(2018) Ventos Ancestrais Seguir historia

alicealamo Alice Alamo

Maldito fosse quem havia dito que aquilo era errado, maldito fosse o imbecil que tinha decidido impor limites a o que quer que alguém pudesse sentir por outra pessoa. Maldito fosse quem tentasse lhe repreender porque Bakugou mandaria essa pessoa pro quinto dos infernos e a amaldiçoaria por toda a vida porque como podiam dizer que aquilo era errado se, para ele, beijar Kirishima era com toda certeza a melhor coisa que já havia feito? Se o vento ao redor deles parecia aprovar? Se os ancestrais não os expulsava do rochedo? Se a lua se escondia para ajudá-los a não serem pegos? Não, não eram eles os errados...


Fanfiction Anime/Manga Sólo para mayores de 18. © Imagem de @raphodraws (https://twitter.com/raphodraws)

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Capítulo Único

Fic para a Karol Karambola <3

Bakugou respirou fundo enquanto o sorriso animado lhe tomava a face. De frente ao precipício, no fim do grande rochedo que marcava a vila dos Caçadores, ele abriu os braços e deixou que o vento castigasse seu corpo e bagunçasse seus cabelos. Gritou, exteriorizando a alegria por estar ali embora soubesse que ainda lhe era proibido.

O rochedo era o marco dos caçadores, a grande transição, onde só os reconhecidos pela vila podiam pisar, mas, apesar de não ter idade para tal, Bakugou não conseguia evitar, o desejo de subir até o topo e sentir o vento dos ancestrais forte em seu rosto era tentador.

Riu, aproximou-se da beirada para espiar o rio Draco que corria depressa metros e metros abaixo. Eram águas claras, sagradas, repletas de magia na qual se banharia ao fazer dezoito anos e ser reconhecido como caçador, como parte da vila. E iria, seria o melhor, o mais forte e destemido.

— Katsuki, já deu, vamos voltar!

Ele olhou para trás. Kirishima não ousava se aproximar, permanecia ao longe, fingindo que não estava também quebrando as regras e tentando se convencer que ficar ali atrás de uma árvore qualquer era mais mais perdoável do que estar à beira do rochedo. Revirou os olhos, irritado, mas nem mesmo a cautela de Kirishima conseguia apagar por completo a felicidade que vibrava em seu peito.

O vento ficou mais forte, e ele fechou os olhos, lendo a vontade dos ancestrais. Era como se os ouvisse, e só por isso decidiu obedecer e correr até onde Kirishima estava. O melhor amigo tinha o rosto pálido, os olhos atentos à movimentação ao redor como se temesse que fossem pegos a qualquer instante. Passou o braço pelos ombros dele e o puxou para longe dali antes que corressem mesmo perigo.

— Você é louco — Kirishima acusou em falsa irritação.

E não tinha como se irritar de fato, não com Bakugou visivelmente tão feliz, não com ele sorrindo abertamente enquanto corriam pela floresta e voltavam aos territórios da vila. Pararam a certa distância, apenas para disfarçar a excitação, o ar de liberdade recém adquirido. Bakugou puxou Kirishima para trás de uma árvore, os olhos fixos na movimentação à frente enquanto Kirishima corava pela proximidade que para o outro era tão normal. A pele dele exalava um frescor, e era assustador pegar-se desejando tocá-la, senti-la sobre os dedos ou lábios.

Uma ofensa... Engoliu em seco. Já era um ultraje cogitar algo assim com outro homem, pior ainda com seu melhor amigo, e ainda mais grave sabendo que ele era o filho da chefe da vila, o escolhido para levar adiante as tradições da vila, os ritos, tudo.

— Ei, que cara de merda é essa?

Kirishima arregalou os olhos e riu, sem graça.

— Nada, nada. Podemos já ir?

Bakugou arqueou a sobrancelha, desconfiado, mas sem paciência para insistir. Retirou as folhas do cabelo de Kirishima e encostou a testa à dele para repetir:

— Ainda lembra a história que contaremos, não é?

Kirishima prendeu a respiração. Como Bakugou conseguia ficar tão próximo como se fosse normal? Como ele conseguia olhar em seus olhos sem se perder como ele se perdia ao mirar os olhos castanhos tão cheios de vida e determinação? Era uma incógnita e talvez sempre seria. Engoliu em seco, sentindo os dedos do outro em seus cabelos, a testa contra a sua, a respiração quente contrastando tudo.

— Sim... — Limpou a garganta. — Fomos... ah...

— Fomos seguir aquele javali, Eijirou! — Bakugou repetiu mais uma vez. — O javali que destruiu a colheita do Aizawa na semana passada.

— Ah, sim, isso. E ele quebrou o meu arco na corrida.

Bakugou assentiu e se afastou, jogando a bolsa de tecido pelo ombro onde as armas estavam, deixando Kirishima entrar com sua lança.

Estavam sujos, tanto rosto quanto roupas, mas sem machucados e rasgos. Eles sabiam que perguntas muito precisas desvendariam a pequena mentira, mas não havia plano melhor. Caminharam pela vila, e Bakugou fechou a expressão da forma como todos estavam habituados a vê-lo. Tinha uma fama, era filho da chefe, tinha que ser respeitado e temido, tinha que garantir a lealdade de todos ao mesmo tempo em que precisava que o admirassem e reconhecessem sua força. Acenou com a cabeça apenas aos cumprimentos, Kirishima mantinha dois passos atrás, como a lei ditava, e não demoraram a chegar em sua casa.

Dava para ouvir os gritos, alguém treinava na parte detrás da casa os filhos dos empregados, e seu mãe discutia alguma coisa com Aizawa na sala. Aizawa era seu professor, o responsável por treinar todos os filhos do líder e das famílias importantes e, mais que isso, alguém que Bakugou não queria encontrar na hora de mentir.

— Ah, aí estão vocês! — sua mãe anunciou ao avistá-los, e Aizawa virou-se com os braços cruzados. — O professor de vocês veio me informar que não compareceram ao treino hoje de manhã. Onde estavam?

— Fomos caçar — respondeu firme.

— Vocês não têm idade para sair em caçadas sem minha autorização, Katsuki.

— Fomos atrás do javali, senhor — Kirishima respondeu de cabeça baixa, os braços atrás do corpo.

— Ainda assim, vocês não possuem minha permissão, não possuem idade e muito menos me pediram.

— Nós vimos o javali perto da vila, mãe, e resolvemos acabar com aquele merdinha. Qual o problema disso? — Bakugou irritou-se, e sua mãe estreitou o olhar, irritada e já se preparando para responder no mesmo tom.

— O problema é que estão mentindo — Aizawa pontuou sem hesitar. — O segundo assunto de que iria falar era justamente sobre o javali, senhora. Joker o matou ontem à noite e irá prepará-lo na refeição de hoje à noite para todos no grande salão.

Bakugou estalou a língua no céu da boca, e Kirishima arregalou os olhos sem disfarçar.

— Bem, parece que temos um impasse então, não é? — Bakugou ouviu sua mãe dizer, os braços cruzados e a expressão severa. — Talvez uma punição coloque algum juízo nessa sua cabeça oca.

— Mãe...

— É minha palavra final, Katsuki! — interrompeu-o séria, firme. — Kirishima, se tiver apenas seguido meu filho sem outra escolha, está livre da punição, mas, se tiver tido parte disso, será castigado em conjunto.

Bakugou engoliu em seco, mais pelo medo de enfrentar a mãe do que pelo castigo. Viu Kirishima abrir a boca para responder e deu um passo à frente depressa.

— É óbvio que ele me seguiu. O pai dele iria repreendê-lo duas vezes mais se me deixasse sair sozinho, mesmo contra suas ordens, sabe disso.

Kirishima abaixou a cabeça com os punhos cerrados; uma vez que Bakugou havia falado, não podia desmenti-lo, isso acarretaria em mais outra punição pela segunda mentira. Por isso, mordeu a língua, obrigando-se a aceitar a idiotisse do outro enquanto o seguia até a parte de trás da casa onde a mãe o puniria.

Em parte, Bakugou estava certo. Sua família havia servido desde sempre a família na liderança do clã e, quando ele nasceu, já estava mais do que certo que seria seu dever proteger Bakugou. As idades próximas, os treinos em conjunto, tudo isso havia ajudado para que o dever fosse mais que uma obrigação; para Kirishima, a amizade por si só já o fazia proteger Bakugou com sua vida, não precisava de regras para que guiá-lo naquilo. E era essa amizade e esse senso de lealdade adquirido naqueles dezessete anos que o faziam resmungar e remexer-se inquieto sentado no chão enquanto Bakugou era obrigado a ficar de pé, no centro da vila, com um balde de água sobre a cabeça e outros dois em cada uma das mãos estendidas ao lado do corpo. As costas estavam nuas, deixando à mostra para quem quisesse ver as marcas vermelhas pela punição recebida anteriormente.

— Não quero sua pena — Bakugou cuspiu com raiva quando Kirishima suspirou pela terceira ou quarta vez.

— Você é teimoso, Katsuki. Se não tivéssemos ido, você não teria que passar por isso. E não quero mais que minta para me proteger!

— Eu não menti. — Bakugou revirou os olhos. — Te impedi de fazer merda. Você só foi comigo porque ficou preocupado, e seu pai é louco, ele te castigaria se me deixasse ir por conta própria. Então, para de falar bosta. Além disso, baldes de água e cinquenta golpes são pouco; se eu soubesse que esse seria o preço a pagar para ir ao rochedo, eu já teria ido umas mil vezes.

Kirishima riu e balançou a cabeça.

— Você é louco.

— Você já disse isso.

— E parece que vou ter que continuar repetindo.

Bakugou sorriu de canto, os olhos desviaram do horizonte e se fixaram no amigo. Kirishima andava estranho nos últimos meses, havia reparado que algumas atitudes não mais se faziam presentes no outro e que o espírito livre que tanto o fascinava no amigo estava, por alguma razão, sendo contido aos poucos. Odiava isso. Seu pai havia comentado que a família de Kirishima provavelmente o casaria em breve, afinal, eles precisavam sempre manter uma linhagem forte para proteger os líderes e futuros herdeiros, não podiam ser pegos desprevenidos jamais. E, com a cerimônia de transição de Bakugou se aproximando, eles precisariam garantir que haveria alguém hábil para substituir Kirishima se ele caísse cumprindo seu dever.

Não gostava daquele assunto, irritava-se com extrema facilidade quando os pais comentavam sobre Kirishima como se ele fosse um escudo velho que poderia ser trocado a qualquer momento por um novo se quebrasse. Entretanto, reconhecia que se enraivecia mais ainda com a possibilidade de o outro se casar.

Era possessivo, demais. Kirishima havia lhe pertencido a vida todo, como protetor e como amigo, não queria nem aceitaria dividi-lo com alguém escolhido ao acaso. E pouco importava que Mina fosse uma caçadora excepcional ou que a conhecessem desde a primeira infância. Não aceitaria que outra pessoa ocupasse as preocupações de Kirishima.

E não era ciúmes! Era apenas porque seria o futuro líder e, como tal, tinha pleno direito de exigir para si proteção em tempo integral, não?

— Katsuki — Kirishima o chamou baixo. O sol já estava se pondo, o castigo logo terminaria. — está ansioso?

— Pra quê?

— Como pra quê? Sua cerimônia! É depois de amanhã. Como imagina que será?

— Como sempre é — respondeu impaciente. — Vou acordar cercado de gente que vai ficar com aqueles incensos horríveis rezando ao meu redor, depois tenho que banhar no rio Draco, e então farão as pinturas no meu corpo e vamos encher a cara até não poder mais na festa.

— Não me refiro ao passo a passo da cerimônia! Assim você tira toda a magia, Katsuki. Digo, não está ansioso, com medo? O rio pode não te aceitar, você pode se afogar, já ouvi histórias de caçadores renegados que o riu fez questão de levar para as profundezas assim que entraram na água.

— E por que eu seria renegado? — Katsuki perguntou indignado, o susto tamanho que quase derrubou os baldes. — Não há motivo algum para isso! Eu senti, o vento dos ancestrais falou comigo, serei um deles, um dos grandes que marcaram nossa vila. Escreva o que digo, eu vou entrar na história como o maior líder que essa vila já teve e vou começar meu legado sendo primeiro o maior caçador entre todos aqui.

Kirishima sorriu. O modo como os olhos de Bakugou brilhavam e como a voz soava sonhadora fazia seu coração bater forte, despertava um sentimento de admiração e, mais que isso, fazia com que quisesse seguir o amigo não importasse para onde ou por que.

Quando o sol enfim sumiu das vistas, Kirishima foi o primeiro a notar. Ele se levantou e se aproximou de Bakugou, retirando primeiro o balde de sua cabeça e vendo-o colocar os demais no chão antes de alongar os músculos doloridos. Foi inconsciente se aproximar para fazer aquela tarefa, segurando o ombro de Bakugou enquanto a outra mão apertava com pressão e habilidade os músculos a que se tinha exigido tanto esforço. Ouviu o suspirar, e então deu-se conta não só da proximidade como da intimidade com que tocava a pele alheia.

— Desculpe. — Afastou-se, o rosto vermelho e as mãos trêmulas enquanto abria e fechava a boca sem saber o que dizer.

Bakugou franziu o cenho, confuso.

— Pelo que? — questionou, e Kirishima o encarou, os olhos rubros inquietos, como se fosse um árduo trabalho permanecerem focados apenas em seu rosto. — Eu já disse que você está agindo estranho pra caralho esses dias? Não? Porque você está. Vamos logo, preciso de um banho e de preferência quente.

Kirishima concordou, no automático, e sentiu o braço de Bakugou passar por seus ombros. Olhou-o, alarmado, deveria andar atrás e Bakugou sabia disso!, mas ignorou, e Kirishima sabia, pela expressão decidida do outro, que não conseguiria fazê-lo mudar de ideia. Além disso, Bakugou nunca confessaria estar cansado e precisando de ajuda, cabia a Kirishima, por conhecê-lo tão bem, deduzir isso e deixá-lo se apoiar para andarem de volta à casa.

Entraram na residência em silêncio por não quererem responder questionamentos nem chamar atenção. No quarto, duas servas esperavam ao lado da banheira preparada. Kirishima soltou Bakugou e o viu andar pelo quarto e testar a temperatura da água.

— Saiam. — Ouviu-o dizer, e as servas fizeram uma leve reverência antes de saírem do recinto sem questionar, afinal, Bakugou não era conhecido pela paciência.

Kirishima bagunçou o cabelo e olhou para a janela aberta. Caminhou até ela, fingindo não estar desviando a atenção do amigo que se despia e engoliu em seco mais tranquilo quando o som da água indicou que Bakugou já havia entrado na banheira.

— Merda...

— Que foi? — Virou-se com o praguejar alheio.

— Ela deixou a água quente de propósito — Bakugou resmungou, e Kirishima não conseguiu não se preocupar.

— Ainda tem aquela pomada que te fiz? — indagou, sem perder tempo e procurando pelo pequeno pote nos baús espalhados pelo quarto. — Achei. Me deixa ver suas costas.

Bakugou jogou a água no rosto e se virou. Kirishima analisou os machucados e tocou a água.

— Não está quente — comentou, confuso, e ergueu o olhar para encontrar o de Bakugou o analisando por sobre o ombro.

Odiava aqueles momentos. Tinha a impressão de que Bakugou conseguia lê-lo por completo e que criava aquelas situações de propósito, para testá-lo. O clima ficava estranho, não era pesado, mas não mais tão leve, era como se criassem uma tensão entre eles, uma quente e magnética, que os fazia não conseguir desviar o olhar um do outro e que acelerava o coração à medida que mil e uma possibilidades enchiam suas mentes.

— Não vai passar? — Bakugou arqueou a sobrancelha, e Kirishima suspirou dando-se por vencido.

Espalhou a pomada primeiro nos ombros, e Bakugou apoiou o rosto nas mãos que seguravam a borda da banheira, olhando para frente enquanto falava:

— Quando o idiota do seu pai vai anunciar seu noivado?

— Após a sua cerimônia.

— Você gosta dela?

— Ela é uma excelente caçadora, vamos nos dar bem.

Bakugou riu com deboche.

— Que motivo para aceitar criar um laço.

— E do que você sabe? — Kirishima se irritou, os lábios formando um bico enquanto os dedos ainda se encarregavam de passar a pomada sobre a pele machucada. — Preciso de um casamento. E criar um laço com alguém forte é essencial para garantir que tenha um filho forte e saudável. Não é questão de escolha.

Bakugou se virou abruptamente e se levantou, segurando a mão de Kirishima e o impedindo de se afastar. Era notória sua raiva, ele não disfarçava, e muito menos se importou em abaixar o tom de voz ao falar:

— Mas que merda você tá falando? Não se pode escolher criar um laço com alguém por causa dessa porra! Isso é algo importante, é pedir aos ancestrais que abençoem a sua vida ao lado dessa pessoa para todo sempre. Não pode estar falando sério.

Kirishima desviou o olhar, corado. Era injusto que Bakugou lhe dissesse isso, ainda mais sabendo que ele também acreditava naquilo e não estava em posição de contestar a autoridade do pai. Soltou-se, fechou a pomada e segurou a mão de Bakugou para depositar o pote nela.

— Nem todo mundo tem a sorte de nascer como o próximo líder, não é?

Bakugou arregalou os olhos e Kirishima não lhe deu tempo de reagir, saiu do quarto em silêncio, munido apenas do coração machucado e da certeza de que era o mais idiota dos homens por se apaixonar pela última pessoa do mundo que poderia ter.

Bakugou bufou, socou a água e não se importou ao vê-la molhar o chão. Não dormiu. Havia jantado com os pais após o banho em um silêncio que fez com que cogitassem que ele estava planejando mais uma vez quebrar as regras. Contudo, não era isso. Seu silêncio tinha nome, sua inquietação possuía motivo justo, sua preocupação tinha alvo, um que havia escapado por entre seus dedos minutos antes. Deitou-se na cama enquanto pensava. Enraivecia-se com a possibilidade de Kirishima ousar estragar sua vida por uma tradição estúpida.

Criar um laço era algo especial, não era apenas um casamento que juntava os bens e os sobrenomes, era algo místico, feito sob os olhos e as bênçãos dos ancestrais, uma promessa de ser fiel, leal e dedicado ao outro. Como Kirishima podia aceitar fazer tudo isso com alguém que não amava?

Soava-lhe uma ofensa, uma traição... uma tão grande que fazia seu peito doer como nunca havia sentido. Jogou a pomada para cima, pegou-a e continuou a arremessá-la enquanto a mente divagava entre as lembranças. Por um momento, podia jurar que Kirishima havia mudado, que a postura do amigo tinha ficado mais tensa do que deveria quando o havia segurado contra a árvore mais cedo ou quando o tinha encarado na banheira e pior ainda quando havia se levantado e segurado seu braço.

As reações dele eram adoráveis, confessava que apreciava o rubor que combinava com os cabelos vermelhos, fazia coisas de propósito apenas para vê-lo na face do amigo e tinha vontade de... tocá-lo. Suas mãos sempre coçavam para tocar o rosto de Kirishima quando o deixava sem graça ou desconcertado. E, ah, havia o toque também... Sua pele parecia gostar de quando Kirishima o tocava, de quando os dedos corriam por suas costas com cuidado e atenção, como se o amigo estivesse encostando na mais frágil flor. Flor... Kirishima precisaria estar louco para confundi-lo com a merda de uma flor para ter tanto zelo! Dispensava! Mas, ainda assim, apreciava tanto... Tinha-o convencido a passar aquela pomada de propósito, somente para ter uma desculpa para receber aquele tipo de carinho.

Segurou o pote em suas mãos e sentou-se de súbito. O que Kirishima tinha de diferente? Por que tudo nele gritava ser único? Não saber a resposta era frustrante, mas toda e qualquer irritação desaparecia ao voltar a pensar em como poderia arrastar Kirishima consigo ao rochedo livremente após a cerimônia...

* * *

O dia da cerimônia chegou rápido. Como a tradição mandava, Bakugou havia ido dormir na noite anterior com os amigos mais próximos e guardas mais leais revezando-se na proteção do quarto, afinal, ele havia atingido a maioridade, e não era incomum que desordeiros ou traidores tentassem matar os filhos e as filhas dos líderes quando tal idade chegava. Quando os primeiros raios de sol surgiram no horizonte, Kirishima sorriu e viu os sacerdotes e se aproximarem da residência.

Eles estavam ali para levar Bakugou, para o início do ritual. Viu seu pai reverenciar os sacerdotes e o imitou antes de abrirem passagem para que todos entrassem na casa da líder. Do lado de dentro da casa, alguns guardas estavam dentro e fora do quarto de Bakugou e só agora seriam dispensados, pois a proteção dele ficaria daquele momento em diante nas mãos dos ancestrais.

Queria acompanhar Bakugou durante todo aquele processo, desejava partilhar daquele momento tão importante, de poder ver a cerimônia, mas era impossível não só para ele como para qualquer outro. O ritual era algo que todos da pequena vila passavam, sozinhos, um momento de revelação e aceitação, de provação.

Sorriu quando ouviu a agitação de dentro da casa, conseguia facilmente visualizar o mau humor de Bakugou por estarem o acordando cedo. Mas depois... houve silêncio, e ele entendeu que o ritual começara e que só voltaria a ver o outro quando ele enfim fosse um caçador, quando fosse reconhecido não só pelos ancestrais, mas por todos da vila como um homem adulto.

Isso se Bakugou aguentasse pacientemente todo o ritual, pensou rindo, sem se importar com o olhar de censura do pai.

E não estava tão enganado assim porque, dentro da casa, Bakugou respirava fundo para tentar não reclamar sobre o horário nem sobre os murmúrios estranhos e assustadores que o acordaram no susto. Embora já esperasse por aquilo, acordar cercado de pessoas vestidas por completo de branco com máscaras cobrindo o rosto todo e sussurrando palavras incompreensíveis era, no mínimo, aterrorizante. Ainda mais quando se vai dormir com o medo de não acordar vivo no dia seguinte por um atentado! Demorou para reconhecer os sacerdotes, mas, quando o fez, segurou o palavrão que proferiria e sentou-se na cama, segurando a mão de uma das sacerdotisas que o guiou para fora da cama.

De pé, não estranhou quando suas roupas foram tiradas, sentou-se em silêncio no pequeno banco indicado e fechou os olhos repetindo as palavras que lhe eram ditas enquanto o cheiro do incenso se espalhava pelo quarto. Sentiu algo gelado em sua pele, em quatro pontos diferentes, e reconheceu o aroma das tintas frescas. Pintariam o seu corpo enquanto oravam por sua segurança, força e sabedoria, como se quisessem que o incenso e a tinta gravassem em seu corpo tudo de positivo que o universo tinha a lhe oferecer. O vermelho sangue era para garantir que nunca lhe faltasse força nos desafios, o branco para que cada ação fosse sempre balanceada com sabedoria e justiça e o preto, a ausência de cor, era para espantar qualquer pensamento ou desejo negativo em seu coração, para sugar as impurezas que pudessem existir em si a fim de que a correnteza do rio Draco, no qual mergulharia em breve, levasse para longe a tinta e tudo que havia de mau fundido agora a ela.

Diferente do que todos poderiam pensar, não ficou impaciente, reconhecia a importância e o valor da cerimônia, prezava por aquela tradição porque ela estava no caminho de seu objetivo, era o primeiro passo para o sonho de superar sua mãe, de se destacar entre os outros caçadores. Abriu os olhos quando ordenado, admirou em silêncio as pinturas que eram atenciosamente desenhadas em sua pele e orou com mais fervor quando a mão do sacerdote atrás de si tocou seu queixo, inclinando sua cabeça para trás para começar a pintar-lhe a face.

Não deveria fechar os olhos, a oração deveria ser feita enquanto via o pincel se aproximar. Movia pouco a boca, apenas o suficiente para que a voz preenchesse o cômodo, e sentia a tinta agora quente. A cabeça era a arma do caçador, lança alguma substituiria uma boa mente, força alguma driblaria a razão, e por isso a tinta esquentava ao tocar sua testa, os ancestrais concediam-lhe a primeira bênção. E isso o fez sorrir satisfeito.

Ergueu-se. A sacerdotisa parada a sua frente orava enquanto os demais calavam-se um a um, produzindo um silêncio gradual que apenas tornava a voz dela mais forte e acentuada. Ela abriu os braços, e foi natural para Bakugou andar até ela. As mãos o viraram, e ele sentiu um tecido leve e fino ser jogado em seus ombros. Era uma capa vermelha, que o cobria por completo. A sacerdotisa o contornou, estendeu a mão para o lado e lhe foi entregue um broche dourado, com o qual ela fechou a capa.

O broche era o presente de sua mãe pela maioridade, como ditavam as regras. Feito de ouro, único, a imagem de um dragão dourado com os olhos vermelhos pronto para atacar. Ergueu o rosto e esperou que a porta do quarto fosse aberta.

Os amigos e os guardas estavam ao longo dos dois lados corredor e cada um curvou a cabeça em respeito enquanto alguns sacerdotes iam na frente atrás de Bakugou. Manteve-se firme, cabeça erguida, os olhos desviando-se apenas quando passou por Kirishima por saber que o amigo estaria sorrindo em sua direção e, por algum motivo, não queria perder aquilo...

Caminhou por toda a vila, o coração bateu forte e rápido, excitado pelo ar de liberdade que sempre o atingia ao se aproximar do rochedo. Sorriu, confiante, seguindo os sacerdotes pela beirada do rochedo até onde uma escada rústica os levaria até as margens do rio. Havia magia ali, pura, conseguia sentir. A cada passo que dava para perto da água, a vibração do poder dos ancestrais se fortalecia, o ar tinha outro cheiro, era fresco, limpo, e a tinta em sua pele parecia responder ao chamado das águas.

O rio não possuía uma margem propriamente dita, ele ficava entre dois grandes rochedos, tinha escavado o próprio solo com sua força. Por isso, a escada construída há muitos anos acabava na própria água, e somente Bakugou desceu os degraus finais. Retirou a capa e a entregou a um dos sacerdotes, olhou o rio, analisando sua correnteza e esperando que lhe fosse dada permissão. Quando as águas se acalmaram, soube que era a hora.

Mergulhou, sem hesitação, mesmo que as águas fossem fundas. Diferente de um mergulho qualquer, não conseguiu subir à superfície, a água o envolvia por vontade própria e ele não teve medo. Abriu os olhos, determinado, esperando que os ancestrais o fizessem renascer.

Havia vozes, doces, palavras sussurradas, nomes, e, de repente, foi como se agulhas finas atravessassem seu peito e sua cabeça. Numa sequência sem lógica, assistiu sua vida como se pertencesse a outro alguém, cada momento ganhava um novo significado, cada ação um novo ponto de vista até que tudo se fez tão claro em sua mente que o coração não soube se a melhor saída era parar pelo choque ou acelerar pela euforia.

O rio pareceu rir, vozes infantis o cercando e rindo ao seu redor enquanto a água o envolvia de forma maternal para acalmá-lo. Por um momento, julgou-se capaz de ver cores nas águas, cores vivas e dançantes, e fechou os olhos quando todas elas o rodearam.

O ar invadiu seus pulmões, e a ardência no peito o fez perceber que havia emergido. Os sacerdotes iniciavam um canto, o agradecimento aos ancestrais pela sua volta, e Bakugou percebeu que era hora de sair do rio quando a correnteza começou a empurrá-lo em direção à escada. A capa foi jogada em seus ombros tão logo ele saiu da água, o broche preso ao tecido e, nas mãos de sua mãe no no topo do rochedo, estavam as novas vestes.

Vestiu, mantendo a capa e o broche sobre as novas roupas e passando a mãos pelos cabelos molhados. O vento soprou contra seu rosto, e ele sorriu em desafio: finalmente, era um caçador. E, se lia corretamente a vontade dos ancestrais, já tinha a primeira presa em mente.

* * *

Era tão certo que os ancestrais aceitariam Bakugou que a festa pela maioridade dele já estava organizada. Kirishima foi o primeiro a notar quando Bakugou entrou na vila junto da mãe. Os olhos se prenderam à imagem dele, o sorriso foi espontâneo e os pés quase o traíram e o fizeram correr até o outro. Quase... Segurou-se, vendo todos abrirem passagem para a líder e Bakugou que andava firme e com uma postura quase arrogante, orgulhosa. Esperou... no centro da vila onde a comemoração ocorreria, tudo estava pronto: os músicos, a comida, a cerveja, todos aguardando apenas o sinal e quando ele foi dado, somente depois que a líder enfim segurou a mão esquerda de Bakugou e a levantou aos céus, é que todos vibraram, aproximando-se para lhe dar as boas vindas como um igual agora.

A música soou, a comida era levada de um lado para o outro enquanto a cerveja se derramava no chão e fazia as pessoas rirem com mais facilidade. Kirishima acompanhou os amigos quando finalmente puderam ir até Bakugou e o arrastaram dali. Fazia parte, beber até cair, comer até não poder mais, dançar até que as estrelas se tornassem um borrão no céu, tudo aquilo fazia parte da comemoração, afinal, celebravam um renascimento. Por que seria diferente?

Os mais velhos se retiraram mais cedo, apenas os mais jovens ficaram até o anoitecer, rindo alto e contando mentiras que ninguém acreditava. Kirishima comia enquanto Shouto embriagado resmungava sobre o pai, outros dois amigos discutiam e outros dançavam. Uma fogueira havia sido acesa ao cair da noite, sentaram-se todos perto dela, uns bêbados demais para ficar em pé, outros sóbrios por obrigação e um em específico sóbrio quando não deveria estar.

Kirishima já tinha notado, Bakugou havia bebido a primeira caneca de cerveja com a mãe quando chegara à comemoração e só, depois disso ele dava um jeito de empurrar a caneca a outro e mantinha-se sóbrio até aquele momento. Não condizia com o momento. Ele estava sóbrio apenas porque era ainda seu dever cuidar de Bakugou, não podia beber porque estava proibido, mas Bakugou deveria estar desmaiado àquela hora. Sentiu o braço dele passar por seus ombros e a mão afundar em seu cabelo como sempre fazia, tinha algo novo nos olhos dele, uma determinação nova, e engoliu em seco por temer o que aquilo significava.

— Vem comigo — Bakugou falou e se levantou, puxando Kirishima pela mão.

— Para onde? — perguntou, mas Bakugou apenas sorriu de canto enquanto o arrastava para longe da fogueira, para longe de todos.

Reconheceu o caminho, já o havia feito com Bakugou várias vezes, e um alerta soou em sua mente.

— Eu ainda não posso, Bakugou — protestou ao pararem na entrada do rochedo, onde a floresta terminava.

— Confia em mim dessa vez e vem logo — Bakugou pediu, impaciente.

— Bakugou...

— Eu já deixei algum mal te acontecer? Hm?

Não... em todas as vezes que Bakugou os metia em alguma confusão, a única certeza que tinha era que nunca lhe aconteceria nada, que eles estavam de alguma forma seguros. Apertou a mão de Bakugou e encarou o amigo, a resposta clara no deixar-se levar enquanto entravam no rochedo.

Não devia estar ali, não tinha idade, mas... não conseguiria negar aquilo a Bakugou, não naquela noite pelo menos. Seguiu-o até a beirada e fechou os olhos quando o vento subiu do rio até seu rosto, sem agressividade, apenas o recebendo. A mão de Bakugou soltou a sua, e Kirishima abriu os olhos nesse momento.

— O... que?

Bakugou estava próximo, o olhar sério, e Kirishima arregalou os olhos quando sentiu o braço dele passar por sua cintura e o puxar de encontro ao corpo.

— Hey, Katsuki... o que, mas que merda...

Bakugou não o soltou, continuava sério, analisando com cuidado a reação de Kirishima com o corpo colado ao seu. Era tudo tão óbvio... O rubor na face dele, o gaguejar quando estavam próximos assim, o nervosismo, o cuidado, o medo... Sentia-se até mesmo irritado por nunca ter se dado conta. Ah, pior... sentia-se puto por nunca ter percebido que também queria aquilo. Era tão natural para si desejar estar perto de Kirishima, tê-lo ao seu lado, que nunca tinha se dado ao trabalho de parar para analisar o motivo. Mas, agora, depois do rio...

Percebeu quando Kirishima se acalmou, o olhar dele estava fixo nas árvores ao longe, as mãos segurando com força sua capa. Aproximou o rosto, sorrindo quando Kirishima respirou fundo em resposta e fechou os olhos. Segurou-lhe a nuca e esperou um momento, o único que daria para Kirishima fugir se quisesse, mas conhecia o amigo, fugir não era algo que combinava com nenhum deles.

E ele tinha razão. O coração acelerado de Kirishima dividia-se entre o medo e a ansiedade, mas era mais que óbvio qual ele desejava ouvir. As mãos tremiam, a mente buscava alguma justificativa que o fizesse fugir do contato e, sim!, havia tantas, mas nenhuma a que de fato ele quisesse ouvir...

A entrega aconteceu naquele momento, nos segundos que antecederam o encostar dos lábios, no relaxar da postura e no aceitar da aproximação, aconteceu quando Kirishima inclinou o rosto, quando a boca se abriu de forma tímida, quando ele pareceu respirar o seu ar e pedir mais dele. E, uma vez certo daquilo tudo, beijou-o.

Maldito fosse quem havia dito que aquilo era errado, maldito fosse o imbecil que tinha decidido impor limites a o que quer que alguém pudesse sentir por outra pessoa. Maldito fosse quem tentasse lhe repreender porque Bakugou mandaria essa pessoa pro quinto dos infernos e a amaldiçoaria por toda a vida porque, puta que pariu, como podiam dizer que aquilo era errado se, para ele, beijar Kirishima era com toda certeza a melhor coisa que já havia feito? Se o vento ao redor deles parecia aprovar? Se os ancestrais não os expulsava? Se a lua se escondia para ajudá-los a não serem pegos?

A capa ganhou uma nova utilidade sobre a grama na qual se deitavam, as mãos de Kirishima finalmente ganharam o impulso de que precisavam para puxar Bakugou contra si, para agarrar-se aos ombros, costas e cabelos dele como sempre quisera enquanto o beijava. Não eram delicados, tinham urgência, fosse pelo tempo curto, fosse pelo desejo avassalador que os fazia abandonar as roupas com pressa. As palavras morreram, as línguas e os lábios acharam outra forma de confessar o que queriam gritar a céu aberto, e Bakugou não se importou se as marcas no corpo de Kirishima poderiam denunciá-los, tão pouco se lembraram de que os gemidos precisavam ser contidos. Desejava-o, queria que os ancestrais fossem testemunhas de que Kirishima lhe pertencia, de que o coração dele lhe pertencia assim como não se importava em entregar o seu.

As unhas marcavam suas costas, e ele sorria por isso. Os dentes de Kirishima em sua pele o excitavam, o cheiro da pele dele o impedia de se afastar e convencia a língua a provar o gosto de cada centímetro exposto. Gostava de como as vozes preenchiam o vazio da noite, de como a sinfonia de seu desejo soava e, principalmente, de como Kirishima chamava por seu nome com tanta urgência.

Kirishima sorria, embriagado pelos beijos como se a saliva de Bakugou fosse o mais perigoso álcool. Abafou com a mão o gemido mais alto que quase lhe deixou a boca e riu extasiado ao constatar que finalmente tinha achado algo positivo na total falta de delicadeza de Bakugou. Era impossível não se sentir desejado, impossível não derreter com a forma como Bakugou o apertava e exigia para si, como o reivindicava como se lhe fosse o bem mais precioso e almejado. Os toques eram quentes, contrastando com o vento gelado da madrugada, os beijos transmitiam o carinho de que o atritar dos corpos se esquecia em meio à luxúria, e os olhares eram tão sinceros e intensos que Kirishima não teve dúvidas de que estava condenado, condenado a sempre cair por Bakugou...

* * *

Bakugou acordou com a dor súbita em seu cabelo, demorou a entender o que acontecia e, quando o fez, estava sendo jogado ao chão. Ergueu a cabeça com raiva e engoliu em seco ao encontrar os pais à frente. A mãe o olhava de forma fria e severa, notando cada marca no tronco nu.

— Dentre tudo que você podia fazer... francamente, Bakugou...

Apoiou-se para se levantar, mas gritou de dor quando sentiu o bastão se chocar contra suas costas, forçando-o a permanecer de joelhos. Olhou para trás, Kirishima estava de pé, no mesmo lugar de antes, cercado pelos guardas de sua mãe.

Deveriam ter saído daquele rochedo, haviam errado em permanecer até a manhã embora o sol ainda não se fizesse presente.

— O que vai fazer? — perguntou para a mãe.

Só havia eles ali, seus pais e os guardas, não era necessário que a informação se espalhasse, ela poderia ter piedade e ignorar o acontecido.

— O que acha? — ela devolveu, ríspida, e Bakugou estreitou o olhar antes de tentar se levantar em pânico.

Mais uma vez, o bastão o atingiu, duas vezes, uma delas na barriga o fazendo curvar-se tossindo enquanto vinham segurá-lo contra o chão.

— Katsuki! — Kirishima gritou, dando um passo em frente e recuando assustado quando reparou nos guardas, armados. — O que...

— Como líder, por ter traído o nome da sua família, por ter se esquecido dos seus deveres, por ter... se deitado com outro igual, por ter quebrado as regras e invadido o rochedo sem a permissão dos ancestrais, por ter maculado o local com sua sujeira, eu sentencio você, Eijirou Kirishima a pagar com sangue por seus crimes.

— Mãe — Bakugou apelou, contudo, ela não se virou para olhá-lo. — Mãe! Não ouse! Você não pode fazer essa merda! Mãe!

— A culpa disso é sua! — ela gritou de volta, olhando para o filho como se encarasse um rato qualquer. — Se não fosse fraco, se não cedesse a essa imundice, eu não teria que apagar os seus erros! Será nas suas mãos que o sangue dele estará.

Bakugou tentou se levantar, os olhos estavam embaçados, mas ele temia que não fosse pela dor dos golpes. Sentia-se impotente, não conseguia se levantar e ir até Kirishima. O coração acelerou, Kirishima estava de pé, sua capa ao redor dos ombros dele, as lágrimas rolando pela face e a postura de combate pronta, embora os dois soubessem que era inútil.

— Para... por favor, mãe... por favor — pediu, a voz quebrada. — Eijirou, corre! Não luta! Corre, porra!

Ele não correria, não tinha para onde... E Bakugou não soube quantas mãos tiveram de segurá-lo quando o primeiro ataque aconteceu. O grito ecoou pelo rochedo, as aves deixaram as árvores enquanto Kirishima desviava do primeiro ataque e roubava a lança de um dos executores.

— Mãe, ordene que parem! Mãe! — Bakugou gritou, e o choro rompeu com força ao vê-la segurar seu arco de caça e mirar. — Não! Merda, não! Para!

A flecha cortou o vento, e Bakugou sentiu, no fundo da alma, como se fosse no próprio corpo, quando ela encontrou seu destino. O impacto fez Kirishima cambalear para trás, e Bakugou viu quando o corpo pendeu, quando o vento não os ajudou daquela vez e fez Kirishima cair do rochedo.

Se a flecha não o matasse, a queda o faria, e a constatação de que não havia esperança alguma fez Bakugou parar de se mexer, estático, preso ao solo pelo peso da culpa em suas costas. A mãe falava alguma coisa, gritava, mas seus ouvidos pareciam ouvir apenas o próprio coração bater forte e desesperado contra o peito. Já o haviam soltado, e o ódio o fez ser mais hábil do que se imaginou capaz ao roubar uma das lâminas de um dos guardas e girar num ataque veloz contra a mãe.

O sangue pingou no chão, mas não o dele. Com as espadas e lanças agora o cercando, ele soltou a espada roubada. Seu pai ajudava sua mãe a se levantar, o rosto dela ensanguentado pelo corte que descia por toda a metade direita do rosto.

— Eu te odeio... Eu te odeio! — gritou a plenos pulmões, a pele sentindo o perigos das armas ao redor. — Eu te odeio!

O vento sacudiu as árvores de forma violenta. Bakugou ergueu a cabeça para o céu, os primeiros raios da manhã traziam consigo o vento agitado, que sussurrava um turbilhão de sentenças incompreensíveis. Mas havia uma sensação no ar, uma que ele reconhecia com facilidade por ser a mesma que tinha encontrado enquanto descia pelo rochedo, uma que todos ali sabiam identificar: magia.

As armas dispersaram-se, tomadas pelo vento e arremessadas para longe. As vozes pareciam agitadas, e Bakugou não pensou duas vezes em correr até a beirada do rochedo quando o vento afastou os guardas abrindo-lhe caminho. Olhou o rio, procurando por algum sinal de Kirishima enquanto as vozes sussurravam que esperasse. Não conseguia enxergar nada, a correnteza estava forte, Kirishima poderia ter sido arrastado para qualquer lugar e isso o deixava inquieto e inseguro. Não havia como sobreviver àquela queda, havia?

A flecha tinha acertado o peito de Kirishima, no lado direito. A dor havia sido perfurante, e ele se lembrava bem da agonia que tinha sido assistir o próprio corpo cair do rochedo e chocar-se com brutalidade contra a água. Contudo, não houve a dor do impacto, era como se as águas o recebessem, como se o vento tivesse guiado seu corpo até a parte mais funda do rio.

Abriu os olhos na escuridão das águas, o broche de Bakugou havia se soltado, flutuava à sua frente ao alcance da mão, mas ele não conseguiu pegá-lo. Desejou ter força, desejou ter sido forte para se defender e proteger Bakugou do sofrimento de vê-lo morrer de forma tão vergonhosa... O corpo não tinha mais como se mover, e ele não entendia nem mesmo por que não sufocava debaixo da água. Estava quente, como se as cores que via ao seu redor o aquecessem e protegessem para que morresse sem dor.

Encarou o broche e fez um último esforço para segurá-lo. Sorriu quando os dedos tocaram a superfície dourada, trazendo o broche para junto do peito uma última vez, e implorou aos ancestrais, se ainda fosse digno de lhes pedir algo, que ao menos mantivessem Bakugou a salvo.

As cores à sua volta se agitaram em resposta, e a água se iluminou dando-lhe uma escolha.

— Para sempre... — sussurravam. — Para sempre...

— Para sempre... — repetiu, sem hesitar.

Enquanto o sol brilhar sobre o céu...

— Não me importo... façam.

Enquanto for dia...

Até que o sol se ponha...

— Não me importo. Façam! Ele precisa de mim!

Terá a força que deseja para proteger a quem ama somente enquanto o sol brilhar no céu.

Vulnerável de novo ao pôr do sol... À forma original voltará...

Para todo o sempre, fera durante o dia...

— Eu aceito. Não me importo, só façam! Eu não me importo...

O rio se partiu, e isso Bakugou conseguiu ver do topo do rochedo, o vento desceu sobre as águas, abrindo-as e permitindo que enxergasse um vulto vermelho ao fundo. Arregalou os olhos e recuou assustado, caiu para trás e não deu atenção aos gritos quando um grande dragão vermelho surgiu do fundo do precipício, batendo as asas com violência enquanto o rugido reverberava pelo campo aberto e era carregado pelo vento para muito mais além.

O chão vibrou pelo peso as patas, Bakugou encarou com atenção as escamas rubras, a pele aparentemente rígida, a ferocidade, mas foi ao chegar nos olhos que reconheceu... Nunca confundiria aqueles olhos... Ele estava vivo, não importava como, ele estava vivo! Ergueu-se de forma afobada, o medo na expressão dos demais assinava o fim daquilo, e cabia a ele decidir agora o que fazer.

— Eiji... — sussurrou ao se aproximar do dragão. Tocou-lhe a cabeça e a acariciou sem reservas, fechando os olhos ao abraçá-la e então encostar a testa contra a do outro. — estou com você. Para a merda que for.

O dragão rugiu alto uma segunda vez, e Bakugou sorriu quando as asas se abaixaram para que ele pudesse montá-lo. Não perdeu tempo, subiu e se segurou nos espinhos, o vento em seu rosto lhe dizia que era o certo a fazer, deveriam partir antes que os demais caçadores da vila acordassem e então os atacassem, os ancestrais não poderiam segurar todos se mais deles aparecessem. Ele e Kirishima já estavam condenados à perseguição, não haveria uma pessoa que não soubesse seus nomes e o que tinham feito.

— Vamos — sussurrou. — O mais rápido que puder, para o mais longe que conseguir. Vamos ver do que essas suas asas são capazes!

Kirishima pareceu rir, Bakugou podia jurar que ouvia a risada dele em sua mente. Segurou-se melhor quando Kirishima saltou, as asas se agitaram e eles mergulharam no precipício quando os caçadores da vila enfim chegaram todos ao rochedo. O vento os acompanhou, rodeando-os como se lhes desse força para ganhar o céu. Bakugou não olhou para trás nem um única vez. Abraçado às costas de Kirishima enquanto o vento os guiava, sorriu grato por ser capaz de sentir o coração do dragão batendo forte junto ao seu. Tinha ciência do que faziam, do que significava, do que enfrentariam no futuro, sabia dos perigos que agora adicionavam em suas vidas por fazer da vila dos caçadores sua inimiga, mas em sua mente nada disso importava, pelo menos não mais que a felicidade por Kirishima estar vivo e consigo. Quanto ao resto... que explodisse todos! Eles dariam um jeito, juntos, como deveria ser.

Sorriu confiante, e Kirishima rugiu como se o entendesse e partilhasse de seu sentimento. As nuvens pareceram próximas, atravessá-las foi como um sonho, como entrar numa nova vida, e então o sol brilhou mais forte, recebendo-os de bom grado e lhes desejando sorte para aquela nova aventura...



Olá!!

Espero que tenham gostado!

Eu me diverti bastante escrevendo <3

Comentários?

Beijosss

6 de Octubre de 2018 a las 17:20 8 Reporte Insertar 9
Fin

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Alice Alamo 23 anos, escritora de tudo aquilo em que puder me arriscar <3

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Lux Noctis Lux Noctis
Eu tô só surtos, então perdoe! Eu tô muito in love por essa belezinha aqui, a fic foi um agrado à alguém que você estima, mas certamente presentou muito mais gente, e eu me incluo nessa listagem. Admito que, dentre os muitos ships de BnHA esse não é o que faz meu coração dar sinais de vida, mas aqui, oh céus!, aqui fez isso sim! E eu só tenho a te parabenizar por isso. Toda a temática me envolveu como um todo, como se eu fizesse parte dos ventos ancestrais que abraçavam e protegiam esses dois. Cada momento me fez torcer por eles, os toques me deixaram vermelha dentro do ônibus, mas foi um preço justo a pagar por algo que gostei tanto de ler. ♥ Ver como se manteve fiel às personalidades que conheço do anime, iti malia, que orgulho do meu bb Bakugou, rs. Esquentadinho, mas nunca deixando o Kiri levar a culpa por nenhuma de duas ideias loucas, olha que bb precioso e encrenqueiro. Quando ele finalmente se deu conta do porquê que quer tanto o Kiri por perto, de não querer que ele se casasse com outra pessoa, ain, me deu um quentinho no peito, porque era óbvio que ele "tomaria para si" aquilo que lhe era de direito. E digo isso sem sombra de dúvidas, porque desde antes de se entregarem de corpo, já haviam de doado de alma e coração. Então, sim, se pertenciam. Achei poético, místico, magnífico quando o Kiri aceitou o que lhe fosse imposto para salvar aquele que amava, muito a cara dele ♥ Uma pena que não foram aceitos como sendo quem são, mas aceitaram um ao outro, e é todo o apoio que precisavam, sem contar a 'benção' dos ancestrais sobre eles. Um primor de obra, muito bem escrita e com a medida certa de amor, dor e esperança. Adorei tirar um tempinho para lê-la, e agora, finalmente comentá-la depois de refeita do meu surto inicial. ADOREI cada trechinho, principalmente a entrega de corpos durante a noite, e o dragão vindo como guerreiro para proteger aquilo que tinha em alta estima ♥ Meus parabéns! Beijos
24 de Mayo de 2019 a las 11:01
Sayury Misaki Sayury Misaki
Adorei !!
26 de Abril de 2019 a las 19:18

  • Alice Alamo Alice Alamo
    Obrigada pelo comentário!! <3 26 de Abril de 2019 a las 19:24
MP Mariana Pereira
Mdsssss!!! Que hino de fic foi essa??!! Estou até sem palavras <3 Maravilhosa!!!
23 de Octubre de 2018 a las 20:00

  • Alice Alamo Alice Alamo
    Ahhhh que bom que você gostou!! Muito obrigada pelo comentário! Beijoss 27 de Febrero de 2019 a las 18:41
Karol  Karambola Karol Karambola
Mano, vou tentar comentar algo descente porque a minha vontade é escrever "AAAAAAAAAAA" por eu nem saber expressar o que eu estou sentindo KKK Em primeiro lugar, fantasia é o seu ponto forte. É incrível o quanto sua escrita é fluida, linda, intensa. Eu fico apaixonada, sério. Eu amei o universo, amei o lance espiritual da água, do ritual, os significados das cores da tinta na pele e principalmente, amei o modo que o Bakugou respeita isso. Eu amo o jeito que ele teme e respeita os ancestrais e isso mostra o porquê ele foi abençoado no final. Eu simplesmente amei como o Bakugou continua agressivo, mas ainda é doce com o Kiri baby. Essa é a coisa que eu mais amo no casal, e você ter colocado isso aqui me fez vibrar de euforia. Sério, eu amei demais. Você conseguiu trabalhar com a personalidade doce e devota do Kirishima sem o deixar um bobão melancólico e eu amei demais isso. Ele continua corajoso e forte, mesmo sendo claramente mais amável que o Kacchan, nossa eu tô apaixonada. Amei as descrições detalhadas do rito de passagem, gostei de como você conseguiu me situar no universo com tão pouco. A cena da "morte" do Kiri me deixou sem fôlego!!!! Que cena intensa e majestosa! Meu Deus. O desespero do Kacchan chegou a ser palpável. Os sentimentos estão tão bem expressados nessa cena que eu perdi uns cinco anos de vida enquanto eu estava lendo. Agora a minha parte favorita: A parte da transformação do Kiri em dragão. Eu não tenho palavras para descrever a beleza dessa cena. O toque de magia, o jeito que foi narrado, a forma que a "sentença" foi anunciada, eu achei lindo. Eu só tenho a te agradecer, te dizer que estou muito feliz, muito honrada em ter recebido um presente tão lindo ❤️ Obrigada de verdade. Essa foi sem dúvidas a melhor KiriBaku que já li.
6 de Octubre de 2018 a las 14:08

  • Alice Alamo Alice Alamo
    Mano, eu to atrasada, mas eu sei que você me entende, então tá tudo certo <3 Eu amo escrever fantasia, meu deus! Eu amo mesmo! Fico tão feliz que consegui fazer uma fantasia descente para você <3 Ahhhhh eu sou apaixonada por mitologia e rituais e crenças (Oi, Doce Veneno?). É inevitável, toda vez que tem fantasia, tem que ter isso. O Bakugou é um personagem que é agressivo, mas que derrete a gente sendo meigo (do modo dele, é claro). Eu tinha que internalizar o casal para você, ne? Eu pesquisei (coff coff). O Kirishima é difícil mano, que isso! Você tem que dosar, porque ele não é bobo 100% do tempo, mas mesmo sério ele é fofo! E corajoso, sim, muito corajoso. Ahhhhhh eu amo tanto você me dando biscoito!! Eu to sem palavras (de novo! Porque eu já tinha ficado sem quando li o comentário pela primeira vez e agora to de novo!). A transformação! Mano, eu escrevi e reescrevi tantas vezes! Tantas! Fico muito feliz por ter ficado bonita de alguma forma. Muito obrigada pelo comentário <3 <3 <3 <3 <3 Fico muito feliz de ter te dado um presente que você gostou <3 <3 <3 27 de Febrero de 2019 a las 18:47
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