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darksouther Geovane Félix Paula

Em uma Portugal reinventada do século XIX, Estevão da Silva, um pacato médico retorna à sua terra natal após 15 anos distante. Em seu retorno depara-se com a alta vigência da escravidão, um marco que pode mudar para sempre sua vida.


Drama Sólo para mayores de 18.

##Guerra ##Original ##Suspense ##mistério ##Morte ##Heterossexual ##Portugal ##Imperador
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A chegada

13 de setembro de 1889.

Nem tudo é como planejamos ou como esperamos que as coisas na vida sejam. Quando estamos em um sentido, em um piscar de olhos nos vemos em outro. Me chamo Estevão, e nasci em Lisboa, em Portugal e mediante a algumas situações me mudei anos atrás para a Europa junto de meu pai, para o ajudar em seus negócios pois Portugal se encontrava em uma crise expressiva que abalou grandemente o comércio na época.

15 anos fôra o tempo que estive fora, e durante esse tempo vi muitas coisas que me acresceram e decresceram em minha vida. Nada de tão luxuoso ou grandioso para ser lembrado por anos e anos, mas meu pai por herança de meu avô era dono de uma grande adega. A adega tivera o nome de Lucid Dream, e enquanto estávamos em nossa terra natal, vendíamos bem e tínhamos certa consolidação na cidade média. Sim, cidade média, pois Portugal há alguns anos se dividia em três grandes áreas: cidade baixa, a média e a alta. Pela lógica do capitalismo vigente, e do crescimento real de riquezas, de ouro e de nobres, foi visto a necessidade de separar o “joio do trigo” como diziam os ricos, de separar os que verdadeiramente tinham dinheiro, glebas e poderes dos que apenas trabalhavam para ter o que comer. Meu pai por muitas vezes fora convidado para migrar às terras altas, mas ele nunca teve o verdadeiro desejo de conviver em meio aos nobres e aos ricos. Quando perguntado, arrematava dizendo que estava suficientemente satisfeito na onde estava e não tinha intenção de pagar impostos mais altos por estar no antro da nobreza. Enfim, a crise chegou, eliminou muitos, e de Portugal saímos. Também é válido ressaltar que nos últimos anos a escravidão vinha crescendo com força, e os rios próximos das cidades sempre estavam lotados de vapores, barcos que continham variadas cargas, desde feno, madeira, e sementes, até negros, mercenários ou assassinos camuflados. Não tinha noção como estava Portugal nos tempos de hoje, anos depois nessa questão, porém não me surpreenderia caso crescesse. Por falar em escravidão, na cidade baixa, era uma área extensa que abrigava dentro dela um complexo que era apelidado pelos comerciantes locais e moradores de “cidade zero”, por abrigar grandiosíssima pobreza, dor, morte e escravos. Nessa cidade zero os escravos moravam em casas improvisadas ou em verdadeiros barracos montados com cana e fenos velhos amarelados e dissecados pelo tempo. Esse local era considerado um inferno, ou um lugar onde você ansiava pela morte, lá não tinha nenhuma lei, e os oficiais não ousavam em ir tão longe, temendo por suas vidas ou por se tornarem prisioneiros.

Minha cabeça estava cheia, fluída e transbordando de pensamentos, ideias e anseios. O motivo de retornar a minha terra, maiormente é pela saudade dela, e em seguida ao fato do falecimento de meu pai. Ele morrera em agosto e desde então estive preparando a papelada para conseguir vender a Lucid dream, e juntar todo o dinheiro que consegui em um banco seguro. Num total cheguei a um valor de 85.000 euros, o que me fazia passar bem por um bocado de tempo até o que decidir fazer. Meu velho sofria de câncer no pâncreas, e um dos grandes fatores ou impulsionadores de eu adentrar a medicina, se deve ao fato disto. A enfermidade se manifestara com força nos 4 anos anteriores, e desde então o meu velho não tinha sido mais o mesmo, a fraqueza ia tomando conta de seu corpo velho e rígido, e ele parecia saber que seus dias estavam próximos do fim. Em seu leito de morte, ele estava rodeado por alguns próximos, dentre eles até o padre Johnston que dera a benção com um óleo sagrado e proferira palavras consoladoras, sobre algo de uma pós vida, outro mundo, salvação, coisa do tipo. Os olhares pesados e tristes das pessoas eram iminentes sobre aquele corpo deitado sobre a cama, com os lençóis finos devido a grande febre, e um travesseiro feito com penas e feltro, e em seu momento de dor ele pedira licença para conversar a sós comigo, me lembro de suas últimas palavras:

- Filho, segure a minha mão – ele dizia com uma voz bem fina e rouca – isso, agora me escute bem e me olhe nos olhos – era um hábito que ele tinha, de sempre conversar com as pessoas olhando estritamente nos olhos, principalmente quando se tratava de negócios. – Eu não sei como será o seu futuro, quais são seus desejos e suas vontades, eu ouso dizer que talvez nem você o saiba. Mas o que sei irei lhe dizer, viva sua vida, não se agarre a paradigmas ou a pretextos impostos pelos outros. Faça o que seu coração intuir, nós os da família Silva somos gratos por ter um coração, ele nos leva ao que pode ser certo, ao que pode ser frutífero ou ao que pode ser decente. Mas cuidado com os devaneios, pois os sensíveis correm o risco de se iludir, portanto seja consciente, carregue com orgulho o mastro de nossa família.

Sem tempo de eu dizer alguma coisa, meu velho sorrira, e então foi fechando os olhos lentamente... Com um último suspiro. Adormeceu.

- Atenção, atenção senhores – me assustei, mas logo me recompus para ver um oficial ferroviário todo vestido de branco, com roupas de seu ofício querendo passar uma mensagem, ele andava no final do vagão até a outra ponta fazendo conchas com suas mãos próximas da boca, para aumentar a propagação de sua voz. – Anuncio aos senhores que a estação do porto é duas paradas após essa, e será nossa penúltima parada, antes da Cornelie.

Realmente, eu entendi a citação específica de Porto, afinal muitos vinham a essa grande estação para recomeçar a vida, instituir um negócio ou se infiltrar de algum modo, era o coração de Portugal. E era aonde eu iria descer. Com o anúncio do oficial, eu saí de meus devaneios e pensamentos, e então fiquei mais ligado ao trem onde estava e as paradas. Decidi perguntar ao oficial que se achegava próximo a mim:

- Bom dia senhor – disse educadamente – Sabe me informar que horas nos encontramos?

- Bem – ele começou – deixe me ver aqui – ele pegara do bolso de seu casaco de oficial branco um relógio todo dourado, um pouco menor do que uma esfera de um limão. – Um quarto de hora para as 11 – respondeu objetivamente.

- Ah, muito agradecido. Sabe me dizer quanto tempo falta para esse trem alcançar o Porto?

- Provavelmente em meia hora ou próximo disso – respondeu o oficial.

- Muito obrigado – fiz uma cara instigando ele a dizer.

- Carl – disse ele – Carl.

- Muito obrigado Carl – respondi.

De fato, antes dos próximos 30 minutos o trem chegara até a grande estação do Porto. Pessoas educadamente se juntaram as 3 grandes portas duplas que se abriram para a saída dos passageiros e entrada de uns tantos poucos, e no meio daquela multidão eu consegui ver próximo aos grandes portões de ferro um homem todo vestido formalmente, com um terno preto de corte europeu e um colete cinza, que contrastava com a camisa branca que vestia. Seus cabelos eram pretos e lisos a altura um pouco abaixo de seus ombros, e sua barba em seu rosto fino e pardo era por fazer. Ao me aproximar com minhas duas malas médias, eu balbuciei.

- Primo – ao dizer, coloquei minhas malas no chão, e fui de encontro a um abraço apertado – quanto tempo, senti saudades, como o tempo tem passado meu querido.

- É vero – respondeu ele com uma voz suave – é recíproco esse sentimento, e partilho de grande saudade também. Pensei que iria esquecer completamente de nós. – disse ele por fim.

- Jamais Herbert, jamais o faria, sendo que você fez parte de minha vida, de minha infância. Ainda me lembro de quando brincávamos de escalar os portões escondidos do museu de Cornelie.

Herbert de fato virara um homem formado, mais formal em suas palavras do que eu poderia imaginar. Ele deixara seu cabelo crescer e optava por barba em seu rosto, o que combinava com seus olhos cor de mel. Meu primo estava me esperando, pois eu o havia comunicado por carta de meu retorno, e desde então ele demonstrou grande interesse em me receber de volta, e de me instalar na cidade.

- Vamos Estevão – disse ele – vamos rápido, há um coche nos esperando lá fora, na rua e pretendo levá-lo ao restaurante de Abner, sei que você gostava muito de lá, e minha fome me devora.

- Vamos – respondi – também tenho fome.

Era verdade, Abner desde que me conheço por gente cozinhava com maestria em seu restaurante que se alocava na cidade média, onde por ventura ficava a adega e a casa onde morávamos anteriormente, anos atrás.

Porém antes de partir, eu pude observar próximo de várias filas de pessoas que circulavam uma fileira específica para negros escravos, onde a fila era indiana e havia poucos negros, cerca de 12 a 15 e eles estavam acorrentados por grossas correntes negras pelos pés e pelas mãos, impossibilitando quaisquer chances de fugas ou corrida. Confesso que de primeiro lance eu me assustei, pois na Europa eu via isso, mas não dessa forma, pois onde eu morava não era um estado escravagista, e essa questão era opcional, então a frequência dessas coisas era reduzida. Fiquei um tempo parado observando até que com um estalar de dedos de Herbert, eu voltei a mim, e disfarcei me evadindo das perguntas e porquês de minha viajada mental, e indo logo ao coche reservado de meu primo.

No restaurante, ficamos em uma mesa próxima dos grandes vidros que davam a completa visão para a rua, e onde o sol do meio-dia atravessava com certa delicadeza e educação. Meu pedido foi simples, um frango assado pequeno com batatas passadas e um conhaque. Meu primo foi um pouco mais além, pedira um pernil médio e uma Borgonha de acompanhamento, seguido por ostras.

O local era incrivelmente mobiliado sem muita extravagância ou petulância, e a música de fundo tocada por um pianista hábil num canto do salão acrescentava a graça do local. As mesas eram por padrão de madeira de carvalho, quadradas e seus bancos eram estofados por algodão tanto nas costas quanto no assento. As luminárias eram cristais simples, mas bonitos que tinha como função segurar as várias velas para iluminar o ambiente.

- Bem vindo ao Abner´s – disse Herbert de modo engraçado, tilintando um talher no outro.

Isso era um modo risonho que nós usávamos quando comíamos aqui.

Nossos pratos chegaram, e os assuntos também, Herbert começou dizendo:

- Estevão, ele sofrera muito? – disse tentando ser mais delicado possível.

- Nos anos iniciais da descoberta sim – eu disse – mas depois ele foi acostumando e aceitando, o que o fez viver milagrosamente até bem, arrisco-me em dizer.

- Compreendo – disse ele em uma fala curta, pegando com maestria uma parte de seu pernil com os talheres, levando até a boca. Era difícil ouvir algum som emitido por sua mastigação, pela tamanha educação que ele passava.

- E você – continuou a dizer – como tem estado lá na Europa, pelo que tem me dito pelas cartas você se tornou médico, me orgulho disso.

- É vero – iniciei a resposta – eu não sabia bem o que seguir, mas como vi que a febre amarela devastava algumas áreas mais modestas, e principalmente ao fato de papai adoecer, me senti intuído em cursar medicina.

- Interessante, e você chegou a exercer? – disse ele comendo e olhando o pernil.

- Sim, em um hospital da região, trabalhei como médico auxiliar por 2 anos finais até a morte de meu pai.

- Legal você sabe que pode exercer essa função também na cidade alta né – respondeu Herbert – eu trabalho atualmente em uma criação de ferrovias que nos permita levar e trazer escravos da Europa. Temos dificuldade no transporte, já que os trens é algo relativamente novo, e o que demanda e manda ainda no transporte, é o rio querido Estevão, é o maldito e extenso rio, que abrange praticamente todas as áreas. – Pude perceber certa raiva pairando desse homem tão formal, praticamente faltou ele bater com força na mesa. Porém não o fez, meu primo de algum modo se conteve. – Perdoe-me minha intransigência, perdi-me um pouco nas emoções. Mas a finalidade de meu projeto é de criar essas linhas, pois como não disse a você oficialmente, há alguns anos sou formado Engenheiro e D. Luiz I incumbiu-me a missão de fazer essa “ponte” montando essa linha ferroviária. Nós vamos vencer o rio Estevão, anote essas palavras.

- Entendo - respondi – mas se entendo muito bem você quer que eu trabalhe junto com você, é isso?

- Exato, em nossas caravanas até os locais de construção, o sol judia bastante de nós, e alguns escravos que trabalham na mão-de-obra perecem devido à exaustão do calor. São inferiores os negros, portanto precisamos deles para a construção dessa ferrovia, os brancos são muito mais caros e precisamos poupar a economia. Lembra-se da crise de 15 anos atrás?

- Me lembro – eu assenti respondendo – foi por causa dela que eu e meu pai nos vimos obrigados a viajar à Europa.

- Então meu querido – disse Herbert – Estamos tendo cuidado para não dispendermos demais o nosso dinheiro. Enfim, aonde quero chegar é, precisamos de um médico em nossas expedições, que acompanhe em nossos turnos e nos auxilie caso for necessário.

Como hábito de meu pai, ao conversar encarava meu primo nos olhos não como sinônimo de afronta, mas como modo de respeito e atenção aos dizeres dele.

- Sinceramente Herbert eu agradeço a oferta e a impulsão de me ajudar, porém temo ser um pouco cedo para eu decidir algo. Eu preciso pensar um pouco, refletir, preciso ir para a minha antiga casa entende, preciso tantas coisas menos trabalhar por ora. Sinto a minha mente sobrecarregada demais para desenvolver alguma coisa, se aceitasse, estaria sendo completamente injusto com você por não me apresentar de forma totalmente hábil e capaz.

Foi a vez de Herbert de me olhar bem profundo nos olhos. Ficamos algum tempo assim, ele não disse nada por alguns segundos, por um momento na verdade. Até fazer um simples ruído com sua garganta e dizer:

- Bem meu querido Estevão, fique descansado. Não precisa me dar a resposta agora, até esse projeto se finalizar ou ter inicio real de transporte, se levará alguns meses. O que estamos fazendo é alugando um vagão de trens de passageiros para uso desses negros, mas isso não calha muito bem, e muitas companhias não aceitam tal coisa por denegrir e ofender a imagem delas aos demais. Por isso estamos trabalhando não só na criação das ferrovias, como também de uma companhia. – Disse por fim com um leve sorriso orgulhoso.

- Tudo bem meu primo, prometo-lhe que em breve lhe darei uma resposta.

27 de Febrero de 2018 a las 15:43 0 Reporte Insertar 0
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