Além da Vida Seguir historia

lucyndauchiha1 Lucynda Uchiha

Você já teve aquele momento em que a sua vida não poderia estar melhor? Tudo está exatamente como deveria. É assim que você se sente quando encontra o amor. A pessoa com quem você planeja ter uma vida. O seu acompanhante para o baile de formatura que irá acontecer antes que vocês se mudem para faculdade em outra cidade. O vestido lindo. O cara perfeito. E então a vida te dá uma rasteira. Não há mais vestido. O cara perfeito tornou-se uma sombra do que um dia foi. E não há mais vida. Num momento você está rindo na garupa da moto do seu namorado e no outro… Você está de pé no meio de uma sala com dois homens estranhos mexendo em seu corpo morto. A noite que era para ser o sonho realizado tornou-se no pesadelo onde eu tive que deixar tudo para trás. Uma última noite com o garoto com o qual eu desejava passar o resto dos meus dias. Uma última noite para deixá-lo saber que sempre seria a quem meu coração pertenceria.


Fanfiction Romance adulto joven No para niños menores de 13.

#sakurafantasma #sakuramorta #sasukeuchiha #sakuraharuno #sasusaku
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Transcendente

Nunca achei que tudo poderia chegar ao fim tão rápido. Um dia você está bem, sentado ao sofá enquanto assiste a um filme com a pessoa que você tem plena certeza de que passará o resto da vida. Vocês dois brigam para saber quem escolherá o próximo filme, mas ele cede por saber que você não aguentará assistir metade. E no outro, você está de pé em uma sala branca e fria cheia de gavetas com sabe-se lá o que dentro enquanto uma pessoa que você não faz a mínima ideia de quem seja mexe em seu corpo pálido deitado em uma maca.


Não consigo lembrar bem de como tudo aconteceu, apenas flash's de possíveis memórias passam por minha cabeça tão rápido que não consigo me ater a nenhum detalhe específico. Todavia, há uma cena a qual vejo claramente. Seus olhos cheios de lágrimas e sua sempre calada voz, gritando em plenos pulmões meu nome enquanto a escuridão tomava conta de mim.


E então eu acordei aqui.


Bom, acordar não é bem o correto. Não é preciso ser um gênio para saber que o meu fim chegou, mas esperava uma luz branca puxando meu corpo. Não sabia que tinha uma cessão especial para assistirmos o que fazem com o nosso corpo antes de seguirmos viagem. Pelo menos eu dispensaria. Seu corpo todo aberto não é algo bonito de se ver. Acredite em mim. Se eu ainda tivesse um estomago, ele com certeza estaria embrulhado agora.


— Uma menina tão jovem. – um dos caras de branco diz olhando para o meu rosto cheio de hematomas.


Poxa! Se ele me acha bonita assim, imagine se tivesse me conhecido antes.


— Sim, muito bonita. Uma pena esses jovens de hoje em dia acharem que são imortais. – o senhor mais velho que está com o bisturi na mão responde o outro.


Nunca achei que eu fosse invencível. Afinal, olha onde eu acabei. Com toda a certeza não posso me chamar de mulher maravilha. Infelizmente não poderei entrar para a liga da justiça. Mas quem sabe para uma liga dos anjos? Eu sei piada bosta. Mas bem, quando se está morta não há muito o que fazer.


— E o outro jovem? O que estava pilotando? – acho que o homem mais novo não está muito interessado no seu trabalho, quem fica de fofoca quando se está mexendo em um corpo sem vida?


— Ele parece bem. Algumas escoriações, mas nada de grave. Essa não teve a mesma sorte. Espero que tenha curtido o máximo do baile, pelo menos. – o suspiro do mais velho deixa evidente a sua dor por mais uma vida jovem perdida. Parece que ainda existem pessoas que se compadecem pelo próximo.


O baile! Sim, eu começo a lembrar.


Ele nunca esteve tão lindo quanto vestido em um fraque que era tão preto quanto seus cabelos. Seus sapatos tão brilhosos que por um momento achei que tinham mergulhado em uma bacia de graxa. O cabelo rebelde como sempre continuava lá para provar que embora seu exterior estivesse diferente, por dentro era a mesma alma indomável.


Vocês devem estar achando que isso não é grande coisa. Mas acreditem, torna-se uma coisa grande quando alguém que diz “fraques e ternos são coisas de mauricinhos playboys. Não espere isso de mim. Se for para ir nesse “treco” irei com as minhas próprias roupas”, usa exatamente o que jurou não vestir. Para quem não entendeu “treco” refere-se ao baile.


Podem imaginar minha surpresa quando ele chegou na porta da minha casa vestido de maneira formal e trazendo um corsage em mãos? Pois é, ela foi emocionantemente grande. Não sei como não chorei. Meu badboy estava disposto a transformar-se em um príncipe por uma noite apenas para agradar sua dama e dar a ela seu momento de princesa. Lindo, né?! Seria se a carruagem fosse uma limousine, até mesmo um carro mais esportivo. Porém, ele era incapaz de largar Honda para trás. Quem é essa? Oh, não se preocupem, ele não estava me traindo. Pelo menos não carnalmente. Honda é sua inseparável moto. Afinal, um badboy não pode se chamar assim se não vier acompanho de uma fucking moto, certo?


Espero que a senhora dona da loja que alugou o traje não brigue muito com ele. Mas se o fizer, eu vou achar divertido. Ele com certeza fará cara de quem não liga, mas no fundo eu sei que se importa. Ele não é do tipo que gosta de dar trabalho para os outros, quem dirá prejuízo. Ele ficará irritado consigo e irá juntar dinheiro para pagar o estrago.


Por falar nele, é melhor eu ir dar uma olhada para vê se está tudo bem mesmo. Acho que um de nós vagando por ai sem destino é o suficiente.


Achei que quando saísse da sala mórbida, que agora eu sei que é onde ficam os corpos dos mortos, iria sentir um maior alívio por me livrar daquele ambiente. No entanto, o clima pelos corredores do hospital não é muito diferente. Correria de médicos para todos os lados e pessoas doentes lota o lugar. Lá vai uma charada para vocês: O hospital onde estou é: a) público ou b) privado? Bingo. Acertou aqueles que disseram público.


O que? Vocês acharam que essa era uma história onde a menina rica se apaixonada pelo menino pobre e rebelde, onde a familia não aceita o romance e eles têm que lutar contra tudo e todos, mas não suportam a pressão e decidem fugir e durante a fuga eles sofrem um acidente e a ambulância chega segundos depois e eles são enviados aos cuidados dos médicos com “mãos de anjo” do hospital que pertence à família da mocinha?


Sinto lhes dizer, mas vocês erraram feio. Exceto pelo mocinho pobre e rebelde. Na verdade, eu não o acho tão rebelde quanto os outros pensam. Ele apenas é sincero demais. E quando digo demais é no significado pleno da palavra. Isso me faz recordar de quando nos conhecemos.


“Eu tinha ido com a minha mãe comprar algumas novas roupas para mim, pois as minhas já estavam pedindo arrego, embora minha mãe seja do tipo que acredita que se pode manter uma peça durante anos, consegui convencê-la de que já estava em tempo de mudar.


Naquela época eu estava um pouco acima do peso, eu sabia, mas minha doce mamãe insistia em dizer-me que não e que meu corpo estava perfeito. Bom, o vestido que estava experimentando não concordava com ela também. Para que dono Mebuki não teimasse em dizer que era coisa da minha cabeça decidi perguntar a primeira vendedora que aparecesse como eu me parecia. Bem, eu descobri duas coisas naquele dia: a primeira, não são apenas mulheres que trabalham em lojas de roupas e segunda, eu voltaria naquela loja mais vezes.


Eu estava tão distraida me olhando no enorme espelho que havia no corredor que levava para as cabines do provador que apenas vi um vulto com o uniforme da loja passando e o puxei para o meu lado. Qual não foi a minha surpresa quando olhei para o lado e a pessoa, que parecia dar dois de mim de tão alto, era um cara? Mas não era um cara qualquer. Era o menino mais gato que eu tinha visto em toda a minha curta vidinha de dezoito anos. Sua pele era tão branca que eu achei ter um grave caso de anemia, os cabelos mais lisos do que os meus, esse foi um fato que me irritou extremamente. E os olhos? Nossa! Quando os meus verdes encontraram com a profundidade dos seus ônix, eu me perdi e desejei nunca ser encontrada.


— Você vai dizer o que quer ou vai me largar para que eu possa voltar ao trabalho? – ser educado para com os outros nunca foi uma das qualidades dele. Eu que sei.


— Ah, desculpe! É que eu preciso de um conselho. Achei que fosse uma das vendedoras e então... – seus olhos cerraram e percebi sua boca transformar-se em uma carranca. – Desculpe, não foi o que eu quis dizer. Você não parece com uma mulher – eu já disse que quando fico nervosa falo sem parar? Não? Então fiquem avisados. Eu praticamente cago pela boca. Fora quando pareço um disco arranhado de tanto que gaguejo.


— Conselho sobre o que? – seu suspiro aborrecido faz-me pensar duas vezes antes de falar.


— É que eu queria saber como fico com esse vestido. Se pareço... Quero dizer... – sabe o quão difícil é perguntar ao cara mais gato que você já viu, que acabou de conhecer e que quer dar uns pegas se vocês está gorda? Pois saibam que é muito difícil.


— Para mim parece gorda. Se o seu objetivo é esconder o que está sobrando, não vai ser com esse vestido que irá conseguir. – tenho certeza que todas já passaram por uma situação onde ficaram sem reação. Posso lhes dizer que esta foi a minha.


Eu não esperava que ele fosse dizer que pareço uma Deusa do amor capaz de seduzir qualquer um, mas também não esperava que fosse ser tão direto.


Nos encaramos por algum tempo, provavelmente porque ele estava aguardando uma resposta da minha parte. Bem que eu queria ter tido algo a responder e assim puxar assunto de forma natural, porem não havia o que ser falado.


— Hum... Se for só isso vou indo. – seu corpo seguiu para a mesma direção que ia antes de eu o parar e em poucos segundos ficou cercado de mulheres querendo sua atenção. Se elas soubessem o quão franco ele pode ser não iriam querê-lo como atendente.


Depois do momento sinceridade junto a um “estou chocada”, decidi deixar o vestido dentro da cabine e sai em disparada pela loja com minha mãe chamando por meu nome. Se fosse qualquer outra pessoa nunca mais teria voltado na loja e sairia xingando a Deus e o mundo por tamanha grosseria. No entanto, eu nunca fui igual aos outros. Fiz dieta por algumas semanas – eu sei que não é grande coisa, mas uma imensa vontade de vê-lo novamente tomava conta de mim a cada dia – e voltei à loja.


Quando cheguei não o encontrei, então apenas selecionei o que me agradava e levei para provar. Para a minha tristeza nada ficava bem no meu corpo. Quando estava prestes a desistir, metade de um braço adentrou a minha cabine com um pedaço de pano.


— Experimente esse. - uma voz grave conhecida se fez presente e eu fiz o que me pediu.

O vestido que ele trouxe ficou perfeito. Realçou as curvas certas e escondeu aquilo que eu tanto tenho vergonha.


— Obrigada. – não consigo evitar que um sorriso nasça em meus lábios.


— Hum. Agora pare com seja lá o que estiver fazendo, pois ao invés de perder quilos está ganhando uma anemia.  – está para nascer alguem que me deixará tão sem palavras quanto esse cara.


— Grosso! – se ele pensa que por ser bonito pode destratar as pessoas, está muito enganado. Não comigo.


É eu sei que há poucos minutos estava praticamente babando por ele, todavia tudo tem limite. Não me importa mais o quão lindo é, se parece um jegue louco que adora dar coices.”


Depois disso não voltei mais à loja, mesmo que minha mente me implorasse isso. Com que cara eu chegaria lá depois daquela vergonha? E eu também não ia ter coragem de dizer que queria conhece-lo melhor.


— Eu quero ver ela! Vocês estão mentindo. Me soltem agora! – ouço gritos tomando conta dos corredores hospitalar.


Reconheço a voz e a sigo até o quarto onde encontro com seu emissor.


Sabe aquele momento em que alguém por quem você daria a vida precisa da sua ajuda e então você se sente inútil por não poder fazer nada? E quando alguem que você ama está sofrendo tanto a ponto de deixar transparecer pelo olhar, mas mesmo que você quisesse, não poderia tirar toda a sua dor e então você só fica ali assistindo enquanto o desespero toma conta de ambos? É exatamente isso o que está acontecendo agora.


Os enfermeiros tentam segurá-lo para que não se levante da cama. Embora o senhor que abria meu corpo tenha dito que Sasuke saiu apenas com escoriações e estava bem, um braço engessado também faz parte do pacote.


— Viram! Eu sabia que estavam mentindo. – seus olhos enchem de lágrimas enquanto me encaram. – Amor, como você está?


É impossível. Ele não pode está me vendo. Ninguem pode me ver.


— Querido, com quem vocês está falando? Se acalme, por favor. – dona Mikoto, mãe de Sasuke, diz enquanto abraça o filho. – Eu sei que está doendo, mas vai passar.


— Pare! – o corpo de sua mãe é distanciado quando ele a empurra – Por que insistem em mentir para mim? Olhem para ela! – seu dedo aponta em minha direção.


Se eu ainda tivesse o meu coração, com certeza ele estaria acelerado agora.


Ele realmente pode me ver. O meu amor consegue me enxergar enquanto para os outros eu sou apenas uma brisa vaga.


— Sasuke...  - consigo sussurrar em espanto.


— Amor... – ao mesmo tempo em que a dor se fixa em seu olhar, vejo uma faísca de esperança acercando-se dele.


Eu sei que deveria por fim nisso agora e que não deveria deixá-lo achar que tudo estará bem e que me terá novamente em seus braços. Isso não acontecerá. Nunca mais irei sentir o calor do seu corpo. Não terei mais seus abraços quando estiver triste por brigar com minha mãe. Nunca mais terei seus lábios sobre os meus de maneira doce mostrando-me o seu amor. Ou de maneira avassaladora deixando-me ver o quanto me desejava. Nós nunca mais brigaremos pelo canto do sofá da sala de sua casa. Suas mãos não mais amarão o meu corpo a qualquer momento que o desejo se aflorasse entre nós. Eu não o terei mais.


— Vamos ceda-lo para que se acalme. – um dos enfermeiros anuncia deixando Sasuke desesperado.


— Não se vá, por favor! Fique comigo! – sua mão se estende para que eu a pegue, mas quando o faço, minha pequena mão ultrapassa a sua abandonando-a no ar.


— Ele irá dormir por algumas horas. Talvez seja bom vocês contratarem um psicólogo. – o enfermeiro diz para os pais de Sasuke que se encontravam no quarto junto ao seu irmão mais velho.


— Sim, nós veremos isso. – Fuguku, o patriarca da familia Uchiha responde de forma que seria considerada indiferente para muitos. Somente aqueles que passaram tempo o suficiente com ele reconheceria a preocupação em seu tom de voz.


Família, eu ainda não procurei ver como está a minha. Talvez eu esteja com medo. Meu pai deve estar arrasado e minha mãe destroçada. Eu não me sinto pronta para encarar essa situação.


Não sei quanto tempo fiquei em pé no quarto onde Sasuke está, até que percebi através das janelas que o Sol já se pôs e agora a Lua mostrava todo o seu esplendor na calada da noite. Quando pequena eu costumava apreciar durante horas na madrugada a beleza que nosso satélite nos agracia. São poucos os que ainda fazem isso, eu própria tinha parado de fazer quando fui crescendo. Mas então, quando conheci Sasuke toda vez que eu olhava para o céu durante a noite a Lua lembrava-me ele. Talvez por sua beleza junto ao brilho próprio ou o mistério que os dois carregam deixando-nos querer saber mais sobre o que há neles, o que carregam consigo.


— Você lembra aquela vez que fugimos para fazer um piquenique? – embora tenha saído rouca, a voz de Sasuke faz com que eu me assuste.


— Deus! Não faça isso. Assustou-me. – digo colocando a mão no peito. – É claro que lembro, não sei como concordei com aquela louca ideia.


— Ah, você gostou. Gostou tanto que dormiu em meus braços. – ele diz tentando levantar-se para vir até mim.


Lembro bem daquela noite.


“ Eu tinha acabado de brigar com minha mãe, pois ela queria que eu fosse para uma faculdade e descobriu que eu tinha me inscrito para concorrer a outra que ficava mais distante da cidade. Ela não entendia que era a melhor instituição de ensino na área em que eu gostaria de me especializar. E eu não entendia o porquê de ela querer impedir-me de seguir os meus sonhos. E quando duas pessoas não se entendem, elas brigam.


Liguei para o Sasuke e lhe expliquei em meio a lágrimas e soluços o que tinha acontecido. Eu só precisava de alguem para desabafar e sabia que ele escutaria, mesmo que não me respondesse ou que o fizesse através de resmungos. O que eu não esperava era que meia hora após encerrar a ligação, ele aparecesse em minha janela com uma cesta de palha.


— O que está fazendo? – perguntei-lhe sem entender o porquê de carregar tal coisa.


— Vem! – estendeu a mão livre em minha direção para que eu assegurasse.


— Para onde? Eu não posso sair, se meus pais descobrirem nos matam. – deixo uma pequena risada escapar.


— Confia em mim? – balanço a cabeça em confirmação. – Então venha! – dessa vez aceito o convite e seguro a sua mão. Eu confiava a minha vida à ele.


O fato de o meu quarto ser no primeiro andar facilita para que pulemos janela a fora. Seguimos em direção á sua moto e ele nos guia pelas ruas escuras e quase vazias do bairro.  De repente paramos em um lugar já conhecido por mim, o parque Renascer da Cerejeira, que por ser madrugada está completamente vazio.


— Ótimo! Temos o lugar só para nós. – Sasuke anuncia puxando-me pela mão até que cheguemos a uma árvore cerejeira que costumávamos ficar sentados abaixo de suas folhas. Isso antes dele arrumar o trabalho na oficina perto do colégio.


— O que você está planejando Uchiha? – pergunto quando o vejo retirar o casaco e por no chão.


— Milady! – seu corpo curva-se fazendo referencia para que eu me sente sobre a peça que ele pôs no chão.


— Sasuke Uchiha! Diga-me agora o que está pensando. – cruzo os braços esperando por sua resposta.


— Ah, vamos lá! Facilite para mim. Estou tentando ser um cara legal aqui. – diz enquanto retira de dentro da cesta um pacote de biscoito e copo de guaraná natural. – Não deu para perceber que é um piquenique? Devo estar fazendo isso muito mal. – ouço seu suspiro enquanto passa a mão pelos finos cabelos.


— Um piquenique com um pacote de biscoito e guaraná? – uma gargalhada escapa por minha de mim, mas me calo quando sua cabeça abaixa. – Por que está fazendo isso? – pergunto enquanto me aproximo. Aguardo a resposta, mas essa não vem, então levo minhas mãos até seu rosto erguendo-o para mim. – Me diga, por favor.


Seus olhos desviam dos meus e focam em algo que está além – Você me parecia bastante triste no telefone e amanhã você tem uma prova importante, então eu queria fazer algo que te animasse, logo lembrei que tinha me dito quando começamos a sair que sempre quis fazer um piquenique, no entanto não havia alguem com quem pudesse realizá-lo. Esquece, isso foi uma bobagem. – seu corpo movimenta-se para ajeitar as coisas, mas não o permito.


— Você é incrível. Obrigada. – dou-lhe um casto selinho e sento do outro lado das coisas expostas sobre o casaco.


Ficamos algum tempo em silencio enquanto apreciávamos o brilho da nossa, já amiga, Lua. Eu poderia nos imaginar milhões de vezes em um piquenique romântico, mas não achei que realmente fosse acontecer. É claro que algumas meninas não estariam satisfeitas com biscoito e guaraná, mas não é o que ele trouxe para comermos que tem o poder de mexer com meu ânimo, e sim, o fato de ele o ter feito por mim. Por ter pensado em me ver feliz e passado por cima do próprio preconceito em relação a coisas “românticas e melosas”, como ele costuma chamar.


— Quer ouvir uma história? – sua voz retira-me dos meus pensamentos.


— Claro! – posiciono minha cabeça em suas coxas e olho para ele indicando que pode comecar a falar.


— Há muito tempo, morava próximo do rio de estrelas, uma princesa chamada Orihime, a qual tecia belas roupas, mas vivia triste por estar sempre ocupada sem tempo para se apaixonar. O seu pai, o imperador Tenkou, ao ver a tristeza da filha, apresentou-lhe um belo rapaz chamado Hikoboshi, acreditando ser ele o par ideal para sua filha. Os dois jovens se apaixonaram e a partir desse momento, ambas as vidas giravam apenas em torno do amor, deixando assim de lado seus afazeres e obrigações diárias. Entristecido com a irresponsabilidade do casal, o Senhor Celestial decidiu separá-los, obrigando-os a morar em lados opostos da Via-Láctea. — sua voz toma lugar em meio ao silencio da noite.


— Hei, se for uma história triste eu não quero ouvi-la. – digo levantando e ficando com o rosto próximo ao dele.


— Calada! – empurra-me de volta a posição sobre seu colo. – Fique quieta e me escute. Minha professora contou essa história durante a aula e eu achei que fosse gostar, por isso prestei atenção para que pudesse lhe contar.


— Tudo bem. – ergo as mãos em rendição. – Mas acho bom ser uma história bonita.


— Continuando – avisou-me enquanto calou-me pondo a mão sobre a minha boca. – Porém, o Senhor foi percebendo com o tempo que a sua querida filha não conseguia mais tecer. Ficava apenas sentada e chorando incessantemente. Do outro lado, a estrela de Hikoboshi, também morria de saudades e passava o dia todo tocando sua sanfona e cantando. O vento levava a canção até o Palácio Celeste, que aumentava a saudade da princesa. De tanto chorar as nuvens que restavam no céu desmancharam em forma de lágrimas e despencaram na Terra em forma de chuva. O Soberano Celeste ficou desesperado porque com o volume de chuva caindo a Terra, iniciaram-se as inundações na Terra enquanto que no céu as nuvens foram desaparecendo. Então ele procurou a filha e permitiu que se encontrassem apenas uma vez por ano, no sétimo dia do sétimo mês do calendário lunar, desde que cumprissem as suas tarefas diárias.  Fim!


— Nossa! Que triste! – digo limpando as lágrimas que desciam por meu rosto.


— Você acha? Eu gostei da história. – surpreendi-me com sua revelação.


— Sério? Se encontrar apenas uma vez por ano é cruel. – coloco minha mão sobre o peito para dar ênfase em quão terrível seria.


— Para alguém que ama o pior não seria nunca mais poder ver o seu amor? – seu questionamento me pega de surpresa. Quando paro para pensar não deixo de lhe dar razão. Seria insuportável viver sem vê-lo.


Naquela noite dormimos abraçados abaixo da cerejeira e do brilho da linda Lua.”


— Estava tarde e eu estava com sono. Não invente coisas e não se levante. – por um momento esqueço-me da minha situação e tento pará-lo, todavia novamente minhas mãos ultrapassam seu corpo.


— Deus! Você não pode me tocar. Por que Sakura? E por que ninguem mais conseguiu te ver daquela vez? – o desespero em sua voz deixa evidente que ele já sabe o motivo, no entanto não quer aceitar.


— Você sabe o porquê, Sasuke. Eu não tive a mesma sorte. Desculpe amor, mas parece que chegou a nossa vez de ficar em lados opostos. – uma lágrima solitária desliza por sua face e isso faz com que algo dentro de mim se quebre.


Sua cabeça mexe-se em negação veementemente – Não, você está aqui. Isso é o suficiente.


— Não posso ficar. Eu não viverei, Sasuke. Serei apenas um fantasma zanzando em um mundo a qual não pertenço mais. – essa é a decisão mais difícil que já tomei na vida. Mas eu sei que se ficasse estragaria toda uma vida que ele poderia ter, pois ficaria preso a mim.


— Você pertence a mim e eu a você. Todos sabem disso. Não, você não pode ir. Não precisa. – ele tenta levantar-se novamente, mas seu pé embola nos lençóis da cama o que o faz cair de encontro ao chão.


De repente enfermeiros junto ao irmão mais velho dele entram no lugar e o ajudam a voltar para a cama.


— Por Deus, o que está fazendo moleque? – Itachi pergunta ao mais novo, porem o olhar deste está em mim.


— Por favor! – sua voz me suplica e por um breve momento penso em ceder.


— Não seja egoísta! – digo de repente sentindo meu corpo ser puxado e quando percebo estou em algum lugar qualquer em frente a uma lanchonete.


— Enquanto ele não se libertar de você, não poderá partir. – uma pequena senhora sentada encostada à parede do estabelecimento diz olhando para mim.


— O que? – meus pensamentos confusos não me deixam entender sobre o que ela poderia estar falando.


— Não acha estranho estar morta, mas ainda estar vagando pelo mundo dos vivos? – é claro que eu já tinha pensado nisso.


— Quem é você e por que consegue ver-me? – pergunto aproximando-me da mulher.


— Quem eu sou não importa. Consigo vê-la porque tenho certos dons, que às vezes parecem maldições. Depende do tipo do espírito que encontro. – uma pequena risada sai por sua boca.


— Entendo, eu acho. E sabe o que posso fazer para que possa seguir meu caminho? Seja esse qual for. – meus olhos fitam o chão e a cada vez que penso em deixá-lo para trás é como se eu morresse mais cem vezes.


— Primeiro você tem que parar de sentir-se assim quando pensa em partir. Para então, o rapaz e você se libertarem de vez. – fácil falar.


— Como posso fazer isso? – pergunto-lhe com esperança de que possa guiar-me de alguma forma.


— Desculpe querida, essa parte não é comigo. – seu sorriso banguelo mostra-me que ela não dirá nada mais.


— Obrigada mesmo assim. Melhor eu voltar. – levanto-me e fechando os olhos concentro-me no quarto de Sasuke. Novamente sinto meu corpo retesar-se.


Quando levanto as pálpebras vejo o moreno teimoso deitado novamente na cama com a cara emburrada enquanto seu irmão dorme na poltrona de acompanhante.


Aproximo-me dele aos poucos, mas talvez nossos sentimentos sejam tão conectados que ele sente minha presença e vira o rosto em minha direção.


— Por que você está em um quarto sozinho? Não deveria ter outros pacientes aqui com você? – pergunto sentando sobre a cama.


— Algo a ver com minha mãe conhecer a diretora do hospital. Eu sei lá. – embora sua família não seja o que pode chamar de bem de vida, ainda assim tem muitos contatos. Bom para eles.


— Entendi. – coloco uma mexa do meu cabelo atrás da orelha. Eu quero falar com ele sobre minha conversa com a senhora, mas eu sei que ele não vai receber bem esse assunto. – Sasuke, eu conversei com uma pessoa e ela me disse que é preciso que nos libertemos um do outro para que eu possa seguir meu caminho.


— Que pessoa, Sakura? Onde a conheceu? Não pode sair dando ideia para essas pessoas loucas. O único caminho que você tem para seguir é ao meu lado – seu sussurro alto faz com que Itachi se mexa na cadeira. – Nós ainda vamos nos casar, você vai se formar em medicina e vai trabalhar duro pelas vidas que quer salvar. Teremos filhos, três deles correndo pela casa gritando por você...


— Por favor, pare! Pare de falar Sasuke. Isso nunca acontecerá – eu não agüento ouvir o que ele fala. A dor de saber que isso nunca ocorrerá me corrói. – Eu não serei a mãe dos seus filhos, nós nunca nos casaremos e eu não irei para a faculdade de medicina. Eu estou morta! Por Deus, aceite! Eu morri! – lágrimas que não imaginei que poderia ainda ter descem por meu rosto. – Agora, por favor, me deixe ir, pois eu não suportarei ser apenas uma alma vazia vagando por ai prendendo-o à memória do que fomos um dia. Eu quero que você viva e seja feliz.


— Eu nunca serei feliz sem você. – seu tom é frio e indiferente. Ele está se fechando, eu sei quando isso acontece.


De repente seu corpo ergue-se da cama e ele caminha até o banheiro. Quando retorna está vestido com uma roupa comum.


— Vamos! – diz seguindo em direção à porta.


— O que está fazendo? Não pode sair. Itachi está aqui. – aponto para o irmão que parece desfalecido no assento.


— Itachi está mais morto que você. Agora venha! – automaticamente meu corpo segue o seu pelos corredores do hospital. – Você já viu seus pais?


Após sua pergunta um silencio se fez entre nós deixando claro minha resposta a ele.


— Hum. Imaginei. – responde enquanto faz sinal para um táxi que se aproxima.


— Aonde estamos indo? – pergunto enquanto nos sentamos no banco de trás do veículo.


— Comer. A comida do hospital é uma porcaria. – seus olhos reviram fazendo-me rir, mas percebo que o motorista nos olha através do espelho que há na parte da frente.


— Falou comigo? – o homem pergunta à Sasuke. Não era para a gente que ele estava olhando. É claro que ele não pode me ver. Que estúpida!


— Não. Estou falando com a minha namorada morta. Apenas siga a viagem e finja que sou maluco. – às vezes me surpreendo com o quão direto ele pode ser. É óbvio que o cara pensará que ele é louco, no momento até eu penso isso.


— Si..Sim! Desculpe. – não consigo evitar que uma pequena risada escape por minha boca.


— Não ria do homem. Você realmente está me fazendo parecer um louco. – seu braço bom se cruza sobre seu tórax e um pequeno bico se forma em seus lábios.


O resto da viagem seguiu-se em silencio, no entanto não foi porquê eu não tinha nada para dizer, mas sim porque havia coisas demais a serem colocadas para fora. Eu apenas só não sabia ainda como as expor.


— Pode parar aqui. – Sasuke diz entregando ao motorista uma nota de dinheiro ao mesmo.


— Onde você arrumou isso? – pergunto acompanhando-o enquanto descemos do veículo.


— Você sabe que nunca ando desprevenido. – um sorriso arrogante surge enquanto uma piscadela é dada em minha direção.


— Seu safado! – dou-lhe um tapa, mesmo que esse atravesse direto o seu braço.


— Eu não disse nada demais. O que passou por essa cabecinha rosa, hã? – seu dedo indicador ergue-se em direção à minha testa, mas quando este passa direto vejo a expressão relaxada de Sasuke se esvair e uma nova carranca surgir. – Odeio não poder te tocar.


Eu sei querido. Também odeio isso.


Ele não tem ideia do quanto eu gostaria de receber um abraço dele nesse momento. Agora tudo é tão vazio para mim.


— Madame – vejo o corpo do moreno curva-se em minha frente e com o braço bom aponta para algo. Quando meus olhos seguem para a direção indicada percebo que é a lanchonete onde tivemos nosso primeiro encontro.


— Sasuke... O que vocês está.. – minhas mãos, de maneira rápida, cobrem meus lábios antes de que eu possa terminar de falar.


— O que se faz em uma lanchonete? – o olhar arrogante que lança em minha direção aborrece-me.


Sem esperar que eu dê o primeiro passo, seu corpo segue em direção à entrada do pitoresco local. O lugar não ao estilo McDonalds ou Buger King, na verdade parece mais uma lanchonete abandonada de beira de estrada onde somente os motoqueiros barbados e gordos param para comer.


— O que vai querer? – pergunta enquanto verifica seriamente o cardápio. Toda vez que vínhamos aqui era assim. Mesmo que sejam os mesmos pratos, ele sempre analisava o menu como se fosse encontrar, por algum milagre, um prato diferente.


— Você está brincando, né? – talvez meu tom de incredulidade tenha sido mais grosseiro do que eu gostaria. Mas convenhamos: quem pergunta a um fantasma o que ele quer comer?


— Não, por que estaria? Há algo que prove que você não pode comer? – com certeza a batida do nosso acidente chacoalhou mais o cérebro dele do que as tomografias mostraram para os médicos.


— Bom, o fato de eu não poder tocar em você deixa algo muito claro para nós, querido. – dou-lhe meu melhor sorriso a lá “você se diz tão esperto e não pode nem pensar nisso?”. Sua carranca deixa claro que ele sabe no que estou pensando.


— Tudo bem espertinha. Pois apenas observe! – uma piscadela é dada em minha direção enquanto ele faz gesto para chamar a garçonete que estava mais próxima.


— Em que posso ajudá-lo? – a ruiva de óculos diz com um sorriso nojento e coloca uma mexa solta de cabelo atrás da orelha.


— Hum. Me trás um x-burguer com batata frita, uma garrafa de refrigerante, panquecas carameladas e... – interrompo sua divagação sobre com o que mais ele irá encher o estomago. Sério. Ele só é magro de ruim, pois como feito um boi.


— Já chega! Daqui a pouco você pedirá o menu inteiro. – a risada que escapa por meus lábios faz com que eu perceba o quão bem ele me faz e como difícil será de abrir mão disso. Embora eu saiba que depois que partir, provavelmente não terei lembrança alguma, mas ainda assim, nesse momento tenho guardado em minha mente e coração tudo o que vivemos. Exceto por todas as lembranças do dia do acidente.


— Tudo bem, tudo bem. A senhorita manda. É só isso. – Sasuke ignora a presença da menina e isso me deixa muito satisfeita.


Não tenho um relógio comigo, mas sei que levamos um tempo considerável para que o Uchiha terminasse de comer o seu “pequeno esforra estomago”, palavras usadas pelo mesmo para descrever a montanha de gordura que foi consumida pelo mesmo.


Podem me chamar de boba apaixonada, mas enquanto eu o via comer pude observar bem seus traços. Seu nariz fino e reto, seu maxilar quadrado perfeito, seus cabelos lisos. E seus olhos. Ah, esses olhos que são capazes de ler-me a alma. A luz no fim do meu túnel toda vez que eu achava que meu mundo estava ruindo. A imensidão negra que trazia-me calma quando meu coração estava em um turbilhão de sentimentos, muitas vezes causados por seu dono.


— O que foi? Tem mostarda no meu rosto? – meus pensamentos despertam-se ao som de sua voz enquanto ele tenta limpar o rosto que não tem imperfeição nenhuma.


— Não, está perfeito como sempre. – arrependo-me na hora pela resposta. Não posso esquecer por momento algum o tamanho do ego do meu lindo namorado. É praticamente um Narciso.


— Então você me acha perfeito, hein!? – o maldito sorriso sacana se apossa de sua boca quando me mantenho em silencio. Ah, mas você ficar calado só dará a certeza a ele de que está certo. Pois bem, entendo uma coisa: se tem alguem que sabe quando eu minto, essa pessoa se chama Sasuke Uchiha. – Certo. Vamos!


Depois que saimos da lanchonete, descemos a rua sem destino, ou pelo menos Sasuke nao quis me dizer para onde.


Para mim, estar ao seu lado sempre foi o suficiente. Na maioria das vezes que nos encontrávamos, era sempre eu quem tentava puxar assunto, mas com o tempo entendi que o Uchiha não é do tipo que fala muito e quando o faz pode ser fatal. Entao me acostumei a apenas tê-lo por perto e apreciar ainda mais a sua voz quando ele decia iniciar alguma conversa.


Mas tê-lo em silêncio agora nao estava me confortando. Nao sabiamos mais quanto tempo teriamos juntos. O meu corpo pode sumir a qualquer momento. Uma vez que nao posso tocá-lo, desejo pelo menos ouvir o sim grave da sua voz.


— Converse comigo, Sasuke. Quero ouvir a sua voz - digo quando viramos mais uma esquina. Aos poucos o cenário torna-se familiar para mim.


— Sobre o que você quer conversar? - eu nao esperava que ele fosse concordar facilmente com o meu pedido. Talvez a ficha esteja caindo para ele.

— Huuuum… - tento pensar em algo que nao vá deixar o clima pesado. - Para qual faculdade você irá?


Dua resposta demora alguns minutos. Antes. De tudo acontecer ele estava indeciso entre a Universidade de Tokyo e a que tem na cidade que fica ha algumas horas. Eu sei que a segunda opção era apenas porquê seria a faculdade que eu frequentaria. Ela nao é grande no curso que o moreno faria, mas é uma das melhores em medicina. Agora que não terá mais a mim para ser um impecilho nada o impede de seguir os seus planos.


— Eu ainda nao sei. Terei tempo para me decidir - é impossível saber se ele está mentindo e dizendo isso apenas para que eu ainda me sinta importante ou se ele realmente está indeciso em relação a isso.


— Eu acho que você tem que seguir os seus planos. A Universidade de Tokyo é a melhor em direito. Nao há o que pensar. - decido deixar de fora a parte em que eu nao irei mais à outra.


— Hum… - ele não dirá nada mais sobre o assunto.


Paramos em frente a porta da sua casa. Ele so pode ser louco. Seus pais devem estar em casa e se o virem o mandaram de volta para o hospital a força.


— O que viemos fazer aqui, Sasuke? - pergunto enquanto ele procura pela chave que sabemos ficar escondida em baixo do vaso de plantas ao lado esquerdo da porta.


— Vim pegar algumas coisas.


Quando entramos o lugar está totalmente escuro e em silêncio. O dia foi exaustivo para os Uchihas.


Subimos as escadas, Sasuke o mais cuidadosamente possível, enquanto que para mim não faria diferença se eu decidisse sair correndo a sua frente ou começasse a imitar um chimpanzé. Ninguém ouviria qualquer som que eu fizesse.


O quarto dele continua o mesmo que as minhas lembranças me permitem recordar. Sua cama está arrumada, mas há roupas espalhadas por todo o lugar. Seus cd's estão jogados na escrivaninha que fica em um dos cantos do quarto. Sasuke anda em direção a ela e pega a pequena caixa de som que ele mantém plugada ao computador.


— Para que isso?- questiona enquanto o vejo indo em direção a porta.


— Só me acompanhe. Você acabará sabendo de qualquer forma. - o sigo enquanto voltamos a descer as escadas.


— Eu sei que saberei, então qual a diferença de você me contar? - ele sabe que odeio ficar curiosa.


— A diferença é que se eu contar perde a graça, querida. - nossos caminhos se separam quando eu sigo em direção a porta, mas ele segue para um corredor.


— O que você fez - pergunto quando o vejo de volta com uma chave nas mãos.


— Fui pegar as chaves do carro.  - ele passa por mim e segue para fora da casa em direção à garagem.


Antes que possa subir, seu corpo trava e ele passa alguns minutos encarando o automóvel. Eu o conheço o suficiente para saber em que ele está pensando agora. Penso em dizer algo divertido sobre eu ja estar morta e nao ser mais perigoso para mim, mas sei também que ele nao gostará de ouvir isso.


— Foi um acidente, Sasuke. Você nao teve culpa - tento confortá-lo e lhe fazer entender que nao há com o que se culpar.


— É claro que tenho. Eu nao deveria ter bebido. Sabia que iria pilotar de volta. Eu tinha a sua vida em minhas mãos e era meu dever protegê-la. Eu fracassei. Era para ter sido eu a perder a vida. - ele chuta a porta do veículo seguidas vezes enquanto murmura algo que eu não consigo entender.


Não, não consigo aceitar o que ele está dizendo. Se fosse eu a estar viva sem poder te-lo novamente, nao tenho certeza que sobreviveria por muito tempo. Meu amor por ele é grande o suficiente para tomar conta do meu ser. So em pensar nisso, o meu corpo fantasmagórico se retrai.


— Por favor, nao diga isso. Eu nao ageuntaria viver sem você. Nao tinha como sabermos o que aconteceria, Sasuke. - tento me aproximar, mas paro quando lembro que não conseguirei toca-lo. - Olha, eu não lembro de como o acidente aconteceu, mas tenho certeza que nao foi você que o provocou.


Seu ataque de raiva é interrompido quando ouvimos a voz da sua mãe na porta da casa. Ela está apenas de camisola e seu rosto demonstra o quão tem sido difícil.


— Sasuke? - ela diz enquanto tenta enxergar em meio a escuridão.


— Entra no carro. - o moreno é rápido em abrir a porta e se acomodar atrás do volante. Corro para o lado do passageiro e me acomodo no banco.


Em poucos segundos saimos da garagem com a mãe de Sasuke chamado por seu nome e seguimos nosso caminho com um Sasuke muito nervoso dirigindo o carro em uma velocidade rápida demais.


— Você não entende. Não sabe como aconteceu. - suas mãos soltam o volante e começam a soca-lo. - Eu não deveria ter bebido aquela noite. Você estava comigo e eu era o responsável por nos trazer bem para casa.


— Sasuke… - tento falar, mas sou interrompida.


— Nao, por favor, me deixe terminar. - suspiro, pois começo a perceber que talvez seja isso que ele precise para ser conformar com tudo o que está acontecendo - Quando estávamos voltando para casa, começamos a conversar. Então eu tive a ideia estúpida de fazer gracinha com a moto e fazer costura na pista. Quando parei, olhei para trás para falar alguma besteira para você, mas íamos passar por um cruzamento e eu não percebi. Quando fui ver já estávamos rolando pelo asfalto. No momento em que acordei do meu desmaio, você estava distante e sangrando muito… - suas duras lágrimas impediam-no de continuar.


Eu não sabia o que falar. Ainda achava que não era sua a culpa. Não tínhamos como adivinhar que algo assim aconteceria. Ninguém tinha como saber. Nao é algo que as pessoas saem de casa esperando que va acontecer. É claro que deveríamos ter tomado cuidado. Mesmo que estivéssemos em um momento de alegria, tínhamos que ter tido a consciência de que não somente estávamos colocando as nossas vidas em risco, mas também as de outras pessoas.


— Eu me arrastei ate você e tentei achar o lugar de onde o sangue vinha, mas não consegui encontrar. Talvez se eu… - interrompo-o antes que possa dar prosseguimento a esse tipo de pensamento.


— Não, amor. Você não poderia fazer nada. Simplesmente tinha que acontecer. - eu sou do tipo que acredita que as coisas acontecem por um motivo. Mesmo que Sasuke tivesse conseguido estancar o sangue, algo mais aconteceria e a minha morte teria ocorrido.


— Que seja! Chegamos! - ele seca as lágrimas, pega a caixa de som que havia jogado no banco traseiro e saí do carro batendo a porta.


Quando olho em volta de onde estamos parados, percebo que ele nos trouxe de volta ao parque onde fizemos o nosso piquenique. Parece que alguém está nostálgico essa noite. Suspiro antes de sair e ir em sua direção.


Paramos na mesma cerejeira que tinhamos ficado antes. Suas folhas não estão tão bonitas quanto naquela noite, mas não faz o local poder a sua magia. A lua também não está tão serena como antes. Ao seu redor luzes alaranjadas a cercam como se, assim como o meu amor, a Sra lua estivesse sangrando. Talvez Orihime esteja se despendido do seu amado Hikoboshi também esta noite.


Sasuke coloca as caixas de som no chão e as configuraça em seu celular. Um som baixo e lento começa a tocar e reconheço a música. É uma música americana que Sasuke detestou quando comecei a ouvi-la e cantar sempre que tinha oportunidade.


— Você odeia essa música. O que está fazendo? - pergunto quando a voz de Sam Smith toma conta do local e Sasuke se aproxima de mim. Ele tenta pegar a minha mão, mas eu me afasto. - Você sabe que não podemos nos tocar. O que está acontecendo, Sasuke?


— Apenas estenda as mãos como se tivesse segurando-me. Vamos, Sakura! Uma maos na minha e outra no meu ombro - faço o que ele está pedindo, mas sinto como se algo em mim estivesse se quebrando. - Eu nao lembro como foi a nossa dança no baile e imagino que você também não. Então, estou fazendo algo que ficará marcado para nós dois.


Eu nao lhe digo que provavelmente não irei lembrar nada do que fizemos hoje quando a minha alma seguir o caminho que tem que ser feito. Nem sei se terei consciência no outro plano, se é assim que podemos chamar. O que vai acontecer comigo é incerto.


Ninguém conhece a vida após a morte. Talvez eu renasça como um bebê e tenha uma nova vida. Há também a chance de eu ser um inseto, uma barata ou abelha. Um céu, com um Deus sentado em uma poltrona e um monte de gente vestida de branco podem estar me esperando com uma bandeja de rosquinhas com uma placa escrito “Seja bem vinda!”. Pode ser também que nao haja nada além de um vazio.


Nao sei e não quero pensar nisso agora. Quero aproveitar esse último momento que teremos juntos, porque sei que esse é o seu jeito de dar o seu adeus. Isso machuca e so me faz pensar que eu não quero ir.


Quero ficar aqui e me tornar uma adulta, me formar em medicina e ser uma grande médica. Quero casar com Sasuke Uchiha e ser a mãe dos seus filhos. Nossos três pestinhas. Teremos dois meninos de olhos verdes e cabelos negros como o do pai. E uma princesinha de cabelos rosas e um olhar onix tão profundos quanto os que me encaram agora. Eu quero tudo isso.


Mas a vida nos pega de surpresa. Nem sempre o que queremos é o que nos é reservado. Mesmo que tentemos mudar o destino ou fugir dele, ele sempre nos encontra e impõe o que te que ser. Talvez essa não seja a vida em que Sasuke e eu viveremos juntos até o fim das nossas vidas.


— Oh, won't you stay with me? 'Cause you're all I need… - ele canta para mim. Agora eu entendo o porquê da escolha da música. - Eu odeio o quanto essa música fala sobre mim agora…


— No fim, ela nao é tao ruim, não é querido? - tento fazer o clima mais leve, mas não há mais o que fazer. Está acontecendo. Ele está me liberando para partir.


— Eu amo você. Você e o seu cabelo rosa foram as melhores coisas que aconteceram na minha vida. Seus gostos horríveis para música e para roupa. E de nd por ter melhorado o seu estilo. - seus olhos ja nao conseguem disfarçar a dor e mesmo que tentassem, as suas lágrimas nao deixariam. - Você é a mulher da minha vida. Não só dessa, mas de qualquer outra que existir. Eu vou encontrar você nao importa onde porque as nossas almas estão entrelaçadas. Eu sou seu e você é minha.


Desejo tanto beijá-lo. Mostrar-lhe que o meu amor por ele também transcenderá  qualquer plano de vida. Que mesmo que o meu corpo nao esteja aqui os meus sentimentos não irão partir comigo.


— Eu te amo, Sasuke. Antes, agora e para sempre… - digo distanciando-me dele.

Eu nao sei como irá acontecer, se irei sumir na sua frente, se uma luz irá descer do céu e me tomar ou se meu corpo irá virar fumaça. Mas eu sei que não quero que ele veja seja la o que for. Quero que tenha essa imagem de nós dois juntos.


— Obrigada por me deixar ir… - ele nao respondê e eu aproveito para correr para longe. Estúpido, eu sei!


Quanto mais corro, mais as coisas ficam embaçadas ao meu redor. Sinto enquanto um sentimento quente e sereno toma conta do meu corpo. Deve ser isso. Esse é o momento em que me dispeso de tudo e de todos. Eu sei que eles irão ficar bem. Vai demorar e eles vao sofrer por um tempo ainda, mas no fim, eles irão voltar a viver e se lembrarão de mim como a pessoa que eu fui. Eu nao sei se fiz o suficiente para ser lembrada como alguém excepcional, mas espero ter mostrado o quanto os amo o suficiente para que eles tenham certeza de que estou partindo, mas o meu coração deixa uma pedaço com cada um deles. Quem sabe a gente nao se encontra em uma próxima vida?

28 de Octubre de 2018 a las 16:30 0 Reporte Insertar 0
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