Cuento corto
9
5.3mil VISITAS
En progreso
tiempo de lectura
AA Compartir

Ato I.

Prefiro ter cerceada logo a vida pelo teu ódio,

a ter morte longa, faltando o teu amor.

   Era um comentário comum dizer que aqueles poços escuros eram vazios. Não havia nada para preenchê-los, afinal, se tudo que eles presenciaram em sua existência foi sangue, dor e ódio. Tão novo era seu dono e já marcado por uma guerra que não era sua, embora lhe fora dito que ele era parte daquilo por ser parte do mundo. Era injusto como nunca havia pedido para existir, e ainda assim era obrigado a participar de tais atrocidades simplesmente por estar… Ali. O preço que pagou por vir ao mundo foi perder o brilho. Os sentimentos que um dia talvez preenchessem tais poços. A essência. As cavidades, na verdade, mal se lembravam de carregar algo que não fosse amaldiçoado e ruim. Porque, por mais que o dia não houvesse sido violento, as marcas ainda estariam lá quando fossem fechados ao fim dele. E elas nunca desapareceriam, dando vida a todo o desespero de novo e de novo.

   Os olhos de Itachi aprenderam muito cedo sobre o que o mundo tinha de pior. A guerra lhe fora arrastada na face de apenas quatro anos de idade como nunca deveria ser nem na de um adulto. A morte era carregada nos dedos infantis, exigindo deles a agilidade e frieza do assassino em que se tornara. A única coisa que prendeu suas lágrimas naquele momento foi o objetivo que tomou para si de mudar aquela visão horrenda para uma de paz, aonde ninguém precisaria matar para continuar existindo. Ele seria forte como jamais ninguém foi e daria um fim àquele massacre sem sentido.

   Os ideais de Itachi estavam ali e sempre estiveram. No entanto, ainda havia tantas dúvidas. A tenra idade nunca lhe fora empecilho ou escuridão que cegasse seu discernimento acerca do que acontecia ao seu redor; não apenas pelo trauma de um campo de batalha sangrento, mas por sua consciência ser naturalmente mais aguçada. O que para as outras crianças eram rivalidades triviais e brincadeiras de pegar, para Itachi era ponderar sobre os conceitos que o cercavam. Mesmo assim, ainda não entendia. O que era vida? O que era comunidade? O que era um shinobi?

   Certa vez um ninja mais experiente lhe respondeu que não havia sentido viver. Decerto não pôde se contrapor a uma verdade disfarçada de opinião que era tão realista que se tornava massacrante; tão massacrante que se tornava insuportável; tão insuportável que Itachi se jogou de um penhasco no mesmo dia. Assim, simplesmente, poderia ter sido seu fim naquela dimensão. Em um segundo ele estaria vivo, em outro morto. Morto? O que era a morte? Ele não poderia responder, pois a alguns segundos do chão que trazia escrito nas marcas ríspidas de vida nas pedras sua certa libitina, salvou-se. “Ninguém quer realmente morrer” foram suas palavras, que nada seriam adequadas ao resto da sua própria vida.

   Em vida, Itachi já foi mistificado. Um prodígio, um exímio ninja, um verdadeiro shinobi. Ora, como poderia ser um shinobi completo se não sabia o que era um shinobi? Ele entendia de acertar shurikens em seus alvos e de perseverança em difíceis jutsus. Mas, por dentro, não passava uma mistura desagradável a ele mesmo de perguntas sem respostas e poços sem luz enquanto não alcançava seus objetivos. No entanto, Itachi era vazio de propósitos e vontades pessoais.

   Até que, de repente, ele o viu.

The night sky once ruled my imagination.

Now I turn the dials with careful calculation.

After a while I thought I'd never find you.

I convinced myself that I would never find you

When suddenly I saw you.

   “Ele vai se chamar Sasuke, como o avô do Sandaime. Já falei com ele”, foi o que disse Fugaku lá longe em sua compreensão. Itachi olhava Sasuke com atenção apenas para presenciar a menor e mais frágil coisa que já havia visto em todos os seus poucos e muitos anos de vida. Uma nova vida. A bochecha mais rosada, a pele mais pálida e o cabelo mais negro em comparação a si mesmo o fizeram perceber que aquele tempo em que estivera no mundo não era nada próximo de sua intensidade e vivacidade. Ele questionou-se sobre o que houvera feito até então, já que nada se comparava ao rebuliço que sentia ao ter a pequena criatura entre os braços pela primeira vez. Os poços tinham com que se preencher, afinal; seu brilho só não havia chegado àquele plano ainda.

   Itachi não poderia regozijar de seu novo status iluminado de irmão de Sasuke Uchiha, no entanto. Muitas de suas perguntas foram respondidas sobre sua própria existência, mas a que preço? As cinzas de toda uma estrutura em chamas chamavam seu nome, e ele se achava no dever de atendê-las. Muito sangue já havia escorrido por suas mãos sem qualquer remorso antes. Além do reflexo da vida do irmão mais novo nos olhos, nada mais interpelaria as suas falhas empáticas. Entretanto, a situação enquanto shinobi se agravaria a um ponto em que seu próprio sangue, e muito dele, tivesse de manchar sua consciência.

There's a memory of how we used to be

That I can see through the flames.

I am hypnotized as I fantasize

Forgetting lies and pain

But I can't go back.

The ashes call my name.

   O ódio, e o rancor provindo dele, foi uma arma mais poderosa contra Sasuke do que qualquer kunai e jutsu que poderia usar. Itachi conhecia seu irmão mais que a qualquer um; eles tinham uma conexão que julgaria divina, se acreditasse em algo além da afiação de sua espada. Arrancar-lhe a família e a admiração para consigo o faria forte. Não havia espaço no mundo shinobi para os fracos, e Sasuke havia de sobreviver. Era o legado que Itachi Uchiha, afinal, havia escolhido deixar para trás. Todavia, era uma via de mão dupla aquilo que chamavam de vida. Se podia ferir Sasuke com ódio, ele o podia destruir por inteiro com apenas uma lágrima. Nem mesmo a vida do primeiro homem que matara ou de toda a sua família lhe pareceu tão significante quanto um segundo do pranto daquele cuja vida material tentava proteger do jeito mais grotesco possível.

   Os ideais pacíficos que uma vez basearam seus passos como ninja caíram em desgraça assim que Sasuke nascera, e ele soube disso desde seu primeiro soar de choro. Se antes suas perguntas não respondidas eram parte de uma mistura homogênea com seus tão mencionados poços obscuros, agora a luz proporcionada pelo seu irmãozinho tolo cegava todos os objetivos e vontades pessoais que ele nunca teve. Nunca houvera julgado suas faltas como motivos para preocupações, mas a ruína trazida pelo desespero do preenchimento fora a responsável pelo seu sacrifício. E essa conclusão a que chegara não era nem mesmo um lamento; era um sincero agradecimento.

   “Obrigado, Sasuke. Ser capaz de viver como seu irmão mais velho me fez… feliz”.

   A bagunça nunca fizera mais sentido antes. E o certo era extremamente errado. A sorte de Itachi era que aquelas noções mundanas e humanas demais não se aplicavam aos seus sentimentos por seu irmão mais novo, os quais cultivava como o mais fiel camponês que necessitava daquela colheita para lhe servir de alimento e sobreviver; e necessitava mesmo. Não havia mais conceitos aos quais se apegar, afinal. Não havia comunidade de sangue ou de sociedade para a qual voltar. Só havia o restante de existência a ser arrebatado pelas mãos daquele que, por dentro, decretou destruição.

   A ciência mal dava conta de sua doença. Suspeitava fortemente — e acreditaria nisso se, mais uma vez, acreditasse no divino — dela ser um castigo do acaso pelas atrocidades ainda atreladas à sua existência. O sangue que tossia era aquele que havia arrancado em excesso de seu próprio povo e as marcas avermelhadas visíveis na pele eram resultado do ódio que nutria por si próprio. Nem mesmo Sasuke Uchiha o odiava mais do que ele mesmo; conquanto, ainda o amava mais do que desejava ser punido por seus pecados.

   Nada em suas duas décadas de vida valeu mais a pena que a façanha de se manter vivo até morrer pelas mãos do único Uchiha conhecidamente vivo além de si mesmo. O egoísmo de tê-lo deixado vivo para sofrer as corrosões da solidão e dos efeitos de sua traição e a justiça por seu próprio clã seriam expiados pelas mãos de Sasuke. Secretamente, Itachi ansiava pela morte — sem mais se questionar sobre o que ela era senão o fim de todas as coisas — e vê-la tão próxima nem o fazia ter vontade de continuar atuando como o vilão da trajetória de seu irmão. Não o fez no último momento. Fraquejou. Faltou-lhe ódio. Ele poderia apenas ter se dado por vencido e desabado ali mesmo, o peso da doença e do ódio de Sasuke todo em seus ombros. Mas… por uma última vez… precisava do brilho de seu irmão refletindo nas cavidades agora não tão mais negras pela névoa da literal cegueira. Estava condenado à eterna danação, de qualquer forma, então um último gesto do quão decrépito em seu âmago poderia ser não era nada. Cambaleou até perto do responsável por seus maiores fracassos e únicas vitórias. Itachi viu seu sangue contrastar tão vívido contra a tez alva e o assombro aparente. O sorriso em seu rosto pelo medo que Sasuke tinha da morte era de puro contentamento; se ele a temia, correria para longe dela e demoraria muito para se encontrar com ele depois de tudo, se é que havia um depois. As últimas palavras, no entanto, apesar de desprovidas de lamentos, eram cheias da saudade de ir a algum lugar em que seu pequeno irmão não existia.

   “Desculpe, Sasuke. Essa é a última vez”.

Aqui, sim, aqui mesmo fixar quero meu eterno repouso,

e desta carne lassa do mundo sacudir o jugo das estrelas funestas.

Olhos, vede mais uma vez; é a última.

Um abraço permiti-vos também, ó braços!

Lábios, que sois a porta do hálito, com um beijo legítimo,

selai este contrato sempiterno com a morte exorbitante.


6 de Junio de 2018 a las 00:44 0 Reporte Insertar 1
Leer el siguiente capítulo Ato II.

Comenta algo

Publica!
No hay comentarios aún. ¡Conviértete en el primero en decir algo!
~

¿Estás disfrutando la lectura?

¡Hey! Todavía hay 1 otros capítulos en esta historia.
Para seguir leyendo, por favor regístrate o inicia sesión. ¡Gratis!

Ingresa con Facebook Ingresa con Twitter

o usa la forma tradicional de iniciar sesión