De Olhos Bem Fechados Seguir historia

monachopsis Amanda Figueiredo

Em que Jungkook decide pegar uma carona no trem da vida. Jikook | Menção de Vhope | ComingOfAgeAU!


Fanfiction Sólo para mayores de 18.

#vhope #drama #k-pop #bts #kookmin #jikook
Cuento corto
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Capítulo Único

“Feche os olhos, Jungkook. Feche os olhos e conte até 10. Pense em um lugar bom e não ouça nada do que a mamãe e o papai disseram. Promete?”

“Prometo mamãe.”

E logo meus pais tinham mais uma discussão feroz e inútil na sala. Pude apenas me encolher no meu quarto, fechando os olhos com força, pondo a mão sobre eles para garantir, enquanto contava em voz baixa os números recém aprendidos na escola. Pensei em um lugar bom, qual seria a melhor fantasia na época? Pensei em nós três juntos, sentados na sala, só que com sorrisos nos rostos – ao invés de palavras amargas estampadas em nossas expressões, uma cena que se tornou cada vez mais comum com os anos. E nesses anos, minha fantasia de lugar bom mudou lentamente para um quarto vazio, onde eu apenas pudesse me encolher e fugir de tudo e todos.

Talvez eu tenha levado a promessa a sério demais, mãe.

***

Um, dois, três e lá nos vamos outra vez.

O som da porta do quarto dos meus pais batendo com força era um grande indicativo de que minha mãe chegara estressada do plantão noturno. Não era uma novidade, e ela sempre chegava a tempo de pegar meu pai se arrumando para o dia no escritório, então eu apenas congelei na cozinha, enquanto procurava algo para comer. Enfiei o primeiro pacote que vi na frente dentro da mochila, no automático, apressando para sair de casa antes das discussões se iniciarem e se tornarem altas demais para fechar os olhos e ignorá-las.

Todas as manhãs, de certa forma, eram iguais. Taehyung me enchia durante todas as aulas, comentando coisas aleatórias, imerso em sua personalidade naturalmente extrovertida e gentil para perceber que eu não ligava a mínima. Ele era novato no colégio, e creio que havia algum parafuso a menos em sua cabeça para continuar insistindo em conversar comigo, quando eu claramente não dava atenção. Mas ele apenas sorria para mim e perguntava se o clima não estava uma droga. Taehyung era um dos mistérios da vida, diferente do padrão de pessoas que enchiam as salas e corredores do colégio, tornando difícil eu entendê-lo e o que queria comigo. Mas, se eu sobrevivi ao ambiente hostil familiar, Taehyung apenas me fazia revirar os olhos e morder a língua para não sorrir.

Ele insistia toda semana para que eu pudesse largar meu caderno e as arquibancadas e corresse com todos os outros pela quadra. Mesmo que eu já tivesse um acordo implícito com a professora de educação física, em que eu fazia alguns trabalhos e ajudava na organização após as aulas, para ganhar a nota que eu não preocupava muito em ganhar correndo. Eu não iria desperdiçar meu momento de observar Jimin, nosso colega, em seu estado pleno. Ele era o completo oposto de mim, começando pelos cabelos descoloridos e terminando no seu sorriso constante, enquanto eu sempre permanecia sério e emburrado, como Taehyung comentava. Aquele papo de nos atrairmos pelos nossos opostos parecia bastante real, enquanto eu desenhava ele no uniforme da aula, rindo e correndo feito um desvairado com o resto da sala, pela quadra descoberta. Ele era da outra turma do primeiro ano, mas como nossa educação física era conjunta, era o momento ideal para memorizá-lo e eternizá-lo nas páginas do meu caderno.

Eu gostava de desenhar, era minha grande válvula de escape. Mas, principalmente desenhar pessoas. Eu as analisava cuidadosamente. Ao longo dos anos deixei de desenhar aleatórios, para escolher aquelas que pareciam ser as mais agradáveis ou que fugiam dos padrões. Já desenhara inclusive Taehyung sorrindo e entregara para ele, que ficou o resto da aula me enchendo de elogios e encarando a folha o tempo todo. Depois daquilo eu fiquei mais restrito aos desenhos com ele, já que o mesmo só sabia debruçar sobre mim e perguntar quem eu tava fazendo. Por enquanto eu conseguira esconder os desenhos de Jimin dele, mas a medida que eles se acumulavam nas páginas, foi ficando mais difícil.

Eu mesmo fiquei surpreso com o acúmulo. Mas parecia tão natural desenhá-lo, ele era tão diferente de mim, eu gostava de fingir que conseguia me aproximar dele desenhando-o, mesmo que nunca houvéssemos trocado uma palavra. Apenas naquele ano seu cabelo fora de laranja para preto, e agora para loiro desbotado. Eu usava apenas roupas largas e extremamente confortáveis. Jimin tinha dezenas de amigos, eu me contentava com Taehyung me cutucando e falando sobre colegas que eu nem sabia ter. Era uma discrepância engraçada e desenhá-la tinha se tornado um hobby. E aquele desenho em especial tinha ficado mais realista do que os demais, em que Jimin me olhava diretamente do papel, mesmo que na vida real nunca o tenha feito. Antes que eu pudesse assinar, uma idéia ridícula me passou pela cabeça e eu cheguei a revirar os olhos pra mim mesmo. Mas o lápis ainda ficou no ar, sobre o papel, imóvel. Arranquei a folha cuidadosamente, limpando as bordas. Enquanto as duas turmas de primeiro ano faziam exercícios extenuantes na quadra, com Taehyung se jogando no chão de forma dramática e desistindo, aproveitei para sair da arquibancada baixa que eu estava.

Como sempre ninguém me notara, então pude ir para atrás da quadra, onde todos guardavam suas mochilas e materiais para a aula. Eu sabia qual era a mochila de Jimin, já o vira saindo do colégio com ela no ombro, então pude reconhecê-la naquela bagunça. Ainda me certifiquei que não havia ninguém ali, para que pudesse enfiar o papel dobrado na sua mochila e fechá-la como se nada houvesse ocorrido. Aproveitei para enfiar meu caderno dentro da minha própria mochila e suspirar.

Eu não era dotado de impulsividade assim, na verdade meu grande talento era me encolher em algum canto, fechar os olhos e aguardar tudo passar. Fiquei um pouco frustrado pelo meu ato sem sentido, mas eu apenas deixei para lá, voltando a me sentar na arquibancada, tentando me distrair com o fim da aula. Acho que consegui o bastante, pois logo Taehyung se jogava ao meu lado, suado e com uma expressão de dor e sofrimento.

- Eu juro que amanhã mato aula para apenas dormir e tentar recuperar meu corpo. – ele disse, ofegante e vermelho.

- Não é como se amanhã fosse ter alguma aula importante mesmo. – comentei, em voz baixa, observando os colegas saírem da quadra exaustos. Um colega em especial, na verdade.

- Falando nisso, o que você faz nas sextas feiras, Kook? – ele perguntou do nada, interessado, se ajeitando melhor.

- Que tipo de pergunta é essa? – questionei, franzindo a testa.

- Calma, não estou te chamando para um encontro. – ele riu. – É só que você parece não sair para lugar nenhum.

- Ainda nem fizemos 16 anos, não é como se pudéssemos ir para algum lugar. – suspirei.

- Na verdade, com uma carteira de identidade falsa você abre portas. – ele deu um soquinho no meu braço e eu o olhei feio. – Uh, é mesmo, você é seco demais para isso.

- Está querendo alguma coisa Taehyung? – arqueei uma sobrancelha.

- Se for o número do Hoseok que estamos falando sobre, aí eu posso confessar que sim. – Taehyung, sempre tão sincero e aberto que me deixava constrangido. – Mas como não é sobre ele, tudo bem. Estava apenas pensando o quanto a adolescência pode ser chata quando não liberamos nossos hormônios por aí. – ele deu ênfase ao que disse, jogando os braços para o ar.

- Eu não vou. – já declarei.

- Eu te dou o que quiser se for nessa festa comigo. – ele tentou barganhar.

- Você passou o ano todo tentando me convencer de sair para festas, cinemas, parques. Porque eu o faria agora?

- Porque eu sei quem você está desenhando muito ultimamente. – ele abriu um sorriso matreiro. Aquilo me deixou muito sério.

- Taehyung.

- Caramba! Foi um blefe e agora eu sei! Você está mesmo desenhando alguém em especial! – ele gargalhou, alegre consigo mesmo. Eu quase levantei dali e o deixei sozinho. Quase. – Quem é? – aí sim eu levantei e saí, indo pegar minha mochila sem me importar de ir no vestiário trocar o uniforme.

Como naquele dia não houvera nenhum esporte específico, não precisei ficar depois da aula ajudando a limpar a bagunça da quadra para a professora. Poderia simplesmente ir para casa, sem nem trocar o uniforme da educação física, apenas para me livrar de Taehyung.

- Pera, Jungkook! – ele me chamou, correndo atrás de mim. – Eu tenho que tirar essa roupa de mim. – ele enfiou no vestiário masculino enquanto alguns alunos saíam do mesmo.

Inclusive Jimin acabava de sair do mesmo, jogando os fios de cabelo suado da testa para trás, conversando com alguém que nem preocupei em reconhecer. Querendo ou não, acabei enrolando ali no canto, um pouco escondido, apenas para ver Jimin sair. Sua voz era suave e menos grave que a minha, mas soava muito bem aos meus ouvidos, principalmente quando ele ria de algo. Chutei algumas pedrinhas do chão, me sentindo um pouco ridículo. Taehyung realmente não demorou para sair, logo pondo o braço sobre meus ombros, o que me deixou desconfortável. Toques realmente não eram algo muito presente na minha vida para eu encará-los com normalidade, mesmo que a mente estranha de Taehyung os amasse e não se tocasse disso.

Fomos para a saída do colégio e eu me despedi dele com um aceno simples, enquanto ele ia quase saltitante para seu ponto de ônibus, gritando que ia me ligar para combinarmos de ir para a festa. Nem me pagando eu iria de bom grado para aquilo, então apenas fiquei em silêncio, deixando ele aproveitar o momento. Blefando ou não, chutando ou não, Taehyung não iria me manipular.

Olhei as horas e fiquei decepcionado ao ver que já estava um pouco tarde para me embrenhar na biblioteca municipal que ficava perto da minha casa. Eu realmente na estava interessado em sentir aquele ar saturado e pesado da minha casa, mesmo que minha mãe estivesse dormindo o que não dormiu na noite de plantão e meu pai ainda estivesse fora no escritório. O ambiente era quase tóxico, sendo tolerável apenas o meu quarto. Não jantávamos juntos mais fazia alguns anos, na verdade cada um ficava em um cômodo diferente quando estávamos em casa. Mesmo que houvesse uma pausa nas discussões e troca de farpas, eu ainda não me sentia bem naquele lugar e procurava ficar fora dele o máximo possível, seja na biblioteca, seja na escola matando tempo, seja até mesmo na praia, jogando conchas de volta ao mar.

Apenas poderia lamentar internamente enquanto me dirigia para o metrô, pelo menos o trem para casa eu não iria perder.

***

O meu desenho estampava o corredor de entrada do colégio e me deixou paralisado. De repente veio um certo pânico e uma ânsia de arrancá-lo dali antes que mais alguém visse, mas ele estava em diversos pontos do corredor. Diversas cópias do meu desenho. Jimin me olhava de tantos pontos que eu fiquei confuso e a mente em branco, tentando achar alguma solução. Os alunos passavam e comentavam sobre alguma coisa, apontando para o desenho e mexendo nos celulares. Eu não conseguia compreender o que diabos estava ocorrendo, então fechei os olhos com força.

Fiquei plantado ali, respirando fundo e contando mentalmente. A contagem antiga de 1 a 10 passara para infinito, sendo que já houvera vezes que eu cheguei a milhares, apenas tentando esvaziar minha mente da confusão que ocorria ao meu redor. E apesar de não entender nada, era a maior confusão até agora, tanto que minhas unhas estavam cravadas nas minhas palmas, e eu tentava ao máximo me dispersar e fugir daquilo.

Impulsividade claramente não combinava comigo. Fui impulsivo uma única vez, enfiando aquele desenho na mochila de Jimin e agora ele estampava o colégio inteiro e eu me sentia tão exposto, mesmo que não estivesse assinado com meu nome. Eu estava atordoado e aquela avalanche descia sobre mim de forma anônima, já que ninguém parecia saber que eu fizera o desenho. Mas porque? Porque ele estava ali, em dezenas de cópias, na frente do colégio todo? Porque... Jimin?

- “Você sabe quem fez esse desenho?” – uma voz soou do meu lado. – Uau! Kook, você viu isso? – Taehyung me cutucou, vendo que eu estava imóvel e de olhos fechados. – Você está bem? Quer que eu te leve para a enfermaria...

Peguei o braço de Taehyung num impulso, um impulso maldito, quase correndo pelo corredor, arrastando ele comigo. Tive que parar atrás de alguns armários, pois o mesmo se recusou a ser puxado mais além.

- Hey, Kook, olha pra mim. Foi você que fez o desenho, não? – Taehyung perguntou baixinho, ficando na minha frente e de certa forma me protegendo do corredor inteiro e dos desenhos. – Jungkook, abre os olhos. Olha pra mim.

Foi difícil, já que a contagem havia se perdido e eu definitivamente não conseguiria escapar daquilo. Olhei para ele, que possuía uma expressão calma e compreensiva.

- Eu reconheço seu traço, mesmo que não esteja assinado. Foi você, né? – ele perguntou ainda, bagunçando meus cabelos.

- Sim. – consegui responder.

- Pelo que está escrito do lado, estão te procurando. Alguém deve ter achado seu desenho e pelo visto ta como um maníaco atrás de você. – ele deu um sorrisinho.

- Isso é horrível.

- Ok, desculpa. – ele mordeu a boca, parando de sorrir.

- Eu... enfiei o desenho na mochila dele. – acho que falei muito baixo, com medo de alguém ouvir, tanto que tive que repetir novamente, pois Taehyung não entendeu o que eu disse.

- De quem? Espera, do Jimin? Já que é ele no desenho...

- Aham. – concordei, aflito.

- Nossa. É ele que você está desenhando! – soquei seu peito para que ele diminuísse o tom de voz e ele gemeu pela dor. – Não desconte em mim sua raiva, ouch.

- Não era para ter acontecido. Eu enfiei na mochila dele durante a aula de educação física, não pensei que ele iria expor ele para a escola toda. – mordi as bochechas internamente. Eu estava tão frustrado e me sentindo exposto, humilhado, tudo que minha mente louca poderia imaginar, que poderia até ser o suficiente para eu chorar. Eu quase nunca chorava, o que era algo meio assustador.

- Mas ele expôs perguntando quem tinha feito o desenho. Provavelmente ele está curioso sobre o artista. – ele pareceu satisfeito de seu raciocínio. – Não é nada grave.

- Como não é grave? – rosnei, baixando toda minha guarda e controle interno.

- Ninguém sabe que foi você que fez, Jungkook. – ele sussurrou, como se me contasse um segredo. - Nem Jimin sabe que foi você. Mas acho que agora podem promover uma caça ao autor do desenho. – ele pensou, batendo o indicador no queixo.

- O que?!

- Calma, sem me bater de novo. Só acho que agora a escola toda pode ter ficado curiosa sobre quem fez, além do Jimin, e agora todo mundo vai querer te descobrir.

- Isso é...

- Demais!

- Taehyung. – briguei.

- Então é o Jimin. – ele sorriu. – Porque não me disse, eu converso com ele, na verdade eu converso com todo mundo, mas eu posso te apresentar a ele de boa.

- Tá tudo errado Taehyung.

- Porque estaria errado, meu caro Kook? O cara que você claramente está afim está afim também... – soquei ele de novo, com mais força. – Tá, parei. – ele falou, parecendo magoado, massageando onde o soquei.

- O que eu faço? – perguntei para ninguém, olhando todo mundo passando pelo corredor e fofocando sobre o desenho.

- Nunca chegou nesse estágio, né? Admito, eu também nunca cheguei ao estágio de ser correspondido... Tá! Não me bate!

- Não é ser correspondido, não tem nada ocorrendo aqui. Eu apenas gosto de desenhar o Jimin e, por um acaso, ele quer saber quem fez o desenho. Simples. Nada vai ocorrer. Não tem além. Logo ele vai se cansar, vai desistir e vai ficar por isso mesmo.

- Tá dizendo que não vai chegar nele e falar que foi você quem fez? – ele arregalou os olhos.

- Sim.

- Mas Kook...

- Taehyung. Não tem a mínima possibilidade. Ele vai ficar decepcionado ou algo assim. Ele nem sabe que eu existo. Eu estou longe de ser alguém minimamente interessante ou sei lá o que. Isso tudo vai passar.

- Mas ainda assim...

- Basta fechar os olhos, contar e esperar. Vai passar. – falei baixinho para que ele não ouvisse. Se eu fechasse bem os olhos e fugisse para meu quarto, longe dos desenhos e dos olhares desconfiados que davam para todos, tudo aquilo passaria.

Tudo sempre passava, bastava dar um tempo.

***

Em dois dias a escola ficara um inferno. Em míseros dois dias. De terça para quinta aquilo caíra como se as portas do inferno houvessem sido abertas.

Apelidaram Jimin de príncipe e o autor, ou autora, do desenho de Cinderela. Era ridículo, era absurdo, mas o colégio estava empolgado de participar daquela quebra de rotina. Procurar por mim parecia ter virado o maior passatempo daquele lugar. De quebra muitos supostos autores apareceram, mas fizeram até concurso para ver se a pessoa desenhava mesmo, e se desenhava, se os traços eram parecidos com os meus. Jimin parecia feroz em sua perseguição, não esmorecendo mesmo com cada autor falso que aparecia, me fazendo pensar se ele não era uma pessoa um pouco obsessiva. Mas era apenas o jeito intenso de Jimin ser. Mesmo nas aulas de educação física, quando eu podia observá-lo, ele parecia se entregar aos jogos de alma, lutando para ganhar. Sempre corria na frente e fazia os exercícios horríveis da professora e ainda por cima animava os colegas a seguirem ele, não desanimarem. Tão oposto a mim, que queria apenas fugir de tudo aquilo e me trancar em meu quarto, me recusando a ir para o colégio por um mês.

Parei de desenhar nas horas vagas. Eu me sentia observado, mesmo que ninguém estivesse realmente prestando atenção em mim, como Taehyung sempre confirmava, tentando me livrar da minha paranóia. Escondia meu caderno de desenho no fundo da mochila, temendo que alguém revistasse ela e achasse aquelas centenas de desenhos de Jimin dentro dele. Eu poderia chegar ao extremo de jogá-lo fora, mas eu era apegado demais ao que eu fazia. Parecia ficar sem parte de mim quando não estava do lado daquele caderno de capa preta simples, as folhas brancas e um pouco grossas, próprias para desenho. Era ótimo desenhar naquelas páginas, sentir a grafite deslizando, trocando a grossura delas para traços específicos, sombreamentos, profundidade. Passar a borracha em pontos específicos que não ficaram bons o suficiente, refazer aquela parte até eu declarar que estava boa. Deixar a mente esvaziar de tudo enquanto eu desenhava e apenas seguia o movimento quase involuntário da minha mão no papel. Mesmo que eu não desenhasse nas aulas mais, ainda me enfiava na biblioteca após a aula e o fazia. Até mesmo durante o intervalo do almoço, eu me escondia fora do refeitório e apenas desenhava debaixo de uma árvore. Eu não conseguiria abrir mão daquilo nunca.

Mas o cuidado ficara meio absurdo. Tinha até deixado uma página com cálculos para servir de disfarce se alguém se aproximasse demais. Taehyung dizia que eu exagerava e que Jimin parecia muito legal, ele não iria me comer – só se eu pedisse, ele riu e recebeu um chute debaixo da mesa por minha parte. E ainda batia os cílios de forma exagerada, falando sobre a festa e minha ida nela. Ele não deixava explícito, mas eu sabia que se negasse, ele poderia me ameaçar, contando para Jimin que fora eu que fizera o desenho. Eu não queria arriscar, mesmo que Taehyung fosse compreensivo e legal, ele poderia muito bem me dedar achando que estava me fazendo um favor. O mesmo gostava de dizer que minha vida passava diante de mim e eu nem estava de olhos abertos para vê-la passar e pensar em pegar carona. Eu apenas respondia que a maioria das coisas na minha vida eram melhor sendo mantidas no escuro do que às minhas vistas, o que o deixava me observando pensativo.

Eu não falava sobre minha suposta família. Sobre minha mãe frustrada com o casamento, com o emprego, que chegava em casa e descontava brigando e magoando eu e meu pai. Também não achava necessário falar sobre meu pai, passivo, esgotado, deixando essa frustração extravasar nas discussões e magoando a esposa também. Eu nunca entenderia porque ainda insistiam em ficar juntos, era um dos mistérios da humanidade que eu ainda não compreendera. E preferia ficar sem entender. Era melhor deixar aquilo quieto em um canto, fingir que não existia.

Então a escola estava um saco. Não que ela tenha sido alguma vez muito interessante, mas eu me sentia muito acuado e em perigo ali. Jimin parecia muito distraído, andando pelos corredores, questionando todo mundo sobre notícias do suposto desenhista. Então, naquela manhã, durante o intervalo, quando o refeitório se agitou até virar uma bagunça, eu apenas senti um gelo na minha espinha. Um desenho meu de Jimin, apenas um dos esboços do meu caderno, aparecera na mochila dele. Outro. E eu não fazia idéia de como aquilo pudera ocorrer, já que eu estava controlando muito bem meus ataques impulsivos.

Olhei para Taehyung, pensando em questioná-lo, já que ele era o mais sociável de nós dois e sabia conseguir informações melhor que eu. E apenas ao ver o sorriso dele, como se fosse uma criança que aprontara, meu queixo caiu. Eu teria voado em seu pescoço se não estivéssemos no refeitório, tentando comer nosso sanduíche. Jimin pegara o desenho para ele, impedindo os outros de verem, parecendo ciumento, mas seus amigos já espalharam a fofoca para todo mundo que estava ali.

- O que você fez? – sussurrei.

- Eu não posso deixar você ficar fugindo de tudo, Kook. Me deixa mal ver você se isolando e fingindo que nada disso te afeta ou sei lá o que. – a sinceridade e gentileza de suas palavras doeram em mim, me acertando feio. Me encolhi um pouco na cadeira, encarando meu sanduíche, sem ter o que fazer. – Pare de fechar os olhos e os abra, não perca as suas chances. – ele sussurrou em meu ouvido e se levantou, correndo dali, como se eu fosse socá-lo.

Mas eu estava longe de descontar com violência física, estava apenas me sentindo cansado. Eu sei que minha atitude, tantas vezes isolacionista, era minha forma de me proteger do mundo. Inicialmente para me proteger das brigas dos meus pais. Depois para me proteger de crescer nesse mundo, que tantas vezes era hostil. Era difícil e doloroso crescer. As pessoas mudavam. Te tratavam mal. Te machucavam. Te ignoravam, e como eu estava acostumado a ser ignorado. De forma que ser jogado da minha zona de conforto para aquilo tudo estava me deixando muito estressado. Estava difícil dormir. Estava difícil fechar os olhos e contar, me refugiar em minha fantasia ideal. Eu não sabia lidar com aquilo. Eu queria apenas me proteger, me encolher em meu quarto e contar em voz alta, esperar tudo passar.

Mas a vida não era tão passiva assim. Ao contrário de muitas pessoas, ela não admitia ser ignorada. E creio que ela estava cansada de me ver fugindo dela, de forma que a mesma parecia me perseguir agora, na forma de um desenho e de Jimin.

Era apenas muito novo e assustador para mim.

***

Na sexta feira o colégio ainda continuava quente. Com mais aquele desenho, parecendo debochar de todos de sua incapacidade de me acharem, o que só se falava era do Desenhista Cinderela. O nome vergonhoso virara alcunha do ser misterioso, e Taehyung me mandava mensagens no kakao me chamando de DC, o que me deixava louco, justamente o que ele queria. Eu não tinha nenhuma chance contra ele, imagina contra Jimin.

Este estava com uma expressão determinada na educação física de hoje. Me mantive no meu lugar de sempre, só que sem meu caderno. Eu nunca arriscaria ficar sentado ali, sozinho, rabiscando no meu caderno na vista do primeiro ano inteiro. Hoje a professora fez todos jogarem vôlei e, mesmo sendo baixinho, Jimin ainda se jogava na quadra, tentando salvar a bola para seu time, mesmo que fosse ruim na rede. Sem meu caderno para me distrair pelas longas duas aulas, eu apenas fiquei ali, sentado e observando o jogo mesmo. Taehyung às vezes acenava para mim, animado, fazendo seu time perder uma bola que era estrategicamente direcionada a ele. Tão lerdo e distraído, sua mente só prestava para me encher o saco.

Ao longo daquela semana eu poderia dizer que me abrira mais à sua amizade que no ano todo. O estresse me fez baixar todas minhas guardas e reservas, me permitindo entrar nas brincadeiras do mais velho e ser mais natural com ele. Mesmo que ele tenha me feito quase chorar de frustração naquela semana, acho que nossa amizade torta e fraca conseguira se fortalecer um pouco. Como dizem, é em momentos de desespero que conhecemos os verdadeiros amigos. Mesmo que Taehyung tenha me dado um tiro com aquele segundo desenho vazado, acho que eu o perdoava. Ainda parecia muito longe a probabilidade de descobrirem que eu quem desenhara.

Em algum momento, em que eu corria os olhos pelo time adversário, percebi uma coisa estranha e diferente. Jimin me encarava. Taehyung ia sacar naquela hora e tomava um longo tempo preparando as mãos e pés, na posição correta, para mandar a bola para o lado da quadra em que o time de Jimin estava. Minhas mãos que estavam segurando a bola reserva apertaram-na com mais força inconscientemente. Não desviei o olhar, aproveitando que Taehyung enrolava feio na sua tentativa tosca de imitar os jogadores famosos. Meu sangue pareceu correr de forma mais lenta pelas minhas veias enquanto ele me olhava. Sua expressão estava compenetrada, ele parecia perdido em alguma coisa na minha cara, e eu ficava nervoso apenas pensando no que diabos poderia ser. Seguramos o olhar um do outro por um tempo tão longo que desejei ter memória fotográfica para poder desenhá-lo depois. O desenho que eu fizera e entregara a ele parecia tão irreal, não fazia jus. Ele me encarar de um desenho e ele me encarar na vida real pareciam coisas totalmente diferentes e aquele olhar era tão... Diferente.

Mas a bola bateu na cabeça dele e todo mundo exclamou. Taehyung tinha uma mira boa para mandar a bola para fora, quando ele sacava todo o time fazia cara de raiva para ele. Mas por algum milagre ele acertara bem a cabeça de um Jimin distraído e o time celebrou. Taehyung inclusive ficou surpreso enquanto congratulavam a ótima mira, enquanto o outro time perguntava para Jimin se ele estava bem. Deixei um sorriso escapar enquanto via ele esfregar a cabeça, atordoado ainda pela bolada. Ele me pegou no flagra de novo e eu fechei a cara e fingi estar muito concentrado em observar Taehyung preparar para sacar novamente.

Um raio não cai no mesmo lugar duas vezes, claro, de forma que Taehyung mandou a bola para fora dessa vez, quebrando a magia que ele tinha conquistado. O mesmo não se deixou abalar, acenando para mim e levantando o polegar, indicando estar ótimo, mesmo que seu time o olhasse frustrado. Eu nem tive tempo para pensar sobre, ficando preso ao fato de que Jimin tinha me olhado e eu senti aquele gelo na espinha novamente.

As probabilidades dele descobrir que eu tinha feito os desenhos continuava baixa, apesar de tudo. Um olhar não muda não. A não ser que ele fosse adivinho.

E talvez fosse.

***

Eu não tive a mínima chance, óbvio. Eu poderia apenas suspirar de forma muito profunda e dramática, enquanto Taehyung guiava o caminho, já balançando o corpo no ritmo da música pop que tocava furiosamente ali.

Estávamos na casa de alguém, de algum ano, provavelmente como penetras, mas como ninguém parecia se preocupar com convites ali, apenas mantive o olhar na cabeça de Taehyung, seguindo-o por entre as pessoas que conversavam, riam e dançavam. Parecia ter metade da escola ali e outra metade de pessoas que nunca vira na vida, de forma que parecia apenas abafado e sufocante. Se eu fechasse os olhos para tentar me isolar não conseguiria nunca, não com aquela música e pessoas esbarrando em mim.

Taehyung parecia estar no seu ambiente natural, cumprimentando todos e sendo retribuído, pegando bebidas de não sei quem e me entregando uma. Beberiquei um pouco da cerveja e já decidi que não era minha bebida preferida. Ali estava abarrotado de menores de idade, mas pelo visto nada restringia os jovens de fazerem merda quando queriam. Taehyung me arrastou para o lado da pista de dança improvisada na sala, cheia de pessoas se movimentando loucamente e sem muito ritmo, efeitos do álcool e da simples animação de uma sexta feira à noite mesmo. Eu nunca me enturmaria ali, então Taehyung era minha bóia salva vidas, e eu já o ameaçara que se me deixasse só ali eu iria dar um jeito de contar a Hoseok que ele gostava dele. Devo ter feito uma expressão muito séria para ele não ter duvidado e apenas garantido que não me deixaria.

- Você consegue dançar? – ele perguntou em um tom de voz alto, para ser ouvido pela música.

Apenas o olhei.

- Você consegue sorrir? – insistiu.

Continuei o olhando.

- Você consegue sentir alguma coisa, seu alienígena insensível? – ele provocou.

- Não, eu sou um alienígena insensível, não compreendo nada disso e não gosto. – falei, mesmo assim bebendo um gole da cerveja. Gosto ruim, mas servia.

- Poxa, DC, não consegue nem mexer um pouco? – ele me cutucou com a mão livre.

- DC o seu...

- Opa.

- Não me chama assim em público. – olhei ao redor, paranóico.

- Nem adianta, já vi o Jimin aqui quando chegamos. – ele comentou, bebendo sua cerveja numa golada.

- O que?! Eu não vou cuidar de você se ficar bêbado. – já avisei.

- Nem se eu dançar sedutoramente para você?

- Você não faz meu estilo. E como assim ele está aqui? – voltei a ficar paranóico.

- A vida, Jungkook, não para. Ela vai te perseguir. – ele falou com intensidade.

- Você tomou nem um copo, não pode já estar bêbado. – peguei seu copo, observando o resto que ficara ali.

- Não estou, não me ofenda. Mas sim, Jimin está aqui. Não é a hora perfeita para você conversar com ele?

- Olha, o Hoseok ali. – acenei com o queixo para atrás dele, fazendo Taehyung congelar.

- Ele não deveria estar aqui.

- Mas está.

- Assim como o Jimin. – ele devolveu, parecendo ficar paranóico como eu estava.

- Isso não vai dar certo, vamos apenas nos retirar mesmo daqui...

- Não, vamos ficar. – ele me segurou no lugar. – É a vida. Temos que pegar carona no trem da vida.

- Juro que suas alegorias são assustadoras e sem sentido.

- Eu vou dançar. – ele falou, firme, se dirigindo para a pista improvisada.

Apenas o olhei feio por ele estar indo para longe, mas Taehyung ficou à minha vista, fazendo uma dança estranha. Ele definitivamente não nasceu para aquilo, pensei enquanto bebia mais da cerveja ruim. Achei, inclusive, uma cadeira vazia ali perto e já me alojei nela, preparado para passar metade da noite ali. Nem me pagando eu iria dançar ou me entrosar na conversa alheia, então eu me contentei em ficar ali, sentado com meu copo, apenas observando os arredores. Realmente Hoseok passou por ali, dançando de forma muito melhor que Taehyung e parecendo muito animado. Taehyung tinha muito mais chances de “pegar carona no trem da vida” do que eu, já que decidi ficar apenas ali sentado, mesmo tendo visto a cabeça de Jimin surgir em algum momento no bolo de colegas dançando. Engoli em seco e sequei meu copo.

Levantei forçosamente apenas para encher o copo de novo na cozinha, onde o barril de cerveja era um pouco assustador e havia algumas pessoas fazendo uma filinha para repor o copo. Bem no momento que coloquei meu copo abaixo da torneira alguém esbarrou em mim, fazendo eu errar a mira e derrubar cerveja no chão. Olhei para a poça sem entender como aquilo acontecera e desejei ter ficado assim para sempre, ao invés de olhar para cima e ver Jimin do meu lado.

Ele mostrava o dedo para alguém e reclamava por ter o empurrado, então ele se virou para mim, parecendo um pouco surpreso por me reconhecer. Eu não queria pensar na expressão que eu fazia, algo meio ridículo entre olhos arregalados e queixo caído.

- Desculpa, me empurraram ali enquanto eu ia encher. – ele olhou para o meu copo. – Ah, tá, desculpa, você ia encher primeiro. – pisquei, acordando e indo no automático encher o copo, encarando a torneira abismado.

Enchi aquele copo muito rápido, provavelmente saindo antes que enchesse direito mesmo, mas fui impedido de sair correndo por sua voz.

- Jungkook, não? – perguntou. Concordei com um aceno de cabeça.

- Sim. – consertei, não querendo parecer mudo ou tosco demais. Ele enchia seu copo com paciência e percebi que ainda estava ali, sem fazer nada e provavelmente atrapalhando a fila da bebida.

Mas mal dei dois passos quando a voz dele me parou de novo.

- Prazer. – acenou com a mão livre. Pude ver que sua mão era menor que a minha e tinha muitos anéis nos dedos.

- Aham. Digo, igualmente. – minha coerência social era incrível mesmo. Decidi acabar com tudo aquilo só com um aceno tímido mesmo e saí rápido, antes que ele pudesse me impedir de fazer isso novamente.

De repente voltar para meu lugar na cadeira parecia meio ruim, de forma que decidi seguir para o quintal, que tinha algumas pessoas sentadas na grama e brincando entre si de algo que parecia jokenpô. Elas riam de forma exagerada, parecendo já estarem altas pela bebida, de forma que nem liguei em passar por elas e sentar mais ao longe, na grama mesmo.

O som ali era menos opressivo, de forma que pude finalmente relaxar enquanto sorvia a cerveja. Veio uma sede inexplicável e o segundo copo sumiu mais rápido que o primeiro. Fiquei arrancando pequenos tufos de grama aleatoriamente, deixando meus ombros relaxarem e os músculos diminuírem a tensão acumulada da semana. Não era surpresa eu estar me isolando num festa, o que ocasionou um sorriso na minha cara. Era difícil pegar carona no famoso trem da vida, quando tudo parecia seguir uma direção pré-firmada. Eu não ficaria extrovertido do nada, Jimin não olharia para mim e descobriria quem eu sou, eu não teria muitos amigos, meus pais não iriam se separar e tentar reconstruir suas vidas, seguir em frente. Algumas coisas não mudariam, outras dificilmente mudariam.

A continuação da sede me fez voltar para dentro e pegar mais cerveja, dando a sorte de não esbarra em Jimin novamente, embora eu tenha o visto na sala, conversando com algumas garotas. Vi que ele parecia aéreo, mesmo que as garotas nem percebessem, continuando o papo animadamente. Isso até ele levantar o olhar e me pegar de novo. Segunda vez no mesmo dia, aquilo estava foda. Fugi na mesma hora, me enfiando na cozinha de novo e saindo por ali para o quintal.

O grupinho saíra dali, de forma que me senti mais confortável ainda, não precisando ir até o fundo do quintal para me refugiar. Esparramei melhor o corpo na grama, deixando o copo já meio vazio ao meu lado. O álcool já começava a agir, primeiramente um formigamento nos pés, depois nas pernas. Uma leve moleza e puro conforto, que apenas instiga a beber mais. Mas eu iria com calma ali, chegar em casa bêbado no meio da noite não era muito legal. Mesmo que meu pai estivesse dormindo e minha mãe de plantão, o sábado de ressaca não seria o ideal do final de semana. Então joguei os braços para trás, apoiando o corpo nas minhas mãos e encarando o céu. Por conta da poluição noturna de luzes era difícil ver estrelas ali, mas algumas insistiam em surgir. Acho que fiquei muito concentrado na música que batia forte lá dentro, pois só percebi tarde demais o corpo se sentar do meu lado.

Ele ficou a uma boa distância, mas ainda era meio perto, gritantemente perto considerando que era sim Jimin. Fingi não ligar para aquilo, mas já olhava para o céu um pouco aflito. O que diabos ele fazia ali era uma boa pergunta, mas eu nunca a faria em voz alta.

- Se importa? – ele perguntou e, como não havia ninguém perto, claro que era comigo.

- Não. – consegui soltar da minha boca.

- Tem certeza? – ele arqueou uma sobrancelha, cruzando as pernas em posição de índio e com um copo na mão. Minha voz não saíra muito boa mesmo.

- Claro. – confirmei, mais firme dessa vez.

Mesmo com a música o silêncio se instalou ali e eu tentei não ficar paranóico com tudo aquilo. Foi quase irresistível tentar fechar os olhos e me isolar dali, mas controlei o impulso. Embora o outro impulso que veio, foi impossível de ser controlado.

Enfiei a mão no bolso do jeans de forma hesitante, engolindo em seco. Retirei o papel dobrado e senti a textura familiar nas minhas mãos. Por algum motivo inexplicável eu pusera ele ali, mais cedo, logo que saíra da biblioteca e rumara para casa, para me arrumar para a tal festa. E ele não saíra de lá. Ele ainda ficou alguns instantes na minha mão, enquanto eu o observava. Então minha mão seguiu seu rumo para a minha direita, esticando o papel. Ele demorou a reagir, parecendo perceber o que eu fiz só depois. Não olhei para o lado, apenas senti quando ele pegou o papel, seus dedos encostando nos meus.

E naquele instante eu atingi o meu limite, me levantei sem nem limpar o bumbum das folhas e sujeira, apenas rumando para dentro, esquecendo meu copo lá fora. Não importava. Eu realmente não queria estar perto quando Jimin desdobrasse o papel e visse seu próprio rosto, de hoje mais cedo, com o uniforme da educação física, quando capturei mentalmente quando ele me olhou. Ainda não fora fiel o suficiente ao original, nunca seria, mas me permiti ficar satisfeito com o resultado.

Passei pelas pessoas, me distraindo um pouco e ficando surpreso ao ver Taehyung dançando ao lado de Hoseok, que não parecia ligar para a sinistra dança do robô que ele fazia. Mas voltei a andar, dessa vez sorrindo por ele, rumando para a saída. Espero que ele me perdoe por sair do nada, mas aquela festa definitivamente tinha acabado no instante que eu entregara o desenho para Jimin. E nem precisava da assinatura no final, era meio redundante, mas ainda assim eu assinara, como se quisesse confirmar que fora eu mesmo que fizera aquilo.

Antes que eu pudesse sair da sala senti alguém pegar meu braço e me puxar para o corredor da casa, mesmo o aperto não sendo forte, ainda foi firme o bastante para eu ser levado sem nem ter tempo de pensar ou reagir. Por alguma sorte, o corredor tinha apenas um casal do outro lado, mas ainda assim era muita gente ali. Tentei não travar, sentindo o coração bater em minha garganta, ao ver Jimin me encarando sério e com o desenho desdobrado em mãos.

- Era você. – ele falou baixo, como se quisesse também que os outros não ouvissem. Apenas concordei com a cabeça, inútil demais para falar. – Há quanto tempo? – eu realmente não entendi muito bem a pergunta, pois ela parecia questionar sobre tudo. Há quanto tempo eu o desenhava, há quanto tempo eu o observava, há quanto tempo, simplesmente quanto tempo aquilo vinha ocorrendo.

Dei de ombros. Ele pareceu frustrado, passando a mão nos cabelos, gesto característico dele. Eu apenas continuava meio inútil ali, só o observando.

- Jungkook. – ele me chamou. E meu nome soava bem em sua voz. Concordei com a cabeça, de forma boba. Ele dei uma risada sem se controlar, nem sei se por nervoso ou pelo meu gesto mecânico. – Você vai dizer alguma coisa?

- Não há nada que eu queira realmente dizer. – comentei, dando de ombros de novo. Meu cérebro não conseguia ir além daquilo, ia ser bom se ele entendesse. Ele apenas continuou, parecendo me analisar muito.

- Você desenha bem. Muito bem.

- Obrigado. – concordei com a cabeça de novo. Ok, me virei pronto para fugir de novo no automático, meu cérebro gritando para eu parar de fazer coisa ridícula e não me arrepender mais depois, mas ele segurou minha mão, me mantendo ali.

Sua mão era realmente menor e estava bem quente se comparada com a minha, gelada e quase suando de nervoso por tudo aquilo, me denunciando. Ele olhou nossas mãos e eu quis apenas fugir mesmo. Fechei os olhos sem nem perceber, iniciando a contagem mental, apertando as pálpebras. Se era impossível fugir, pelo menos tentar me acalmar eu iria. Ouvi novamente a voz da minha mãe me pedindo, me fazendo prometer que eu iria ignorar tudo o que ocorresse e tentei me focar nela. Mas foi meio difícil pois a pressão que senti em meus lábios definitivamente me impediu disso, quando Jimin me beijou.

***

Ele era bem mais quente que eu, realmente mais quente. Ele não estava com febre não ou eu estaria com hipotermia? Do que eu estava falando?

Os pensamentos realmente não estavam no seu melhor foco quando senti sua boca se encostar na minha. Se meu coração estava na garganta, ele desceu de forma violenta e foi parar no meu intestino, e agora sim minha mão suou sobre a sua. Acho que Taehyung estava certo com essa coisa de trem da vida e pegar caronas, pois aquele trem me acertara com tanta força que eu acho que fiquei aleijado naquela hora. Se ele era ruim com alegorias, eu era pior ainda.

Foi um selar simples, complementado por um segundo quando ele se afastou de mim. Eu juro que tentei lembrar, mas não sei como aquilo ocorreu, mas eu estava sentado numa mesa da cozinha um piscar de olhos depois, quando finalmente decidi abrir os olhos. Jimin esticou o copo com água na minha direção, parecendo culpado. Se eu tinha motivos antes para me sentir com muita vergonha, agora eu poderia cavar um buraco pela cerâmica ali e me esconder, bem rápido.

- Isso acontece. Às vezes. É normal. – falei, testando minha voz meio rouca e fingindo que aquilo era o mais comum possível.

- Tem certeza? Eu não deveria...

- Deveria. – soltei sem querer e apenas enfiei a cara dentro do copo enquanto bebia, tentando ignorar seu olhar sobre mim. Eu poderia beber a água, o ar, indefinidamente, mas tive que abaixar o copo e deixar ele ver minha cara que deveria estar vermelha. Tudo pode sim piorar.

Limpei a garganta.

- Eu fui assustador, desculpa. – ele ainda disse, em voz baixa.

- Nada. – acenei despreocupadamente.

- Êh, Jungkook! – Taehyung gritou, animado, entrando na cozinha. Quando ele viu Jimin do meu lado, com nós dois parecendo estranhos, ele logo arregalou os olhos. – Caralho, desculpa. – ele saiu na mesma hora e eu quase corri atrás dele. Quase. Se havia hora permitida para fugir ela passara há tempo. Respirei fundo e olhei Jimin, que parecia distraído, batucando os dedos na mesa.

Percebi que meu desenho estava dobrado e saindo um pouco do bolso de sua calça. Quase levei a mão ali para arrumar o desenho ou simplesmente pegá-lo de volta e fingir que nada aconteceu.

- Eu não sou nenhum louco perseguidor... – comecei, chamando sua atenção.

- O que? Não, tudo bem, não tem nenhuma lei que impeça os outros de serem desenhados. – ele sorriu um pouco. – E eu também não sou um perseguidor de desenhistas...

- Tudo bem, não há nenhuma lei que impeça as pessoas de irem atrás de quem as desenha. – levei o copo para cobrir meu rosto de novo quando lembrei que estava vazio. Como se eu não pudesse ficar mais constrangido.

- Ah, sobre isso... – ele coçou a cabeça, parecendo estar com vergonha. – Acho que empolguei em saber que tinha me desenhado tão bem. É só que... Eu queria saber o que te levou a desenhar justamente eu.

Ficamos nos olhando enquanto eu pensava sincero na resposta. Fiquei pensando bastante sobre.

- Não sei. – falei e com sinceridade. Ele pareceu murchar. – Você é diferente. – complementei.

- Diferente bom ou diferente ruim? – testou.

- Diferente... bom. – desviei o olhar, quase indo beber mais água inexistente.

- Quer mais água? – soou divertido com meu gesto.

- Por favor. – ele pegou meu copo e eu observei ele ficar de costas para mim, buscando mais água. Sem ele me olhando fixamente as coisas ficavam mais fáceis. – Vem acontecendo a um certo tempo. Talvez muito tempo. – confessei, respondendo a pergunta de antes. Ele parou os movimentos por um instante e depois voltou. – Eu simplesmente... gosto. – fiquei brincando com meus dedos, encarando-os, quando ele se virou de volta.

O copo foi esticado de volta para mim.

- Eu também gostei. – ele disse, com um sorriso que mudou muita coisa.

***

- Você não é o meu Jungkook. Jungkook alienígena insensível nunca teria feito isso. – Taehyung disse, com muita certeza, sentado do meu lado no sofá. Ele definitivamente estava bêbado. – Quem diria, você beijou nessa noite e eu não. – dei um soco em seu braço e ele resmungou, manhoso.

- Você está bêbado Taehyung, vou te levar pra casa. – falei.

- Mas pelo menos consegui o número do Hoseok. – ele sorriu matreiro, mostrando o pulso rabiscado com números. Sorri por ele. – Mas foi só isso?

Olhei Jimin do outro lado da sala, conversando com alguém, parecendo mais aéreo do que mais cedo. Sua mão estava dentro do bolso onde estava o desenho, como se quisesse ter certeza de que ele estava ali.

- Vocês também trocaram números. – Taehyung confirmou, enfiando o indicador na minha bochecha. – Trocaram saliva...

- Taehyung, eu vou te bater de novo e sem dó por você estar bêbado.

Ele sequer se deixou abalar, apenas sorrindo com muita satisfação, muito feliz e nem sei porque.

- Você pegou carona, Jungkook. – ele disse, mal conseguindo conter a felicidade.

- O que?

- A carona. – ele disse simplesmente. – Calma, eu chamo um táxi, não quero deixar que você perca o trem de novo. Não perca o trem, Jungkook. Continue nele. – ele sussurrou misterioso, se levantando meio tonto e mexendo no celular.

Basicamente não pude fazer muita coisa além de vê-lo se jogar no banco traseiro do táxi, enquanto eu dizia o endereço dele para o taxista.

- O trem, Jungkook! Se agarre bem nele, porque o caminho é louco! – ele ainda gritou da janela, mostrando os dois polegares elevados.

- Bêbados. – ri baixo.

- Ele é uma figura mesmo. – Jimin me assustou, do meu lado. – Desculpa ter te assustado.

- Eu sou tão facilmente lido assim? – perguntei, subitamente mais acanhado do que o normal.

- Bem, você arregalou os olhos de forma engraçada, então não foi difícil. – ele sorriu.

Antes que o silêncio estranho invadisse nós dois ali, na frente da casa que ainda bombava com a festa, mesmo já sendo de madrugada, Jimin ainda falou.

- Você já se desenhou? – perguntou, curioso.

- Hm, não me lembro de já o ter feito. – e eu realmente não me lembrava.

- Seria bom ter um desenho seu. – comentou, observando a rua vazia.

- Não sei se conseguiria me desenhar.

- Por quê?

- É meio difícil me imaginar e passar isso para o papel. É meio complicado.

- Usando um espelho funciona? – sugeriu, o que me fez rir um pouco.

- Nunca tentei. Talvez funcione.

- Vai voltar... ? – perguntou, se preparando para voltar para dentro. Não precisei pensar muito antes de responder.

- Aham.

***

Acho que aquilo realmente acontecia com frequência, mas apenas quando Jimin estava perto. Meu cérebro apagava sem dó o que ocorria ao redor, talvez efeito de anos de isolacionismo fantasioso que me deixaram senil, de forma que, de algum jeito fôramos parar no sofá onde eu estava sentado com Taehyung, conversando.

Jimin via meus desenhos pelo meu celular, os quais eu tirara foto. Ele parecia tão esfuziante quando Taehyung sobre eles, mas de uma forma menos... Taehyung e mais Jimin. Era contido, mas havia um certo brilho em seus olhos, enquanto ele via o quanto ele apareceu no meu caderno de desenhos e eu apenas afundava no estofado, querendo sumir. Talvez eu fosse mesmo um pouco perseguidor obsessivo em desenhá-lo, mas era mais forte que eu. Algo sempre me atraía nele. Seja o cabelo jogado pra trás insistentemente, voltando a cair na testa. Seja o seu jeito de andar, seja sua risada. Ou seja o seu sorriso, fazendo seus olhos sumirem. Inclusive, seja a nossa discrepância agora, ele usando roupas de cores claras sendo que meu jeans era escuro e a camiseta era mais escura ainda. Parecia irresistível demais ser sugado por ele, orbitá-lo como um satélite, querendo gravar cada parte e passá-las para o papel.

Definitivamente maníaco perseguidor obsessivo.

Nem percebi que sorria sem reserva quando ele tirou o olhar da tela para me ver, preparado para dizer algo, mas as palavras morrendo ao me ver encarando-o. Se eu tivesse o copo de novo eu me esconderia atrás dele, bebendo o que quer que estivesse nele com voracidade, apenas para escapar um pouco. Mas não havia nada ali que permitisse fuga.

De forma que quando o segundo beijo ocorreu saiu mais natural e menos sinistro que o primeiro. Toques eram estranhos e desconfortáveis sim, mas não com ele. Não foi nada violento ou esfomeado, mas a intensidade não era medida nisso, e sim no quanto o meu coração foi parar na garganta pela vigésima vez naquela noite. Eu tinha mania de fechar os olhos para fugir da minha realidade, só que beijando Jimin eu os fechava para sentir melhor aquela realidade. Um salto de 180 graus muito forte e intenso, deveras, mas agradável apesar de tudo. Sem querer lembrei do que Taehyung dissera sobre carona, sobre ter finalmente pegado a famosa carona no trem da vida. Agora eu entendia o que ele disse sobre o caminho ser louco, pois meu interior estava uma loucura, mesmo que por fora eu estivesse restrito a beijar Jimin e sentir sua mão indo para a minha nuca.

Mesmo que eu estivesse cansado de manter meus olhos fechados, de contar sem fim, de esperar tudo passar e ficar melhor, um melhor que nunca chegava... Eu manteria os meus fechados enquanto aquele beijo durasse. E depois eu queria mantê-los aberto, pois queria ver bem o tal louco caminho que o famoso trem da vida de Taehyung percorria. Talvez o melhor demorasse mais para chegar. Talvez o melhor nunca fosse chegar. Mas, de repente, não parecia tão doloroso assim ficar de olhos abertos. 

19 de Septiembre de 2018 a las 00:20 0 Reporte Insertar 0
Fin

Conoce al autor

Amanda Figueiredo monachopsis: o sutil, mas persistente sentimento de estar fora de lugar. Jimin bottom e gravidinho squad🐣

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