zephirat Andre Tornado

Numa das festas promovidas pelo senador Heskey de Corulag ele repara em alguém que ainda não tinha visto. E surge o convite para uma dança. Depois… depois tudo acaba por ser efémero e torna-se especial.


Fanfiction Movies For over 18 only. © Star Wars não me pertence. História escrita de fã para fã.

#OBrilhodosInicios #B-Day #baile #festa #aniversario #Corulag #OSenadorRebelde #Heskey #starwars
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Capítulo único


Heskey pousou o copo na bandeja que o autómato carregava, enquanto deslizava anónimo e maquinal por entre os convidados de mais uma festa que ele concedera em dar na sua mansão. Para o serviço casual e tarefas rotineiras ele nunca empregava androides, apenas eficientes autómatos anónimos, pois detestava vê-los a tentar interagir com as criaturas sencientes, ainda que isso acontecesse no âmbito das premissas cordiais da sua programação. Nas suas festas nem sequer admitia a presença da sua base de dados J7-21 e ele confiava bastante em Jotassete.


Naquela noite, em particular, desempenhar o papel de anfitrião era mais do que uma obrigação para ele. Era um sacrifício que ele dispensava de bom grado – mas o seu assistente pessoal, o ithoriano Onca, insistira. Ele estava a perder apoios importantes devido a boatos que o juiz Omonda tinha posto a circular recentemente. Uma dessas pessoas que começavam a duvidar da sua reputação era um magnata de Curamelle, dono de um enorme entreposto comercial que negociava alta tecnologia e um dos seus principais financiadores. As suas finanças pessoais, explicara-lhe Onca, não podiam perder o patrocínio desse homem que tinha um nome impronunciável que Heskey nunca fora capaz de decorar.


Ajeitou as abas da sobrecasaca de veludo azul, puxando-as com um gesto seco. A sua capa adejava elegantemente junto aos seus tornozelos, presa nas fivelas dos ombros numa dobra particularmente elegante que demorara alguns minutos-padrão a fazer, até ficar a seu gosto. Era uma capa pesada e cara que lhe custara uma pequena fortuna, pelo que se lembrou pela centésima vez por que motivo tinha de estar ali a aturar aquela gente toda. Por causa do tal magnata!


Respirou fundo, espetou o queixo. Passou os olhos pelo salão social num assomo assaz altivo e desagradável, mas ele podia fazer tudo o que lhe apetecesse na sua casa e na sua festa. Pensou que podia ser ainda mais intratável se de repente lançasse um grito e mandasse aquela pequena multidão de aduladores embora com duas ou três palavras duras. Depois, sorriu com alguma maldade imaginando-se a fazer precisamente isso, a visualizar a cara de pânico de Onca e os seus estalidos irritantes.


Apagou o sorriso. Não devia ser tão antissocial, mas vontade não lhe faltava. Já passava a maior parte dos seus dias em reclusão na sua vasta propriedade, no seu terraço entretido com um hololivro ou com as notícias galácticas que ainda lhe conseguiam despertar interesse, pois pouco havia a acrescentar à propaganda imperial que assegurava a todos os sistemas planetários que estava tudo bem na galáxia. Por isso, que mal fazia duas horas de entretenha forçada com gente que abominava? E garantiam-lhe as capas magníficas, os canapés deliciosos, os licores exclusivos, os seus pequenos luxos – incluindo os hololivros proibidos que Onca lhe comprava no mercado negro.


Bem, para qualquer um ganho tinha de haver uma cedência.


Para os seus ganhos extraordinários tinham de existir cedências também extraordinárias.


Relanceou o olhar pela plataforma onde os músicos tocavam. A animação estava também sofrível. Teria preferido músicas mais animadas, mas Onca é que se encarregava da seleção musical e definia os temas de acordo com a lista de convidados. Ou seja, a festa estava aborrecida e ele não estava enganado ao fazer essa avaliação.


Ao voltar à observação quase casual e despojada do salão, preparando-se para abandonar o local que lhe estava a causar desprezo e fastio, os seus olhos bateram numa figura que lhe chamou a atenção. Uma mulher humanoide. Pequena, com um vestido pesado e elaborado, nada condizente com a juventude que lhe leu no rosto redondo e empalidecido artificialmente com cosméticos. A maquilhagem era tão exagerada quanto a indumentária. Ela refugiava-se inquieta num recanto junto aos reposteiros das grandes janelas. Bebericava um licor de gojyriana e fazia-o a medo, pois decerto tinha indicações para não beber nada, muito menos uma bebida tão forte. O seu pescoço girava de um para outro lado, vigiando quem a teria levado até àquela festa, antecipando o momento em que pudesse ser apanhada em transgressão.


Heskey sorriu. Gostou dela, só pelo facto de se mostrar rebelde – uma rebelde medrosa e insegura, mas ainda assim, uma rebelde. Estava a beber às escondidas e, outro detalhe, tinha descalçado os sapatos desconfortáveis de salto alto que as mulheres usavam naquelas ocasiões. No caso dela, porém, teria sido outra obrigação. Vestido, pinturas no rosto e sapatos. Um conjunto que a estaria a subjugar e a asfixiar. Por isso bebia, na afirmação de que se a tinham obrigado a fazer tudo aquilo, ela iria fazer algo irritante e proibido só para os afrontar.


Desconhecia quem pudesse ser – mas também era verdade que ele não conhecia todos os seus convidados. Apenas alguns e nem decorava os seus nomes. Mais uma vez, essa tarefa aborrecida de identificação, cortesia e atenção cabia a Onca.


O que faria ele sem o seu assistente pessoal ithoriano?


Voltou a ajeitar a sobrecasaca e avançou até à mulher.


Sem se apresentar, tomou-lhe a mão esquerda na sua e osculou-lhe os dedos.


Surpreendida, ela cuspiu o gole de licor que tinha na boca, aspergindo-o de pequenas gotículas azuis. Soltou um gritinho e arregalou os olhos. Gaguejou algumas palavras desconexas, completamente aterrada por tê-lo borrifado com a bebida.


- Minha querida, não te queria assustar. Heskey, ao teu dispor.


- Senhor Heskey… mas assustou-me – queixou-se ela. Endireitou o pescoço, percebendo a sua falta ao ser tão direta. Baixou a testa numa pequena mesura e desculpou-se, a seguir: – Perdoa a minha ousadia. Eu… devia limpar isso…


- Não te perdoo… porque não foste ousada.


- Oh!


Por detrás da camada de pó branco que lhe cobria as faces, ela corou. Apertou os lábios e percebeu o que tinha na mão. Tentou esconder o copo, mas não tinha outro lugar onde o pousar a não ser no parapeito da janela. Seria indelicado se o fizesse, então colocou as mãos atrás das costas e pigarreou, para disfarçar o hálito intenso a álcool. Aquele não era o seu primeiro copo.


Observando melhor, viu nela uma jovem mulher, engraçada e espontânea.


Heskey sorriu-lhe.


- A culpa foi minha, minha querida. Não devia ter aparecido junto a ti dessa forma.


- De que forma?


- Abrupta.


- Tu és um homem abrupto.


As suas sobrancelhas movimentaram-se pronunciadamente e Heskey indagou:


- Serei?


Ela corava cada vez mais, aflita, acanhada e encurralada. Gostava de dizer as coisas diretamente, para de seguida melindrar-se com as consequências. Recuou um passo subtil e esbarrou com o limite da parede entre as janelas. Gaguejou alguns ruídos:


- Eh… Ah…


- E não precisas de limpar nada. A cor da tua bebida combina com a minha indumentária.


Num gesto rápido e amplo, tirou-lhe o copo das mãos e deixou-o na bandeja de um autómato que passou próximo deles.


- Como te chamas, minha querida?


Ela respondeu num murmúrio:


- Valdie.


- Valdie – repetiu ele, depois de ter a certeza de que tinha percebido bem, já que ela falara tão baixo. – Um nome inusitado. Valdie… Valdie – tornou a repetir, respirando fundo entre as sílabas. – Valdie. Gosto da maneira como soa. Tem musicalidade e afirmação.


- Sim.


- Sim, o quê?


Ele inclinou-se ligeiramente, confuso com aquela resposta.


- Acho que sim, senhor Heskey – disse ela, hesitante. – O meu nome é como descreveste… musical e afirmativo.


Ele corrigiu-a:


- Só Heskey. Por favor.


- Está bem.


- Empregas poucas palavras.


- Estou nervosa, senh… Heskey. Não queria que reparasses em mim. Ninguém repara em mim, muito menos o anfitrião de uma festa destas.


- Uma festa destas…


O nervosismo dela era palpável e constrangedor. Ele sentiu-se ligeiramente afetado pelas reações que provocava na moça, mas num sentido que também o estava a deixar desconfortável. Achava que estava a ser cordial e não intrusivo.


- Assim… uma festa rica, bonita. Com tão bom gosto… – explicou ela, escolhendo as palavras. Fechou os olhos demoradamente. As pálpebras estavam pintadas de um azul-cobalto que sobressaía na alvura artificial do rosto.


Ele contrapôs, balançando-se sobre os calcanhares:


- Esta festa está horrível e tu também achas que estás horrível. Não precisas de me bajular para me impressionar, minha querida. Já me impressionaste, ou não teria vindo ter contigo.


Ela negou, assustada:


- Eu… não sou nada de especial.


- Queres que me vá embora?


- Não, senh… Não, Heskey. Só estou… nervosa. Tu estás a falar comigo.


- Sim, gosto de falar com os meus convidados – mentiu. Ele detestava falar com os seus convidados. Mas com ela abrira uma exceção. Fora atraído pela fragilidade, pela dissimulação, pela vontade de destruição temperada com uma sensatez lúcida que evitava as decisões radicais. No fundo, deixara-se seduzir pela aberta rebelião juvenil dela. Ele um dia fora assim. Munira-se de uma guitarra e fora cantar as suas dores. – Porque te escondes?


Ela olhou para todos os lados.


- Não estou… escondida. Toda a gente me pode ver aqui.


- Claro que estás escondida. Debaixo dessa máscara, parada no mesmo lugar, a desejares fundir-te com os meus reposteiros, anónima, calada e invisível. E eu apanhei-te no teu esconderijo perfeito. Continuas nervosa?


- Eh… Sim


- Sim outra vez. Adoras empregar essa palavra. Sinal de que continuas nervosa. O licor de gojyriana não te deixou mais solta?


- Não estava a beber…


- Oh, minha querida Valdie! Não podes enganar duas vezes o anfitrião na sua própria festa!


Ela pestanejou, corando agora de fúria que teve a sensatez de dominar sob uma voz gelada. Declarou:


- Está bem. Estou a beber licor de gojyriana. Mas não digas a ninguém, por favor! Se sabem disso, fico de castigo e tiram-me o holopad. E eu preciso… preciso do meu holopad.


- Eu também não gostaria que me tirassem o holopad. Para que o usas?


- O uso que dou ao holopad só a mim me diz respeito.


- Guarda os teus segredos. Em abono da verdade, não precisamos de saber dos segredos um do outro.


- Ah! É preciso ser-se muito petulante para fazer essa afirmação.


- Começas a soltar-te. O licor está, finalmente, a fazer efeito. E posso ser petulante na minha própria casa.


- Oh, claro que sim. Não foi minha intenção…


- Eu sei que não, minha querida. – E mostrou-lhe um sorriso sincero.


Ela mordeu os lábios, arrebitou o nariz e contou:


- Estou a beber para poder aguentar esta noite. Está a ser insuportável! Outra noite em que mais valia me terem sentenciado a trabalhos forçados num asteroide prisão da Orla Exterior. – Depois apercebeu-se da crítica e emendou, mostrando as mãos que agitou: – Oh, mas não é por causa da festa. Não… não é nada disso…


- Eu sei que a minha festa está insuportável, mesmo sendo uma festa dessas. Estava para me ir embora.


- E não foste…


- Porque te vi. E subitamente apeteceu-me dançar! Adoro bailar com uma mulher bonita numa festa. Anima imediatamente o meu serão, por mais entediante que esteja a ser.


Ela olhou para todos os lados.


- Mulher bonita? Onde?


Um tiro laser certeiro e ele riu-se numa gargalhada divertida.


- Tens espírito, tens humor. Gosto de ti, Valdie!


Ela voltou a corar violentamente.


- Nunca ninguém… gosta de mim.


- Pois eu gosto. E se ninguém gosta de ti, pois bem, a galáxia está estupidificada, cega e vazia. – Estendeu-lhe o braço e ela ficou a olhar sem saber o que fazer a seguir, o gesto era de certo modo óbvio, mas implicava uma certa dose de coragem e de confiança. Ele convidou: – Minha querida! Aceitas dançar comigo?


- Uma dança até ao fim do amor?


- Dancemos até ao fim do amor.


Uma frase provocadora, intencional e enigmática. Heskey meneou a cabeça, também numa concordância dúbia. Ela, claro, não se importou. Fazia tudo parte de um jogo. Ela deu-lhe o braço e avançou. Ao fazê-lo, o seu pé descalço assomou-se à bainha da saia do vestido e ela recolheu-o, envergonhada. Lembrara-se que tinha descartado os seus sapatos desconfortáveis. Dobrou-se para os apanhar. Ele disse-lhe:


- Não, não. Deixa-os aí! Sou um bailarino exímio. Não te irei pisar. Basta que sigas a minha liderança.


Ela franziu ligeiramente a testa. Perguntou:


- Posso ficar descansada? Não vou ter os meus dedos dos pés esmagados?


- Podes confiar em mim.


- Isso é muito… repentino.


- O quê?


- Confiar.


- Vais confiar em mim ou a dança não será até ao fim do amor.


- Que dramático.


- Foste tu que assim quiseste.


- Gosto de finais felizes.


- Tu vais ter um final feliz, minha querida Valdie.


- Prometes?


- Prometo.


Avançaram os dois até ao centro do salão. Começaram a reparar neles. As cabeças voltavam-se, as conversas silenciavam-se. Onca percebeu a movimentação diferente e os sussurros, aquela pequena excitação do inédito – sempre atento, o ithoriano. Acercou-se da plataforma dos músicos e pediu uma melodia diferente. Dançável, alegre e jovial.


A atenção de todos espicaçava-o, ao ponto de Heskey sentir-se poderoso. No entanto, com Valdie ocorria o contrário. O peso dela começou a insinuar-se-lhe no seu braço e ele teve a impressão de que a arrastava contra vontade – e não desejava destruir a dança antes desta ter início. Uma parceira relutante dar-lhe-ia o dobro do trabalho e ele queria que os dois brilhassem como par dançante. Heskey perguntou, consciente de que se falasse ajudaria a que Valdie não se sentisse tão acanhada:


- Quem vamos afrontar?


- A minha mãe – respondeu ela, entre dentes, num sussurro. Quase que de imediato, ele sentiu uma ligeira diminuição no esforço que estava a fazer para a conduzir até ao local apropriado para o pequeno bailado. Valdie prosseguiu: – A minha mãe está sempre a corrigir-me e a ensinar-me boas maneiras. Foi ela que me embonecou toda para vir à festa desta maneira tão ridícula, como se eu fosse uma atriz de teatro. Na verdade, para ser totalmente justa com os meus sentimentos, o vestido assenta-me impecável, porque neste momento sou mesmo uma atriz a desempenhar o papel de boa filha obediente. É aborrecido ninguém perceber isso. Estou em cima do palco e o meu público distrai-se com outros aspetos do cenário. É frustrante também. Ninguém repara na atriz, só nos acessórios que a rodeiam. Como os vestidos, os sapatos, o cabelo armado, os olhos pintados de azul-cobalto… Odeio essa cor! Por mim seria preto e preto e…


- À exceção do licor de gojyriana.


- Hum?


- Obedeces a tudo e desempenhas o teu papel na comédia, mas quando ninguém está a ver, pões-te a beber licor de gojyriana.


- Sim. Foi a minha maneira de demonstrar que não obedeço sempre, apesar de toda a gente achar que estou submissa. Como sou calada… – Acrescentou: – O meu pai é diferente. Ele defende-me, ele compreende-me. Mas é um homem muito ocupado e nem sempre me pode dar a atenção que eu mereço.


- A atenção de que precisas – corrigiu ele, compassivo.


- Pareço-te assim tão… vulnerável e carente?


- Não. A maquilhagem que te fizeram para esta noite é bastante espessa e muito convincente. Não passa nenhuma vulnerabilidade ou carência. Quem é o teu pai?


- O venerável Xiengui ‘Na Lil-Hin.


Nisto, Heskey lembrou-se do nome impronunciável do magnata que era suposto impressionar com aquela receção. Era precisamente Xiengui ‘Na Lil-Hin. Então, estava prestes a dançar com a sua filha Xiengui ‘Na Valdie. A coincidência era incrível e, de certo modo, providencial. Afirmou, num tom alegre:


- Ah! Estou a dar esta festa para o teu mui honrado pai.


- Verdade? Estás a troçar de mim.


Ela parou e ele parou também. Entreolharam-se e ele admitiu, muito sério:


- Longe de mim fazer tal coisa. Irias logo perceber as minhas dissimulações.


- Ah…


Captou-lhe a honestidade e baixou os olhos de imediato. Heskey fê-la encará-lo novamente, colocando dois dedos delicados no queixo dela.


- O teu pai beneficiou de alguns favores meus junto do Senado Galáctico, quando fui senador, em Coruscant. Digamos que… temos interesses económicos em comum. E antes que possas perguntar, não te descobri na minha festa por um acaso programado, sabendo quem eras e fazendo a aproximação como um dos expedientes para conquistar o teu pai e para o impressionar ainda mais, quando nem sequer seria necessário. O teu pai está suficientemente impressionado com a minha generosidade, digamos. O meu convite para dançarmos é absolutamente genuíno e isento de outro propósito a não ser relacionado com o simples facto de que gostaria de partilhar uma dança contigo.


- Eu acredito.


- Fico extremamente grato pela tua… compreensão nesta matéria, Valdie.


Nisto, ela perguntou, ansiosa:


- Ele paga-te? Ele costuma pagar algumas rendas a sócios não declarados que o ajudam a manter o entreposto comercial.


- Não sejamos indelicados e falar de dinheiro numa festa.


- Oh…


Ele abanou a cabeça, sorrindo outra vez.


- Gosto dos teus passos em falso. Por favor, não te desculpes.


- Está bem.


Chegados ao centro do salão, Heskey fê-la rodopiar, a saia pesada a adejar em rendas e tules e ela correspondeu ao impulso, reagindo apropriadamente ao seu trejeito de braço. Colocou-se em bicos dos pés e na nesga revelada pela longa bainha sedosa, assomaram-se os seus dedos pequenos e contraídos. Ele segurou-a pela cintura, elevou-lhe o braço direito e segurou-lhe delicadamente na mão.


A música começou. Heskey deslizou e Valdie seguiu-o, deixando-se conduzir. Ela não era uma bailarina frequente, ajuizou ele, nem sequer inata ou intuitiva. Mas aprendia rapidamente e tinha a plena consciência das suas limitações. A humildade, naquele caso, era fundamental para que passasse à etapa seguinte: a confiança mútua. Só se fossem um par, o baile seria um sucesso.


Por outro lado, ele percebeu que ela gostava de impressionar quando ninguém esperava nada dela. Muito provavelmente nunca mostrara apetência para dançar ou sequer ensaiara mostrar os seus dotes em público. Talvez nunca encontrara o par perfeito ou simplesmente adequado. Valdie sabia ser o centro das atenções, naquela festa, naquele instante. Estava aterrada, rígida e séria. Mas também queria mostrar que saberia cumprir o desafio – desde que tivesse o professor certo, que a apoiasse, ela era capaz de qualquer coisa.


A confiança continuava a ser o ingrediente principal.


E Valdie confiou nele. Heskey foi-se aventurando nos passos, nos movimentos arrojados, nos volteios e nas cadências. Ela foi-se soltando também, experimentando, a pouco e pouco, entregar-se naquela vertigem que a transportava para um mundo diferente, onde ela não se importava com o que os outros pudessem estar a pensar, a dizer ou a inventar. Olhava-o fixamente nos olhos. Era o seu ponto de apoio, era ali que fixava o alicerce para estender a ponte.


Ela bailava solta e no limite da felicidade. Ele percebeu que a estava a libertar de todas as prisões imaginadas e concretas e prolongou a dança deles, aproveitando cada gota de som da melodia que tinha animado o salão da sua casa sempre tão silenciosa. Rodavam os dois num recinto que se abrira entre os convivas que faziam uma roda para os contemplar, encantados.


Não havia outros pares dançantes. Eram só os dois. Heskey e Valdie.


Ela foi-se descontraindo. Correspondia aos seus passos e ele ia sendo mais inventivo, experimentando pequenos devaneios de inspiração, improvisando aqui e ali, sendo mais restrito na abordagem ao estilo quando percebia que estava a exagerar, deixando-a conduzi-lo quando notava que ela também gostava de ser afirmativa.


Houve palmas quando Heskey, após uma pirueta, agarrou em Valdie pela cintura e a elevou em braços no ar, num momento triunfante da música. Ela estremeceu a sorrir, a mostrar os dentes alinhados e brancos. Ele correspondeu com outro sorriso que lhe alcançou o olhar azul gélido.


Pousou-a e, de mãos dadas, braços esticados, entreolharam-se com evidente satisfação no que tinham acabado de alcançar. Provocação, arrojo, arte e diversão. Sobretudo, diversão.


Ele terminou a dança cingindo-a a si, dobrando-se sobre ela numa pose arriscada e sensual. Valdie arquejou, corada e ofegante.


Endireitaram-se e aceitaram as felicitações da assistência com uma vénia lenta e profunda. Heskey beijou-lhe as costas da mão e ela, tímida, olhou-o através das pestanas.


- Muito obrigado por esta magnífica dança, senhorita Xiengui ‘Na Valdie.


- És um excelente professor – sussurrou ela.


O venerável Xiengui ‘Na Lil-Hin aproximava-se, de braços abertos e a rir-se alto.


- Que honra, senador Heskey! Dançares com a minha filha! Foi um espetáculo extraordinário. – Puxou as mãos da moça e apertou-as entre as suas. – Minha querida Valdie, desconhecia os teus dotes para a dança. Foste magnífica! Tão bela e leve como uma das aves sagradas de Pinbertium. Eras graça, formosura e beleza. Uma ninfa! Uma deusa! Uma princesa! Que orgulho em ti, minha querida! Que orgulho!


Heskey deixou que o pai levasse a filha. Exibiu-a depois aos seus amigos, repetindo, porventura, os elogios que fizera questão de pronunciar ao pé dele. Sabia que ela gostava desse tipo de reconhecimento, mas que o exagero a cansava. Valdie deixou-se estar a receber a admiração alheia com toda a modéstia que conseguia inventar para a ocasião, recolocando a fantasia que usava para receber os embates do mundo exterior. O que vinha de bom e seguramente o que vinha de mau. Escudo impenetrável feito de fibras resistentes e invisíveis de um campo de forças.


Como descobrira tanto sobre aquela mulher em tão pouco tempo? Não o sabia dizer…


Recebeu uma taça de espumante dourado de Coruscant que Onca lhe trazia. Limpava a fina película de suor da testa com um lenço branco que entregou ao ithoriano após se sentir mais refrescado e seco.


- Dança magnífica, senador.


- O meu par era magnífico. Nunca dançamos sozinhos, meu caro Onca.


- A senhorita quer dar-lhe uma palavra, senador. Antes de deixar a festa… Pediu-me que transmitisse o recado e levei-a para o terraço. Espero que não te importes.


- Claro que não.


No terraço ela esperava-o a olhar para a abóbada celeste através da cúpula transparente. Já devidamente calçada, crescera um pouco mais – em altura e em altivez. Ele aproximou-se devagar, prendendo as mãos atrás das costas. Reparou num meteoro a riscar o céu cor de ébano.


- Não percebi se esta despedida vai acontecer porque eu vou deixar a festa ou se és tu que o irás fazer em breve.


Ela voltou-se com um salto. Voltara a assustá-la. Parou.


- Acho que seremos os dois… eu quero ir-me embora, pedi ao meu pai. Depois de ter dançado contigo, a festa já não me pode proporcionar mais nenhuma alegria. E o meu pai ficou muito satisfeito com o destaque que recebeu… através de mim. Foste muito atencioso com os interesses económicos que partilhas com o meu pai.


- Valdie.


- Sim…


- Dancei contigo. Nada teve que ver com o teu pai, minha querida.


- Por momentos…


Ela encolheu os ombros, desiludida, fatigada, oca.


- Não cries esse equívoco – esclareceu ele, veemente, a sua voz a troar no interior da estufa como uma trovoada. – Quanto te vi a beber licor de gojyriana não sabia que eras a filha do meu ilustre convidado. E o convite para uma dança também aconteceu antes de o saber.


- Dançar… até ao fim do amor.


- E dançámos mesmo até ao fim do amor. Se nos apaixonámos, entretanto, quando estivemos nos braços um do outro, tudo terminou com a derradeira vénia.


- Sim.


- Tu admiras-me.


- Mais do que o decoro me aconselha a confessar.


O coração de Heskey encheu-se de ternura. Colocou uma mão sobre o peito.


- Minha querida. A tua afeição é uma bênção de vida para mim. Mas compreendes…


- Oh, claro que compreendo! – exclamou ela sorrindo tristemente, de olhos húmidos. – Deixa-me, ao menos, sonhar pelo tempo de uma canção, Heskey.


- Claro. Não irei destruir os teus sonhos juvenis.


- Não nos voltaremos a ver. Amanhã partirei.


Ele foi apanhado de surpresa com aquela declaração.


- Partirás?


Ela abriu o sorriso. Ele notou que os seus lábios tremiam.


- Oh, não te tenhas em tão alta consideração, Heskey! Nada tem que ver contigo. A decisão da minha viagem já estava decidida há muito tempo. Irei para Chandrila fazer um estágio numa organização que distribui ajuda humanitária. Tem o apoio da senadora Mon Mothma. – Baixou o tom de voz. – Sei que a conheces e contigo posso ser sincera. É uma porta aberta para a Aliança… ninguém sabe que tenho esse objetivo secreto, ser uma rebelde. Combater o Império.


Heskey empalideceu.


- Valdie…


- Não, não. Não me digas que é perigoso, desnecessário, uma utopia. Estou mais assustada do que pareço… mas quero fazer alguma coisa por mim. Tomar uma decisão nunca é fácil, estou sempre a pesar todas as possibilidades de uma escolha errada. Mas resolvi experimentar. Se falhar… bem, se falhar regresso a Corulag e a minha mãe nunca mais se vai calar.


- Se precisares de ajuda…


- Obrigada, Heskey.


- Vai correr tudo bem.


Ficaram a olhar-se durante algum tempo. Ela assentiu, engoliu em seco. Acenou timidamente e saltitou pelo caminho que a fez deixar o terraço. Heskey ficou, na mesma postura, mãos atrás das costas, a olhar para o céu cravejado de constelações em lento movimento.


Ele acreditou no que disse a Valdie. Iria correr tudo bem. E se se apaixonou por ela, o sentimento esfumou-se numa doce lembrança quando a dança acabou.


Sorriu para a sua melancolia e também ele deixou a festa. Recolheu-se aos seus aposentos e teve uma noite pacífica, sem sonhos.

May 7, 2020, 4:51 p.m. 2 Report Embed Follow story
3
The End

Meet the author

Andre Tornado Gosto de escrever, gosto de ler e com uma boa história viajo por mil mundos.

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Valdie Black Valdie Black
Valdie vai aparecer na autobiografia do Heskey? :x
May 10, 2020, 17:34

  • Andre Tornado Andre Tornado
    Oi Valdie! Sim, claro que sim, naquele livro de memórias que ele vai completar ao lado da Kiiara... Beijo! May 10, 2020, 18:03
~