Vida em flor Seguir historia

ninlil Ninlil Anunnaki

O espírito de um pai comparece ao seu velório e encontra suas filhas e suas reações à sua morte.


Cuento Sólo para mayores de 18. © A história é um original e todos os direitos me pertencem.

#Morte #Redenção #Sacrifício #Egoísmo #Filhas #Lírico #Reencarnação #Espírito #Pai #Família #Amor
Cuento corto
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Vida em flor

Onde estou? Sala grande. Gente de roupa escura. Um velório.

O meu velório.

Morri. Mal completei cinquenta anos e a vida se foi em uma batida de carro, voltando de uma festa. Tinha bebido como fiz durante todos os meus anos e nada havia acontecido. E dessa vez, aconteceu.

Que morte é essa? Não vi luz branca, nem anjos, nem demônios e muito menos minha esposa, Lis, que partiu bem antes de mim. Boa mulher, feita para casar, ser mãe e tão sem graça na cama! Claro que busquei sexo com outras. Acredito que ela sabia, embora nunca tenha reclamado e andasse triste e calada pelos cantos.

Tivemos três filhas: Rosa, Violeta e Flor. Minha Lis faleceu no terceiro parto. Mas não deixei de viver, claro. Boêmio, pude contar as poucas noites que em casa fiquei. Ana, nossa empregada, cuidou das meninas. Não me casei de novo. Nunca tive disposição para o compromisso e só Lis teve a paciência de me aguentar. Nenhuma outra se disporia a tanto e seria tão mansa como ela.

Sinto sua falta.

Não conheço ninguém na sala. Onde estão meus amigos? Será que não sabem de minha morte? Tudo ficou escuro e, num repente, aqui estou em frente ao meu caixão. Meu Deus, quem é esse aí? Todo mirrado, envelhecido, rugas que jamais conheci, cabelos brancos que nunca vi. Não pode ser eu!

- Dez anos em coma. Finalmente partiu.

É Rosa, óculos escuros enormes, cabelos louros presos em coque e com batom vermelho. Minha Rosa. A mais velha e a mais dengosa. Fazia-me carinhos e mimos e, claro, dava o que ela queria desde criança. Casou, teve quatro filhos e, de tão ocupada, mal nos víamos nos três encontros anuais. Tinha minha vida e ela não tinha tempo.

- Para a sala ao lado. O advogado nos espera.

Violeta, sempre altiva e objetiva. Conquistou-me com sua racionalidade, incomum em uma mulher. Nossa relação era de companheirismo masculino, muito embora de masculino em sua aparência nada tivesse. Mais sóbria que a irmã, cabelos escorridos claros, maquiagem discreta. Não se casara. Não tivera filhos. Mantinha relacionamentos frios de emoção. Trabalhava como louca e não me lembro da última vez que nos vimos.

- Acabemos com isso rápido.

Flor, a mais nova. Pequena, parecia-se muito com a mãe nos cabelos negros e curtos. Sempre com seus jeans, blusa lisa e cinco brincos singelos em cada orelha. Branca, muito branca. E hoje mais pálida do que nunca. Por ser parecida com Lis, deveria eu amá-la, mas sempre me senti mal em sua presença. Creio que a culpava pela morte da mãe. Ela nunca me fez mimos ou embates intelectuais e jamais me pediu algo que fosse. Falava quase nada. Formou-se em universidade pública e saiu logo de casa. Almoçávamos uma vez por semana, embora sem grandes conversas. Casou-se há seis meses.

Não... dez anos se passaram enquanto eu morria! Rosa e Violeta devem ter sofrido cuidando de mim no hospital Não é à toa que suas feições tenham mudado tanto. Rosa deve ter envelhecido de sofrimento, pois encheu o rosto de botox. O semblante de Violeta endureceu, talvez por conter sua dor. Só Flor parecia uma menina. Imagino como ela ficou aliviada por não mais precisar em encontrar!

Na sala com o advogado. Um apartamento para cada uma, eis sua herança. Contudo, a conta do hospital ultrapassara o limite do plano de saúde. Era necessária a venda de um dos imóveis para sanar a dívida.

- Tenho quatro filhos e passo necessidade. Não venderei o meu.

- Tenho vários negócios comprometidos com o dinheiro do imóvel.

- Vendo o que me foi destinado.

Isso mesmo. Flor não fez mais do que a obrigação. Suas irmãs mereciam e precisavam mais do dinheiro do que ela.

- Velho avarento. Um imóvel pequeno. Não sei como gastei tanto tempo lhe fazendo carinho. Deveria ter arrancado cada centavo daquele idiota. Pelo menos não tenho que me arrepender de ter convivido com ele mais do que era necessário e de nunca ter ido ao hospital.

- Gastou o dinheiro com as vadias. Só você para esperar algo dele. Nem toda sua bajulação tiraria uma moeda a mais do que ele realmente decidira dar. Eu consegui tudo o que desejei dele: distância.

Flor franziu os lábios e permaneceu calada.

Contorci-me em dor. Como puderam falar isso de mim, me enganar e ainda desprezar o que lhes dei?

Uma fúria me tomou e avancei para Rosa, penetrando em sua alma. Oceano de imagens, sons e sentimentos sobrepostos. Casa luxuosa a custa de dívidas, de trambiques, enganando e roubando a todos para seu bel prazer e para cirurgias plásticas, deixando seus filhos em formas de abandono que nunca imaginei que pudessem existir. Uma linda fachada com interior apodrecido. A vaidade e ambição trucidavam todos ao seu redor.

Parti para a segunda filha. Seu mundo interno era um deserto sem fim, árido e gelado onde nada poderia sobreviver. Sua frieza e egoísmo cortantes matavam o sonho de quem se encontrava ao lado e destruía a vida de quem se colocasse no seu caminho. Abismos profundos, cemitérios de amores não vividos.

Estou sufocado de tanto horror! Espíritos que já vieram tristes, amargurados e irados para esta Terra e que eu poderia ter amenizado esse terror, criando-as para serem boas pessoas. Mas como seria capaz, se elas não passavam de versões de mim mesmo?

Que brisa suave é essa? Que aroma de flores é esse? Esse outro lugar de alma, onde há beleza e tristeza, buracos profundos que se transformaram em poços de água saborosa; chuva de lágrimas que irrigam as pequeninas flores do campo, tantas que mais parecem um tapete sem fim de cores e perfumes... Terremotos que destroem a terra apenas para trazer pedras que enfeitam as montanhas. Vulcões poderosos que entram em erupção, rios de lava que logo se esfriam em abundante solo fértil.

Todavia, hoje o sol lá não brilha e nem as flores sobreviveram, pois as lágrimas de Flor não derramadas em seu rosto voltam todas para seu coração.

Parte dessa profunda dor é por mim. Deus, seu marido amado morreu no mesmo dia que eu e as pessoas que se encontram no velório são para ele e não para mim. Não há ninguém para mim, além de duas filhas monstruosas e outra que chora por outro alguém.

Meu caixão foi retirado e o do meu genro, que mal conheci, tomou o lugar encima dos cavaletes. E minha filha presa numa leitura de testamento com duas irmãs que odeiam a todos, a não ser elas mesmas. Oh, Flor, eu sinto tanto...! Perdoe-me, filha, por nunca ter prestado atenção em você, em não ter te amado como deveria ter amado. Sim, vejo que tentou me amar, mas como, se matei qualquer possibilidade de intimidade? E, mesmo assim, você encontrou um espaço nesse desamor que te dei para cultivar ao menos compaixão por mim, cuidar de mim todos os dias no hospital e tentar me amar todos os dias de sua vida.

Agora ela está ao lado do corpo de seu marido. Ela se recorda de sua última noite juntos, dois dias atrás, quando fizeram amor e planejavam ter um filho.

O que estou vendo? É dentro do corpo dela, seu óvulo rolando pela trompa e o espermatozoide de marido seguindo um ao encontro do outro! Mas tem algo de errado no óvulo, uma desarmonia no dna. O feto que se formará não sobreviverá Flor enfrentará outra perda, a não ser que um espírito force o nascimento. Não sei como sei, mas sei. O preço será alto para mim. Para ela. Imerso estarei em uma prisão de carne que não pensará claramente, não andará e mal falará por toda sua existência. E minha filha terá que tomar conta de um eterno bebê até o fim de seus dias.

Olha em minha direção. Não, ela não me enxerga e, mesmo assim, pede minha ajuda. Não posso abandoná-la.

Dentro do corpo dela. Quase lá. Não tenho muito mais tempo. No momento que as duas sementes se encontrarem, também me juntarei a elas e meu eu se dissolverá. Darei adeus a mim, ao que penso que sou para emergir em uma outra personalidade de mente alquebrada e corpo retorcido.

Não fui capaz, como pai e perfeito de corpo e mente, de fazer Flor feliz. Talvez como filho e todo imperfeito possa vê-la sorrir, mesmo entre lágrimas; talvez possa devolver todo o amor que ela sempre quis me dar.

Morrerei novamente... para agora realmente viver.

17 de Marzo de 2018 a las 00:14 0 Reporte Insertar 3
Fin

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Ninlil Anunnaki Alguém que gosta de escrever, de buscar o que não é visto, de expressar o que é sentido.

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