O Amanhecer da Raposa Seguir historia

u2969821159 Júlia Benning

Um jovem e triste rapaz, com uma vida familiar conturbada e conectado incomumente à uma inusitada criatura. Preso entre a crença e a realidade, ele prefere esquecer aquilo que na verdade é a sua esperança.


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##sobrenatural ##japão ##kitsune ##raposa ##lenda
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O Amanhecer da Raposa

Todos os dias eu olhava pela janela, mas nunca mais havia voltado a vê-la.

Eu era apenas uma criança na época em que a vi pela primeira vez, através da pequena janela do meu quarto. Lembro que havia muito barulho em minha casa, sempre havia, meus pais não eram o melhor par de amigos que alguém já viu. Tentando me distrair eu fazia tsurus obstinadamente, queria chegar até mil deles e assim poder fazer um desejo.

Eu desejaria a paz.

O barulho vindo da cozinha apenas crescia e as minhas pequenas mãos não conseguiam mais trabalhar ordenadamente à medida em que minha ansiedade se elevava. Meu tsuru rasgou em minhas mãos e eu parei. Exausto emocionalmente, deitei minha testa sobre a mesa, e estiquei minha pequena mão até tocar a estatueta de Amaterasu que pertencera à minha avó, pensando em como gostaria de sumir. Foi então que, no profundo silêncio do meu desespero eu ouvi um barulho como nunca havia antes.

Seria um animal?

Num dia mais silencioso, eu certamente ignoraria qualquer que fosse a fonte do som, mas, naquele momento, certamente eu seguiria o simples brilho de um vagalume, desde que me levasse para longe daquele tormento. Levantei-me desajeitadamente de minha escrivaninha e me ajoelhei na cama, esticando o corpo para enxergar o lado de fora através de minha pequena janela.

Senti que meu coração explodiria.

A rua estava deserta, o que era comum àquela hora da noite, e talvez fosse por isso que caminhasse tão bela.

Kitsune. a palavra escapou de meus lábios infantis com sobressalto e adoração.

Minha avó me contava histórias, histórias sobre raposas mágicas, como poderiam ser más ou boas, inimigas ou fiéis companheiras. Eram tantas aventuras narradas pela minha avó e eu mal podia respirar ao testemunhar com meus próprios olhos a beleza daquele animal, tão alvo quanto a neve que caía.

Rapidamente contei suas caldas, eram nove.

Ela olhou para mim, olhou dentro dos meus olhos e eu podia jurar que estava sorrindo, mas não durou por muito tempo. Ela voltou a traçar seu caminho pelo calçamento coberto de neve e eu me desesperei. Bati no vidro e a chamei, queria pedir que me levasse embora, queria pedir que me levasse até Inari, a deusa a quem servia como mensageira.

Eu queria... queria pedir qualquer coisa. Mas não consegui, a raposa foi embora. Jogando-se em meu colchão, cobri a cabeça com o travesseiro, eu queria espantar o barulho ao redor. Chorei até cair no sono.

E então, a vi novamente.

Era uma pequena estrada, ladeada por cerejeiras e o chão pintado em rosa, pelas pétalas que caiam, talvez estivesse em um parque. Ouvi o barulho mais uma vez. Lá estava ela, do outro lado da estrada, sentada numa postura invejável, ela erguia as seis caldas formando uma linda coroa ao redor de sua cabeça. Num impulso eu corri pelo chão róseo de cerejeiras e para o meu espanto, a raposa me esperou. Freei minha corrida antes que tropeçasse em sua figura tão magnífica. Ofegante, eu depositei ambas as mãos sobre meus joelhos e me deixei respirar um pouco, ela não parecia querer ir a lugar algum. Fechei os olhos por um momento.

Estava na sua presença, o que faria agora? Eu tinha muitos pedidos, mas kitsunes não são assim, não é?

Senti o toque gentil de dois dedos no centro de minha testa. Surpreso, eu levantei a cabeça e no lugar do animal, eu vi a mulher mais linda do mundo. Ela sorria para mim com os negros e longos cabelos trançados descansando sobre um dos ombros cobertos pela seda laranja de seu kimono, que era da cor do alvorecer. Sua face, perfeitamente delineada, era um mistério. Meus olhos infantis arregalaram-se com tamanho deslumbre, mas, principalmente, porque eu sentia que a conhecia.

— Iahiko. — Sua voz era doce e tranquila — Nos encontramos novamente na ciranda da vida. —

Pisquei algumas vezes.

— Meu nome é Yato. — Corrigi inocentemente.

Ela gargalhou.

— Muito bem, Yato. Senti sua falta. — Num movimento delicado ela tocou o próprio colo de onde pendia um lindo medalhão redondo, adornado de pérolas e pedras preciosas.

Hoshi-no-tama, a joia da raposa, pensei, mais uma vez lembrando do que me contara a minha avó. Observei atentamente, enquanto ela retirava o medalhão de seu delicado pescoço e pendurava ao redor do meu.

— Cuidarei de você, como um dia cuidou de mim. — Ela disse em tom profético, beijando-me a testa.

Acordei ofegante, não sabia por quanto tempo havia dormido, mas a minha casa agora, estava mergulhada no mais confortável dos silêncios, enquanto o dia nascia lá fora. Não havia colar em volta de meu pescoço, mas o lugar em que a kitsune tocara a minha testa permanecia quente. Em minha tenra idade, não cogitei estar louco, apenas voltei a me deitar, acreditando que era profundamente especial.

Muitos anos se passaram desde então, estou terminando a faculdade agora e escrevo mangás para conseguir meu sustento, é exaustivo, mas me sinto bem, ao menos estou longe do barulho que me perturbava.

E mesmo assim, eu nunca a esqueci. Minha pequena janela agora é outra, mas ainda a busco em todo o lugar que vou, em toda a rua que passo. Sinto minha testa arder e busco pela face mais linda que já avistara, meu pescoço pesa com o medalhão que nunca havia estado em meu pescoço de verdade.

Toda a minha obra era sobre ela. De certa forma, minha vida era guiada por alguém que, muito provavelmente, não existia. Havia sido fruto da minha mente jovem e perturbada.

Naquela noite eu saí muito mais tarde que o normal do trabalho, estava revisando os quadros da próxima edição de “Akatsuki no Kitsune” que são extremamente importantes. Iahiko finalmente, após muitas batalhas épicas, reencontra Kitsune. Os leitores irão amar realizar o sonho que eu nunca realizei: voltar a vê-la.

E foi assim, rápido como fluíam meus pensamentos, que eu senti mãos muito fortes e mal-intencionadas empurrarem-me pelas costas. Sem tempo para reagir, apenas fui capaz de colocar ambas as mãos no chão, na tentativa de amparar minha queda. Virei-me rapidamente e vi a figura que me agredira: um homem muito grande, truculento, não pude reconhecer suas origens, mas, certamente não era meu conterrâneo. Ele gritou para mim palavras que eu não entendi e então, chutou-me as costelas algumas dolorosas vezes.

Tomado pela dor e pelo pânico, eu estiquei minha bolsa em sua direção, torcendo para que ele simplesmente se satisfizesse com meus pertences. Meu agressor, tomou o objeto de minhas mãos e com um sorriso podre, deu-me as costas.

Fechei meus olhos, agradecido e foi aí que eu ouvi, ouvi o barulho mais uma vez. Um clarão irrompeu meus olhos, mesmo que ainda fechados. Minha emoção me fez abri-los antes que o comando racional viesse de meu cérebro.

E lá estava ela.

O mesmo kimono laranja de que me lembrava, a mesma trança caída sobre os ombros, a mesma face tão bela, mesmo que com as feições enraivecidas. Muitos adornos lhe enfeitavam naquela ocasião e em suas mãos segurava um imponente arco dourado e luminoso.

Parecia Amaterasu pronta para enfrentar seu irmão maldoso e expulsá-lo de seu reino.

O homem truculento prostrara-se de joelhos e mesmo que falasse uma língua não era a nossa, claramente pedia clemência, empurrando minha bolsa aos pés da divina figura à sua frente. Porém, a face da kitsune não se desfez e em nenhum momento seu contado visual cessou, nem mesmo quando ela soltou a mão que tencionava a linha do arco. Meu agressor atingiu o chão em um baque seco, mas não houve sangue algum.

A kitsune estendeu seus braços em minha direção e mesmo machucado como estava, coloquei-me de pé e avancei até ela, entregando minhas mãos sobre as suas.

— Ora, ora... — Ela sorriu, apertando minhas mãos com leveza — Tornou-se um belo homem, outra vez. —

Meu corpo tremia por inteiro. Quantas vezes eu havia ensaiado em frente ao espelho toda uma sorte de questionamentos.

— Qual seu nome? — Foi a única pergunta que consegui formular.

— Amaterasu. — Ela riu sonoramente, após a fala.

Aquele certamente não era seu nome, kitsunes nunca o revelam de verdade, têm medo de serem aprisionadas. São amantes irremediáveis da liberdade.

— Como me conhece? — Perguntei sem olhá-la fixamente e ao mesmo tempo lutando para gravar cada detalhe em minha mente.

— Eu já disse, nos encontramos novamente na ciranda da vida. Agora, és Yato, mas já fostes Iahiko, assim como tantos outros. Eu tinha apenas uma calda quando me salvastes do perigo. Sou eternamente grata. Estou eternamente contigo. —

Eu paralisei, era tudo absolutamente confuso. A única coisa estável em minha mente, era a força da certeza que já a conhecia, já havia segurado a mão dela inúmeras outras vezes. Como gostaria de me lembrar...

— E como tens me encontrado? —

Ela sorriu docemente.

— Já foi muito difícil antes, mas agora eu tenho nove caldas, posso escutá-lo aonde estiver e foi seu choro desesperado que me levou até você, na noite em que seu tsuru se rasgou. Sua dor é a minha dor. —

Baixei a cabeça e cobri meu rosto com as mãos por um momento, respirei até me acalmar.

— E por que foi embora? —

Ela desviou o olhar por um segundo e riu por baixo da respiração quando voltou a me encarar.

— Nunca parti. Você quem nunca me procurou no alvorecer. O crepúsculo de sua tristeza, cegou minha presença. Só agora, perdido em seu desespero, enxergou-me mais uma vez. —

Tocando a região de meu pescoço, o peso que sempre senti ainda estava lá. O medalhão estava lá.

Hoshi-no-tama Eu murmurei.

— É uma joia, mas também é a minha alma. — Com suas mãos delicadas, ela segurou meu rosto.

— Obrigado. — Foi a única coisa que fui capaz de dizer quando depositei mais uma vez, minhas mãos sobre as delas.

Foi então que ela me beijou mais uma vez, não na testa, como em minha infância, mas, rápida e levemente, ela tocou os meus lábios com os seus e me disse alguma coisa que não fui capaz de distinguir no momento.

Quando dei por mim, o corpo do homem que me agredira não estava mais lá, minha bolsa estava aos meus pés e a única prova de que tudo havia sido real eram as minhas mãos levemente esfoladas pela queda e a dor intensa em minhas costelas. Olhei ao redor e percebi que o dia alvorecia e no horizonte daquela longa avenida eu vi a silhueta da raposa, majestosa com suas nove caldas. Ela me saldou com seu olhar e seguiu seu caminho magnífica como sempre havia sido.

Aishiteru.

Era o que a raposa havia dito.

19 de Marzo de 2018 a las 00:42 0 Reporte Insertar 1
Fin

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