Eu, Você, Um Camaro Azul e Algumas Fotos Para Lembrar Seguir historia

mikokira Annie Hyeshi

O café, em si, é um estimulante. Estas fotografias são como seus grãos: pedaços de nossos momentos em que estivemos juntos que, ao coarmos, transformam-se em lembranças líquidas e, com carinho, guardo-as na melhor parte da minha memória. E — se esta não me falha —, de todas as maneiras que você poderia tomá-lo, escolheu logo a mais difícil: amargo e quente. Bom... Quem disse que as melhores coisas da vida necessariamente são as mais fáceis? ● Yoonseok!Friendship ● Amnésia ● Drama ●


Fanfiction Bandas/Cantantes Todo público.

#universo-alternativo #songfic #fluffy #drama #hoseok #yoongi #j-hope #suga #viagem #fotos #Amnésia #friendship #yoonseok #bts
Cuento corto
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Capítulo Único


Notas: História também postada no Spirit Fanfics com o mesmo Nickname "MikoKira"



Acordei com pequenos sons de flashs, esses que pareciam vir de uma câmera fotográfica. A câmera dele. Abri os olhos lentamente, sentindo minhas pálpebras um pouco pesadas devido ao sono. Por conta dos raios solares que invadiam as janelas, acabo encontrando mais uma dificuldade para abrir os olhos por completo, pois os mesmos alcançavam minhas íris de uma forma irritante. Após a grande insistência do meu inimigo decido finalmente despertar de vez. Olhei à minha volta e pude constatar que estava dentro de meu carro. Havia dormido ali, no banco de trás.

Sentei-me lentamente no banco de couro preto, espreguiçando-me logo em seguida. Pude sentir o cheiro dos salgadinhos que estavam sobre o banco da frente em saquinhos abertos. O conteúdo dos saquinhos estava com menos da metade, o que significava que não foram comidos completamente. Um doce aroma de balas de menta também invade minhas narinas e acabo por olhar na direção do cheiro. Agora não passavam de papeizinhos desembrulhados sem bala alguma.

Assim que saí do carro, pude vê-lo perto do desfiladeiro montanhoso, tirando inúmeras fotos do local à sua volta.

Cerrei os olhos vagarosamente e trouxe todo o ar que era possível para meus pulmões naquele momento, soltando-o lentamente segundos depois. Podia sentir a brisa refrescante — ainda que quente — daquela manhã sobre minha pele, causando-me pequenos calafrios devido ao mini choque térmico. Murmuro um leve xingamento por ter esquecido de conferir a hora em meu celular, mas logo volto a contemplar a vista. O local era meio deserto pelo fato de ser um ponto bastante afastado da cidade e por esse motivo não passavam muitas pessoas e carros por ali. Havia apenas um posto de gasolina do outro lado da autoestrada e, junto com ele, uma pequena loja de conveniência onde vendia-se apenas o básico.

Caminhei na direção do garoto ruivo que, devido a sua grande concentração, acabou por não notar minha presença no local — até que chamasse seu nome.

Ele deu-me um simples “bom dia” e eu lhe respondi da mesma maneira, mostrando-lhe um sorriso amigável. Sua pele extremamente branca parecia ser um refletor de luz solar natural. Não dava para dizer com precisão quem brilhava mais. Parecia uma competição entre ele e aquela estrela chamada Sol.

Perguntei-lhe se já havia acabado de tirar suas fotos e após obter a confirmação, sugeri que tomássemos café da manhã.

Fomos até o meu carro, que estava estacionado na estrada de terra. Um Camaro azul um pouco enferrujado e com alguns arranhões em sua lataria. Eu sempre achei aquela lata-velha brega demais, mas Yoongi dizia que era um carro de grande estilo e que poucos sabiam como era o prazer de andar em um daqueles.

Antes eu tentava, mas hoje em dia não tento mais compreender sua filosofia sobre coisas velhas. Ou como ele mesmo prefere chamar: “coisas com estilo”. Se pudesse, já teria me livrado daquela lata de quatro rodas e comprado um carro novinho em folha, porém era algo que — naquele momento — era bastante impossível, até porque eu não tinha tanto dinheiro.

Já dirigindo, questiono se ele havia tirado todas as fotos possíveis de ontem e sua resposta ainda era a mesma de um mês atrás:

— Até o momento em que você dormiu.

E era exatamente isso o que ele fazia. Yoongi sempre tirava fotos de todos os lugares pelos quais passávamos e do que fazíamos também. Fotografava paisagens interessantes e — principalmente — tirava fotos minhas. Quando eu lhe perguntava o porquê, ele dizia que era para que eu pudesse me lembrar de como fui feliz no dia em questão.

Realmente aquilo funcionava. Graças àquelas fotos eu podia ter a certeza de que era alguém feliz, de que minha vida tinha algum sentido.

Todos os dias, após acordar, eu sempre o questionava sobre como havíamos chegado ali e ele, pacientemente, me contava sobre tudo. Era uma das coisas que mais admirava em sua personalidade. Ele era calmo e paciente. Quanto a mim... Bom, eu era o tipo de pessoa que se estressava até com o barulho irritante da porta do quarto abrindo e fechando sem parar. Talvez seja por isso que nos damos tão bem. Essa coisa de opostos sempre me fascinou de certa forma. As pessoas costumavam dizer que parecíamos Yin e Yang na versão humana.

— Hoseok, onde gostaria de terminar tudo isso?

Acabo saindo de meus devaneios devido a sua pergunta repentina e, com cuidado para não deixar de prestar atenção na autoestrada, eu lhe respondo com outra pergunta.

— Tudo isso o quê?

— Você sabe, o “Destino Final”.

— Ah... — Fiz uma pequena pausa. — Que tal na praia?

Ele me observou curioso, em seguida tirando seu pequeno bloco de notas — o qual sempre levava consigo — do bolso de sua jaqueta, junto de uma caneta pendurada no bolso da frente.

— Por que a praia? — Indagou.

— Eu não sei... Parece ser um ótimo lugar para dar adeus às coisas — sorri tristemente ao recordar o motivo.

O vi franzir o cenho enquanto anotava minhas palavras em uma das pequenas folhas do bloco. Tive a leve impressão de ver uma lágrima teimosa em seu olho, pronta para saltar de lá, porém ele era mais teimoso ainda. Respirou profundamente, trazendo o ar para os pulmões, e afastou qualquer chance que aquela gota salgada tivesse para sair.

Levei uma de minhas mãos até o topo de sua cabeça, fazendo-lhe um leve cafuné para que ele se acalmasse. Uma maneira de dizer que tudo iria ficar bem.

Após vinte minutos de estrada, conseguimos achar uma pequena lanchonete. O lugar era simples e não parecia ser o lugar mais badalado da terra. Bom, pelo menos foi o que pude constatar observando apenas pela janela do lado de fora.

A porta à nossa frente, com o nome “aberto”, era a única coisa que nos impedia de adentrar no local. Com a nossa entrada o pequeno sino alojado na madeira foi tocado, anunciando-nos no estabelecimento. Pudemos ver as mesas de madeira — simples, porém arrumadas — cobertas com uma toalha vermelha e com detalhes florais em branco. As cadeiras eram do mesmo material: quatro para cada mesa. Havia também um balcão grande e largo — que tinha a finalidade de separar os clientes dos funcionários atrás do mesmo — com bancos grandes. Dois homens estavam sentados em dois deles enquanto tomavam uma xicara de café.

Yoongi não se conteve e começou a tirar algumas fotos do estabelecimento. Em uma delas ele conseguiu capturar o exato momento em que os dois homens de meia idade sorriram enquanto conversavam. Os mesmos o fitaram sem entender o porquê daquilo. O ruivo apenas lhes respondeu que era para um projeto em que estava trabalhando.

Aquele maldito mentia tão bem que se ele me contasse que o céu era vermelho eu acreditaria.

Quando sentamos em uma das mesas, uma garçonete veio nos cumprimentar e perguntar o que iríamos querer. Após fazermos nossos pedidos, ela se retirou, deixando-me sozinho com meu amigo.

— Boa mentira — disse-lhe.

— Não era mentira. É realmente para um projeto, só não disse qual. — Ele sorriu maroto.

Fiquei intrigado com sua resposta, mas sabia que não adiantaria de nada perguntar do que se tratava. Quando Min Yoongi colocava na cabeça que não iria contar algo, ele realmente não contava. Desisti de tentar adivinhar o que se passava em sua mente e começamos a conversar normalmente sobre o dia de ontem. Ele mostrou-me várias fotos e falou sobre cada uma, com o máximo de detalhes possível.

Quando finalmente terminamos nossa refeição, ainda havia minha xícara com café para terminar de tomar. Levei a mão até a asa da mesma, em seguida virando-a em minha boca, saboreando o líquido quente — meio amargo — enquanto o mesmo descia pela minha garganta. Como eu apreciava aquela sensação. No tempo em que levei ficando distraído, Yoongi aproveitou-se para tirar uma foto minha.

Ele não deixava escapar uma sequer, meu Deus!

— Hoseok, você sabe que eu odeio café, não sabe? — Indagou enquanto analisava atentamente a foto que havia acabado de tirar.

Assenti com a cabeça e ele prosseguiu.

— Você se lembra do porquê?

Fiquei alguns segundos vasculhando em minha mente, tentando recordar de algum momento em que o ouvi comentar sobre aquilo, mas não obtive sucesso, então, quando percebeu que eu não conseguiria me lembrar, ele me respondeu.

— Café é amargo. E eu odeio coisas amargas. Mas o mais irônico é que eu gosto de você, Hoseok. — Ele mostrou-me um sorriso sincero no momento em que seus olhos encontraram os meus.

Após ficar levemente ruborizado e surpreso por suas palavras, eu lhe digo algo:

— Você percebe o quanto isso soou estranho, Yoongi? Além do mais, não faz o seu feitio dizer este tipo de coisa “bonitinha”.

Ele deu uma leve gargalhada e continuou.

— É verdade, é verdade. Esse tipo de coisa não combina mesmo comigo. Eu não tenho sentimentos e muito menos um coração, não é? Eu sou um cara frio. Um iceberg, para ser mais exato. — Ele fez uma careta engraçada, como se quisesse parecer sério. Sem sucesso, óbvio.

Eu ri da sua expressão e ele me acompanhou em uma onda de risos. Em seguida, depois de acabar com a paciência de algumas pessoas no local, pagamos a conta e saímos da lanchonete.


***


Estávamos novamente viajando em meu carro, sem a menor ideia de para onde ir; apenas esperando encontrar algum lugar ou alguma coisa acontecer. O dia estava irritantemente calmo e aquilo me era incômodo. Não gostava quando tudo ficava parado daquela maneira por muito tempo, porque o que vinha a seguir era bem previsível. Tédio.

Yoongi estava tirando um cochilo enquanto eu tomava conta da direção. Ele havia inclinado a cadeira para trás e dormia de braços cruzados enquanto um boné — de cor preta — protegia seus olhos contra os raios solares.

Decidi que era um ótimo momento para ligar o som daquela lata velha. Pressionei alguns botões e consegui colocar na rádio. De início, haviam muitos chiados e ruídos, mas à medida em que eu mudava de estação os barulhos diminuíam, até que finalmente uma música me chamou a atenção. Deixei ali. Senti como se já tivesse ouvido aquela melodia antes em algum lugar, entretanto, não conseguia me lembrar onde ou quando. Também não tinha como descobrir seu nome, pois não a tinha pego do início.

Vi que Yoongi já havia acordado e encontrava-se com os olhos levemente abertos. O ruivo se aconchegou mais no banco e começou a sussurrar a letra da música. Sua voz era baixa e rouca, quase inaudível, contudo, ao dar uma olhadela em sua direção, pude ver que seus lábios se moviam de acordo com a letra da música, sem sequer sair do ritmo.

— Conhece a música? — Perguntei.

— Conheço. E você também. — Após observar sua expressão, vi que seu olhar estava um pouco distante enquanto admirava a paisagem pela janela.

O vento ameaçou levar embora seu boné, mas ele o manteve firme em sua cabeça, impedindo o possível acidente.

— Conheço? Ah, por isso estava com a sensação de já tê-la ouvido. Qual o nome dela?

Wake Up.

Fiquei inerte em meus pensamentos, deixando que a música continuasse a tocar enquanto prestava atenção em sua letra e na estrada à nossa frente. Ela era tão bela e ao mesmo tempo tão triste. Era como se descrevesse perfeitamente aquele momento de nossas vidas.


'Cause we've been driving so long

(Porque estamos dirigindo há tanto tempo)

I can't remember how we got here

(Que não consigo lembrar-me como chegamos aqui)

Or how we survived

(Ou como sobrevivemos)


— Hoseok... — Ele me chamou e eu o instiguei a continuar. — Eu vou estar com você no fim de tudo isso.


But you'll feel better when you wake up

(Mas você se sentirá melhor quando acordar)

Swear to God I'll make up

(Juro por Deus que irei compensar)

Everything and more when I get back someday

(Tudo e um pouco mais quando eu voltar algum dia)


Fico um pouco surpreso com sua afirmação repentina, mas logo um sorriso forma-se em meus lábios e o agradeço. Sem parar de dirigir.


***


Dois meses se passaram, porém, cada dia era como um novo começo para mim; como se eu nunca tivesse vivido o dia anterior e tivesse acordado daquela maneira. Sem saber como havia chego ali.

A única coisa de que me recordava era Yoongi, pois ele estava sempre comigo e, por algum motivo que eu desconhecia, conseguia lembrar-me de nossa amizade. Eu não sabia como ou quando nos conhecemos; não lembrava se havíamos brigado, não sabia nada sobre seu passado e muito menos sobre o meu. A única coisa da qual eu tinha certeza era que Yoongi era alguém importante para mim e vice-versa. E ele estava ali ao meu lado. Todos os dias.

Eu estou sabendo de tudo isso hoje, no entanto, sei que amanhã já terei esquecido e que ele terá que me contar tudo de novo. Só tenho consciência de que ele está todos os dias comigo porque tenho pequenos flashes de memórias sobre o mesmo. Porque ele me conta tudo e me mostra todas aquelas fotos.

Um dia lhe questionei do porquê de estar ali comigo ao invés de estar exercendo sua profissão, que por sinal ele amava muito. Ele simplesmente levou sua mão até o topo de minha cabeça, dando tapinhas na mesma. Confesso que achei aquela cena um tanto quanto cômica devido a diferença de altura entre nós, porém, pude ver seus olhos levemente marejados. O líquido salgado parecia travar uma batalha contra o próprio Yoongi. Afim de descobrir quem seria o mais forte. Vê-lo daquela maneira era angustiante. Meu peito doía. Ainda assim, ele me surpreendeu com sua resposta.

“Minha profissão eu posso exercê-la no dia em que eu quiser, mas neste momento... Você está à frente dela. Você é mais importante, Hoseok.”

Creio que neste dia nós dois choramos, mas nenhum ousaria admitir isso, porque...

Estranho... Não consigo lembrar-me do motivo.

— Hoseok? Está tudo bem? — Ele sentou-se ao meu lado no tronco sobre o chão.

Acredito que estávamos acampando, pois havia uma fogueira recém-acesa e duas barracas armadas. Quando foi que chegamos ali?

— Não sei... Yoongi... Por que eu não gosto de chorar? — Gotas salgadas desciam, insistentes, pelo meu rosto.


And I remember how I spent the 23rd

(E eu me lembro de como gastamos na 23ª rua)

Feeling six feet under when I'm 30,000 feet in the air

(Sentindo-me seis pés abaixo enquanto estava a 30,000 pés acima no ar)

Chasing that sun down

(Perseguindo aquele pôr do sol)


Ele me observou, espantado. Sem perder mais um milésimo segundo, o rapaz envolveu-me em um abraço. Um apertado, porém trêmulo demais. Pude ouvir também alguns pequenos soluços vindos de sua parte e posteriormente senti algumas gotículas caindo sobre minha camisa.

— Porque... Você se sente fraco... — Ele respondeu entre soluços. — E você odeia se sentir assim...

Era frustrante. Eu estava chorando, no entanto, não sabia o motivo. Porém eu estava triste. Estava infeliz. Mesmo depois de ver todas aquelas fotos, depois de ouvir sobre a minha vida... Do que eu sentia falta? Com o que eu me preocupava?


So far east I'm west bound

(Tão longe ao leste e estou indo para o oeste)

Feeling like the edge of this world is near

(Sentindo como se a beira do mundo estivesse próxima)


Minhas lágrimas insistiam em continuar saindo de meus orbes, como se eu nunca tivesse chorado na vida. Yoongi também não parava, mas se era horrível para ele que lembrava-se de tudo, imagine para mim, que nem sequer sabia o motivo daquela dor dilacerante. Meu peito doía a ponto de me fazer perder o ar algumas vezes. Era como ter um mau pressentimento. Era como sofrer por algo que nunca viveu, presenciou ou sentiu.

Qual seria o motivo da minha vida? Por que eu estava ali? Por que ainda estava vivo? Se vou esquecer-me de tudo, então para quê viver? Seria melhor ser morto por um tiro do que ter que passar por tudo aquilo. Eu — sem querer — estava fazendo mal para o meu melhor amigo também. Ele estava sofrendo por minha causa. Pelo menos aquilo, no momento, eu sabia.

Talvez fazer as pessoas sofrerem fosse algo que eu conseguia fazer muito bem, pelo visto.

— Por que simplesmente não me deixa e volta para casa? — Perguntei-lhe observando perdidamente uma faca qualquer que ele havia esquecido sobre o chão. Estava trêmulo.

Yoongi desvencilhou-se do abraço, afastou-se alguns centímetros e segurou meus ombros, obrigando-me a encará-lo. Só então pude constatar a vermelhidão de seus olhos. Estavam tristes, contudo, ainda podia-se ver uma certa determinação neles. Um certo brilho que poucas pessoas possuíam.

— Porque cinco anos de amizade não foram em vão para mim. Porque eu não desisto assim tão fácil. Porque você é meu amigo, Hoseok. Eu disse uma vez e direi quantas vezes forem necessárias: nunca vou abandoná-lo.

As lágrimas voltaram a cair de meu rosto, mais desesperadas do que nunca. Quase como um rio que acabara de transbordar. Dessa vez fui eu quem o abraçou e segundos depois senti seus braços em volta de minhas costas. Ele realmente sabia o que dizer para me deixar feliz. Para fazer com que me sentisse vivo novamente. Talvez por sua causa eu ainda não tivesse desistido de tudo.

— Obrigado... — Murmurei aquela palavra entre os soluços. Tão curta, porém, sincera.

Logo após extravasarmos todos aqueles sentimentos, comemos um pouco, deitamos sobre a grama e ficamos admirando as estrelas enquanto ele contava-me histórias engraçadas sobre nós.


Stay, you're not gonna leave me

(Fique, você não irá me deixar)

This place is right where you need to be

(Esse lugar é bem onde você precisa estar)



***


Quatro meses se passaram. Ao todo, estivemos viajando por seis meses. Bom, pelo menos foi o que ele havia me contado. O rapaz ruivo que estava ao meu lado.

Ele dirigia o carro em que estávamos e, segundo ele, eu era o proprietário do veículo; um Camaro azul. O ruivo me dissera que eu sabia dirigir muito bem, contudo, naquele momento, não me lembrava, então poderia acabar matando nós dois se tocasse naquele volante.

O rapaz franzino contou-me que estávamos indo à praia, porém, quando questionei-lhe o motivo, ele respondeu que era o desejo de um amigo. Procurei não fazer muitas perguntas, afinal, se era o pedido de um amigo, deveria ser algo importante.

Segundo o ruivo, nós estávamos muito longe de qualquer praia, então avisou-me para ter paciência, pois a viagem seria longa e levaria um bom tempo até que chegássemos na praia mais próxima. O mais irritante de tudo era que quando eu fechava os olhos, afim de dormir, ele não deixava. Chamava meu nome, gritava dizendo que iríamos bater ou me cutucava várias vezes. Até que finalmente desisti. Ele não parecia ser do tipo que desistia tão fácil. Cheguei a perguntar se ele era algum tipo de torturador. O mesmo respondeu minha pergunta com um simples: Talvez.

Que desgraçado, não?

Após algumas horas, conseguimos chegar à tão aguardada praia, no entanto, já era de noite. Umas dezenove horas para ser mais específico.

— Que maravilha — afirmei enquanto observava a bela paisagem.

Ondas batiam contra as rochas altas causando um splash agressivo, mas ainda assim belo; o vento soprava forte e frio, bagunçando nossos cabelos e arrepiando os pelos de minha pele levemente. Não me importava e parecia que ele também não.

Tirei meus sapatos, dobrei minha calça jeans na altura dos tornozelos e, assim que coloquei os pés sobre a areia, pude senti-la. Macia, ainda que um pouco áspera. Um pensamento sobre já ter conhecido alguém assim me vem à mente, porém ele logo vai embora na mesma velocidade em que chegou. Acredito que a paisagem tivesse sido a culpada por desviar meus pensamentos. O cheiro do mar salgado penetrava em minhas narinas, trazendo-me uma sensação de paz interior, que somente lugares como aquele poderiam proporcionar. Acabo por ter um leve deja vu. Algo dizia-me que já estive em um lugar como aquele antes, mas, infelizmente, não estava conseguindo verificar minhas memórias como gostaria.

Saí de meu transe quando o rapaz ruivo me chamou. Pediu que o ajudasse a retirar algumas coisas do carro e assim o fiz. Ele escolheu um lugar bem de frente para o mar e então pusemos as coisas sobre a areia. Ele fez uma fogueira com alguns gravetos que havia encontrado por ali mesmo e eu o ajudei a abrir as cadeiras espreguiçadeiras. Uma do lado da outra, como ele havia pedido; também pegou uma garrafa com café bem quente e dois copos, colocando-os sobre a toalha de piquenique que encontrava-se sobre a areia; pegou seu celular e o deixou entre suas pernas. Por fim, ele pediu para que eu sentasse.

— Achei que fosse para seu amigo. Onde ele está? — Olhava em volta, um pouco confuso por não ver mais ninguém ali além de nós dois.

— Acho que ele se atrasou — disse-me enquanto colocava o líquido quente nos copos, posteriormente entregando um a mim.

Pude notar um olhar triste em sua face. Claramente ele importava-se com a ausência do amigo, mas talvez fosse orgulhoso demais para admitir tal coisa.

Aceitei a bebida e em seguida levei o copo até a boca, deleitando-me com o líquido quente descendo pela minha garganta. Outra vez, a mesma sensação de nostalgia. Vi que ele segurava seu copo com ambas as mãos enquanto olhava fixamente para a bebida escura.

— Que idiota — pronunciei-me.

Ele fitou-me confuso, como se não soubesse a quem me referia.

— Seu amigo. O que fez o pedido. Ele nem sequer apareceu.

O ruivo deu uma gargalhada e quase derrubou café em suas pernas, mas conseguiu impedir o desastre.

— Tem razão, ele é um idiota — confirmou, limpando uma lágrima gerada pela risada histérica de segundos atrás. — Nem para se lembrar desse tipo de coisa ele serve! — Após isso, ele levou o copo até a boca, tomando seu conteúdo. — Arrg! Isso é realmente horrível! Não sei como ele consegue tomar! — Xingava enquanto fazia careta.

Não estava entendendo nada. Se ele não gostava de café, por que estava tomando? Parecia quase como um suicídio.

— Eu realmente odeio coisas amargas — tomou mais um gole e fez outra careta.

— Por que toma se odeia?

Percebi que seus olhos estavam marejados. A princípio, pensei que era por ele ter tomado o café rápido demais, mas logo aquilo converteu-se em lágrimas. Lágrimas que não tinham a menor intenção de interromper seu trajeto. O rapaz continuou a tomar o líquido até que não sobrasse mais nada dentro do copo.

Ele tentava limpar as gotas salgadas a todo custo, passando o próprio braço no rosto e as costas de sua mão, conseguindo impedir apenas algumas. Por fim, entre soluços, ele confessou:

— Porque ele adora café...

Assim que parara de chorar ele me explicou que éramos amigos. Explicou-me o motivo de estarmos viajando por tanto tempo, o motivo de ele estar ali comigo fazendo todas aquelas coisas por mim. Ele mostrou-me todas as fotos que havia tirado em todos aqueles meses. Foi como viver dias em apenas alguns minutos. Não consegui conter minhas lágrimas diante aquilo.

Fiz tantas coisas, tive um passado, tive uma vida... Mas não conseguia me lembrar. Não conseguia me recordar nem do garoto sentado ao meu lado. Ele me contara que se chamava Yoongi e que eu era seuamigo esquecido. Chorei ainda mais quando finalmente entendi seus motivos.

Era eu. Era eu o idiota esquecido que gostava de café.

O que não conseguia entender era: por que continuar ao meu lado? Por que não me abandonar? Eu iria esquecer mesmo, de qualquer maneira. Ouvir dele as palavras “nunca vou abandoná-lo” me partiam o coração. Ele não iria, mas e eu? Aquilo não era o mesmo que abandoná-lo? Não era o mesmo que ir embora para sempre sem dar notícias?

Meus pensamentos foram interrompidos por uma cantoria. Yoongi estava de pé, com as mãos em sua jaqueta enquanto mirava para o mar à nossa frente. Ele cantava uma música em inglês. Por um instante, achei que conhecia a melodia, mas devo ter me enganado. Limpei o restante das lágrimas que havia em meu rosto e pus-me de pé, indo em sua direção e ficando ao seu lado. Ele colocou seu braço franzino em volta dos meus ombros e apenas continuou cantando.


And you'll feel better when you wake up

(E você se sentirá melhor quando acordar)

Taking off your make up

(Tirando sua maquiagem)

Sun always seems to wash our fears away

(O sol aparece sempre lavar nossos medos embora)

And it's always shining somewhere

(E está sempre brilhando em algum lugar)

I just gotta get there

(Eu só tenho que chegar lá)


Aquela música era bonita, ainda que parecesse um pouco triste. Realmente gostaria de saber seu significado. Que lástima não saber inglês. Tudo bem, vou pedir ao Yoongi que me ensine. Acho que ele não negaria.


And even though it seems like half the world away

(E apesar de aparentar meio mundo distante)

Things are better in America

(As coisas são melhores na América)

Heard the streets are gold there

(Soube que as ruas são douradas lá)

Maybe I can fly you out this place some day

(Talvez eu possa fazer você voar para este lugar algum dia)


O momento foi interrompido pelo alarme de seu celular; não fazia a menor ideia do porquê de ele ter posto o despertador, mas não questionei.

— Já é meia noite, Hoseok. — Ele falou tristemente.


Stay, you're not gonna leave me

(Fique, você não irá me deixar)


00:01


— Ei... Quem é você? Quem sou eu? Onde estamos? Que dia é hoje? Porque estamos aqui? — Perguntei ao estranho que estava ao meu lado.

O vi morder o lábio inferior, como se tentasse conter sua frustração, entretanto, também pude notar lágrimas teimosas querendo saltar de seus olhos. Não estava compreendendo. Só havia lhe feito simples perguntas.

— Olá... Eu me chamo Min Yoongi. Seu nome é Jung Hoseok. Estamos em uma praia... Hoje é dia quatro de Julho... E estamos aqui porque... Um dia, um amigo me disse que esse era um ótimo lugar para despedidas.

6 de Agosto de 2018 a las 16:33 0 Reporte Insertar 1
Fin

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Annie Hyeshi 21 / Ficwriter / Ficreader / Capista do blog Animes Design Hufflepuff / Otaku / InuYashaTrash / A.R.M.Y / MooMoo / BABY / BLINK / OneOkRockFan / AllKagome, KageHina, KuroTsukki, BokuAka, BoKuro, KuroAka, DaiSuga, IwaOi Shipper / Suga Ultimate Biased / Taegi, Yoonkook, Taekook & Jihope shipper (bem encubada) Pedidos de capas somente no Animes Design.

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