dissecando Edison Oliveira

Em tempos difíceis, Edison Oliveira nos mostra o lado mágico e triste daquele céu repleto de bolhas de sabão


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TETO DE BOLHAS



O mundo já havia vivido seus melhores anos, se reergueu e depois foi derrubado mais uma vez, com força e sem piedade.
As pessoas estavam com medo, elas tinham de estar, pois, tudo parecia ir embora tão depressa, como se a vida sempre estivesse atrasada para pegar o último trem.
Eles viam tudo aquilo como duas crianças no topo do mundo, a mais alta das montanhas que era o ego de todo ser humano, de pé ao lado de uma árvore que não fazia sombra porque não havia um sol. Eles em nada eram parecidos (um, era alto, pele e ossos, enquanto o outro, era baixinho e não possuía a mão esquerda) e estavam ali como sempre, pois era a função de cada um preparar as bolhas de sabão.
Sopravam um de cada vez, e o mais alto, como de costume, estava enfrentando problemas. As bolhas dele estouravam antes mesmo de atingirem o teto do mundo, o local onde outros milhares de círculos transparentes se aglomeravam e seguiam intactos. Ele arriscou uma nova tentativa, mas sua decepção foi a mesma das vezes anteriores. Irritado, revirou os olhos e sentou-se em uma pedra abaixo da árvore.
— Ainda sem sorte? — questionou o baixinho, soprando e observando as suas bolhas subirem e se juntarem as outras.
— Não sei o que estou fazendo de errado, — lamentou o mais alto, invejando as bolhas do amigo que não estouravam.
— Você precisa soprar devagar. Elas são como a vida das pessoas. Não podem ter pressa, e necessitam de paciência.
O garoto alto já ouvira tudo aquilo em ocasiões anteriores, e ainda sentia dificuldade de compreender. Fora capaz de soprar bolhas que não estouraram, mas tinha ciência que mais da metade daquelas que estavam intactas no céu como uma nuvem, foram criadas por seu amigo. O baixinho, apesar de possuir apenas uma de suas mãos, era experiente e eficaz naquela função.
— Será que já não temos o suficiente? — perguntou o menino alto, e o outro lhe dissera que provavelmente não.
— São muitas espalhadas por tudo. Cada bolha levará uma alma, é isso?
O baixinho disse que sim, e soprou uma nova onda de bolhas que subiram e subiram, se afastando pelo céu encoberto de nuvens e sabão.
O mundo estava em ruínas, e as pessoas sendo extintas às centenas por dia, subindo e embarcando em suas cápsulas de água e sabão.
Elas simplesmente estavam desaparecendo, e o trabalho dos garotos só aumentava, e eles viravam dias e noites praticamente sem tempo para recarregar os seus recipientes.
Quando pensavam que tudo iria se estabelecer, as ordens que chegavam, eram claras e amedrontadoras; façam mais bolhas, criem embarcações de almas.
Ambos não faziam ideia de quando aquilo iria cessar, e apenas seguiam as recomendações, trabalhando duro, soprando carruagens ao vento e cobrindo o céu com suas bolhas transparentes.
Em dado momento, o mais alto dos garotos parou e observou o céu, agora uma coisa única de bolhas líquidas.
— O que está olhando? — quis saber o baixinho.
— De um certo ângulo, essa não é a visão mais linda que você já teve?
O baixinho olhou na direção do céu (bolhas que se perdiam de vista, uma espécie de cardume borbulhante) e achou que talvez sim, que aquela até que era uma visão bonita.
— Pena que sabemos o porque delas estarem ali, — falou ele, por fim. — Vamos, continue soprando. Até onde sabemos, vamos precisar de muito mais.
O garoto alto assentiu, depois soprou, soprou e seguiu soprando, ciente de que os anjos estavam fazendo hora extra, mas que ainda assim, tudo aquilo talvez fosse pouco.
As bolhas voavam, ocupavam os lugares onde antes haviam outras, mas que já não estavam mais lá, pois, seguiam depressa com algum passageiro recém-chegado. Era uma visão triste e confusa, uma mistura de dever cumprido e mágoa, mas aquele céu de bolhas não poderia deixar de existir.

March 27, 2020, 11:30 p.m. 1 Report Embed 3
The End

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Lu Inoue Lu Inoue
Que texto lindo, aberto para várias interpretações, mas sobretudo a comparação entre as bolhas e as almas, a paciência que se deve ter para apreciar momentos e torná-los mais proveitosos. Essa observação final sobre as novas bolhas a preencher lugares que um dia fora ocupados por outras, isso foi muito intenso e real, nas suas palavras "lindo e triste" Parabéns. Obrigada por escrever.
3 weeks ago
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