O Golpe Seguir historia

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João Balieiro


Quando jovens, dois irmãos inteligentes se envolveram em um crime tentando dar um golpe memorável. Falharam e sofreram as consequências. Oito anos depois, um plano irrecusável surge aos dois. Eles podem se tornar famosos pelo maior roubo da história, ou podem fracassar horrorosamente.


Crimen No para niños menores de 13.
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   O sol se punha devagar naquela noite, pintando o céu de uma mescla de alaranjado e rosa por entre as nuvens esparsas. Era fim de verão e o calor do sol ainda tomava o ar em torno das sete da noite. As pessoas estavam chegando a suas casas depois de um dia de trabalho, crianças ainda faziam barulho nos quintais se aproveitando do tempo extra de luz. Quem olhasse sem prestar muita atenção, acharia que os dois homens que caminhavam pela calçada rumo ao conjunto de quitinetes eram apenas dois moradores do bairro voltando para casa. Porém, quem olhasse direito veria que algo em sua postura não parecia tanto assim com dois companheiros voltando do trabalho, havia algo de furtivo em seu jeito casual de andar e nos olhares que dirigiam de canto de olho ao seu entorno. Suas camisas desabotoadas na gola e as mangas arriadas talvez não fossem suficientes para garantir seu disfarce caso alguém resolvesse prestar atenção naquele par de figuras. Felizmente, ninguém nunca presta atenção de verdade no que os outros fazem a não ser que tenham um motivo para isso, nem mesmo vizinhos enxeridos; esses apenas buscam por motivos de fofoca, no máximo especulariam com os colegas de rua se tinha se mudado um novo casal para as quitinetes, não perceberiam que não pertencem àquele lugar pacato.

   Logo que a dupla adentrou o estacionamento do pequeno condomínio, se é que se poderia chamar assim uma construção em U de três andares com várias quitinetes, se dirigiram até as escadas que levavam ao segundo andar da edificação. Um deles parou e deu risada de um cartaz impresso em preto e branco que havia sido pregado num painel ao lado da escada. “Pelo fim da corrupção, a prisão deste ladrão deve ser efetivada!” e logo abaixo a foto de um político sob investigações.

   – Esse povo é muito trouxa, há! Seria melhor mandar todos eles à merda num buraco bem fundo, quem sabe assim mudasse... – ele riu e tirou uma caneta do bolso da camisa, usando a mesma para deixar rabiscado no cartaz “larga de ser iludido” e uma seta apontando para o título do cartaz.

   – Para de gracinha e anda logo, Gabriel! – seu companheiro tinha parado alguns passos à frente e olhava impaciente para o rapaz que rabiscava o papel. – Não estamos com tempo de sobra aqui.

   Gabriel então guardou a caneta revirando os olhos e seguiu em frente com o outro homem. Eles subiram as escadas e foram passando pelas portas até estarem de frente com a última daquele lado do U. 210. O número de metal na porta estava desgastado e a madeira da porta possuía diversos riscos e marcas mostrando certa falta de cuidado, provavelmente durante mudanças de moradores. O homem que estava na frente bateu três vezes à porta e esperou. Sem ter nenhuma resposta, bateu de novo, sendo mais incisivo dessa vez. Mais uma vez ficando sem resposta, ele olhou para Gabriel e acenou com a cabeça, o companheiro correspondeu ao gesto e ele forçou a maçaneta. Estava destrancada. Os dois entraram devagar, sem fazer barulho no chão e olharam em volta. A sala era cheia de livros espalhados em pilhas pelo espaço todo, uma garrafa de uísque pela metade jazia numa mesinha de centro de plástico amarelado... e um homem estava sentado na poltrona de couro marrom velha logo atrás da mesa. Ele olhava para os dois recém-chegados com o rosto contrariado. Estava de pernas cruzadas e em seu colo, envolvido por uma das mãos, havia um revólver branco.

   – Vocês são teimosos que é um inferno, hein? – ele levantou e usou o revólver para afastar uma mecha do cabelo preto comprido que caíra sobre o olho.

   – Sério que a sua ideia de fazer a gente desistir era fingir que não estava em casa, Lucas? ‘Tá achando que eu sou carteiro? – Gabriel soltou um riso irônico e foi entrando pelo meio das pilhas de livros.

   – Valia a pena tentar. – o homem dá de ombros – Mas acho melhor avisar que seus métodos de espionagem estão precisando de uma revisão, Carlos. Deu pra ver vocês me observando da janela da biblioteca mais cedo. Carrinho de cachorro-quente? Muito desenho animado, né?

   O que ainda estava parado à porta finalmente entrou e fechou a passagem atrás de si. Seus olhos estavam fixos na arma do morador.

   – Eu já esperava que fosse nos ver... Onde arranjou isso aí?

   – Isso? – Lucas levantou a pistola no ar como se fosse um lápis qualquer. – Só um experimento com a impressora 3D da biblioteca da faculdade... Tem que ter alguma vantagem em ser zelador e ficar lá até onze horas toda noite pra fechar o prédio. Funciona muito bem por metade do peso de uma Eagle de verdade.

   – Como aguenta a munição e o recuo então? – Gabriel tinha chegado bem perto e olhava curioso para o aparelho.

   – A munição também é feita na impressora e funciona por mola. O tiro tem menor alcance, mas é só pro caso de alguma emergência mesmo. – ele deu de ombros mais uma vez e arremessou a arma na mesinha de centro. – Enfim, o que vocês dois querem aqui? Vicente ‘tá dando tanto tempo livre assim que resolveram pedir pra eu lembrar ele como ser uma máquina de dar ordens para vocês terem trabalho de novo?

   – Há, há, muito engraçado. – Carlos se aproximou, sentou numa pilha de livros e acendeu um cigarro. – Mas é por causa dele mesmo que estamos aqui. Ele precisa da sua ajuda. Tem... um plano novo na área. E ele precisa de você no time de novo.

   Lucas solta uma gargalhada e senta na poltrona de novo. Carlos olha pra ele sem entender a reação enquanto Gabriel finge que não está prestando atenção e vai até o balcão da cozinha atrás deles, pega um copo e se serve do uísque em cima da mesa. Lucas interrompe a gargalhada e olha de um para o outro.

   – É piada com a minha cara, né? – ao ver que nenhum dos dois muda de feição ele se endireita na poltrona e fecha a cara. – O Vicente não pode esperar que eu ajude ele. Pra mim já deu. Eu saí dessa. Nenhum dos planos malucos dele de dar o suposto golpe do século me pega mais. Eu ‘tô bem onde eu ‘tô.

   – Cara, dessa vez a jogada é grande mesmo... vai fazer aquele plano dos carros-fortes parecer brincadeira de criança. – Gabriel olhou para ele por cima do copo de uísque.

   – Porque aquilo foi brincadeira de criança! – Lucas levantou a voz e bateu com os braços na poltrona. – Éramos dois moleques idiotas que acharam que podiam ficar ricos dando o maior golpe que esse país já viu numa distribuidora de dinheiro. A única coisa que conseguimos foi uma bosta de um acordo com a polícia para passarmos menos tempo presos.

   – E mesmo assim, foram inteligentes o suficiente para ainda ficarem com uma grana.

   – Só porque eu já sabia que ia dar merda! Quando a perseguição começou eu percebi que não ia rolar e salvei dois malotes naquele armazém da estrada. Eu avisei o Vicente pra mudar o plano, mas ele não quis me ouvir.

   – Olha, sinceramente, não importa o que deu errado. Vocês meteram um puta golpe tendo menos de vinte anos de idade. Deu merda? Deu. Mas ainda é uma prova do quanto vocês dois, juntos, podem ser geniais. – Carlos tinha se inclinado para frente e olhava nos olhos do ex-colega.

   – Foi uma prova do quanto a gente pode se foder quando um plano dá errado. Não estou a fim de passar mais dois anos na cadeia. – ele tirou um maço de cigarros da lateral da poltrona, acendeu um cigarro e soltou a fumaça olhando pra cima, como se esperasse que os outros dois terminassem o assunto e fossem embora.

   Carlos levanta e faz sinal para Gabriel que engole o que uísque que ainda restara no copo. Os dois iam se encaminhando pra porta, mas antes que chegassem lá, Gabriel parou e virou olhando para Lucas de novo. O homem fingia não prestar atenção neles e olhava pro teto.

   – Você pode falar o que quiser, mas o Vicente continua sendo seu irmão.

   – Ele que escolheu ir embora. Ele preferiu fugir da polícia e me largar sozinho. Vicente fez as escolhas dele. Então não tente usar irmandade como desculpa pra me fazer ir atrás dele. Ele quer ser o grande golpista? Deixa ele. Eu não sou assim mais. – Lucas apagou o cigarro no braço da poltrona e se levantou indo até a cozinha, começou a mexer em nos armários em busca de algo indefinido.

   – Use a fachada que quiser, mas nós dois sabemos que é mentira. Você está aí fabricando armas em impressora 3D e falsificando cartão de acesso para estoque de supermercado. – Lucas parou de olhar os armários e se virou para o que falava, o loiro apontava para um amontoado de papel na mesa onde escapava a ponta de um cartão branco com código de barras. – Achou que eu não ia reparar? Pois é. Agora você decide. Quer mesmo continuar sendo um ladrão de galinha ou vai usar essa porra desse cérebro pra ser um dos maiores estrategistas que esse país já viu?

   Gabriel virou de costas e abriu a porta saindo junto de Carlos, deixando do lado de dentro um Lucas perplexo que esmagava entre os dedos um pacote de salgadinho.

   Lucas voltou pra sala de mãos vazias e se jogou na poltrona que rangeu com o peso súbito. Sua cabeça estava uma confusão naquele momento. Seu irmão já tentara lhe contatar algumas vezes desde aquele fatídico dia do assalto. Fazia oito anos já desde o assalto aos carros-fortes. Dois ele perdera na cadeia, sendo esculachado como o arregão. O cérebro desperdiçado, que sabia planejar um golpe mas não tinha os culhões para terminar o serviço. O próximo ano, depois de sair da cadeia, tinha sido um tormento, uma maratona de pular de bico em bico em busca de se manter. Não era fácil arrumar emprego sendo ex-presidiário. Até que quatro anos antes ele conseguiu contato com um amigo que se tornou reitor de uma grande universidade privada. Mexendo os pauzinhos certos ele conseguiu ser empregado. Agora trabalhava como zelador da biblioteca da faculdade. Não pagava muito, mas era um trabalho, era algo para provar que ele pelo menos tentava se tornar alguém normal e não merecia ser desprezado por ter sido criminoso quando era apenas um adolescente inconsequente de dezoito anos. Mas no fundo, ele sabia que Gabriel estava certo. Ele não conseguia se encaixar. Nunca conseguira. Nos anos de escola ele e Vicente, que havia repetido um ano por excesso de faltas então ficara na mesma turma que ele, tinham um sistema todo complexo de colas para passar a resposta de todas as provas para seus amigos; e nenhum nunca foi pego. Eles eram assim, se sentiam acima do sistema, viam as falhas e brechas para agirem e as usavam todas ao seu favor. Mas quando quiseram aumentar o nível, quando assumiram risco real para encher os bolsos, não funcionou. Um deslize na hora de controlar o monitoramento das câmeras de segurança e dos alarmes, e a polícia recebeu um alerta. Foram perseguidos. Vicente se jogou num rio e fugiu. Lucas passou o próximo mês ajudando a polícia a procurar pelo irmão em troca de redução de pena. Por fim, numa noite, forjou um cadáver parecido com o irmão e o deixou no fundo do rio. Uma semana depois a polícia o encontrou. Como estava irreconhecível, eles deram por encerrado. Aceitaram o corpo como sendo de Vicente e prenderam Lucas, finalmente. Depois de alguns anos solto, o irmão mais novo acabou por descobrir que Vicente vivia escondido e tinha uma espécie de trupe de golpistas que ganhavam a vida sacaneando ricaços por aí, tirando quantias que não seriam facilmente percebidas mas que garantia uma vida tranquila a todos eles. O irmão tentou recrutar Lucas, mas não deu certo. Ele não queria mais esse risco. Mas também não queria uma vida normal, então aplicava o golpe que Gabriel mencionou. Falsificou um cartão de acesso do depósito de distribuição de uma grande rede de supermercados e roubava mercadorias por gosto, algumas ele vendia nos bairros mais afastados como traficante de mercadorias e assim satisfazia seu desejo pela quebra do sistema.

   Lucas sacodiu a cabeça e se levantou, talvez um banho ajudasse a limpar a mente. Mas não ajudou. Enquanto a água fria descia por seu rosto a única coisa que conseguiu pensar era em se realmente o plano novo era tão bom assim. Ele queria tomar parte, mas ao mesmo tempo tinha um receio enorme de voltar a trabalhar com Vicente. No entanto, ele sabia que, se era um plano tão grande assim, Vicente não tinha capacidade fazer sem ele. Ele podia ser esperto, mas nem de longe era tão bom quanto Lucas para calcular todas as variáveis necessárias. Acabaria sendo preso se não tivesse ajuda do irmão.

   Lucas soltou um suspiro longo quando tomou a decisão. Saiu do banho, se vestiu e pegou uma mala de mão que deixava no canto do quarto. Jogou algumas roupas, seu notebook, a pasta de documentos – tantos os falsos quanto os verdadeiros – e olhou em volta. Seu olhar para em uma gaveta meio aberta do guarda-roupa, que não fechava pelo excesso de coisa. Caminhou até a gaveta e a abriu com um puxão. Retirou as roupas e no fundo achou o que procurava. Um bloco de notas de R$100 que devia juntar em torno de uns dez mil reais. O que sobrara dos malotes escondidos. Ele deixava ali pro caso de precisar fugir algum dia. Achou melhor levar consigo. Na saída, pegou a pistola branca que escondeu no cós da calça, seu maço de cigarros, o celular, e virou o restante da garrafa de uísque. Trancou o apartamento, respirou fundo e seguiu rumo ao que poderia ser a escolha mais inteligente ou a mais imbecil de toda a sua vida.

14 de Julio de 2018 a las 15:47 1 Reporte Insertar 2
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Karimy Karimy
Olá! A história parece ser bastante interessante e com uma pitada divertida de "alguém pode se ferrar", e eu, claro, estrou aqui para ver se vai ter esse alguém" haha!
1 de Septiembre de 2018 a las 17:19
~

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