Contos de Torvale: A mercenária que deseja parar Seguir historia

seblelen Sebastian Lélen

O Torvale é uma dimensão reclamada pelos espíritos de humanos através de magia. Sem poder contar com as maravilhas do fogo e da eletricidade, utilizaram-se artefatos místicos para adequar a terra àrida às suas necessidades. Transformando as areias cor de pérola de seus desertos em materiais, criaram cidades majestosas, estradas longínquas e florestas solitárias. Pouco se sabe sobre os primeiros espirítos que moldaram a dimensão para receber os humanos, mas a sociedade de Torvale se desenvolveu e criou quatro grandes reinos: Kevartem, Encollimo, Iungo e Rustine. Conflitos entre os reinos e entre cidades são constantes e a violência deixa marcas profundas mesmo entre os que pregam a harmonia. No Reino de Encollimo, governado pelo Rei Vétris, as pessoas passam fome e procuram fugir de todas as maneiras. Rustine, reino vizinho e rival, começou a realizar incursões no território inimigo, buscando dificultar a organização do Exército Real de Encollimo nas fronteiras. Melinda, uma mercenária da Companhia Delibérs, se vê em situação difícil após todos os seus companheiros morrerem numa emboscada mal planejada. Embrenhada em território hostil, ela precisará usar todo o seu conhecimento para não ser aniquilada, ou pior: ser levada como prisioneira. Créditos da imagem da capa: Constantine Marin (https://www.artstation.com/conmaart)


Fantasía Medieval Sólo para mayores de 18.

#117 #espíritos #326 #332 #341
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Fuga

"Porcaria," sussurrou Melinda, enquanto tentava se livrar do sangue do Capitão Roger, que grudara em suas mãos.

Jurou que se aposentaria caso conseguisse escapar. Os restos do corpo espiritual do capitão ainda flutuavam ao seu lado, numa dança do adeus tímida, subindo até o teto do quarto do sacerdote e sumindo através do concreto.

"Que você encontre paz na sua nova morte, seu imbecil."

Sua armadura e suas roupas estavam esticadas no chão, no lugar onde ele perecera, implorando para permanecer mais alguns dias em Torvale. Melinda tentou estancar o ferimento em seu pescoço, mas seu espírito estava quebrado demais para que resistisse.

"Procurem em todos os cantos. Tenho certeza que senti cheiro de mercenários por aqui," esbravejou alguém do lado de fora do quarto, mas dentro do templo.

"Droga."

Suas chances de sair viva lutando eram mínimas. Ninguém de seu esquadrão sobrevivera, até onde ela sabia, e pelo menos cinco soldados armados a procuravam. O bom tratamento a prisioneiros não era uma marca do Exército Real de Encollimo, pelo contrário. Se a cercassem, cortaria a própria garganta antes de ser levada por eles.

Levantou-se do chão, sentindo o efeito da adrenalina dissipada nos músculos de suas pernas. Seus joelhos latejavam e suas canelas pareciam ter sido lambidas por chamas. Seu olhar recaiu sobre o sacerdote amordaçado.

"Tem alguma saída alternativa? Alguma passagem escondida?"

O sacerdote sacudiu seus cabelos brancos com violência e arregalou os olhos.

"Fale a verdade e talvez eu não esmague sua cabeça com isto," ela insistiu, mostrando-lhe a cabeça ensanguentada de seu machado. Achava a seita de Encollimo repugnante, idolatravam o próprio Rei Vétris como a um deus, mesmo ele não passando de um espírito comum e um canalha.

Mas se ele se mostrasse útil, poderia encontrar misericórdia em seu coração duro. "Eu vou tirar essa corda da sua boca. Se você gritar, será o seu fim."

Apoiando os joelhos sobre os lençóis de ceda, Melinda se esticou e puxou a corda da boca do velho. As laterais de seus lábios estavam dilaceradas, mas até que combinavam com seu cavanhaque marrom e de mau gosto.

Assim que abriu a boca para exasperar, seu bafo azedo chegou ao nariz de Melinda, que fez uma careta. "Do outro lado desse andar, num corredor igual a esse, há um quarto de serviço que dá para os fundos do templo. Nós escondemos uma escada de madeira lá… a Amanda escondeu, nós temos medo dos soldados qu-"

Melinda o interrompeu com um dedo sobre os lábios. Já havia conseguido todas as informações de que precisava.

O homem franziu o cenho, mas obedeceu.

"Quer um conselho?" ela perguntou, em tom de zombaria. "Tira esse cavanhaque. Se tivessem cabras em Torvale, nem mesmo elas iam querer te foder."

O homem soluçou e se calou.

Melinda retornou a corda à boca dele e avaliou as coisas deixadas pelo Capitão Roger. Uma cota de malha, calças pesadas, botas reforçadas com ferro, uma espada e um punhal. Sua própria armadura era toda de couro, o que ajudaria no frio do lado de fora e não atrairia atenção com barulhos desnecessários. Mas o punhal poderia se provar útil caso desse de frente com um deles pelos corredores. O seu ficara espetado no ombro de alguém, no transcorrer da emboscada mal planejada pelo capitão.

O corredor parecia livre. Havia uma barulheira, mas vinha dos andares mais abaixo. Não podia perder tempo. Virou duas vezes à esquerda até encontrar uma porta de madeira lisa e simples, entreaberta. Ao entrar no cômodo, o vento congelante lhe deus boas vindas e seus olhos miraram a janela aberta. Havia um tanque de pedra no canto, com roupas largadas em cima dele, e diversos varais espalhados. Mas nenhum sinal da escada de madeira.

Caminhou até a janela, sentindo o frio entrar pelas frestas de sua armadura. Merda, menina esperta essa tal de Amanda, pensou, ao avistar a escada caída sobre a neve, do lado de fora e logo abaixo da janela. A queda era grande demais para se arriscar, poderia quebrar as pernas.

Melinda mordeu os lábios. O barulho dos passos parecia mais próximo. Olhou ao redor e sua vista parou sobre os lençóis molhados.

Apanhou um lençol, cravou o punhal de Roger no alisar da janela e amarrou o lençol ao cabo do punhal. Mas sua corda improvisada não cobriu nem metade da distância até o chão. Ainda encararia um pulo arriscado, poderia quebrar alguma coisa. Precisava de mais um lençol, pelo menos.

Os passos se aproximaram. Alguém estava no corredor, perto dela.

Seu coração saltou e a descarga de adrenalina reforçou suas pernas.

Jogou-se para trás de um dos varais, cobrindo-se com um lençol.

"Desgraça," resmungou o soldado, adentrando o quarto de serviço. "Fugiu." Ele caminhou até a janela, baixando a espada enquanto andava.

Melinda pulou de seu esconderijo e golpeou-o no elmo usando a cabeça de martelo de seu machado.

Colocou todo o ímpeto de seu corpo no golpe.

O estrondo de metal contra metal ecoou pelo quarto e o impacto reverberou até seus cotovelos. O soldado caiu de lado, sem nem ao menos um resmungo. Mas sua queda fez barulho como pratarias despencando de uma estante.

Os gritos dos outros soldados vieram logo em seguida.

Certa de que o inimigo apagara, Melinda puxou outro lençol e apressou-se em amarrá-lo ao que estava preso no alisar da janela.

Afivelou o machado à cintura e desceu usando os lençóis, mas a meio caminho, o tecido se partiu. Melinda abafou um grito. A queda pareceu interminável e terminou com suas costas batendo contra uma parte da escada de madeira. Os estalos de madeira se partindo ecoaram a céu aberto. O ar saiu de seus pulmões e ela segurou um urro de dor, travando-o na garganta.

Levantou-se de forma brusca, represando as agulhadas flamejantes em suas costas. Teria tempo para as dores quando estivesse a salvo, no acampamento da Companhia Delibérs.


9 de Septiembre de 2018 a las 00:00 8 Reporte Insertar 5
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Pedro Rabelo Pedro Rabelo
Gostei muito de sua escrita e da maneira que a historia começou. Estarei acompanhando os capítulos.
Ana Maria Ana Maria
Muito boa a história, todo esse clima que ela cria te deixa preso e totalmente focado em terminar de ler... Muito bom
13 de Septiembre de 2018 a las 22:51

  • Sebastian Lélen Sebastian Lélen
    Bom que gostou! Obrigado pela leitura e pela excelente resenha que deixou. Vai me ajudar muito a evoluir como escritor =) 14 de Septiembre de 2018 a las 13:12
  • Sebastian Lélen Sebastian Lélen
    Bom que gostou! Obrigado pela leitura e pela excelente resenha que deixou. Vai me ajudar muito a evoluir como escritor =) 14 de Septiembre de 2018 a las 13:12
Lyse Darcy Lyse Darcy
Capítulo incrível ... Prende a gente do começo ao fim Adorei!
13 de Septiembre de 2018 a las 15:20

  • Sebastian Lélen Sebastian Lélen
    Bom que gostou, Lyse. Acompanhe o perfil que virá muito mais. 14 de Septiembre de 2018 a las 13:12
Darlan Almeida Darlan Almeida
Eu gosto bastante desta história, relamate nos prende enquanto lemos
13 de Septiembre de 2018 a las 14:30

  • Sebastian Lélen Sebastian Lélen
    Opa, legal que gostou, Darlan. Continue acompanhando que tem mais coisa vindo por aí! 14 de Septiembre de 2018 a las 13:14
~

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