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Um semestre estressante na faculdade, um livro esquisito e uma viajante do tempo universitária.


Cuento Todo público.

#conto #brasil #343 #301 #332 #341 #349
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Livros empoeirados e uma paixonite anacrônica


Eu estava há quase três anos na faculdade e conhecia aquela biblioteca como ninguém, ou... bem... achava que conhecia. Mas, antes de chegar ao cenário da história, você precisa entender o contexto. Era um semestre daqueles. O estresse transbordava entre as salas do prédio de direito. Então, sempre que podia, eu escapava para mais um turno de estudos no bloco de história. Isso, é claro, me dava um baita trabalho: carregar todos os livros necessários de direito constitucional que, por motivos óbvios, um acervo de história não possuía.


Sento na mesa de sempre e organizo os materiais. Estudo por algumas horas até perceber que só restam três pessoas na sala – uma delas é a moça da recepção. Acho importante ressaltar que eu tenho a mania de perambular pelos corredores de livros enquanto faço uma pausa. Caminhada sempre me ajuda a pensar melhor. O dia estava frio. Era muito fácil acabar caindo no sono em alguma cadeira e esquecer quão atrasada eu estava em certas matérias. Eu sou o tipo de aluna que não consegue ser facilmente estressada, mesmo nas situações mais adversas – e bota “adversas” nisso. Acho que meu estilo – uma fusão de hippie com praia e anos 90 – ajuda a reforçar isso.


Minha conversa mental é interrompida quando uma capa estranhíssima – acho que uma palavra melhor seria “brega” – me rouba a atenção. Era um mosaico de cores e animais típicos da fauna brasileira. Me lembrava a Tropicália e, talvez, a exaltação patrioticamente patética dos românticos indianistas. Em laranjas letras garrafais – um contraste cafona com o fundo verde – era possível ler “O BRASIL NUNCA FOI TÃO TROPICAL”, por C.W.E. Eu honestamente não dava a mínima para qualquer livro aparentemente didático e que não fosse do meu curso.


A minha rixa com os volumes de história era ainda mais severa. Eu era basicamente alérgica à matéria. Eu diria que os únicos motivos que me fizeram adotar um cubículo aqui incluem a bibliotecária – que, posso afirmar categoricamente, é uma gracinha – e a paz de um lugar quase sempre vazio. Voltando ao ponto. O livro tinha uma aura realmente estranha. Sendo bem sincera, era algo quase místico (sim, estou ciente do quanto esse relato deve estar sendo clichê). O fato é que a curiosidade me fez sentar em um cantinho no chão, encostar na parede e começar a folhear as páginas muito amareladas, em busca de sabe-se lá o quê.


Tenho a impressão de que caí no sono. Tento abrir os olhos, mas a luz é extremamente ofuscante. Fico paralisada ao constatar que estou em uma espécie de campo aberto, deitada sobre a grama. A minha primeira reação é soltar a minha típica risada sarcástica, aquela que sai sempre que eu percebo que vou ter que me submeter a alguma coisa realmente ridícula – tipo meu discurso de formatura do ensino médio. Não demora até que eu note a dor lancinante na testa. Apalpo o rosto e entendo o motivo: um edema particularmente grande e, provavelmente, pavoroso acima das sobrancelhas.


A minha risada sarcástica se intensifica quando eu preciso me esquivar da manga arremessada em minha direção por um macaco desgraçado. O pestinha estava agarrado ao galho de uma árvore próxima e não parava de pular, jogar frutas e fazer sons que eu me recuso a tentar reproduzir em onomatopeias. Ainda estou no chão quando escuto uma voz feminina que dizia algo do tipo “a senhorita demanda de algum obséquio de minha parte?”.


– N-não. Obrigada, é... Qual o seu nome? – Digo, um pouco abobada com a dona da voz.

- Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bourbon-Duas Sicílias e Bragança. E qual vem a ser a linhagem de tão deslumbrante jovem?


É piada. Olho em volta, procurando o Sílvio Santos ou qualquer outra figura de programa decadente de TV dos anos 2000. Certa de que a mulher expressava uma genuína expressão de curiosidade - provavelmente desencadeada pelo meu estilo “hippie com praia e anos 90” – eu resolvo responder.


- Ham... Me chamo Ana, Ana Clara – falo um pouco hesitante e, tenho certeza, com as bochechas um tanto avermelhadas.


Finalmente começo a reparar a roupa de Isabel, lembrava aqueles imensos e volumosos vestidos de época, cheios de rendas e babados delicadamente costurados. Passado o choque inicial, as dúvidas mútuas e a superação da diferença de vocabulário, começo a me sentir mais à vontade em conversar com uma (literalmente) princesa. Acho que já aceitei que isso tudo não passa de um sonho ou um delírio deveras criativo e bizarro. Não, eu nunca consumi nenhuma substância ilícita, se é o que você está teorizando.


Eu realmente achava que princesas eram um pouco mais ocupadas, mas Isabel parece não se importar em passar a tarde recostada em uma árvore e conversando com uma menina estranha de aparência idem. O cenário é muito bucólico e acolhedor. As nuvens claramente têm mais cara de nuvens sem aquela poluição habitual dos aglomerados urbanos. É estanho como ela aceita sem questionamentos tudo o que eu falo – o que inclui as explicações nada objetivas sobre como eu “cheguei” aqui. Isa realmente parece me entender. É claro que as obrigações de uma princesa e uma estudante universitária não são exatamente o que podemos chamar de “semelhantes”, mas ela parece compreender cada pequeno problema da minha rotina complicada.


O fim da tarde chega, mas não conseguimos parar de debater amenidades e observar o céu. Fico um pouco sem jeito toda vez que Isabel, com seus modos de moça afável e de diálogo prendado, me tece algum rebuscado elogio. Acho que eu poderia ficar por um tempo aqui, sabe? Trancar a faculdade e tirar umas férias no Brasil imperial. Eu realmente estou precisando de um tempo. Entretanto, meus planos são logo cortados quando Isabel me puxa e aponta para um livro na grama. Ah, o maldito livro de capa carnavalesca. Ele era minha passagem de volta para o mundo “real”, para a faculdade, para os trabalhos, provas e colegas de sala estressados.


Acordo no mesmo lugar da biblioteca em que o devaneio teve início. A bibliotecária vem saber se eu desmaiei e se preciso de alguma coisa.


- Está tudo bem – bocejo forçado – eu só... – outro bocejo só para garantir – eu só caí no sono.


Ela parece comprar minha desculpa e volta para a recepção. O “O BRASIL NUNCA FOI TÃO TROPICAL” estava exatamente do mesmo jeito - páginas amareladas, cheirando a mofo e a capa um tanto descascada. Minhas fantasias escapistas encontram o fim e eu chego à conclusão de que Manuel Bandeira certamente riria debochadamente da minha Pasárgada e, não tenho dúvidas, da minha leve queda pela filha de Dom Pedro II.


6 de Diciembre de 2020 a las 19:53 0 Reporte Insertar Seguir historia
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Fin

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