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Depois do massacre de seu clã, Kurapika achava que mais nenhuma outra morte poderia o abalar. Claramente, ele estava errado. Um trágico acontecimento o obriga a deixar a busca pelos olhos escarlates temporariamente de lado enquanto ele assume uma nova missão. Para encontrar a verdade, Kurapika mergulha ainda mais fundo no submundo do crime organizado, descobrindo da pior maneira que a vingança é um caminho sem volta.


Fanfiction Anime/Manga Sólo para mayores de 18. © Personagens e universo Hunter x Hunter (infelizmente) NÃO são de propriedade da autora. Publicação sem fins lucrativos. Proibida a cópia sem os devidos créditos. Personagem Original e o enredo são de minha autoria :)

#crime #mistério #deathfic #hxh #ação #hunterxhunter #kurapika
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Vendetta

   O gosto de sangue inundou a garganta de Kurapika no momento em que ele caiu no chão. Tudo ficou em silêncio por um ou dois segundos, antes da explosão de gritos da platéia o trazer de volta para a realidade.

    Ele ficou alguns instantes deitado, se recuperando do choque inicial. Em seguida, levantou o rosto. Cuspiu no chão uma mistura de sangue com saliva e olhou para cima. O adversário que o tinha acertado estava a poucos passos de distância, agitando os braços no ar, incitando a torcida. E era ovacionado cada vez mais forte.

   O barulho era ensurdecedor, e parecia deixar o espaço — um subsolo, sem janelas e mal iluminado — ainda mais apertado. E abafado. Muito abafado. Kurapika podia sentir o suor escorrendo da cabeça, das costas, de todas as partes do corpo. Mesmo sem camisa, o calor era insuportável.

   Ele levantou e limpou os lábios machucados com as costas da mão. O oponente lançou um olhar de deboche e riu da insolência de Kurapika em querer continuar a luta. Kurapika podia ouvir um zumbido perfurante no fundo do ouvido e o lado direito do rosto doía, mas sua determinação não havia mudado em nem uma vírgula.

   O homem à sua frente posicionou os braços em guarda. Tentava simular a postura de um boxeador profissional, ainda que lutasse sem luvas ou qualquer outro tipo de proteção. O corpo era pelo menos o dobro do de Kurapika — em tamanho e músculos — e ele era claramente o favorito da platéia que lotava o espaço em volta do ringue improvisado.

   Quando o lutador partiu para cima de Kurapika novamente, ele esquivou para o lado e fugiu do ataque. Escapou da sequência de socos com facilidade, fazendo o máximo para não aparentar qualquer habilidade fora do normal. Não podia acabar a luta tão rápido, por mais que quisesse. Precisava cativar o público aos poucos — e sem levantar suspeitas. Naquele momento, ele era apenas mais um desafiante e nada mais. Uma pessoa comum.

   A torcida gritava, eufórica, a cada movimento. O boxeador continuava avançando com uma série de jabs, mas Kurapika desviou de cada um deles. E a medida em que ele desviava, mais intensos e rápidos vinham os golpes. Kurapika podia perceber a ansiedade de seu oponente em acabar com a luta ainda no primeiro round, em levá-lo a nocaute o mais rápido possível.

   — Isso não vai funcionar pra sempre, seu merdinha — o lutador falou enquanto tentava encurralar Kurapika em um dos cantos da arena.

   E, ao perceber que realmente ficaria encurralado, Kurapika deu um impulso para o alto e saltou com precisão por cima do adversário. Girou no ar e terminou o pulo às costas dele, aparando a queda com os joelhos dobrados e as mãos apoiadas no chão.

   A torcida se silenciou na mesma hora. O boxeador se virou estupefato. E Kurapika percebeu que tinha se excedido.

   Ele se levantou devagar, endireitando o tronco. O mundo parecia ter congelado, com todos os olhos grudados em Kurapika. O brutamontes permanecia mudo, o encarando com uma expressão tola, como se não tivesse entendido o que tinha acabado de acontecer.

   Até que despertou do torpor e soltou um urro raivoso. Investiu novamente contra Kurapika, que dessa vez preferiu ficar parado aguardando o golpe. O soco o atingiu em cheio nas têmporas e Kurapika viu tudo girar ao cair mais uma vez com um estrondo sobre o tablado.

   A plateia foi a loucura.

(...)

   A maior preocupação de Kurapika eram as lentes de contato. Elas seriam necessárias para disfarçar os possíveis olhos vermelhos — recurso que ele só usaria em caso de emergência — mas ele temeu que elas houvessem caído em algum momento depois dos socos. Ele precisou checar discretamente durante o intervalo para ter certeza de que elas ainda estavam no lugar.

   Ele tinha apenas um minuto antes do próximo round — que ele pretendia que fosse o último. No canto do ringue, Kurapika estava sozinho. Limpou o sangue do rosto com as mãos da melhor maneira que conseguiu e tentou sentir se algum osso havia quebrado. Fazia tempo que lutava sem o auxílio de Nen.

   Encarou o chão, evitando todos os olhares da plateia. Não eram muitos: a maioria continuava com sua atenção voltada apenas para aquele que consideravam o único possível campeão. Mas alguns olhavam com desconfiança para o novato daquela noite, provavelmente ainda tentando explicar como aquele rapaz franzino e aparentemente sem nenhuma aptidão para luta havia saltado com tanta destreza sobre o oponente.

   — Aqui, toma.

   Kurapika olhou em direção à voz. Por trás das cordas do ringue, uma jovem de cabelos castanhos amarrados em um rabo de cavalo baixo lhe entregava uma garrafa d’água. Usava uma boina cinza e roupas escuras. Dava para perceber que ela estava tentando se mesclar à plateia sem chamar atenção, mas o seu rosto preocupado destoava e muito da animação dos demais.

   — Você veio, Lena — ele disse, pegando a garrafa. Abriu e jogou todo o conteúdo pela garganta.

   — Vai mesmo levar isso adiante? Seu rosto está um horror!

   Kurapika devolveu a garrafa vazia.

   — Eu devo isso ao Leorio.

   O sinal tocou, chamando os combatentes para a segunda rodada.

(...)

   Não era apenas Kurapika que estava disposto a encerrar a luta naquele round. Seu adversário parecia muito mais ansioso do que antes, atacando com vigor e em intervalos bem mais curtos. Em compensação, sua defesa agora estava muito mais aberta. Na pressa em nocautear Kurapika, o boxeador se descuidava.

   Kurapika manteve a estratégia de se desviar das investidas. Mesmo ainda se sentindo levemente zonzo por causa do calor insuportável e dos socos que propositalmente se deixou tomar, ele ainda conseguia concentrar sua atenção nos punhos velozes do oponente. Precisava ser mais rápido agora, mas ao mesmo tempo, mais mecânico: os movimentos do pugilista estavam óbvios e previsíveis. Era fácil saber por onde ele tentaria atacar.

   Assim que conseguiu abrir uma curta distância, Kurapika colocou seus próprios punhos em guarda pela primeira vez. Reativou seu Nen, concentrando-o na mão direita. Ninguém pareceu notar qualquer diferença.

   Ele duvidava que o oponente fosse usuário de Nen. Que sequer desconfiasse da capacidade de Kurapika em matá-lo com um único golpe, se assim desejasse. Mas essa não era sua intenção. E Kurapika só teve um segundo para moderar seu poder de ataque antes de desferir o primeiro golpe na medida certa.

   O soco de Kurapika acertou com precisão a mandíbula do homem. A torcida vibrou com aquele contra-ataque ousado, que tomaram como um último gesto de desespero antes do final inevitável. O adversário pareceu desnorteado, mas logo se recuperou. Rugindo de raiva, avançou para Kurapika. Os espectadores vibraram ainda mais, na expectativa do massacre que o loiro sofreria.

   Mas o homem nem chegou a tocá-lo novamente. Com dois socos cruzados e um gancho, Kurapika o levou a nocaute. O lutador caiu desfalecido e foi preciso três pessoas para arrastá-lo para fora do ringue.

   A plateia estava muda mais uma vez.

(...)

   — Qual o teu nome mesmo, rapaz?

   Kurapika hesitou.

   — Você ouviu no microfone. Acabei de ganhar a última luta — respondeu, evasivo. O rosto estava razoavelmente inchado, avermelhado em alguns pontos. Havia um corte perto da sobrancelha que ainda vertia um filete de sangue e ele sentia o maxilar arder. O cabelo estava completamente úmido e desalinhado.

   O homem sentado na sua frente o estudou por alguns instantes, apertando os olhos. Tinha a barba por fazer e a ponta dos dedos amareladas pela nicotina do cigarro que fumava. Ele tragou e soltou a fumaça sem se dar ao trabalho de virar o rosto em outra direção. Estava sentado a uma pequena mesa de madeira, estrategicamente localizado perto da escada que dava acesso àquele subsolo.

   Ao lado dele, de pé, outro homem, alto e quase tão musculoso quanto o lutador que tinha acabado de enfrentar, vigiava a multidão. Trajava terno, tinha olhos argutos e um rosto angular. Permanecia calado, como se não tivesse o menor interesse na conversa. Ainda assim, Kurapika tinha certeza de que ele estava absorvendo cada detalhe do diálogo. Tinha a postura e a discrição típica de um segurança particular. E não era o único: Kurapika tinha reparado em pelo menos mais um segurança do lado oposto do salão, encostado na parede com a mesma vestimenta e postura.

   — Tu é novo aqui, não é? Foi indicação de alguém? — o fumante perguntou.

   — Eu só quero meu dinheiro pela luta.

   O homem riu. Tinha os dentes ainda mais amarelados do que os dedos.

   — Muito bem — E ele tragou novamente enquanto abria a gaveta da mesinha.

   Tirou um bolo de notas e contou rapidamente. Fez uma anotação em um caderno puído que tirou da mesma gaveta e entregou o dinheiro para Kurapika.

   — 5 mil Jenny¹. Parabéns pela sorte, novato. Quer tentar de novo semana que vem? Tu pode ser nosso novo campeão.

   Kurapika pegou o dinheiro e o recontou em silêncio.

   — As lutas acontecem toda semana?

   — Isso. 5 mil Jenny é o prêmio, mais uma porcentagem das apostas. É que ninguém costuma apostar muito em quem vem pela primeira vez, sabe como é — ele justificou, com um sorriso cínico — Mas se conseguir conquistar a torcida, tu ‘tá feito. Vai chover dinheiro na tua mão.

   — Vem muitos novatos aqui?

   — Ah, sempre tem uns rookies, sabe como é. Mas nem todo mundo é bom assim que nem você. Tem uns que chega a dar pena, uns muleques que acho que nunca deram um soco na vida — ele riu, exibindo os dentes amarelados mais uma vez — Todo mundo quer grana rápido. E aqui é um ótimo lugar pra conseguir — ele fez uma pausa enquanto tragava o cigarro mais uma vez — Sabe como é, né?

   Kurapika concordou. Aquele lugar parecia ter o mesmo sistema da Arena Celestial, só que com zero glamour. Com certeza uma boa opção para aqueles que não conseguiam se qualificar para os torneios da Arena ou não tinham dinheiro para se deslocar até lá.

   — E então, posso te colocar na lista pra semana que vem, campeão?

   — Ah, sim, por favor. Todas as lutas precisam ser marcadas com antecedência?

   O homem balançou a cabeça enquanto pegava outro caderno na gaveta.

   — A maioria sim. Às vezes aparece um desafiante de última hora, aí a gente dá um jeitinho de encaixar também. E tem gente que bate ponto toda semana. Tipo esse sujeito que tu derrubou.

   — Entendi.

   O homem abriu o segundo caderno. Percorreu algumas páginas e parou em uma datada para dali uma semana. Alguns nomes já preenchiam as linhas.

   — 500 Jenny — falou, levantando os olhos para Kurapika.

   Kurapika tirou algumas notas do maço que tinha acabado de receber e depositou na mesa para o pagamento da taxa. O homem pegou as notas e as jogou na gaveta.

   — Ok, boa sorte, meu chapa!

   Kurapika agradeceu e se afastou. Lena o aguardava no topo da escada, perto da saída. Assim que a alcançou, entregou o bolo de notas para ela.

   — O que é isso? — a jovem perguntou, olhando sem entender para as cédulas presas por um elástico que tinha nas mãos.

   — Pra você. Eu não quero. Vamos.

   Kurapika abriu a porta, sendo recebido pelo ar gelado da madrugada. Ainda estava sem camisa, mas quando Lena o perguntou se não estava com frio, ele negou. Por dentro, Kurapika ardia em chamas.

(...)

   Kurapika estava quieto enquanto Lena cuidava de seus ferimentos mais tarde naquela noite. As coisas tinham saído conforme o planejado, mas aquilo não era motivo de comemoração e nenhum dos dois parecia particularmente animado com o resultado. Até mesmo Lena, geralmente tão tagarela, estava mais comedida com as palavras.

   Ainda assim, Kurapika estava satisfeito.

   — A maioria dos machucados é superficial. Você está com um corte na gengiva que já está estancando, mas esse do supercílio, não sei, talvez devesse ir ao hospital levar um ponto.

   — Você não pode fazer isso?

   — Eu só estou no primeiro ano da faculdade! Ainda não sou médi…

   Ela se calou, mordendo o lábio. Kurapika aquiesceu. Sabia o que a jovem tinha acabado de lembrar, pois ele também tivera a mesma lembrança. Na verdade, a lembrança nunca o havia deixado. A própria presença de Lena o fazia se recordar constantemente do amigo, e ele tinha certeza que produzia o mesmo efeito na garota. Era inevitável.

   — Sinto falta de Leorio — Lena acabou falando depois de um tempo — Queria que ele estivesse aqui.

   — Eu também.

   Trocaram poucas palavras depois disso. O velório de Leorio, algumas semanas atrás, ainda estava fresco demais na memória de ambos.

7 de Mayo de 2018 a las 01:46 0 Reporte Insertar 2
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