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magicsvante Ari Lima

Desde muito jovem o maior anseio de Taehyung era estar sob os holofotes, com os flashes das câmeras disparando sobre ele, tendo seus ouvidos agraciados pelos constantes clicks, enquanto deslizaria seus pés com graciosidade sobre as passarelas espelhadas, seu rosto estamparia capas de revistas diversas, ao que sua beleza seria reconhecida e louvada pelos críticos. O Kim só não esperava que seu doce sonho ganhasse um sabor amargo em sua boca a medida que se transformava em um verdadeiro pesadelo, a cada vez que ouvia o click das câmeras disparando contra si e tinha sua privacidade e sanidade roubada pelas lentes de um stalker.


Fanfiction Bandas/Cantantes Sólo para mayores de 18.

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Eu estarei cuidando de você, anjo

Desde muito jovem meu maior anseio era estar sob os holofotes, com os flashes das câmeras disparando sobre mim, tendo meus ouvidos agraciados pelos constantes clicks enquanto deslizaria meus pés com graciosidade sobre as passarelas espelhadas. Meu rosto estamparia capas de revistas diversas, ao que minha beleza seria reconhecida e louvada pelos críticos.


Havia perdido as contas de quantas milhares de vezes sucumbi a devaneios, sonhei acordado com uma vida de puro glamour e fama. Eu cobicei as roupas de grife, as contas milionárias, os carros conversíveis, os flats luxuosos e tudo o mais que as matérias e artigos de revistas exibiam sobre vidas alheias. Deixei-me levar pelas miragens utópicas expressas nas fotos e imagens photoshopadas, iludi meu coração e mente com aquela idealização de uma vida perfeita. Fiz desse ideal minha meta de longo prazo até que este se fizesse palpável em minha realidade, acabando por me forçar a acordar daquele longo e doce sonho.


Como era de se esperar, o sonho não durou para sempre. E quando finalmente despertei para a realidade da vida nas passarelas, foi como acordar de um pesadelo, com a pele orvalhada pelo suor frio, os olhos arregalados, batimentos cardíacos a mil por hora e respiração ofegante. O terror noturno ainda se fazendo presente em meu subconsciente, os flashes dos monstros e demônios vivos demais em meu cotidiano para serem tão facilmente colocados de lado e esquecidos.


Eu estava onde sempre almejei estar, debilmente escondido nas sombras da passarela espelhada, vestindo um terno negro que deixava parte de meu peito à mostra, este que possuía bordados feitos em pedrarias azul marinho na lapela. A calça social de tecido semelhante vestia as minhas longas pernas e sapatos pretos lustrosos calçavam os meus pés, ao que uma gargantilha prata adornava meu pescoço, fazendo companhia ao longo e delicado brinco em minha orelha.


Assisti apreensivamente ao exato momento em que as luzes de LED azuis se esgueiraram pelas laterais das paredes de vidro, ao passo que a passarela reluziu o mesmo tom de azul, iluminando o ambiente e revelando parcialmente os rostos dos espectadores – que acomodados em seus lugares encaravam ansiosamente o fundo da passarela –, vendo os holofotes recaírem sobre o imponente símbolo de metal da Gucci logo atrás de mim.


Em milésimos de segundos uma chuva de clicks me banhou, assolando o local com suas gotas grossas, os flashes me amedrontaram tal como os relâmpagos cortando o céu intempestivo faziam, as lentes das câmeras me congelaram em seus cartões de memória assim como as correntes de ar frio transformam as gotas de água em granito, os olhos negros e famintos me mediam da cabeça aos pés, procurando constatar se eu era tão bom quanto costumavam dizer.


Aquele deveria ser o meu momento. Os curtos instantes sobre a passarela com a qual sempre sonhei em ser adorado. Naquela noite, foi me dado o privilégio de fazer a abertura do desfile de minha grife predileta, a Gucci. Deveria fazer jus a alcunha de "Gucci Boy" que continuamente carreguei com orgulho. Havia colocado tudo de mim e entregado minhas melhores expressões e ângulos às câmeras fotográficas. Havia aberto mão de minhas refeições a fim de seguir com as dietas rigorosas e até mesmo de minha personalidade para agradar aos fãs, que preferiam mil vezes comprar a figura de um rapaz tímido e modesto ao meu verdadeiro eu. Abdiquei de mais coisas do que poderia expor em palavras somente para caminhar sobre aquela passarela.


Entretanto, o sentimento de orgulho e satisfação com o qual havia delirado, em muito se distinguia do terror que tomou o meu ser ao correr meus olhos pelo salão de vidro azulado, procurando entre os rostos estranhos pelo desconhecido, temendo a negritude dos orbes alheios tanto quanto o som horroroso das câmeras disparando contra mim. O ambiente nocivo me acometia da sensação de sufocamento, levando o meu coração a palpitar no peito, o suor frio orvalhar a minha pele, a vertigem revirar o meu estômago à medida que os meus olhos nublados buscavam por socorro ao mesmo tempo em que senti minhas pernas falharem e meu corpo ceder perante o iminente desmaio.


“Você não pode escapar das minhas lentes, anjo.”


A voz fantasmagórica entoou em minha mente como um loop repetitivo, que conduziu o meu corpo desfalecido sobre o vidro frio a mais um sonho vestido de pesadelo, no qual tinha o meu ser congelado eternamente pelas lentes fotográficas que me nocautearam ao inconsciente do qual pensei que jamais poderia me libertar.


(...)


Quando meus olhos se abriram novamente – libertando-me da escuridão medonha de meu inconsciente –, fui acometido por uma irritação visual momentânea devido a excessiva claridade do ambiente em que me encontrei. O meu corpo levantou-se de súbito da cama confortável, estupefato e com a respiração pesada, ao que corri meus olhos pelo cômodo completamente branco, o cheiro de desinfetante tomou minhas narinas conforme buscava por oxigênio desesperadamente. Pude sentir um afago leve e carinhoso sobre minhas costas, suscitando-me a levantar meu olhar para o homem alto, de cabelos escuros, lábios carnudos vermelhos, olhar gentil e feições amáveis tão conhecido por mim. Ele me conferiu um olhar acolhedor, sussurrando que estava tudo bem repetidas vezes com um tom de voz plano e suave até que meus batimentos cardíacos se estabilizaram e minha respiração se acalmou.


— O desfile... Eu deveria estar na passarela agora — disse com a voz falha, buscando por uma resposta ou por uma explicação ao olhar com dúvida para Jin.


— O desfile foi interrompido, não havia mais clima para dar continuidade a ele depois que você... Bom, que você desmaiou sobre a passarela. Todos ficaram afoitos e agitados demais. Foi difícil te tirar do meio daquela multidão e trazê-lo para cá — explicou calmamente, tomando minha mão e afagando-a enquanto me olhava nos olhos. — Você realmente me deixou preocupado desta vez — revelou, sorrindo sem graça.


— Eu estraguei tudo mais uma vez, não é?


— É só uma fase ruim, Tae. Logo, logo você estará cem por cento novamente. — Procurou dissipar minhas preocupações. — O mais importante agora é cuidarmos de você, por isso irei chamar o médico — disse com um sorriso que repuxava seus olhos doces. — Não saia dessa cama até que eu volte, okay? — recomendou, ao que apenas acenei afirmativamente com a cabeça, recebendo um afago em meus cabelos acinzentados antes de ele deixar o quarto de hospital.


Não era a primeira vez que eu dava "defeito" em meu ambiente de trabalho, entretanto, dentre todas os recentes ataques de ansiedade que me afligiram ao ter de encarar uma câmera digital, nenhum se comparava ao que houve naquela passarela. Apesar de minhas condições emocionais e psicológicas continuamente esforcei-me para aparentar estar em perfeito estado. Mantive o profissionalismo e enfrentei minhas debilidades sem deixá-las serem conhecidas pelos demais.


— Com licença — pediu o rapaz de estatura baixa ao abrir a porta de meu leito, esgueirando sua cabeça de cabeleira cor de mel através da pequena abertura, ao que adentrou o local de fininho, sendo seguido pelo Kim mais velho. — Eu sou Park Jimin — apresentou-se, estendendo a sua mão para mim. O observei rapidamente, constatando através do crachá que o jovem rapaz era clínico geral.


— Kim Taehyung, mas isso você já deve saber — apresentei-me, apertando sua mão.


— Claro, quem não conhece o cara eleito o homem com o rosto mais bonito do mundo, não é mesmo? — disse com bom humor, sorrindo com seus olhos pequenos. — Até pediria um autógrafo, porém, temos assuntos mais urgentes para tratar agora, certo? — perguntou retoricamente, sustentando um sorriso simpático. — Você deu entrada no hospital após ter tido um desmaio inoportuno em meio ao desfile. Fizemos alguns exames de rotina quando você deu entrada no hospital e não fomos capazes de encontrar nenhuma anormalidade. A sua saúde física continua em perfeito estado, Sr. Kim. Por isso gostaria que você detalhasse exatamente o que sentiu antes de desmaiar para que pudéssemos fornecer-lhe um diagnóstico.


— Eu... As câmeras... Foram as câmeras — introduzi em meio a gaguejos, sentindo-me confuso sobre os acontecimentos. – Quando... Quando começaram a me fotografar os flashes, o barulho das câmeras disparando, os olhos dos espectadores... Tudo isso me deixou... Assustado? — expliquei com incerteza. — Eu não conseguia respirar direito e estava suando frio. Senti uma dor no peito e um mal estar no estômago... Eu não conseguia parar de pensar que qualquer um naquele lugar poderia ser ele, que qualquer uma daquelas câmeras poderia pertencer a ele. Não conseguia deixar de pensar que ele estava lá, me vigiando, como sempre faz. Então tudo ficou confuso, frenético, assustador, escuro e... E-eu apaguei. – expliquei, sentindo a vertigem se fazendo presente mais uma vez, ao que meus olhos marejaram.


— De quem você está falando? Quem é ele? — perguntou o doutor Park, intrigado.


— Eu... eu não sei. Eu não sei quem ele é… E é por isso que tenho tanto medo dele, porque ele pode ser qualquer um, estar em qualquer lugar. Você poderia ser ele, o meu segurança poderia ser ele, o meu empresário, o porteiro do prédio. Ele pode ser qualquer um — respondi, com pânico em minha voz, percebendo tardiamente que as lágrimas que se acumulavam na linha d'água dos meus olhos corriam livremente por minhas bochechas à medida que falava.


Percebendo minha situação, Jin convidou discretamente Jimin para que conversassem em um canto do quarto, distante o suficiente para que não conseguisse ouvir os sussurros que trocaram. Porém, mesmo sem ouvi-los, eu sabia o tema de sua conversa: Jin estava lhe contando sobre ele.


Alguns minutos depois ambos estavam de volta, em pé na beirada da cama, ao que o doutor Park me conferia um pesaroso olhar de pena. Eu odiava esse olhar.


— Consigo compreender melhor a situação agora — declarou, alternando seu olhar entre mim e Jin. — Ao que tudo indica você teve um ataque de pânico, provavelmente provocado pelo estresse constante ao qual você tem sido exposto ultimamente. Recomendo que você descanse um pouco, passe alguns dias longe das câmeras e tente colocar a cabeça no lugar. Caso o medo e os sintomas do pânico se mostrem persistentes, aconselho você a procurar por ajuda psicológica — instruiu-lhe com calma. — Psicologia não é a minha área de atuação por isso tudo que posso fazer por você agora é encaminhá-lo para um atendimento psicológico e receitar um calmante para ajudá-lo a descansar — informou, rabiscando algo no prontuário. — Bom, não vejo razões para mantê-lo aqui, por isso irei lhe dar alta. Mas não hesite em procurar ajuda profissional, pois com o acompanhamento psicoterapêutico certo, você poderá desfilar sem medo outra vez.


— Tudo bem, obrigado. — Assenti afirmativamente com a cabeça.


O médico me ofereceu um sorriso de lábios cerrados e acenou levemente para mim antes de sair do quarto, me deixando novamente a sós com Jin, que me olhava com um quê de preocupação e compaixão em seus olhos escuros.


Suspirei, cansado.


— Nós vamos dar um jeito nisso, confie em mim — assegurou, tentando me passar confiança conforme afagou novamente meus cabelos.


Procurei me agarrar as palavras tranquilizantes de Jin com todas as minhas forças. Trabalhávamos juntos há anos e o mais velho jamais me decepcionou, fosse como o amigo que ele havia se tornado, ou ao executar suas funções como meu agente, cuidando de meus interesses e de minha carreira. O moreno era o único disposto a me ouvir em meus momentos de insegurança e debilidade, enquanto simultaneamente gerenciava toda a parte burocrática existente por trás das fotos impressas nas capas das revistas e dos desfiles glamorosos dos quais participei.


Com algum auxílio oferecido pelo Kim mais velho, me coloquei de pé e tratei de trocar as roupas hospitalares por um conjunto confortável de moletom que Jin havia preparado previamente para mim, calcei sandálias que mais assemelhavam-se a pantufas, coloquei os óculos escuros em meu rosto e escondi meus fios prateados detrás de um boné branco a fim de enfrentar a horda de abutres que nos aguardava nas portas do hospital.


Não haviam muitas opções de fuga para mim. Os repórteres estavam por toda parte, espreitando nas saídas de emergência, no estacionamento e, claro, na entrada principal. Teria de enfrentá-los de uma forma ou de outra. Então, deixei que os quatro guarda-costas enormes e fortes forçassem a minha saída por entre a pequena multidão de jornalistas, ao passo que eu me escondia nos braços fortes de Jin – os quais me envolviam e me conduziam até o carro preto blindado que nos aguardava a alguns metros de distância. Logo a tempestade de clicks e flashes me atormentou, fazendo a vertigem e o pavor momentaneamente esquecidos me atacarem novamente. Busquei proteção no peito de Jin com afinco, agarrando-me a ele como se minha vida dependesse de seu abraço, contando os segundos para que pudesse me refugiar no automóvel e fugir das câmeras fotográficas.


Inspirei profundamente o ar, soltando-o em seguida, em completo alívio ao estar finalmente protegido dentro de um carro. A BMW acelerou para longe daquele lugar e das câmeras impertinentes que insistentemente me perseguiam. Permiti que as mãos gentis de Jin que afagavam os meus cabelos e os seus braços que me mantinham aninhado contra o seu peito me servissem de conforto durante todo o percurso até o meu apartamento. Estar com o Kim mais velho fazia com que me sentisse protegido, transmitia-me tranquilidade o suficiente para fechar os olhos e dormir sem ser atormentado por pesadelos.


Não demorou muito para que chegássemos ao nosso destino. Conseguimos passar com tranquilidade por outra horda de abutres que nos aguardavam em frente ao prédio, me livrando de ter que enfrentar mais uma chuva de flashes naquele dia. Sob a proteção dos guarda-costas logo pude encontrar-me no conforto e na segurança do meu lar, onde as lentes das câmeras e o estresse que a fama me trazia não podiam me alcançar, onde os olhos dele não podiam me vigiar, onde poderia respirar com tranquilidade e ser apenas Kim Taehyung, esquecendo-me do V ou do Gucci Boy pelos quais os fãs e a mídia clamavam do lado de fora.


Ambicionava mais do que nunca o conforto de meus lençóis e cama, queria esconder-me dentro do cômodo espaçoso e bem mobiliado que chamava de quarto, protegido de barulhos e ruídos externos pela proteção acústica, oculto dos olhos da mídia – e, mais importante, dos olhos dele – pelas grossas paredes e pelas cortinas black-out. Desejava que o ambiente silencioso e tranquilo, com cheirinho de lar, fosse o suficiente para acalmar meu espírito e permitir que meu corpo descansasse em paz. Queria ser capaz de ter uma noite de sono serena, livre de qualquer sonho ou pesadelo.


Contudo, logo me vi rolando sobre o colchão de um lado para o outro, transitando entre o consciente e o inconsciente, entre a realidade e as miragens do mundo dos sonhos, sem de fato adormecer. Sentia meus olhos e músculos reclamarem do cansaço físico e mental ao qual havia sido submetido, todavia, enquanto uma parte de mim tentava com todas as suas forças sucumbir ao inconsciente, outra teimava em manter-me acordado por temer os monstros que me esperavam ao fechar os olhos.


Era pouco mais de três da manhã quando aquela batalha finalmente chegou ao fim e (para a minha contentação) o sono e o cansaço resultaram vencedores. Nem mesmo meu celular vibrando constantemente em algum lugar de minha cama foi capaz de me manter acordado. A consciência do provável conteúdo das mensagens que estava recebendo conduziu-me a mais um dos corriqueiros pesadelos que assombravam minhas noites a cerca de um mês.


"Eu caminhava pelas ruas bem pavimentadas do centro de Seul. A cidade parecia um tanto quanto pós-apocalíptica visto que os outdoors não brilhavam chamando a atenção para as diversas lojas, restaurantes e boates, dentre outros estabelecimentos, que iluminavam e animavam o local como esperado. O barulho constante de conversas, trânsito de carros e pessoas, ruídos diversos e música se misturando em uma bagunça incompreensível não preenchia o ambiente como de costume. Os cidadãos apressados indo para lá e para cá presos em suas próprias rotinas e compromissos, não transitavam pelas vias e calçadas completamente alheios aos outros passantes como era de praxe. Estava tudo estranhamente deserto e mórbido. O exato oposto do que Gangnam se parecia em um sábado à noite.
No entanto, eu ousava quebrar o silêncio do ambiente a cada vez que meus pés entravam em atrito com as calçadas de concreto. Os meus passos eram desesperados e apressados, ressoando audivelmente pelo ambiente e lembrando-me de que precisava ser mais rápido, de que precisava correr, de que tinha que fugir do desconhecido.
Então, eu dei início a minha fuga, correndo com todas as minhas forças. Os meus pulmões reclamando do ar escasso, o coração palpitando em meu peito, o suor frio molhando o meu rosto ao passo que movia minha cabeça de um lado para o outro, buscando em meio a penumbra pelo meu perseguidor, assegurando-me de que já estava distante o suficiente.
Entretanto, tinha a impressão de que quanto mais eu me esforçava, quanto mais corria a fim de aumentar a distância entre nós, mais perto ficávamos um do outro, de tal forma que agora era capaz de ouvir não só o som de meus passos apressados como também dos passos alheios em meu encalço se misturando aos meus, fazendo a adrenalina e o medo correrem quentes em minhas veias, enviando um sinal de alerta para o meu peito disparado.
Corri com todas as minhas forças, porém, minhas pernas me traíram e os passos outrora largos e rápidos se tornaram cada vez mais curtos e vagarosos, enquanto o outro estava cada vez mais próximo, com seus passos tranquilos, escondido em seu sobretudo escuro, mantendo a cabeça baixa e o rosto oculto pela penumbra, não passando de uma silhueta em meio ao breu.
— Não vê que é inútil tentar fugir de mim, anjo? — questionou, sua voz rouca e fantasmagórica soando sarcástica. – Você não pode escapar de mim, anjo, sabe por quê? — inquiriu retórico, exprimindo satisfação ao ver-me encurralado. – Porque você é meu, somente meu, e não é do meu feitio deixar meus pertences fora de meu campo de visão, longe do alcance de meus braços — disse, me fazendo sentir seu hálito gélido próximo ao meu rosto.
Cada uma de minhas terminações nervosas se arrepiaram temerosas perante a sua proximidade, pude sentir o seu corpo logo atrás do meu, seus braços fortes me prendendo a si e me envolvendo em sua presença imponente, da qual, como o outro havia dito, eu não seria capaz de escapar."


— Taehyung! Taehyung! Acorda! – A voz de Jin me chamava em um tom estupefato à medida que chacoalhava meu corpo sobre a cama.


Levantei-me lentamente do colchão macio, estando novamente livre da prisão dos braços alheios, com os meus olhos arregalados, a respiração falha, o coração correndo no peito e o rosto suado. Passeei com os meus olhos pelo cômodo – agora claro – de paredes creme e móveis em tons de branco e nude, confirmando que sim, aquele era meu quarto e, sim, tudo não havia passado de um pesadelo. E ao encontrar Jin sentado logo ao meu lado sobre o colchão não hesitei em me atirar em seus braços, envolvendo seu pescoço com urgência e tendo minhas costas imediatamente afagadas.


— Ele... Ele havia me pêgo... Eu corri, mas ele... Ele me prendeu em seus braços e eu não conseguia sair – disse com a voz banhada de temor, sentindo as lágrimas molharem novamente meu rosto.


— Shhh... Está tudo bem agora, eu estou aqui com você, certo? — disse Jin, em seu tom doce e macio, me consolando com suas palavras e o calor acolhedor de seus braços.


O mais velho me deixou aconchegado a si até que conseguisse me recompor. Nem mesmo o gordo salário e a comissão que pagava a Jin todos os meses seria capaz de recompensá-lo por todo o carinho e apoio que ele me dava em minha vida privada. Havia me tornado semelhante a um filhote frágil e necessitado de proteção desde que todo esse inferno teve início de maneira que nem mesmo era capaz de sentir vergonha ao me refugiar no outro, pois Jin muitas vezes era a única coisa capaz de me acalmar em meio a tamanha turbulência. Havia aceitado minha própria fraqueza e aceitado que precisava ter alguém comigo.


— Eu sei que você está passando por um momento complicado. Que está emocionalmente e psicologicamente frágil e perturbado. Por isso eu tentei poupá-lo ao máximo, não te trazer mais preocupações que o necessário ou te dar falsas esperanças — disse Jin, me afastando de seus braços somente para me olhar nos olhos enquanto falava. — Mas agora eu preciso que você seja forte, Tae. Preciso que você colabore e que esteja ao meu lado para darmos um jeito nisso juntos, como sempre fizemos. — Enxugou as lágrimas que insistentemente molhavam o meu rosto, enquanto me dedica um sorriso doce de lábios cerrados. — Eu tomei a liberdade de procurar, sem o seu conhecimento, por ajuda. Não queria lhe contar nada desde que a própria polícia não nos deu resultados muito animadores, mas dessa vez estou realmente esperançoso e, bom, contratei os serviços de um detetive particular.


Encarei Jin em completa surpresa e confusão. O mais velho insistentemente repetia que faria algo por mim e daria um jeito em tudo aquilo, no entanto, não esperava ele de fato tivesse tomado alguma atitude.


— Você poderia ter me contado mais cedo. — O repreendi, mesmo tendo entendido suas razões, isso não significava que concordava com sua omissão.


— Tudo que queria era que você esquecesse um pouco de todos esses problemas e pudesse se concentrar no desfile, me desculpe — explicou-se mais uma vez.


— Muito obrigado por cuidar tão bem de mim, hyung — disse tranquilizador, sorrindo docemente para si e recebendo um sorriso largo seu em resposta. Há muito tempo não conseguia enxergar Jin apenas como meu agente, ele era muito mais do que isso para mim: era o irmão mais velho e mais gentil que nunca tive.


— Mas indo direto ao ponto, o detetive finalmente me deu um retorno. Ele avisou que já concluiu seus estudos do caso e me pediu para vê-lo pessoalmente. Está tudo bem para você ir até lá e falar sobre isso? — averiguou, sua preocupação transparecendo através de sua voz ao final.


— Não é como se pudesse me abster disso, certo? Afinal de contas é da minha vida que estamos – respondi resignado, recebendo um acenar de cabeça e um sorriso compreensivo do outro.


Ainda que falar de minha situação fosse uma tarefa difícil visto que meus sentimentos e emoções sempre afloravam à medida que as palavras escapavam de meus lábios, o temor e a vertigem fazendo-se presentes e levando-me ao desequilíbrio, não havia outra forma ou meio de contribuir com as investigações que não fosse me forçando a falar.


Assim, resignei-me a oferecer um sorriso tranquilizante para Jin, repetindo para mim mesmo que aquilo não podia ser tão difícil, enquanto preparava para encontrar-me com o tal detetive, fazendo minhas higienes matinais e tomando meu desjejum. O Kim mais velho me apressava constantemente, me alertando que não desejava se atrasar, repetindo sobre o quanto estava ansioso para ouvir a opinião do detetive.


Ouvi durante todo o percurso o moreno falar sobre o quanto o detetive que encontraríamos era bem requisitado, nomeando o homem desconhecido para mim de Kim Namjoon, ao passo que me contava sobre como os policiais e o próprio delegado o haviam recomendado para investigar o caso, os quais asseguravam que Namjoon era, com toda certeza, o detetive mais eficiente e brilhante de Seul. Apesar de ser um tanto quanto desajeitado e desinteressado — palavras dos policiais, não de Jin. E foram estes adjetivos que despertaram a minha curiosidade para conhecer Kim Namjoon, o detetive brilhante e desajeitado.


No entanto, à medida que nos dirigimos ao endereço de destino, afastamo-nos cada vez mais do centro de Seul, rumando para os bairros periféricos. Os diversos prédios e arranha-céus foram substituídos por casas comuns e pequenas lojas comerciais. Quando o motorista parou o carro em frente a uma casa de dois andares – de faixada desgastada e suja –, anunciando que havíamos chegado ao nosso destino, não hesitei em lançar um olhar incrédulo e desconfiado para Jin, que ignorou completamente minha reação, resignando-se a sair do veículo, me impelindo a acompanhá-lo após despachar o meu motorista particular.


O moreno se adiantou ao tocar a campainha, deixando subentendido que deveria me manter calado e apenas esperar ao me lançar um olhar reprovador. Contudo, nem mesmo Jin em toda a sua resiliência e perspicácia imaginou que o tal detetive nos deixaria uns bons quinze minutos plantados em frente a porta de madeira. O sol quente da tarde faz o suor brotar em minha testa e escorrer livremente por minha face enquanto escorava-me contra a parede suja, assistindo o meu agente tocar incessantemente a campainha.


— Porra! — amaldiçoou frustrado quando novamente não houve qualquer resposta de volta.


— Você tem certeza que é aqui mesmo? Digo, não tem como um detetive de verdade atender em um lugar assim... — questionei, gesticulando com as mãos a estrutura na nossa frente com um olhar e tom desdenhoso.


— Não há erro. Eu já estive aqui antes quando trouxe o material para ele e conversamos sobre o caso. Ele tem que estar aqui — retrucou, tocando a campainha novamente.


— Mas não está e eu estou cansado de esperar nesse calor horrendo, praticamente derretendo e tendo minha pele agredida. Você sabe o quanto minha pele é importante, não sabe? Ninguém teria considerado o meu rosto o mais bonito do mundo se eu tivesse manchas solares por toda parte e se....


E eu teria continuado meu discurso sobre o quanto minha pele é importante e sobre o quanto os raios solares fazem mal a cútis, não fosse pelo rangido produzido pela porta de madeira ao ser aberta ter chamado a minha atenção para o homem alto – de cabelos castanhos desgrenhados, face sonolenta inchada, vestido em um robe de seda, calças largas e camiseta regata –, surgir na porta, nos lançando um olhar de poucos amigos, pronto para nos xingar por termos claramente o acordado – mesmo que já passasse das duas horas da tarde.


— Até que enfim! — exclamou Jin, repreendendo o atraso alheio e forçando sua entrada pelo espaço entre o homem de pele bronzeada e o interior do lugar, como se fosse o dono da casa. — Planejava me deixar esperando por mais quanto tempo lá fora? — indagou irritado.


Estranhei a maneira íntima com a qual Jin tratou o tal detetive ao que entrei timidamente dentro do cômodo em seguida. Examinei o estado caótico do interior do local, que tinha roupas, embalagens de comida e louças sujas espalhadas por toda parte.


— Talvez se você tivesse me telefonado e avisado que viria não teria ficado esperando — rebateu o outro, com sua voz ainda rouca devido ao sono enquanto esfregava preguiçosamente seus olhos.


— E você acha que eu não tentei? — inquiriu acusador, erguendo uma de suas sobrancelhas. — Aliás, não foi você mesmo quem me pediu para vir aqui?


— Pedi?


Assisti Jin bufar irritado para o outro, enquanto Namjoon se serviu de café, agindo com uma tranquilidade ímpar. Indagava silenciosamente o que diabos levou Jin a contratar os serviços de um detetive tão meia-boca quanto aquele, levando em conta que a aparência dele, local de trabalho e as suas atitudes, não inspiravam em mim qualquer confiança ou credibilidade.


— Querem um pouco? — ofereceu, levantando a xícara de café sugestivamente para nós, ao passo que apenas meneei a cabeça negativamente, vendo Jin revirar os olhos para ele em resposta. Os olhos e a atenção alheia pareceram finalmente recair sobre mim após meu singelo ato de negação ao que disse:


— Ora, ora, então você é o famoso Kim Taehyung — cantarolou, avaliando-me com o seu olhar. — Agora entendo o porquê daquele maníaco tirar fotos suas, parece realmente desafiador tentar capturar a sua beleza com a lente de uma câmera quando nenhuma foto faz realmente jus a ela — falou com um tom que beirava o sedutor. — E acredite, eu tenho visto muitas fotos suas ultimamente. Seja quem for o maluco, ele é bom no que faz.


— Namjoon! — Jin exclamou como quem repreende uma criança por dizer coisas indevidas em frente aos convidados.


— Obrigado, eu acho — respondi, incerto se havia gostado ou não de como seu elogio soou aos meus ouvidos. Podia notar que Namjoon era um homem atraente mesmo que não estivesse em sua melhor forma, porém, não me sentia confortável com suas observações. Era estranho saber que aquele homem desgrenhado provavelmente havia aprendido mais sobre a minha vida e rotina desde que foi contratado do que eu lhe permiti que soubesse.


— Estou apenas sendo sincero, criança. Não é inteligente de nossa parte pensarmos nessa pessoa, seja ela quem for, apenas como um louco lunático. Até a mente mais torpe tem motivos compreensíveis para desenvolver uma obsessão nesse nível — explicou calmamente, bebericando o café em sua xícara.


— O que você quer dizer com isso? – indaguei, franzindo o cenho em confusão e genuíno interesse.


— Hmm... — balbuciou pensativo. — Venham comigo, irei mostrar a vocês algumas das conclusões que cheguei depois de analisar o caso e, talvez, isso seja capaz de responder a sua pergunta.


Com isso, Namjoon tomou a frente e nos induziu a segui-lo, atravessando a cozinha com sala americana em direção a uma porta de madeira pouco mais a frente no corredor. O cômodo escondido atrás daquela porta era tão bagunçado e desorganizado quanto o que nos acomodava outrora, porém, a bagunça consistia em elementos diferentes das meias e cup noodles anteriores, sendo estes papéis, pastas, livros e caixas que jaziam espalhados e acumulados por toda parte.


O detetive apressou-se a desocupar duas cadeiras para que eu e Jin pudéssemos sentar antes de colocar-se ao lado de um quadro. A lousa era sustentado por um tripé e tinha seu conteúdo escondido detrás de um lençol branco que foi prontamente removido pelo detetive, revelando um conjunto confuso de colagens distintas, desde textos a imagens, todos interligados por pontos e linhas de diferentes cores primárias. Reconheci o quadro dos diversos filmes policiais e de suspense que assisti ao longo da vida, os quais exibiam métodos semelhantes para elaborar um quadro investigativo dos crimes eventualmente desvendados ao longo do enredo.


— Você sabe o que é Erotomania, Taehyung? — inquiriu Namjoon, recostando-se em sua mesa enquanto olhava-me nos olhos a espera de uma resposta que consistiu somente em um menear negativo de cabeça, ao que o outro continuou: — Pois bem, a Erotomania consiste em um distúrbio psicológico em que os pacientes têm a convicção delirante de que uma pessoa de posição social elevada os ama — explicou de forma sucinta e objetiva. — Depois de estudar o suficiente as evidências que Seokjin me ofereceu, cheguei à conclusão de que o seu stalker tem grandes chances de ser um erotomaníaco.


— Os policiais estavam trabalhando com o perfil de um sociopata, então o que te faz pensar que esse não é o caso? — Jin questionou imediatamente.


— Essa também é uma possibilidade não descartável, porém a Erotomania se encaixa melhor ao caso — afirmou Namjoon em contrapartida. — Você lembra das cartas que pedi que me trouxesse? — Jin assentiu. — Então, li quantas pude – já que eram várias – e notei um remetente constante que se auto intitula “Rabbit”... — disse, rumando até sua mesa e recolhendo um punhado de envelopes vermelhos, entregando-os para mim e para Jin. — Como vocês podem ver, as cartas são datadas do início de 2017 – ano em que o Taehyung começou a ascender como modelo e ganhar fama – e continuaram a ser enviadas com um intervalo de uma semana desde então, porém, a mais ou menos um mês e meio, esse fã parou de enviar cartas.


— O mesmo período em que comecei a receber as mensagens... — acrescentei, pensativo.


— Exatamente — concordou Namjoon. — Mas o que realmente me fez acreditar que ambos são a mesma pessoa é a maneira como ele descreve e expressa seus sentimentos: o fascínio, a crença de que vocês mantêm um relacionamento em segredo, o constante apelido de “anjo”, a possessividade ao dizer que você o pertence e, por último, as fotos polaroids presentes nas últimas cartas.


À medida que Namjoon expunha suas constatações meus olhos corriam pelo conteúdo da primeira carta que me foi enviada, analisando-o com cuidado e percebendo as diversas evidências que o outro havia apontado.


“Sempre me considerei uma pessoa cética ao que, consequentemente, a crença na existência de seres divinos constantemente me pareceu infundada e irracional. No entanto, foi preciso apenas colocar meus olhos sobre você para que repensasse todas as minhas convicções, afinal, como poderia eu questionar a existência de seres celestiais quando tinha um logo à minha frente? Quando sua beleza angelical era tão inegável quanto arrebatadora?
Após muito pensar, cheguei à conclusão de que se anjos realmente existem eles se parecem exatamente como você: com seus olhos castanhos, fios loiros e sorriso em formato de coração. Acrescido da vantagem de sua existência servir particularmente a mim, sua presença tranquilizadora sendo capaz de melhorar meus dias e preencher meus pensamentos.
Talvez, tudo isso soe exagerado demais, porém, sinto-me transbordar em sentimentos e adoração por você, meu anjo.
Sou eternamente grato por ser capaz de congelar sua beleza através das lentes de uma câmera e ter meus dias salvos apenas por observá-lo e amá-lo à distância. Saiba que estarei sempre aqui por você, assim como você sempre está aqui por mim.
Com amor, Rabbit.”


— Eu respondi a esta carta — informei depois de terminar de lê-la. — Naquela época eu ainda tinha tempo para ler e responder as poucas cartas que recebia e, apesar de ter achado a coisa toda um pouco exagerada, lembro de ter me sentido bem... Um tanto quanto bobo ao terminar de ler — revelei, mostrando a referida carta para Namjoon. — Mas depois não pude mais responder as cartas, elas pareciam se multiplicar cada vez mais enquanto meu tempo livre se tornou menor.


— Imaginei que você o havia respondido pois algumas cartas depois, ele se mostra chateado com a sua falta de resposta — acrescentou Namjoon. — Veja a carta de dezembro de 2017.


Logo obedeci as coordenadas de Namjoon, procurando dentre as cartas um envelope com a data indicada.


“O seu silêncio tem me torturado a todo momento. Me pergunto o que você fez hoje, se você se alimentou corretamente ou sorriu do fundo de sua alma. Me pergunto se você ainda me ama e se nosso relacionamento será capaz de resistir a todos os seus compromissos.
Desde que conversamos e você explicou-me que não poderíamos assumir nosso relacionamento perante a mídia, eu o entendi, aceitei suas condições; e quando você me disse que eu deveria ser capaz de suportar a distância e sua agenda apertada, eu concordei e aceitei mais uma vez. Porém, acabei por concordar com condições com as quais não posso lidar de fato. Não sou capaz de manter-me longe de você. Não sou capaz de aceitar o seu silêncio. Não estou pronto para deixar nossa relação desfalecer, porque eu preciso de você, a todo momento.
E é por essas e outras infinitas razões que decidi quebrar o nosso acordo e estreitar a distância que existe entre nós. A partir de hoje, lembre-se, anjo, que estarei sempre por perto, ao seu lado, admirando sua beleza e a registrando como sei que você adora.
Com amor, Rabbit.”


— Esta foi a última carta que Rabbit enviou antes de você começar a receber todas aquelas mensagens e fotos que, pelo visto, foi o método que ele encontrou para “estreitar a distância entre vocês” — explicou Namjoon, após perceber que havia concluído minha leitura.


— Eu não sei o que pensar sobre isso... nunca havia lido essa carta antes e é tudo tão delirante quanto as mensagens que... Céus, me sinto sufocado! — disse estupefato, correndo meus dedos por meus fios acinzentados e os desgrenhando durante o processo.


— Mantenha a calma, Tae — pediu Jin com sua voz doce, afagando minhas costas em seguida. — Não vamos deixar as coisas subirem a cabeça, sim? — Assenti em concordância, voltando minha atenção para Namjoon novamente.


— Jin está certo, não se deixe afetar. — O detetive reforçou. — Continuando... — anunciou. — Algo que me chamou atenção, além da relação das cartas col as mensagens, foram as fotografias. O Rabbit acredita que você gosta de ser fotografado, então para ele lhe enviar fotos funciona como um presente, por isso ele está continua te fotografando.


— Ele é louco! — esbravejei, irritado. — Não há como alguém gostar de ser vigiado e fotografado vinte e quatro horas por dia, sem ter qualquer privacidade ou tranquilidade!


— Nós sabemos disso, Taehyung — interviu calmo. — Mas o ponto é: a qualidade das imagens que ele envia. Se você as analisar com cuidado, irá perceber que não são fotos tiradas por um amador qualquer, usando uma câmera qualquer. Por isso pedi que um amigo fotógrafo desse uma olhada nas fotos e ele me garantiu que apenas um profissional faria algo tão bom. Apontou até mesmo alguns detalhes, como o fato de as fotos possuírem um campo focal que faz sempre parecer que você é o centro de tudo, deixando o ambiente ao seu redor desinteressante e opaco se comparado a você. É como se ele estivesse dizendo que você é o centro do mundo dele, que é assim que ele enxerga tudo — explicou, parecendo fascinado com os aspectos psicológicos e a capacidade artística de meu perseguidor.


— E ao que toda essa porcaria de análise psicológica vai nos levar? Não é novidade para mim que ele é um louco maníaco do caralho! — esbravejei com revolta.


— Ao que isso vai nos levar? – indagou sorrindo presunçoso. — Antes tudo que sabíamos era que ele é um homem que se camufla em meio aos paparazzi para tirar fotos suas e, agora, somos capazes até mesmo de traçar um perfil para ele que poderá nos ajudar a identificá-lo.


— Explique melhor isso. — Jin pediu, estreitando seus olhos para o detetive e deixando um leve aperto em meu ombro, que tinha tanto o objetivo de me repreender quanto de me confortar.


— Rabbit é realmente discreto e esperto em sua forma de agir, mas ele é um ser humano e como todo ser humano ele comete erros. E o pior deles foi me deixar entrar em sua mente e procurar responder questões como: Porque Rabbit? Qual o significado por trás dessa alcunha? Teria sido um apelido que o marcou ou apenas uma alegoria ao modo ágil como os coelhos fogem de seus predadores? — explanou de forma eloquente. — E mais, se ele é um fotógrafo profissional, que tipo de câmeras ele usa? Qual distância ele precisa manter para conseguir tirar suas fotos? Ele trabalha para alguma empresa ou é um completo desocupado? — continuou fazendo suas indagações sem importar-se em respondê-las de fato. — E foi através dessas questões que elaborei esse esquema — anunciou, revelando uma lista bem organizada na extremidade do quadro.


“Caso: Rabbit
Erotomania: Delírio de que alguém de status superior nutre sentimentos pelo paciente (comparável a esquizofrenia).
Estágio 1: Paixão
— O paciente acredita que o objeto de sua obsessão se declarou para ele (de alguma forma) o que o faz se interessar e corresponder ao amor alheio, o cortejando, tentando seduzi-lo ao demonstrar seus sentimentos e etc.
Estágio 2: Rejeição
— Percepção do desinteresse do objeto de sua obsessão após repetidas rejeições.
Estágio 3: Rancor
— Exerce retaliação contra seu objeto de desejo ou contra terceiros.
*Erotomaníacos costumam ser reservados, inexpressivos socialmente. Muitos deles são privados de uma vida sexual ativa, a maioria ocupa cargos subalternos e são pouco atraentes. Tudo isso resulta em uma personalidade hipersensível e marcada por um alto grau de desconfiança e sentimento de superioridade.
Obs.: Todas as evidências apontam que Rabbit encontra-se no estágio 1.
Rabbit = Coelho
Pode ser tanto uma referência a sua própria aparência;
Um possível apelido que o marcou;
Uma alegoria à capacidade de fuga destes roedores.
Minimalismo – Taehyung como centro do seu mundo;
Profissional;
Possivelmente uma câmera com 300mm com dois zooms rápidos;
O tempo gasto em sua perseguição não o permitiria manter um emprego estável;
Método de ação: Procurar por fotógrafos que tenham estilo semelhante. ”


— Se você me der um voto de confiança para que possa levar as investigações adiante e me permitir coordenar o método de ação de seus seguranças, prometo livrá-lo de Rabbit antes que ele lhe faça algum mal. — Namjoon afirmou com confiança, os seus olhos estreitos fitaram-me com seriedade.


Analisei rapidamente aquele pequeno esquema que para alguns poderia significar muito pouco – desde que não dizia nada concreto acerca da identidade de meu stalker. No entanto, para mim, aquilo significava um grande avanço, fazendo até mesmo uma fagulha de esperança acender-se em meu peito.


Namjoon, à primeira vista, me parecia o exato oposto de alguém digno de confiança o que me fez cogitar, inúmeras vezes, deixar sua casa bagunçada e frustrar mais uma tentativa de Jin de me ajudar. Contudo, à medida que o ouvia, não pude ignorar sua perspicácia e seu esforço. Lembrava-me exatamente de como fui recebido pelos policiais em minha primeira tentativa de fazer uma denúncia, tendo de ouvir deles que tudo aquilo não passava de um fã apaixonado tentando demonstrar seus sentimentos e que apenas trocar de número solucionaria tudo. Foi preciso que retornasse inúmeras vezes a delegacia para que finalmente fosse levado a sério sem, no entanto, obter qualquer resultado além de desculpas esfarrapadas ao alegarem ser impossível distinguir um stalker com uma câmera dentre os diversos paparazzis em minha cola.


O detetive desleixado – com uma aura despreocupada e com todo o seu fascínio excêntrico pelo meu perseguidor –, me parecia de longe minha melhor e única opção. Sem nada mais a que me agarrar, restava-me apenas lhe conceder um voto de confiança.


— Faça tudo como bem entender, você tem minha confiança — respondi por fim, fitando seus olhos e assistindo um sorriso satisfeito surgir em seu rosto juntamente com covinhas adoráveis marcando suas bochechas.


Após receber o meu aval, Namjoon explicou-me animadamente como minha segurança seria feita daquele dia em diante: meus quatro guarda-costas continuariam auxiliando-me abertamente em momentos de necessidade, como fizeram para retirar-me do hospital, por exemplo. Porém, abriria mão de tê-los comigo o tempo inteiro, substituindo-os por outros quatro guarda-costas, estes que se disfarçariam em meio às pessoas, permaneceriam guardando-me a uma distância segura e semelhante a que o meu stalker precisava manter para obter suas fotos, fazendo o trabalho de proteger-me e procurar pelo outro simultaneamente.


A tática de Namjoon pareceu-me eficiente, pois não me deixaria completamente desprotegido e ainda assim não colocaria Rabbit em alerta. Desse modo, concordei prontamente consigo e deixei aquele local humilde e desorganizado me sentindo muito mais leve e relaxado do que algumas horas atrás. O sorriso enorme no rosto de Jin e as suas palavras de incentivo denunciavam que o outro sentia-se de forma semelhante, ao que não pude deixar de sentir-me ainda mais satisfeito por permitir que Jin me ajudasse.


Todavia, como sempre, minha felicidade não durou tanto. A esperança ganhou um gosto amargo em minha boca e se materializou em desesperança e medo, junto a vertigem que me tomou ao ouvir o som de notificação de meu celular soar inúmeras vezes seguidas. Eu sabia o que aquilo significava do mesmo modo que sabia que não deveria acender a tela do celular e clicar sobre a notificação das mensagens. Estava consciente do mal que as fotos e palavras alheias me fazia, porém, não pude domar meu perverso impulso de fazê-lo.


Anônimo:
A cada suspiro que você der
[Imagem de meu corpo desfalecido sobre a passarela]
A cada movimento que você fizer
[Imagem de minha saída do hospital]
A cada elo que você quebrar
[Imagem de minha espera na frente da casa de Namjoon naquela tarde]
A cada passo que você der
[Imagem do momento em que deixei a casa do detetive]
Eu estarei cuidando de você
[Imagem do meu carro se afastando]


Instintivamente olhei para trás através do para-brisa traseiro do automóvel, distinguindo uma silhueta apagada em meio ao breu e o disparar do flash de uma câmera. Aquela foi a primeira vez que fui capaz de vislumbra-lo mesmo que por um milésimo de segundos fora de meus pesadelos. Assim como aquelas foram as primeiras mensagens que o outro me enviou naquele dia. E, para a minha surpresa, aquela também foi a última vez, para ambas as ocorrências.


Não tivemos mais qualquer sinal de meu perseguidor nos dias que se seguiram, as mensagens e fotos constantes que ele costumava me enviar se esvaíram. O barulho de notificação que costumava me assustar fez-se escasso. Ao mesmo tempo que a proteção de meus guarda-costas e os avanços de Namjoon – que dizia estar seguindo uma pista forte – nas investigações me acometeram de uma confortável sensação de segurança.


Há muito tempo não sabia o que era atravessar as portas de vidro de meu prédio e andar tranquilamente pelas ruas de Seul, fosse pela minha iminente fama e o medo de ser reconhecido, ou pela sensação de constante vigilância que me aterrorizava. No entanto, Namjoon foi capaz de me devolver um pouco de paz, sendo minha mente paranoica a única a roubar essa sensação agradável de mim com delírios e projeções do som de clicks disparando, que me deixavam em estado de alerta. A paranoia era suavizada quando pairava meus olhos sobre os rostos conhecidos de meus seguranças que me protegiam a distância, permitindo que eu desse continuidade aos meus momentos de lazer.


E ainda que o abrupto silêncio de Rabbit me fosse tranquilizante, Namjoon não compartilhava dessa mesma tranquilidade, alegando que as últimas mensagens do outro serviam como um aviso de que não, ele não deixaria de me perseguir e que, por isso, deveríamos continuar atentos e precavidos.


Em contrapartida, Jin considerou aquele momento pacífico ideal para que eu retomasse meu trabalho, ao que minha agenda outrora vazia foi preenchida com entrevistas, nas quais o nosso principal objetivo era justificar meu fatídico colapso sobre a passarela da Gucci e assegurar ao público que eu estava bem e completamente habilitado a desfilar novamente.


Eu entendia as motivações de Jin ao agendar tantas entrevistas e eventos aos quais deveria comparecer visto que a minha ausência das capas de revistas e tabloides resultou em inúmeros boatos e fakenews relacionados a minha saúde, que iam desde suposições sobre eu possuir algum transtorno alimentar até rumores acerca de uma suposta aposentadoria. A preocupação com as proporções que as coisas tomaram aos olhos do público e a iminente ameaça que isso representava para a continuidade de minha carreira, foi o que me motivou a enfrentar de cabeça erguida e com um sorriso no rosto as câmeras mais uma vez e esconder o terror que as lentes me infringiam sob minha máscara.


Entretanto, ter que lidar com uma rotina agitada somado aos meus problemas pessoais e emocionais deixava-me esgotado mental e fisicamente. O estresse e as frustrações do dia-a-dia acumulavam-se cada vez mais de modo que se não fosse pela insistência de Jin e suas argumentações convincentes sobre o quanto a social pre-fall da Gucci me faria bem e me distrairia, eu jamais teria concordado em comparecer a tal festa.


Mas, ironicamente, cá estava eu, sentado no canto mais escondido do bar e completamente enfadado após ter de cumprimentar tantos modelos, estilistas, atores, empresários e agentes, quanto era possível em uma só noite. Sentia os músculos de meu rosto reclamarem por terem sido forçados a distribuir inúmeros sorrisos falsos em tão pouco tempo, enquanto minha cabeça latejava devido ao som da música alta de fundo.


Ambicionava que um drink ou dois pudesse aliviar meu estresse e distrair-me enquanto Jin continuava andando pelo salão de um lado para o outro, fazendo tantos contatos quanto podia a fim de me manter sob os holofotes. Poderia soar egoísta de minha parte estar recluso enquanto Jin trabalhava, porém, o peso sobre meus ombros me fazia desejar encontrar qualquer válvula de escape para o drama que estava vivendo. Qualquer coisa que pudesse me fazer esquecer daquele maldito desfile, de Rabbit e das investigações e, urgentemente, do quão tediosa e cansativa essa festa me parecia.


— Então até mesmo o Gucci Boy está propenso a beber solitário em um bar? — A voz suave e melodiosa questionou em um tom divertido, chamando minha atenção para si ao passo que se sentou no banco logo ao meu lado, me oferecendo um sorrisinho de canto.


Demorei-me alguns segundos observando o desconhecido, devolvendo-lhe o sorriso ao constatar o quão bonito e atraente o rapaz parecia, com seus cabelos pretos divididos ao meio, olhos redondos e grandes que lhe conferiam um ar inocente, rosto jovial e bem desenhado, a pele de alabastro contrastando perfeitamente com seus tons escuros e com o terno preto com o símbolo da Chanel que envolvia seu corpo robusto e definido.


“Talvez minha noite não seja de todo ruim”, ponderei mentalmente, conferindo-o um sorriso e olhar paquerador.


— Se isso te incomoda faça algo sobre – retruquei em um tom presunçoso, bebericando o último gole de meu Martini.


O moreno sorriu largo com minhas palavras audaciosas, revelando seus dentinhos salientes que me remetiam a um coelho ao mesmo tempo em que seus olhos se tornaram adoráveis luas crescentes.


— Barman, sirva uma margarita para esse rapaz, por favor — pediu educadamente ao homem detrás do balcão, que balbuciou um “é para já” e se colocou a preparar a bebida.


— Então sua tática é me embebedar? – indaguei, arqueando uma sobrancelha para si e usando um tom desconfiado.


— Longe disso — assegurou, levantando as mãos em rendição. — Mas meu melhor amigo costuma dizer que margaritas são capazes de melhorar as piores noites. E não custa nada tentar, não é mesmo?


— E se a margarita não funcionar, o que você fará sobre isso? — questionei, dessa vez flertando descaradamente ao correr meus olhos pelo corpo alheio conforme mordi meu lábio inferior em apreciação as coxas torneadas marcadas pela sua calça social.


O moreno rapidamente captou as segundas intenções por trás daquela simples pergunta, respondendo-me com um sorriso ladino seguido pelo inclinar de seu corpo em direção ao meu. A proximidade entre nossos corpos permitiu-me sentir sua respiração quente na lateral de minha face à proporção que os seus lábios úmidos roçarem contra a concha de minha orelha, antes que a sua resposta verbal soar sussurrada em um tom rouco ao pé de meu ouvido: — Então eu mesmo irei salvá-lo — a sua mão pairou sobre minha coxa, deslizando para o interior de minha perna para então deixar um aperto singelo próximo a minha virilha —, se você quiser, é claro — completou, afastando-se imediatamente, um sorrisinho convencido brincando em sua face ao notar meu estado de espírito.


Impedi com algum custo que um arfar vergonhoso escapasse por entre meus lábios e denunciasse o quanto as singelas ações alheias haviam me afetado. Ainda podia sentir o calor de seu toque na pele sob minhas calças assim como a sensação macia de seus lábios em minha orelha quando o outro se afastou, cortando nosso contato. Talvez, apenas talvez, eu estivesse sensível e carente demais para recusar sua oferta. Faziam meses que não tinha o calor de outro corpo me envolvendo e me oferecendo prazer visto que minha agenda corrida e o posterior assédio de Rabbit usurparam todo o meu tempo e paz, mergulhando-me em um mar de estresse sem fim, que apenas tornava mais atraente a ideia de esquecer todas as minhas frustrações cavalgando em cima daquelas coxas convidativas.


Respirei fundo, para então voltar-me para o outro: — Talvez eu esteja interessado no seu plano B, é....? — balbuciei, em um pedido subjetivo para que o moreno me dissesse o seu nome. Ele pendeu ligeiramente a cabeça para o lado, parecendo um tanto quanto confuso antes de finalmente me responder.


— Jeongguk, Jeon Jeongguk — disse por fim, sorrindo como se estivesse envergonhado.


Antes que pudesse lhe dizer alguma coisa, o barman nos interrompeu, servindo-me a margarita com um sorriso educado no rosto, ao passo que peguei a taça que trazia uma rodela de limão em sua borda, levando-a até os meus lábios e sorvendo o líquido ligeiramente amarelado em um só gole. Logo depositei-a novamente sobre o balcão, virando-me para Jeongguk em seguida.


— Pronto para fugir comigo dessa festa tediosa? — indaguei com diversão, desfrutando de um bom humor do qual não dispunha há meses e nós ainda nem tínhamos fodido.


— Sempre estive.


Senti uma adrenalina infantil me preencher conforme eu e Jeongguk nos esgueiramos até a saída traseira do salão. As mãos firmes alheias seguravam minha cintura à medida que ele me conduzia da maneira mais discreta e eficiente possível para fora dali. Tomava o cuidado de olhar de um lado para o outro, me certificando de que Jin e meus seguranças não percebessem minha pequena fuga, pois tudo que não precisava era da atenção deles sobre mim e muito menos de tê-los me fazendo passar vergonha em frente a um homem tão gostoso quando exigissem sua ficha completa e antecedentes criminais que, consequentemente, estragaria minha noite de foda. Só desejava ter uma noite normal de sexo casual, como a pessoa normal que eu definitivamente não era.


— Isso foi divertido! — disse entre risos ao adentrarmos o estacionamento.


— Então você é um menino que gosta do perigo? — perguntou, com um sorriso ladino nos lábios ao se aproximar perigosamente de mim, levando novamente suas mãos a minha cintura e unindo nossos corpos.


— Definitivamente não. Porque apesar de estar louco para te beijar aqui e agora, não consigo parar de pensar na possibilidade de sermos flagrados por algum paparazzi. — O meu riso morreu em meu rosto e o encarei embaraçado, apoiando minhas mãos sobre o seu peito e o afastando timidamente.


— Acredite, você não é o único que quer isso — revelou, afagando minha bochecha em seguida. — Por isso, vamos vazar logo daqui.


E foi exatamente o que fizemos.


Jeongguk tomou minha mão, levando-me a passos largos até o que julguei ser o seu carro, o qual era nada mais nada menos do que um esplendoroso jaguar vermelho. Despendi alguns segundos babando em seu veículo antes do moreno abrir a porta para mim e sairmos dali.


— Para onde você prefere ir? — perguntou ao deixarmos o estacionamento.


— Hmm... — balbuciei pensativo. — Um hotel? — sugeri, pois não me arriscaria a ir para a casa de um desconhecido e levá-lo para meu apartamento estava fora de cogitação.


— Tudo bem, irei levá-lo para um hotel maravilhoso — garantiu, sorrindo para mim.


O percurso até o hotel foi feito rapidamente enquanto trocamos provocações e fizemos promessas a serem cumpridas apenas entre quatro paredes. Os sorrisos fofos alheios atacavam-me vez ou outra, colocando-me em um dilema entre achá-lo adorável ou extremamente sexy, fazendo a ansiedade por provar os lábios cor-de-pêssego crescer dentro de mim. Tal não foi o meu alívio ao finalmente adentramos o quarto de hotel, ao que imediatamente empurrei o moreno contra a parede e o beijei voluptuosamente, deleitando-me com a maciez de seus lábios e com o sabor de sua boca aveludada.


— Apressadinho, Tae? — perguntou sarcástico contra meus lábios, segurando minha cintura com firmeza conforme desgrudou suas costas da parede e passou a induzir-me a andar às cegas pelo quarto.


— Você não imagina o quanto — disse, cravando minhas mãos na lapela de seu terno para deslizar a peça pelos bíceps bem trabalhados a fim de despi-lo o mais breve possível.


— Não precisa ter pressa, baby, porque vou te foder até o dia amanhecer — ditou em seu tom rouco, tomando meus lábios e deslizando sua língua sobre a minha ao mesmo tempo que conduziu suas mãos até a minha bunda, apertando a carne farta entre seus dedos e trazendo meus quadris de encontro aos seus, fazendo-me arfar entre seus lábios e beijá-lo com mais necessidade.


Felizmente, o moreno não se limitou apenas a palavras vazias, pois tão rápido quanto podíamos estávamos nus sobre a cama queen size confortável de uma suíte presidencial, com nossos corpos colidindo um contra o outro com agilidade e força, fazendo sons eróticos ressoarem pelo cômodo mesclados aos gemidos altos e escandalosos que escapavam de meus lábios a cada vez que Jeongguk estocava fundo e duro em meu interior. Nos esbaldamos em meio a movimentos frenéticos e entorpecedores, as nossas mãos e bocas não abandonaram o corpo um do outro por um momento sequer, ávidas por explorarem os contornos e curvas alheios, ansiosas por marcarem a pele macia sob nossos dedos, carimbando a derme para que pudéssemos relembrar as perversidades que cometemos naquela cama.


Jeongguk era prazerosamente contraditório em suas palavras e ações, pois enquanto sua voz doce ditava elogios aos meus ouvidos, me dizendo o quanto eu sou absurdamente belo, palavras safadas e provocativas saíam de sua boca juntando-se aos seus gemidos e arfares ao dizer-me o quanto aquilo tudo era gostoso, ao mesmo tempo em que suas mãos tocavam o meu corpo com uma gentileza e firmeza ímpares os seus quadris investiam contra a minha bunda com brutalidade, usando toda a sua força e agilidade, me fazendo revirar os olhos e me contorcer de prazer abaixo de si uma vez que cravava minhas unhas em suas costas e o implorava por mais.


Como prometido, Jeongguk me fodeu até que o quarto escuro fosse iluminado pelos primeiros vestígios do amanhecer e não tivéssemos forças e disposição para levar aquilo adiante. Nossos corpos cansados desempenhando uma verdadeira bagunça de pernas entrelaçadas ao que o suor e outros fluídos corporais se misturavam. Podia sentir as minhas costas e quadris reclamarem devido ao esforço recente, entretanto, não podia me importar menos com isso a dor física. Não quando braços fortes me envolviam e mãos delicadas afagavam minha cintura, a respiração quente batendo contra minha nuca foi o suficiente para me embalar em um sono tranquilo.


Acordei algumas horas mais tarde com a luz exagerada do sol incomodando os meus olhos e o apitar desenfreado de meu celular ressoando pelo cômodo. Rolei algumas vezes sobre a cama, tentando escapar da obrigatoriedade de acordar e verificar minha caixa de mensagens, que deveria estar recheada de apelos preocupados e inquisidores de Jin. Bufei audivelmente quando o barulho de notificação soou novamente, ao que arrastei meu corpo sobre a cama, esticando-me para pegar o meu celular que vibrava na mesa ao lado. Cocei os meus olhos procurando despertar enquanto ligava a tela, que me avisava sobre a chegada de sete mensagens de um número desconhecido, além de outras trinta pertencentes a Jin. Curioso e tentado a ignorar as mensagens de meu hyung, optei por abrir primeiramente as do número anônimo, temendo que os torpedos pertencessem a Rabbit, pois significaria que ele havia retornado a ativa.


Anônimo:
Então se eu correr não é suficiente, porque você ainda estará em minha mente
[Imagem]
Preso para sempre
[Imagem]
Então você pode fazer o que quiser
[Imagem]
Mas não negue o animal que ganha vida quando estou dentro de você


As imagens anexadas as mensagens consistiam em fotos do meu corpo parcialmente nu dormindo sobre aquela mesma cama de hotel. Os diversos chupões e marcas em minha pele denunciavam a agitada noite de sexo que tive. Os meus cabelos desgrenhados espalhados sobre o travesseiro e o meu rosto sereno adormecido eram expostos com clareza. Cada foto figurava um ângulo distinto, ao passo que a última se diferenciava das outras, pois nesta os lençóis alvos não escondiam minha nudez. Senti um pavor latente tomar o meu corpo enquanto percorria o quarto com meus olhos a procura do homem que se deitou comigo na noite anterior sem, no entanto, encontrá-lo. Desesperado, abri rapidamente a caixa de mensagens de Namjoon, enviando-lhe minha localização e torcendo para que o outro fosse capaz de entender meu pedido mudo de socorro ao ouvir a voz melodiosa cantarolando “Animals” do Marron 5 aproximar-se. De imediato, tentei esconder o aparelho entre os lençóis, mas antes que pudesse fazê-lo, Jeongguk adentrou o quarto com uma bandeja acomodando um farto café da manhã em suas mãos.


Hunt you down eat you alive, just like animals, anim… — interrompeu o seu canto ao colocar os olhos sobre mim, pendendo a cabeça ligeiramente para o lado ao que franziu o cenho, parecendo curioso após flagrar minha tentativa falha e afoita de esconder o celular. — Oh, então você já viu as fotos que te mandei? — perguntou com naturalidade. — Ficaram ótimas, não acha? — continuou, exibindo um enorme sorriso e demonstrando orgulho de seu trabalho. — Sempre imaginei o quão belo você ficaria em um nu artístico — comentou, ainda sorridente.


Fiquei estático e sem reação por alguns segundos, observando os olhos escuros alheios brilharem em expectativa por uma resposta e um sorriso bobo contornar permanentemente os seus lábios. Jeongguk era absolutamente fofo, suas feições joviais inspiravam uma genuína inocência, o fazendo parecer inofensivo de tal forma que nem mesmo o mais desconfiado dentre os seres humanos seria capaz de questionar sua integridade e honestidade. Talvez, fosse os sorrisos de coelho que o fizessem adorável demais ou, quem sabe, fosse culpa de seus olhos grandes e redondos, iluminados como uma noite repleta por estrelas. O certo era que se colocassem uma fila de suspeitos diante de mim, Jeongguk com certeza seria o último do qual desconfiaria e para o qual apontaria o dedo. Principalmente se ele estivesse vestindo um elegante terno Chanel, dirigindo um esplendoroso jaguar vermelho e disposto a pagar por um quarto em um dos hotéis mais caros de Seul, depois de me abordar em uma festa fechada para os colaboradores da grife Gucci.


— Tae? Você está bem? – questionou aparentando estar genuinamente preocupado. Ele aproximou-se de mim após depositar a bandeja na minha frente com cuidado. — Você parece meio pálido de repente — observou, levando sua destra para a minha bochecha e a acariciando. — Olha, coma alguma coisa, tem um pouco de tudo que eu sei que você gosta. Veja, eu até mesmo pedi morangos — disse, pegando um morango e o levando até os meus lábios.


Hesitei por alguns segundos, transitando meu olhar entre a bandeja recheada por comidas apetitosas e o rosto preocupado de Jeongguk, para então abrir finalmente os lábios e morder o morango que me era oferecido. Algo dentro de mim alertava-me que rejeitar Jeongguk ou agir impulsivamente poderia facilmente me colocar em maus lençóis e desencadear reações nocivas no outro. Assim, forcei um sorriso de lábios cerrados para si, enquanto mastigava a fruta de sabor doce e levemente cítrico que tanto amava, sentindo o seu gosto tornar-se amargo devido ao medo que crescia em meu interior.


Resolvi agir cautelosamente e o mais naturalmente possível, tentando ao máximo responder a sua tentativa de manter um diálogo e corresponder seus sorrisos a fim de não levantar a guarda do moreno ou deixá-lo desconfiado. Precisava mantê-lo bem-humorado até que conseguisse escapar dali caso Namjoon não viesse em meu socorro.


A naturalidade com a qual Jeongguk agia, suas carícias, palavras doces e sorrisos, apenas deixavam-me mais assustado. O moreno não parecia ter consciência do mal que fez a mim nos últimos meses. Não parecia ter noção do quanto a sua perseguição havia me afetado e muito menos do horror que suas atitudes despertaram em mim.


E mesmo que o medo de si falasse mais alto, não pude evitar sentir pena do outro. Jeongguk possuía tudo para ter uma vida equilibrada e saudável. Ele era bonito, talentoso e aparentemente tinha uma boa condição financeira. Entretanto, nada disso o impedia de possuir um transtorno delirante que o tornou nada mais do que um stalker maníaco digno do meu desprezo.


Uma confusão de emoções e sentimentos embaralhou a minha mente. De um lado estava Rabbit, o stalker que enchia minha caixa de entrada e roubava a minha paz e privacidade. Enquanto do outro, estava Jeongguk, o rapaz belo, atraente e bom de cama com o qual dormi na noite anterior. Entendia, obviamente, que ambos eram a mesma pessoa. Contudo, enquanto observava Jeongguk, não sentia a mesma sensação claustrofóbica que me aterroriza em meus pesadelos com Rabbit. O medo claramente se fazia presente – desde este sentimento é natural a situações de perigo iminente –, mas, ainda assim, não conseguia encarar o homem na minha frente como uma ameaça real tal como minha racionalidade alertava-me que ele era.


Os minutos pareciam arrastar-se e escapar das investidas de Jeongguk tornava-se cada vez mais difícil. O moreno parecia ter a necessidade de me tocar a todo minuto, mesmo quando não havia a menor necessidade de fazê-lo. Era quase como se ele precisasse confirmar que eu estava ali, na sua frente, ao alcance de suas mãos.


Quando Jeongguk afastou a bandeja que nos separava e engatinhou em minha direção, fazendo com que recuasse até que meu tronco estivesse deitado sobre a cama, a sua perna intrometendo-se entre as minhas no processo ao que apoiou suas duas mãos ao lado de minha cabeça, inclinando-se com a clara intenção de beijar meus lábios, a minha primeira e única reação foi virar o meu rosto o mais rápido possível, fazendo os lábios macios e úmidos selarem meu maxilar. Senti o meu corpo estremecer quando o moreno levantou o rosto para encarar-me em completa confusão, um vinco formando-se entre suas sobrancelhas grossas, ao passo que espalmei minhas mãos em seu peito, empurrando-o à medida que me afastava de si.


Jeongguk parecia prestes a me questionar o que estava acontecendo quando um barulho alto ressoou pela suíte provindo da entrada desviou a sua atenção de mim. O som de passos apressados e mesclados antecipou a entrada de três homens fardados de policiais no quarto. Os policiais empunhavam suas armas prontos para lidarem com o pior cenário possível de modo que exibiram uma carranca ao se depararem com nada mais do que dois homens parcialmente nus em uma cama. Logo uma figura mais alta e forte se intrometeu entre eles forçando facilmente a sua passagem e entrada no cômodo.


Eu nunca pensei que sentiria um alívio tão grande ao finalmente vislumbrar um rosto conhecido. Lá estava Kim Namjoon, com os seus cabelos castanhos desgrenhados, uma camiseta social amassada e uma gravata mal ajustada em seu pescoço. A simples presença daquele detetive desgrenhado significou o mundo para mim, pois ele havia cumprido com a sua palavra e me protegido. Ver Namjoon me fez sentir seguro e a salvo.


O detetive sequer hesitou antes de apressar-se até mim, empurrando Jeongguk para longe e envolvendo o meu corpo junto aos lençóis brancos com seus braços, trazendo-me consigo para fora daquela cama e do alcance do moreno. Agarrei-me automaticamente ao mais velho, envolvendo o seu pescoço e afogando o meu rosto contra o seu peito. Namjoon se tornou meu refúgio e morada durante os minutos que se seguiram, as suas mãos grandes afagavam minhas costas e a sua voz grossa buscava me acalmar à medida que derramava todos os meus medos e aflições em sua blusa sob a forma de lágrimas em sua camisa amassada. Todo o pânico que não me permiti sentir anteriormente alcançando-me ao sentir-me a salvo em seus braços.


Ouvi – ainda sendo protegido pelos braços alheios – o policial anunciar voz de prisão para Rabbit, o que me fez levantar os olhos apenas para assistir ao exato momento em que dois dos policiais o seguraram, forçando os seus braços para trás e o imobilizando, enquanto o terceiro algemou seus pulsos. Os olhos escuros de Jeongguk me encararam completamente confusos e assustados, claramente sem entender de fato o motivo de estar sendo detido.


— O que está acontecendo?! — questionou, alarmado, debatendo-se sob o aperto dos policiais.


— Você está sendo preso por invasão de privacidade, invasão de propriedade privada, assédio e no que mais conseguirmos enquadrar um vagabundo como você — esbravejou o policial irritado.


— Eu não fiz nada disso! — protestou em sua própria defesa. — Eu sou inocente! Eu não fiz nada de errado! Diga a eles, Tae! Diga a eles que eu sou inocente! — clamou desesperado, tentando libertar-se dos policiais e vir em minha direção. — Por favor, Taehyung, conte a eles! — suplicou com a voz embargada, olhando-me com os seus grandes olhos negros cheios de medo.


— Todos eles dizem que são inocentes. — O policial debochou. — Podem levar — ditou, apontando para a saída do quarto ao que os outros policiais o obedeceram prontamente.


Não suportei encará-lo por mais nem um segundo sequer, ouvindo seus últimos clamores e protestos por ajuda serem abafados à medida que os policiais o arrastavam para fora do quarto, enquanto mantinha o meu rosto escondido contra o peito de Namjoon, incapaz de encarar o rapaz de semblante genuinamente inocente mais uma vez.

26 de Junio de 2018 a las 06:29 0 Reporte Insertar 6
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