A Maldição do Clã Minnette Seguir historia

kamyfasouza Kamy Souza

Sua mãe lhe dizia “Jamais cante a canção em dia de Halloween”, mas naquela noite, após Lili se encontrar assustada no meio de uma floresta, ela nem se deu conta de que já havia passado da meia noite, quando as palavras cantadas saíram de sua boca. * História também postada no Nyah! Fanfiction e Wattpad com o mesmo nome de usuário * Esta história foi escrita para o Desafio Gostosuras ou Travessuras do Inkspired


Cuento No para niños menores de 13. © Todos os direitos reservados

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Cuento corto
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Capítulo Único


Notas iniciais:

Essa história foi escrita para o Desafio Gostosuras ou Travessuras do Inkspired. Ela foi desenvolvida a partir de uma imagem selecionada pelas embaixadoras e também pode ser encontrada no Nyah! Fanfiction e Wattpad. 


Obrigada a Sabrina Viana por ter sido uma beta tão querida!


Imagem Pública utilizada para a construção do texto.


***


Era véspera de dia das bruxas, e Lili voltava do colégio observando os edifícios ao redor de seu caminho. Não era de se estranhar, que uma cidade histórica, no quesito bruxas, como Salem, tivesse se tornado um grande palco para a bizarrice, com as casas e locais públicos decorados tematicamente.

Seus vizinhos, todos os anos entravam em uma competição ferrenha pelo jardim melhor decorado. Era só Outubro começar para aparecer em todo canto abóboras esculpidas, esqueletos pendurados, caixões que se abrem sozinhos, zumbis e ambientação sonora com gritos e sons assustadores.

Os turistas adoravam, é claro, mas para ela, que viveu sua vida inteira nesse lugar, o encanto havia se perdido há muito tempo. No entanto, perguntava-se se sua mãe não tivesse ido embora em um dia de Halloween, esse ainda seria seu feriado favorito, como quando criança?

Dez anos atrás, quando Lili não passava dos sete anos de idade, sua mãe, pela primeira vez, não a acompanhou e o pai na coleta dos doces. Disse que os esperaria em casa, mas quando voltaram, já não estava mais ali, e nunca retornou.

Não foi fácil chegar à conclusão de que haviam sido abandonados, pelo menos não para ela. Apenas anos depois, Lili finalmente conseguiu entender o que ela não voltar significava. E, agora, mesmo com toda a diversão a sua volta, não conseguia se contagiar.

Suas melhores e mais vívidas lembranças de sua mãe eram todas ligadas ao Halloween. As duas dividiam o amor pela data comemorativa e seu pai sempre se sentira por fora em relação a isso, nenhuma festividade superava o Natal para ele, e por mais que Lili amasse os presentes, os doces os venciam.

Havia algo em particular de sua mãe, que ela levava consigo todos os dias do ano, mas por um pedido da mesma, tentava esquecer no dia das bruxas. Era algo bobo, mas ainda assim, não conseguia descumprir com o combinado feito quando ainda era pequena demais para se lembrar de muita coisa.

Sua mãe costumava cantarolar uma música por todos os cantos, que soava como um doce encantamento aos seus ouvidos infantis. Depois de muito insistir ela aceitou ensiná-la, mas com uma única condição, que nunca poderia quebrá-la. Lili não deveria, sob circunstância alguma, cantar aquela música no dia das bruxas. “Nesse dia, o véu entre as dimensões está mais fraco”, explicou, “e a canção pode levar seres aonde eles não pertencem”.

Essa história deveria assustá-la, como histórias de fantasmas e o bicho papão, costumam assustar criancinhas, mas não foi o que aconteceu. Lili passou a cantarolar a música todos os dias e em todos os momentos, exceto naquele único dia do ano em que lhe fora proibido. E ainda o fazia.

A noite já surgia quando chegou em casa e encontrou seu pai na cozinha, fazendo o jantar. Foi recebida calorosamente por seu cachorro, Bô, um labrador dourado, que latiu com entusiasmo e pulou em suas pernas. Deixou sua mochila em uma cadeira e sob os protestos do pai, pegou a tigela com os doces que ele havia comprado para distribuir no dia seguinte e desembrulhou um após outro enquanto contava sobre seu dia.

Quando a torta de frango ficou pronta e se sentaram juntos para jantar, ela já se sentia empanturrada de doces, mas comeu mesmo assim, uma fatia pequena, para não ouvir um detestável “eu te avisei”.

— Tem planos para a noite de Halloween? — seu pai perguntou entre uma garfada e outra.

— Sim. Uma maratona de filmes temáticos me aguarda em meu quarto. Começando por As Bruxas de Salem.

— Uhn. — olhou-a por baixo, cutucando a comida. — Isso quer dizer que eu não te levarei para pedir doces esse ano?

— Sim, como nos últimos quatro anos, pai. — respondeu rindo.

Lili se levantou, colocou as louças sujas na lavadora e se despediu com um beijo de boa noite de seu pai. Após tomar banho e vestir um pijama confortável, recolheu-se em sua cama com o notebook e doces que havia escondido nos bolsos do casaco antes de deixar a tigela de lado para jantar. Bô se juntou a ela, enroscando-se confortavelmente com as cobertas aos seus pés.

O filme se aproximava de sua metade quando Lili começou a bocejar, seu metabolismo ignorando todo o açúcar que havia consumido, e entre uma piscadela e outra, surpreendeu-se ao abrir os olhos novamente e encontrar os créditos do filme subindo pela tela de seu notebook.

Desnorteada, coçou os olhos e bocejou, checando a tela do celular para verificar as horas. Faltava pouco para a meia noite. Sua casa estava em completo silêncio, assim como o lado de fora, iluminado pela grande lua e postes de luz amareladas. Procurou pelo cachorro, que não estava mais ao pé de sua cama, a porta do quarto estava aberta, ele provavelmente foi dar uma volta pela casa e voltará logo, considerou.

Voltou a se recostar contra os travesseiros, ainda sonolenta, quando ouviu latidos familiares vindos de fora da sua janela. Deixou a cama e se debruçou sobre ela. Parado em frente à casa, no encontro entre o gramado e o passeio, Bô latia para o vazio.

— Ei, Bô! Como foi parar aí fora?

O cachorro se virou para a olhar a dona, mas diferente do que ela esperava, ele correu, rua afora, se distanciando da residência enquanto os latidos se tornavam mais baixos em seus ouvidos.

— Bô! — chamou uma última vez antes de se afastar do parapeito.

Calçou as botas de lã caramelo e vestiu um casaco por cima do pijama antes de sair do quarto pela porta aberta. Seguiu o corredor até o quarto de seu pai que já dormia. Tentou acordá-lo, chamando por seu nome, mas foi impossível, talvez a caixa de remédios no criado-mudo ao lado da cama tivesse algo a ver com seu sono pesado. Há anos ele tomava calmante para dormir melhor.

Decidiu ir sozinha atrás do cachorro, mesmo que a noite fria lá fora não lhe parecesse convidativa. Saiu pela porta da frente, que já encontrou entreaberta. Daria uma bronca em seu pai na manhã seguinte por não a ter trancado direito.

Andou apressada pelo passeio, seguindo o caminho que viu o cachorro fazer, até dobrar uma esquina e o encontrar parado, encarando a floresta a frente. Lili nunca gostou daquele lugar, não era uma garota medrosa, mas coisas ruins sempre aconteciam em lugares como aquele nos filmes e livros. Não a frequentava nem sob a luz do dia em dias comuns, mas ainda assim, após chamar Bô, e ele a olhar uma segunda vez aquela noite e sair correndo para longe dela, dessa vez floresta adentro, ela o seguiu. Depois de uma vida sem chegar perto daquele lugar, ela estava se aventurando justo em uma noite como aquelas, véspera de Halloween, faltando pouquíssimos minutos para a virada do ano novo Celta, ela podia até visualizar aquela cena sendo passada em uma tela de cinema.

À medida que adentrava na escuridão coberta por galhos que machucavam suas mãos enquanto os afastava do caminho, procurou a volta pelo cachorro com os olhos arregalados e os ouvidos atentos. Ela queria chamá-lo, mas não conseguia erguer a própria voz. O cheiro de terra e musgo e os sons de animais noturnos, como o piar de uma coruja, o cantar de cigarras e o cricrilar de grilos acompanhavam seus passos. E tudo parecia a sobressaltar, desde as sombras das árvores aos movimentos de pequenos animais farfalhando nos arbustos.

Começou de modo automático. Ela cantarolou, inconsciente das palavras que deixavam a sua boca em tom baixinho, a canção que sua mãe costumava cantar. O cântico, desde a sua infância, a acalmava, confortava e fazia com que se sentisse segura, mesmo que a letra não a fizesse sentido.

O chamado irá nos unir

O apelo você sentirá

Seu sangue e meu sangue um se tornará

Me chame na noite

Uma ou duas poderiam libertar

As vozes em sua mente irão te guiar

Escute o chamado, virei do outro lado

O vento se intensificava à medida que caminhava, correndo mesmo por entre as árvores, chacoalhando as copas cheias de folhas. Uma lufada de ar mais forte levantou grãos de terra e folhas soltas do chão em direção ao seu rosto, ela se defendeu o tampando com o braço, encolhendo-se ao ouvir o latido estridente, que parecia ter vindo do alcance de sua mão, misturando-se a um som distorcido, rouco e distante.

Com o coração acelerado em seu peito, apertou os olhos com força, cantarolando em tom mais alto e urgente, e permaneceu assim, de rosto tampado, parada no meio da floresta, até tudo a sua volta mudar. Os sons da natureza deram lugar a exclamações e indagações abafadas, o cheiro de terra e musgo se misturaram ao de madeira queimada, e o calor de chamas aqueceram seu corpo gelado.

Lili abaixou o braço e abriu os olhos, arregalando-os ao não se encontrar mais sozinha em uma floresta, mas em uma clareira, com pessoas a circulando com olhares curiosos, em sua volta e da fogueira ao seu lado que chamuscou a ponta de seu casaco de tão próxima ao seu corpo. Girou, sem sair do lugar, seu olhar correndo de um rosto ao outro, daquele pequeno grupo de mulheres e homens que se vestiam de modo a parecer terem saído de um filme do século XVII. Ela tentou assimilar e compreender todos os novos estímulos à sua volta, mas por fim, ainda incrédula com o que havia diante de seus olhos, seu corpo desfaleceu ainda ali, ao lado das chamas estalando.

Já fazia sol quando ela retomou a consciência. Em um primeiro momento, achou estar na segurança de sua casa, na própria cama, e as lembranças da noite conturbada que tivera não haviam passado de um sonho louco. Mas não durou muito para perceber estar dentro de uma antiga casa de madeira, deitada sob cobertas que não eram suas. Até o cheiro ali era diferente do que sentia em casa, não era dos mais agradáveis também, e o som... Pensou ter ouvido o cacarejar de galinhas, o relinchar de cavalos e o ronco de porcos.

Ao se sentar e olhar para o cômodo em volta, deparou-se com a mulher sentada em uma cadeira ao seu lado, encarando-a com os olhos castanhos em um rosto severo. Lili se afastou da maneira que pode, trazendo os joelhos para perto de peito e se encolhendo no canto entre a cama e a parede.

— Onde estou? — questionou em tom rigoroso.

— Segura.

A resposta a irritou, se é que poderia chamar a sentença assim, já que não havia respondido a pergunta feita. Ainda assim, ela se sentiu menos vulnerável na presença daquela mulher, ajeitou-se, baixando os joelhos e alongando a coluna.

— Mas onde? E como vim parar aqui? Eu quero que me diga o que está acontecendo, agora!

A mulher se inclinou para a frente, a olhando ainda mais intensamente.

— Eu poderia fazer as mesmas perguntas que você. Você que apareceu aqui, não eu. Mas nós duas sabemos bem o que aconteceu. Você quebrou a regra, cantou a canção no único dia que não deveria.

— A canção? — repetiu, sem convicção, sua mente já trabalhando em sua própria explicação. Aquela mulher era louca e ela deveria ter se encontrado com um culto na floresta! Ignorou completamente o fato de uma estranha parecer saber da canção de sua mãe.

Levantou-se depressa, ficando de pé sobre a cama antes de pular para o chão e correr para fora do quarto. Percebeu que suas roupas haviam sido trocadas por um vestido simples, de tecido que pinicava sua pele, enquanto corria pelo corredor curto até seu fim, em uma sala com a porta da frente. Abriu-a com um rompante e atravessou, atraindo os olhares dos poucos transeuntes do outro lado, no que parecia ser um pátio circundado por outras casas junto qual saiu.

As pessoas a olhavam quase tão curiosas quanto ela estava assustada por encontrar aquele local do lado de fora da porta, com pessoas vestindo roupas tão incomuns quando a mulher dentro da casa e as que se deparou em volta da fogueira quando ainda era noite. As casas também pareciam como a que havia saído, em modelo antigo. Alguns animais circulavam livres pelo espaço de terra batida. Um poço marcava o centro do povoado, onde uma mulher de longos cabelos preto e silhueta fina colhia água. Lili percebeu assim que a mulher se virou, não via o rosto há anos, mas os traços, mesmo com o passar dos anos, ainda eram reconhecíveis para a menina que um dia foi uma garotinha o admirando.

— Mãe. — o murmúrio mal teve som, ainda assim, a mulher lhe sorriu, linda e iluminada, com doçura.

Momentos depois, sentada em uma mesa de frente para a mulher, Lili mal podia acreditar no que estava acontecendo, mesmo após tudo ter sido explicado a ela. Ainda olhava para o rosto pálido como se visse um ser fantástico enquanto sua mente tentava organizar o que havia escutado.

Existe uma maldição que quem compartilha do sangue Minnette está preso, mulheres e homens com o dom da magia, que por gerações, lidam com um demônio próprio, ligado pelo sangue, que se alimenta da magia e força vital da linhagem.

A canção, criada há quase tanto tempo quando a existência de demônios e do Clã Minnette, era uma forma de manter a ligação mais estreita, sem que ele pudesse se afastar e causar o mal em outro lugar. Quem a cantasse criava um laço especial, e em uma única noite do ano, era capaz de transportá-los de acordo com o desejo do invocador. Por isso Lili havia parado ali, ao lado de sua mãe.

A medida que o demônio se alimentou da linhagem, enfraqueceu-os, enlouqueceu e por fim, quase os exterminou. Morgan explicou que ela e Lili eram as últimas do clã em seu tempo, as últimas de sua linhagem, e a única fonte de alimento, e sendo Lili uma criança, e, por consequência, mais fraca, o demônio a sugava e enfraquecia, mais do que a ela, motivo de ela sempre estar doente quando pequena. Por isso ela teve que partir.

Morgan foi embora para que ele não ferisse mais a filha. Por toda a vida, não se importou com os efeitos que ele lhe causava, mas quando percebeu que ele poderia machucá-la definitivamente, não pode suportar a ideia. Ela partiu com a esperança que quando se encontrasse com seu clã, em um momento em que estavam fortes e unidos, pudessem prendê-lo e o impedir de voltar a fazer mal a qualquer um. Eles o conseguiram fazer com a criação de um segundo encantamento.

— Por que você não voltou após prendê-lo? — questionou, ainda chateada por todos os anos que passou sem a mãe.

Morgan segurou as mãos da filha sobre a mesa, se inclinando em direção a ela, e a encarou com um olhar cheio de significado.

— Se eu cantasse novamente, o libertária, e tudo teria sido feito em vão.

Lili percebeu neste instante. Quando ignorou a regra, e cantou a música em uma noite de Halloween, mesmo inconsciente do que fazia, invocou e libertou o demônio de sua prisão. Jogando fora o sacrifício de anos de sua mãe. E agora, ele está ligado a ela, como um dia esteve com sua mãe.

— Vocês precisam prendê-lo de novo, certo? — perguntou, mesmo já sabendo a resposta. Ninguém queria um demônio solto por aí, quando tanto já havia sido feito para prendê-lo.

— Sim. — Aquele era o olhar de mãe que ela sempre sentiu falta enquanto crescia, aquela compreensão e amor passado tão singelamente.

— E eu nunca mais vou poder voltar para meu tempo, para papai?

O aperto em sua mão se intensificou.

— Eu sinto muito.

Ela mal entendia como podia ter acabado ali, com aquela história, sem volta para sua casa, seu lar e seu pai. Mas ainda havia uma compreensão profunda, que não sabia de onde vinha.

— Tudo bem. Só me diga o que tenho que fazer.

Todo o clã passou o dia se preparando para o ritual que deveria acontecer antes daquela meia noite, quando o véu estaria mais fino entre todas as dimensões e o demônio poderia ser aprisionado em um lugar ermo novamente. As nove pessoas, quatro homens e cinco mulheres recolheram os artigos necessários enquanto Lili foi deixada com um livro, estudando o ritual que fariam e descobrindo a existência de centenas de outros. Sua mãe deixou clara a importância de manter sigilo do resto do povoado, e a deixou com uma garota, quase de sua idade, para lhe fazer companhia. A garota, filha da mulher que a encarava quando acordou, e dona da casa, apresentou-se como Mary, dizendo que elas poderiam ser como primas agora, e se mostrou uma tagarela entusiasmada.

Não havia muitos bruxos da sua idade, ou mais novos, contou. Eram tempos perigosos para se ter crianças sem o controle de sua magia e havia sido Morgan a lhes avisar sobre isso, dez anos atrás. Explicou que os animais são mais sensitivos, talvez por isso seu cachorro havia a levado na floresta aquela noite, algo deveria ter o atraído, talvez algum ser sob o comando do demônio, mas não poderia causar mal, e ele estava bem, sem dúvidas. Essa era a maior preocupação de Lili, que já havia aceitado todo o resto, e era bom ter a confirmação de que o cão estava bem. Ele seria uma boa companhia para seu pai, agora que ela nunca mais voltaria para casa.

Seu maior pesar era que seu pai nunca saberia que não foi uma escolha dela deixá-lo, acima dessa, só saber que não havia a chance dele as encontrar ali. Ele não tinha o tipo certo de sangue.

Quando o dia começou a escurecer, dando lugar a noite, o grupo se esgueirou para fora de suas casas e seguiram pelas sombras para a floresta, onde o ritual aconteceria. Vestidos com túnicas brancas, eles acenderam uma fogueira e se uniram em volta dela. O coração de Lili saltava acelerado em seu peito e um suor frio escorria de sua têmpora.

Seu único conforto era sua mãe estar ao seu lado, mas nem isso a fazia se sentir segura no momento. Iam invocar um demônio, quais as chances de isso dar errado?

Diria ter se tornado uma especialista no ritual após ter passado horas com o livro, no entanto, mesmo sabendo o que aconteceria, sentiu um arrepio quando viu a faca que foi passada de um a outro enquanto abriam um corte em cada uma de suas palmas das mãos. Ao chegar sua vez, suas mãos tremiam tanto que mal conseguiu segurá-la.

Morgan pegou a faca gentilmente, sorriu confortadora e passou a lâmina pelas palmas de Lili, causando ardência e um pouquinho de vertigem ao olhar para o sangue fluindo.

Quando a faca já havia passado por todos, deram as mãos fechando o círculo, selado pelo sangue. O demônio passou o dia todo distante, oculto, por saber o perigo que sofria de ser aprisionado novamente, mas quando os convocassem com a canção, ele não teria opção a não ser aparecer e seria nesse momento que fariam o encanto de aprisionamento.

— Fique tranquila, Lili, ele não pode te machucar. Estamos seguros. Apenas não quebre o círculo. — Morgan a instruiu em tom suave, segurando sua mão de um lado.

Mary a segurando pela outra mão, sorriu quando Lili virou o rosto para olhá-la. Era a primeira vez que ela também faria o ritual, mas diferente de Lili, ela parecia ansiosa por ele. Talvez tivesse a ver com o fato de ter estado perto da magia e conhecê-la por toda a sua vida.

— Você precisa começar. — Sua mãe incentivou.

Quando soube que daria início ao ritual, logo ao ser apresentada a ele, sentiu-se ainda mais nervosa, se era possível, e agora, isso não havia mudado, ela podia sentir, queimando na boca de seu estômago.

Apertou os olhos e respirou fundo. Queria poder ficar com os olhos fechados por todo o ritual, mas após começar a declamar o cântico, os outros se unirem a ela, sentiu o vento a sua volta se intensificar e o rugir com cheiro de enxofre soprado em seu rosto, ela os abriu e o encontrou no centro do círculo, fundindo-se com o fogo em uma massa com formação grotesca humanoide, algo digno de pesadelo, caso tivesse a capacidade de imaginar algo tão aterrador.

O tempo a sua volta pareceu avançar enquanto ela estava presa ao momento. Os outros passaram ao segundo encantamento, e durante todo esse tempo, ela só conseguiu encará-lo, boquiaberta, magnetizada pelos olhos escarlates que pararam de fitá-la e passou a se debater de um lado a outro, tentando se desvencilhar, escapar.

Sua respiração falhou, ela estava hiperventilando, e seu instinto de luta ou fuga escolheu um caminho. Lili tentou soltar a mão, mas os apertos pareceram de ferro em volta de seus dedos. Bastou um olhar na direção de sua mãe para se lembrar do que havia sido dito. Fique tranquila, Lili, ele não pode te machucar, ouviu sua voz se repetindo em sua mente, o tom calmo a contagiando.

Quando a sua volta mudou novamente, ela tentou não se impressionar. O fogo aumentou de repente, antes de diminuir gradualmente, com a sombra do monstro que momentos atrás estava presente,  esvaindo-se. Ele estava sendo banido. E vestígios da outra dimensão se fizeram visíveis aos olhos.

Ali, próximo, e ao redor do círculo,  misturando-se a floresta e emergindo por entre as árvores, seres de mais de dois metros, com peles de piche e corpos etéreos, apareceram por apenas um instante, mostrando um pequeno fragmento do que existia lá fora, antes que o fogo retornasse ao seu comum e o encantamento terminasse.

— Conseguimos? — Lili questionou sua mãe, os olhos ainda arregalados deixavam seu rosto mais infantil.

— Sim, querida. Estamos todos seguros de novo.

Eles comemoraram com abraços e risadas, aliviados e agradecidos por tudo ter dado certo, mas logo foram interrompidos. Surgindo muito menos discretamente que os seres da outra dimensão, esmagando sob seus pés folhas caídas e arbustos rasteiros, com as vozes se elevando em gritos de ódio, homens entraram na clareira pela floresta às suas costas, usando o mesmo caminho que fizeram até ali, com tochas, foices e forquilhas erguidas em suas mãos.

Tentaram resistir, lutando contra as mãos que os agarravam a força, contra os objetos pontiagudos que espetavam suas peles, sem nunca utilizar de sua magia, haviam jurado nunca a usar contra os humanos, mesmo que estes estivessem os condenando, como era a ocasião.

Lili foi jogada de um lado ao outro, assustada, enquanto sua mãe tentava lhe proteger, sem compreender exatamente o que se passava à sua volta. Ela ainda se perguntava o que estava acontecendo mesmo quando as mulheres de seu clã foram levadas, com as mãos amarradas às suas costas com uma corda áspera, de volta para seu povoado, até uma grande árvore, onde uma corda grossa estava presa em um galho alto.

Ela se agarrou com força em sua mãe, mantendo-se perto mesmo sem poder segurá-la, o terror maior do que em qualquer momento que vivenciou aquela noite.

— Mãe, o que está acontecendo?

Um homem surgiu à frente do pequeno grupo reunido ali, discursando. Lili o identificou, assim como alguns dos outros, como pessoas que havia visto, de longe, aquele dia.

— Estamos sendo acusadas de bruxaria. — A calmaria do tom de sua mãe não condizia com a ocasião.

— Esse é o julgamento das bruxas de Salem? — Lili podia sentir seu coração pesando em seu peito. Uma sensação tão ruim se instalara em seu ser que mal conseguia respirar.

— Não, Lili. Não somos tão importantes assim. — Morgan se aproximou ainda mais da filha, encostando seu rosto ao dela. — Esse é o dia do massacre do Clã Minnette. Aquelas mulheres eram inocentes, nós não. Merecemos a punição por todo mal que nossas ancestrais causaram e por nossos pecados.

— Não, mãe. — Lili se recusou a acreditar. — Nós somos boas, você é boa. Não merecemos. — Seu rosto se umedeceu com lágrimas que tentou desesperadamente controlar.

— Por que acha que temos um demônio preso ao nosso sangue? — Perguntou em tom adocicado, tentando fazê-la compreender que não, não eram tão bons e inocentes assim, apesar de a amar. — Mas você, você não merece isso, Lili. Você tem uma chance, precisa voltar para casa.

Lili compreendeu o que sua mãe propunha, mas como ela poderia aceitar aquilo? E mais importante, como sua mãe poderia sugerir?

— O que? Não! Nós o prendemos! Não posso soltá-lo. — respondeu decidida.

— Você precisa! — Rebateu em tom firme, irredutível. — Você não pode morrer aqui e é o que vai acontecer se não o fizer.

— Mas isso não seria melhor? Se não tivesse nenhum de nós, seria o fim daquele demônio.

— Eu não poderia suportar saber que fui a culpada por se ferir. Eu não me importo com demônios ou qualquer outra coisa, só me importo com você. Tudo o que fiz foi por você, querida.

— Então você tem que voltar comigo. Eu canto, se você cantar e voltarmos juntas.

— Isso não é possível, você sabe. Ele está ligado a você agora. A canção não funciona mais para mim.

Antes que Lili pudesse respondê-la, ou que encontrasse um meio de burlar aquilo e partir com a mãe, um homem se aproximou, pegando Morgan pelo braço, e a puxou em direção a forca.

— Faça, Lili! — Gritou, lutando contra o homem para se soltar. — Por favor, faça antes que veja isso. Antes que me veja morrer!

Olhou em volta procurando pela ajuda de alguém. Os homens não estavam ali, eles haviam sido mortos na floresta, haviam lhe dito. Bruxos, não tinham tanto apelo quanto bruxas, para serem executado com aquele teatrinho. E olhando a sua volta agora, sentiu a falta de mais uma pessoa. Mary. Ela devia ter achado um meio de escapar, e estava feliz por ela, apesar do peso em seu peito não a deixar sentir isso. Lili só sentia desolação, por saber que sua mãe, e todas ali morreriam, e não havia nada que ela, ou ninguém mais pudesse fazer. Já era história.

Gostaria de saber usar a magia, não hesitaria em usá-la contra eles, não havia feito um juramento, e nada parecia mais importante do que salvar a todos. Mas não o sabia, e estava tão impotente que se sentia como se estivesse não só com as mãos atadas, mas também os olhos vendados e os tímpanos perfurados.

Voltou a olhar para sua mãe a tempo de vê-la sendo colocado sobre um banquinho, e o laço da corda preso em volta de seu pescoço. Havia acabado de encontrá-la, de descobrir que não havia sido abandonada, mas deixada para sua própria segurança, e estava prestes a perder sua mãe novamente. E pior, por sua culpa! Se não tivesse cantado a música, quando havia sido dito expressamente que não deveria, todas aquelas pessoas que havia conhecido estariam bem, e a sua mãe também. Ela era a culpada! Não parecia justo. E havia gerado um paradoxo sem ao menos perceber.

Os olhos de sua mãe tinham firmeza enquanto a encarava, sem medo, destemidos, apesar do sorriso triste em seus lábios, e quando um “eu amo você” os deixou, Lili soube que não havia mais tempo com aquela mulher, ou ali.

Apertou os olhos e cantarolou a música com angústia, sabendo que causaria mais mal do que bem. Fazia aquilo para se preservar, mas parecia apenas adiar o inevitável, ou morreria pela forca, ou como alimento de demônio. Tudo parecia ter acontecido para um grande nada.

Quando voltou a abrir os olhos, com o coração acelerado e o corpo úmido por suor frio, sem saber o que viria a seguir, se surpreendeu por se encontrar na segurança de seu quarto, com seu pijama, Bô deitado em suas pernas e o filme já depois dos créditos, iluminando a tela de seu computador.

Respirou com alívio, passando a mão pelo rosto molhado.

Não havia passado de um sonho, ou melhor, um pesadelo. Racionalizou, mesmo que ainda sentisse o gosto amargo do que presenciara. Aquilo não era uma novidade, sonhos confusos assim costumavam acontecer quando chegava o dia das bruxas, não tão intensos, ou realistas, mas sempre presentes. Era apenas manifestação da saudade que sentia por sua mãe, e dos doces que comeu antes de se deitar. Riu de nervoso, soltando o ar com força, tentando se livrar dos vestígios que não a deixava desacelerar.

O dia lá fora começava a clarear, mas o quarto ainda estava um breu, iluminado apenas pela luz do computador. Ela fechou a página, e desligou o aparelho,  recostando-se e tentando relaxar. Mas mesmo em meio a tentativa e a ausência de tudo o que a fizera mal aquela noite, o sentimento de realidade não a deixou. Ela ainda sentia em sua pele o cheiro da fumaça, o calor do rosto de sua mãe contra o seu e a sua mão junto a sua, a doçura da companhia de Mary, o terror com a visão da forca, e a intensidade da presença do demônio, que parecia esmagar seu corpo naquele exato momento.

Seu coração voltou a saltar no peito quando após olhar as pressas pelo quarto, reparou em um canto, saindo das sombras, esferas vermelhas a fitando. Sentiu um completo terror, enquanto a forma se aproximava, grandiosa e aterrorizante, o mesmo da primeira vez que o viu, e enquanto o encarava, o cansaço a tomou, e o ar lhe faltou. Ela sentia como se sua energia estivesse se esvaindo, sendo sugada de seu corpo. Procurou forças para falar, e a encontrou no último olhar que trocou com a sua mãe. Havia sido real. Ela precisava sobreviver. Havia sido seu último pedido, e ela deveria honrá-lo.

— Eu sou a última do Clã Minnette. — Sua voz se ergueu com muito mais força do que ela achou que teria. — Se eu morrer, você morre. — A ameaça em seu tom e em suas palavras foram claras. — Acho melhor maneirar.

Um som gutural o deixou enquanto se tornava mais nítido, deixando as sombras, ele se revelou completamente para Lili pela primeira vez. Ela ergueu o rosto, encarando o ser dois metros por baixo. Sua pele negra como piche era marcada por protuberâncias escamosas, chifres curvos surgiam em suas têmporas e asas de morcego se estendiam em suas costas. Engolindo em seco e tentando sustentar o olhar sem se abalar, Lili entendeu o som incompreensível como uma confirmação.

— Que bom que estamos de acordo. 



29 de Octubre de 2018 a las 18:11 5 Reporte Insertar 6
Fin

Conoce al autor

Kamy Souza 20 anos. Ariana. Estudante de Psicologia. Leitora. Escritora. Viciada em séries. Apaixonada por música. A louca dos gatos. ♛

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Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Olá, tudo bem? Como foi participar do desafio? Se divertiu? Esperamos que tenha sido uma experiência mais agradável do que a da Lili, que, tadinha, não poder salvar a mãe. Mas, ao menos, conseguiu voltar para casa e manter um relação meramente amigável com o demônio, que de fato era um demônio horrendo e não um cara gato com sotaque britânico! A forma como narrou a história em volta da imagem foi interessante, conseguiu desenvolver a história de uma forma gostosa de se ler, sem muita enrolação, indo direto ao ponto. Apesar de ter ido muito bem, em alguns momentos, a narrativa muda com muita facilidade, sem dar nenhuma pista ou espaço ao leitor para compreender o que está acontecendo, como quando Lili se reencontra com a mãe e num momento ela está descrevendo o susto e a surpresa de encontrar a mulher e no parágrafo seguinte há uma mudança brusca onde nos é despejada a história da família. Sugerimos que revise o texto e adicione, nem que seja uma única frase, mas algo que faça a conexão entre os parágrafos, que não os deixe tão soltos. Parabéns pela história!
27 de Diciembre de 2018 a las 18:50
Mori Katsu Mori Katsu
Nunca, jamais, em hipótese alguma saia a noite em busca do cachorro. Nunca, jamais, em hipótese alguma, siga o cachorro para becos escuros. Escrevi isso quando li o início 👆 Viu no que dá seguir o cachorro?! Sua história é muito boa. Queria continuação. Ela controlando seus poderes de bruxa, mandando vê na magia e controlando o demônio colocando-o em seu devido lugar.
12 de Noviembre de 2018 a las 19:33

  • Kamy Souza Kamy Souza
    Hahaha' você já estava prevendo! Aí, aí, se a nossa protagonista fosse um pouquinho mais esperta não teria passado por isso, né? Fico muito contente que tenha gostado, obrigada! Como foi feito para o desafio, não tenho planos de fazer uma continuação, mas tem razão, seria bem bacana ver essa dinâmica entre os dois e ela aprendendo mais sobre si mesma. Obrigada por ler e comentar! 15 de Noviembre de 2018 a las 10:26
Yuui C. Nowill Yuui C. Nowill
Intenso. É assim que posso definir essa história. Nada de coisas bonitas, nada de coisas bobinhas. O demônio era de fato um DEMÔNIO (apesar de eu desejar por um cara bonito kkkkkk me perdoa). As bruxas foram julgadas como sempre foram: más, vilãs, sem chance de defesa. As magias foram descritas de modo breve, porém efetivo, para causar pesar. E nunca um dia das bruxas fez tanto sentido: a fina camada que separa esse mundo do outro, transpassando dimensões, tempo, distorcendo a realidade. Fiquei muito surpresa com o rumo da história e principalmente com a coragem de Lili; ela definitivamente é uma bruxa, pois somente uma encararia com tanta desdém o demônio. Parabéns pelo conto!
1 de Noviembre de 2018 a las 02:18

  • Kamy Souza Kamy Souza
    Ah, mas é claro que te perdoo, esse tipo de demônio também tem um lugarzinho especial no meu coração rsrs Esse tipo de texto não é minha praia, sou mais de escrever romances e dramas, então me aventurar em algo mais voltado para o "intenso", como você colocou, me deixou um pouquinho insegura, mas que bom que gostou! Fico mais aliviada com o feedback positivo. E sobre o final, eu realmente não podia imaginar outro meio de acabar, que bom que fez sentido rsrs Obrigada por ler e comentar! 1 de Noviembre de 2018 a las 20:58
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