guilhermerubido Guilherme Rubido

Murilo vai dormir na casa de seu amigo Gabriel e, durante a madrugada, os dois meninos resolvem passar um trote. O problema é que alguém acaba ligando de volta e o toque do telefone faz com que a mãe de Gabriel acorde. No entanto, ela se comporta de maneira estranha e assustadora, aterrorizando os dois garotos que, no fim, descobrem algo horrível.


Horror No para niños menores de 13.

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A Outra Mãe

— Anda! Anda! Liga logo, cara! Não vai ser nada demais.

— E-Eu não sei, cara... Tô com medo de acontecer alguma coisa, sei lá — a voz de Gabriel tremia no quarto escuro, iluminado apenas pelas luzes coloridas da televisão que, de cima de um móvel longo e pesado, apresentava com o volume desligado um desenho de ninjas com poderes que os dois garotos adoravam. De pé sobre a cama, os dedos de Gabriel afundavam no tecido do colchão, enquanto uma de suas mãos pairava, tremulante, sobre o telefone em forma de caveira que ficava em uma pequena prateleira logo acima da cabeceira da cama. — Se minha mãe acordar ela vai ficar puta.

— Vai nada — respondeu Murilo, que estava sentado ao pé da cama, as pernas balançando no ar. — Sua mãe é mó de boa.

— Ela é, mas cê sabe como ela fica quando a gente faz barulho e ela acorda.

— Meu Deus, Gabriel... — Murilo soltou ar com a boca e se levantou. — Quer que eu ligue então?

Sem responder nada, Gabriel virou-se para a prateleira e tirou o telefone do gancho. A base, em forma de um crânio humano de plástico, ficou sem uma parte da face, que deu lugar aos botões numéricos. Gabriel digitou o número de sua própria casa, mudando apenas os dois últimos números.

Houve um silêncio momentâneo onde ele esperou até que os “pi’s” sonoros anunciassem que a ligação estava sendo realizada. Às suas costas, Murilo olhava com atenção, praticamente tentando ouvir o telefone de longe.

Após alguns segundos de espera, o telefone começou a chamar.

— Tá chamando — ele falou, virando-se rapidamente para Murilo e quase derrubando o telefone ao puxar o fio.

O que que eu vou falar? Gabriel pensou, assustado com a ideia do que poderia acontecer. Enquanto o telefone tocava em sua orelha, ficou tentando bolar algo engraçado, mas nem mesmo uma fagulha de ideia surgia. A mente estava em branco. E se a pessoa que atender tiver uma daquelas coisas que rastreia o número e ligar de volta aqui pra casa? Ah, meu Deus, eu tô ferrado. Tô ferrado demais. Já são 3h da manhã, podem até resolver ligar pra polícia! Eles podem fazer isso, não podem?

Os toques pararam.

— Alô? — Falou uma voz sonolenta do outro lado da linha.

Meu Deus, a mulher tava dormindo. É claro que ela tava dormindo! São 3h da manhã e um idiota resolveu ligar pra casa dela pra fazer uma brincadeira. Ela deve tá puta da vida.

— Fala alguma coisa! — Murilo sussurrou às suas costas.

Não consigo! Droga, não consigo!

— O que tão falando? — Murilo insistiu, já quase grudado em suas costas.

Sua mão tremia e suava. A linha parecia estar muda. A única coisa que ele ouvia era seu próprio coração. Preciso falar alguma coisa. Qualquer coisa! Ele tomou fôlego, mas ela o interrompeu antes que ele pudesse começar.

— Você não devia estar dormindo, Gabrie... — a mulher começou a falar do outro lado da linha, mas, antes que ela pudesse terminar, Gabriel bateu o telefone no gancho. Os olhos da caveira – duas cúpulas transparentes de plástico – acenderam-se com uma azul escuro incandescente quando o telefone foi recolocado em seu lugar e, logo depois, se apagaram.

Gabriel virou-se e se sentou. Seus olhos estavam arregalados e a pele se confundia com o branco da parede. Murilo se afastou e, cabisbaixo, voltou para a ponta da cama.

— A voz... — Gabriel falou com a voz baixa, os olhos fixos nas próprias mãos.

— A voz? Que voz, cara? Por que cê não falou nada, hein? Ficou com medinho? Ninguém ia te matar por passar um trote. E o que que falaram, afinal?

— Era a voz da minha mãe — Gabriel finalmente concluiu. Sua voz tremia, embargada por um quase choro. — Tenho certeza que era. Era igual, eu juro. Juro pra você.

— Você deve ter se confundido, só isso — Murilo falou, não conseguindo esconder uma pontinha de raiva na voz. — Mas deixa pra lá. Vamo assistir alguma coisa.

Antes que Murilo pudesse pegar o controle remoto no móvel, os olhos azuis da caveira se acenderam, irradiando o quarto com sua luz azul. O telefone começara a tocar. O som do toque amplificado pelo quarto fechado e pelo silêncio total da madrugada, que, eles sabiam bem, fazia com que qualquer risada depois de uma partida de videogame se tornasse uma gritaria ensurdecedora para as pessoas em volta.

— Atende! Seus pais vão acordar! — Murilo gritou, a voz se perdendo por baixo do tilintar monótono e estridente do telefone.

— Será que é a polícia, cara?! Será que eles rastrearam mesmo meu número? Tô ferrado! Sabia que isso ia acontecer.

— Pelo menos tira e coloca de volta no gancho, só pra ele parar de tocar! — Murilo falou, o corpo inteiro já enrolado na coberta, deixando apenas os olhinhos para fora. No momento em que o telefone tocara, ele já se jogara no colchão que ficava no chão, ao lado da cama de Gabriel, pronto para fingir que estava dormindo caso algum dos pais do amigo entrasse no quarto para ver o que estava acontecendo. Estava acostumado com isso.

Com um movimento rápido, Gabriel saltou da cama e tirou o telefone do gancho. A noite silenciou-se outra vez. No silêncio, Gabriel teve a impressão de ouvir alguém falando no telefone, enquanto o aparelho estava em sua mão, mas não deu importância para aquilo. Simplesmente bateu o telefone na base e se jogou de volta na cama. Enrolou-se nas cobertas como fizera Murilo e fechou os olhos.

Não houve mais nada. O telefone não tocou novamente e o apartamento parecia estar completamente adormecido. Não havia sinal de passos no corredor e nem o som da porta do quarto de seus pais se abrindo. Eles sempre ouviam. Ao menos na maioria das vezes. Ouviam a tempo de desligar o videogame e se jogarem, como baratas voadoras desesperadas, em suas respectivas camas. Murilo sempre teve a impressão de que a atuação não convencia muito os adultos, e se eles iam embora logo após darem uma breve olhada, era só porque só queriam voltar logo a dormir.

— Será que eles não ouviram? — Murilo sussurrou do colchão no chão, a cabeça se esticando para fora da coberta como uma larva saindo de um casulo.

— Impossível! Todos os telefones da casa tocaram. Como eles não iriam ouvir seu idiota? — Gabriel respondeu em um sussurro ainda mais baixo.

— Só sei que me caguei de medo — Murilo falou e virou-se para o teto, onde estrelinhas fosforescentes brilhavam ao redor do ventilador de teto. — Você me deu medo. Ficou tão branco que eu pensei que você tinha ligado pra casa do Jason sem querer.

Gabriel riu baixinho e também se virou para o teto:

— Imagina só: “Alô, ainda não é sexta-feira 13, liga mais tarde”. — Ele falou e os dois, esquecendo-se da discrição, gargalharam alto. — Fico pensando... o Jason dorme? E ele dorme com aquela máscara? E o que ele fica fazendo quando não tá ocupado matando aquele bando de adolescente? Imagina ele esperando dentro do armário por 30 minutos até que alguém aparecesse.

Os dois riram outra vez.

— Eu sei lá, cara. Tenho cara de quem fica vendo filme de terror? Desde que a gente assistiu aquele último do milharal com o César nunca mais cheguei perto dessas coisas. Fiquei noites sem dormir. O pior é que eu nunca consigo não olhar. Sempre dou uma espiadinha, mesmo por traz do balde de pipoca ou do cobertor. E aí... Pá! Eu me ferro! Vejo sangue pra todo lado e não consigo mais dormir. É aquela coisa de a curiosidade matou o gato, né?

Um estalo no corredor. De algum lugar lá do fundo.

Os dois se entreolharam e voltaram-se para a porta do quarto, que estava confortavelmente fechada.

— Que que foi isso? — Murilo perguntou.

— Talvez seja só meu pai indo na cozinha. Ele sempre acorda essas horas pra isso. — Gabriel respondeu, sem tirar os olhos da porta.

Outro estalo. Agora mais próximo. Bem mais próximo.

— Não. Isso é a minha mãe. Tenho certeza. O joelho dela sempre estala quando ela anda. Sempre sei quando ela tá vindo.

— Então acho que ela vai vir aqui — Murilo falou e preparou a coberta para se esconder e fingir que estava dormindo.

Em silêncio, eles ficaram ouvindo os passos lá fora. Ouviram o som do vento sussurrando pelas janelas com um leve assobiar e o zumbido monocórdico da geladeira velha. As passadas atravessaram o corredor, passando pela porta do quarto de Gabriel e indo para a sala onde, com um estalo, pararam por um tempo e então voltaram a andar, afastando-se cada vez mais, até que não pudessem mais ser ouvidos. Os passos voltaram à sala e uma janela foi aberta. O barulho dos vidros correndo nos trilhos foi como um guinchado na noite.

Debaixo das cobertas, os dois sentiram o vento se contorcer por debaixo da porta.

Os passos começaram a retornar, chegando outra vez no corredor e passando pela porta do quarto de Gabriel...

Os passos pararam.

Estava bem ali, parada diante da porta. Deve estar tentando ouvir se estamos acordados, Gabriel pensou, encolhido em baixo das cobertas. No entanto, ela ficou ali. Não abriu a porta e nem foi embora depois de perceber que não havia barulho. De tempo em tempo, os dois conseguiam ouvir o som do joelho estalando quando ela se mexia no mesmo lugar para se ajeitar.

Crec!

Eles ouviram outra vez, dessa vez seguido de algo deslizando pela superfície de madeira da porta. O som de unhas se arrastando e arranhando.

— Gabriel, eu tô com medo — falou Murilo com uma voz que era quase impossível de se ouvir. Ele suava sem parar por conta do nervosismo e do cobertor que o cobria quase até a cabeça.

Engolindo em seco, Gabriel falou:

— Mãe?

A voz soou como o som de uma lixa seca e velha, estridente. Tudo se silenciou novamente. Os sons de arranhar pararam no mesmo instante e eles puderam ouvi-la se afastando da porta, o joelho estalando mais uma vez com o movimento. Ainda assim, não houve nenhum som de passos indicando que ela estava indo embora.

Gabriel ouviu a própria respiração e a de Murilo ao seu lado. O suor escorria em filetes por baixo dos braços. Estava sentado agora, encarando a porta de maneira hipnótica, como se aquilo fosse um portal que poderia se abrir a qualquer momento ou um ídolo bizarro. Pensou em se levantar e abrir a porta. Correr até lá e ver diretamente. Mas algo o impedia. Suas pernas pareciam moles e os pés, cobertos de cimento. Dois minutos que pareceram uma eternidade se passaram e Gabriel continuou sem conseguir dar um passo sequer para fora da cama. Sabia que ela estava ali. Sentia sua presença e ouvia os constantes estalos.

Crec, crec, crec.

Pensou em chamá-la outra vez, mas sentiu que sua voz simplesmente não sairia. Ficaria presa na garganta, entalado como um pedaço seco de pão. Foi quando houve um rangido. Um rangido lento e barulhento. A porta do quarto se abriu aos poucos, deixando frias resgas de luz lunar invadirem e deslizarem pelo chão do quarto, iluminando os olhos de Murilo, que estava deitado no chão em completo silêncio, tremendo e se sentindo capturado pela luz que agora recaía sobre ele.

Gabriel, que estava sentado na cama de cima, ficou encarando a fresta aberta da porta. Lá fora, as luzes do apartamento estavam apagadas. Porém, mesmo assim, era possível divisar uma figura que espreitava dentro do quarto pelo estreito espaço entre a porta e a moldura.

Gabriel ouvia a respiração de Murilo ao seu lado, que já havia desaparecido dentro da coberta vermelha. Escutava também a respiração de sua mãe que, de algum jeito – e ele sabia com certeza – o encarava agora daquele pequeno vão.

Ele tomou fôlego, esforçou-se para não gaguejar e falou:

— Mãe — sua voz tateava em busca de pontos seguros de apoio —, aconteceu alguma coisa?

A princípio, não houve resposta. Ela apenas continuou a encará-lo pela fresta. Não fosse pelos sons do joelho estralando, ele nem mesmo poderia afirmar com certeza que era sua mãe. A porta tampava seu rosto e corpo quase que por inteiro e, além do mais, estava muito, muito escuro.

— Vão dormir — sua mãe respondeu. E, para seu alívio, era realmente a voz de sua mãe, embora com uma rouquidão de quem acabara de acordar. — Vocês deviam estar dormindo. Já tá tarde.

— S-Sim... Eu tava quase, mas aí você veio, achei que queria falar alguma coisa ou reclamar do barulho.

Ela não respondeu. Continuou ali parada. Lá na cozinha, a geladeira estalou, como às vezes era possível ouvir de madrugada, quando havia silêncio o suficiente para escutar esse tipo de barulho. No mesmo instante, como se tivesse se assustado, ela soltou a maçaneta da porta e olhou para trás, na direção do som. A porta, agora livre da mão da mulher que a segurava, deslizou um pouco mais e Gabriel conseguiu ver a silhueta de sua mãe parada no corredor. Pelos contornos, estava descabelada, e a camisola – ao menos era o que parecia – que flutuava e balançava com o vento, concedia à mulher formas e tamanhos estranhos sob as sombras do apartamento.

Percebendo que soltara a porta, o braço dela voou em direção à maçaneta, agarrando-a como o bote de uma naja.

— Vão dormir — ela sussurrou e fechou a porta.

Ainda sentado na cama, Gabriel ouviu os passos da mãe se afastarem e correrem em direção à cozinha. Onde a geladeira havia estalado há alguns segundos. Ouviu o som de uma porta sendo fechada – provavelmente na área de serviço – e nada mais.

12 de Enero de 2021 a las 20:01 2 Reporte Insertar Seguir historia
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Nogitsune Br Nogitsune Br
O título me lembra do livro Coraline. Ao que tá parecendo, essa história vai ser daora.
January 19, 2021, 00:15

  • Guilherme Rubido Guilherme Rubido
    Que bom! Adoro Coraline. Tanto o livro, quanto o filme. Acho que "A Outra Mãe" tem um pouco de Coraline sim, em algum sentido. Espero que goste do conto! De qualquer modo, agradeço pelo comentário! :) January 19, 2021, 01:37
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