dissecando Edison Oliveira

Irmãos gêmeos que enxergam a vida de um modo bastante diferente


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DAVI E GOLIAS



O pai chamava um e tinha o hábito de esquecer do outro. Ele saía até a varanda, parava no primeiro degrau de madeira e gritava que o almoço estava quase pronto. Fazia isso todos os dias, com um trapo sujo de graxa repousando no ombro e o velho trator roncando atrás de si, na entrada do celeiro.
Ele chamava por Cícero, assoviando sempre que não obtinha resposta, e, quando sua mente o fazia lembrar de Tadeu, dava meia volta e berrava para o maior não esquecer do menor. Cícero berrava em resposta, e cinco minutos depois ele e o irmão entravam pela porta arrastando os pés e com os rostos curiosos.
Cícero sempre sentava na ponta da mesa, próxima à saída para o corredor, pois era lá o canto com mais espaço; suas pernas eram muito compridas, seu corpo era grande, desajeitado e suas calças sempre subiam até as canelas quando ele se sentava. Estava com doze anos, medindo um metro e noventa e enxergando o mundo cada vez menor.
Seu irmão Tadeu cabia com facilidade na cadeira próxima à geladeira, em um espaço onde mal caberia o pé do irmão. Ele se enfiava ali e olhava para cima, sempre para cima, um gesto crônico que o acompanharia para o resto de sua vida, uma forma torturante de enxergar o mundo que teimava em parecer cada vez maior.
Seu pai enchia o prato de arroz, feijão e ervilhas e o entregava para Cícero, que já lambia os beiços enormes, esfregando as mãos. Depois, retirava outro prato do armário, carregava ele até quase transbordar e sentava-se à mesa, esticando uma das mãos até encontrar a mão gigantesca do filho.
— Vamos fazer uma oração antes de… — olhava em volta e enxergava Tadeu, a ponta de sua cabeça, sobressaltada de trás da mesa. — Espere que não esqueci de você, garoto.
Mas já havia esquecido, não apenas naquela vez, mas em vários momentos, algo que incrivelmente não lhe incomodava. O pai agia como se Cícero fosse seu filho único, o orgulho da família, um ser humano tão grande que não tinha como dar errado, alguém que logo chamaria a atenção por onde passasse e nenhuma porta seria capaz de segurar o seu sucesso.
Já o outro enfrentaria os maiores problemas. Tudo a sua volta seria um obstáculo terrivelmente intransponível, e as pessoas o olhariam de cima, com soberania ao invés de admiração. Algumas pessoas já questionavam se eles eram de fato irmãos, e o pai não encontrava saída, coçava a cabeça e dizia que sim.
— Acredita que são gêmeos? — ele ainda acrescentava. Era uma forma de desvalorizar ainda mais o menor, o deixando encolhido pelos cantos, pronto para se enfiar no primeiro buraco que coubesse.
Isso era um costume que vinha desde o nascimento dos dois, algo que o pai priorizava sempre que alguém lhe questionava a respeito. Na escola nada daquilo era diferente.
As outras crianças sempre chamavam um e esqueciam completamente do outro.

Durante o início da adolescência, Cícero já era infinitamente superior. Se destacava quando era chamado para jogar basquete ou vôlei, e despertava a curiosidade da maioria das garotas, que o encaravam com olhos cobiçadores. Tadeu preferia a leitura (passava as aulas de educação física sentado no degrau da arquibancada, com algum livro de ficção nas mãos) e lia o máximo que podia enquanto tentava se desviar da atenção dos demais.
Achava interessante o fato de jamais ser lembrado, e mais ainda quando era o primeiro a ser visto quando alguma piada precisava ser feita. Seu irmão costumava defendê-lo, se colocando diante dele e erguendo uma das enormes mãos e pedindo que parassem.
Com o tempo, Cícero passou a virar também uma piada, já que suas pernas não conseguiam parar de crescer. Seus joelhos não cabiam mais debaixo da mesa, deixando-a erguida e atraindo os olhares maldosos dos próprios colegas.
Em uma dessas aulas, o professor Régis parou de escrever no quadro negro assim que escutou as risadas. Virou-se e olhou imediatamente para a mesa erguida, segurando o giz com uma das mãos.
— Quer pegar um ar lá fora, Cícero? — perguntou, dando a estranha sensação de estar segurando o riso.
— Mas vou perder a aula.
— Vá mesmo assim. Além disso, isso é apenas uma revisão. Não vai atrapalhar seu desempenho.
Cícero concordou, tentou se levantar de imediato, mas não foi capaz. Suas pernas trancaram debaixo da mesa, e ele a sacudiu de um lado para o outro, provocando uma onda de risadas por toda a sala. Quando finalmente conseguiu se livrar de sua armadilha particular, seu rosto estava vermelho e quente.
Saiu desengonçado pela sala de aula, arrastando os enormes pés quarenta e nove e olhando para o chão. As risadas ecoavam em sua cabeça, e pela primeira vez em sua vida de gigante, desejou se esconder em um dos buracos imaginários de seu irmão.

Após alguns anos, Cícero foi para longe, mudou-se para uma casa de tijolos que ficava no final de uma rua bastante arborizada.
As pessoas gostavam dele. Diziam que ele era o “João que vivia em um pé de feijão”, e ele achava aquilo divertido. As crianças olhavam para ele admiradas, às vezes assustadas, enquanto outras apenas apontavam e riam. Os risos já eram parte da festa, Cícero não ligava mais para eles, e em alguns casos até sorria junto.
Vivia sozinho naquela casa de tijolos, um lugar que era espaçoso no começo, mas que depois pareceu apertado e quente. Cícero achava que aos poucos estava voltando para o útero da mãe. Ela se chamava Zélia, tinha cabelos pretos e era mais jovem que seu pai. Isso era tudo que seu pai lhe contara cinco anos atrás, em uma conversa rápida e triste em um dia de chuva. Cícero havia conseguido emprego em uma biblioteca pública, recebia um salário baixo e passava boa parte do tempo metido no meio de livros. Não tinha dificuldade alguma para arrumá-los no alto das prateleiras. Já estava com dois metros e nove e subindo, crescendo como uma árvore no meio de uma selva intocada.
A noite, quando deitava seu corpanzil em sua cama de molas, seus pés ficavam para o lado de fora. Antes isso não acontecia, e Cícero passou a ter dúvidas, coisas incômodas que lhe sussurravam hipóteses das quais ele não gostava.
Levantava-se no meio da noite, o corpo e a cama rangiam, e ia até à cozinha para mordiscar alguma coisa. Normalmente essa coisa era uma maçã, mas ultimamente isso acabava sendo pouco. Passou a comer mais de uma, e depois avançou para um copo de leite diante de sua janela, observando a noite avançar do lado de fora. Era estranho, sufocante, como se de repente o mundo estivesse encolhendo e não ele crescendo.

Tadeu seguiu vivendo com o pai, que continuava fingindo viver sozinho. Aos dezenove anos e com 1,35 metros, Tadeu não podia fazer muito.
Sua coluna passou a incomodar, e aos poucos ela foi entortando, doendo e o deixando corcunda. Meses mais tarde, seu ombro direito se ergueu em um ângulo torto, e Tadeu passou a ter problemas para dormir. Seu peito apertava, mordia sua caixa torácica, e às vezes ele tinha certeza de que iria morrer tentando pedir ajuda.
Seu pai era um homem do campo, de hábitos rudes e que nunca mais havia se casado após a morte da esposa durante o parto dos garotos.
Os médicos disseram que aquela era uma gravidez de risco, e ela de fato foi. No dia do parto, houveram complicações; dores e sangue demais. Uma das enfermeiras pediu para que Nélson se acalmasse, e lhe passou todas as informações e no que tudo aquilo iria resultar.
Se dependesse dele (unicamente dele) os meninos jamais teriam vindo ao mundo. Ele amava aquela mulher, estava junto dela desde o colegial e fora ele quem jogara a última pá de terra sobre o caixão. Assim que o menor veio ao mundo, cuspido para fora como um ratinho rosa, com o rosto enrugado e o choro estridente, sua esposa sorriu e faleceu. Não houve uma despedida, apenas uma apagão, uma falha maluca do tempo, onde a vida e a morte se fundiram de uma maneira estranha.
Ele ainda tinha força para trabalhar no campo, fazia aquilo como sempre fizera, mas com um pouco menos depressa. Plantava cenoura e alface nos fundos do celeiro, e abóbora, e cebola ao lado dele.
Chamava o filho para almoçar, mas sempre achava que quem entraria pela cozinha era o grandão, não o tampinha. Eles conversavam durante o almoço, e também enquanto jantavam, mas sempre uma conversa fria, introvertida, como dois estranhos em uma mesa de bar.
— Depois que terminar, lave tudo — ordenava o pai. Ele sabia que aquilo era uma tarefa dolorosa para o filho, que tinha de mover os braços com cautela e fazer o mínimo de movimento possível.
— Sim, senhor.
— Trabalhar aí fora está uma merda, — resmungou o pai. Não olhava para o filho. Mantinha os olhos apontados para a janela, observando o sol ferver no solo seco do lado de fora. — Se ao menos o seu irmão estivesse aqui, seria menos sofrido. Um sujeito grandalhão como ele me seria útil. Pouparia os meus ossos.
— Ele trabalha em uma biblioteca em…
— Porra, sei onde ele trabalha. Está fodido, se quer saber. Um tipo daquele tamanho, mexendo em livros como uma menina? É um desperdício.
— Quando ele vem nos visitar?
O pai afastou a cadeira e respondeu enquanto se dirigia para a rua.
— Sei lá. Lave essa louça, depressa.
Tadeu o obedeceu, sentindo como se seus ossos quisessem escapar de seu corpo franzino.

Dias ficaram para trás, depois meses e finalmente anos. Tadeu não era mais capaz de andar, se utilizava de uma cadeira de rodas e tinha problemas sérios em seu coração.
Durante o enterro do pai, quase não foi capaz de comparecer, devido a suas condições físicas e sua persistente falta de ar. Após a cova se coberta pela terra, alguns parentes distantes deram adeus e um gelado cuidem-se para ele e o irmão, que finalmente havia encontrado tempo para visitá-los.
Cícero estava enorme. Para Tadeu, qualquer pessoa comum parecia de fato gigante, mas certamente o irmão podia ser comparado a um.
Os dois deixaram o cemitério alguns minutos depois, e foram até a primeira lancheira que encontraram para comer qualquer tipo de coisa. À mesa, ambos atraiam todos os olhares.
A garçonete anotou os seus pedidos, segurando o riso, e assim que se afastou, Cícero pôde vê-la finalmente sorrir através de seu reflexo na janela.
— Você está alto, — falou Tadeu, com sua voz anasalada. Seu queixo pendido lhe dava uma aparência incômoda.
— Cada vez mais. Pessoas como eu não param de crescer. Morremos jovens, também.
Tadeu ignorou aquilo. Haviam acabado de enterrar o pai, falar sobre morte não era necessário.
— Por que não veio nos visitar? — questionou Tadeu. Queria perguntar aquilo desde que viu o irmão chegando no cemitério, devagar e utilizando uma bengala.
Cícero pensou um pouco no que iria dizer. Em seguida, sentiu-se capaz de responder.
— Quis esquecer toda essa cidade. Esquecer que um dia vivi aqui, ouvindo piadas e vendo dedos serem apontados para mim. Mas principalmente, não voltei para não ter de olhar para vocês novamente.
— Nosso pai foi embora esperando por você.
— O mundo de vocês sempre foi outro, — continuou Cícero, ignorando o irmão por completo. — Para vocês, tudo sempre foi enorme. Não eram capazes de deixar a casinha de vocês, conhecer tudo que o mundo oferecia. Já para mim, está cada vez menor, mais sufocante. Não importa para aonde vou, nada é o suficiente. Me sinto caminhando sobre casas e pessoas. Já mudei de cidade quatro vezes, todas com um tamanho considerado grande, mas ele não é, pois, sufoco assim que estico uma de minhas pernas. Sinto que em breve, serei capaz de colocar o mundo em meu bolso.
Fez-se um silêncio repentino na lanchonete, só interrompido pela chegada de outra garçonete, que trazia uma bandeja com dois copos grades de Coca e uma quantia considerável de fritas. Cícero reparou que aquela não era a mesma garota, possivelmente porque a primeira moça que lhes atendeu não seria capaz de fazer aquilo outra vez, já que seria quase impossível segurar as risadas.
Ele a agradeceu, e em seguida começou a comer. Tadeu esperou um pouco mais, pensando no que o irmão havia acabado de lhe falar.
Sentia-se de fato alguém pequeno, não só de tamanho mas também de alma. Para ele, tudo estava cada vez maior, mais propenso a fazê-lo se perder, um mundo infinito de possibilidades ruins. Percorrer o caminho de sua cama até a cozinha o deixava exausto. Eram quilômetros, números que só aumentavam de tamanho enquanto ele diminuía.
Alcançar na pia da cozinha se assemelhava a escalar uma montanha traiçoeira, um lugar perigoso que toda vez que era escalado, lhe deixava com dores por todo o corpo frágil. Tadeu estava pesando cerca de quarenta quilos, sentia que as roupas ficavam cada vez mais folgadas e o mundo muito mais distante.
Bebeu um pouco de sua Coca, e disse que entendia o irmão. Não completamente, mas em tese.
— São visões diferentes de vida, — disse ele. — Mas você não está cem por cento errado. Deve ser difícil olhar para um irmão como eu e tentar enxergar grandeza.
— Assim como deve ser difícil para você me olhar e enxergar limitação. Eu preciso de cada vez mais. Já você, cada vez menos.
Tadeu ergueu o seu copo de Coca.
— Um brinde a isso, — falou, e ambos tocaram seus copos naquele que seria o último encontro dos dois.

A vida seguiu como tinha de seguir, enorme e perigosa para Tadeu, minúscula e sufocante para Cícero.
Eles até que trocaram telefonemas, mensagens de texto com pouco mais do que um bom dia ou um boa noite, mas nunca tentavam entrar no mundo do outro. Isso não seria possível, pois um se sentiria apertado e o outro perdido.
Cícero teve tempo de trocar outras duas vezes de cidade, sendo a última bastante próxima de onde viveu durante anos com o pai e o irmão. Lá, ele já recebia ajuda do governo por ser incapacitado, morava em uma casa razoavelmente grande e dormia no chão. Camas não eram compatíveis com o seu tamanho (uma montanha de 2,45 metros) e sua coluna já estava bastante prejudicada, assim como seus joelhos e outras articulações.
Ele morreu dormindo, deitado em seu colchão no piso e tentando imaginar se o céu seria muito maior do que à terra.

Tadeu sentiu que isso havia acontecido, pois, tudo que diziam sobre irmãos gêmeos era de fato verdade. Ele acordou no dia seguinte, tremendo e com vontade de vomitar. Subiu em sua cadeira de rodas, tentou se lembrar de onde havia deixado o seu celular e então se deu conta de que estava sobre a poltrona em sua salinha de estar. Não sabia o que escrever para o irmão.
Provavelmente começaria com um bom dia, mas depois? Eles não eram muito chegados, e Cícero costumava falar pouco e digitar menos ainda. Tadeu repousou o celular sobre suas pernas inúteis, coisinhas finas e atrofiadas que não lhe traziam nada além de frustração.
Seu coração dava coices no peito magro, pontapés violentos que em breve arrebentariam todo aquele tórax frágil. Conduziu a sua cadeira até a varanda, absorveu o sol da manhã e lembrou de sua infância; do pai que lembrava somente do irmão, das brincadeiras que os dois costumavam participar nos fundos do celeiro.
Certa vez, Cícero lhe ergueu o mais alto que podia (uma altura que ele jamais chegaria sozinho) e perguntou como era a vista lá de cima.
— Dá para ver o mundo todo, — falou Tadeu, e sorriu. — Acho que mais um pouco poderei tocar no céu.
— Se conseguir, que tal pegar uma estrela pra mim?
Então os dois sorriram, e Cícero baixou o irmão até o chão. Achou que aquilo era uma boa recordação, e também uma ótima maneira de puxar uma conversa. Deixou que o sol lhe esquentasse as costas um pouco mais, e mesmo sentindo que o irmão jamais o leria, Tadeu começou a escrever:

“Bom dia. Assim que ler isso, me responda, está bem? Não é nada de mais, é só que tive uma boa lembrança de nossa infância. Acho que não poderei lhe entregar aquela estrela que prometi. Que tal você pegar ela pra mim?”

March 13, 2020, 8:35 p.m. 3 Report Embed 6
The End

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Leandro Severo Leandro Severo
Um dos contos mais emocionantes do autor sem dúvida. É pra fazer qualquer Cícero chorar.
3 weeks ago
Wesley Deniel Wesley Deniel
Muito bem escrito, original e tocante, como sempre ! Parabéns, caro companheiro.
April 25, 2020, 07:27
DC David Cassab
Muito bom,cara. Esse conto abre muitas interpretações, há vários relacionamentos de sangue em que a visão do mundo é totalmente diferente. Gostei pra caramba.
April 20, 2020, 22:36
~