Entre Flexões e Mordidas Seguir historia

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Se pudesse voltar no tempo e evitar sua queda no chão, sua língua mordida, o dedão inchado e o roxo no olho não o faria. Nem em um milhão de anos mudaria qualquer um de seus micos. Passaria por todos eles e se duvidasse faria ainda pior. Porque não importava a vergonha que sentia a cada mico passado, o que importava era o sorrio bonito do garoto que sempre o ajudava.


Fanfiction Bandas/Cantantes Sólo para mayores de 18.

#Guktae #Taeguk #vkook #kooktae #taekook #kookv #bangtan #bts
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Em caso de amor quebre a esteira

   Não aguentava mais, a respiração ofegante, a falta de ar lhe sufocando e os pingos de suor que pintavam seu rosto. Aquilo não era normal. Nem um pouco. Não queria admitir, mas estava num estado grave de sedentarismo. Nunca se exercitou muito, mas também nunca foi sedentário. Era uma pessoa saudável, mas precisava admitir que tinha que fazer algo pelo seu corpo.

   H   á pouco tempo começara a sentir dificuldade em exercer tarefas comuns do cotidiano, como agora que parecia que tinha corrido uma maratona, mas tudo que tinha feito havia sido subir seis andares calmamente carregando apenas o saquinho de café, que tinha ido comprar na conveniência do outro lado da rua, e sua carteira.

   Não era realmente gordo, mas também não era magro. Tinha lá suas gordurinhas, mas sempre soube que não era o tamanho da barriga que definia a saúde de alguém. Lembrava-se até de um caso bastante específico de sua família. Um de seus tios quase morrera de infarto aos 42 anos. Era muito magro, mas comia muito mal. Sua dieta era constituída de doces, frituras e coisas extremamente industrializadas. Nunca passava nem perto de uma comida um pouco mais natural, muito menos fazia qualquer tipo de exercício, por isso tinha uma quantidade assustadora de gordura visceral. Poderia admitir que nem se lembrava do caso em questão até esse dia. Era um parente distante, o qual não lhe era muito chegado. Sem contar que era muito novo quando tudo aconteceu.

   Sua decisão tinha nada a ver com sua estética ou pressão de alguém. Não tinha o corpo perfeitamente magro ou as bochechas finas, mas sinceramente, não se importava. Podia não se considerar a pessoa mais bonita do mundo, mas não se considerava feio e não tinha problema nenhum com o próprio corpo. Mesmo que os números da balança demorassem um pouco a parar de contar e os pneuzinhos fossem visíveis. Não era o maior fã de exercícios, preferia passar boas horas fotografando, vendo bons dramas ou lendo mangás. Gostava de perder horas jogando no computador ou console, também amava passar o dia conversando com seu melhor amigo enquanto comiam qualquer besteira e viam filmes ruins, mas precisava tirar a bunda da cadeira.

   Não sabia dizer com precisão quando sua paixão pela música começou. Sabia que tinha a ver com o jovem que tocava violino no centro da praça próxima a sua casa, mas não tinha ideia de quando seu coração fora embalado pelas melodias gostosas do rapaz, nem quando começou a imaginar o quão maravilhoso seria se uma voz harmonizasse com o som de tão delicado instrumento. Não sabia quando ou porque, mas sabia o impacto que aquele homem tivera em sua vida. Almejava ser compositor.

   Havia conseguido um bom emprego numa gravadora. Não era uma das mais famosas, mas estava em ascensão. Gostava de onde trabalhava, a empresa não tinha muitos funcionários, isso tornava o ambiente bem familiar. Tinha liberdade de escrita e não era forçado além da conta. Na outra empresa em que trabalhara não recebia crédito por nenhuma das composições, era diariamente ameaçado de demissão, forçado a escrever letras toscas sobre romances vazios, sua carga horária era absurdamente alta e sem a menor flexibilidade. Achava que nunca encontraria nada melhor, suas habilidades eram tão questionadas que nem acreditava mais na própria capacidade.

   Há seis meses encontrou Yoongi. Na verdade, Jimin e Hoseok o encontraram. Nunca entendeu como aquilo tudo tinha acontecido. Em um dia estava em seu emprego péssimo, se afundando em frustrações e no outro quase caiu duro no chão quando encontrou o melhor amigo, seu namorado e um desconhecido embolados na cama.

   O avermelhado estava acostumado a entrar e sair da casa de Jimin como bem entendesse e, sinceramente, já estava muito mais do que acostumado a ver Hoseok pelado por aí. No começo do namoro dos dois houveram muitos constrangimentos, mas com o passar do tempo ninguém realmente se importava mais. Por isso que entraria no quarto de Jimin sem se anunciar, esperando encontrar o amigo adormecido ao lado do namorado como de costume. Acordaria Jimin, lhe faria um carinho, depois um café para os três e então começaria a despejar suas mágoas em cima do amigo até se sentir um pouco melhor.

   Destrancou a porta de entrada e caminhou calmamente até o quarto, odiava acordar o amigo no susto, sempre se sentia culpado quando via os pequenos olhinhos inchados completamente arregalados. Por isso tomava todo o cuidado do mundo para acordá-lo sempre da forma mais carinhosa e calma possível. Sem contar o fato de que era naturalmente carinhoso com quem gostava. Abriu a porta lentamente e quase gritou com todas as suas forças quando encontrou um terceiro corpo na cama. Pegou a primeira peça de roupa que encontrou no quarto e começou a bater no, até então, desconhecido, o chamando de tarado, louco, invasor, tudo.

   No fim Jimin teve que agarrar Taehyung para que ele parasse de bater em Yoongi, ficando assim até que ele ficasse um pouco mais calmo. Depois, durante o café feito pelo loiro, Hoseok e Jimin explicaram toda a situação. Jimin lhe explicou que ele e Hoseok estavam, até o dia em questão ao menos, em um relacionamento monogâmico, mas os dois se encantaram por Yoongi assim que o viram bebendo num bar que o casal frequentava. Taehyung achava um pouco estranho, mas não se metia, seu amigo estava feliz. Era só o que importava.

   Taehyung se sentiu horrível, pediu infinitas desculpas ao loiro, se sentindo sinceramente mal por todo o escândalo desnecessário que causara. Sempre seguiu a teoria de que uma conversa era a melhor opção pra tudo, mas algum instinto bizarro de proteção ascendeu em si quando encontrou alguém que não reconhecia dentro da casa das pessoas que amava tanto.

   Depois de todo o constrangimento uma conversa interessante fluiu entre os garotos. Em algum momento Taehyung, que nem lembrava que havia ido até lá para chorar suas mágoas nos ombros dos amigos, comentou da composição que estava fazendo para Jimin. Não era sempre, mas algumas vezes era a voz de Jimin que embalava os passos de Hoseok e as letras do avermelhado eram sempre as que mais combinava com os amigos. Yoongi ficou impressionado com o talento do mais novo e então entraram num assunto sobre a carreira de ambos. Ao fim do mesmo dia Taehyung já tinha decidido largar seu atual emprego e se juntar ao loiro na sua pequena empresa. Fora uma decisão quase impensada de tão rápida, mas pior do que estava não podia ficar. Hoje agradecia demais a decisão que tomou. Estava imensuravelmente mais feliz e realizado.

   A empresa não ficava muito longe de sua casa, mas sempre ia de carro. Trabalhava no segundo andar, mas sempre subia de elevador. Tinha um grande mercado com ótimos preços a uma quadra de distância, mas sempre comprava pela internet ou na conveniência do outro lado da rua. Amava ir ao cinema, mas nunca saia de casa para nada, a não fosse extremamente necessário. Tinha certeza que se passasse mais uns meses na mesma situação faria parte do estofado da sala.

   Jimin sempre lhe falava que precisava fazer alguma coisa. Nem que fosse caminhar até o trabalho. Precisava se mexer ao menos um pouco. Em todas as vezes fingiu dar ouvidos ao amigo dizendo que na semana seguinte começaria alguma atividade. O Park andava ocupado há semanas, mas hoje tinha conseguido uma folga. O menor só queria descansar na cama do amigo enquanto deixava seus músculos doloridos relaxarem e tinha uma longa conversar sobre qualquer coisa. Tinha ido até a conveniência comprar café. Havia trabalhado até tarde na noite anterior e que queria se manter acordado. Não achava justo ficar caindo de sono quando o amigo queria companhia. Jimin nunca faria isso consigo então não faria com ele.

   Gostava de ir até a conveniência do senhor Kim. Ia tanto que era amigo do atendente aka o filho do dono que estava tentando a vida como modelo. Não estava dando muito certo. O garoto era bonito, muito bonito e sabia agir como um príncipe, mas quando ficava nervoso esquecia como manter a postura elegante, contava mil piadas horríveis e se portava como um verdadeiro tiozão. Isso assustava a maioria dos interessados.

   Teria sido só mais uma saída normal que não mudaria em nada sua vida, no máximo voltaria para casa com mais uma piada ruim em sua bagagem, mas antes mesmo que adentrasse de fato seu prédio o porteiro lhe avisou que o elevador estava travado no último andar. Por sorte ninguém estava dentro, mas a falta de vítimas implicava numa maior demora no conserto, já que não se tratava de uma emergência.

   O garoto de fios rubros não viu grandes problemas. Não tinha nada para fazer, podia subir com a maior calma do mundo. Só não esperava que ao fim do primeiro lance já estivesse totalmente ofegante e com os músculos doloridos. Quando finalmente pôde sentir o estofado confortável abaixo de si já tinha decidido entrar numa academia.


•–•


   Deve ter levado uns dez dias até que o avermelhado finalmente ir para seu primeiro dia na academia. Precisava comprar roupas, encontrar uma boa academia com algum instrutor e que não fosse absurdamente cara. Afinal não queria competir em nada ou se tornar um homem extremamente torneado e musculoso. Só queria ter sua disposição de volta, não valia a pena pagar horrores por serviços que nem usaria. Organizou tudo, conciliando os exercícios com suas obrigações, não queria começar e depois ter que parar simplesmente porquê não tinha tirado nem uma hora pra pensar sobre sua rotina.

   Jimin havia ficado feliz com a sua decisão. Apoiou e incentivou o amigo. Falou sobre como seria difícil no começo, mas que valeria a pena depois. Hoseok e Yoongi também lhe deram todo o apoio. O garoto de sorriso brilhante admitiu que sentiria falta das bochechas gordinhas que tanto gostava de apertar, mas sabia que o amigo tinha que fazer algo antes que acabasse realmente doente.

   Yoongi disse que poderia adaptar seu horário como fosse o melhor pra ele. O mais velho não tinha problemas com horários flexíveis, desde que o trabalho fosse bem feito, por ele estaria tudo bem. Tanto que haviam funcionários seus que trabalhavam pingado durante o dia. Uma de suas melhores compositoras tinha duas filhas, por isso precisava sair recorrentemente para atender uma dor de barriga aqui, uma briga ali. Outro tinha um pai com Alzheimer. De vez em quando precisava ir pra casa para acalmá-lo após uma crise. O Min era um chefe muito humano, tratava seus funcionários como amigos próximos. A maioria, de fato, acabava se encaixando nessa categoria.

   Estava animado com seu primeiro dia. Era uma pessoa sociável, adorava conhecer novos rostos e personalidades. Colocou uma calça de moletom e uma camiseta extralarga, ficando o mais confortável possível. Entrou no carro e se encaminhou até a academia, que não era lá muito longe. Pensou em ir a pé, mas temia não ter forças para voltar. O lugar poderia não ser tão longe, mas ainda era uma boa caminhada e, para alguém em seu estado, caminhar aquelas ruas com certeza não seria uma boa ideia. Talvez estivesse especialmente animado por saber que logo o inverno se iniciaria, amava o inverno.

   Estacionou sem muitos problemas. A maioria das pessoas estava trabalhando a essa hora da manhã. Trancou o carro e caminhou calmamente até a entrada, estava um pouco adiantado. Conversou por uns minutos com uma moça simpática que encontrou na recepção, era professora de boxe, mas estava ali para fazer uma aula de yoga. Tinha falado com um cara quando ligou para fazer sua matrícula e esperava o mesmo para que este lhe guiasse em seu primeiro dia. Mostrasse onde tudo ficava, quem seria seu tutor e onde ocorreriam suas aulas.

   O lugar tinha sido montado por um grupo de amigos formados em diferentes áreas. Tinha de aulas de Yoga a Muay Thai. Cada andar tinha em médias duas modalidades, mas a quantidade de salas de aula variava, afinal certas áreas precisavam de mais espaço, outras nem tanto. O lugar não era enorme, mas também não era pequeno. Deve ter ficado apenas uns cinco minutos com a moça, que descobriu se chamar Momo, até Wonwoo chegar pedindo mil desculpas pelo atraso. Ele não estava, de fato, atrasado. Taehyung que havia se adiantado.

   O moço alto lhe mostrou todo o local, explicando onde cada coisa ficava e que, se quisesse, poderia mudar tanto de instrutor como de módulo mais tarde. A sala onde faria suas aulas ficava logo no primeiro andar, era ampla e repleta de equipamentos que não tinha a menor ideia de como usar. Durante a seu percurso Wonwoo comentou que não dava aulas, mas se juntou aos amigos na construção do local para cuidar da área administrativa. Ao fim do percurso estava de volta ao primeiro andar sendo apresentado ao seu novo instrutor.

   Jungkook era um garoto novo, mais novo que si em dois anos, com uma carinha de bebê e um porte físico forte. Parecia um tanto quanto tímido e silencioso. Taehyung julgou então que o mais novo seria estritamente profissional. Não achava de um todo ruim, mas também não era o que mais lhe agradava. Era uma tagarela. Tinha certeza que, se o garoto fosse realmente tão quieto quanto aparentava, logo o incomodaria com seu falatório sem limites. Se sentisse que estava se tornando um incômodo mudaria de instrutor.


•–•


   Taehyung estava morrendo, podia sentir. Os exercícios mal haviam começado e já sentia todos os seus músculos arderem. Jungkook era muito paciente, lhe explicou detalhadamente qual seria seu plano de treino inicial e como cada um os equipamentos funcionavam, mesmo que não fosse usar parte deles logo de cara. O alongamento já fez Taehyung se sentir mal. Era o básico do básico! Como poderia não saber? Já tinha feito dança uma vez, inclusive foi onde se tornou amigo de Jimin, como poderia ter esquecido de tudo? Se sentia uma ameba. Parecia que nem sabia o que era um braço e uma perna direito.

   O garoto moreno de olhos grandes não lhe olhou com deboche nenhuma vez, pelo contrário, parecia completamente bem em guia-lo em cada mínimo passo, mas Taehyung se sentia mal. Não pensou, nem por um segundo, que se sentiria humilhado. Não odiava exercícios, não se sentia mal consigo mesmo, mas, de alguma forma, ficar ali errando coisas básicas na frente de um estranho lhe deixou muito frágil. Mesmo que quase ninguém ali presente prestasse atenção em si conseguia sentir alguns olhares lhe julgando por cada coisinha.

   A gota d’água foi quando Jeon lhe instruiu a fazer uma sequência rápida de flexões. Seria o último exercício do dia, depois eles alongariam novamente e Taehyung iria para casa tomar um banho antes de ir para o trabalho. No entanto estava tão suado que quando foi apoiar as mãos no chão elas escorregaram e o avermelhado caiu e bateu o queixo no chão, mordendo a língua por consequência. Jungkook ficou assustado com o barulho do baque, não demonstrando ver a mínima graça na cena, mas Taehyung ouviu alguns risinhos baixos em suas costas.

   Se desculpou, inventando uma desculpa sobre já estar atrasado. Jungkook tentou fazer com que o mais velho não saísse, ficou realmente preocupado com a careta de dor que o outro fez e podia jurar ter visto um pouco de sangue na bosta deste. A tentativa foi inútil já que o avermelhado saiu rápido demais para que se cérebro atordoado tomasse alguma decisão mais efetiva.

   Taehyung só queria sair dali o mais rápido possível. Se sentia mal por ter sido grosso com garoto. Ele tinha tratado Taehyung da melhor maneira apesar de, como suspeitara, ser estritamente profissional. Fora paciente e gentil consigo, mas quanto mais tempo passava mais se sentia sufocado naquele lugar e a queda havia sido o estopim para suas sensações ruins.


•–•


   O garoto de pele amorenada sentia seus olhos ardendo um pouco ao contar para Park o episódio da manhã. Continuou se sentindo meio mal durante todo o dia, mas ao invés de apenas lamentar aproveitou seus sentimentos para compor uma ou duas músicas.

   – Ainda dói? – Jimin perguntou enquanto fazia um cafuné na cabeça do amigo.

   O avermelhado estava deitado, as coxas de Jimin servindo de travesseiro, este que estava sentado com as costas apoiadas na cabeceira da cama.

   – Não muito na verdade, ‘tava pior na hora do almoço. Quase desisti de comer.

   – É bom que tenha ficado só no quase mesmo. – O moreno disse dando um tapinha na testa do amigo.

   – Sabe que eu não consigo ficar sem comer. – Murmurou pegando a mão do amigo, adorava brincar com os dedos pequenos e gordinhos, tão diferentes dos seus – Eu acho que não vou voltar.

   – Tae... – Jimin chamou num tom de advertência – Você sabe qu-

   – Não tô dizendo que vou desistir de me exercitar. Só vou trocar de academia. – Exprimiu em tom cansado.

   – Você não disse que seu tutor era gentil e bom no que fazia? Não tinha gostado dele? – Inquiriu segurando a mão grande do amigo com as suas, acarinhando os dedos compridos e as costas da mão.

   - Eu gostei dele. Apesar de ser quietão. Eu só não sei se consigo entrar lá de novo. Eu me senti muito mal Minie.

   – Taehyung eu passei o cheque na minha primeira vez com o Hoseok. Acredite, um micão num lugar onde tu não conheces ninguém não é nada. – Argumentou fazendo o mais novo rir com gosto – Viu?! Até hoje vocês riem disso! Já faz mais de dois anos! O que é uma queda na frente de estranhos em relação a cagar na pica do boy?

   Taehyung a essa altura já ria tanto que sua barriga doía, Jimin lhe acompanhava nas risadas, de forma mais contida. Não se importava mais, de fato, com o episódio. Na época foi horrível, mas com o tempo ele mesmo passou a se zoar e então tudo se tornou uma grande piada interna.

   – E outra: você prefere pagar todos os micos com um instrutor ou ficar pulando de galho em galho até que Seul inteira te conheça como “o cara desastrado da academia”? – Questionou já quase cessando as risadas, assim como o mais alto, que limpava algumas lágrimas no canto dos olhos.

   – Têm razão. De uma forma ou de outra eu vou ter que lidar com isso. Não é como se fosse melhorar magicamente se eu trocasse de lugar.

   – Isso aí! Vai balançar essa barriguinha com o instrutor gostoso. – Falou dando tapinhas na barriga do outro.

   Odiava admitir, mas esperava que ele não perdesse totalmente a barriga. Assim como Hoseok adorava apertar as bochechas de Taehyung, Jimin gostava de brincar com sua barriga.

   – Eu nunca disse que ele era gostoso. – Murmurou confuso.

   – E precisa? Você quase babou falando dele! Parecia eu quando tentava esconder meu crush no Hobi.

   – Falando nisso, como você tá? – Perguntou olhando bem para o rosto do amigo, que se tornou abatido após a pergunta.

   – Eu tô bem. O Hoseok sempre quis dar aulas e esses seminários vão agregar muito a ele, mas eu morro de saudade. Ainda que agora a gente tenha o Yoongi e eu não fique sozinho não é a mesma coisa, sabe? O Hobi se esforça um monte pra fazer chamada de vídeo com a gente toda noite, dá pra ver que ele ta exausto. Ele ta claramente realizado, mas muito cansado. As vezes eu quero falar pra ele não ligar pra gente e ir dormir mais cedo, mas ao mesmo tempo eu não consigo abrir mão de olhar pro rosto dele nem que seja por uns minutos. Eu também acho que ele se sentiria mal de ir dormir sem falar com a gente, ele já quase não foi por causa do meu aniversário.

   Naquele início de tarde Taehyung ouviu todos os lamentos do amigo. Em algum momento se questionou se sentiria essa falta de alguém algum dia. Sentia falta da família e dos amigos, mas nunca sentiu verdadeira falta de nenhum namorado. Ao mesmo tempo que queria saber como era a sensação, tinha medo do quão forte isso poderia ser.


•–•


   O avermelhado mentiria se dissesse que não estava minimante nervoso. Acreditava fielmente no que tinha dito a Jimin, mas isso não tornava o processo mais rápido ou menos doloroso. Estava vestindo um moletom bem parecido com o do primeiro dia e o mesmo tênis surrado. Respirou fundo diversas vezes quando estacionou. Saiu do carro de cabeça erguida. Não para parecer metido ou superior, mas precisava dessa confiança. Haviam muitos anos que não tinha nenhum problema grave consigo, não era agora que se deixaria abalar.

   Adentrou o estabelecimento dando de cara com a mesma moça do primeiro dia. Talvez ela tivesse suas aulas nos mesmos dias que si, ou fosse todos os dias. Talvez fosse a forma dela se preparar para as aulas que tinha que dar. Não devia ser fácil, ensinar as pessoas a lutarem e ainda assim não sair toda machucada. Gostou da aloirada desde o primeiro dia. Achava seu sotaque fofo, assim como tudo nela. Achava interessante o contraste de sua aparência e voz com sua força física e personalidade.

   Chegou um pouco adiantado, como da outra vez. Quis conversar com a menor, mas notou, conforme se aproximava, que ela tinha os olhos muito fixos em alguma coisa. Parou do lado dela, esta que estava tão distraída que nem o notou, seguindo seu olhar. Uma garota de estatura mediana, se tivesse que chutar diria que era alguns centímetros menor que a loira, conversava com seu instrutor. Pareciam amigos. Momo estava praticamente em transe, era como se não enxergasse nada além daquela mulher. Pigarreou, assustando a garota ao seu lado.

   – Eu busco um balde pra você ou água pra ela? – Questionou divertido, vendo a loirinha ficar completamente vermelha e sem graça, se embolando nas palavras ao tentar dizer que não sabia do que ele estava falando.

   Taehyung riu lhe tranquilizando em relação a toda situação, dizendo que não falaria nada a ninguém. Por um momento quis contar do melhor amigo, mas então se deu conta de que não a conhecia o suficiente para tal. Apenas comentou que não tinha problema nenhum com coisas que não faziam mal a ninguém.

   – Ela faz Yoga comigo. – Contou.

   – Foi por isso que entrou na aula? – Questionou, recebendo uma negativa em seguida.

   – Ela entrou depois de mim. Eu já faço aula há anos, até ia parar pra falar a verdade. Poderia muito bem fazer sozinha em casa, mas depois que ela entrou eu simplesmente não consegui largar as aulas.

   – Já faz muito tempo que ela entrou?

   – Quase um mês. Eu já saí com ela algumas vezes, mas nunca tive coragem de tentar algo a mais. Eu não sei ler as pessoas! Nunca sei se estão me dando abertura pra algo mais “íntimo” ou simplesmente se sentem à vontade comigo. Eu nem sei lidar com uma garota! Eu só saí com caras até agora! Fiquei com uma ou duas em baladas, mas nem me lembro direito dos rostos. – Despejou chorosa. Não era de falar assim, mas o garoto tinha alguma coisa que fazia com que se sentisse completamente à vontade.

   – Eu não te conheço direito, muito menos ela, mas pelo jeito que ela não para de te olhar desde que percebeu que você estava aqui, eu acho que você tem uma chance. – Segredou bagunçando os cabelos compridos pouco antes de deixa-la sozinha.

   Adorava bancar o cupido. Esperava sinceramente que tudo desse certo para ela. Esperava também que a outra garota fosse ao menos bi, era muito doloroso quando alguém não gostava de si simplesmente por terem a mesma coisa no meio das pernas. Não era culpa de ninguém, mas não podia negar que doía.

   Caminhou até sua sala encontrando alguns poucos rostos novos, as pessoas que estavam ali em sua última aula e aqueles dois que lhe encaravam e riram de si no outro dia. Naquele momento não se sentiu humilhado como na semana anterior, pelo contrário, sentiu uma vontade de provar que eles não eram nada incríveis apenas por viverem de batata doce. Estava ali para aprender como todo mundo. Não tinha porque se sentir menor. Um dia aqueles dois provavelmente tinham sido como si. Talvez até se vissem nele e isso magoasse, por isso o tratavam mal. Não que isso justificasse, claro, mas compreendia e não queria se importar. Cada um com seus problemas. Se os dois não conseguem lidar com os próprios demônios o problema é deles. Continuaria cuidando de si. Só precisava se dar bem com o quem lhe ensinava. Apesar disso, secretamente, esperava que se tornasse um amigo de verdade para a loirinha que agora conversava com a crush. Quase podia sentir quão solitária ela era e não gostava nada disso. Era uma garota legal, não entendia porque parecia tão sozinha.

   Cumprimentou seu instrutor largando a bolsinha que carregava consigo no cantinho. Só levava a carteira, as chaves de casa e do carro, o celular e uma garrava d‘água, mas achava incômodo levar tudo na mão. Começou a fazer os alongamentos necessários, mesmo que ainda não tivesse recebido instrução nenhuma. Tinha feito os passos em casa novamente, acompanhado de Jimin e percebeu que seu corpo se lembrava o que devia ser feito. Só precisava de um empurrãozinho. Tentava se concentrar, mas sentia um leve incômodo com os olhos grandes do mais novo cravados em si.

   – Você ta melhor? – O moreno questionou do nada, assustando o mais velho que o olhou confuso – No outro dia você não parecia bem e eu tenho quase certeza que machucou feio a boca. – Ditou atento a cada mínimo movimento do avermelhado.

   – Não era um bom dia. – Respondeu escorregadio, mas percebeu que só isso não satisfaria o mais novo - Não tinha nada a ver com você, não se preocupe e eu não me machuquei feio. Foi só um corte na língua. Doeu um pouco no começo, mas não foi nada grave. – Explicou vendo o outro assentir, este que estava agachado na sua frente abaixou a cabeça.

   – Eu sou novo, mas ainda sou seu professor. Tem que me falar se algo estiver errado e me deixar fazer o que eu sou pago pra fazer. Isso incluí ajudar quando vocês se machucam, mesmo que não seja grave. – Ditou parecendo quase grosseiro pela forma dura que falou, mas Taehyung era muito bom em ler as pessoas.

   Jungkook não estava bravo com o avermelhado e sim consigo mesmo. De alguma forma soube que o mais novo não se sentia suficiente, apesar de ser, claramente, um ótimo profissional. Talvez fosse apenas um traço de sua personalidade, não completamente ruim, mas também não era bom. Era ótimo porque o mais novo sempre tentaria aprender coisas novas, mas sabia o quão ruim era se sentir insuficiente. Não gostava de ver alguém se sentindo assim. Talvez Jimin o tivesse traumatizado um pouco. Quando conheceu o amigo ele se sentia péssimo em absolutamente tudo. Então desde o primeiro dia tudo que Taehyung fez foi tentar fazê-lo perceber que era incrivelmente bom no que fazia. O Park não era um poço de confiança hoje em dia, mas ao menos sempre confiava no amigo para contar quando não se sentia bem com algo. Fosse na dança, no canto, com a própria aparência ou até mesmo no namoro.

   Cutucou o tornozelo do garoto, que agora se encontrava em pé, chamando sua atenção. Fez um sinal com a mão pedindo para que ele se abaixasse. Este assim o fez, ficando bem próximo do mais velho.

   – Eu não estava me sentindo bem comigo e queria ficar sozinho. Realmente não tinha absolutamente nada a ver com você. Eu só precisava de um tempo, sinto muito se fiz você se sentir mal como profissional. – Falou com os olhos cravados nos seus semelhantes, queria que o mais novo acreditasse em suas palavras.

   O moreno parecia levemente constrangido em estar com olhos conectados aos de outro alguém, apesar de não ter desviado nem por um segundo. As palavras surtiram efeito no mesmo, fazendo ele se sentir um pouco melhor. Mesmo que não fossem grande coisa, a sinceridade quase desmedida do homem a sua frente causou uma pequena, quase mínima, ruptura da sua bolha de isolamento.

   A aula se seguiu sem grandes problemas. Tirando, claro, que em dado momento Taehyung acabou acertando a cara de Jungkook com o cotovelo. O mais novo estava abaixado amarrando o cadarço, o avermelhado se virou para tirar uma dúvida e acabou acertando o rosto do mesmo. Por sorte pegou na testa e não no olho ou no nariz. O avermelhado se sentiu envergonhado e culpado, mas o clima de preocupação se tornou leve quando o garoto a sua frente começou a rir do ocorrido. Ambos se sentiam um pouco mais à vontade um com o outro fazendo o Kim ter certeza de que tinha tomado a decisão certa. Foi muito melhor ter enfrentado do que teria sido ter fugido. Foi como arrancar um band-aid velho durante o banho, parece que vai doer horrores quando você vai puxar, mas no fim nem dói tanto assim.

•–•

   Ao fim da aula Taehyung se sentia tão podre quanto no primeiro dia. Não tinha a terrível sensação de humilhação, mas sua garganta estava seca, seu pulmão queimava, sentia seus músculos tesos e, por mais irônico que fosse, as pernas moles. Se arrastou até o banquinho que tinha na entrada da sala completamente alheio a tudo. Nem se lembrou de sua bolsa ou sequer de dar tchau ao instrutor, só queria descansar um pouco. Fechou os olhos e apoiou a cabeça na parede tentando acalmar a respiração descompassada. Ouviu a porta automática se abrindo ao seu lado e sentiu alguém lhe observando. Quando abriu os olhos deu de cara com uma Momo descabelada e ofegante, essa se abaixou até estar com o rosto próximo ao seu parar sussurrar.

   – Eu a chamei pra jantar e ela aceitou! – Sussurrou um pouco alto demais sem conseguir conter a empolgação, abraçou o corpo quase desfalecido do mais alto.

   Nem sabia o porque de estar contando isso ao avermelhado, mas se sentia agradecida e pensava que ele gostaria de saber.

   – Aí que nojo Momo, eu estou pingando suor. – Comentou com uma careta.

   A garota o largou sem realmente parecer incomodada com seu suor, estava empolgada demais pra isso. A loira se abaixou ficando de cócoras na frente de mais velho, esperando que este se recuperasse um pouco para poder falar consigo. Taehyung ajeitou a postura respirando fundo, estava feliz pela garota, mas não conseguia se expressar direito por estar cansado demais.

   – Você falou que já saiu com ela outras vezes, não era natural que ela aceitasse? – Não queria desmotiva-la, mas também não gostava de ver ninguém se iludindo.

  – Eu nunca a chamei pra jantar. Só um lanche aqui outro ali, logo depois da aula. Nunca realmente marque algo com antecedência num lugar legal. Eu acho que vou falar como eu me sinto nesse jantar. Eu sei que por enquanto é só uma paixão platônica e um sim pra um encontro, mas já é um começo né? – Questionou esperançosa, tudo que queria era um incentivo.

   – É um ótimo começo. Só tente não ficar nervosa, pilhada ou com expectativas altas demais, ok? Eu cometi esse erro da última vez que quis sair com alguém. Fiquei tão nervoso que tive que sair pra cagar no meio do encontro, demorei tanto que ele achou que eu tinha fugido e foi embora. Foi horrível. – Aconselhou vendo a garota segurar o riso.

   A mais baixa ainda conversou um pouco consigo antes de proferir um “obrigada oppa” pouco antes de sair do prédio, claramente animada com o encontro. Mesmo que ele só fosse acontecer em alguns dias.

   Taehyung voltou a fechar os olhos assim que a garota o deixou, estava quase bem de novo, apesar de ainda sentir a garganta seca. Sabia que ainda tinha água na garrafa e um bebedouro do lado de fora, mas estava com muita preguiça de se mexer. Pouco tempo depois sentiu uma coisa gelada tocar seu ombro. Era Jungkook com uma garrafinha de água.

   – Não sabia que conhecia a Momo. – Comentou enquanto se sentava ao seu lado, bebendo de outra garrafa.

   – Não conhecia. Conversei com ela no primeiro dia, acho que ela gostou de mim ou sei lá. Ela é legal, mas parecia meio sozinha.

   – Ela é bem fechada, é simpática, mas nunca conversa de verdade com alguém.

   – Parece com você. – Concluiu sem pensar, recebendo um olhar de estranheza do mais novo – Você não conversa muito e se o faz é bem superficialmente. Ao menos em conversas triviais pelo que eu pude perceber. Em compensação quando é um assunto que você gosta ou entende você fica mais solto, fala com mais liberdade.

   – E isso é ruim?

   – Nem bom nem ruim eu diria, só é quem você é. Eu sou o louco dos amigos, não posso ficar meio segundo num lugar que já faço amizade com todo mundo. Isso não me torna melhor ou pior, mais ou menos verdadeiro que você. São só como as personalidades se formam. Se cada um não tivesse seu jeitinho próprio o mundo não teria tanta graça.

   Explicou apreciando o silêncio confortável que se instalou na sala praticamente vazia.

   – Você não acha que eu deveria ser mais sociável? Digo, por causa do meu emprego. – Perguntou baixinho.

   – Não. Eu por exemplo, falo pelos cotovelos com todo mundo, mas meu trabalho só exige que eu saiba criar. Não precisaria realmente de tato social. Meu chefe, que é quem tem que lidar com empresários e interessados, é uma pedra. É áspero na hora de falar. As pessoas sempre pensam que ele está sendo grosso, apesar de não estar, isso não torna ele pior no trabalho. Tudo que importa é ser um bom profissional e isso você é. Não deveria se importar com essas pequenas coisas.

   Novamente o silêncio se instalou entre os dois e assim permaneceu até o avermelhado olhar para o relógio e perceber que tinha que ir. Se despediu do mais novo e foi para casa.


•–•

   As semanas, que aos poucos se transformavam em vários meses, se passaram de forma confortável. Com o corpo de Taehyung aos poucos se adaptando às novas atividades, mas não deixando de colocá-lo em situações constrangedoras. Podia contar nos dedos as vezes que foi a academia e nenhum acidente aconteceu. Jungkook era mesmo um anjo, se fosse outra pessoa já teria se recusado a dar aulas ao mais velho. Taehyung já tinha feito de tudo na academia, dado na cara na parte de vidro da sala, virado o pé, deitou em posição fetal por sei lá quanto tempo quando o instrutor pegou um pouco pesado nos alongamentos, colocou uma playlist pop no seu celular quando foi andar na esteira, esqueceu que estava em público e começou a cantar loucamente enquanto mexia os braços de forma ridícula, quase derrubou um peso nos próprios pés, soltou um pum no meio de um exercício de levantamento de peso, pisou no pé do instrutor, até mesmo já o chutou, deixou a esteira rápida demais e começou a gritar desesperado para que alguém ajustasse a velocidade pra si. Se quisesse poderia facilmente escrever um livro só com seus desastres.

   Hoseok tinha voltado pra casa apenas umas poucas semanas depois ter entrado na academia e o avermelhado podia ver que, por mais inusitado que fosse, a tal relação a três dos amigos funcionava muito bem. Agora era até difícil imaginá-los separados. Era quase como se nunca tivesse existido outra realidade. Com o passar do tempo o instrutor e o aluno se tornaram grandes amigos. O mais novo se sentia inexplicavelmente confortável perto do mais velho, a amizade foi repentina e inevitável. Momo estava saindo com a garota da aula de Yoga e tinha se tornado uma amiga próxima de Taehyung. Ela estava visivelmente mais feliz, não parecia mais tão solitária quanto antes, apesar de ainda ser blindada com a maioria das pessoas.

   – Eu busco um balde pra você ou água pra ele? – A loira proferiu, tentando imitar o tom grave do amigo enquanto sustentava um sorriso divertido.

   Definitivamente ela era fofa. Um demônio, porém.

   – Eu não estou babando. – Proferiu ainda sem desviar o olhar do garoto forte que agora fazia uma sequência de levantamento de peso com as pernas – Só observando.

   – Observação com ênfase nas coxas grossas e suadas do boy. – Momo corrigiu achando graça.

   A garota não tinha percebido de primeira, mas desde o momento em que parou para prestar atenção no novo amigo e em seu instrutor reparou numa certa tensão. Outro dia quando saiu com Taehyung e o casal poligâmico, comentou sobre o assunto com Jimin e o baixinho concordou com a garota. Nunca tinha visto Jungkook ao vivo, mas via o amigo trocando mensagens com o mesmo e o brilho que seu olhar adquiria quando falava com ou do o mais novo.

   Os dois não estavam evitando nada, apenas ainda não tinham se dado conta que estavam se envolvendo muito mais do que como amigos. Os sentimentos estavam ali, loucos para serem sentidos em todo sua magnitude, mas nenhum deles haviam, de fato, os percebido. Momo implicava com ambos, sempre falando o quanto o amigo era bonito e desejado para Jungkook. Não para causar um possível ciúme ou coisa do tipo, mas sim para instigar a curiosidade do mais novo e fazer uma propaganda. Já quando estava com Taehyung, soltava milhares de indiretas bem diretas para ver se o avermelhado se mexia.

   A verdade é que nem ela, nem Jimin estavam muito pacientes. Estavam loucos pra ver o amigo namorando. Talvez não estivessem tão empolgados se fosse outra pessoa, mas a química entre eles era inegável. E, pelo santo senhor das necas flutuantes, eles ficavam tão lindos juntos! Hirai, que nunca fora uma pessoa muito romântica, concordava quando Jimin dizia que o tal Jungkook só podia ser a alma gêmea de Taehyung.

   – Momo! – Repreendeu num quase grito – Eu não posso respirar perto do garoto que você já fala que eu to secando ele!

   – Primeiro que você nem precisa estar perto dele pra quase arrancar toda água do corpo do garoto meu amor. Segundo que não é minha culpa se você baba mesmo! Ficou lá me falando que eu não devia ter medo de levar as coisas pra frente com a Mina e agora ta aí negando o que sente. Ta na cara querido, só resta aceitar.

   – Desde quando você e o Jimin resolveram virar meus cupidos?

   – Desde que tu encontraste teu soulmate. Não é nossa culpa que vocês são muito lindos juntos, mas muito burros pra meterem a língua um na goela do outro. – Ditou raivosa dando um tapa na nuca do mais alto.

   Taehyung apenas ignorou as palavras da mais nova, empurrou-a para as escadas, falando que ela devia ir logo pra aula e entrou na própria sala entregando uma garrafa de água para Jungkook e sentando ao seu lado. O coitado estava largado todo torto num colchonete, com as costas apoiadas na parede, completamente exausto.

   – Não devia pegar tão pesado. - Murmurou preocupado acarinhando a orelha do mais novo, brincando um pouco com seus brincos.

   – Eu não pego, só me empolguei um pouco hoje. – Falou antes de gemer desgostoso ao ajeitar a postura - O que você fez pra deixar a Momo tão irritada?

   – Como consegue se exercitar e ainda ver o que eu to fazendo? – Perguntou verdadeiramente surpreso.

   – Sou multitarefas gato. – Falou forjando um tom sedutor enquanto piscava para o mais velho.

   – Ok senhor multitarefas. Não fiz nada. – Respondeu recebendo um “ah ta” nada convencido como resposta. Suspirou parando de fazer carinho no mais novo – Ela e o Jimin insistem que a gente devia sair. – Contou de uma vez, sem olhar diretamente nos olhos do mais novo.

   – Mas a gente sai. – O moreno de olhos escuros e ingênuos respondeu.

   – Como namorados Kookie. – Taehyung explicou voltando a fazer carinho na orelha do Jeon.

   Nenhum dos dois falou mais nada sobre o assunto. Ficaram em silêncio por um tempo. Taehyung fazendo carinho em Jungkook e o mesmo descansando. Quando o mais novo se recuperou completamente eles começaram o treino do avermelhado.

   O garoto de pele amorenada estaria mentindo caso negasse que a conversa curta o afetou de alguma forma. Nunca tinha ligado para o assunto, mas também nunca tinha discutido o assunto com Jungkook. Falar com o garoto mexeu consigo. Parecia que só de contar o que os amigos pensavam tinha tornado tudo aquilo uma possibilidade real. Era assustador, mas não era ruim.

   Ao fim do treino ambos tomaram banho no vestiário e foram se sentar no banquinho atrás do prédio. Tinham adquirido o hábito há um certo tempo. Não gostavam de ficar aonde todos poderiam os ouvir conversar, mesmo que não falassem nada demais. No final de todo o treino pegavam suas coisas, iam para parte de trás do prédio. Na verdade, o local era só para funcionários, mas Jungkook tinha dado esse privilégio à Taehyung. Se sentavam e conversavam por um tempo até o mais velho ter que ir pra casa.

   Hoje os dois estavam especialmente silenciosos. Geralmente era só sentarem a bunda no banco para começarem um falatório sem tamanho sobre absolutamente qualquer coisa. Parecia que tudo era o assunto mais interessante do mundo, mas hoje estavam em silêncio. Seus corações berravam desesperados, querendo serem ouvidos pela primeira vez, suas mentes embaçadas, tentando pensar em tudo sem, de fato, pensarem em algo.

   – O que você acha? – O moreno perguntou, a voz fraca pelo tempo sem uso.

   – Sobre? – Ambos conversavam olhando para um ponto qualquer da parede do prédio ao lado, mas pareciam tão perdidos como quem olha para um belo horizonte.

   – Garotos que gostam de garotos.

   – Eu já te contei do Jimin e da Momo, o que acha que eu acho?

   – Normal.

   Ambos falavam baixo, não que tivesse a necessidade de falarem alto para serem ouvidos. Não havia muito barulho por ali. Taehyung brincava com um hot pack em suas mãos e Jungkook estalava os dedos dentro dos bolsos do casaco quentinho, habito de quando estava nervoso.

   – E sobre eu gostar de você? – Dessa vez fora o mais velho quem quebrara o silêncio.

   – Você gosta?

   – Sinceramente? Eu não sei, parece que sim, mas parece que não. Não sei. Eu acho que nunca tinha parado pra pensar. É confortável ser seu amigo. – Falou deixando as reticências no ar.

   – Mas ao mesmo tempo falta alguma coisa? – Jungkook perguntou e o mais velho assentiu. O moreno nem precisou olhá-lo pra saber que tinha razão.

   – Você sente vontade de me beijar? – O moreno perguntou, as bochechas vermelhas e o coração dando um solavanco contra o peito.

   – O tempo todo. – Respondeu, olhando para o dono dos orbes negros dessa vez.

   Jungkook tentou segurar o sorriso que teimava em aparecer em seu rosto, mas foi impossível. Taehyung não sorria, perdido demais na boca pequena e cheinha do mais novo. Quando o moreno finalmente se virou para o avermelhado acabou tão perdido quanto o mesmo. Parecia que toda a vontade cegamente reprimida de ambos estava vindo à tona com toda força agora.

   – E porque nunca beijou? – Perguntou ainda mais baixo.

   – Eu não sei. – Sussurrou completamente hipnotizado pelos lábios do moreno.

   Taehyung prendeu seus olhos nos do outro e com movimentos lentos, completamente contrastantes com a agonia que sentia por dentro, puxou o mais novo para um beijo. Segurava o rosto bochechudo com as mãos grandes, os dedos gordinhos do mais novo fazendo carinho em seus pulsos enquanto roçavam os lábios. Em algum momento ambos começaram a sorrir como dois bobos. As bocas se juntaram numa sincronia e encaixe perfeitos. A temperatura estava baixa, mas ambos estavam aquecidos como se estivessem embaixo do agradável sol da primavera.

   Nenhum dos dois saberia estimar quanto tempo passaram ali, juntinhos se beijando como se nunca mais o fossem fazer. Era a primeira vez que se beijavam, mas parecia que já tinham o feito por uma vida inteira. Parecia que sabiam cada detalhe, como mover o rosto, os lábios, a língua, as mãos, tudo. Parecia que cada mínimo toque havia sido minimamente calculado e ensaiado para aquele momento.

   Em um dado momento Taehyung foi parar no colo de Jungkook, não estavam afoitos nem nada, mas estava ficando desconfortável beijar na outra posição. Taehyung ora mexia nos cabelos sedosos do mais novo ora escorregava os dedos pela pele macia do pescoço do outro. Jungkook escorregava as mãos pelo quadril e cintura do garoto de pele morena. Os dois sorriam, riam e se beijavam. Nem acreditavam que se enganaram por tanto tempo, mas não estavam realmente tristes por isso. Se tivessem apressado as coisas nunca teriam construído a amizade que construíram e talvez esses beijos não tivessem a mesma mágica.

   – Eu vou diminuir todos os seus exercícios – O mais novo murmurou em um dado momento. A boca ainda extremamente próxima a sua semelhante e suas mãos perdidas na silhueta fina.

   O avermelhado se afastou levemente do outro, demonstrando toda sua confusão, por assunto tão aleatório para o momento ter vindo à tona, através de suas expressões.

   – É que a sua barriga é muito gostosa. – Murmurou parando, pela primeira vez, para observar os, agora quase inexistentes, pneus do garoto acima.

   Tinha parado suas mãos perto do quadril do outro, deixando seus braços apoiados nas coxas grossas. Ambos os dedões faziam um carinho leve por ali, só querendo sentir o calor e a textura da pele morena.

   – Jimin falou que ia me entupir de hambúrgueres ontem. – Comentou divertido.

   Todo mundo tinha o apoiado em sua decisão, pois sabiam que era sua saúde que estava sendo discutida, mas todo mundo sentia falta das gordurinhas do garoto. Para ser bem sincero, até o próprio sentia. Por mais idiota que fosse, gostava de ficar na frente do espelho brincando com cada dobrinha, formando “boquinhas” cada uma com uma voz diferente.

   Taehyung já tinha o rosto do dono de olhos jabuticaba nas mãos, prestes a voltar ao que faziam antes quando ambos ouviram o som de um celular tirando fotos ao seu lado. Olharam assustados encontrando Momo completamente frustrada com o próprio aparelho. Quando percebeu que era observada, sorriu amarelado, sem se sentir verdadeiramente constrangida. Apenas chateada por ter perdido a foto perfeita.

   – A gente precisa pedir uma explicação? – Taehyung perguntou, a canhota brincando com os brincos da orelha do menino abaixo de si.

   – Me respeita garoto! Eu que quero uma explicação! Há quanto tempo vocês tão fazendo eu e o Jimin de trouxa? Acham o que? Que podem começar a namorar e deixar seus amigos de fora? Você jurou pro Namjoon Jeon! Você falou pra ele que não tinha nada com ninguém! – Exclamou quase histérica.

   É um fato que, se realmente tivessem escondendo algo dos amigos, ela seria uma das mais magoadas. Considerando que a loirinha confiou suas maiores inseguranças ao avermelhado.

   – Isso explica o interrogatório aleatório dele. – O mais novo murmurou, os olhos vidrados nos próprios dedos fazendo pequenos círculos nas coxas amorenadas.

   – Taetae eu não acredito que você fingiu demência todo esse tempo! – A japonesa acusou querendo bater nos garotos. O faria se eles não estivessem tão fofos grudadinhos daquele jeito.

   – Eu não fingi nada! – o avermelhado defendeu-se – É a primeira vez que a gente... Fica? – Concluiu incerto olhando para o Jeon.

   Este que apenas deu de ombros. Também não sabia ao certo o que diria. Era estranho dizer que estavam num rolo, mas era exatamente o que estava acontecendo.

   – Em todo caso, porque veio atrás da gente? – Taehyung questionou finalmente se levantando do colo do moreno, imediatamente sentindo falta do calor do outro.

   – Yoongi ligou pro Jimin pra ele te avisar que não era pra você ir trabalhar hoje. Eles estão dedetizando a empresa, ou algo assim. Jimin ta te ligando tem uma meia hora. Ele ficou preocupado porque você não tava atendendo e pediu se eu podia te procurar. Eu saí fui pra sala de vocês e só achei sua bolsa. Daí saí perguntando se alguém tinha te visto. O moço do Muay Thai disse que vocês sempre vinham aqui. – A loira explicou brevemente    - Achei que você pudesse ter passado mal ou sei lá, porque faz tipo uma hora que você sumiu, mas pelo visto eu tava bem errada. A não ser que você tenha se afogado depois de passar muito tempo babando pelo Jeon e ele tenha ficado todo esse tempo fazendo respiração boca a boca em ti. – Implicou achando graça da forma como ambos olhavam para todo canto menos pra ela.

   Ambos reviraram os olhos numa sincronia assustadora. Estavam constrangidos por terem sido pegos, mas não tinham o que negar ou como fugir então apenas agiriam como se estivessem completamente bem. Como se as bochechas coradas não denunciassem sua timidez.

   – Eu vou ligar pro Jiminie, ele deve estar preocupado. – Anunciou bagunçando os cabelos escuros do garoto sentado.

   – Eu tenho que limpar os equipamentos. – Disse o mais novo enquanto se levantava.

   Os três rumaram de volta para a sala repleta de equipamentos. Pouco antes de chegarem Momo se despediu dos dois, dizendo que tinha que ir dar suas aulas. Jungkook pegou o frasquinho de álcool e um pano enquanto Taehyung pegou sua bolsinha no canto da sala. Antes do mais velho sair ele se despediu do mais novo com um abraço. Por mais que a vontade de ambos fosse dar mais um beijo antes de se despedirem, sabiam que não parariam num selinho e não sabiam quanto tempo mais ficariam dispersos do mundo ao seu redor. O avermelhado se encaminhou até o carro, preferindo ligar de dentro deste. Não achava necessário ter plateia para sua conversa com o mais velho. Este que a essa altura já devia estar arrancando os próprios cabelos. Discou o número há muito decorado por si sendo atendido logo no primeiro toque.

   – Taetae? – Chamou afoito.

   – Oi Chim. – Cumprimentou com a voz baixa e mansa.

   – “Oi Chim” nada! Aonde estava? Eu quase morri de preocupação! – Disse enfurecido, com a voz embargada.

   Jimin sempre chorava quando ficava nervoso demais. O avermelhado sentiu-se mal de ter deixado o amigo tão preocupado, mesmo que não fosse culpa de ninguém. Só uma sucessão de coincidências.

   – Desculpa Jiminie. Eu saí pra conversar com o Guk e acabei esquecendo de pegar minhas coisas.

   – Ta, então nada aconteceu? Você tá bem?

   – To ótimo Minie. Aonde você tá?

   – No seu apartamento, achei que você pudesse estar no banho ou sei lá.

   Taehyung acabou rindo um pouco imaginando o amigo o procurando até embaixo da cama.

   – Fica aí. Eu já vou pra casa, aí a gente conversa melhor, pode ser?

   – Pode, mas vêm logo.

   – Quer alguma coisa? Um chá, um café, um bolo?

   – Quero uma torta. E é bom você trazer um pedaço bem grande pra eu não te bater! –    Exigiu e o maior quase pode visualizar a face retorcida em manha do amigo, o pensamento lhe fazendo sorrir.

   – Ok, uma super torta! Anotado! Logo logo eu chego. Te amo.

   – Também te amo seu maldito desnaturado. -Xingou desligando na sua cara.

   O de pele amorenada largou o celular e a bolsa no banco do passageiro, pôs a chave na ignição pronto para dar partida, mas antes que o fizesse ouviu breves batidinhas no vidro ao seu lado. Quando se virou se deparou com o rosto sorridente e de bochechas coradas do garoto que há pouco se despedira. Abaixou o vidro de imediato, não contendo o sorriso que queria escapar-lhe.

­   – Eu esqueci alguma coisa? – Questionou sem pensar em outro motivo para o menino bonito.

   O viu assentir de imediato, um sorriso travesso pintando seu rosto. O dono dos olhos de jabuticaba colocou-se parcialmente para dentro do carro colando seus lábios de forma rápida. Não foi um selinho nem um beijo longo. Apenas o suficiente para deixar ambos com sorrisos bobos no rosto. Encararam-se por um tempo, como se conversassem por olhares, e então, sem dizer uma palavra o garoto voltou para dentro da academia. E desse jeito, com um sorriso frouxo nos lábios e um bando de borboletas povoando seus estômagos os dois se dirigiram para suas tarefas do dia.


•–•


   – Cheguei! – Anunciou enquanto colocava a torta em cima da mesa da cozinha com cuidado e jogava sua bolsa do lado do doce.

   Caminhou pela cozinha pegando sua cafeteira em um dos armários aéreos a colocando na bancada, ao lado da pia.

   – Demorou – Reclamou o mais baixo pegando os pratinhos em outro armário aéreo e os talheres na gaveta abaixo da pia.

   – Não seja rabugento comigo. – Pediu num tom manhoso – Trouxe a sua torta preferida! – Contou tentando chantagear o rosado.

   – Não fez menos que o mínimo. – Murmurou se sentando a mesa.

   Jimin tirava a torta da embalagem, deixando algumas fatias já cortadas enquanto Taehyung pegava as capsulas de café fazendo um chá para si e um cappuccino para o outro.

   – Duvido que vá ficar bravo depois de eu te contar o que aconteceu hoje. – Instigou a curiosidade alheia se sentando a mesa.

   O dono de bochechas fartas olhou desconfiado para o avermelhado. Como se lhe desafiasse a impressioná-lo o suficiente para que se esquecesse da preocupação de horas atrás.

   – Eu beijei o Jungkook. – Soltou de uma vez vendo o amigo se engasgar com o pedaço de torta.

   – Beijou tipo beijado? Língua com língua e mão na bunda? – Perguntou eufórico, sua voz subindo alguns tons.

   – Mão na bunda? – Retrucou sem saber se achava graça ou ficava chocado com a cara de pau do amigo.

   – Sem mão na bunda? – Questionou murchando um pouco – Com você tendo essa bunda? Ele nem tentou? Tem certeza que você beijou direito? Já tem tanto tempo q deve estar enferrujado.

   – Por Odin Jimin! Nem todo mundo é como você e o Hoseok, sabia? A gente tava no trabalho dele. Mesmo que a gente quisesse como poderíamos fazer alguma coisa? Sem contar que foi a primeira vez que a gente foi além da amizade.

   – Meses nesse tesão reprimido pra só se beijarem. Chatos. – Reclamou com uma feição emburrada.

   – Achei que fosse ficar mais feliz.

   – Sabe quando eu vou ficar feliz? Quando esse menino estiver aqui. Nesse apartamento num jantar bem constrangedor comigo, o Hobi, o Yoongi e a Momo. Se ela quiser. Aí eu vou ficar bem feliz.

   Taehyung coçou a cabeça nervoso. Sabia que agora que tinham dado um passo a mais Jimin não tiraria da cabeça a ideia de conhecer Jungkook. Não tinha total segurança que o garoto ainda o ia querer como namorado se passasse por aquela situação, mas não negaria ao amigo o direito de conhecer o cara que estava gostando. E então em meio a assuntos aleatórios, conselhos desnecessários e piadas toscas os amigos devoraram toda a torta e beberam coisas quentinhas durante uma tarde especialmente gelada.


•–•


   Novamente Jungkook e Taehyung estavam nos fundos do prédio após a aula. Dessa vez, porém revezavam entre conversas, beijos e carinhos. Queriam aproveitar o tempo juntos antes que o mais velho tivesse que ir embora, este que pôs seu celular pra despertar como garantia que não perderia a hora por estar distraído demais.

   No momento estavam em pé. O avermelhado apoiado na parede, com as mãos dentro dos bolsos traseiros da calça do mais novo. Este abraçava o outro pelos ombros frequentemente fazendo carinho nos cabelos macios. Taehyung estava com o rosto escondido na curva do pescoço pálido, dando leves beijinhos ali, inalando o cheirinho suave dele.

   – Gukkie... – Chamou baixinho interrompendo o silêncio gostoso que se instalara entre os dois.

   – Hm?

   –  O Jimin quer te conhecer. – Contou simplista - Na verdade, os três querem, mas o Yoongi finge que não faz diferença se isso acontecer hoje ou daqui há 60 anos e o Hobi não é tão insistente. – Concluiu agora olhando pros olhos escuros do garoto.

   – Tipo um jantar de família? Tipo daqueles filmes americanos, em que os pais têm que aprovador o namorado da filha? – Perguntou deixando transparecer seu nervosismo pelo olhar.

   – Então quer dizer que a gente já namora? Quando foi que o pedido aconteceu mesmo? Não to me lembrando. – Zombou com uma faceta pensativa.

   Jungkook fechou a expressão apertando as bochechas do mais velho, fazendo com que um biquinho se formasse nos lábios bonitos.

   – É um ridículo mesmo! – Exclamou entredentes – Eu preocupado em causar uma boa impressão e você me zoando. Seu escroto. – Concluiu largando o rosto do outro de forma rude.

   Taehyung riu de forma incontida, abraçando o garoto emburrado, enchendo seu rosto de beijinhos enquanto exclamava o quão fofo o moreno era.

   – Não tem que ficar nervoso. Ele só quer saber quem ele vai socar caso algo dê errado. – Explicou displicente dando de ombros.

   – Realmente vai ser que nem aqueles filmes. – O mais novo murmurou ainda mais assustado, provocando risos no avermelhado.

   – Confia em mim, o Minie é um bolinho. Você teria que foder muito a minha vida pra ele tentar fazer alguma coisa contigo.

   – E os outros? – Perguntou apreensivo.

   – O Yoongi é provavelmente a pessoa mais racional que eu conheço. Eu duvido que ele erga a voz pra alguém, quem dirá a mão. E o Hoseok... Eu nunca vi o Hobi realmente bravo com alguma coisa. Já vi ele irritado e de mal humor, mas como ele fica quando tá a ponto de matar alguém é um mistério pra mim. Ele é muito fechado pra mostrar esse lado dele. – Explicou apreciando a expressão concentrada do outro ao tentar digerir cada informação.

   Sabia como Jungkook era tímido e como era difícil para si conhecer pessoas novas, ainda mais em âmbito pessoal. Não queria pressioná-lo, mas tinha quase certeza que ele se daria bem com todos, principalmente com Yoongi. Ambos eram muito parecidos em alguns aspectos.

   – Hey... – Chamou baixinho, querendo tirar o outro do transe em que entrara – Não tem mesmo com o que se preocupar. Eles não são carrascos e você é encantador. Eu tenho certeza que eles vão te adorar. – Proferiu baixinho a testa colada a do outro, ambos de olhos fechados.

   Sentiu o outro assentir antes de voltar a beijá-lo.


•–•


   O dia do tal jantar finalmente tinha chego. Não era tão simples conciliar a agenda de todos os amigos, mas o trabalho se tornava consideravelmente mais fácil quando todos cooperavam. Jimin estava eufórico. Incomodou os namorados e Taehyung a semana inteira. Não seria nada demais, comeriam num pub irlandês no centro e talvez depois fossem a casa do avermelhado beber, jogar conversa fora e ver alguns filmes, mas o Park tratava como se alguém estivesse se casando.

   Ninguém entendia tamanha empolgação, mas Jimin tinha seus motivos. Conhecia o amigo como a palma da mão. Já tinha visto vários rolos e paixonites, mas nunca o viu dessa forma. Era quase como se uma parte crucial de um complexo quebra cabeça finalmente tivesse sido montado. O rosado não saberia explicar a ninguém o que sentia quando via o outro trocando mensagens com o mais novo pelo celular, mas sabia que era bom. Quando olhava para o melhor amigo podia vê-lo não só mais feliz como muito mais completo. Estava deveras ansioso para finalmente ver cara a cara quem era o responsável por tanta alegria por trás dos sorrisos quadrados.

   O baixinho já estava pronto quase uma hora antes do encontro. Apressava os cônjuges como se eles estivessem horas atrasados, quando na verdade estavam muito adiantados. Uma situação tão inquieta quanto se repetia num outro apartamento da cidade. Jungkook já tinha trocado de roupa mil vezes e arrumado o cabelo de inúmeras formas, mas nada parecia bom o suficiente. Namjoon já tinha desistido de si e ido pra casa, visto que o amigo estava o ignorando completamente. O mais velho se sentia como parte da mobília, estava sendo tão inútil ali que o outro nem sequer lhe olhara para se despedir. O acinzentado não ficou realmente bravo, sabia o quão importante aquilo era para o mais novo. Só não queria ficar ali sendo tão importante quanto um cactos no vaso enquanto podia estar stalkeando o Instagram do seu crush nem tão secreto.

   Taehyung e Momo com certeza eram os mais tranquilos de toda a situação. A aloirada estava na casa do maior por ser a única que não conhecia o tal pub. Não queria se perder e chegar atrasada por isso então foi até a casa do amigo para ir com ele. Seus apartamentos não eram exatamente próximos, mas nada que um ônibus ou duas estações do metrô não dessem conta. A mais baixa aproveitava o tempo sobressalente para divagar o quanto a namorada era incrível, o quão certa ela estava sobre Taehyung e Jungkook, sobre como eles tinham sido trouxas e como eles deveriam se casar e adotar um cachorrinho pra chamar de filho. Taehyung só ria do jeito elétrico da outra, gostando de ter sua presença divertida para distrair-lhe até a hora do encontro.

   Hoseok e Yoongi quase não conseguiram segurar Jimin até a hora certa de saírem. Se dependesse do mais baixo eles já estariam no local há tempo, sem absolutamente nada pra fazer além de esperarem. Por sorte com um pouco de persuasão conseguiram se manter no apartamento por tempo o suficiente para chegarem no pub apenas uns cinco minutos mais cedo que o combinado. Taehyung e Momo chegaram pouco tempo depois, quase no mesmo segundo que Jungkook.

   Todos se sentaram numa grande mesa reservada do lado de fora. Jimin sentado no meio dos dois namorados com Jungkook na sua frente com Taehyung de um lado e Momo do outro. Quem visse o pequeno de expressão fechada e dura, nem diria que era o mesmo que estava quase saltitando há poucos minutos atrás. O rosado não queria exatamente intimidar o mais novo, mas simplesmente não conseguiu controlar o impulso de analisar cada mínimo detalhe do mesmo.

   O clima tenso criado pela encarada de Jimin se dissipou quando Yoongi foi distribuir os cardápios e, sem querer, acabou acertando o rosto do Hoseok. O grito e a imitação exagerada de um choro estridente do dançarino foram o suficiente para fazer todos na mesa rirem e começarem a conversar.

   Nenhum dos amigos percebeu quanto tempo já tinha se passado. Só se deram conta que deveriam ir embora quando viram os clientes indo embora e os funcionários responsáveis pela limpeza começarem a aparecer. Como previsto pelo avermelhado Jungkook se deu realmente bem com todos. Principalmente com Yoongi. Saíram do Pub se encostando em qualquer conveniência para conversarem mais um pouco. Jimin e Jungkook fazendo uma disputa velada de quem bebia mais, os outros bebendo muito pouco ou nada. Quando os dois beberrões começaram a passar da cota, tendo dificuldades até nas mais simples atividades todos concordaram que era hora de ir embora.

   O plano era cada um ir pra sua casa, com exceção dos 3 namorados, mas a corrida àquela hora era cara demais, o metro já estava fechado e Jungkook parecia incapaz de digitar a senha do próprio apartamento. Por isso Jimin, Hoseok e Yoongi foram em um carro, indo direto pra casa do mais velho e Jungkook, Taehyung e Momo foram em outro. Descobriram nesse dia que a garota morava há poucas ruas de distância do mais novo. A garota se ofereceu para ajudar a carregar Jungkook até dentro de casa, já que o garoto era pesado e o avermelhado parecia que ia quebrar cada vez que o mais novo se desequilibrava e precisava ser amparado.

   Depois que o dono de orbes negros estava devidamente largado no sofá Momo foi pra casa e Taehyung ficou por ali para cuidar do mais novo. O mais velho olhava para tudo de forma levemente perdida e completamente curiosa. O moreno já havia estado em sua casa algumas boas vezes, mas era a primeira vez que estava no apartamento deste.

   – Hyung... – Murmurou o dono da casa, tentando se ajeitar no sofá – Desculpa eu bebi demais.

   – Jiminie Hyung percebeu que você era competitivo e quis brincar contigo. Ta tudo bem, todo mundo se deixa levar de vez em quando. – O acalmou puxando o corpo mole para perto de si, o deixando usar suas coxas de travesseiro. – Você devia ir tomar um banho. – Aconselhou quando percebeu a sonolência do moreno.

   O mais novo apenas assentiu com a cabeça, não se movendo de imediato. Depois de alguns poucos minutos, esperando o mundo parar de rodar, o garoto levantou lentamente indo meio cambaleante para o banheiro. Dispensando a ajuda do mais velho quando este achou que o quase namorado não conseguiria se banhar sozinho.

   O avermelhado apenas se largou no sofá, passeando em suas redes sociais enquanto esperava o outro retornar. Retorno esse que demorou mais que o esperado. Taehyung tomou banho em seguida do mais novo, pegando qualquer roupa dele para usar de pijama. Exaustos demais para sequer verem alguma, dormiram até o início da tarde do mesmo dia. Jungkook todo encolhido numa posição estranha e Taehyung agarrado no outro. A cabeça em seu peito, os braços em volta da cintura esguia e as pernas emboladas em meio as semelhantes.

   Na tarde seguinte o primeiro a acordar fora Taehyung. Como sabia que o mais novo dormia que nem uma pedra, decidiu fuçar seu quarto em busca de algo constrangedor para zoar o mais novo mais tarde. Em dado momento o avermelhado se deparou com uma agenda preta comum, com o número 2 anotado bem grande na primeira página. Começou a folha-la de forma despretensiosa, mas quando parou para ler seu conteúdo ficou imediatamente interessado.

   A tal agenda era uma espécie de diário. Nele Jungkook contava partes do seu dia de forma rasa. Tinham também algumas divagações do mais novo, teorias malucar e frases de quando se sentia agoniado demais por coisas pequenas. O mais velho sabia estar invadindo a privacidade do mais novo, mas estava tão absorto em curiosidade que nem se atentou a esse fato. Passadas várias páginas Taehyung achou algo especialmente interessante.

12 de Outubro de 2017

Eu não consigo lembrar direito nome dele, sei que é Tae alguma coisa. Ele caiu na aula. Ele se machucou, eu nem consegui ajudar, ele foi embora muito rápido. Ele parecia legal, to com medo que ele não volte. Aquela garota zombou dele quando ele saiu.

Eu sei que ela é afim de mim, mas não consigo nem ser simpático com ela por causa desse jeito odioso de agir.”

   Aquela era a primeira de muitas. Os dias em que Taehyung ia pra academia eram notavelmente mais detalhados, até a letra do mais novo ficava mais bonita.

“17 de Outubro de 2017

Ele voltou! Eu nem acredito. Achei que ele não tivesse gostado de mim, mas acho que me enganei. Ele me deu uma cotovelada na cara. Doeu pra caralho, mas eu só consegui achar graça. Eu to rindo agora só de lembrar.”

“12 de Novembro de 2017

Ele quase caiu da esteira. Não tenho nem ideia do porque ele ter deixado ela tão rápida, mas foi engraçado o jeito que ele começou a berrar por ajuda como se tivesse sendo assassinado”

“26 de Novembro de 2017

O Taetae não veio hoje. Ele me mandou uma mensagem. Aconteceu alguma coisa na empresa, só que ele falou um monte de termos técnicos que eu nunca vi na vida. Não entendi nada, mas fingi ser inteligentão e que entendia plenamente qualquer que fosse o problema.”

“08 de Janeiro de 2018

Ele tropeçou na entrada. Não foi tipo uma topadinha, ele chutou com vontade o chão. Não sei como não caiu de cara. Só que ao invés de ficar puto, como eu provavelmente ficaria, ele começou a rir. Rir muito! Todo mundo que tava em volta riu também. É impossível não rir junto com ele.”

   Taehyung continuou lendo, dia após dia. Em algumas páginas tinham as fotos que o mais novo tirava de si, em outras a transcrição de suas mensagens. Algum trecho que Jungkook achou especialmente engraçado ou espirituoso. O garoto de pele morena simplesmente não conseguia parar de ler. Tudo era escrito da forma mais sincera possível, era quase como estar dentro da cabeça do mais novo.

“31 de Março de 2018

Eu fui na casa dele hoje. Absolutamente tudo tem o cheiro dele, acredita? É tudo tão organizadinho. Não vou deixar ele vir no meu apartamento nunca. Essa zona aqui. Não, não, não. Vamos deixar ele com a imagem que eu sou um menino limpinho e organizado.”

“20 de Junho de 2018

A gente transou. Puta merda a gente transou. CARALHO A GENTE TRANSOU! Caralho, caralho, caralho, caralho. Eu machuquei a boca dele. Porra Jeon Jungkook seu burro! Não foi um arranhão. Sangrou. Sangrou muito! Eu quis morrer de tanta vergonha!”

“24 de Junho de 2018

A gente saiu num encontro. Tipo encontro mesmo! Daqueles bem *desenho de um emoji de vômito* que a gente vê em filmes. Com direito a cinema, sorveteria e tudo. Ele se engasgou com uma pipoca e eu não consegui ajudar porque eu ri? Eu nem acredito que ele tava todo vermelho, morrendo por causa de uma pipoca e eu não conseguia parar de rir. O pior é que depois que ele desengasgou ao invés de ficar bravo ele começou a rir. Ainda mais alto que eu. Ainda bem que o filme já tinha acabado e a gente esperando os créditos passarem. Se não com certeza teriam expulsado a gente do cinema.”

“02 de Julho de 2018

Jungkook eu não acredito que você teve câimbra! Sinceramente qual a probabilidade de isso acontecer? Eu sou a pessoa mais azarada do mundo. O Taetae nunca mais vai querer transar comigo TT^TT vamos virar um casal sem sexo que se odeia.

Ai corpo, custa colaborar! Tu nunca tens câimbra! Justo nesse dia tu resolve dar a louca?! Me poupe, se poupe, nos poupe”

“18 de Julho de 2018

A gente brigou. Foi ridículo, sério. Eu surtei de ciúme sem motivo algum. Namjoon hyung vive dizendo que eu sou muito egoísta, mas eu não achei que fosse pra tanto. Ele não me bateu, mas eu senti vontade de me bater. Fiz ele ficar triste por nada. Jeon Jungkook te controla seu escroto, por favor.”

“19 de Julho de 2018

Ele apareceu lá na academia. Não era dia de aula, mas ele disse que queria conversar. Nem preciso dizer que meu cu piscou de desespero da frequência AM à FM, né? Ele pediu desculpa por fechar a porta na minha cara. Na real até eu teria fechado a porta na minha cara. Ele disse que tava magoado e queria mais tempo, mas que tava com saudade.

ELE

TAVA

COM

SAUDADE

Eu quase morri, a glicose foi lá em cima e o coração quase quebrou as costelas só pra sair do peito e ele mesmo encher essa coisa linda de beijinhos.

Eu pedi mil desculpas, fiquei todo choroso, pedi mais desculpas, depois agarrei ele e pedi mais desculpas. Talvez eu estivesse um pouco desesperado. Ou muito.

Eu to tão aliviado TT^TT Parece que o peso do mundo saiu das minhas costas.

Eu amo muito ele socorro”

“15 de Agosto de 2018

Eu oficialmente não sei como o Taehyung ainda quer algo comigo. EU MORDI O PAU DELE! Cara não é minha primeira vez, como é possível que eu tenha feito isso? Eu quero morrer. Enterrar minha cabeça na terra e nunca mais tirar. Eu NUNCA senti TANTA vergonha na minha vida todinha! Juro!

Alguém me mata porque não ta dando TT-TT”

   Taehyung lia cada página com atenção, nem se dando conta de quanto tempo havia passado e que ainda estava de pé, com as pernas doloridas e postura torta. Leu até chegar na última página escrita. Esta datando da noite anterior.

“03 de Setembro de 2018

Eu fiquei bêbado. Quer dizer, isso foi só final, mas eu fiquei. Tenho que trabalhar minha competitividade. Primeira vez que os amigos deles me veem e eu fico bêbado desse jeito. Yoongi hyung disse que o Taetae escreve boas música, disse que as últimas estavam ficando mais melosas. Ele até me mostrou um trechinho de uma em que ele ta trabalhando. Eu quase chorei.

Ainda bem que fiquei no quase. Imagina que ridículo do nada eu todo remelento e cagado de lágrimas sem uma explicação decente? A voz dele é tão linda! Ainda bem que eu nunca o ouvi cantando ao vivo, acho que ia pedir ele em casamento na hora se ouvisse.

Ou ia engolir ele inteiro por não saber lidar com toda aquela beleza e aquela voz grossa. É muito difícil estar com Kim Taehyung e não socar ele até a morte. Se eu conseguisse desenhar o rosto dele quando ele sorri logo depois de acordar, todo remelento e bagunçado, ia fazer todo o sentido. Mas é até bom que eu não consiga. É uma imagem que eu gosto de guardar só pra mim.”

   Taehyung fechou a agenda a largando no criado mudo. Não sabia quando tinha começado a chorar, mas foi impossível segurar. Não sabia nem explicar o que estava sentindo, mas ler todos os seus momentos pela visão do mais novo era incrível demais. Era como sentir amor em dobro. Sentir o seu amor pelo mais novo e mais o dele por si. Uma sensação estranha e inexplicável, mas que estava agradecido por sentir.

   O avermelhado se jogos em cima do corpo adormecido sem a menor delicadeza, o abraçando como podia e sussurrando mil vezes que o amava. Jungkook não entendeu nada quando acordou, mas nem queria. Ter o mais velho ali dizendo que o amava era a melhor coisa do mundo e esperava acordar desse jeitinho pra sempre. Não tão agitado ou eufórico, mas com a mesma paixão e carinho daquele momento. E Taehyung esperava que o mais novo continuasse escrevendo, leria cada palavra, dos dias bons aos ruins, só pra se sentir ainda mais completo e apaixonado pelo garoto bonito que lhe dava aulas na academia. 

3 de Julio de 2018 a las 23:13 1 Reporte Insertar 3
Fin

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Leticia Beatriz Leticia Beatriz
AÍ MEU CU QUE COISA LINDA! EU RI E ME APAIXONEI DEMAIS SERIAO MESMO! MEU PAU AMADO KKKK AMEI❤❤❤❤
10 de Junio de 2019 a las 09:17
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