostou. — sussurro, e ele me abraça, suspirando.

— Papai não entende muito de artes, você sabe. — Rio baixo e ele continua — Você tem uma alma muito sensível Sasuke, e espero que não perca isso.

Assenti e retribui o abraço, correndo de volta para minha sala, animado novamente.

Naquela noite a gritaria em casa me dizia que, o que quer que eu tivesse feito de errado ao pintar aquele quadro, não havia sido resolvido na sala da coordenadora.

— Você não tinha o direito de estragar o trabalho de Sasuke! Estava maravilhoso. — Minha mãe gritava do quarto dos dois — Qual o problema se o garoto tem um olhar sensível para pintura?

— Foda-se o olhar sensível dele. Eu estou criando Itachi e Sasuke para assumirem o banco quando eu me for, e eu não preciso de um maricas que nem profissão tem no comando do meu banco. — O som de um porta-retratos se quebrando no chão me assustou e me encolhi mais ainda no canto do meu quarto, que ficava bem ao lado do deles.

— O que quer dizer com não ter profissão? Eu sou uma artista, e adoraria que Sasuke fosse também.

— Ora, por favor Mikoto, você só é uma “artista”, como diz, porque não precisa se preocupar em pagar pela educação dos nossos filhos e-

O tapa que minha mãe deu em Fugaku foi estrondoso, e no mesmo instante Itachi veio até minha porta e entrou, me abraçando com força para que eu parasse de chorar.

A briga ainda durou um bom tempo, no qual Itachi e eu ficamos sussurrando baixinho coisas aleatórias que tirassem nossa mente dos gritos no quarto ao lado.

Ele me confortou e disse para eu não me importar com o que Fugaku dizia, e eu juro que tentei, e passaria boa parte da minha vida ainda tentando.

Naquele dia, o casamento dos meus pais começou a ruir, e eu comecei a aprender que eu deveria ser o que queriam que eu fosse.

 

Apenas um litoral de ressentimento

E uma costa que não está clara

 

Aos dez anos, vi meus pais se separarem e, por mais egoísta que isso possa soar, eu agradeci muito que isso tivesse acontecido. Eu odiava as brigas que me impediam de dormir, e odiava como eles faziam com que eu sentisse que a culpa era minha, mesmo que minha mãe nunca dissesse isso em voz alta, ao contrário do meu pai.

A matriarca da família Uchiha providenciou sua saída da casa de maneira discreta, e tanto ela quanto Fugaku encerraram os boatos de que ele havia a traído, dizendo apenas que havia sido uma separação amigável. O que foi obviamente uma mentira, já que o rancor de meu pai por estar sendo deixado por sua mulher quase o fez partir para o litígio e tentar deixar Mikoto sem nada.

Por sorte o bom-senso prevaleceu e ela se foi sem grandes problemas.

Eu passava duas semanas em cada casa, já que as duas não eram muito distantes, e na verdade eu preferia passar mais tempo na casa de minha mãe, mas isso era inviável, devido aos acordos que ela fez com Fugaku. O motivo da preferência pela casa da minha mãe era que, como uma artista, sua casa era cheia de vida, toda decorada por ela mesma, e cheia de apetrechos de esculturas, pinturas, fotografias, entre outras manifestações de arte.

Assim que entrei com Itachi em sua casa pela primeira vez, meu coração se aqueceu com a visão. Ela, logo percebendo meu interesse, sorriu e me deu meu primeiro cavalete, para que sempre que eu estivesse em sua casa, eu pudesse treinar. Em pouco tempo, mexendo em suas câmeras, descobri que gostava de fotografar elementos e paisagens e, só então, pintá-los, para depois fazer um comparativo entre meus dois olhares de um mesmo lugar.

Itachi, escondido de meu pai, me comprou minha primeira câmera. Seria a primeira de muitas que eu iria possuir ao longo da minha vida.

Em contrapartida, na casa de meu pai, eu aprendi a ser outra pessoa. Aprendi a agir como se minha sensibilidade tivesse sido assassinada por seus ensinamentos, me tornei uma pessoa reclusa e seria assim sempre que ele estivesse presente. Estudava noite e dia para conseguir sempre as melhores notas, as melhores colocações, sempre vencer, vencer, vencer.

Com medo de que meu pai descobrisse que eu ainda me interessava por artes, e que ainda pintava, passei a me comportar de maneira fechada, sem amigos ou pessoas com quem eu pudesse conversar, além de Itachi, claro.

Com a ajuda de minha mãe, aos quinze anos passei a fotografar por dinheiro, mantendo meu nome em segredo, e passei a montar um portfólio imenso com fotos e pinturas, que ficavam guardadas no ateliê que ela construíra para mim em sua casa. Na mesma época, comecei um estágio administrativo nos bancos de meu pai, e Itachi, já com vinte e dois anos, estava agora na gerência desse mesmo banco. Ele era incrível, e me ajudava no que eu não entendia direito, além de me defender sempre que eu dava uma opinião que não agradava Fugaku.

Meus dezessete anos chegaram e, após me formar na escola, logo ingressei na faculdade de gestão de empresas, por ordens paternas, e pedi a minha mãe que não as contestasse, jurando a ela que continuaria a fotografar e a pintar, mesmo que só tivesse tempo para isso nos finais de semana.

E foi o que fiz. No primeiro ano de faculdade, mantive boas notas, o suficiente para me manter entre os melhores, mantive meu estágio no banco Uchiha, gerenciado por Itachi, e nos fins de semana ficava viajando para fotografar e pintar. Foi cansativo e eu chegava ao limite da exaustão, mas ao fim do primeiro ano, minhas obras foram selecionadas para uma grande exposição na mesma galeria onde minha mãe havia começado sua carreira.

Eu ainda assinava minhas obras com uma identidade anônima, e estava animado com a possibilidade de, aos dezoito anos, ter uma exposição minha, na qual eu revelaria meu nome para o mundo, e provaria para Fugaku que eu tinha sim um ótimo futuro como artista, e não precisava de um emprego em uma empresa, engravatado, para isso.

Feliz comigo mesmo, entreguei os convites para meu pai e Itachi que, orgulhoso de seu irmão mais novo, me abraçou com vontade e disse que iria convidar todos seus amigos para conhecerem seu caçula artista. Já meu pai, não disse uma palavra e pegou o ingresso, indo se recolher.

No dia da exposição, meu coração não cabia em meu peito de tão acelerado, e eu estava com um terno azul marinho, com os botões das mangas abertos, sem gravata, e a camisa solta, para ser o menos formal possível com aqueles trajes, como eu gostava. Minha mãe me apresentava a todos, orgulhosa por eu finalmente assumir a autoria das obras, e meu irmão realmente apareceu com seus amigos, fossem eles empresários ou não, orgulhoso, mostrando toda a galeria que estava inundada com telas partidas ao meio, de um lado uma fotografia minha, e de outro uma pintura do mesmo lugar ou objeto.

Eu esperei a noite inteira para que o patriarca Uchiha saísse de seu pedestal e viesse me prestigiar, e quando, no meio do meu discurso de agradecimento, ele entrou pela porta da galeria, meu coração deu um salto no peito, me fazendo sorrir de verdade pela primeira vez naquela noite.

Mero engano meu. Percebi que havia sido arrastado para uma armadilha no momento em que, atrás dele, entraram dois acionistas dos bancos Uchiha, seguidos por diversos jornalistas, todos munidos de câmeras, com flashes e microfones, prontos para ouvir o que aconteceria a seguir.

Minha garganta secou e pigarreei, pronto para falar, quando Fugaku tomou a palavra e os holofotes para ele, e fez o que foi ali fazer.

Me humilhar.

Ele passeou com os jornalistas pela galeria, expondo minha sensibilidade excessiva em cada obra, brincando com minha “fase artista medíocre”, como ele mesmo descreveu, que acabaria assim que eu assumisse uma das agências dele. Fez pouco caso do dom herdado de minha mãe, que para ele deveria ter dormido com algum dono de galeria para que deixassem expor meus quadros, mesmo eles sendo tão ridículos.

Até Itachi foi insultado por compactuar com aquela ideia absurda que eu havia tido, visto que ele havia comprado diversos materiais para mim, de presente.

E depois ele saiu, como se nada tivesse acontecido, deixando a galeria em silêncio, e engoli em seco, me desculpando por todos e encerrando a exposição mais cedo, antes que meu queixo começasse a tremer e eu precisasse me esconder de todas aquelas pessoas para chorar.

 

Todos os convidados na festa

Eles são tão insinceros

 

Depois do fracasso da exposição, desisti de colocar minha assinatura como artista no mercado, como Fugaku queria, e voltei a assinar minhas obras anonimamente, focando em ligar meu nome e imagem aos bancos Uchiha, e a minha formação como gestor empresarial. Todo o dinheiro que eu conseguia com minhas obras, eu utilizava para me sustentar, enquanto o dinheiro que recebia do emprego de meu pai, guardava em um lugar seguro, bem longe dos bancos da família, para que um dia pudesse ter o bastante para me mandar dali.

Minha vida acadêmica e pessoal se tornou solitária e tediosa, e permaneceu assim por um ano e meio, até eu conhecer Neji e Naruto por acaso, em uma das festas de confraternização da faculdade, a qual eu fui apenas para não ter que ficar em casa. O Hyuuga era estudante de medicina em seu segundo ano de faculdade, e parecia estar se divertindo tanto ou menos do que eu naquela festa, e com certeza só estava ali a pedido da namorada, Mitsashi Tenten, que estava no primeiro ano de jornalismo. Já o Uzumaki era estudante do segundo ano de Fisioterapia, e estava cercado de pessoas enquanto contava histórias engraçadas que divertiam a todos.

Se alguém me dissesse que nos três acabaríamos voltando para casa de Naruto bêbados e caindo, eu diria que era pouco provável. Mas foi o que aconteceu.

Em algum momento da festa, Neji e eu fomos colocados lado a lado na extremidade de uma mesa onde, na outra ponta, encontrava-se Naruto ao lado de um rapaz com as bochechas tatuadas, e que tinha uma irmã gostosa digna de… Bom, acho que seu nome era Kiba. Fomos desafiados a jogar algo estúpido que envolvia bolas em copos e shots de tequila, que estavam verdes demais no copo para serem apenas tequila.

Eu e Neji estávamos prontos para rir da cara de toda aquela gente e sair dali, mas as provocações de Naruto e Kiba despertaram nosso espírito competidor e caímos na armadilha, apostando alto com eles sobre quem venceria ou quem perderia.

Eu não lembro exatamente onde, mas em algum momento eu estava arrumando briga com um dos filhos de um accionista dos bancos Uchiha, e fui segurado pelos dois, sendo tirado da festa em seguida. Me recordo vagamente de Neji, bêbado tanto quanto nós dois, tentar se manter de pé e garantir para Tenten que estávamos bem e que ele nos levaria para casa e depois ligaria para ela.

No dia seguinte, acordamos os três esparramados no chão da sala de Naruto, que morava sozinho em um sobrado modesto bem perto da faculdade. Eu estava com uma ressaca insuportável, e eles não estavam muito melhor. Depois desse dia eu me tornei, de forma imprevisível, amigo dos dois, embora Neji e eu nos provocássemos a cada dois minutos.

Ainda aquele ano, com apenas dezenove anos, parei de me dividir entre a casa de Mikoto e a de Fugaku e arrumei minhas coisas para compartilhar a casa com Naruto, que estava procurando por um companheiro para rachar as contas. Nós dois não gastávamos muito e vivíamos mais fora de casa do que dentro, portanto as contas não vinham altas e eu podia me sustentar muito bem com o dinheiro do emprego nos bancos Uchiha, para que não precisasse usar o dinheiro que eu guardava ou que eu ganhava com as obras.

Obras essas que chegaram ao conhecimento de Neji e Naruto rapidamente, assim que comecei a morar com o Uzumaki, visto que um dos quartos da casa se tornou meu ateliê particular, e vivia sempre cercado de novas pinturas ou fotografias. Nenhum deles me julgou e, ao contrário do que eu imaginava, Neji inclusive me disse admirar meu trabalho e frequentar uma de minhas exposições com Tenten, sem saber que eu era o artista.

Passei a ter mais controle sobre mim mesmo e sobre a minha vida, e felizmente passei a conhecer novas pessoas, a maioria deles apresentados pelo Hyuuga ou pelo Uzumaki.

Aos vinte anos, no penúltimo ano da faculdade, Neji fez uma viagem rápida ao Japão com Tenten, ansioso com a possibilidade de trazer sua prima, que havia se formado na escola, para fazer faculdade nos Estados Unidos. Devo dizer que seu amor e felicidade por ela eram contagiantes, e todos nós que estávamos com ele sentíamos vontade de ver como era a tão falada Hinata.

Mas assim que ele voltou, não havia nada além de frustração e raiva saindo com ele do avião. Neji nos contou o fracasso que havia sido o jantar de família, e todos ficamos perplexos ao entender a profundidade da situação insuportável que a prima do Hyuuga vivia em casa. Ele nos garantiu que uma amiga dela havia ficado no Japão, embora a grande parte de seus outros amigos tenha vindo para fora do país, e isso o preocupava. Mas não é como se ele pudesse fazer muita coisa sobre isso.

Vinte e um anos. Faculdade concluída, e meu primeiro grande cargo como braço direito de Itachi em uma das ramificações do banco Uchiha, que crescia cada vez mais. Quando eu pensei que acabar a faculdade finalmente tiraria Fugaku do meu pé, e eu poderia finalmente fingir que trabalhava para ele enquanto fazia o que realmente me deixava feliz, fui de encontro ao chão ao perceber o quão errado eu estava.

Eu era vigiado noite e dia, para que meu pai garantisse que eu estava fazendo tudo certo com o seu patrimônio. Me tornei refém dele depois de adulto. Vivia na empresa e via Naruto raramente, mesmo ainda morando com ele, o mesmo se dava com Neji e os outros amigos de faculdade que eu havia feito. Parecia que eu não era mais feito para viver, apenas para cumprir as expectativas de meu pai.

 

Eles só penetram e excluem

Este ano impossível

 

Eu não saía mais, e isso começou a preocupar Itachi e Mikoto, que tentavam me fazer enxergar que eu ia acabar me matando se continuasse daquele jeito, sempre trabalhando, nunca dormindo, sem viver. Mas meu sentimento de insuficiência era sempre tão grande em meu peito, que me fechei para eles também, me afundando em bebidas para permanecer acordado por mais tempo, e em remédios para dormir o mínimo por dia, apenas para não desmaiar em público.

Larguei a fotografia e a pintura, e meu ateliê permaneceu fechado por dois anos. Eu havia me tornado uma pessoa cínica e mentirosa, apática e sem nenhuma sensibilidade, e isso me rendia contratos atrás de contratos, além de render acordos muito satisfatórios para o nome do banco da família. Eu havia me tornado o robô Uchiha, como meu pai queria.

Por um tempo, ele inclusive mostrou, ainda que pouco, sentir tanto orgulho de mim quanto ele sentia de Itachi, que tinha um talento natural para os negócios.

E foi aí que comecei a ruir.

Meu corpo e mente não aguentaram a pressão e tudo começou com um simples desmaio a caminho da minha sala, em um dia de muito sol. Desmaio esse que começou a se tornar comum, como o frio em excesso, mesmo quando estava calor e eu estava suando, como os vômitos, como os lapsos de memória, como o início da perda da visão.

Tudo isso se tornou comum para mim, e eu me esforcei para esconder de todos. Mas em algum momento Naruto notou que era estranho meu colarinho estar pingando suor quando eu havia acabado de tomar um banho quente, e Mikoto notou que eu me apoiava nas paredes para descer as escadas, pois não enxergava os degraus, e Itachi notou que eu havia desfalecido no banheiro da empresa após uma reunião.

Aos vinte e quatro anos, eu estava me destruindo de dentro para fora, e minha mãe se juntou ao meu irmão e aos meus melhores amigos para me fazer parar. Mesmo que eu não quisesse.

O diagnóstico foi certeiro: Síndrome de Burnout, esgotamento mental e físico, devido ao estresse no qual eu me encontrava.

O processo de cura foi intenso e demorado, já que aquele tipo de vida já estava cravado em mim: afastamento total dos bancos, repouso, visitas regulares ao médico, tratamento para insônia e reeducação alimentar, idas frequentes ao psicólogo, entre outras coisas facilmente providenciadas por Mikoto e Itachi, que não tiravam o olho de mim nem se eu quisesse.

Passei a receber amigos em casa, e Naruto começou a ficar mais tempo nela também, para me ajudar com minha recuperação, embora eu odiasse ser paparicado.

Após estar totalmente curado, voltei ao trabalho, depois de prometer ao médico que não iria voltar a abusar do estilo de vida, apenas para encontrar uma demissão a minha espera. Aparentemente, meu colapso nervoso havia pego muito mal para o nome Uchiha e eu havia mostrado o quão fraco eu era ao não aguentar seja lá que porra ele tenha dito depois disso, pois fiquei tão enfurecido, que parei de ouvir por alguns segundos antes de bater com o punho na mesa e deixar claro que ele ia me pagar tudo que me era de direito depois de nove anos trabalhando naquele banco de merda ou eu ia ser o responsável por afundar ainda mais o nome Uchiha com um novo escândalo. E depois saí daquela merda, e finalmente respirei o ar livre de um homem que não tinha mais nada a perder.

.

— E o que você vai fazer agora? — Naruto pergunta, se jogando no sofá, ao meu lado, enquanto comia uma fatia de pizza da noite anterior.

— Eu ainda não faço a menor ideia. — respondo, dando de ombros e continuando a passear pelos canais da televisão, sem muito interesse.

— Você tinha que mandar seu pai enfiar o banco no rabo dele? Sabe que isso só fez com que ele ficasse mais nervoso. — continuou, totalmente alheio a minha vontade de matá-lo.

— Naruto, eu vou mandar você calar a boca uma vez. Não haverá uma segunda. — O observo com o canto de olho e ele finge passar um zíper na boca, erguendo as mãos em rendição.

— Sabe o que irá te animar? — Não respondo e ele continua, me cutucando com o pé — Ir a uma festa.

— Não estou no clima de festa, Uzumaki.

— Mas vai ter que estar! — Ergo a sobrancelha e ele se aproxima mais — Hoje a prima do Neji chegou, e nós iremos dar as boas vindas.

— Puta que o pariu, era hoje… — suspiro, fechando os olhos, e penso por cinco segundos — Acho que se eu explicar para ele que fui demitido do banco ele não fique muito bravo caso eu não compareça.

Naquele mesmo momento, o celular do Naruto começa a tocar insistentemente alto e ele atende, seu rosto se iluminando antes mesmo de responder:

— Ela chegou? — sussurros — Ela… o que? — mais sussurros, e o rosto de Naruto embranqueceu — Caralho, que barra pesada, Neji. Mas é claro que eu chamei todo mundo…

Me interesso pela conversa, visto que o sorriso do loiro a minha frente morreu assim que Neji começou a falar, e me inclino para frente, para tentar ouvir melhor.

— Sasuke disse que não vai. — gritos enraivecidos e Naruto responde, rindo — Ele foi demitido do banco e mandou o pai dele enfiá-lo na porra do rabo dele, cara.

Risadas explodem do outro lado da linha e Neji diz mais alguma coisa, e Naruto me passa o telefone, sussurrando enquanto segura a entrada de voz:

— A prima dele foi deserdada assim que chegou aqui. Acho bom você dizer a ele que vai ou então o Hyuuga vai arrancar seus olhos. — Fico sem palavras por um momento e pego o telefone, engolindo em seco antes de atender.

— Eu vou, idiota, não precisa gritar nenhuma ameaça no meu ouvido. — digo assim que coloco o telefone no ouvido, sem deixá-lo falar — Mas só estou indo porque sua priminha parece mais fodida do que eu nesse momento, então não abuse da minha boa vontade, porque não estou num dia bom.

Ouço sua risada se misturar a de Tenten e deixo um sorriso de canto escapar por meus lábios, enquanto ele se despede e desliga o telefone.

O que meus amigos não pediam gritando que eu não fazia gritando mais ainda?

E, afinal, depois de um ano de merda, seria bom começar a viver um pouco novamente certo? Talvez eu devesse parar de ver essa demissão como um símbolo de fracasso, e começar a pensar nela como um prêmio por ter seguido a linha até agora.

 

Não há você e eu

Este ano impossível

Apenas mágoa e corações partidos

E gim feito de lágrimas

A pílula amarga que eu engulo

A lembrança em forma de cicatriz

Essa tatuagem, sua última ferida

Este ano impossível

10 de Noviembre de 2018 a las 22:32 0 Reporte Insertar 0
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