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senhorasolo Elane Santiago

Duas almas destinadas uma para outra. Eles se amaram no primeiro segundo em que se viram. Reencontraram-se um tempo depois, e os sentimentos foram despertados. Uma conexão como aquela que compartilharam era impossível de ser esquecida.


Historias de vida Todo público. © Autoria

#Destino #Amor #Akai ito
Cuento corto
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Amor à primeira vista

O verão estava em sua reta final, faltando pouco mais de uma semana para encerrar. Entretanto, vivia num país em que é verão praticamente o ano inteiro. Exceto pela região sul, onde as temperaturas são mais baixas, predominava por todo o território o clima quente, fazendo jus a letra da canção de que morava num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.

Mas como todo brasileiro, ela reclamou do calor de trinta e três graus centígrados. E aqui, reclamar das temperaturas é tão clichê quanto um provérbio antigo. Tanto que, quando fizera intercâmbio no Canadá por um ano e meio, ao ser perguntada sobre o que mais sentia falta do Brasil, ela sem pensar respondeu: do calor e de reclamar do calor. Brincou dizendo, na ocasião, que a justificativa para o povo brasileiro ser tão “caloroso” era influência do próprio clima sobre a personalidade das pessoas.

Era uma quarta-feira comum, como todas as outras; e assim como nos primeiros três dias daquela semana, fazia calor. Pela manhã ela foi à faculdade, voltou para casa, cumpriu o restante da rotina. Uma rotina até monótona, poderia dizer, porque nada de diferente aconteceu. Até às quatro e vinte e cinco da tarde.

O irmão caçula estava de aniversário, e por conta disso a mãe resolveu fazer um bolo para comemorar. Comprou todos os ingredientes, mas esqueceu os limões. Dizia que era essencial para a receita as raspas de casca de limão, então mandou que a filha mais velha fosse ao mercadinho na rua de baixo e que comprasse os limões para ela. A jovem de vinte e um anos, tomada por uma preguiça que nem da cama queria levantar, tentou convencer a mãe que não era necessário, porém a mais velha foi categórica: ou ia ou não fazia o bolo, e se não fizesse o bendito bolo, o irmão caçula ficaria magoado com ela pelo resto da vida.

“Tolice!” – pensou a jovem, pesando o argumento da mãe. Mas por fim resolveu ir, apenas para não contrariá-la.

Trajava um macaquinho leve, curto e florido, calçando chinelos brancos e com os cabelos castanhos presos num rabo-de-cavalo alto. Meteu as mãos nos bolsos da roupa e ficou mexendo nas moedas porque gostava do barulho delas juntas, batendo umas contra as outras. No final da rua era possível ver o mar ao longe, e a praia, onde alguns poucos banhistas aproveitavam o fim da tarde. Nos finais de semana a praia ficava lotada.

Caminhou tranquila e rapidamente pela calçada, até que o viu.

Ele era um turista, um homem talvez dois ou três anos mais velho do que ela; era negro, de olhos escuros e penetrantes, lábios grossos capazes de sussurrarem segredos e promessas envolventes ao pé do ouvido; o seu cabelo era raspado e também ostentava uma barba rala. Vestia uma bermuda verde e camiseta branca, e também calçava chinelos.

Viram-se no mesmo segundo. Ambos desaceleraram o passo e fitaram-se como se há muitos anos se conhecessem e aquele fosse algum tipo de reencontro. E a sensação era realmente semelhante a esta, tanto que os dois poderiam se perguntar se de fato se conheciam não fosse pela certeza que já tinham de que não.

Não se conheciam, nem os nomes sabiam.

Ela sentiu as mãos suarem de repente e interrompeu a dança das moedas no bolso. Sentiu também como se mil borboletas estivessem bailando dentro do seu estômago e ficou muda.

O turista apenas a encarava, compartilhando das mesmas sensações. Seu coração bateu mais forte e mais rápido e o cérebro simplesmente não funcionou como deveria.

Ninguém disse nada.

Com um pouco de esforço, usaram o restante de razão que ainda lhes tinha e seguiram cada um o seu caminho.

Ele não resistiu a vontade de olhar para trás e quando fez isso, ela fez o mesmo. Corada e tímida, a garota virou o rosto e seguiu o seu caminho, agora caminhando ainda mais rápido. Ele seguiu andando de costas, observando o balançar dos quadris dela ao andar, até quando bateu as costas e a cabeça contra um poste. Massageou a cabeça dolorida e distraiu-se nesse momento; quando olhou de novo, ela já havia sumido. Era aquele o seu último dia na cidade, voltaria para sua terra natal pela manhã da quinta-feira e nunca mais veria a moça bonita de olhos castanhos claros que roubou sua atenção e coração.

A mulher não o viu quando voltou para casa. Nem sabia se o veria novamente, mas algo dentro de si anelava por isso.

No dia seguinte ela foi à praia, passeou pelo seu bairro e pela orla. Fez isso todos os dias até desistir. Não o veria nunca mais.

***

Noites de sábado eram sempre a mesma coisa para ele. Sair com os amigos, ir a alguma festa ou balada, ou simplesmente ficar num barzinho, que foi o escolhido da vez. E naquele dia era muito especial, porque era dia de jogo da seleção brasileira pela Copa do Mundo.

Todo o bar estava decorado em verde e amarelo. Os fregueses vestiam camisas da seleção, as mulheres usavam cores da bandeira nacional nas sombras da maquiagem e nos esmaltes nas unhas. E a expectativa de todos era grande, porque Brasil e Alemanha se enfrentavam novamente depois do inesquecível 7 a 1.

Ele escolheu uma das mesas ao centro. Insistira em chegar mais cedo para conseguirem um lugar bem em frente ao grande televisor. Os dois amigos que o acompanhavam reconheceram que não fizeram mal ao chegarem mais cedo.

O bar estava lotado. O jogo estava no primeiro tempo. O Brasil já tomara dois gols, mas mantinha a maior posse da bola. Pelo bar e fora dele, onde mais mesas foram adicionadas e mais uma televisão para atender a demanda, pessoas bebiam e conversavam, falando sobre o jogo. Algumas apostas à respeito de qual seria placar eram feitas.

Sentado ao centro, entre os dois amigos, ele estava com os olhos focados a maior parte do tempo no televisor, mas também olhava para os outros, pois seus ouvidos estavam também atentos à conversa.

Entre risadas e goles de cerveja, ela passou.

Passou bem em frente a ele, e não o viu.

O homem parou de ouvir os amigos e o locutor do jogo, parou de beber, parou de sequer prestar atenção ao ambiente ao seu redor. Seus olhos agora eram dedicados somente a ela.

Era ela. Tinha que ser ela!

Mesmo cabelo castanho, levemente ondulado, mas diferentemente da primeira vez, agora estava solto. Mesmos olhos marrons hipnotizantes, agora com as pálpebras pintadas com uma fina camada de sombra verde, com um delineado fino e azul por cima. Mesmos lábios bem desenhados e sedutores. Mesmo rebolado dos quadris.

Era ela! A que viu pela primeira vez no litoral. A mulher da sua vida!

Ela parou junto ao balcão, do outro lado do bar, e encostou-se ali, iniciando uma conversa com outra mulher, que provavelmente era uma amiga.

— Paulo? Paulo! – chamou o amigo sentado no lado direito.

— Hã? O quê? – olhou-o meio confuso. – Desculpe-me, não prestei atenção, o que dizia?

Lembrou-se de que antes estavam falando sobre os bolões para o jogo. Rael, o que o chamou, estava descaradamente torcendo pela Alemanha, e apostara quinhentos reais na derrota do Brasil. O outro, Fernando, era mais patriótico, dizendo que aquela era a chance da revanche, e que a seleção venceria, mesmo que o placar fosse apertado.

— Não é atoa que não prestou atenção. – retrucou Rael – Vimos o mulherão que passou por aqui e te deixou sem ar. – riu e tomou um gole da caipirinha em sua mão.

Paulo sorriu sem graça, abaixou a cabeça um momento e depois levantou-a olhando em direção onde ela estava. Permanecia lá, conversando com a outra mulher e olhando para o telão.

— É muito bonita mesmo. – comentou Fernando, olhando para ela – Se você não for investir, diga logo porque me interessei.

Paulo encarou Fernando com um olhar mortal. O amigo simplesmente riu da cara dele. Olhou para a televisão onde os jogadores do Brasil corriam com a bola para a baliza do adversário. Galvão Bueno narrava cada passe da bola, citando os nomes de cada jogador envolvido. O bar animou-se gradualmente. Quando o atacante chutou de pé esquerdo para a baliza, Fernando e Rael ficaram de pé ao mesmo tempo, assim como muitas outras pessoas no estabelecimento. E a bola acertou em cheio o canto direito da rede.

Uma festa foi feita. Todos gritando “gol!”, o primeiro do Brasil no jogo. Assovios, gritos, palmas e sons de apitos encheram o local. Do lado de fora, um dos frequentadores soltou fogos de artifício na rua.

Passada a comemoração, a animação de todos aumentou. Agora estavam bem mais esperançosos com a vitória, mas o próprio comentarista do jogo falava que aquilo foi apenas uma injeção de ânimo, que ainda faltava muito tempo para o jogo encerrar e que a Alemanha ainda podia vencer. E estava vencendo, com um gol de vantagem.

Paulo olhou novamente para a mulher do outro lado do bar. Sorria alegremente e ainda não tinha notado ele ali. Quem sabe até tenha o visto, mas não o reconheceu. Pensou que talvez ela nem se lembrasse dele. Mas não acreditava nisso. Uma conexão como aquela que compartilharam, há poucos meses atrás, era impossível de ser esquecida.

— Por que não vai lá falar com ela? – Rael disse.

— Bem...

— Vai lá, o máximo que pode receber é um não. – complementou Fernando.

Paulo fitou os dois. Sorriu e decidiu-se. Na primeira vez, deixou ela ir embora e achou que nunca mais fosse vê-la. Agora tinha uma oportunidade e não ia deixá-la passar.

— Se me dão licença... – levantou-se e deixou-os.

Caminhou até onde ela estava. A mulher estava agora encostada no balcão, e para a felicidade de Paulo, sozinha, de costas para ele, pelo que não o viu chegando.

Ele respirou fundo e disse:

— Reconheceria você até a mil milhas de distância.

Sua voz era confiante, o tom mediano. E pela proximidade da boca dele com o ouvido dela, mesmo com todo o barulho do bar, ela o ouviu. Ele passava na fala uma intimidade como se já fossem amigos de longa data. A moça virou-se então, e reconheceu-o imediatamente, confirmando o que ele já suspeitava: não o viu. Até aquele momento.

A mesma conexão do litoral se fez presente naquele bar, naquele exato minuto. De novo, os corações aceleraram, as borboletas foram despertadas e faziam cócegas no estômago, os olhos se atraíram e se apaixonaram pela segunda vez.

Era inegável cada sentimento, cada tremor e cada suspiro.

— Você... – ela disse, sua voz era rouca e baixa – É você.

— Então se lembra de mim?

— Sim... – ela estava visivelmente nervosa. Logo, Paulo temeu que estivesse a assustando. – Eu me lembro de você, daquela quarta-feira. O turista que vi na rua.

— Pensei que jamais fosse vê-la novamente. – ele sorriu para ela. Seria maluquice afirmar que sentiu saudade? Tentava demonstrar que não estava mal intencionado e também estava pronto para se desculpar mediante qualquer coisa.

— Eu também. – ela confessou – Não o vi mais...

— Aquele era meu último dia de férias, infelizmente. Mas aqui estamos nós de novo, e não posso deixar de perguntar o que faz em São Paulo.

— Mudei-me para cá porque consegui um emprego. – respondeu.

Paulo sorriu novamente. Não conseguia parar de fitar os olhos da moça. Tão linda...

— Como se chama? – finalmente perguntou, dando um fim a fadiga que o atormentou por meses.

— Chamo-me Gabriela. – ela também sorriu. E Paulo se apaixonou mais ainda. O som do nome dela foi cravado na mente e não iria esquecê-lo.

Gabriela...

Sussurraria esse nome nos seus sonhos.

— Eu sou Paulo. – apresentou-se também.

Ela estendeu a mão, ele a segurou...

— Muito prazer em conhecê-lo... De verdade. – deu um risinho.

...Ele depositou um beijo leve no dorso da mão da jovem mulher, sem abandonar os seus olhos.

— O prazer é todo meu.

Ele não soltou a mão dela, nem ela se importou com isso. Olhou para as duas mãos juntas e para o homem novamente. Sentia uma estranha sensação de conforto e segurança. Como se segurar a mão dele fosse a coisa mais certa que fez em toda a vida. Queria jamais soltá-la.

— Não é estranho isso? – disse Gabriela.

— O que?

— É como se nós nos conhecêssemos.

— Também tenho essa impressão. Talvez seja de outra vida.

Ela riu. Não acreditava em reencarnação, mas quem sabe a explicação fosse outra.

— Acho que... Foi coisa do destino. – ela sentia um pouco de vergonha. Era estranho dizer aquilo a quem é praticamente um estranho. Mas não o considerava estranho. – Acho que estávamos destinados a nos conhecermos.

Ela abaixou a cabeça para não ver sua reação. Não o viu abrir um sorriso genuíno. Era tímida e foi assolada por ansiedade.

Paulo disse:

— Concordo. Concordo plenamente.

Olhos nos olhos outra vez. Dessa vez ele queria beijá-la.

— Já que estamos nessa conversa sobre destino, posso dizer uma coisa louca?

— Sim. – respondeu Gabriela.

— Tenho certeza absoluta de que você é o amor da minha vida.

Sorrisos tímidos da parte dela. Olhos brilhando em ambos. E cabeças se aproximando lentamente.

De uma hora para a outra, o maior sonho de Gabriela tornou-se a concretização daquela frase, de que fosse ela o amor da vida de Paulo.

E seria.

No mesmo instante em que as bocas se tocaram para um beijo profundo, lento e apaixonado, todo o bar explodiu em comemoração mais uma vez por mais um gol do Brasil no jogo.

22 de Marzo de 2018 a las 18:25 0 Reporte Insertar 3
Fin

Conoce al autor

Elane Santiago Não sei como vim parar aqui. Só queria viajar na TARDIS ao lado do 8º Doutor, conquistar Westeros com meu sabre de luz, me juntar aos Vingadores depois de ter reunido todas as esferas do dragão e conhecido os Beatles. Mas virei uma escritora fracassada viciada em café.

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