Filhos da Lua Seguir historia

rose_quartz Rose Quartz

Há muito tempo, quando a língua dos deuses ainda era entendida pelos homens, dois grandes continentes surgiram. À esquerda, Vidalya. O continente rico, próspero e abundante. Do outro lado, as secas e inabitáveis terras de Sandaria. Dividido em três grandes reinos, Vidalya seguia prosperando. Até que as desavenças entre Humanos e Orcs se tornaram insuportáveis, envolvendo até mesmo o reino dos Elfos numa terrível guerra. Pelo seu povo, o Príncipe Humano luta destemido, ostentando em seus olhos um presente dos elfos. Pelo seu povo, a princesa dos Elfos avança imbatível, provando que seus dons não são apenas lendas. Juntos, Sasuke e Sakura precisam superar suas diferenças e guiar seus povos à vitória, enquanto provam de um perigoso amor proibido. (História em coautoria com Havfrue)


Fanfiction Anime/Manga Sólo para mayores de 18.

#fantasia #magia #guerra #elfos #naruto #sasusaku #universo-alternativo
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O presente da Deusa

Filhos da Lua

Por Rose Quartz e Havflue


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Os cavalos corriam como loucos pelo caminho de destruição que o cocheiro os guiava. A belíssima mulher de longos cabelos negros tremia a cada sacolejar violento que a carruagem dava. Seus braços envolviam com muito zelo a pequena criança que chorava copiosamente em seu colo.

O pequeno tinha as bochechas vermelhas e molhadas pelo pranto sofrido. Os olhos permaneciam fechados, mas que diferença faria?

Tudo o que ele conseguiria ver, com os olhos abertos ou não, seria a terrível escuridão.

— Depressa! — Bradou o homem impaciente ao lado da esposa e filhos.

Ele tentava transmitir calma com sua expressão mais centrada, como se tivesse certeza de que tudo aquilo poderia se resolver. Porém, a verdade é que ele temia o destino de seu pequenino tanto quanto a mãe.

— Fugaku, nós conseguiremos, não é? — A voz chorosa de sua amada se fez presente e machucou seu coração.

— Pai? — O filho mais velho também chamou e, de repente, Fugaku sentiu-se o homem mais impotente do mundo.

Como prometer a ela que tudo ficaria bem? Como confiar apenas em seus achismos? Não poderia se dar ao luxo de prometer paz em tempos de guerra.

— Nós conseguiremos, Mikoto, Itachi... — ele se abaixou até alcançar o ouvido do filho mais novo e lhe afagou os cabelos negros como a noite. — Ouviu, meu filho? Nós conseguiremos. Tudo ficará bem, Sasuke.

O menino fungou e abraçou ainda mais as pernas da mãe. Mikoto nunca pensou que ficaria tão desesperada por seu filho não poder vê-la.

Os cavalos pararam abruptamente e Mikoto engoliu em seco.

— Chegamos, meu rei — disse o cocheiro e Fugaku olhou para Mikoto que, por rápidos segundos, teve um vislumbre de todo o receio que passou pelos olhos do marido.

Ele desceu e se cobriu com uma manta escura o suficiente para fazê-lo se misturar na floresta. Passarem despercebidos era fundamental. Agarrou Sasuke e ele o apalpou desesperadamente no rosto e ombros até que, com a voz baixinha, Fugaku acalmou o filho.

Sasuke passou os braços curtos pelo pescoço do pai e continuou seu choro silencioso com o rosto enfiado entre a manta que o protegia.

Itachi desceu logo em seguida. Seus nobres 1,32 de altura e o peito estufado como um verdadeiro guerreiro que não tinha medo do que estava por vir. Usou outro cobertor para se camuflar e se esconder junto ao pai.

Faria de tudo pelo seu irmãozinho querido.

— Vamos, querida — Fugaku chamou por Mikoto que tinha os olhos distantes perdidos no horizonte.

A visão devastadora de dois reinos em conflito fazia seu estômago embrulhar. Quando aquilo teria um fim?

Percebendo a demora, o cocheiro prontamente se pôs ao lado da porta e estendeu a mão para que ela tivesse mais facilidade na saída. Porém, não era aquilo que impedia Mikoto.

— Minha rainha? — Ele chamou ao perceber que Mikoto nem reagia.

— Eles não nos deixarão entrar.

— Mamãe...

— Eles não permitirão! Já fizemos tanto mal a esse povo! Eles se sentem ameaçados pela guerra, Fugaku. Fomos nós quem os rechaçamos. Eles jamais mostrarão misericórdia! — De repente, todo o esforço que fazia para segurar as lágrimas caiu por terra.

— Ajoelhar-me-ei se for preciso. Implorarei pela clemência. Eles irão nos ajudar. Eles precisam nos ajudar — virou-se decidido. — Mas preciso que minha rainha faça o mesmo comigo.

Mikoto olhou para o marido. Nunca o vira naquele estado. Agarrava-se ao mínimo fio de esperança pelo pequeno garoto em seu colo que tremia de dor e chorava ainda de olhos fechados.

E ela percebeu. Sasuke tinha medo de abri-los e continuar no escuro.

Itachi andou até ela e segurou-lhe uma das mãos. Mikoto suspirou e deixou seus dedos apreciarem o toque do filho.

Determinada, agarrou a mão livre do rei e ambos marcharam para dentro da mata. Quanto mais densa, mais o coração de Mikoto palpitava.

Logo estariam em Hiddenleaf, território élfico.

Fugaku não gostara da ideia de início, mas que outra opção ele tinha? Seu filho havia sido envenenado pelo mais potente veneno conhecido pelos Orcs.

O governante jamais pensara que uma guerra com aquele povo asqueroso poderia lhe render tanta dor, perda e sofrimento.

A rixa que Humanos travavam com outras raças poderia sim ser apenas soberba, porém, quando se tratava dos Orcs, não havia uma só alma que os aceitasse.

Era um povo de guerras, destruição e desgraças. Saqueavam as vilas humanas durante a madrugada, salgavam seu solo, matavam homens, estupravam mulheres e sequestravam crianças. Quando a onda de crimes hediondos culminou numa guerra, Fugaku jurou não descansar enquanto não livrasse Vidalya, Grande Continente, de todo o mal que os Orcs causavam.

Os tempos de guerra eram duros. O povo sofria e a morte rondava a todos como um lembrete doloroso. As tropas começavam a decair, a comida logo faltaria e os recursos se tornariam escassos. Fugaku não poderia deixar que tamanha humilhação se abatesse sobre si. Tinha que reagir!

As batalhas já duravam dois anos e não parecia nem perto do fim. Porém, quando os Orcs decidiram atingir o rei da maneira mais baixa possível, Fugaku só viu uma saída: pedir ajuda a eles.

Elfos.

Era a única salvação para seu reino e para seu filho.

Sasuke, o mais novo de seus herdeiros, sofria na pele as consequências daquela guerra.

Num rápido gosto da vitória que Fugaku sentiu ao derrubar uma pequena vila de Évora, o reino dos Orcs, decidiu que seria propício apresentar aquela terra recém-conquistada aos dois filhos. E, enquanto Itachi olhava tudo com orgulho assim como o pai, Sasuke se encantava ao ver uma fruta bonita e misteriosa que pendia duma árvore esquisita aos arredores.

Era roxa e parecia uma manga bem doce e madura. Comeu com gosto o fruto estranho enquanto o pai se gabava cedo demais.

Naquela mesma tarde, quando tecia planos para um novo ataque, foi comunicado que seu filho mais novo estava, aos poucos, perdendo a visão.

O desespero tomou conta do castelo naquele dia e nos outros que se seguiam. Não havia curandeiro que pudesse descobrir o que diabos tinha acontecido com o pequeno príncipe Sasuke. Ele sofria e chorava e sentia dores insuportáveis.

Quando curandeiros não puderam fazer mais nada, num ato de desespero, Mikoto mandou que chamassem um feiticeiro.

E então veio a notícia. Sasuke havia ingerido venenos preparados pelos Orcs.

Os desgraçados haviam feito questão de envenenar a própria terra para que ninguém mais pudesse aproveitar daquele solo.

Pela quantidade ingerida, Sasuke não morreria, mas ficaria cego em menos de 24 horas.

Sem mais opções, Fugaku só viu uma chance.

Pedir ajuda ao povo pacífico e dotado de poderes médicos além de sua compreensão: os Elfos.

Era exatamente o que pretendiam entrando naquela mata que ficava mais assustadora a cada passo.

Itachi apertava com força a mão de sua mãe. Estava com medo, mas que tipo de irmão seria se demonstrasse fraqueza àquela altura?

As lágrimas de Mikoto já tinham se transformado em arfares de desespero. Quanto mais se perdiam entre as folhas, mais ela tinha certeza de que tudo aquilo seria inútil.

Fugaku parou quando viu uma enorme sequoia. Do solo, quando olhava para cima, parecia que ela alcançaria os céus.

— Chegamos — embalou mais o filho nos braços.

Itachi olhou para todos os lados. Aonde haviam chegado? Não via nada a não ser mato.

— Mamãe, onde estamos? — Perguntou com toda sua inocência pueril.

— Nos limites do território élfico, meu filho. Mas não poderemos entrar se eles não quiserem — explicou com um aperto no coração.

— Ajuda... Eu preciso de ajuda — Fugaku começou. — Eu, rei dos Humanos, governante de Lantharia, imploro por ajuda! Ajuda! — Ele gritava para a árvore, como se ela pudesse ouvi-lo. — Por favor! Eu suplico sua misericórdia!

O orgulho ferido gritava em seus ouvidos, mas ele não poderia ser o rei arrogante que prezava apenas pela supremacia humana naquele momento.

Fugaku caiu de joelhos. O filho em seus braços tremeu com o peito retumbante do pai e a vibração dos gritos desesperados que passavam pela sua garganta.

Do outro lado, uma pequena garotinha de cabelos rosados ouvia os chamados sofridos. Talvez fosse um truque barato para que seu povo desfizesse a barreira mágica que os protegia das desgraças e destruição daquela guerra que Humanos e Orcs travavam, mas quem usaria um truque tão baixo?

Outro grito foi ouvido. Daquela vez, mais choroso. Assustada, ela correu o mais rápido que pôde. Precisava encontrar sua avó. Ela saberia o que fazer.

Quando se cansou de berrar, baixou a cabeça e chorou sobre os cabelos do filho. Os elfos não apareceriam e nem tinham a obrigação de aparecer.

Mikoto sentia as lágrimas voltarem a correr. Seu marido estava ali, caído e derrotado com seu pequeno príncipe envenenado e prestes a perder o dom da visão para todo o sempre. E todo aquele cenário catastrófico, tudo que passavam... Era doloroso demais, humilhante demais. Era insuportável.

Soltou a mão do filho mais velho e correu até o rei caído e o abraçou com todo o amor que podia ofertar.

Itachi viu a mãe, o pai e o irmão arrasados e ajoelhados naquele chão. Como os tais elfos poderiam ser tão impiedosos aquele ponto?

Pisou forte até ficar cara a cara com aquela árvore gigante.

— Ei! Nós precisamos de ajuda! — Gritou. — Ajudem-nos! Por favor!

— Eu imploro! — O grito suplicante de Mikoto atravessou toda a mata.

Ao lado da árvore, Itachi viu uma pequena oscilação. A deformidade no ar começou a crescer, até ficar grande o suficiente para que uma senhora de cabelos cinzentos presos num meio coque passasse por ela. Usava roupas bonitas e simples. O tecido que se amarrava ao seu corpo era leve e os adornos que ostentava eram lindos e a deixavam com uma aura ainda mais encantadora. Pelos braços e panturrilhas, lindas marcas prateadas subiam em padrões delicados pela pele pálida de brilho perolado típico dos elfos. Na testa, um pequeno losango violeta chamava atenção.

— Mamãe! — Ele cutucou a matriarca que chorava e apontou para a senhorinha.

— O quê...

— Venham comigo — a voz, embora trêmula pela velhice, era suave e inspirava segurança.

Mikoto olhou abismada para Fugaku que devolveu o mesmo olhar.

Os elfos realmente atenderiam ao seu chamado?

Mais que depressa, o rei pôs-se de pé e começou a seguir a senhora que atravessou a oscilação e sumiu.

Ele foi atrás sem pestanejar. Mikoto ainda segurou firme a mão de seu primogênito e também atravessou a barreira que os separava da terra de Hiddenleaf.

Itachi fechou os olhos com força antes de ser puxado pela mãe. Sentiu uma comichão gostosa no nariz quando seu corpo passou para o outro lado.

— Itachi, olhe — Mikoto pediu e o filho obedeceu.

Mal pôde acreditar no que via.

Durante toda sua curta vida imaginava como eram as florestas encantadas e bosques mágicos que ouvia das histórias que as criadas liam para si antes de dormir.

E, finalmente, ele estava vendo com os próprios olhos.

A lua era visível no céu pontilhado de estrelas, mas era tudo tão claro que o espantava. Não sabiam qual parte do reino dos Elfos era aquela, mas, de uma coisa tinham certeza, era magnífica.

Fugaku também teria parado para apreciar a beleza se o menino em seu colo não estivesse chorando e tremendo.

— Ora, se não são os governantes de Lantharia — ela não dizia com asco ou qualquer outro tipo de sentimento ruim que muitos Humanos usavam para se referirem aos Elfos.

Fugaku envergonhou-se por alguns segundos.

— Grande Sacerdotisa... — curvou-se o máximo que pôde com Sasuke agarrado a si.

Por mais que não fosse o maior fã do povo élfico, era imprescindível que conhecesse os nomes da nobreza daquele reino e, principalmente, da criatura que o salvaria de seu martírio.

— Chame-me de Chiyo, criança. Então, diga, o que o traz aqui? — Continuou sem rodeios.

O sorriso que ela ofertava era puro e poderoso. Fazia com que Mikoto se sentisse diminuta perante aquela figura que, em sua infinita bondade, lhe estendia a mão sem nem mesmo saber qual era o problema.

— Meu filho! — Mikoto tomou a frente. — Ele foi envenenado. Veneno dos Orcs — viu Chiyo curvar a boca numa careta desgostosa.

Por mais que tentassem evitar conflitos, também tinham sua história com os Orcs.

— Isso é muito sério — aproximou-se. — Dê-me a criança — estendeu os braços para Fugaku e ele hesitou. — Não tenha medo, caro rei. Jamais machucaria criatura tão pura.

Fugaku, ainda com suas reservas, passou devagar o filho para o colo de Chiyo.

Sasuke relutou no começo, mas em segundos desistiu quando ouviu a voz baixa de Chiyo entoar um bonito canto numa língua que ele não conhecia. Cedeu ao carinho que ela lhe fazia nas costas e encostou a testa no ombro da sacerdotisa. A dor ia sumindo aos poucos e dando lugar a uma sensação gostosa.

— Pode nos ajudar, Chiyo? — Fugaku suplicou.

— Sabe, não tinha planos de atender ao seu chamado... — Sasuke se remexeu e ela cantou para ele mais dois versos. — Os Humanos têm sido vis conosco desde que me entendo por gente. Nunca guerreamos, mas é como se sempre estivéssemos a um passo disso — ela olhou para Fugaku com olhos ferinos.

Elfos eram dotados de grandes dons e sabedoria, porém, sempre eram vistos como fracos pelos inimigos.

Fugaku sempre os enxergara como covardes. Assim havia sido instruído a fazer e assim instruía seus filhos.

Ledo engano.

— Por favor, Sacerdotisa. Nós jamais... — cortou Mikoto antes que ela terminasse.

— Tudo bem, minha criança. Sei que não somos queridos por vocês — ela os guiava por uma grande escadaria para dentro de um templo estonteante. — Entendo que representemos covardia para vocês. Não somos ambiciosos como vocês. Os Humanos são arrogantes e orgulhosos demais para amarem qualquer raça que não seja a deles — mais um afago nos cabelos negros do pequeno Sasuke e dois versos sussurrados da canção bonita. — Eu tive medo de permitir que entrassem e fosse uma armadilha.

— Uma armadilha? — Fugaku tentava disfarçar o desconforto ao ouvir aquelas palavras direcionadas ao seu povo.

Porém, infelizmente, não eram mentirosas.

— Temi que pudesse ser uma emboscada dos Orcs para finalmente invadirem Hiddenleaf — virou-se completamente. — Mas como eu poderia ignorar o chamado de uma mãe desesperada e uma criança que sofria tanto? — Olhou de Mikoto para Itachi com afeição e ambos se aqueceram.

— Sacerdotisa... — Mikoto estava sem palavras.

— Venham, vamos cuidar do pequenino — ela continuou a guiá-los por um comprido corredor até entrar num pequeno quarto com um altar simples bem de frente para uma enorme janela dourada por onde a luz da lua entrava e os atingia com toda sua glória.

Uma mulher bonita de vestes muito parecidas com as de Chiyo — com exceção dos adornos mais ostensivos — estava ajoelhada próxima ao altar. Dizia algumas palavras naquela mesma língua estranha que Chiyo usava no cântico. Os cabelos louros escorriam pelas costas e ela apenas soergueu o tronco quando eles entraram na sala.

— Tsunade — Chiyo chamou e a mulher prontamente se virou e curvou-se em respeito.

— Sacerdotisa Chiyo — respondeu ao chamado e Chiyo curvou apenas a cabeça em cumprimento.

— Trouxe os humanos comigo. Precisamos salvar o garoto — apontou para Sasuke com os olhos.

— Entendo, Sacerdotisa. Volto já — e ela saiu apressada pela porta.

Chiyo suspirou e, enquanto entoava a última estrofe da cantiga, colocava Sasuke deitado no altar e ainda enrolado pela manta que Fugaku havia posto sobre ele.

— O que aconteceu com ele? — Perguntou ainda de costas para a família real do reino humano.

— Ele comeu o fruto de uma árvore que cresceu em terras envenenadas. Não foi o suficiente para matá-lo, mas o deixará cego permanentemente muito em breve e não sabemos quais podem ser os efeitos em longo prazo — respondeu depressa.

— Então parece que não são apenas nossas terras que os Orcs andam envenenando... — Chiyo disse com desgosto e Fugaku se surpreendeu.

Então os Elfos também estavam sofrendo ataques? Mesmo com a barreira? Como era possível?

Enquanto Humanos tinham magos e feiticeiros; e Elfos, sacerdotisas poderosas escolhidas por sua deusa, Orcs tinham especialistas em venenos e um conhecimento e variedade em herbáceos que nenhuma outra raça tinha. Muitas vezes, feiticeiros ambiciosos embarcaram em aventuras atrás das lendárias ervas e venenos únicos dos Orcs, mas nunca retornavam.

— Sacerdotisa Chiyo — ouviram o chamado de Tsunade que entrava com as mãos cheias.

Trazia consigo um pequeno pilão de pedra, uma cesta cheia das mais variadas ervas e um jarro dourado.

— Nossa deusa é muito generosa — Chiyo agradeceu e pegou tudo, dispondo ao lado do garoto encolhido no altar. — Ela nos dá habilidades impensáveis apenas para que possamos usá-las em prol não só de nós mesmos, como de toda criatura necessitada... — selecionou a dedo suas plantas e as amassou com o pilão.

Tsunade ajoelhou-se ao lado dela e, de repente, era ela quem entoava um canto hipnotizante.

— Seria egoísmo meu dividir esse dom apenas com quem me convém, não acha, meu caro rei? — riu baixinho enquanto despejava um líquido cor de caramelo dentro do pilão e voltada a amassar.

Fugaku engolia a vontade de rebatê-la, até porque, Chiyo estava certa. Mikoto baixou os olhos envergonhados e Itachi aproximou-se um pouco mais, tentando de tudo para ver o que aquela velhota tanto remexia.

Parou de remexer o líquido espesso que se formava no pequeno recipiente de pedra e o elevou acima de sua cabeça.

Siunaa tämä pyhä eliksiiri ja anna sen parantua, rakastettu Jumalatar.*

Viram-na entornar tudo com cuidado na boca de Sasuke e deitá-lo novamente. Chiyo mudou de posição, ficando em pé e de costas para o luar. Respirou fundo e, enquanto o canto de Tsunade ainda reverberava pelo cômodo, ela ergueu as mãos sobre o pequeno corpo de Sasuke.

Parantua, parantua, parantua!**

O losango em sua testa brilhou e seus cabelos rodopiaram. Os olhos cintilaram numa luz pulcra e as mãos emanaram uma belíssima aura verde.

A plateia via tudo de boca aberta.

Chiyo guiou a mão ainda com a luz verde por todo o corpo de Sasuke e parou ao chegar nos olhos. O brilho tornou-se mais forte e a música, mais alta.

Quando um intenso formigar atingiu o pequeno rosto do garoto, ele se remexeu e apertou as mãozinhas na manta. Receoso, quis chamar pela mãe, mas não parecia dono de suas próprias ações.

Os olhos arderam e ele chorou pouco antes de Chiyo tirar as mãos. Um alívio se abateu sobre o garotinho e ele relaxou todos os músculos retesados de seu corpo.

— Abra os olhos, pequeno — a voz da Sacerdotisa o fez girar dentro da própria mente.

Sasuke abriu os olhos devagar, ainda temendo ver somente escuridão, mas qual não foi sua surpresa ao enxergar o rosto daquela que o curara?

Esticou as mãos para poder vislumbrar os próprios dedos. Sorriu largo com toda sua alegria ingênua.

— Mamãe, papai! — Virou o rosto para os monarcas de sua raça — Posso vê-los!

Mikoto se levantou para correr e abraçar o filho, mas a mão de Fugaku a parou imediatamente.

Um brilho vermelho passou pelas íris escuras de Sasuke, assustando o rei. Porém, tão logo quanto apareceu, se foi.

— O que foi isso? — Perguntou exasperado. — O que fez com meu filho?

Chiyo, por alguns segundos, também pareceu surpresa com aquele tom se manifestando nos olhos de Sasuke.

— Acalme-se, caro rei — puxou delicadamente Sasuke de volta para o leito improvisado. — Nossa Deusa age de maneiras misteriosas... — abaixou-se e beijou os olhos do menino por cima das pálpebras, suspirando em seguida — Seu filho foi presenteado por Ela.

— E o que-

— Na hora certa, saberemos — respondeu a pergunta de Fugaku antes mesmo de ela ser feita. — Pequeno Sasuke, quero que me ouça com atenção. Você recebeu dons maravilhosos pela cura. Aprenda a usá-los com sabedoria. Pode me prometer isso?

Sasuke encarou a figura da senhora doce e tão sábia. Os olhos gentis e as palavras firmes o aqueciam e as mãos trêmulas que seguravam seus ombros pareciam sugar todo e qualquer sentimento ruim.

Ele anuiu, ainda impressionado. Os grandes olhos negros giraram de Chiyo para os pais. Queria o colo da mãe, mas não sabia se poderia sair dali.

— Vá para sua família, pequeno — Chiyo sussurrou e ele correu para alcançar Mikoto.

Aliviada, ela o abraçou com força. Um enorme peso saía de seu peito. Fugaku beijou a testa de sua mulher e repousou a mão nas costas do filho.

— Vovó? — Ouviram baixinho e todos os olhos do local caíram na garotinha tímida que se escondia atrás da passagem.

Os grandes olhos verdes varriam todas as faces dali. Os cabelos rosados estavam decorados com flores e caiam pelos ombros infantis. Ela apertava com força as pedras da parede e girava um dos pezinhos no próprio eixo enquanto esperava pela resposta.

— Sakura, fez o que te pedi? — Chiyo perguntou e ela assentiu depressa, olhando para trás.

Não demorou para que surgissem duas figuras imponentes diante de todos.

A mulher bonita de cabelos dourados e olhos verdes mantinha um leve sorriso na face serena. As vestes exibiam a classe digna de uma deusa. O tecido cintilava conforme o brilho da lua o tocava. As mãos, braços e pescoço eram decorados por delicadas joias que mal pareciam terem sido feitos por mãos terrenas.

O homem ao seu lado, com toda sua imponência, mantinha-se meio passo à frente, pronto para continuar a caminhada até o centro do cômodo. Os cabelos estriados de branco davam indícios de já terem possuído um tom tão rosado quanto o da garotinha que os trazia. Também carregava tranquilidade e sabedoria nos olhos azuis.

Os soberanos de Hiddenleaf estavam ali.

— Trouxe a mamãe e o papai, vovó... — a garotinha acenou com a cabeça e recebeu um afago nos cabelos da avó.

— Que bom que vieram — ela se aproximou do rei elfo. — Seria falta de educação não receber os governantes de Lantharia pessoalmente, não acha, Kizashi?

— O que fazem aqui? — Ignorando completamente a tentativa de amenizar a situação de Chiyo, direcionou-se a Fugaku.

A voz reverberou por todo o local como um trovão. Certamente sabia impor sua majestade.

Fugaku imediatamente ajeitou sua postura. Também era rei e não se rebaixaria ao outro.

— A criança humana foi envenenada, Kizashi. Vieram buscar ajuda — Chiyo, mais uma vez, tentou apaziguar.

— Somos bons o suficiente para curar sua espécie, caro rei? — Kizashi cuspiu e sua esposa o tocou delicadamente no braço, num pedido mudo para que parasse.

As desavenças pessoais poderiam ficar para outra hora.

— Não existem palavras que possam expressar a gratidão que tenho, Sacerdotisa — virou-se para Chiyo como se pouco se importasse com a provocação do outro rei. — Carrego agora uma dívida eterna para com seu povo.

— Pague-a com uma aliança — Chiyo não perdeu tempo.

— O quê? — Mikoto foi a primeira a vocalizar o choque que se abateu sobre todos os adultos ali.

— Não podemos nos aliar a Humanos! — Kizashi recuou e a mulher ao seu lado o reprovou com uma olhada aterrorizante.

— Mas, Mebuki...

— Fala como um intolerante — ela bradou. — Esses não somos nós, Kizashi! — Direcionou-se à Chiyo — Sabe bem o que está sugerindo, Sacerdotisa?

Chiyo fechou os olhos. O selo em sua testa brilhou por alguns segundos enquanto ela caminhava pelo quarto.

— Orcs nunca foram pacíficos. Talvez vocês considerem essa guerra apenas contra eles, mas Orcs veem todos como inimigos. Todos — suspirou, pensando bem no que revelaria. — Nosso reino, o reino dos Elfos, tem uma força vital. E, infelizmente, ela está se esvaindo aos poucos.

— Sacedortisa! — Kizashi a repreendeu e Chiyo, com um longo suspiro cansado, girou as mãos ao redor dos pulsos até que uma imagem se projetasse da luz que emanava de seus dedos.

Uma imponente árvore de grandes galhos e luz própria cintilava para todos os presentes.

Só tinha um problema. Ela parecia doente.

— Sabe que é verdade, meu filho! Nossa terra anda pobre. Nossa colheita já não dá os mesmos frutos. A árvore de Hiddenleaf está se apagando e nosso reino está em jogo.

— Podemos lutar nossas próprias batalhas — o rei franziu o cenho, controlando o máximo possível de seu timbre.

— Não é só o seu povo que os Orcs envenenam — virou-se para Fugaku, desfazendo a imagem em suas mãos. — Eles não podem entrar, mas sabem como causar a destruição. Andam envenenando os arredores de nossa barreira. Nosso contato com a natureza é muito íntimo — resolveu encarar seu filho com os olhos firmes. — Sabe que corremos sério risco de enfraquecer a ponto de perdermos a barreira. E, então...

— Não diga bobagens, Sacerdotisa! — Kisashi se exaltou. — A única maneira de perdermos a barreira é se você... — ela lhe lançou um olhar duro e cheio de um significado que fez o rei arfar. — Mãe...

— O que sugere, Grande Sacerdotisa? — Foi Mebuki quem tomou a frente ao ver que o esposo estava sem palavras.

— Precisamos nos unir. Os dois povos. Iremos combatê-los com ambos os exércitos. Élficos e Humanos. Somos muitos e, compartilhando de nossas habilidades, teremos uma chance de vencer ainda maior — outra vez, ela projetou aquela luz de suas mãos, mostrando a todos a imagem de um campo de treinamento ali mesmo, de Hiddenleaf. — Não seriam apenas guerreiros, mas curandeiros e equipes médicas. Estaríamos um passo à frente.

Fugaku olhou impressionado para o que os soldados elfos faziam. Nunca pensara que um povo tão pacífico pudesse treinar com tanto afinco.

— São seus soldados? — perguntou ao soberano de Hiddenleaf.

— Sim. Nossas tropas estão sempre preparadas desde que a guerra eclodiu entre vocês e os Orcs. Veja, podemos não prezar pelo ataque, mas certamente o fazemos pela defesa — a língua ácida foi prontamente ignorada.

Fugaku repassava algumas ideias em sua mente. Percebera, ao ver a pequena demonstração, que elfos eram, majoritariamente, bons em ataques à distância. O que mais havia visto eram arqueiros e inúmeras engenhocas que, devia confessar, jamais tinha visto na vida.

Seria ótimo ter um exército daqueles ao seu lado. E, levando em conta as habilidades especiais que os elfos tinham, só teria a ganhar.

Por Deus, aquela mulher, em apenas alguns minutos, havia curado a cegueira praticamente permanente de seu filho!

— Pense bem, querido rei. Quem mais precisa desse acordo não somos exatamente nós... — Chiyo ciciou com a voz branda. — Ao fim da guerra, estenderei a barreira para que cubra todo o continente de Vidalya. Nada poderá nos machucar novamente. E quanto a você, meu filho — com a graça e leveza de uma pluma, andou até seu rei e o tocou no rosto. — Não precisaremos mais nos esconder. Teremos a paz que sempre quisemos.

Fugaku olhou para Kizashi e ele também parecia pensar e considerar muito a ideia. Sabia que, embora o exército élfico fosse aparentemente impressionante, o seu era ainda mais incrível. Seus soldados nasciam e cresciam já treinando e lutando por suas posições. Tinha muito orgulho de seu batalhão.

Mas, novamente, se pegou pensando se seria capaz de vencer sozinho quando o inimigo em questão eram os Orcs.

— Seria de enorme ajuda um tratado com vocês, humanos — a rainha disse. — Meu pai almejou a paz entre nossas raças por anos e anos.

— Dois exércitos como os nossos. A vitória estaria garantida — Mikoto segurou o braço de Fugaku, ainda sentindo o aperto de Sasuke em suas pernas.

— Nada me faria mais feliz que expulsar os Orcs de nosso amado continente — com passos curtos, prostrou-se diante de Kizashi. — É mesmo um homem de palavra, caro rei?

Kizashi soltou um riso breve e lhe estendeu a mão.

— Amanhã, quando o sol tocar as primeiras montanhas, anunciaremos o tratado — Fugaku apertou a mão que lhe era ofertada sem titubear.

— Que assim seja.

Chiyo suspirou, aliviada. Porém, ela sabia. Tempos terrível viriam antes que a paz pudesse, finalmente, repousar em seu colo e ter os cabelos acarinhados pelos seus dedos.

— Está feito.

E, com um brilho intenso nos olhos, mãos e marcas que se estendiam por seus braços e pernas, ela desfez a barreira que os separava do mundo externo.

Como ela disse: estava feito.


⸞ ﴾ ⸟


* Abençoe este elixir sagrado e deixe-o curar, amada Deusa.
** Cure, cure, cure.

22 de Junio de 2018 a las 20:01 0 Reporte Insertar 5
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