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hikarinohimewriter HikariNoHime Writer

Ainda que duas pessoas sejam feridas da mesma forma, cada uma sentirá os efeitos com sua própria intensidade. O que é uma brincadeira para alguns pode destruir completamente a vida de outros. Uma única palavra, um único gesto pode ser capaz de machucar uma alma, destroçar um coração e enlouquecer a mais brilhante das mentes. Kaneki entendia muito bem daquilo, entre as paredes brancas de um hospício: responsável pelo garoto que tanto o confundia e, ao mesmo tempo, o ajudava a seguir em frente, assim como sabia que apenas uma palavra certa era o suficiente para restaurar a confiança quebrada por um mundo cruel. Só havia uma coisa que ele não sabia: o que fazer quando o amor supera o medo e a razão?


Fanfiction Anime/Manga Sólo para mayores de 18.

#romance #Tokyo-Ghoul #Ayato-Kaneki #AyaKane #Psicólogo-Paciente #trauma #drama
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O Paciente Do Quarto "0"

“Só existem duas opções...”

A brisa suave, o cheiro da grama recém-cortada, o som das risadas das crianças no andar inferior e os tons alaranjados que preenchiam o céu crepuscular. Sons, cheiros e o jogo de luz e sombras criado pela Mãe Natureza. Todas aquelas coisas pareciam lutar pela atenção daquele homem, numa vã tentativa de desviar os olhos prateados para qualquer outro lugar. Entretanto, eles permaneciam fixos no garoto de cabelos escuros, perscrutadores.

Atentos o suficiente para perceber o incômodo que sentia com os cabelos que caíam sobre os olhos, o modo como o peito movia-se suave e lentamente e os lábios entreabertos, auxiliando-o a adquirir o oxigênio do qual tanto necessitava.

— O que lhe aconteceu e o que você escolheu ser — continuou sem dar-se ao trabalho de encará-lo, como se fosse algo sem sentido, desnecessário. — Apenas uma dessas duas coisas é a responsável por quem você irá se tornar. — Colocou uma mecha dos cabelos atrás da orelha, por fim encarando o homem de jaleco impecavelmente branco, assim como os cabelos que pareciam um monte de plumas. — Ser um assassino para castigar seus pais? Desistir de viver por causa de um acidente que lhe tirou algo importante? Lutar contra seus próprios demônios? Superar suas dificuldades? No fim, mesmo passando pelas mesmas coisas, o ser humano sempre tem algo que o diferencia dos demais. Algo que o faz único em meio à uma multidão. Não acha isso intrigante, sensei? — indagou com um meio sorriso.

O mais velho colocou as mãos nos bolsos frontais do jaleco, enfim desviando o olhar do garoto que o encarava, aguardando pacientemente uma resposta que, ele sabia, logo viria.

— De fato, a mente humana é algo realmente interessante e que exige estudos contínuos e ininterruptos, uma vez que está em constante mutação. Entretanto, gosto mais de pensar no porquê disso — pronunciou-se em um tom brando. Seus olhos voltaram-se para o garoto que ouvia suas palavras atentamente. — Desistir e persistir. Superar e ser superado. Por que tanta divergência se as situações são as mesmas? Não tem curiosidade em tentar entender o que nos leva a isso? — devolveu a pergunta.

Todos temos essa curiosidade, sensei. A diferença é que algumas pessoas como você optam por seguir esse caminho atrás de respostas e outras não — comentou ainda mantendo aquele sorriso que cada vez mais intrigava o homem à sua frente. — O acontecimento ou a escolha. Quem você é, sensei? — Seu tom agora mais parecia um sussurro denso e profundo, daqueles que poderiam ficar reverberando em sua cabeça por vários dias, tirando seu sono e fazendo você questionar-se sobre a origem do universo.

— Acredito que é hipocrisia fazer essa pergunta sem saber a resposta — retrucou. Uma risada fez-se presente, preenchendo a sala branca silenciosa.

— Você é mesmo uma pessoa interessante, sensei — comentou divertido. Olhos azuis brilharam com um leve divertimento quando ele começou a se retirar da sala.

— E você um louco — alfinetou por puro e simples prazer de tentar irritar o mais novo; arrancar alguma reação que não fosse a calma ou diversão, talvez.

— “Sou eu, ou os outros que estão loucos?” — recitou ainda com um sorriso no rosto. Kaneki ergueu a sobrancelha direita, um sorriso divertido desenhando-se também em seu rosto.

— Não sabia que você gostava de Einstein — comentou observando o outro parar na porta para encará-lo uma última vez antes de sair.

— E eu não sabia que você gostava de mangás — devolveu. Kaneki controlou-se para não rir; definitivamente não estava acostumado a ter um paciente com uma língua tão ferina, muito menos um que sempre conseguia o surpreender daquela forma.

Kirishima Ayato, 16 anos. Inteligente, bem-sucedido nos estudos, orgulho da família. Tudo o que pais poderiam sonhar em um filho, mas ainda havia algo que o deixava inquieto em relação ao garoto.

E aquele algo fora justamente o que o fez assumir a responsabilidade pelo paciente.

— Te vejo amanhã, Ayato-kun — despediu-se.

— Até amanhã, sensei. — E o clique suave da porta deu aquela conversa definitivamente por encerrada.



— Então — começou Hide entre goles de café —, você chegou a alguma conclusão sobre o garoto? — indagou. A curiosidade estava estampada nos olhos chocolate, o que era um tanto desconcertante para Kaneki.

Os dois caminhavam lado a lado pelo corredor branco da clínica. O intervalo da tarde tinha se encerrado há pouco, e aquela era um ótimo momento que os dois tinham para trocar experiências, literalmente falando.

— Não — respondeu. Passou as mãos pelos cabelos brancos, afastando os fios que insistiam em cair sobre seus olhos. Uma criança passou por eles em passos afobados, cabelos castanhos saltando sobre os ombros magros. Kaneki sorriu. — E do jeito que aquele cara é, duvido que vou chegar a algum lugar.

— Eu adoraria ver vocês dois numa sessão algum dia — comentou Hide com os olhos brilhando. — Deve ser incrível ver dois gênios em uma discussão intelectual. — Riu imaginando a cena em questão, achando graça consigo mesmo. — E o QI dele é o mesmo que o seu, 169, certo?

Interromperam-se para cumprimentar um outro médico que passava por ali. Se Kaneki bem se lembrava aquele era o fisioterapeuta, Nishiki.

189 — corrigiu, mas sem realmente se importar. Já se conheciam há tempo o suficiente para que estivesse habituado às confusões de Hide. — E o dele é 204.

— E eu pensando que teria que morrer pra conhecer alguém mais inteligente que você — resmungou bem-humorado. — Você vai ver o Tatara agora? — questionou apontando as pastas nas mãos do amigo. Kaneki assentiu em concordância.

— Ele pediu os relatórios sobre a Kamishiro-san — respondeu com leve desagrado.

Kamishiro Rize foi sua última paciente antes do fim de ano. Tinha um bom gosto literário e era tão educada quanto uma dama poderia ser. O problema todo se dava ao fato dela ser uma pessoa mimada demais e não aceitar um 'não' como resposta — Kaneki ainda se lembrava claramente dos 203 assédios que sofreu em trabalho e das 7 vezes em que Rize tentou colocar afrodisíaco em sua comida ou bebida. Ele só não entedia até hoje como ela conseguia aquilo. Será que ela oferecia sexo em troca de um favor dos cozinheiros? Bem, de toda forma, foram meses infernais para ele.

— Por falar nisso, eu a vi essa semana. Ela me pediu o seu número. — Começaram a subir as escadas que levavam até a ala da administração da clínica. — “Não consigo ter bons sonhos sem ouvir aquela voz maravilhosa!” — disse com uma voz meio afeminada e ligeiramente esganiçada que fez Kaneki rir. — Seria uma pena se o dono daquela voz maravilhosa não fosse um hacker profissional incapaz de deixar rastros cibernéticos — completou com um sorriso de canto.

— Ainda não consigo entender como você conseguiu o diploma sendo descarado do jeito que é — Kaneki comentou.

E, realmente, aquela era uma das poucas coisas que não conseguia entender. O Japão era um país criterioso ao extremo com seus médicos, policiais e professores, os três pilares principais da sociedade na visão do psicólogo. Hideyoshi era bom no que fazia, todos sabiam disso, mas ele sempre foi mais o tipo de pessoa que você pensaria como tio despudorado da ceia de Natal.

Ao longe Kaneki viu a porta da sala de Tatara fechada, a placa com ideogramas vermelhos dizia claramente “em reunião”. Suspirou, deixando a pasta com os arquivos da Kamishiro e voltando a caminhar ao lado de Hide.

— Ele me chamou por causa dos arquivos, não para um chá. — Sorriu de lado com o olhar divertidamente acusador do Nagachika.

— Ainda não consigo entender como você conseguiu o diploma sendo tão “odeio o mundo, odeio as pessoas” do jeito que é — retrucou, arrancando uma risada gostosa de Kaneki.

— Por que eu iria trabalhar com pessoas se eu odiasse pessoas? — perguntou curioso com a lógica do amigo.

Hide assumiu uma expressão pensativa e o sorriso de Kaneki aumentou. Por fim o loiro deu de ombros, os olhos castanhos longe dos cinzentos do amigo. Dessa vez ele havia perdido a batalha.

— Quem você vai atender agora? — o Nagachika indagou.

— Naki — Kaneki respondeu em meio a um suspiro desanimado. Hideyoshi ainda deu tapinhas solidários em suas costas, sabendo exatamente o que se passava na mente do amigo.

Ookumo Naki era uma pessoa, como dizer, complicada de lidar. Não que fosse difícil se aproximar dele ou entendê-lo, muito pelo contrário. Naki tinha uma obsessão assustadora pelo irmão mais velho, chegando ao ponto de agredir qualquer um que se aproximasse. Kaneki detestava pegar esse tipo de pacientes, mas não tinha como dizer “não” a um pedido de Tatara depois de toda a ajuda que teve anos antes. E isso não o fazia desgostar menos do fato de ter que ver o loiro possessivo todas as tardes.

— Você estaria bem melhor se estivesse indo conversar sobre Poe e Shakespeare com o Kirishima-kun, não? — Kaneki assentiu, cada vez mais sentindo-se desmotivado. Talvez fosse melhor tirar férias em dezembro, como Hide já vinha sugerindo há tempos.

— Boa sorte com a Hinami-chan — desejou, ao que Hide respondeu com um sorriso e um “força, Neki”.

O sorriso de Kaneki morreu quando ele entrou no quarto 3. Naki estava jogado no chão, os dedos sujos de tinha vermelha pintando o piso branco com o mesmo ideograma de sempre. “Yamori”, apelido do irmão de Naki, cobria todo o quarto. Suspirou, abaixando-se perto do paciente.

Naki chorava, e suas lágrimas caíam sobre a tinta, borrando os ideogramas já trêmulos pelo desespero com que eram escritos. Este era outro motivo para detestar aquele tipo de pacientes: na mente deles, o único certo e o único que deveria ter seus direitos e vontades ouvidas eram eles mesmos.

Como Kaneki poderia fazer algo por alguém que não enxergava o que estava errado e, consequentemente, não queria ser ajudado?

Sentou-se na cama, revendo as fichas de todos os seus pacientes atuais e acrescentando anotações tanto nelas, quanto no pequeno caderno que sempre trazia consigo. Já havia desistido de tentar conversar com Naki e Tatara sabia disso. Só precisava ficar naquele quarto durante a hora que supostamente duraria a sessão.

Sorriu ao ver a ficha de Suzuya Juuzou. Ele fora diagnosticado com esquizofrenia desorganizada aos 12 anos. Hoje, tinha 14. No início os pais de Juuzou pensaram se tratar de autismo. Como não queriam problemas para sua imagem social, mandaram o pobre garoto para a clínica enquanto diziam à sociedade que o primogênito estava em uma escola interna. Juuzou não apresentava picos de raiva ou reações agressivas e, ao invés de se isolar, ele estava sempre rindo e brincando com as outras pessoas da clínica. Claro, ele também tinha seus dias depressivos e apáticos, outros ele passava trancado no quarto conversando com “as vozes”, mas ele nunca feriu ou representou ameaça a ninguém.

Foi justamente por esse comportamento tão peculiar que Kaneki assumiu a responsabilidade pelo garoto. Era bom ver o interesse dele toda vez que Kaneki o ensinava a ler uma palavra nova, dava-lhe um brinquedo novo ou mesmo quando dizia que estava orgulhoso dele. Momentos como os que passava com o pequeno Suzuya fazia Kaneki ter a certeza que a sua escolha de ajudar as pessoas através da psicologia não fora um erro.

Em seguida veio a ficha do garoto Kirishima. Kaneki mentiria se dissesse que aquele paciente não era a razão por trás de suas noites mal dormidas e a distração que tinha durante grande parte das conversas. Até onde sabia, Ayato foi levado até a clínica depois de tentar atacar ao tio e atacar a si mesmo em um surto psicótico. O primeiro psicólogo a atendê-lo, Marude Itsuki, diagnosticou-o com esquizofrenia paranoide.

Na hora decerto fazia todo o sentido: era um ataque de fúria e, de acordo com os relatórios, Ayato ficou repetindo “não vão me machucar de novo” por todo o caminho até a clínica. Entretanto, com o passar dos dias, o Kirishima não parecia nada mais que um garoto deslocado naquele lugar. Não apresentava desvios de comportamento, o raciocínio lógico estava intacto e conseguia manter diálogos coerentes — na maioria das vezes os iniciava e dava a última palavra.

Este era o algo que chamou a atenção de Kaneki. Não acreditava que Ayato fosse louco, a palavra “esquizofrênico” simplesmente não se encaixava para descrever aquela pessoa.

Ele sabia que, sim, o Kirishima tinha algum problema sério e que precisava de ajuda. E então, o problema: o quê? Kaneki ainda não poderia ajudar Ayato como gostaria pois não sabia contra o que o Kirishima estava lutando.

Suspirou pela enésima vez naquele dia. Naki agora se contorcia no chão, sujando-se com a tinta vermelha que ainda não tinha secado. Kaneki sentia pena de quem fosse limpar aquele quarto depois.

— Quando eu vou ver o meu irmão? — o Ookumo perguntou, a voz lutando para sair da garganta seca. O psicólogo olhou para o relógio de pulso que usava, só então percebendo que já se passara a tão temida hora com Naki.

— Eu não sei — respondeu com sinceridade, juntando suas poucas coisas e dirigindo-se para fora do quarto. — Só sei que ele não virá enquanto você não puder me ajudar a ajudá-lo.

E saiu do quarto sem esperar por uma resposta. Ainda foi capaz de ouvir o som de algo sendo arremessado contra a porta. Provavelmente se tratava do estojo de tintas que o paciente ganhou de uma das enfermeiras. Ah, sim, Kaneki se lembraria de pedir que parassem de dar coisas assim para Naki. Aquilo nunca acabava bem e Tatara teria de remanejar o Ookumo mais uma vez para fazer uma limpeza completa do quarto.

— Dia ruim? — Kaneki sorriu ao ouvir a voz conhecida.

Ayato estava em pé ao lado da porta do quarto 0. Os cabelos azulados estavam tão bagunçados quanto de costume em contraste com as roupas brancas fornecidas pela clínica. Os olhos azuis o encaravam, atentos a qualquer reação mínima do psicólogo.

— “Dias ruins são necessários para os dias bons valerem a pena...”

— “Porque depois da tempestade sempre vem a calmaria” — Ayato completou. — O que vamos fazer hoje, sensei?

— Eu pedi pra Irimi reservar a biblioteca hoje — revelou, observando com atenção o leve brilho que surgiu nos olhos do Kirishima.

— Não vamos passar o resto da tarde lendo, vamos? — indagou, desconfiado. Começou a andar lado a lado com Kaneki. — E não acho que você vá repetir aquele interrogatório cansativo que os outros fizeram comigo antes — ponderou, os olhos estreitando a cada passo que davam —, então... um jogo, talvez? Algo como... xadrez?

Kaneki sorriu, abrindo a porta da biblioteca — uma das poucas coisas que não eram brancas naquele lugar. Por mais que tivesse estudado em uma ótima faculdade e conseguido uma extensa lista de pós-graduações e doutorados no exterior, o psicólogo nunca entenderia como os pacientes não enlouqueciam de vez rodeados por todo aquele branco.

— Você é bom em adivinhações, Ayato-kun — elogiou, puxando uma cadeira e sentando-se em frente a um tabuleiro de xadrez. As peças já estavam em seus devidos lugares, apenas esperando para serem usadas. — Me pergunto se é tão bom nos jogos quanto as pessoas dizem.

— Eu nunca perdi uma partida, se é o que o sensei quer saber — respondeu. Ayato girou o tabuleiro, de modo que as peças brancas ficassem do seu lado. Um gesto que não passou despercebido por Kaneki, que guardou aquele detalhe para colocar em suas anotações mais tarde.

— Eu também não e é isso o que te faz um adversário à altura, Kirishima Ayato-kun. — Posicionou melhor o temporizador sobre a mesa. — Não subestime só porque seu QI é mais alto.

— De modo algum, isso seria uma afronta a alguém que traz um relógio Fischer para jogar com um paciente — retrucou o Kirishima. Ayato ligou o relógio, não levando mais que alguns segundos para fazer seu primeiro movimento. Aguardou o psicólogo fazer o mesmo, prestando o máximo de atenção não só ao jogo, mas também às expressões de Kaneki. Havia aprendido com o passar dos anos de jogo que o rosto de seu adversário pode denunciar todos os seus pensamentos. E o albino também sabia disso a julgar pela inexpressividade que o olhar dele carregava. — Então, não vai mesmo responder à pergunta de ontem, sensei?

— Você já respondeu sua própria pergunta? — Uma peça branca fora do tabuleiro e o clique do relógio, Kaneki encarou Ayato nos olhos.

O Kirishima sorriu, fazendo seu próximo movimento. Ele tinha de admitir que pensou que seria mais fácil vencer o psicólogo justamente pela diferença entre o QI deles, mas a realidade era bem diferente. Kaneki não se deixava distrair e não deixava brechas em sua defesa em momento algum. Por isso, nas três primeiras jogadas, Ayato avançou contra ele em um ataque prematuro. Jogadores passivos preferem recuar a atacar quando têm a chance. E isso lhe custou uma de suas preciosas torres, devoradas por um cavalo negro. Kaneki não era um jogador passivo, nem um trocador ou agressor e muito menos um perfeccionista. Ele era um estrategista, o melhor contra quem o Kirishima já tinha jogado. O psicólogo não mantinha um estilo único de jogo, sempre fazendo movimentos de características diferentes para confundir o adversário. O número de peças brancas e pretas fora do tabuleiro era igual, mas era óbvio que Kaneki tinha vantagem naquela partida. Um movimento errado e Ayato sofreria um xeque-mate em 8 jogadas.

Por outro lado, Kaneki estava surpreso. As habilidades de Ayato superavam sua fama e criaram uma das partidas mais tensas que ele jamais teve. O Kirishima era inteligente e tinha uma dedução impressionante, assim como sua confiança. Kaneki já tinha perdido três peões, seus cavalos e uma torre, enquanto Ayato já perdera quatro peões, as torres e um bispo. Tinha certeza que ele usaria a rainha em três momentos diferentes, mas desistira e apostou em jogadas aleatórias como uma isca para o peixe. Ele estava sendo pressionado, e Kaneki sentia-se feliz por conseguir isso, ainda que não demonstrasse isso em sua expressão.

Aquele estava sendo um ótimo jogo para os dois lados.

— Entre o acontecimento e a escolha, creio que sou o acontecimento — o Kirishima respondeu por fim, vendo o psicólogo mover o bispo aleatoriamente. Agora Kaneki só contava com dois peões, um bispo e sua rainha para proteger o rei. A rainha, que começara a ser usada há algum tempo, não estava numa direção favorável para impedir o avanço de seu cavalo. Xeque-mate em duas jogadas para Ayato.

E ele avançou.

O clique do relógio foi o ultimato.

— Xeque-mate — Kaneki anunciou, derrubando o rei de Ayato. O Kirishima estreitou os olhos para o tabuleiro, tentando compreender como havia perdido. — É uma pena, Ayato-kun. Você se focou demais no meu rei e se esqueceu que bispos sempre se movem na diagonal.

A compreensão atingiu o Kirishima. De fato, estava tão concentrado em vencer que não notou que deixou o caminho até seu rei livre para o bispo de Kaneki no momento em que moveu o próprio cavalo.

Ayato podia ser mais inteligente, de fato, mas Kaneki era mais experiente. Essa era a diferença entre os dois.

Começaram a reorganizar as peças sob o olhar atento de Ayato.

Kaneki manteve-se calado por um bom tempo, silêncio que o Kirishima não se atreveu a quebrar. Não perceberam o tempo passar, muito menos conseguiram registrar tudo o que aconteceu nas 19 partidas que se seguiram. Ayato tentou, mas não conseguiu se sentir mal por ter perdido — no fim, ficou 11 a 9. Tudo o que conseguia sentir era a satisfação por uma boa partida.

Um som semelhante ao sinal das escolas americanas soou por toda a clínica, anunciando o horário do jantar e o fim do expediente dos funcionários diurnos — incluindo Kaneki.

— A propósito, Ayato-kun, eu sou a escolha que o acontecimento me forçou a tomar. E você? — o psicólogo indagou, guardando suas coisas em uma pasta da qual Ayato não tinha consciência até então, inclusive o jogo e o relógio. — Para que tipo de acontecimentos sua escolha te levou?

— Descanse bem, sensei. Você está horrível — retrucou sem hesitação. Kaneki sorriu, os olhos cinzentos brilhando com divertimento.

— Vou tentar me lembrar disso quando terminar de ler A Cabana. — O Kirishima riu, levantando-se e colocando as mãos atrás das costas.

— Te vejo amanhã, sensei — despediu-se.

— Até amanhã, Ayato-kun. — E os passos calmos de Kaneki afastando-se deram aquela conversa definitivamente por encerrada...

Por enquanto.

15 de Octubre de 2018 a las 15:53 0 Reporte Insertar 1
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