raenov Raíssa Novaes

Um grupo de arquitetos é contratado por uma importante família para reformar sua antiga mansão que é patrimônio histórico da pequena cidade de Santa Rosa, ao chegarem lá percebem que os membros daquela família são bastante peculiares e que há a possibilidade de que sua chegada naquele lugar não tenha sido apenas uma coincidência.


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Cuento corto
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Capítulo Único

Eu estava no mesmo campo de gramíneas esverdeadas com leves tons amarelados perto das raízes, deitado olhando para o alto céu alaranjado que silenciava todo o barulho da minha mente e preenchia parte do vazio que existia em meu peito. De repente, o vento frio soprou em minha direção e eu soube que ela estava por perto, me levantei calmamente e olhei para a direção das nuvens para assim identificar de que lado ela apareceria desta vez. Foi apenas uma questão de segundos ao olhar para cima e avistar seu vestido vermelho que destoava de todo o cenário pacífico. Ela estava de costas com seus longos cabelos castanhos que chegavam até o fim de seu quadril, me aproximei dela em passos lentos, acreditei que daquela vez eu poderia ver seu rosto.

Quanto mais me aproximava, os sentimentos de paz se esvaiam e o céu se tornava cada vez mais acinzentado e as gramíneas que tanto admirei estavam cada vez mais amareladas até o verde desaparecer completamente. Eu me aproximei dela e a cada passo ela ficava mais distante, então pela primeira vez algo incomum aconteceu... olhei para cima e diversos corvos sobrevoavam por cima de nós, quando retornei meus olhos a mulher que me assombrava desde a infância, ela estava lá parada me encarando com seus olhos gélidos e rosto pálido envelhecido com partes apodrecidas que se soltavam em pedaços de carne pútrida que se estendiam até seu pescoço, as quais não a incomodavam, em vista de que caminhava lentamente em minha direção e conforme elas caíam, ela não esboçava nenhuma reação. Quando faltavam poucos metros para estarmos frente a frente e o medo crescente dentro de mim se apoderasse além de minhas mãos e se espalhasse por meu corpo, ela deu um último passo à frente e sussurrou "volte para casa".

Eu acordei com as mãos de Bruna me chacoalhando e as gotas de suor frio escorrendo pela bochecha, arrumei as costas no banco traseiro do carro antes de notar que Rodrigo havia parado no acostamento.

— Mads, está tudo bem? — perguntou Bruna, com a porta direita do carro do banco de trás aberta.

Eu assenti com a cabeça ainda atordoado.

— Que susto que você deu na gente! Você estava dormindo e então começou a dizer coisas esquisitas e a gente te chamava, mas você não acordava — ela e Rodrigo se entreolharam preocupados.

— Aposto que estava tendo aquele sonho bizarro! — indagou Rodrigo olhando para nós dois e Bruna o encarou com a testa franzida — Depois eu te conto ou ele te conta.

Após mais algumas perguntas de Bruna sobre o meu bem estar, finalmente consegui convencê-la de que foi apenas um pesadelo. Ela retornou para o banco da frente ao lado de Rodrigo e nós continuamos o longo caminho até a pequena cidade de Santa Rosa. Passei a mão no bolso esquerdo da calça e tirei meu smartphone, já se passaram três horas desde que entramos nesse carro em São Paulo. Me aproximei do banco de meus colegas e os perguntei se faltava muito tempo para chegarmos, Rodrigo me respondeu com um leve fio de voz "menos de 30 minutos" enquanto sua parceira tentava guiá-lo por entre o caminho marcado no mapa que fora enviado pelo correio uns dias antes da viagem, isto é algo que não entendia quando nosso chefe nos falou sobre esse lugar. Como uma cidade conseguiria se manter isolada, até mesmo de aplicativos de gps na internet? Isso definitivamente não entrava na minha cabeça! Parte de mim desejava que esse fosse um trabalho rápido e que nós não tenhamos que lidar com pessoas do interior por muito tempo.

Alguns minutos se passaram e a paisagem de uma rodovia foi substituída por uma mata extensa com árvores altas e cheias de folhagem de cor verde escura, não sabia que ainda existia uma mata desse porte em um estado tão modernizado como o que moramos. Outra coisa me chamou a atenção, os postes com cabos de energia e possivelmente de internet, já haviam ficado para trás e a minha preocupação só aumentava, para onde nós estamos indo? Não demorou muito e obtive a resposta para minha pergunta, avistamos uma grande placa escrito "Sejam bem-vindos a Santa Rosa".

A paisagem da cidadezinha me surpreendeu pela arquitetura antiga, é como se as casas estivessem congeladas no tempo, suas construções remetiam aos anos 30 porém era possível perceber que eram bem cuidadas pelos moradores, as paredes haviam sido pintadas recentemente e as pequenas árvores que decoravam as altas calçadas eram decoradas com adornos de luzes que piscavam em seus troncos. Surpreendentemente, os estabelecimentos pareciam ter de tudo que eles precisassem, havia um grande mercado que possuía uma padaria e farmácia em seu interior. Os moradores no entanto utilizavam roupas fora de tendências de moda, o que foi reparado pela Bruna, que se indignou e abismou pelo fato de inúmeras mulheres estarem usando vestidos rodados das mais variadas cores e os homens, poucos eram vistos caminhando pelo comércio para que se formasse uma opinião sobre eles.

Os moradores talvez fossem os mais esquisitos, quando adentramos a cidade com o carro, vários olhares se voltaram para nós. Era difícil compreender se eles estavam apenas nos olhando ou nos praguejando, seus olhares ainda que indiferentes oscilavam entre curiosidade e desprezo, pois é, nem a gente queria estar aqui. Depois que nós observamos e comentamos sobre a nossa primeira impressão de Santa Rosa, nos dirigimos até a maior propriedade de todas, que podia ser vista desde a entrada da cidade, já que ela ficava em cima de uma cordilheira no ponto mais alto que se podia perceber sua presença. Era interessante observar aquela mansão, quem a construiu realmente quis que ela fosse percebida por todos, sua arquitetura se assemelhava aos outros pontos do local, no entanto, aquele lugar me dava arrepios. Assim que passamos pelo portão escrito "Família dos Bem Aventurados" o que para ser sincero fez com que nós três começássemos a rir por uns três minutos corridos, conseguimos vê-la mais de perto e como ela era extraordinária.

Era uma propriedade de cor creme com quatro andares, alguns mais altos e outros mais baixos. Haviam grandes janelas ornadas por arcos dourados que realmente se assemelhavam a ouro puro de tão brilhantes, elas ficavam a frente e haviam cortinas de cor vinho por dentro que estavam fechadas, ali eram os quartos dos curiosos membros daquela família. Na entrada do lugar havia uma porta de quase dois metros de madeira escura maciça e a sua frente uma senhora baixa de mais ou menos cinquenta anos que nos esperava lá e acompanhava nossa entrada com os olhos. Enquanto fiquei encantado pela residência, Rodrigo chamou minha atenção para os jardins que eram tão majestosos quanto ela. Era necessário que fossem atravessados para chegar ao portão principal, eles tinham diversas espécies de plantas as quais eu não conheço, em vista de que não tive muito interesse nelas quando era criança, nunca fui uma pessoa que lidou bem com o cuidado de seres vivos. Construções sempre pareceram mais interessantes, já que elas podem ser eternas se bem preservadas e plantas morrem com muita facilidade se não receberem a atenção que precisam. Apesar da diversidade de flora naquele imenso jardim que nada me interessou, haviam fontes e algumas estátuas que remetiam a ancestrais daquela família.

Paramos o carro à frente da casa e abrimos as portas ao mesmo tempo, Bruna parecia encantada pelo lugar seus olhares variam dos jardins a residência com tanta rapidez que era difícil acompanhar. Rodrigo fez um sinal para que eu pegasse as malas na traseira do veículo e fui prontamente, abri o porta-malas e retirei as cinco malas que estavam lá dentro, obviamente três delas eram da Bruna, enquanto eu e Rodrigo trouxemos só uma cada um. Ao pegá-las do chão de pedras desgastadas algo me chamou a atenção em uma das janelas que confirmou minha suspeita de que eram quartos. Havia um garotinho com mais ou menos seis anos vestido com um terno surrado me encarando de dentro da residência, eu levantei minha mão e acenei em sua direção que não esboçou nenhuma reação, em seguida ele fechou a cortina sem parar de me acompanhar com os olhos. Retornei para perto de Rodrigo e Bruna com as malas em mãos, eles naquele momento conversavam com a senhora que nos esperava.

— Conseguiram chegar no horário que combinamos! — A senhora disse — Foi difícil encontrar o caminho?

Bruna e Rodrigo se entreolharam.

— Não conseguimos achar o endereço no gps, então o mapa que vocês mandaram ajudou bastante — respondeu Bruna segurando suas malas, enquanto a senhora ia em direção a porta de madeira para abri-la.

— Mapa? — a senhora parou e se virou com uma das sobrancelhas arqueadas olhando para nós que não estávamos entendendo nada. — Meu nome é Lavínia Ventura, sou a responsável por manter a casa controlada.

Nós três nos apresentamos e começamos a elogiar a residência dos "bem aventurados", naquele momento o nome fez total sentido. Ao adentrarmos observamos que havia um longo corredor que dava acesso a vários cômodos que interessantemente não tinham portas. Enquanto Rodrigo e ela discutiam sobre os detalhes mais superficiais do interior da casa, uma das empregadas se aproximou de nós e ficou esperando ser notada por Lavínia. Eu me aproximei dos dois e interrompi a conversa, por alguns segundos tive a impressão de que ela fixou o olhar em mim mais tempo do que o eu estava acostumado e então virou para a empregada que vestia um típico uniforme preto e branco.

— O que aconteceu? — perguntou ela secamente.

— Liguei para ela como você pediu, só que ela não atendeu o telefone — respondeu a moça com um fio de voz.

Lavínia respirou fundo, fechou os olhos por alguns segundos e abriu um sorriso.

— Tente de novo e se certifique que dessa vez ela atenda! — a empregada assentiu e voltou para dentro da casa. — Vou deixar que meus funcionários os acomodem em seus quartos e gostaria de informá-los que essa noite haverá um jantar com todos os membros da família.

— Que interessante! Quantas pessoas são? — perguntou Bruna com a voz falhando.

— Será somente eu, meu filho, sua esposa e meu neto... — ela pausou — E a minha sobrinha.

— A gente precisa se vestir de algum jeito especial? — perguntei e ela olhou para o teto e depois para mim.

— É necessário — nós três nos entreolhamos — Minha sobrinha é uma estilista então... ela repara bastante no que as pessoas vestem — ela nos olhou de cima a baixo.

Eu e Rodrigo nos vestimos com calças jeans que compramos juntos em uma liquidação após o Natal e camisetas de bandas de rock já que dividimos o mesmo guarda roupa no apartamento em São Paulo. Sua namorada, se vestia muito melhor do que nós dois, durante todo o caminho de carro ela insistiu em usar um terno feminino e saltos para que quando chegasse a família visse que ela é uma pessoa muito profissional. Talvez agora ela se arrependesse disso, em vista de que tínhamos que subir as escadas com as malas em mãos e as dela estavam tão pesadas que parecia que ela carregava uns trinta sapatos.

— Eu não tenho roupa para esse evento! — sussurrou Bruna para nós enquanto um funcionário dos Ventura nos encaminhava até nossos respectivos quartos.

— Não acredito! — sussurrei de volta e Rodrigo riu.

Quando fomos colocados em nossos quartos, não demorou muito para que os dois viessem bater na minha porta. Eles haviam ficado para trás, já que foram explicar ao funcionário que dormiam juntos, em razão de que ele queria que dormissem em quartos separados. Quando abri a porta, Bruna já estava comentando que precisava ir até a cidade procurar um novo vestido, pois nenhum dos que ela trouxe era bom o bastante para aquele jantar. Rodrigo e eu dissemos que gostaríamos de ficar e explorar a casa, porém ela argumentou que a cidade era desconhecida e ela tinha medo de que algo acontecesse com ela, por isso Rodrigo teve de acompanhá-la enquanto eu ficaria sozinho lá.

Após eles saírem eu tive a oportunidade de explorar o quarto que eu dormiria pelas próximas quatro semanas. Ele ficava no segundo andar e tinha altas paredes, o curioso é que só os quartos deste andar tinham portas, as cortinas eram como eu havia visto quando cheguei, havia uma grande cama de madeira escura que ficava ao centro do quarto e lá estava uma cômoda de mesmo material à sua frente. Me deitei na cama e fechei os olhos na esperança de que eu pudesse dormir até a hora do jantar. Inexplicavelmente nas poucas horas que adormeci não sonhei com a mulher que me atormentava todas as noites.

Os sonhos começaram quando eu tinha seis anos após a morte dos meus pais em um acidente de trem descarrilhado. Me recordo claramente de ter uma chuva terrível naquela noite, eu estava assustado com o barulho ensurdecedor e não conseguia dormir mesmo com as três xícaras de chá de camomila que minha tia me deu, chegou um momento que ela apenas desistiu e me colocou na cama, não leu nenhuma história de ninar e fechou a porta. Eu chorei silenciosamente com falta dos meus pais, sentia como se as gotas de chuva estivessem no mesmo ritmo que as lágrimas que desciam pelo meu rosto. De repente, o telefone tocou e quando ela atendeu, a única coisa que escutei foi seu grito apavorante harmonizar com o barulho de um raio que eu acreditei que houvesse caído na minha cabeça. Não me lembro do que aconteceu depois, só que não fui ao enterro deles... e que uma tristeza profunda se apoderou de mim, corroendo cada parte da minha alma, até que a única coisa que me restou foi um completo vazio.

Foi nesse período que os sonhos começaram o que deixou a minha avó, a única pessoa que quis se responsabilizar por uma criança órfã, se questionando se tomou a decisão certa. Ela me levou a todos os tipos de médicos que pudessem explicar o que estava acontecendo comigo, primeiro tentaram por meio de conversas entender o porquê dos meus sonhos e depois me encaminharam para um psiquiatra que prescreveu um remédio. Com o passar do tempo eu me sentia cada vez mais cansado e as crianças do colégio comentavam que eu havia enlouquecido após ter perdido as únicas pessoas que se importavam comigo e por isso não falavam comigo. Para não preocupar a minha avó eu parei de contar sobre os sonhos e a mulher que naquele ponto, ela já acreditava que era a minha mãe vindo me visitar para ver se eu estava bem. Eu sabia que não era ela, afinal de contas os mortos não podem voltar.

Eu fui acordado por batidas insistentes na porta que estava trancada, me levantei rapidamente para abri-la e era Bruna vestida no novo vestido que comprou. Logo atrás dela estava Rodrigo já com um terno que nunca tinha visto antes, eles reclamaram que eu ainda não estava pronto, então corri para me arrumar e eles comentaram do que ouviram na loja sobre a família Ventura e sua grandíssima residência. Que eles reformaram frequentemente, em razão de uma infiltração nos porões que causava mau cheiro na casa que só era percebido a noite, em vista de que os empregados aplicam constantemente produtos que disfarçam o cheiro. Antes de nós houveram outros que tentaram encontrar a origem da infiltração, mas não obtiveram êxito na busca.

Ao descermos as escadas vimos um casal e uma criança ao seu lado, o homem que era bastante alto discutia com a mulher que estava com as mãos nos ombros do garotinho que eu vi mais cedo na janela, ele não tinha mais do que sete anos. Nós os cumprimentamos e eles pareciam envergonhados, o homem que descobrimos se chamar Victor nos acompanhou até a sala de jantar onde nossos lugares já estavam a postos, nos sentamos e Bruna tentou conversar com Emily, a esposa dele e com seu filho que se chamava Antônio, porém era perceptível que eles estavam desconfortáveis em nossa presença pela forma que evitavam olhar em nossos olhos. Não demorou muito para que Lavínia se juntasse a nós, no entanto curiosamente quando ela chegou havia uma mulher pálida de estatura mediana, usando um longo vestido vermelho e com cabelos castanhos que pouco passava dos ombros atrás dela. Ela possuía controle de cada passo que dava até seu lugar na mesa, não olhou para nenhum de nós, agiu como se já nos conhecesse ou como Rodrigo sussurrou no meu ouvido poderia ser apenas arrogância da parte dela.

Aquele foi um dos jantares mais estranhos que tivemos com clientes, os empregados nos serviram e todos comemos em silêncio, até o momento que Lavínia bateu a colher em uma de suas taças e começou a falar sobre a reforma que faríamos na mansão. Na mesa de jantar havia um lugar vago e que foi posto, sem pensar muito eu interrompi o discurso de Bruna sobre o lugar e perguntei para qualquer um dos familiares que quisesse responder.

— Por que ainda tem um lugar vago na mesa? Estamos esperando alguém? — pela primeira vez a mulher de mais cedo que apenas olhava para seu prato me olhou, enquanto seus familiares se entreolharam.

— É um hábito que nós temos de deixar um lugar a mais na mesa mesmo que ele não seja ocupado — ela respondeu calmamente sem tirar os olhos dos meus.

— Tínhamos um tio que se sentava naquele lugar — falou Victor e todos os outros o encaram — Deixamos ali caso ele volte.

— Volte de onde? — indagou Bruna.

— Meu irmão desapareceu há alguns meses, ele tem esse hábito... deixamos ali caso ele retorne de onde quer que esteja — disse Lavínia secamente e a tensão no ambiente subiu — Acho interessante Isabel se apresentar a vocês, não é querida?!

Todos a olharam esperando uma reação.

— Como a minha tia pontuou — ela encarou Lavínia —, eu sou a Isabel... não moro mais aqui só que ainda sou muito requisitada — Bruna começou a rir ao meu lado e o garoto Antônio começou a gargalhar em conjunto atraindo o olhar preocupado de seus pais pela força que sua avó mordia os lábios.

A partir dali as coisas aconteceram muito rápido, Lavínia interrompeu o jantar e pediu gentilmente que nós todos fôssemos para os nossos quartos, em vista de que era proibido andar pela casa a noite. Ao me deitar no colchão macio, já confortável com os pijamas que encontrei na cômoda, murmurei o desejo de dormir profundamente depois de um jantar agitado e tenho quase certeza de que fui ouvido, já que em questão de minutos eu já havia adormecido.

Os dias seguintes passaram voando, nós três dividimos os cômodos da casa e eu tive a má sorte de ficar com o primeiro andar. Passei três longos dias tentando entender o mapa original da construção da casa que várias vezes me direcionou para lugares bloqueados por paredes. Em uma das minhas explorações avistei a única porta daquele andar que de acordo com o papel que eu tinha em mãos levava a um longo corredor que conecta a outro canto que eu ainda não havia encontrado. Ao pegar na maçaneta da porta, ela não se abriu, estava trancada, perguntei a um dos empregados se eles tinham a chave e ele me respondeu que só Lavínia possuía a chave mestra das portas e que mesmo que eu pedisse ela não me daria, em vista de que aquele corredor era um cômodo proibido para todos menos os membros da família. Alguma coisa despertou em mim naquele instante, havia algo de diferente nesse lugar que fazia aquelas pessoas guardarem tantos segredos dos que vinham de fora.

Em um dos dias em que perambulei com meus desenhos daquela bizarra planta que não levava a lugar algum algumas vezes, perto do escritório eu conseguia ouvir duas pessoas discutindo eram Lavínia e sua sobrinha, Isabel. Aquela que raramente saia do quarto pelos últimos dias, só algumas vezes para conversar com Bruna sobre a reforma de seu armário, na primeira vez que conversaram ela correu para o andar de baixo para me dizer que Isabel elogiou seu vestido que eu não havia prestado muita atenção desde o momento que a estilista adentrou a sala de jantar.

— Nós temos realmente que fazer isso? — a voz calma de Isabel me tirou dos devaneios.

— É necessário se você quer que as coisas sejam diferentes desta vez — respondeu firmemente Lavínia.

— Quando tentei isso das outras vezes não deu certo... — Isabel caminhava de um lado para o outro dentro do escritório.

— Das outras vezes você não teve a minha ajuda! — afirmou Lavínia.

— Por que você resolveu me ajudar agora? — Isabel parou na frente dela e a tia a encarou.

De forma inexplicável, Lavínia olhou exatamente para o lugar em que eu estava parado espiando a conversa. Ela se levantou e eu soube que era a hora de fugir, então corri para o jardim sem colocar muito peso nos pés.

Fiquei cerca de 20 minutos desenhando as plantas tentando disfarçar o que eu havia feito caso Lavínia aparecesse no jardim, não demorou muito e alguém saiu da casa, era Isabel. Ela parecia cansada, a presença majestosa da primeira vez que a vi já não estava lá, sua pele estava estranhamente mais clara e havia olheiras embaixo de seus olhos, como se não tivesse dormido por noites. Ela não tinha percebido minha presença pois caminhou ligeiramente até uma das roseiras e retirou uma rosa, de repente retirou a mão rapidamente do caule da flor e percebi que ela machucou a mão. Caminhei rapidamente para ajudá-la, joguei minhas coisas no chão e segurei sua mão tentando estancar o sangramento. Ela não tentou retirar a mão da minha, ficou por uns segundos imóvel olhando o meu rosto e no instante que retornei seu olhar senti arrepios por todo o meu corpo aos poucos eu observava suas bochechas corando do mais puro vermelho tão intenso quanto o das rosas ao nosso lado. Não tive muito tempo para pensar no que fazer em seguida, já que ela retirou apressadamente sua mão e a colocou dentro do bolso do moletom cinza que vestia por cima de um jeans azul escuro.

— Desculpa! Não quis ultrapassar os limites — eu disse ao me afastar dela para pegar minhas coisas.

— Eu não te vi... onde você estava? — ela perguntou sem tirar os olhos de mim

— Entre as hortênsias — respondi com as folhas de desenhos nas mãos.

— Você conhece as plantas? — ela parecia intrigada.

— Algumas... — estava começando a ficar nervoso — Está tudo bem com a sua mão?

— Sim, foi um corte muito pequeno — ela disse sem tirar as mãos dos bolsos — Quer sair daqui?

— Por que? — perguntei interessado

— Das janelas dá para ver tudo que a gente fizer no jardim — imediatamente olhei para as janelas e vi uma fresta aberta, não consegui identificar quem era.

— Quem está lá? — ela olhou para a mesma direção.

— O Tony ou a minha tia. Ele só gosta de observar, mas ela consegue interpretar errado qualquer situação — eu dei risada me sentindo inexplicavelmente confortável e ela me encarou curiosa — O que foi?

— Essa é a primeira vez que converso sozinho com você e parece que já te conheço há tanto tempo... — eu havia comentado sem perceber, algo em seus olhos castanhos idênticos ao mais puro mel me hipnotizaram.

Ela não disse nenhuma palavra, somente segurou minha mão e começou a nos levar para outro lugar longe dos jardins. Ao chegarmos no interior da residência que estava mais gélida do que o normal, subimos as escadas e corremos para seu quarto. Aquela tarde ficamos conversando sobre variados assuntos sentados à beira da janela que dava de frente aos jardins, o dourado dos raios solares pousaram sobre seu rosto e se misturaram com o rubor que descansara ali desde que nossos olhares se cruzaram. Eu não imaginava que ela poderia ficar mais bonita do que naquela noite e como me enganei ao se sentir confortável em seu espaço rindo das minhas piadas idiotas ela era a oitava maravilha do mundo que não fora descoberta. O quão sortudo eu era naquele momento de ser privilegiado de a ver em um dos seus momentos mais vulneráveis comentando sobre os problemas no casamento de seu primo e como ela desejava tirar o pequeno Tony dali para que finalmente ele tivesse paz.

Em um piscar de olhos que é assim que os melhores momentos da vida passam foi como os dias na casa dos bem aventurados deixaram sua marca em mim. Eu e Isabel não ficamos um dia longe um do outro, ela me disse que estava hesitante de se aproximar de mim, já que tinha medo do que poderia acontecer, eu segurei sua mão que não possuía nenhuma cicatriz dos espinhos para a reassegurar que tudo ficaria bem. Ela se acostumou rapidamente com meus dois amigos e após a chegada dos operários a reforma caminhou a todo vapor, nunca senti tanto prazer em um trabalho como foi com a família Ventura. Ao mesmo tempo que tudo dava certo comigo, as coisas não iam tão bem entre Victor e sua esposa Emily. Eles discutiam constantemente e ninguém sabia a razão por trás, Emily passava o dia inteiro trancada dentro do quarto e se recusava a comer e o garoto Antônio começou a passar mais tempo brincando com nós quatro.

Quando faltava uma semana para o fim da reforma e os operários estavam empolgados em finalizar o mais rápido possível, Isabel me chamou para se sentar ao seu lado na fonte de cimento do jardim que havia sido recém pintada de branco.

— Madson, eu preciso que me prometa uma coisa — ela mal me olhava nos olhos.

— O que? — perguntei com o corpo virado em sua direção.

— Quando o Rodrigo e a Bruna forem embora... você precisa ir com eles.

— Eu pensei que nós fôssemos voltar juntos?

— Eu preciso resolver algumas coisas aqui antes.

— Você está estranha... — ela se contorceu desconfortável na fonte — Aconteceu alguma coisa?

— Não precisa se preocupar... vai ficar tudo bem — ela disse me olhando pela primeira vez nos olhos desde que começamos a conversar e eu me levantei — Madson, espera!

Ela se aproximou de mim e colocou suas duas mãos ao redor do meu rosto, acariciando minhas bochechas.

— Até ontem estava tudo bem e agora você diz que eu tenho que ir sem você? — perguntei aborrecido

— Eu prometo que vou te encontrar quando resolver as coisas — ela olhou fundo nos meus olhos — Confia em mim!

— É alguma coisa com a sua família? — ela assentiu — O seu tio apareceu? — ela arregalou os olhos

— O que te faz pensar isso?

— Só tive um pressentimento de que ele fosse a razão por trás do seu comportamento.

— Vocês tem que ir embora para que eu possa me certificar de que ele não os encontre se ele voltar — ela se afastou de mim e ficou de costas — Coisas ruins acontecem quando ele está por perto.

— Vocês nunca falaram nada sobre ele depois do jantar... então eu pensei que o desaparecimento dele não fosse algo tão sério — eu me aproximei dela e coloquei minhas mãos em seus ombros os massageando levemente — Se ele é tão perigoso, todos vocês deveriam ir embora.

— Ele não pode nos machucar... — ela se virou ficando de frente para mim.

Naquele instante, me veio a ideia de que talvez a única porta trancada do primeiro andar tivesse alguma coisa a ver com o tio de Isabel.

— Aquela porta no primeiro andar, leva a algum lugar que não dá para ver na planta? — Entrelacei minhas mãos na cintura dela.

— Ele foi uma ideia do meu tio para aumentar a casa há alguns anos atrás, teve um acidente e nós decidimos manter o lugar conservado com as reformas constantes.

— Que acidente? — ela se afastou de mim

— Vamos voltar para dentro? — ela se esquivou da pergunta

Eu percebi naquele instante que ela não queria falar sobre o assunto e esse foi o momento que eu soube que algo muito esquisito acontecia naquele lugar. Ela estendeu a mão, eu a peguei e entramos para dentro da residência. Após o jantar daquele dia, eu fui diretamente para o quarto de Rodrigo e Bruna os comunicar que havia algo de estranho acontecendo com Isabel. Eles me aconselharam a fazer o que prometi a ela, porém, algo me incomodou na maneira que ela era superficial sobre todos os assuntos envolvendo sua família. Contei a eles sobre o acidente que foi o responsável pelo fechamento do corredor e das reformas constantes da casa. Rodrigo que adorava histórias de mistério decidiu pesquisar na internet, porém se lembrou de que o sinal não chegava ali e de que estávamos completamente isolados naquela região.

— E se fossemos na cidade amanhã? — indagou Bruna — Quando fomos comprar o vestido, eu vi uma biblioteca de frente para loja.

— Poderíamos encontrar alguma coisa lá — eu falei.

— Vocês dois podem ir — disse Rodrigo — Quero ficar para terminar o layout do jardim.

— Tem certeza que não quer participar da investigação? — perguntou Bruna deitada na cama.

— Tenho certeza que vocês vão me contar as descobertas quando chegarem.

Aquela foi a primeira noite inquieta que tive na residência dos Ventura, todas as outras noites foram calmas e eu temia que voltasse a ter o sonho apavorante com a mulher de vermelho. Seria melhor ter a visto enquanto eu dormia, já que adormeci e somente a completa escuridão preencheu o vazio deixado pelo sono inquieto. Foram incontáveis as vezes em que acordei de repente e me senti observado por algo naquela noite, olhei por todos os cantos do quarto que estava com a única porta que levava ao corredor do segundo andar trancada, não conseguia perceber nada justamente pela lua ter se recusado a aparecer me mantendo em um breu agonizante.

De manhã, Bruna bateu em minha porta e saímos juntos antes de Isabel acordar e desconfiar de que algo estava acontecendo, encontramos Lavínia na entrada quando estávamos prestes a sair e inventamos a desculpa de que precisávamos buscar materiais importantes. Por pouco ela não acreditou, já que no momento que ela ofereceu que Victor nos acompanhasse até a loja de construção, em vista de que nenhum de nós além de Rodrigo foi com ele na primeira vez. Recusamos firmemente e ela arqueou a sobrancelha, neste instante Rodrigo desceu as escadas e disse que já havia nos explicado o caminho e ela recuou da porta da frente parecendo mais aliviada e adentrou dentro da residência dando tarefas para os empregados que já haviam chegado. Eu e Bruna nos despedimos de Rodrigo e fomos diretamente para o carro, demorou menos de dez minutos para chegarmos e pararmos na frente da biblioteca que ela havia visto na primeira vez que veio aqui.

A biblioteca se assemelhava a um cubículo com estantes altas e repletas de coleções raras de livros que o bibliotecário nos informou que foram contribuição dos Ventura. Nos aproximamos dele e perguntamos se haviam jornais antigos onde pudéssemos consultar as notícias da cidade e ele nos levou até as últimas fileiras. Ao perguntarmos sobre o acidente na residência, ele disse que aconteceu há muito tempo e pegou um bilhete com manchas de café e que era datado de 25 de setembro de 1868 com a assinatura de Augusto Ventura.


"Jovem aprendiz,

Sinto em informá-lo que as aulas de pintura foram canceladas devido ao incêndio que ocorreu na Grande Casa. Eu não estava presente na noite do ocorrido, tive assuntos a resolver na cidade e quando retornei ao entardecer vários de nossos servos estavam fora e as chamas já haviam engolido todos os cômodos que minha família lutou tanto para preservar. Eu tenho conhecimento do apreço que tu possuía por minha sobrinha Bela e por esta razão te informo que ela não escapou da fúria das chamas, juntamente com minha irmã, seu filho e a família dele. Será realizado um velório com o que restou dos corpos, tenho certeza que ela ficaria feliz se soubesse que você compareceu.

Do seu mentor, Augusto Ventura"


Nós dois ficamos boquiabertos, não era possível que aquela era a única evidência que encontramos de que o acidente realmente aconteceu. Na época isso parecia impossível para mim, não fazia sentido que houvesse ocorrido há tanto tempo atrás, deveria haver outro mais recente.

— Tem certeza que essa é a única coisa que vocês tem sobre o acidente na casa? — perguntou Bruna ao bibliotecário que estava sentado lendo algo na mesa da entrada — Não existe nada mais recente?

— Só tem isso — ele respondeu secamente.

— Quem é Augusto Ventura? — perguntei dando um passo à frente.

— É o senhor da família Ventura — o bibliotecário respondeu — Faz tempo que não o vejo — Eu e Bruna nos entreolhamos apavorados.

— Eu acho que ele já morreu, este bilhete é de 1868 — disse Bruna mostrando a data da assinatura para ele

— Vocês têm uma visão estranha sobre o tempo — ele proferiu — Algumas coisas inexplicáveis acontecem nessa cidade e principalmente com aquela família, nós nos acostumamos em tê-los por perto.

O mais inteligente naquele momento era termos feito mais perguntas a ele, no entanto estávamos tão aterrorizados que saímos dali sem olhar para trás. Caminhamos silenciosamente até a uma farmácia que ficava perto da biblioteca, Bruna entrou e pegou testes de gravidez, pagou por eles e saiu de lá.

— Você está grávida? — perguntei apontando para a sacola com testes.

— Não sei... é quase impossível para mim só que depois dos eventos de hoje e de uma coisa que o Tony falou para mim quando eu brinquei com ele...

— O que ele disse? — nossa respiração estava pesada.

— Que eu deveria tomar mais cuidado quando vou comer, o bebê não gosta de coisas verdes — os olhos dela encheram-se de água — Eu disse para ele que não podia brincar com essas coisas e ele falou que foi o bebê que comentou com ele.

— Se isso for verdade, você e o Rodrigo precisam ir embora daqui.

— Você vai vir com a gente! — ela afirmou

— Eu tenho que descobrir o que está acontecendo!

— Alguns assuntos ficam melhores escondidos Mads! — ela olhou disfarçadamente para todos os lados — Tem tanta coisa que não conseguimos entender nesse lugar, é melhor deixarmos tudo para trás quando formos embora e nunca mais falar sobre isso.

Eu sabia que ela estava certa, a decisão mais sábia a se fazer era de ir embora rapidamente, eu temia que algo de ruim acontecesse a Isabel, mas ela havia sido clara, eu tinha que ir embora com Rodrigo e Bruna.

Quando retornamos a resposta sobre o estado de Bruna não demorou muito para vir, ela estava esperando um filho com Rodrigo e eu não poderia colocá-los em mais riscos. Contamos tudo a ele, desde o bilhete e Não sabíamos o que acontecia naquele lugar e a antecipação por alguma mínima informação nos consumia por dentro deixando a ansiedade em intensidade quase insuportável. Todas as plantas estavam prontas, os operários só tinham de finalizar o encanamento e não precisavam da nossa direção. Tiramos as roupas dobradas da cômoda e arrumamos nas malas, quando descemos as escadas os Ventura estavam se preparando para o jantar. Todos estavam com os olhos arregalados e pareciam surpresos pela nossa ida repentina.

— Vocês estão indo embora? — perguntou Lavínia saindo da sala de jantar e indo até a frente da escada.

— Sim — respondeu Rodrigo — Surgiu um imprevisto e não vamos conseguir ficar até o fim da semana, sinto muito.

Isabel caminhou até mim atordoada.

— Você vai embora hoje? — ela perguntou com um fio de voz

— Eu sei das coisas estranhas que acontecem aqui — evitei olhar em seus olhos — Não posso colocar meus amigos em risco.

— O que você está dizendo? — ela disse e todos os outros no cômodo nos observaram, então Rodrigo me cutucou para que eu ficasse quieto.

— Quando você chegar em São Paulo me avisa que nós conversamos — eu me afastei e fui diretamente para a porta da frente.

Ao abrir a pesada porta de madeira o cheiro agradável das flores do jardim invadiram meus sentidos e o pequeno Antônio correu até mim e segurou a manga do casaco que eu vestia. Ele sussurrou no meu ouvido "vai dar certo dessa vez" e correu em direção a sua mãe que o abraçou enquanto ouvia seu pai gritar "está muito cedo". Nós três escolhemos ignorar o que Victor disse e guardamos as malas apressados no porta malas do carro de Rodrigo. O casal se sentou nos bancos da frente e deram as mãos sorrindo um para o outro. Foi quando senti que alguém me enlaçou em um abraço pela cintura e assim que vi suas pequenas mãos eu soube que era ela.

— Eu gostaria de ter te contado tudo antes, mas é melhor assim — ela sussurrou para que só eu ouvisse — Quando tudo isso acabar eu vou te procurar... pela última vez — por fim, ela me empurrou para a parte de trás do carro e fechou a porta.

Enquanto saímos dali, eu olhava melancolicamente para seu rosto que ostentava tamanha palidez que qualquer um acreditaria que ela estava morta, o que de fato não diminuía a sua beleza só a tornava menos perceptível.

Cada minuto que eu passava no espaço apertado da parte de trás do carro me dava a impressão de que eu estava encurralado pelo ambiente sinistro de Santa Rosa e pelos olhos castanhos de Isabel que guardavam os mais profundos segredos. Eu não podia tê-la deixado lá com aquelas pessoas certo? Eu tinha de voltar e trazê-la conosco, algo me dizia que se eu fosse embora nunca mais iria vê-la. Em meio a nossa quase saída de Santa Rosa, cutuquei o ombro de Rodrigo e pedi que ele retornasse, depois de muita relutância da parte dele e de Bruna, eles cederam após eu concordar em ser o único a sair do carro.

Na segunda vez que entramos todos juntos já não estávamos impressionados pela casa, alguma coisa naquela situação não me permitiu sentir conforto em estar de volta minutos depois. Corri para dentro da casa e todas as luzes estavam apagadas, gritei pelo nome de Isabel aos quatro ventos e a procurei por toda parte nos dois andares da casa que parecia desabitada, só era possível ouvir meus passos no piso de madeira. Quando olhei pelo canto do olho vi uma fraca luz saindo de um quarto, o único que tinha portas no primeiro andar, caminhei lentamente até ele e abri a porta que estava destrancada.

Me surpreendi com o longo corredor que possuía grandes quadros pintados a mão nas paredes, todos eles estampavam o rosto da família Ventura e de um membro que eu não conhecia chamado Augusto Ventura. Ele era um homem de meia idade, branco com cabelos grisalhos e usava um terno preto, seus olhos eram tão escuros e vazios que toda a lembrança da minha infância retornou e lágrimas começaram a descer dos meus olhos.

Havia um quadro que me chamou a atenção, era uma mulher com cabelos muito longos, pálida usando um vestido vermelho. Eu não conseguia acreditar, o tempo inteiro quem me assombrava em meus sonhos era Isabel. Ela era a mulher de vermelho que me mandava voltar para casa e como se não fosse o suficiente o quadro datava de 1869 e a assinatura era do pintor Madson Rodrigues. Não era possível... aquilo não fazia o menor sentido... caminhei para trás e deslizei pela parede até o chão em choque. A porta se abriu e lá estava Augusto Ventura exatamente igual ao quadro caminhando na minha direção com as mãos para trás e os olhos extremamente fundos e arroxeados.

— Esperei tanto tempo para vê-lo de novo, aprendiz — ele falou em tom grave — É uma pena que não tivemos mais tempo.

Em poucos segundos ele revelou um punhal que estava em uma de suas mãos e acertou o primeiro golpe em meu coração e depois esfaqueou diversas vezes meu abdômen. Porventura foram os segredos ou o vazio que me consumia por inteiro que me impediram de sentir a dor e como em um dos meus sonhos, eu a vi desta vez belíssima em seu quadro me observando pela última vez e eu podia jurar que vi lágrimas escorrendo de seus olhos na pintura enquanto a vida se desvanecia de mim pouco a pouco e tudo que restava era apenas a escuridão que tanto me amedrontou.

12 de Diciembre de 2020 a las 17:19 4 Reporte Insertar Seguir historia
4
Fin

Conoce al autor

Raíssa Novaes Amante de romances e dramas, algumas vezes se aventura em gêneros que pouco conhece como aventura, fantasia e terror. Sejam bem vindos ao mundo dos meus adorados personagens ;)

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Henrique Carvalho Henrique Carvalho
Gostei bastante do tema e de como você descreve os personagens e os ambientes! Parabéns! Acabei de chegar nessa plataforma! Se tiver alguma dica pra mim, vamos conversar! Abraço!
January 02, 2021, 01:56

  • Raíssa Novaes Raíssa Novaes
    Muito obrigada por ler :D fico feliz que tenha gostado do tema e da forma que descrevi os detalhes. Vamos conversar sim, adoraria te ajudar se tiver alguma dúvida. Até a próxima :) January 06, 2021, 01:52
João Pedro  Neves João Pedro Neves
Frisei na história assim que li a sinopse , comecei a ler e não parei. Meus parabéns ficou muito bom !! ^^
December 20, 2020, 11:30

  • Raíssa Novaes Raíssa Novaes
    Fico feliz que tenha gostado :D Muito obrigada por ler January 06, 2021, 01:50
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