(2018) Entre a teimosia e a cautela Seguir historia

alicealamo Alice Alamo

A vida de Iwaizumi estava bem até Tobio enumerar as razões que tinham feito com que todos pensassem que estava namorando Oikawa. Para piorar, sua mente não conseguia achar um único argumento contra e fazia questão de bombardeá-lo com lembranças que enfim colocavam seu coração contra a parede. Restava agora saber se Oikawa estava ciente de tal boato e o que isso podia significar para eles...


Fanfiction Anime/Manga Todo público. © Capa de Andy-law

#romance #haikyuu #yaoi #iwaizumi #oikawa #iwaoi
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Capítulo Único

Notas do Autor: Fic feita para Mandy Senju


Iwaizumi encarou sua gaveta de roupas sem acreditar que as frases de Tobio fazia mesmo sentido. Sentou-se na cama enquanto passava a mão pelo rosto, frustrado, tentando entender como aquilo tinha acontecido. Com seus vinte e três anos, achava-se inteligente o suficiente para não ser… cego, mas agora, com Tobio tendo lhe confrontado tão diretamente, era como se enfim pudesse enxergar aquilo que vinha se recusando ver por todos aqueles anos…

Ergueu-se, remexeu em suas roupas mais uma vez, sempre encontrando uma ou outra camisa, calça ou bermuda de Oikawa entre elas. Quando foi que aquilo tinha acontecido?

Ah, e se fosse só as gavetas…

Caminhou até o banheiro, os passos duros no chão mostrando o quão inconformado estava. Abriu o armário da pia e riu sem nenhum pingo de humor ao ver o gel que Oikawa usava, a escova de dentes dele, até mesmo os pequenos recipientes extras para as lentes de contato de que ele tanto fazia questão. Apoiou-se na pia, balançou a cabeça em negação e respirou fundo.

A vibração do celular em seu bolso o fez fechar os olhos com força e amaldiçoar as palavras de Tobio. Eram duas e meia, Oikawa saía da faculdade naquele horário e sempre lhe mandava uma mensagem irritante para avisar. Já havia decorado isso…

— Mas você e Oikawa-senpai não estão juntos? — Tobio lhe perguntara com aquela peculiar ingenuidade.

Lembrava-se de ter arregalado os olhos, encarado Tobio em choque e então para Hinata ao seu lado que trazia a mesma confusão em sua face. Demorara a responder, tentando achar algum nexo naquilo que lhe perguntavam.

— Por que acham isso? — indagara, e o tom usado já deixava mais que evidente seu desagrado com o assunto. E antes não tivesse perguntado, antes tivesse deixado o assunto morrer e fingido que era apenas mais uma das idiotices da dupla esquisita… Isso com certeza teria sido melhor do que ser bombardeado de fatos que nunca antes tinha sequer reparado!

Aliás como tinham chegado naquele assunto? Ah, sim, isso tinha sido sua culpa… Ele estava irritado com Oikawa. Os amigos haviam marcado uma reunião, uma das poucas que conseguiam graças à faculdade, aos jogos, ao trabalho, e Oikawa tinha dito que não podia ir por ter “outro compromisso”, um com nome e sobrenome, um que Iwaizumi não aprovava, de que não gostava! Mas com quem Oikawa, ainda assim, iria sair (e pouco importava que eles estavam indo treinar!).

Sua insatisfação estava não só visível, como também palpável. Os amigos pareciam saber o que tanto o incomodava, percebia os olhares, tinha tentado ignorar, e só Deus sabe o quanto deveria ter permanecido quieto apenas ignorando. Mas não… Oikawa estava certo, ele não era uma pessoa muito paciente e, por isso, tinha ido questionar Tobio. Não tinha entendido nada quando o ouviu lamentar por seu “mais recente término com Oikawa”, e tudo piorou quando Tobio devolvera sua confusão ao mais afirmar do que indagar se não estava em um relacionamento com Oikawa e ainda listar com Hinata todos os motivos que fizeram com que, não só eles, mas todos ali na reunião achassem que Iwaizumi e Oikawa mantivesse um conturbado relacionamento cheio de idas e vindas.

Só podia ser brincadeira…

Bagunçou os cabelos e apertou o celular com força, tentado a ignorar as mensagens que ainda recebia no celular. Oikawa não pararia até que respondesse… Digitou algo rápido, bloqueou o celular logo em seguida e se olhou no espelho.

Nunca havia sido covarde, tinha até muito orgulho da sua coragem, mas não era isso que o reflexo lhe mostrava. A imagem era bem diferente da usual, os olhos estavam baixos em derrota, como se ele já soubesse bem a resposta para tudo o que rondava sua mente.

Abriu a torneira, lavou o rosto duas vezes com água gelada na esperança de que isso fosse ajudá-lo sabe-se lá como. Deixou o banheiro se sentindo ainda pior, o apartamento estava silencioso e, por incrível que pareça, sentiu-se deslocado. Dividia o apartamento há anos com Oikawa, desde os dezoito quando terminaram o ensino médio, já havia mais que se habituado ao estilo barulhento do outro, às confusões que ele aprontava na cozinha ou aos choramingos enquanto ele assistia a qualquer programa que fosse.

Sentou-se no sofá, a estante à frente continha fotografias, retratos diversos de diferentes anos provindos do narcisismo de Oikawa e de sua absurda necessidade de registrar cada momento… especial.

Ah, sim… era verdade, tinha que concordar que aqueles momentos eram, de certa forma, especiais e se sentia grato por os ter registrados. Levantou-se, lembrava com exatidão quando as fotos tinham sido tiradas, cada uma delas, até mesmo a que ficava na prateleira mais alta. Era talvez a mais antiga que possuíam, ainda que tivesse certeza de que a mãe de Oikawa possuísse outras em sua residência. Tinham cinco anos naquela e não era difícil se lembrar de como fora conseguida.

Eles tinham o hábito de dormir no fim da tarde, nada mais justo depois de ficar seguindo Oikawa por toda parte durante o dia inteiro, mas aquela era diferente, eles não haviam dormido por terem corrido ou brincado demais. Não que as correrias fossem ruins, divertia-se apesar de reclamar, as conversas de Oikawa lhe entretinham, os sonhos do amigo eram bonitos e faziam com que seus olhos brilhassem de forma que Iwaizumi não conseguia deixar de se encantar. Era fascinante, o sorriso que Oikawa lhe direcionava enquanto contava sobre o mais recente jogo de vôlei ou sobre seu levantador preferido era simplesmente encantador, e o modo como chorava após a derrota de seu time favorito lhe partia o coração… O dia da fotografia havia sido justamente quando esse tal levantador tinha se machucado durante a final do campeonato nacional. O jogador havia sido levado às pressas para o hospital, o time fora derrotado, e Oikawa... bem, Oikawa nunca tinha chorado tanto.

Todos diziam que Oikawa era dramático, que chorava à toa ou que o fazia para ter atenção, mas Iwaizumi sabia bem diferenciar o drama do amigo da melancolia que o abatera após aquele jogo, ainda mais porque Oikawa tinha sorrido para a mãe, como se estivesse tudo bem, tinha mentido e se retirado para o quarto como se nada tivesse acontecido. Seguira-o, conhecia bem demais a alegria do amigo para não ser enganado por um sorriso sem brilho e, como esperado, tinha encontrado Oikawa deitado na cama, encolhido, abraçado à bola de vôlei enquanto chorava contra o travesseiro.

Correra sem saber por que, abraçara Oikawa enquanto os soluços dele ecoavam no quarto. Seu coração batia depressa, as mãos inquietas apertavam-no com força como se isso pudesse afastar a dor, e Oikawa jogara a bola no chão para o abraçar em seguida, escondendo o rosto em seu peito.

— Eles perderam, Iwa-chan… ele se machucou! — Oikawa tinha chorado, alto.

— Eu sinto muito, Tooru… de verdade.

Demorara até que Oikawa parasse de chorar, e Iwaizumi tinha suspirado aliviado ao notá-lo adormecido. Apertara-o mesmo assim, como se seus braços pudessem servir de fortaleza, como se assim nada mais pudesse atingir Oikawa e tirar o brilho de seu sorriso ou a esperança de seus olhos. E havia sido com esse pensamento, mais tranquilo com a ingênua crença de que poderia proteger o outro, que adormecera.

Suas mães os acharam logo depois, fotografaram o momento e o usaram por anos nas reuniões familiares para provar o quanto a amizade deles era bonita.

Colocou a fotografia de volta na prateleira enquanto balançava a cabeça em negação. Oikawa continuava dramático, e ele continuava correndo para abraçá-lo quando o via chorando ou fragilizado, ainda na vã esperança de que pudesse o confortar ou proteger. Velhos hábitos não mudavam com facilidade…

O celular tocou novamente, mas não era o som das mensagens de Oikawa. Tobio mais uma vez se desculpava, e isso já estava começando a deixá-lo impaciente. Tinha dito e repetido mais de mil vezes que Tobio não havia sido inconveniente e que estava tudo bem, que não se preocupasse, mas ele parecia ter uma admiração muito grande por ele e Oikawa, principalmente pelo idiota do Oikawa, e temia que os tivesse chateado de alguma forma com a ideia precipitada.

Tinha certa pena do garoto. Tobio e ele compartilhavam uma coisa importante: ambos olhavam para Oikawa como se ele fosse uma estrela, daquelas que podia brilhar sozinha por dias sendo observada sempre sem que nunca se enjoassem ou cansassem de sua luz. A diferença era que Tobio ainda via Oikawa, e provavelmente isso nunca mudaria, como seu veterano, como o alvo de sua mais profunda admiração, seu ideal de jogador. Já ele via Oikawa como companheiro, alguém a lutar ao seu lado sempre e em qualquer batalha, dentro ou fora de quadra. Não precisava o alcançar, estava contente em ser um simples planeta a girar ao redor de seu irritante sol, desfrutava de seu calor, aproveitava sua luz, mas rodava por conta própria, seguia seu caminho com os próprios pés.

A diferença entre suas habilidades sempre tinha sido clara. Oikawa era como um diamante bruto sendo lapidado pelos treinos, pela persistência, pelo sonho distante; Iwaizumi não era um diamante, ele era como o ouro que servia de suporte para tal pedra, maleável de acordo com seu tamanho, formato, peso. Ambos valiosos, mas um era a base, e Iwaizumi não se negou a tal papel. Se Oikawa precisava de uma base sólida, alguém com quem pudesse contar, um porto seguro em quadra para fazer valer a pena cada um de seus levantamentos, então ele seria essa pessoa.

A primeira vitória como time tinha um gosto doce, o sorriso que Oikawa havia lhe direcionado quando ganharam seu primeiro jogo no fundamental havia sido o mais bonito de que podia se lembrar. As mães registraram aquela vitória, a foto em suas mãos mostrava o começo das vitórias que partilharam, as lágrimas de alegria, o braço de Oikawa ao redor de seus ombros enquanto os dois sorriam para a câmera com os olhos úmidos e o sorriso que recompensava aqueles que tanto se esforçaram para atingir o sucesso.

— Eu vou ser o melhor, Iwa-chan! — Oikawa repetia no carro enquanto voltavam do primeiro jogo. — Vou garantir que todos os levantamentos sejam perfeitos para você cortar! Vamos ser invencíveis!

E como dizer não a isso? O modo como Oikawa falava de seus sonhos, dando o sangue para que eles acontecessem, encantava-o, invejava a paixão que ele tinha pelo jogo, admitia ter até ciúmes da dedicação, do tempo que o amigo passava nos treinos. Claro que nunca confessaria isso, já era demais ter passado a ficar a mais na quadra apenas para ter mais tempo com o outro, para acompanhá-lo no caminho de volta para casa, para sorrir das idiotices e das criancices que Oikawa fazia todo santo dia.

— Trashykawa… — sussurrou ao colocar a fotografia no lugar.

Seu coração lutava com a mente, conseguia ouvir o choque das armas. Cada foto era uma lembrança, um depoimento que o cérebro empurrava para seu coração teimoso que esperneava em negação. Como não havia notado? Por que não tinha resistido? Por que ainda… relutava?

Olhou o relógio, Oikawa levaria trinta minutos no máximo para chegar, e não se sentia pronto para ficar frente a frente com ele, mesmo que o amigo não fizesse ideia do conflito que o sufocava. Limpou as mãos suadas na calça antes de apertá-las contra os olhos e andar pelo cômodo.

Será que Oikawa já tinha ouvido as suspeitas de seus amigos? Será que ele também já não havia sido pego de surpresa por eles? E, se sim, o que tinha pensado? Por que não tinha lhe contado?

Não. Não ficaria teorizando, não era de seu feitio, odiava dar corda à imaginação, deixava isso para Oikawa; preferia os pés firmes no chão, o ar só lhe pertencia durante os jogos, e eles faziam parte de seu passado, não do presente.

Encarou com saudosismo a fotografia do último jogo com Oikawa. Haviam duas na realidade, uma tirada com o time todo, a última vez que vestiram o uniforme da Aoba Jousai, antes do jogo com a Karasuno. E a outra era deles… uma só deles…

Haviam ido para sua casa depois da derrota, Oikawa não queria encarar a família, queria ficar sozinho, mas interessante notar que seu “sozinho” nunca excluía a companhia de Iwaizumi; pelo contrário, queria o amigo consigo naquele momento porque Iwaizumi talvez fosse o único a sentir a dor daquela derrota como ele, o único a compreendê-lo por completo e de quem não tinha vergonha para chorar. Não ligaram a televisão, não comeram nada, Iwaizumi sentara-se no chão do próprio quarto, as costas apoiadas na cama e os olhos úmidos fixos nos posters colados no teto ao lado das chaves dos jogos que havia impresso no começo do campeonato. Os times de quem haviam ganhado estavam marcados com um “x” vermelho e a percepção de que agora seria o seu a ser riscado lhe tinha feito cobrir os olhos com o braço e morder o lábio com força enquanto o choro rompia.

Sentira um calor em seu peito, seu corpo já estava tão acostumado com o de Oikawa que não havia protestado, deixara-o sentar-se de lado entre suas pernas e apoiar a cabeça na curva de seu pescoço enquanto as lágrimas silenciosas dele molhavam sua pele. As mãos de Oikawa tocaram seu rosto antes de uma delas passar por seu pescoço e puxá-lo para um abraço firme.

Correspondera, eles tremiam, choravam e amaldiçoavam a sorte. Os corações revoltados batiam com força, Iwaizumi conseguia sentir o de Oikawa contra seu peito, a respiração dele em seu pescoço, o calor que o acolhia e o deixava exposto, como se pudesse desmoronar junto do outro porque tudo ficaria bem, eles se ergueriam em seguida, juntos, como sempre tinha sido.

Tinha demorado mais do que imaginava... A mão de Oikawa acariciava o cabelo em sua nuca, ele estava estranhamente quieto em seus braços e permanecera assim até o ver limpar o rosto com certa violência. Estranhara o sorriso que recebia e havia revirado os olhos enquanto Oikawa destravava o celular e abria a câmera.

— Você está horrível, Shittykawa… — resmungara.

— Rude, Iwa-chan, rude! — Oikawa rira, sem muito humor, e voltara a se ajeitar em seu corpo e apontar a câmera para eles.

— Para que uma foto? — Havia suspirado, cansado, a imagem de Oikawa com o rosto inchado, os lábios machucados de tanto que os tinha mordido para não gritar durante o choro, com os olhos sem brilho, não era algo que gostaria de ter registrado…

Oikawa arrumara uma mecha do cabelo e sorrira abatido.

— É um marco. Para a gente lembrar que sempre vamos conseguir superar qualquer tombo, que nunca vamos parar de tentar. Vamos olhar para essa foto e lembrar que perdemos para a Karasuno e que, ainda assim, fomos em frente.

Como ele conseguia? Como ele podia ser um completo idiota num momento e agir como um líder centrado em outro? Como ele conseguia recuperar a chama no olhar em tão pouco tempo, encontrar uma nova determinação e, mais que isso, convencê-lo de que estava certo? De que tudo estava bem? De que valia a pena tentar de novo e de novo?

Virara o rosto de Oikawa para si e limpara o rastro das lágrimas que lhe manchavam a pele. Tinha percebido e ignorado o choque dele, soltara-o somente quando tinha terminado e não se incomodara com o questionamento nos olhos castanhos.

— Então olhe para a câmera e sorria, idiota — falara ao voltar os braços ao redor da cintura dele e olhar firme para a frente.

Oikawa sorrira para ele antes de voltar a atenção para a câmera. Qualquer um que visse a foto saberia que eles tinham chorado, era mais que evidente, mas também notariam que as lágrimas tinham ficado para trás, que os olhos deles mostravam mais uma vez a fome pela vitória. E o sorriso de Oikawa… certo, Iwaizumi admitia, amava demais aquele sorriso e saber que tinha ajudado a fazê-lo acontecer.

Suspirou, bagunçou o cabelo e voltou a se sentar. Chega de fotos, elas não estavam ajudando.

— Mas vocês moram juntos… — Tobio tinha dito.

E daí?

— E, mesmo assim, ele tem roupas nas suas gavetas — Hinata completara.

E daí??

— E ele disse que vocês dormem juntos quando chove.

E daí??? Oikawa era um idiota chorão com medo de trovões! Era isso!

— Vocês estão sempre juntos — Daichi tentara ajudar quando Tobio tinha começado a se sentir culpado pelo assunto. — E sempre perto um do outro…

— E ele tá sempre te abraçando e você tomando conta dele — Suga tinha vindo em apoio.

Isso era porque Oikawa desconhecia o conceito de espaço pessoal!! E porque era descuidado demais! Quantas vezes Oikawa não tinha virado noites assistindo gravações de jogos de seus adversários até que ele fosse gritar para que descansasse? Quantas vezes aquele imbecil não tinha se esquecido de comer por causa dos treinos ou de sua fixação em ganhar ou não se deixar superar por Tobio?

— E também… — Tsukishima sorrira, aquele riso de deboche desagradável para o qual Iwaizumi não tinha paciência. — Nós nunca vimos nenhum de vocês com outras pessoas… nem mesmo comentando. Você tá sempre falando dele e ele de você, o que queriam que pensássemos?

Nada! Eis a questão! Não queria que pensassem nada e os deixassem em paz! Era tão difícil assim??

O celular apitou novamente. Riu amargo para a foto de Oikawa no elevador com uma sacola à mostra. O filho da puta tinha comprado sua bebida favorita…

Chega. Não podia ficar naquele apartamento, não naquele dia, não com aqueles pensamentos. Pegou as chaves do carro e, então, para completar sua sorte, encontrou Oikawa com a mão estendida para destrancar a porta assim que a abriu.

— Que timing, Iwa-chan! Isso é saudade? — Oikawa sorriu, animado.

Engoliu em seco ao vê-lo entrar. A mão permaneceu na maçaneta, os pés se recusaram a andar, o coração não deixava… ele queria ficar, queria passar um tempo com Oikawa porque sabia que a rotina deles já não os deixava aproveitar a companhia um do outro como antes. Queria ouvi-lo, toda e qualquer merda que fosse, queria fazê-lo rir, assistir televisão, mesmo os filmes chatos que Oikawa escolhia, queria jantar com ele!

Meu Deus, estava mesmo apaixonado pelo melhor amigo por todo aquele tempo sem sequer notar?

— Vou sair — falou, alto, para convencer a si próprio que era o que faria.

Oikawa franziu o cenho, os olhos castanhos piscaram confusos e não demorou para que ele parasse ao seu lado, as mãos nos bolsos da calça em uma postura despojada enquanto tentava desvendá-lo.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não.

— Você parece mais irritado que o normal, Iwa-chan — Oikawa comentou, parecia divertido, mas Iwaizumi reconhecia o olhar analítico que recebia, como se o amigo o estivesse testando.

— Volto tarde — respondeu, e talvez devesse ter entrado no jogo, respondido algo que Oikawa esperasse, algo mais malcriado, usado os apelidos para o provocar também, porque ter simplesmente fugido fez Oikawa arregalar levemente os olhos e acompanhá-lo até o elevador na espera de uma explicação que não veio.

Respirou aliviado quando as portas se fecharam. Abriu o celular na pressa, descrente que ligaria para Kuroo, mas o amigo era o único para quem podia correr porque… bem, ele normalmente corria para Oikawa e ele com toda certeza não podia ajudar em nada daquela vez.

Chora. — Ouviu Kuroo rir ao atendê-lo assim que pisou na garagem do prédio.

— Tá sozinho ou com o Kenma?

Sozinho. O gatinho chega amanhã só. Vai vir aqui? Oikawa te chutou foi?

— Não me faça me arrepender de ter ligado para você — respondeu irritado, e Kuroo riu. — Vou comprar umas bebidas e to indo pra sua casa. E não chame o Bokuto ou eu quebro sua cara.

Por que eu ia chamar aquela coruja?

Por quê, né? E por que será que Iwaizumi não estava surpreso quando foi justo Bokuto que atendeu à campainha quando tocou? Fuzilou Kuroo com o olhar, mas o filho da puta sorriu cínico.

— Ele falou que traria umas cervejas também — ele teve a audácia de tentar se justificar, e Iwaizumi revirou os olhos.

Quando tinha sido mesmo que haviam virado amigos? Ah, sim, havia sido por causa de Karasuno, no jogo da final, quando eles haviam de fato vencido Shiratorizawa e reunido todos amigos na torcida por incrível que pareça…

— O que aconteceu, Iwaizumi? Problemas no paraíso? — Bokuto passou o braço por seus ombros enquanto o levava para a sala e então se sentava ao seu lado.

— Ainda irritado pelo que Kageyama e o tampinha disseram? — Kuroo arqueou a sobrancelha ao depositar os copos na mesa de centro e abrir a primeira lata de cerveja.

— Oh, verdade! Você pareceu bem irritado quando o Kageyama falou sobre você e o Oikawa — Bokuto confirmou.

— Não quero falar disso — Iwaizumi rebateu, e os longos goles dados em sua cerveja fizeram Kurro estreitar os olhos felinos enquanto Bokuto sorria.

— É isso aí! Vamos ficar todos bêbados!! — Bokuto ergueu sua latinha antes de imitar Iwaizumi.

Kuroo sorriu de canto, girou a cerveja em sua mão e se acomodou melhor no sofá. Tinha acertado ao convidar Bokuto, dessa forma deixaria os dois beberem livremente enquanto esperava que o álcool soltasse a língua de Iwaizumi. Já sabia do que aquilo tudo se tratava, Kenma estava entretido em seu mais novo vídeo game durante a reunião que tiveram com os amigos, mas ele era atento e, depois que Iwaizumi deixou o lugar irritado, o namorado tinha lhe garantido que provavelmente o amigo apareceria em sua casa ainda naquela semana depois que finalmente parasse de se fazer de idiota. Claro que Kenma não tinha usado essas palavras, essas lhe pertenciam, uma vez que até mesmo ele tinha achado que Iwaizumi e Oikawa namoravam desde o ensino médio e agora estava inconformado ao descobrir que não.

E ele que achava que Iwaizumi era inteligente…

* * *

Oikawa estava… intrigado. Sentado no sofá com as pernas dobradas e o controle da televisão na mão, quebrava a barra de chocolate tablete por tablete antes de comê-los sem pressa. Os olhos vagavam pela televisão, gostava do desenho que era apresentado, mas não conseguia prestar muita atenção. Girou o celular mais uma vez nas mãos, destravou-o e encarou a foto do contato de Iwaizumi.

Alguma coisa tinha acontecido na reunião que não tinha podido comparecer… Seu Iwa-chan estava agindo estranho desde então, evitava olhá-lo, permanecer no mesmo cômodo e seu característico mau humor estava pior a níveis alarmantes! Algo tinha mexido com Iwaizumi, e por incrível que pareça não tinha sido sua culpa dessa vez.

Mas então… o que seria? O que mais podia tirar a paz de seu amado Iwa-chan? Achava que era o único que conseguia irritar o amigo… a não ser… Ah não, impossível…

Franziu o cenho e olhou de novo o celular, passou o dedo pela tela de olho nos contatos e estreitou o olhar quando clicou no de Tobio. Só a ideia de ter que fazer essa ligação já botava uma expressão emburrada em sua face, mas podia apostar que Tobio não havia controlado a língua e botado todo seu lento e calculado plano a perder.

E se isso fosse verdade… Se isso fosse verdade… iria sacar tantas vezes naquele pirralho mimado durante os treinos que iria transformar os braços dele em gelatina!

Será que só ele entendia o quanto Iwa-chan era complicado? O quanto era difícil derreter o gelo em volta daquele coração para que enfim pudesse se aconchegar um pouquinho que fosse nele? Tinha levado anos! Anos!!! E ainda não havia chegado onde queria. Iwaizumi era seu jogo mais difícil, sua partida mais acirrada, não podia desperdiçar nenhum ataque, assim como era inadmissível que errasse. Assim, se Tobio tivesse aberto a boca…

— Tobio-chan — chamou assim que ele atendeu, o tom calmo, perigosamente baixo. — Aconteceu alguma coisa no sábado com o Iwa-chan?

Oikawa ouviu o suspirar pesado seguido de um silêncio perturbador antes de Tobio desligar em sua cara. Arregalou os olhos em choque, descrente com a ousadia do outro! Como Tobio se atrevia a fazer aquilo?? Ainda mais com ele? E, pior que isso, aquela reação por parte de seu eterno calouro só podia significar uma coisa: ele havia dado com a língua nos dentes.

Há cerca de um mês, durante um treino para o jogo contra um time regional, Tobio havia lhe visto conversando com Ushijima, o que tinha se tornado um pouco comum a despeito da rivalidade que nutria por ele desde o fundamental. Ushijima ainda lhe irritava e duvidava que isso um dia mudasse, afinal, era sim rancoroso, todos sabiam disso, bem como sabiam que Ushijima era arrogante e que isso fazia seu sangue ferver. Entretanto, isso não os impedia de agirem civilizadamente.

No dia em que Ushijima havia se aproximado para falar com Oikawa, houve uma razão para que ele o ouvisse, para que parasse com a mochila nas costas e se demorasse um pouco mais em quadra para o total estranhamento de Tobio: Iwaizumi. Não, Ushijima era lerdo demais para tudo que não fosse vôlei e não havia notado que Oikawa era apaixonado pelo melhor amigo como todas as outras pessoas do mundo desconfiavam. Aliás, Oikawa agradecia e muito a isso porque tinha sido somente por essa razão que Ushijima se aproximara para lhe perguntar se Iwaizumi estava solteiro.

O “não” quase saiu de seus lábios, embora fosse mentira, Iwaizumi não estava comprometido e ele, como amigo, não deveria atrapalhar sua vida amorosa, mas, mesmo assim, o “sim” também não saiu e, em vez disso, foi o “por quê?” que foi apresentado como resposta a Ushijima.

— O levantador do meu antigo time encontrou com ele no shopping esses dias e estava querendo o número dele. Pensei que pudesse me passar — Ushijima respondera, sem entender a agressividade no tom de Oikawa.

— Iwa-chan não está namorando, se é o que ele quer saber — Oikawa tombou a cabeça para o lado com descaso, mas Ushijima percebeu o sorriso perigoso que recebeu: o modo como Oikawa olhava para si, a postura falsamente relaxada e as palavras bem medidas lhe lembravam de quando eram adversários, das vezes em que se encontraram em quadra para disputar os campeonatos. Mas por quê? Oikawa só agia daquela forma quando ele voava perto demais de suas ambições…

— Você não vai passar o número, não é? — perguntara ao entender.

— Eu? Por que eu não passaria? — Oikawa tirara o celular do bolso, o sorriso petulante nos lábios enquanto o celular de Ushijima vibrava, notificando-o da mensagem com o número de Iwaizumi. — Não há problema em te dar o telefone do Iwa-chan, não quero ser acusado de sabotar os relacionamentos dele, Iwa-chan ficaria bem irritado comigo se soubesse que fiz algo do tipo.

— Você não se sente nem um pouco ameaçado — Ushijima deduzira, e Oikawa havia sorrido confiante antes de lhe dar as costas e começar a se afastar.

— Eu só tenho que me preocupar com o que eu faço, gente atrás do Iwa-chan sempre existiu e sempre vai existir. Ma gente para andar ao lado dele… — Oikawa virara, andando de costas enquanto encarava Ushijima com o queixo erguido. — isso são poucos, bem poucos. Estou na vantagem. — Piscou, divertido.

E Tobio viu, mas não ouviu. Nos treinos seguintes, Tobio o olhava com… decepção? Tinha achado, no mínimo, esquisito e até cogitado estar jogando mal (o que tinha certeza absoluta de que era mentira!), mas então o que mais faria com que Tobio lhe encarasse daquele jeito?

— Fala logo! Está começando a me irritar — demandara ao jogar um suco de caixinha no colo de Tobio e se sentar ao lado dele.

— Não tenho nada pra falar — Tobio respondera antes de tentar se levantar, mas Oikawa havia sido mais rápido ao puxá-lo pelo colete para o chão de novo.

— Fala. Agora. Essa sua cara de desaprovação tá me dando nos nervos. Que merda aconteceu?

Tobio desviara o olhar para a quadra, onde Ushijima treinava cortes, e Oikawa tinha arqueadu a sobrancelha sem entender até que, enfim, Tobio havia resolvido se pronunciar:

— Não é justo com Iwaizumi-senpai você flertar com Ushijima. Ele não merece ser traído…

O choque de Oikawa havia se transformado em uma gargalhada escandalosa com direito a lágrimas em questão de segundos. Tobio piscava, incrédulo, e bufara irritado pela atenção que Oikawa estava chamando. Qual a graça daquilo afinal? Não tinha motivo algum para rir daquele jeito!

Oikawa ajeitara a postura, o braço passava pelos ombros de Tobio enquanto a mão livre batia no topo da cabeça dele sem muita força, mas de uma forma irritante que fez Tobio se sentir uma criança idiota.

— Eu não estou traindo Iwaizumi, Tobio-chan! E, se fosse fazer isso, a última pessoa com quem o faria seria o babaca do Ushijima!

— Mas eu achei qu-

— Achou errado — cortara, sério, os olhos castanhos encarando Tobio de forma que ele realmente entendesse o absurdo que tinha dito.

— Desculpe… mas é que Iwaizumi-senpai gosta demais de você, não achei que fosse justo com ele! Fico feliz por estar errado — respondera, sincero, o mesmo tom simplório que fazia Oikawa revirar os olhos de tédio, mas que, dessa vez, tinham-lhe feito sorrir e perguntar:

— Gosta é? Como você sabe, Tobio-chan?

— É óbvio… não é? Ele te olha daquele jeito quando estão juntos e sempre confere e responde suas mensagens na hora, todo mundo leva horas para ser respondido, mas você não, por isso que a gente pede para você mandar as mensagens quando precisamos falar com ele.

Oikawa tinha sentido aquelas palavras como cordas a controlarem suas ações, como se cada novo fato apresentado por Tobio tivesse o poder de fazê-lo sorrir mais, verdadeiro, apaixonado, enquanto o coração comemorava, derretia a cada nova observação que Tobio trazia à tona sem saber de seu real poder ou impacto.

E, é claro, o fato de não ter dito que não estava namorando Iwaizumi foi só… um detalhe.

Ainda em casa, remexeu-se incomodado no sofá quando percebeu que eram quase dez horas. Tudo bem que Iwaizumi tinha dito para que voltaria tarde, mas o que isso significava de fato? Que não iria voltar naquela noite? Que sairia com uma pessoa qualquer? E pra onde ele tinha ido? Oikawa abraçou os joelhos, magoado de certa forma, não esperava que Iwaizumi fosse se ofender tanto com Tobio sugerindo que eles estavam namorando… Era mesmo algo tão ruim? Ele era mesmo alguém tão intragável a ponto de Iwaizumi ficar irritado daquela forma com a simples ideia de eles terem algum relacionamento?

Afundou a cabeça nas mãos, bagunçou os cabelos afastando a vontade de chorar, não havia motivo para isso, não havia certeza de nada, então não devia chorar… ainda. Fechou a mão na altura do peito, queria tanto que o coração parasse de bater desesperado, que se acalmasse, que não se deixasse levar pelas conjecturas que a mente fazia…

Odiava a forma como Iwaizumi o fazia se sentir, o que roubava de dele! Onde estava sua confiança? Onde estava seu orgulho? Onde estava sua autoestima? Por que se sentia tão pequeno e desprotegido quando o assunto era Iwaizumi? Por que não podia agir como sempre, com a ousadia de sempre?

Destravou o celular e ligou. Precisava saber onde Iwaizumi estava e se, pelo menos, ele estava bem! Precisava saber se ele voltaria para casa, sua ansiedade não o deixaria dormir sem saber isso.

A chamada caiu na caixa posta, e as palavras de Tobio dessa vez só pioraram tudo porque agora nem mesmo ele Iwaizumi estava atendendo… Levantou-se e foi até à cozinha com passos duros e apressados, abriu geladeira e tirou o doce que ina comprado mais cedo logo após Iwaizumi fugir. Colocou em cima da mesa e, enquanto procurava por uma faca, reconheceu o toque do celular.

Correu para a sala e demorou para conseguir atender à chamada devido à desobediência dos próprios dedos.

— Iwa-chan!

Tenta de novo, “Tooru”. — Ouviu a voz risonha dizer, a pronúncia de seu nome enfatizando a provocação.

— Kuroo? — perguntou com desgosto e afastou o celular para conferir que realmente era do celular de Iwaizumi que ele ligava. — Cadê o Iwa-chan? Por que está com o celular dele e como me ligou?

Seu “Iwa-chan” está bêbado com o Bokuto no chão da minha sala. E você ligou, lembra? Só que os idiotas não conseguiram atender e aí eu quis retornar a ligação, mas não sabia a senha.

— Iwa-chan não te daria a senha mesmo bêbado. — Revirou os olhos, ele já havia tentado pegar a senha de Iwaizumi uma vez sob as mesmas condições.

Ah, ele não passou — Kuroo disse, rindo. — Mas sua data de aniversário não é difícil de achar, “Tooru”. Ele precisa de uma senha menos óbvia por falar nisso, ainda mais quando a foto de plano de fundo do celular é uma de vocês, avise para ele quando ele estiver sóbrio amanhã por gentileza.

— O quê? — Oikawa balbuciou. — Pera… amanhã? Você não vai ficar com ele agora? Ele vai sair daí nesse estado?

Não, eu que vou levar esse idiota para casa, não posso cuidar de dois bêbados. Akaashi se recusou a vir buscar o Bokuto, e eu sei que você está se roendo de preocupação com o “Iwa-chan”.

Não respondeu, o corpo recostou no sofá enquanto mordia o lábio sem saber o que dizer.

Quer um conselho, Oikawa? — Kuroo perguntou, sem parecer caçoar, e Oikawa ouviu a voz de Iwaizumi ao fundo repetir seu nome.

— Qual?

Não espere um movimento dele. Lembra aquela piada que o Kageyama e o baixinho inventaram sem querer? Que você é o Grande Rei e o Iwaizumi o seu cavaleiro? É o Rei que dá as ordens, o cavaleiro só obedece. Iwaizumi está mais que acostumado a ver você ditando o ritmo, seja em quadra ou fora dela. Você pode estar querendo que, pelo menos dessa vez, seja ele porque você merece isso ou qualquer coisa assim, mas, na cabeça dele, de alguém sempre acostumado a ver você correndo atrás do que quer, você não fazer nada agora só significa que ele não está incluso nisso.

Aquilo… fazia sentido. Oikawa bateu a mão contra a testa enquanto resmungava qualquer coisa para Kuroo e ignorava as provocações finais dele antes de desligar. Kuroo tinha razão, e isso por si só o incomodava, mas o que o indignava mesmo era perceber que, se o problema fosse só esse, fosse só ele dar ou não o primeiro passo, já poderia ter resolvido tudo muito antes! Já poderia ter se livrado daquela ansiedade e daquela dúvida que vinha cercando seu coração e o acompanhando ano após ano.

Iwaizumi chegaria bêbado, não havia conversa quando o amigo estava naquele estado, então teria de esperar até a manhã seguinte. Se Iwaizumi estivesse esperando apenas por um sinal seu, se fosse esse o único impedimento, a única barreira entre eles, então a derrubaria com tudo o que tinha. Quer dizer, talvez fosse melhor ir com calma, Iwaizumi odiava quando ele agia de maneira estabanada e extravagante, tinha que agir com calma, ser discreto, talvez planejar como se declarar… Ah, do que adiantaria planejar se tudo acabaria saindo do controle assim que visse Iwaizumi à sua frente?

Caminhou até a cozinha, de novo, incapaz de ficar quieto ou calado. Colocou uma música para tocar e cantou sem se importar com a falta de afinação. Preparou café, forte, e procurou a organizada caixa de remédios que Iwaizumi deixava em casa. Separou alguns para enjoo e dor de cabeça e até mesmo organizou a sala enquanto esperava Kuroo chegar. Quando a campainha tocou, seu coração deu um salto, como se sacado por ele próprio e os lábios fossem a rede a detê-lo.

Destrancou a porta e, como sempre, seus olhos focaram-se apenas no que importava. Adiantou-se para passar os braços de Iwaizumi por seus ombros, sem dar a mínima para o riso sarcástico que Kuroo lhes exibia.

— Obrigado — limitou-se a responder quando Kuroo estendeu o celular, a carteira e as chaves do carro de Iwaizumi.

— De nada, “Tooru” — Kuroo respondeu, as mãos no bolso, e o olhar divertido. — Não abuse do nosso Iwa-chan, viu?

— Vai se fuder — devolveu, indignado, e arregalou os olhos quando Iwaizumi tropeçou no nada, fazendo-o segurá-lo de repente.

— Tooru… — Iwaizumi piscou, letárgico, enquanto observava o rosto de Oikawa próximo ao seu. — Eu bebi… — falou devagar ao esconder o rosto no pescoço do outro.

— Isso eu percebi, Iwa-chan — respondeu, divertido, e então acenou com a cabeça para Kuroo e fechou a porta. — Venha, vou te deixar no chuveiro enquanto pego café para você. Acabei de fazer.

Como esperado, Iwaizumi não respondeu. Oikawa já estava acostumado, Iwaizumi não era do tipo que falava muito quando bebia, ele falava pouco, apenas assuntos que o estavam incomodando ou que precisava exteriorizar e, pelo horário, ele já deveria ter feito muito disso com Kuroo e Bokuto.

Colocou-o sentado sobre o vaso no banheiro, ligou o chuveiro na água morna por conta do frio e então se abaixou na frente de Iwaizumi, apoiando-se nos joelhos dele.

— Iwa-chan, você consegue tirar suas roupas e tomar banho, certo? — perguntou, a mão teimosa se ergueu para acariciar o rosto alheio e ele sorriu quando Iwaizumi se inclinou lentamente, encostando a testa na dele enquanto assentia. — Ótimo — sussurrou e deixou um beijo delicada na testa dele antes de se levantar. — Volto em quinze minutos com um café para você. Não demore, ok?

Dessa vez, não esperou muito uma resposta. Iwaizumi estava realmente bêbado, o olhar perdido em seu rosto, sem reação, deixava isso mais que claro. Saiu, ciente de que o outro só começaria a se mover quando o fizesse. Fechou as janelas do quarto e as janelas para que o sol da manhã não incomodasse Iwaizumi ou piorasse sua ressaca quando acordasse. Separou roupas limpas e as deixou sobre a cama, como o amigo sabia que ele faria. Saiu do quarto quando ouviu o chuveiro sendo desligado e foi para a cozinha atrás do café. Levou tanto a xícara quanto os remédios consigo quando voltou, entrou direto, fazia anos que não tinha que bater na porta de Iwaizumi para tal permissão, e constatar toda aquela intimidade, construída de pequenos gestos, o fez sorrir enquanto se aproximava da cama.

Iwaizumi estava deitado já, vestido, sobre as cobertas e de qualquer jeito. Oikawa deixou os remédios sobre o criado mudo, do lado da garrafa de água que Iwaizumi sempre mantinha no quarto, e se sentou na cama perto dele para oferecer o café.

— Não quero… — Iwaizumi resmungou, encolhendo-se ainda mais e afastando café de si. — Quero dormir…

Oikawa deixou a xícara sobre o criado mudo e não discutiu. Puxou a coberta da cama com dificuldade de baixo do corpo do outro e ignorou o olhar fixo em si enquanto o cobria. Pegou a toalha esquecida sobre a cama e se sentou ao lado de Iwaizumi apenas para secar melhor os cabelos que ensopavam o travesseiro..

— Não pode dormir com o cabelo molhado, Iwa-chan. Vai me fazer agir como sua mãe e cuidar de você — brincou na tentativa de que Iwaizumi o respondesse com alguma malcriação como sempre, tudo para que ele parasse de encará-lo daquele jeito tão centrado.

Entretanto, Iwaizumi sorriu minimamente, e Oikawa arregalou os olhos quando o viu se arrastar um pouco até colocar a cabeça sobre suas coxas e os braços ao redor de seu corpo. Viu-o bocejar e fechar os olhos e foi impossível não corar ao ouvi-lo dizer sonolento:

— Não me importo se você cuidar de mim, Tooru...

E se antes achava que não ia dormir bem por ficar pensando no que Kuroo tinha lhe dito, agora Oikawa tinha certeza…

* * *

Iwaizumi remexeu-se, sem abrir os olhos, mais dormindo que acordado. Sua cabeça pesava um pouco, doía, apertou a coberta com preguiça e agradeceu pelas janelas estarem fechadas. Cama. Coberta com o cheiro do shampoo de Oikawa impregnado como sempre. Cortinas escuras. Miniaturas de aliens e de dinossauros na estante do canto.

Sentou-se de súbito, os olhos piscando enquanto a mão ia direto para a cabeça latejando. Estava em casa. Como? Ah, sim… Kuroo tinha lhe levado, lembrava-se dele xingando seu carro e depois do elevador. Oikawa estava em casa. Tinha falado com ele? Não. Ele havia lhe deixado no banho e oferecido café. A xícara ainda estava em seu criado mudo, junto com os remédios que ele se esticou para pegar e engolir mesmo sem água. Massageou as têmporas e tocou o cabelo, recordava-se de deitar no colo de Oikawa enquanto ele os secava e, depois, nada… devia ter adormecido e, para seu estranhamento, Oikawa não tinha deitado ao seu lado como sempre fazia quando bebia demais.

Será que tinha dito algo? Não se lembrava de ter falado nada demais… Tinha tentado alguma coisa? Arregalou os olhos, ele não faria algo assim!

Franziu o cenho ao ouvir um suspirar conhecido. Olhou ao redor e cerrou o punho tentando controlar a irritação. Afastou as cobertas e se levantou, deu a volta na cama e cruzou os braços, incrédulo. Respirou fundo e olhou para cima, pedindo por paciência, Oikawa estava dormindo no chão, sentado, com as costas apoiadas na cama, a cabeça caída para o lado em uma posição que doía só de ver!, e sem coberta alguma.

Contou até dez, mentalmente, o celular de Oikawa estava no chão, bem embaixo das mãos dele como se Oikawa tivesse caído no sono sem perceber. Isso aliviada um pouco sua irritação, mas não o suficiente para impedi-lo de se abaixar na altura do outro.

— Shittykawa! — chamou em voz alta enquanto lhe segurava o rosto. Aquilo com certeza ia doer quando Oikawa tentasse se mexer. — Hey! Oikawa, acorda! Que merda você tá fazendo no chão, seu idiota!

Oikawa abriu os olhos e, como esperado, Iwaizumi o viu fazer uma careta de dor ao tentar mover o pescoço.

— É, bem feito, quem manda dormir o chão nessa posição esquisita? — Iwaizumi ralhou sem demorar a reconhecer o bico magoado do outro.

— Que rude, Iwa-chan, eu passei a noite cuidando de você… — Oikawa bocejou.

— E agora vai me dar trabalho todo dolorido desse jeito! Isso se não pegar uma gripe!

Oikawa sorriu, as mãos de Iwaizumi eram quentes, apoiavam o seu rosto enquanto ele fingia não perceber a carícia que os polegares faziam sutil e delicadamente em suas bochechas. Iwaizumi parecia irritado, mas não, ele estava preocupado, Oikawa sabia diferenciar bem as duas coisas. Sorriu com carinho, observou Iwaizumi arquear a sobrancelha em questionamento e preferiu desviar… se esquivar:

— Você é minha mãe, Iwa-chan? — provocou, só por saber que Iwaizumi realmente odiava quando lhe falava isso.

Viu a expressão dele se fechar, agora realmente irritada, e ele se levantar xingando-o e o acusando de ser irresponsável enquanto batia a porta do banheiro. Massageou o pescoço e se levantou sentindo o corpo todo reclamar. O relógio marcava oito horas ainda, como alguém que tinha chegado bêbado conseguia acordar tão cedo?? Arrastou-se até seu próprio quarto, aproveitou para tomar banho e suspirou, contrariado, ao perceber que tanto ele quanto Iwaizumi tinham já perdido a hora para a faculdade.

Fechou os olhos com a água quente, lembrando-se da noite anterior e de tudo que havia decidido enquanto observava Iwaizumi dormir. Havia gasto um bom tempo pensando, nem lembrava-se de ter ido dormir, o que lamentava agora que o corpo todo doía, mas pelo menos estava decidido. Era tudo ou nada, e a frase de Iwaizumi antes de dormir lhe dava mais ânimo para arriscar.

Vestiu-se, saiu do quarto cantarolando para controlar o nervosismo, reconheceu o cheiro de café fresco que Iwaizumi preparava e sorriu. Devia ser fácil… em sua mente, já tinha ensaiado e ensaiado, sabia exatamente o que deveria fazer, estava tudo no lugar, tudo esperando seus movimentos. Então por que o coração estava tão assustado a cada passo que dava? Por que suas mãos suavam obrigando-o a secá-las na calça de moletom?

Iwaizumi o olhou, curioso, como se percebesse que algo estava diferente. As preocupações do dia anterior voltaram todas de uma vez, fazendo com que ele desviasse o olhar para o café que servia nas xícaras. Oikawa estava diferente, havia determinação nos olhos castanhos, e Iwaizumi se questionou se Kuroo tinha ousado contar alguma coisa sobre os sentimentos que a bebida lhe fizera confessar.

Ouviu os passos decididos, olhou para Oikawa com o cenho franzido quando percebeu que ele agora se apressava em sua direção e todos os seus questionamentos, toda a sua voz, tudo se perdeu quando sentiu as mãos de Oikawa se fecharem com força na gola de sua camisa enquanto os lábios colavam-se aos seus com urgência.

Quando ouviu pela primeira vez a expressão “o mundo parou”, Iwaizumi achou-a exagerada e sem noção, mas agora… Agora ele entendia, e como ele entendia… O corpo de Oikawa estava colado ao seu, prensando-o contra a pia enquanto a boca tocava a sua com firmeza, e era só nisso que ele conseguia pensar, o mundo tinha sim parado porque essa era a única explicação viável para ele poder prestar atenção a cada detalhe de Oikawa…

O corpo de Oikawa era quente, pressionava o seu, a pele exalava o cheiro do sabonete de que ele tanto gostava, e os lábios eram macios, como ele tinha passado a noite toda imaginando que seriam enquanto bebia. Seu coração batia forte e, como o governante de suas ações, disparava ordens para o resto do corpo. As mãos seguraram a cintura de Oikawa, como se para ter certeza de que aquilo era real! E era… perceber que era real o fez fechar os olhos e suspirar aliviado, enfim reagindo, enfim segurando o rosto de Oikawa, sua nuca, seus cabelos para poder aprofundar o beijo enquanto o girava e prensava o corpo dele contra a pia.

Oikawa tinha lhe beijado, tinha sido dele o primeiro movimento, era ele a lhe estender a mão para mais aquela aventura, e Iwaizumi nunca havia sido bom em negar nada a ele, muito menos aquilo que o coração tão desesperadamente queria.

O beijo parecia algo deles, trazia uma sensação familiar, embora nunca houvessem se beijado, era como se simplesmente tivesse que acontecer, como se o encaixe fosse perfeito e os lábios deslizassem na mais delicada carícia apesar da urgência com que se buscavam.

Oikawa suspirou, mais que satisfeito, o sorriso que escapava entre um beijo e outro era impossível de conter ele até mesmo riria de felicidade se não soubesse que isso provavelmente irritaria Iwaizumi. Gostava da firmeza nas mãos do outro, seguravam seu corpo e lhe davam a sensação de que não lhe permitiriam fugir, os beijos pareciam pequenas confissões, no início tímidas, mas agora como se gritada aos quatro ventos!

Arfaram, as respirações descompassadas obrigando-os a parar o beijo mesmo que as bocas insistissem em se encontrar em pequenos e longos selinhos. A mão de Iwaizumi deslizou da nuca para o rosto de Oikawa, acariciando-a, contornando o lábio inferior dele enquanto abria os olhos enfeitiçado.

Oikawa tinha o rosto corado, os lábios entreabertos, mas curvados num sorriso gracioso enquanto os olhos permaneciam fechados. Quis registrá-lo daquela forma, quis ter para sempre aquela lembrança tão bela de Oikawa entregue em seus braços, depois de beijá-lo com tanto fervor. Não desviou o olhar quando Oikawa finalmente o encarou, permaneceram em silêncio, ainda com os corpos colados, as respirações mesclando-se no curto espaço que dividiam. Como ímãs, aproximaram-se mais uma vez, um perdido no outro, sem desviar o olhar ou fechar os olhos. Pararam com as bocas próximas, olhando-se como se todas as perguntas que possuíam fossem ser respondidas naquele momento. Era a confirmação que desejavam, aquele último e breve toque dos lábios foi a resposta para a decisão que tomavam...

E Iwaizumi riu, baixo e incrédulo, quando ouviu o característico som da câmera do celular de Oikawa. Separou-se com a sobrancelha arqueada, vendo Oikawa lhe sorrir abertamente e sem remorso algum enquanto lhe mostrava a foto dos dois se beijando…

— Você não vai imprimir isso, Tooru… — Pegou o celular.

— É claro que vou, é um momento especial, vai ser uma lembrança do dia em que me pediu em namoro, Iwa-chan.

— Eu não te pedi em namoro, Tooru.

— Que rude, Iwa-chan... Mas tudo bem, vou te dar a chance de pedir agora. — Sorriu, os braços achando fácil o caminho para o pescoço de Iwaizumi para puxá-lo de volta para si.

Iwaizumi olhou mais uma vez para a foto e suspirou, derrotado, tinha gostado dela, principalmente do fato de Oikawa tê-la considerado especial. Deixou o celular na pia, mirou a expectativa nos olhos brilhantes do outro, e o coração se aqueceu por completo ao se ver alvo de tamanha euforia. Sentia-se um presente de natal a ser entregue para a criança mais chata e ansiosa da noite

— Namora comigo, Tooru… — pediu, baixo, sincero, como se as palavras escapassem de sua boca movidas pela esperança de que aquilo tudo não fosse apenas uma ilusão.

— Você é tão fofo, Iwa-chan — Oikawa provocou, mas, antes que o outro se ofendesse, beijou-o, breve e continuamente, o “sim” escapando mais alto e decidido a cada beijo. — Mas agora… o que o Tobio te falou no sábado, Iwa-chan?

— Nada que agora não seja verdade — respondeu, um meio sorriso se desenhando na face enquanto ele tocava os lábios de Oikawa com carinho, suspirava num misto de alívio e felicidade e repetia com uma estranha alegria e ênfase: — Nada que agora não seja verdade…

16 de Julio de 2018 a las 17:51 3 Reporte Insertar 14
Fin

Conoce al autor

Alice Alamo 22 anos, escritora de tudo aquilo em que puder me arriscar <3

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Enai lask Enai lask
aaaaah my heart lembrei que tenho um Ameiii essa perfeição
20 de Julio de 2018 a las 17:22

  • Alice Alamo Alice Alamo
    Oii!! hahahaha Fico feliz que tenha gostado! Muito obrigada pelo comentário <3 Beijoss 2 de Agosto de 2018 a las 18:26
  • Enai lask Enai lask
    *3* 3 de Agosto de 2018 a las 10:52
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