Não Podemos Viver Sem O Ritmo Seguir historia

sabrinavilanova Ellie Blue

Frederico Maverick foi convidado por um de seus amigos para ir a uma festa, o que o rapaz não sabia era que a festa em questão seria um tédio. Em busca de relaxamento mental, Frederico parte para um lugar mais calmo, onde encontra, inesperadamente, Pietro Ferrari, a pessoa que gosta há bastante tempo. O que ele não sabe é que Pietro corresponde esse sentimento e não deixará de medir esforços para abrir seu coração. We got a ride, we got the night I got the bottle, you got the light We got the stars We got audio.


Cuento Todo público.

#adolescente #lsd #audio #musica #bissexualidade #258 #lgbt
Cuento corto
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Capítulo Único - "Play That Audio"

Em uma das ruas mais pacatas da cidade, a garota de cachecol cor-de-rosa tentava encontrar o irmão mais novo dentre os brinquedos do parque. Sua mãe já havia chamado seus nomes algumas vezes, era hora de dormir, onde estava ele? Os olhos da menina brilharam quando captaram o verde do casaco do garotinho, ela caminhou até o escorregador e, balançando a cabeça negativamente, pegou o garoto dorminhoco no colo e o levou para casa.

Do outro lado da cidade, sentado sozinho em uma poltrona, estava Frederico Maverik. O adolescente segurava um copo vermelho de bebida alcoólica, colocado ali por um de seus amigos malucos, enquanto tentava desviar o olhar das pessoas se atracando no sofá. Realmente não sabia o que havia passado por sua cabeça quando aceitou ir àquela festa, não estava com ânimo para aquilo. Mas David, como sempre, tinha conseguido convencê-lo.

— Você tem que ir — disse David, enquanto afinava a guitarra em cima das pernas.

— Certo, eu já sei que tenho que ir, mas não discutimos aquela pequena parte do "eu não quero".

— É porque ela não existe. Você vai e vai com vontade.

— Sério? Posso saber como isso vai acontecer? Porque eu não faço ideia.

— Lembra da Trisha?

— Barbieri? — perguntou, tentando lembrar do rosto por trás do nome ao ver o amigo assentir. — O que tem ela?

— Nada além de estar solteira e precisando de consolo — explicou, sorrindo em malícia. — Não era ela que você queria pegar desde que pisou naquela escola?

Aquilo pareceu despertar seu espírito festeiro, havia escutado nos corredores que a garota havia brigado com o seu namorado-punk-de-cabelo-estranho, talvez fosse realmente uma oportunidade dos deuses, não poderia negar, podia? E por que não ir? Era só uma festa, se tudo desse errado ainda poderia se divertir.

— Você é um desgraçado — xingou.

— Eu sei. — Ele sorriu.

Então, ele aceitou, só para descobrir que a pessoa em questão era a dona da festa e que ela estava muito bem resolvida com o seu namorado musculoso de três metros de altura. Suspirou resignado, David era mesmo um idiota. Além de tê-lo enganado, deixou-o ali sozinho, apenas observando aquelas pessoas esparramadas no sofá. Com uma careta desgostosa, bebeu todo o líquido existente no copo vermelho, a bebida já estava quente.

Levantou decidido a ir embora, mas toda a sua confiança acabou quando o sorriso imbecil de Pietro Ferrari foi captado por seus olhos. O desgraçado estava mais lindo que nunca, como a merda de um príncipe em sua coroação. Os cabelos bagunçados, uma jaqueta jeans e aquele olhar, do tipo que sempre o destruía só de olhar. Balançou a cabeça, expulsando aqueles pensamentos. O que tinha na cabeça? Pffft. Príncipe? Coroação? Patético!

Respirando fundo, tomou coragem e andou até a cozinha. Abriu a porta da geladeira gigante e pegou uma cerveja. Aquela seria uma longa noite.

Bebeu alguns goles do líquido amarelado, pensando se deveria ou não voltar à sala. A verdade era que Frederico queria voltar para casa, o ânimo dele para festas vinha caindo nos últimos tempos, talvez fosse a hora de sossegar —mesmo que ainda fosse um adolescente cheio hormônios. Observou um pouco o lugar, era bem espaçoso, típico de uma casa de gente com tanto dinheiro que não saberia mais onde colocar.

A sensação de tédio se alastrou por sua mente e quando fez menção em pegar o celular no bolso esquerdo para passar o tempo com algum jogo, lembrou que o mesmo fora furtado por David, que também pegou as chaves do carro, assegurando-se de que ele não iria embora tão cedo. Que não acontecesse nada com suas coisas, senão faria com que David pagasse por tudo! E Frederico conhecia bem o amigo para saber que ele preferiria ser espancado mil vezes a pagar por algo tão caro. Entretanto, não era hora para aquilo, brigaria com seus amigos depois, quando estivessem sóbrios o suficiente para entenderem, ao menos, uma palavra que saísse da sua boca.

Avistou a porta que dava para os fundos da casa, já havia estado ali algumas centenas de vezes para saber que aquela área era proibida para as pessoas da festa. Porém não se considerava um participante daquele circo de horrores, estava mais para um prisioneiro, já que fora arrastado até ali por seus amigos imbecis. Respirou fundo antes de seguir até melhor parte da casa, onde existia uma piscina grande e grama, muita grama.

Sentou no chão, bebendo mais um gole da cerveja. O céu estava estrelado naquela noite, o tempo frio fazia sua pele arrepiar e a música estava mais baixa com a distância da parte da frente da casa. Um paraíso.

O tempo passava lentamente para o garoto com os olhos vidrados no céu, não via tantas estrelas desde as férias de verão na fazenda dos avós. Estava muito confortável, obrigado, apesar do cheiro de cloro advindo da piscina. Então, fechou os olhos, não iria dormir, só queria aproveitar aquele conforto mais um pouco. Estranhou a luminosidade em seu rosto e abriu um pouco os olhos para saber o que estava acontecendo. A porta por onde havia passado estava aberta, o que era bem estranho, já que lembrava que tinha fechado.

Ouviu passos na grama e, quando girou a cabeça para ver quem era, mãos cobriram seus olhos.

— Quem caralhos é o babaca que tá tirando a minha habilidade de enxergar? — perguntou em alta voz, ouvindo um risadinha rouca próxima ao ouvido, o que o irritou mais ainda. Poderia permanecer naquela brincadeira boba por bastante tempo, se quisesse. Mas a questão era que ele realmente não queria, a paciência era pouca e estava louco para esmurrar a cara de qualquer pessoa que aparecesse em sua frente.

— Bom, um ser humano muito bom, certamente, que trouxe um cerveja para a bela moça deitada no chão. Pergunto-me se ela poderia ter confundido a grama com um colchão —A voz grave e dramática chegou aos seus ouvidos, fazendo com que os pelos da nuca arrepiassem. Merda de voz bonita.

— Será que o que o senhor-filho-da-puta com complexo de inglês rico pode tirar a porra da mão da minha cara?

— Talvez.

— Tira logo, merda. — Irritou-se. — achado que é quem, desgraça?

— Uh, a jovem moça está irritada. — Frederico estapeou o braço do outro, impaciente. O garoto parecia não perceber que aquela, com certeza, não era uma boa hora para ele. — Tudo bem, tudo bem, eu tiro.

Ele tirou vagarosamente as mãos dos olhos pretos de Rico, que relaxou o corpo quando voltou a ver o lugar onde estava. Respirou fundo, por que estava tão estressado mesmo? O cara não tinha feito nada contra si, estava descontando tudo nele.

— Cadê a minha cerveja? — perguntou, por fim. Pietro franziu o cenho e balançou a cabeça negativamente, sorrindo. Esse cara muda de humor muito rápido, pensou.

— Na geladeira —respondeu. — Não sou garçom, levanta e pega.

não disse que tinha trazido uma pra mim, oh, desgraça?

— Não, eu disse que tinha trazido uma cerveja para a moça, não estou vendo moça nenhuma aqui —falou num tom desafiador e riu ao ver o rosto de Frederico adquirir uma expressão irritada. Sim, ele mudava de humor muito rápido. — Certo, a princesa não precisa ficar irritada, eu trouxe uma pra você.

Frederico continuou com os olhos semicerrados, porém aceitou a cerveja, tirou a tampa e tomou um longo gole da bebida. — O que cê tá fazendo aqui? Pensei que essa área era "proibida para as pessoas que estão na festa".

— A porta estava aberta e tinha um ser humano semimorto no gramado, achei um cenário bem interessante. — Coçou a cabeça, lambendo os lábios, o que não passou despercebido por Frederico. Esse cara só pode estar de brincadeira com a minha cara. —E a questão é, se é proibido, o que você está fazendo aqui?

— Ah, a festa meio merda, aí, pensei que era melhor ficar aqui do que lá dentro.

— Um bom motivo, certamente. — Frederico riu. — O quê?

— Sei lá, é que isso foi meio formal, sabe?

— O "certamente"? — perguntou.

— Exato — falou, levando a garrafa à boca. — Mas por que não aproveitando a festa? Eu ligado no lance do semimorto aqui. — Apontou para o próprio rosto. — Mas não é possível que essa festa esteja tão merda pra você quanto tá pra mim.

— Ah, sei lá. Eu vim com o Thiago, mas ele encontrou com a namorada dele e me abandonou.

Frederico suspirou, volvendo o olhar para o céu. Um silêncio desconfortável se instalou e ele não fez questão de quebrá-lo, terminou a bebida e voltou a deitar na grama, colocando as mãos atrás da cabeça. Estava cansado, queria estar em sua cama assistindo alguma das suas séries favoritas na Netflix. Maldita hora da vida que ele resolveu ter amigos idiotas, cerrou os punhos, colocando-o nos bolsos do moletom preto que usava, estava frio.

— Sabe, todas as estrelas estão mortas. — Começou. — A gente, literalmente, olha pro passado delas.

— Valeu aí, Google, pela curiosidade — ironizou. — Eu já sabia dessa, agora vai dizer que Plutão é um planeta-anão ou que o Sol vai sugar a Terra quando eclodir?

— Qual é o seu problema, cara? Eu só estou tentando puxar assunto, não precisa ser agressivo — resmungou.

— O problema é que eu não quero puxar assunto, ok? Eu só quero curtir a grama e a porra do céu em paz, pode ser?

— Tudo bem. — Deu de ombros.

Pietro olhou para os lados e levantou, limpou a calça e sentou um pouco mais próximo ao lugar onde Frederico estava. Deitou-se, colocando a cabeça cheia de fios claros sobre o braço do garoto de cabelos pretos, sentiu o corpo de Frederico enrijecer com aquele ato inesperado, acabou sorrindo com a reação, ele era tão previsível.

Frederico engoliu em seco, não sabia como agir, por que ele estava deitado tão próximo? E por que ele tinha colocado uma mão sobre seu peito? A cabeça do garoto estava tão nublada com perguntas que se deixou levar pelo cheiro dos cabelos cacheados de Pietro, colocando o nariz entre os fios. Quando percebeu o que fazia, se afastou bruscamente, assustando o garoto.

— O que está fazendo? — perguntou, afastando-se. Ele não podia estar ali com Pietro, nunca. Era praticamente uma afronta à sua dignidade, mas era tão bom, ele já tinha perdido as contas de quantas vezes se imaginou em um momento como aquele. Estava sendo patético, de novo.

— Neste momento? Curtindo a grama e a "porra" do céu. Em paz — repetiu, debochado. — Não era isso que você queria?

— Não exatamente. Eu quis dizer "sozinho", não com você deitado em mim. — Prendeu a respiração ao falar a última frase, estava com vergonha. Merda, ele estava mesmo com vergonha. A risadinha de Pietro serviu como um gatilho; logo, seu rosto estava tão vermelho quanto um pimentão maduro. Merda, merda, merda.

— Eu não estava deitado em você, só estava procurando ficar mais confortável. Além do mais, lavei meu cabelo hoje, como você acabou de comprovar com seu nariz intrometido, e não queria sujar — falou em um tom inocente, fazendo um biquinho falsamente ofendido.

— Então, se afasta, não sou travesseiro. — Ignorou a parte do "como acabou de comprovar". Ele tinha percebido? Frederico estava tão envergonhado que queria enfiar a cabeça na areia. Não conseguia parar de falar besteira? Virou o corpo de costas para Pietro.

O som da notificação fez com que ele soltasse o ar, aquilo tiraria a atenção dele. Mandou-lhe um olhar de canto, observando o outro mexer no celular e responder à mensagem que haviam lhe mandado.

— Bom, parece que Thiago foi embora. — Riu. — Bastardo, me abandonando de novo.

Frederico não respondeu, não era como se ele quisesse falar, mal conseguia olhar para o rosto de Pietro. Suspirou, cansado, talvez devesse ir embora sem os outros. Aquela noite estava durando tempo demais. Levantou vagarosamente, olhou nos olhos do outro, mandando-lhe um "até mais" mudo e começando a andar para a cozinha.

— Rico. – Escutou. — Espera!

— Que foi?

— Eu também estava de saída, vou dar uma volta por aí e... — falou, embolado.

— E? — perguntou, com curiosidade demais na voz.

— Eu queria perguntar se... — Ponderou por alguns segundos, pensando se aquela seria a melhor decisão. — Você quer ir comigo? — completou, com entusiasmo.

— Posso saber o porquê do convite repentino?

— Sei lá, eu só quis chamar. Se você não quiser, tudo bem. — Deu de ombros.

— Não, eu quero! — Odiou-se por sua voz ter saído tão desesperada, ele não queria ir tanto assim. — Quer dizer, por que não?

E Pietro sorriu largamente ao perceber o embaraço do outro garoto, Frederico mal sabia que aquele seria o motivo dos seus suspiros em muitas noites solitárias.

 

[...]

 

O Mustang azul percorria as estradas vazias da grande cidade. A música que Pietro havia escolhido era muito boa, apesar de estranha, era uma música sobre liberdade e música. O garoto de tez negra ao seu lado cantarolava num tom bastante afinado. Além de ser bonito, o desgraçado é afinado também?, pensou.

Make the bomb, bomb beat. I'll give you melody — cantou. — Make the song so sweet, you gon' come home with me, oh.

Frederico não conseguia tirar os olhos de Pietro, era engraçado, há poucos minutos estava insultando-o, porém, naquele momento, não conseguia parar de olhá-lo. O carro estacionou e Frederico observou a fachada do estabelecimento.

— Gosta de café? — Ouviu.

— Aram.

— Okay, vou mudar a pergunta. Quer tomar café?

— Bom, você não me deu muita opção, ? — Apontou para o lugar a frente deles. — Você paga.

— Isso é extorsão — acusou, com uma careta falsamente ofendida.

— Não, você me trouxe aqui e, como você é um belo cavalheiro, vai pagar um macchiato maravilhoso para a minha pessoa.

— Tudo bem, eu pago, só porque eu sou um cavalheiro. — Piscou, divertido.

Não demoraram muito no café, logo Frederico estava sentado no banco de couro novamente, sentindo o vento entrar pela janela e bater em seu rosto. Estavam fora da cidade, em uma estrada conhecida que levava à zona rural do município. Não sabia exatamente o que estava fazendo ali, mas Pietro havia prometido que iriam para um lugar legal, só lhe restou acreditar.

Quinze minutos depois, entraram em uma estrada de terra. Tinha começado a considerar que aquele poderia ser o cenário da sua morte, talvez Pietro tivesse um pé de cabra no porta-malas e desse uma coronhada em sua cabeça. Era muito jovem para morrer, principalmente, pelas mão do garoto pelo qual estava a fim. Seria um final trágico.

— Quê está caducando aí? — perguntou, tirando o adolescente de seus pensamentos.

— Nada — respondeu de imediato.

— Certo, não vou julgar os seus nadas — caçoou, abrindo a porta. — Você não vai descer?

— Onde estamos?

— Num lugar bem legal, você vai ver.

Assim que os olhos de Frederico focaram na área onde estavam, eles brilharam. Era perfeito, havia um lago de águas cristalinas ali, refletia a luz do luar. Simplesmente perfeito para o que mais gostava de fazer, observar o céu. Se as estrelas estavam mortas, ele não se importava, nunca se importaria em olhar para o passado delas, era esse passado que o fazia suspirar e se, num futuro distante, elas parassem de brilhar, estariam dando espaço para que mais estrelas aparecerem em seu céu repleto de pontos brancos. Piscou algumas vezes, faltava música, música para o seu coração bater rapidamente, feliz. Escutou Moonlight Sonata tocar, Pietro parecia ter ouvido seus pensamentos.

— Agora sim, tudo está completo. É bonito, não é?

— É muito bonito — respondeu, maravilhado.

— Vem. — Ele segurou sua mão, puxando-o até a beira do lago. — Pode ficar tranquilo, não tem animais perigosos aqui.

— Eu não tava pensando nisso, mas comecei a pensar agora que você falou –confessou, olhando para os lados, antes de sentar na grama.

— Você quer uma cerveja?

— Mais cerveja? Não combina com o momento ou o lugar. A gente já bebeu demais por hoje. — Sorriu, tornando a olhar para o céu. — Esse lugar merece um café.

— Sério? Não é uma certeza, sabe, acho que o lugar do qual acabamos de sair era exatamente um Café — ironizou, revirando os olhos. — Por que não falou antes?

Cê tá mesmo perguntando isso? — Talvez Pietro houvesse esquecido que ele não sabia para onde iriam. — Deixa pra lá. Que lugar é esse?

— Faz parte da propriedade do meu tio — explicou Pietro. — Eu gosto de vir aqui de vez em quando, é muito bom pra fugir do resto do mundo.

— Parece ser um bom lugar para isso — murmurou. — Será que eu seria preso por invasão de propriedade se eu viesse aqui algumas vezes?

— Acho que não, meu tio é bem de boa com esse tipo de coisa e não existem muitas pessoas que conhecem esse lugar — esclareceu. — Ele só não se responsabiliza se você morrer e, ah, você não pode dormir aqui, acampar, acender fogueiras ou trazer pessoas pra cá. Tudo bem?

— Informação demais — falou, soltando a respiração. — Espera. Explica, alguém já chegou a dormir aqui? Olha esse lugar! É mato puro, não me surpreenderia se encontrasse uma cobra por aí ou algo assim — tagarelou, nervoso. — Mais importante! Alguém já morreu aqui?

— Calma, Rico. Você vai morrer se continuar falando sem respirar desse jeito. — Era uma tentativa de tranquilizá-lo? Porque se fosse, Pietro estava fazendo um péssimo trabalho. — Respondendo suas perguntas, sim e não. Ninguém morreu aqui, não depois que meu tio comprou a propriedade, pelo menos. —Levou a mão no queixo, pensativo. — E, bem, ele já me encontrou dormindo aqui, me deu uma bronca gigantesca, então, não repita o erro. — Riu, coçando a cabeça.

— Então, está tudo bem mesmo eu vir aqui? — Pietro assentiu, com um sorriso sem dentes.

O garoto de tez negra sentou ao seu lado, pegou uma pedra e jogou no lago. Esse ato repetiu-se algumas vezes antes de desatarem a falar sobre mil assuntos diferentes. Sobre música, jogos, animes e filmes. Conversaram sobre a vida, o que rendeu algumas piadas ruins sobre como pareciam velhos conversando, vindas de Pietro, obviamente. E conversaram sobre a esperança de que dias melhores chegariam, todos tinham um coração, tinham uma alma e, mesmo que o mundo gritasse "não" com toda a força, eles acreditavam. Acreditavam que um dia tudo o que acontecera seria apenas um passado vergonhoso.

A playlist em que Pietro tinha colocado era composta por músicas instrumentais em diferentes tons. Frederico percebeu que havia uma separação gritante entre elas, enquanto as primeiras músicas eram mais pesadas, como se o alguém da música carregasse uma mágoa tão grande que não caberia em seu coração, a segunda parte era mais alegre, como se fosse um intervalo de todo aquele desespero, um suave interlúdio para acalmar um coração desesperado. Então, a playlist voltava para um ritmo mais triste, mesmo que as músicas fossem mais leves, era como se o personagem estivesse perdido, tentando se encontrar. E o último conjunto de músicas era mais feliz, como se ele houvesse se encontrado.

Uma música em especial chamou a sua atenção, uma sensação de inquietação subiu por sua coluna, chegando a nuca. Ele conhecia bem aquela música.

— Lembra dela? — perguntou Pietro.

— Já ouvi em algum lugar.

— Talvez no palco, enquanto você dançava com uma garota — falou em um tom divertido, levando os dedos aos cabelos claros e colocando um dos cachos atrás da orelha. Secretamente, Frederico achava aquele ato muito bonito, assim poderia olhar para o rosto do outro adolescente sem que os fios atrapalhassem sua visão. Distraído, acabou por esquecer que deveria respondê-lo, antes disso, Pietro continuou: – Aliás, gostei muito da dança.

— Como você...? — Começou a perguntar, atrapalhado ao ser interrompido pela risada alta do outro garoto. Ele tinha visto?

— Ah, eu estava lá. Na primeira fila e tudo mais. Achei a coreografia bem bonita, acho que vocês que tinham que ter vencido —f alou ao aproximar-se um pouco mais de onde Frederico estava. — Mas Swan Lake venceu.

— Pela terceira vez seguida. — Revirou os olhos.

— É realmente uma pena, porque você estava muito bonito lá em cima — frisou, com um sorriso bonito nos lábios. — Quer dizer, a garota estava maravilhosa, mas você... brilhava.

O garoto de cabelos negros sorriu minimamente, estava com vergonha. Pôs o braço sobre o rosto, tentando esconder a vermelhidão que cobriu sua face, contudo, Pietro pegou a sua mão, fazendo-o olhar em seus olhos. — Obrigado, falou, sem jeito.

— Rico, eu acho que eu quero te beijar — sussurrou, Frederico estremeceu. Estava surpreso, talvez por isso o corpo houvesse se movido, levantou com rapidez e deu passos longos até onde o carro estava. Idiota, quem ele pensava que era para dizer algo assim?

— Qual é a sua, cara? Para de fugir de mim — gritou, correndo para alcançá-lo. — Frederico, droga!

— Eu não estou fugindo. Só quero ir pra casa, pode ser?

— Por quê? O clima estava tão bom — falou, abraçando-o por trás quando conseguiu chegar até o carro. — Merda, merda, merda. Eu passo um tempão pensando em como deveria dar uma iniciativa e você me dá um fora. Ótimo!

Rico calou-se. Não tinha o que falar, o cara pela qual estava a fim gostava dele também e ele estava fugindo. O que tinha na cabeça? Soltou-se do abraço, um gesto inesperado até para ele próprio, e volveu o corpo, ficando cara a cara com o rapaz loiro. Tocou o seu rosto e, lentamente, encostou seus lábios contra os de Pietro, beijando-o de modo afoito.

O garoto de pele negra voltou a abraçar seu corpo, puxando-o cada vez mais para perto, colando os corpos e mordendo o lábio do garoto. Estava feliz, muito feliz. Sorriu quando o beijo acabou e percebeu que os olhos do garoto estavam vidrados em seu rosto. Beijou sua bochecha, o nariz, os lábios. Passou o nariz pelo rosto e o pescoço, sentindo finalmente o cheiro que tanto quis sentir por tanto tempo. E quando voltou a olhá-lo, ainda estava lá, aquele olhar admirado, olhos vidrados em si.

— O que foi? — perguntou.

— Você tem sardas — respondeu, tocando a face do outro com leveza.

— Pois é.

—Pois é. — Sorriu. — E agora?

— Bom, agora, eu vou continuar te beijando até você cansar, o que eu duvido que vá acontecer, mas... —Antes que completasse, Frederico voltou a beijá-lo, talvez pudesse se acostumar a fazer aquilo com ele.


[...]


Pietro não parava de olhá-lo de canto, o que não deveria ser um incômodo tão grande, aprendera a não sentir vergonha dos olhares sobre si no primeiro espetáculo de balé que participou, mas com ele ali, observando-o, não podia negar que o ar havia saído de seus pulmões. Os dedos foram levados aos cabelos do outro, eram tão bonitos. Quase não reparou o sorriso nos lábios do garoto ao seu lado, Pietro tirou a atenção da estrada por alguns milésimos de segundo, selando seus lábios rapidamente.

— Maluco — vociferou Frederico, com mais preocupação do que queria na voz.

— A vida não é nada sem adrenalina.

— Enfia a adrenalina no cu! Você podia ter matado a gente, seu desgraçado.

— E, mesmo assim, estamos aqui, vivinhos da Silva.

Mexeu no rádio, colocando a mesma música de antes, cantarolou junto. Naquele meio tempo, conversaram mais um pouco. Falaram sobre super-heróis e sobre quais superpoderes eles queriam ter. Os dois concordaram que a melhor opção seria voar, aquilo representava a liberdade para eles, sem amarras, livres como um pássaro.

Os minutos se passaram e Frederico percebeu que havia uma caixa de cerveja no banco traseiro do carro. — Por que cê tem essa quantidade de cerveja aqui?

— Ah, era pra ter deixado na casa da Trisha, mas não deu — disse, com um sorriso matreiro, como se o apontasse como culpado por ter esquecido daquilo. — Que noite!

— Que noite — repetiu.

— Descobrimos que você é um super-herói, tem um S no peito e voa por aí com a Marilyn Monroe nos braços.

— Que, no caso, é você — brincou.

— Cala a boca — disse em tom de brincadeira, antes de voltar ao raciocínio. — Eu tenho a luz, que é o farol do carro e a garrafa de bebida.

— E há quem diga que não existe esperança para esse mundo. Mas, olha só, aqui temos o Superman e o Homem-Cerveja.

— Audácia! Devia fazer beber toda essa cerveja por tamanha ousadia. — Riu.

— Não estou reclamando. — Levantou os braços, em sinal de rendição. — O que seria do Superman sem a sua Lois Lane?

Pietro revirou os olhos, enquanto estacionava em frente à casa do garoto ao seu lado.

— Nos vemos amanhã?

— Com certeza. — Riu.

— O que é tão engraçado, posso saber? — Arqueou as sobrancelhas, confuso.

— Sabe o que eu percebi? Você é um Maverick e tá dentro de um Mustang.

— Ah, vai à merda — falou, abrindo a porta. — Você quer falar de quem, hein, Ferrari?

Gargalhou.

— Espera. — E puxou-o para mais um beijo, este que não demorou muito, pois as luzes da casa foram ligadas e o nome de Frederico foi chamado. O garoto saiu o carro, mandando o dedo do meio para o outro.

Pietro sorriu, lembrando do que ele dissera entre beijos, quando estavam encostados no carro. Você brilha. E realmente brilhava, como as estrelas de quem tanto gostava.

We can't live on without the rhythm.

We can't live on without the rhythm.

 

24 de Junio de 2018 a las 03:00 3 Reporte Insertar 1
Continuará…

Conoce al autor

Ellie Blue Apaixonada por café, itinerante como um circo entre as histórias que já leu (e ainda vai ler). Apesar de muito nova parece ter vivido muito tempo. Tantos anos que não sabe se é velha ou jovem. Mas a verdade é que é de muitas eras e não sabe viver sem emoção.

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Neeca Ashcar Neeca Ashcar
Que história docinha, como o Rico e o Pietro forma uma ótimo casal, cheio de ironias um com outro. Eu amei muito, de verdade, agora dica da mana eu fui por intuição de que a história era boa, e não me decepcionei, mas você poderia ter colocado um trecho impactante da história, e depois a letra da música. Só uma pequena dica a sinopse é a porta para as pessoas conhecerem sua história, e as pessoas querem te conhecer como autora. Parabéns a história está linda de verdade! ♥️
25 de Junio de 2018 a las 08:07

  • Ellie Blue Ellie Blue
    Ah, nossa muito obrigada pela leitura, pela dica e pelo comentário! Eu realmente fiquei incomodada com a maneira como deixei a sinopse, mas a verdade é que eu não fazia ideia do que colocar, você me ajudou bastante. Sobre o Pietro e o Rico, eles trocam farpas desde que se conheceram, mas isso porque o Rico nunca admitiria que o Pietro é legal e que gosta dele. Garoto difícil... Mais uma vez, obrigada por tudo. 25 de Junio de 2018 a las 20:41
  • Neeca Ashcar Neeca Ashcar
    AHHHH eu que fico contente de ter ajudado sério, ^^ Então o time de conteúdo do Ink tem uma gama de blogs para ajudar, eu mesmo sou um desastre em sinopse é meio que fui iluminada, tem uma história bacana vou deixar o link é sobre criação, se quiser dar uma olhada, eles postam sempre tipo no esquadrão da revisão, e tbm sempre é legal pq são postados os desafios lá tbm: https://getinkspired.com/pt/blog/38993/tecendo-historias/ E se ainda não faz parte da família Ink no Facebook, seja mais do que bem vinda: https://www.facebook.com/groups/inkspiredbrasil/ Bjoes qualquer coisa pode chamar lá no face 😘 25 de Junio de 2018 a las 22:11
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