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A
Amanda Andrade


Amigo é aquele que te critica na frente e te defende pelas costas, que te diz “eu te amo” sem correr o risco de ser mal interpretado e que faz piadas de problemas apenas para te ver sorrindo. Amigo é aquele que dá e não espera retorno, que vibra nas suas vitória e que te dá um pedacinho de chão quando você precisa de terra firme. Amigo é o que eu era para você e o que você era para mim, até meu coração decidir intervir.


Fanfiction Romance adulto joven Sólo para mayores de 18.

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Fuscas vermelhos, cabeças de alces e tortas de banana

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História escrita por TitiaNargom

Minha vida aos sete anos de idade era perfeita; não tinha quase nenhuma responsabilidade e fingia sonseira para que mamãe me desse as respostas dos deveres de casa da escola, depois de ela ficar impaciente com a minha desatenção para com as tarefas escolares. Também me divertia durante todo o dia; brincava da hora em que me levantava de manhã até o horário de dormir, em especial com os meus amigos que moravam no mesmo bairro que eu. Por termos bicicletas, podíamos, juntos, nos aventurar além da vista das mães, conhecendo o vasto mundo que nos cercava. Tinha um videogame de última geração que ganhei de natal no último ano e uma coleção quase completa de réplicas em miniatura de carros antigos. Eu sabia de cor a ficha técnica de cada modelo, no mesmo momento em que não me recordava da tabuada de multiplicação. Estava certo dos meus propósitos e objetivos; eu queria ser mecânico e colecionador de carros, sendo assim, era inútil estudar ciências naturais e português no colégio, por isso eu não era um estudante particularmente dedicado.

Outra coisa que eu amava fazer era me arriscar elaborando planos infalíveis para furtar as deliciosas tortas de banana feitas por minha vizinha, Naomi. Ela as colocava para esfriar na bancada da janela e o vento se encarregava de espalhar o aroma doce pela rua, até alcançar o meu olfato sensível. Com o nariz arrebitado, a barriga murmurando e a língua lambendo os beiços, meus amigos e eu nos escondíamos em seu quintal e segurávamos um copo de vidro entre a orelha e a parede da casa, aguardando o momento perfeito para um sequestro alimentar bem-sucedido. A Sra. Naomi morava sozinha e gostava de cantarolar as músicas de abertura das novelas que acompanhava, facilitando o nosso trabalho de adivinhar em qual instante estaria seguro meter a mão pela janela e interceptar a torta de banana com açúcar tostado. Embora fosse uma missão aparentemente simples, sempre dávamos um jeito de estragar tudo, e a parte mais divertida era correr aos tropeços pelo gramado temendo sermos descobertos e castigados. No fim, sempre valia a pena encher o bucho com a adrenalina percorrendo as nossas veias.

Por muito tempo a Sra. Naomi me fez acreditar que os meus planos de furtos eram realmente bons e que ela nunca suspeitara que moleques arteiros passavam noites em claro maculando esquemas infalíveis para colocar as mãos e as bocas em suas saborosas tortas de banana. Nunca parei para pensar no quão sem sentido era ela as assar e colocá-las todos os dias no mesmo lugar, no mesmo horário, mesmo sabendo que no final do dia alguém (nós) as teria roubado. Eu estava enganado, agindo conforme a idade. A Sra. Naomi sempre soube que éramos nós a pegar-lhe as tortas e não o gato velho e gordo da Dona Hirama o qual cupávamos. E mesmo sabendo, ela continuou, por anos, confeccionando com muito carinho e dedicação a sua especiaria culinária para nós. Pensando bem, eu deveria ter sido um vizinho mais agradável, mas agora não adianta eu me lamentar.

Porque um dia eu não senti o doce aroma de banana exalar da casa vizinha. Como estava habituado àquela essência açucarada, senti-me estranho, com uma sensação ruim que deixou as minhas palmas geladas pelo restante do dia. Dormi mal naquela noite, temendo que o pior tivesse acontecido, e aconteceu. Dali em diante, os dias subsequentes aparentavam possuir o mesmo tom cinza e mórbido. Fiquei por uma semana especulando com meus amigos o motivo do sumiço da Sra. Naomi, reprimindo as ideias mais absurdas e trágicas por ser uma criança otimista e esperançosa. Passados sete dias, resolvi perguntar à mamãe se ela tinha conhecimento do motivo do desaparecimento de Naomi. A princípio ela me pedia, com uma expressão tristonha, que não me preocupasse, depois me mandava ir brincar na rua. Logo passou a acrescentar no final das frases que Naomi havia viajado e que em pouco tempo estaria de volta para me preparar as suas deliciosas tortas.

Mas os dias foram passando, transformando-se em semanas e até em meses e, ainda assim, Naomi não retornou. Fui me esquecendo pouco a pouco do seu sorriso coloroso, da olência do açúcar queimado que tinham as janelas de sua casa, da entonação terna que possuía em sua voz, dos palitos floridos que mantinham sua cabeleira grisalha em um coque alto cercado de volume. Os fragmentos de sua imagem foram se dispersando gradativamente; a cada dia eu me lembrava menos dela. Criei o hábito de me sentar ao meio-fio e olhar para o final da rua na esperança de vê-la ressurgir em seu fusca vermelho, buzinando e anunciando que, embora eu não me recordasse de seu rosto, ela nunca se esquecera do meu. No entanto, ela nunca apareceu e eu nunca me acostumei com a sua ausência. Ficava me questionando sobre os motivos que teriam feito-na ir embora para sempre; talvez tivesse optado por morar em um bairro sem crianças para que suas tortas se mantivessem seguras, talvez estivesse se aventurando ao redor do mundo para experimentar as melhores receitas de tortas já inventadas! E por longos meses as minhas incertezas perduraram, até que minha mãe decidiu ser honesta. Duas palavrinhas eram capazes de explicar tudo, duas palavras que, juntas, fizeram-me chorar e soluçar com desespero por vários dias seguidos. “Ela morreu”.

Eu preferia ter sido enganado para sempre do que saber que ela estava apodrecendo debaixo da terra. Perguntei como havia sido a morte, se ela tinha sentido dor antes de partir, e mamãe me explicou que ela sofrera um infarto fulminante enquanto fazia o que mais amava: assava uma torta. Não obtive nada além dessa aclaração vaga, pois mamãe não queria ter de explicar ao filho de sete anos como o findar de uma vida pode ser solitário. Então, tive o meu primeiro luto, o mais doloroso e impiedoso possível. Tentei afugentar a dor em falhas tentativas de recriar tortas de banana, ao menos para poder me recordar do aroma doce que eu já havia me esquecido. Mas a cada erro eu me sentia mais miserável. Demais, aceitei a morte dessa minha amiga próxima e prometi jamais provar outra torta enquanto vivo estivesse.

Ao completar oito anos de idade, descobri que uma família estava de mudança. A casa de Naomi seria ocupada por inquilinos estranhos que retirariam sua presença de lá sem que tivessem esse direito. Pintariam as paredes, podariam as flores do jardim, cortariam a grama, se livrariam dos móveis provectos da antiga dona e substituiriam o aroma de banana assada pelo odor artificial de lavanda. As únicas lembranças que me restavam da Sra. Naomi estavam prestes a serem retiradas de mim para sempre, e eu não quis permitir. Deste modo, decidi expulsar quem quer que estivesse se mudando. Se soubesse como a antiga inquilina era amada por sua vizinhança, talvez desistiria da casa e procuraria por uma outra.

Caminho sorrateiro pela calçada, prestando atenção nos meus pés descalços para não tropeçar. Há um caminhão grande de mudança estacionado defronte à casa, e a logomarca da empresa que o mantém – uma casinha sorridente com grandes olhos azuis e um polegar erguido – me deixa ainda mais nervoso. O desenho parece debochar da situação, como se dissesse para mim que Naomi não existe mais e que eu não posso fazer nada para mudar isso. Por mais que seja verdade, não acho que uma ilustração idiota tenha o direito de ridicularizar a minha antiga vizinha. Fico tentado a chutar a lataria do caminhão até que a casinha baixe o dedo e tire do rosto o sorriso debochado, mas me coso à árvore mais próxima do lote ao ver as duas portas da caçamba do caminhão abertas. Um homem comprido e corpulento retira da abertura algumas mobílias: uma mesinha de centro, duas poltronas e um jarro com flores sem pétalas, com apenas os ramos desnudos. Eu o fito à distância; ele é, no mínimo, dez vezes o meu tamanho, então não posso simplesmente ir até ele convidá-lo para uma briga mano a mano. Eu seria massacrado e não quero morrer sem antes adquirir ao menos um veículo colecionável. Puxo o ar pelo nariz, estufo o peito, capricho na careta raivosa e marcho até o homem que se mantém de costas para mim. Cutuco-o assim que o alcanço e digo firme, como um minisoldado de guerra:

— Com licença, senhor!

Próximo a mim, o homem aparenta ser ainda mais gigantesco e forte e invencível, tendo eu que mirar a face para o alto para que eu veja seu rosto. Eu solto o ar que mantinha aprisionado nos pulmões e desfaço a postura decidida. A expressão do senhor é ameaçadora, e sei que a minha é igual a que fazem meus amigos nas reuniões de pais do colégio, ou a que faço quando tenho de ir ao templo doar minhas roupas aos monges – pessoas carecas me assustam. Noto que em sua mão há um objeto de decoração: a cabeça empalhada de um grande alce presa a um suporte de madeira, em que os ramos de sua galhada atingem amplas proporções. É a primeira vez que vejo um animal selvagem morto tão de perto; os que vi vivos foram os dos Jardins Zoológico e Botânico de Hagashiyama, no terceiro aniversário de falecimento do papai. Com a vista voltada para os olhos foscos da besta, esqueço-me da motivação que me levara a abordar o homem que aparenta estar ocupado.

— Olá, rapazinho.

O senhor equilibra o artefato em uma única mão para me cumprimentar com a outra. Eu hesito, mas cedo sem me demorar.

— É muita gentileza sua vir nos dar as boas-vindas. — Ele prossegue, acalorando um sorriso. — Estou descarregando este caminhão há mais de duas horas e ainda não tinha visto o rosto de ninguém. Quer me ajudar a carregar isto lá para dentro?

— Eu posso? — Pergunto com um fiapo de voz, decerto hipnotizado pela fera selvagem que aparenta ser capaz de voltar à vida a qualquer instante. Imagino a cabeça se mexendo por vontade própria, rebramando ferozmente, lamentando pela dor de ser uma cabeça sem corpo.

— Claro que pode! Mas ela é bem pesado, acha que consegue?

Eu vibro com a possibilidade de ter em mãos a cabeça bestial. Sou um garoto forte e saudável, capaz de levantar um caminhão se tentasse. Talvez não um caminhão, talvez nem mesmo um carro. Acho que consigo levantar a mamãe antes de ela almoçar. Em jejum, tenho certeza! Então, eu tomo em meus braço o item de decoração que tem quase o meu tamanho e caminho com as pernas trêmulas para dentro da antiga casa de Naomi. Tendo o peso depositado sobre mim, penso no quão injusto eu estava sendo por querer brigar com uma pessoa que provavelmente nunca conheceu a Sra. Naomi. Ela havia falecido e a casa já não a pertence mais. Ter um vizinho vivo poderia acabar sendo melhor do que ter um lote abandonado com a mata crescendo pelas rachaduras das paredes e pelos buracos do piso. Deixo o grandalhão no chão da sala e me sinto revigorado por ter conseguido carregá-lo sem a ajuda de ninguém. Sinto-me mais homem e mais forte, embora meus músculos oscilantes tentem me dizer que continuo sendo o mesmo menino franzino de oito anos. O dono da casa aproxima-se em sequência, segurando uma pilha de quadros por debaixo dos braço. É a primeira vez que vejo tantos.

— Já tinha visto um alce antes, garoto? — Ele pergunta enquanto descarrega as pinturas com cuidado.

— Não, senhor.

— Não gosta de alces?

— Eu não sei, senhor.

— Que pena, aposto que não tem interesse em saber como cacei esse bichão aí.

Eu olho para ele sem disfarçar a minha euforia. Não acredito que uma pessoa seja capaz de caçar uma fera daquela e ainda continuar inteiro. Imaginava que caçadores tivessem cicatrizes no rosto lhes atravessando a sobrancelha e o olho, parcialmente cegos pelas feridas profundas. O homem ri e se diverte com a minha expressão; logo estou sentado ao lado dele com as pernas cruzadas e os ouvidos atentos às fascinantes histórias sobre caçadas com escopetas, alces sanguinários e cães farejadores. Ele tem tanta propriedade e confiança em suas palavras que acredito que ele tenha vivenciado tais experiências, embora sua fisionomia não sugira ser ele do tipo bravo e aventureiro. Fico maravilhado com cada detalhe, encantado com cada palavra e deslumbrado com o desenrolar dos acontecimentos, todos surpreendentes. Desejo que o dia nunca chegue ao fim para que eu possa passar o restante da minha vida ouvindo suas histórias que mamãe jamais me permitiria ouvir, por serem violentas e por conterem um palavrão ou dois. Mas o sol se põe contra a minha vontade, e sou obrigado a retornar para casa.

— Já está tarde, é melhor você voltar para casa antes que sua mãe fique preocupada.

Eu suspiro, sem nenhum argumento em mente para rebater sua sugestão.

— Não fique desanimado. Somos vizinhos agora, poderemos repetir a dose de hoje sempre que você quiser. Aliás, qual o seu nome?

— Sasuke, senhor.

— Sou Kizashi.

Por uma segunda vez nos apertamos as mãos, agora para se despedir.


•●•●


Assim que amanhece, corro até a cozinha e tomo meu missô com vegetais em uma única golada. Mamãe costuma prepará-lo para o café da manhã quando se sente indisposta, ou quando está de mau-humor. Ela me olha com seus grandes olhos pretos; o cabelo ainda despenteado pela noite de sono. Aparente querer me dizer algo importante, talvez me revelar qual sonho tivera. Estou habituado a ouvi-la queixar-se de seus sonhos incomuns, certa vez me disse que sonhou ser um azulejo de banheiro e que o vapor do chuveiro a fizera sentir bastante frio. Noutra, contou-me ter sido o tijolo de uma casa abandonada, e murmurou algo sobre o sonho ser o reflexo da solidão que havia em seu coração.

Ergo minha tigela e revelo tê-la esvaziado. Ela sorri, parecendo satisfeita, e eu saio de casa para visitar o senhor Kizashi. Pondero sobre a maneira em que devo tratá-lo; somos amigos, afinal? Eu nunca fiz amizade com os adultos, pois eles aparentam ter problemas de mais para uma criança compreender. Vejo eles sorrindo para pessoas de quem não gostam e brigando com as que amam, e acredito que por não concordar e por não ver sentido nessas atitudes, sou um mero garoto com muita coisa para aprender. Enfim, minhas reflexões não bastam para aquietar a minha euforia. Sorrio abertamente, com o coração cheio de expectativas.

Entretanto, deparo-me com o caminhão de mudança com as portas arreganhadas e, ao invés de um homem grandalhão com cabelos espetados, uma garota pequena, que aparenta não ser nem mais velha nem mais nova do que eu. Meus pés se estagnam, como se eu tivesse me esquecido de como é caminhar. O pé vai para frente ou para traz? Devo inclinar o corpo? Os braços devem ficar parados ou acompanhar os movimentos das pernas? As perguntas se desfazem quando vejo a menina transitar pela caçamba. Eu não gosto de garotas, assim como os meus amigos. Elas são estranhas, como se viessem de um outro planeta. Se brincamos com carrinhos, elas brincam com bonecas de olhos esbugalhados e vestidinhos cor-de-rosa. Se jogamos videogame, elas fingem ser mulheres preocupadas em cuidar da casa e dos filhos – que, no caso, são bonecas feias que choram quando lhes aperto o estômago. Em suma, as garotas servem apenas para me causar desconforto.

A raiva flui e se expande por meu corpo no mesmo tempo em que a vejo recolher itens leves que estão espalhados pela parte traseira do caminhão. Quero ajudar o senhor Kizashi com a mudança para poder ouvir um pouco mais de suas histórias, mas a presença daquela menina se mostra uma ameaça ao conceito de dia perfeito. E a um passo de retornar para casa, contemplo a menina, que tenta miseravelmente segurar sozinha uma pilha de dezena de livros, tropeçar na borda da caçamba e despencar, atingindo o chão com a cabeça. Ela não hesita em chorar; berra como se tivessem lhe arrancado todos os membros, assim como ocorrera com o alce empalhado, e eu corro em direção a ela para ajudá-la. A proximidade me permite ver um longo corte em sua testa que despeja sangue, e eu torço o nariz.

— A sua cabeça abriu! — Eu aviso, e ela grita ainda mais alto, com muito mais fervor.

— Que houve? — Ouço Kizashi perguntar de sua casa.

Ele corre em direção a nós, e o alívio de saber que ele continua sendo o meu vizinho me adormece o corpo.

— Meu amor, o que aconteceu? — Pergunta ele com euforia, tateando todo o corpo da menina que não cessa a choradeira.

— Ela tropeçou e caiu do caminhão — explico; embora eu a odeie por conseguir estragar o dia que eu pretendia passar com Kizashi, não acho justo ver ele brincando de adivinhação, dizer o que aconteceu acaba sendo mais maduro do que continuar calado. Ele a ergue em seus braços e mete a mão nos bolsos, vasculhando desde os da camisa aos da calça.

— Preciso levar ela ao hospital, droga! Onde estão essas malditas chaves? — A mão se mantém no ritmo de mergulhar e submergir das partes das roupas que funcionam como pequenas bolsas utilizados para a guarda de objetos, mas se interrompe ao provocar um som metálico do molho. — Sabe onde tem um por aqui?

— Sei, sim. Posso ir também?

Ele nem hesita ao concordar com a cabeça muitas vezes antes de correr à garagem e pressionar repetidas vezes o controle que faz o portão erguer-se. Entramos em seu carro, um feito que me ocorre pela primeira vez. Eu costumo achar irônico eu ser um amante de carros, possuir uma coleção vasta, porém incompleta de réplicas de carros em miniatura e estudar todas as fichas técnicas de cada invenção de quatro rodas que ocorrera pelo mundo e, ainda assim, nunca ter dado uma volta em um. Mamãe não possui dinheiro para nos comprar algum; vivemos da pensão nos deixada por papai, que basta tão somente para encher a nossa geladeira com o necessário. Um carro é um luxo que não podemos nem ter, nem manter. Eu não culpo mamãe ou a pressiono; ela ainda não se sente pronta para buscar por um emprego, tem crises de choro quando se depara com situações e objetos que a lembrem de papai e tem pânico de assaltantes, por mais que nenhum já nos tenha feito algum mal. Moramos em um bairro tranquilo, é incomum haver ocorrências de furtos e roubos, entretanto, os dados oficiais da polícia não bastam para tranquilizá-la. Aliás, um policial em especial faz questão de lembrá-la de que está segura sempre quando tem folga do trabalho. Ele vem até nós fardado, entrega-me um brinquedo ou dois e pede com educação para entrar, para tomar um pouco de chá. Mamãe gosta da companhia dele; diz que ele a faz sentir-se protegida, mas sei que se tranca no banheiro e chora quando o agente se vai. Não posso dizer com certeza que ela gosta dele, mas tenho certeza de que eu não gosto nem um pouco. O velocímetro sobe em constância, e eu aprecio cada detalhe do veículo.

— Fiat Tempra de mil, novecentos e noventa e um, turbo de cento e sessenta e cinco cavalos com velocidade máxima de duzentos e doze quilômetros por hora. Ar-condicionado digital, freio a disco nas quatro rodas com ABS e bancos com revestimento de couro. — Digo em cochicho, reparando nas minúcias do sedã que remetem aos dados que possuo em uma enciclopédia sobre veículos automotores que guardo (escondo) debaixo da cama, para ler quando chega a hora de dormir.

— Sasuke? — Chama o senhor Kizashi, e eu me sobressalto no banco.

— Senhor?

Checo rapidamente se eu havia feito algo de errado, como esquecer-me de colocar o cinto ou passar do endereço do hospital por desatenção.

— Você parece conhecer sobre carros. – Eu suspiro em alívio. — Isso é ótimo! Acho que você e eu nos daremos muito bem.

Em sua face há um sorriso amigável que em nada me desconforta. Aparenta felicidade pela recém-descoberta e eu me permito sorrir como ele, louvado por tê-lo conhecido. Os adultos costumam me tratar como uma criança boba, mas não ele, nenhuma vez. Sinto como se dali em diante a nossa amizade fosse se tornar muito mais sólida, e fico irrequieto com a possibilidade. A menina deitada no banco traseiro, soluçando e chorando baixinho, já não me incomoda tanto, porque sou eu quem está recebendo os cuidados do vizinho.

Ao chegar no hospital, Kizashi leva a garota nos braços até o pronto-socorro, sendo atendido sem demora por um enfermeiro que me permite acompanhá-los depois de muita insistência do senhor Kizashi. Sento-me em um banquinho no canto do quarto e deixo de prestar atenção nas palavras e ações do enfermeiro, com a mente tomada pelas histórias fascinantes que eu ouvi no dia anterior. A riqueza dos detalhes ainda é fresca em minha mente, facilitando-me reprogramar em imagens mentais as cenas mais impactantes que envolvia tripas, cascos e arcadas dentárias afiadas como navalhas. O atendimento médico dura minutos que mais parecem horas intermináveis, e a demora me entedia. Quando finalmente acaba, o enfermeiro suspira e diz:

— Pronto.

Pronto? O que isso significa? Pronto, ela está morta ou pronto, ela vai sobreviver, mas o rosto ficará deformado para todo o sempre e não há cirurgia que o conserte? Fico confuso, e o enfermeiro acompanha o senhor Kizashi para o lado de fora do quarto. Não posso entender o que está acontecendo, mas isso não me impede de ficar chateado. A atenção de Kizashi está completamente voltada à menina chorona, enquanto que eu sou posto em segundo plano. Estreito os olhos até a menina deitada na maca e percebo que ela ainda respira. Há uma seringa enfiada na veia de seu braço, presa à pele por um pedacinho de esparadrapo e algodão. É interessante ver como um líquido transparente desce de um saco plástico, que se mantém erguido por um suporte metálico, e se infiltra em seu corpo por uma agulha. Imagino que tipo de líquido é aquele. Será que é água? O enfermeiro sabe que está colocando água ao invés de sangue no corpo da paciente dele?

— Quem é você? — Pergunta a menina, e vislumbro um par de írises verdes se focarem em mim.

É desconfortável tê-la me olhando; minhas mãos ficam inquietas e eu as coloco sobre o colo, uno os dedos e coso as costas ao canto das paredes que se encontram atrás de mim. Em suas bochechas alvas há um leve rubor em tom nacarado e marcas secas das lágrimas que outrora escorreram por sobre elas. Desejo em silêncio que Kizashi retorne logo para que eu não precise conversar com uma menina, mas ela pergunta:

— O gato comeu a sua língua?

Eu bufo, cruzo os braços e torço o nariz. Por que ela quer conversar? Aliás, por que eu deveria conversar com ela? Sobre o que falaríamos? Bonecas? Vestidinhos? Sem chance!

— Aposto que ficou mudo por causa do sangue, seu garotinho medroso! — Dispara, cheia de si, e eu grunho, impaciente.

— Cale a boca! Não é nada disso! Sua… Sua chorona! Você estragou o meu dia e por isso não quero falar com você.

A menina abre a boca como se quisesse gritar comigo por eu ter sido rude, mas torna a fechá-la. Ainda deitada, ela se vira na maca de modo a ficar de costas para mim e permanece em silêncio. Reflito por um instante se eu, de fato, havia sido rude e reviro as orbes nas pálpebras por estar pensando que ela estava certa e eu, errado. Limpo a garganta e bato um joelho no outro por vezes até perguntar:

— Levou algum ponto na cabeça?

Ela sacode os ombros e se volta para mim.

— Pensei que tivesse dito que não queria conversar.

— E não quero — afirmo, ficando novamente incomodado. Ela torna a socodir os ombros e fica um instante mínimo em silêncio.

— E que tal brincarmos, então?

— Nem morto que eu vou brincar de boneca com você.

A menina ri, se senta na maca e retira uma revistinha em quadrinhos de um dos bolsos do casaco do pai que está pendurado na armação de metal.

— E quem falou em bonecas?

13 de Mayo de 2018 a las 12:39 1 Reporte Insertar 1
Continuará… Nuevo capítulo Cada 15 días.

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Rayna Cabral Andrade Rayna Cabral Andrade
aaaa, essa história parece ser bem fofa. Amei! s2
6 de Octubre de 2018 a las 17:52
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