OS DEUSES E SUAS DECISÕES Follow story

dissecando Edison Oliveira

Todos precisam colocar o papo em dia. Todos precisamos tomar decisões difíceis. Até mesmo os Deuses.


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OS DEUSES E SUAS DECISÕES



Qualquer um que passasse por aquela praça naquele horário, jamais ousaria dizer que os dois sujeitos sentados lado a lado no banco de pedra tinham algo em comum. O da esquerda (e aparentemente o mais baixo) tinha uma aparência desleixada, mascava chiclete de um jeito nervoso e parecia estar relaxado. O da direita, usava um terno bem apresentável e ostentava uma barba longa e grisalha, dando-lhe a impressão de ser alguém muito sábio.
Estava se aproximando das cinco da tarde, fazia frio e o sol praticamente já não existia, dando ao céu uma cor alaranjada e alguns tons de roxo. Poucas pessoas passavam por li naquele momento, o que deixava o homem mais velho satisfeito, já que fora ele quem escolhera o local e o horário do encontro. Também fora ele a falar primeiro.
— Se estamos aqui, é porque há um problema — disse, sem olhar nos olhos do homem mais jovem.
— Sempre há, não é?
— Costumeiramente. Tem visto Orton, ou qualquer um dos outros?
O jovem disse que não com a cabeça. A última vez que vira um dos velhos amigos, foi há muito tempo. Suspeitava que este tempo fora o melhor para todos eles, mesmo com o desgaste, o esforço e a coragem para manter tudo nos trilhos. O velho acariciou a barba e fitou o horizonte, admirando as cores, o clima e a vida.
— As coisas não estão fáceis na fronteira, — admitiu ele.
— E alguma vez elas já foram fáceis?
O velho sorriu, sem emitir ruído algum.
— Já, sim. Quando eu era mais jovem.
O jovem não disse nada. Sabia quase tudo sobre a juventude de seu colega, e tinha por ele uma admiração verdadeira, algo que um filho sentia por um pai, ou um aprendiz sentiria por seu mentor.
Entre os mais jovens, aquele velho a seu lado era uma lenda, do tipo mais casca-grossa, tanto que as histórias sobre ele já havia atravessado para outros mundos.
O jovem coçou a bochecha.
— Espero que isso não signifique o que eu ache que signifique, — falou ele, começando a sentir frio. Já havia cruzado os braços, mas a jaqueta que estava usando era de malha fina e pouco servia para proteger.
— Isso depende do que você está pensando. Tive uma conversa semelhante com Orton, certa vez. Ele andava meio cansado, coisas demais para esconder, você sabe. Cuidar para que a verdade não venha a tona é um trabalho muito cansativo. A imprensa apenas repassa o que ela acha que sabe, quando, na verdade, é apenas o Orton falando por eles.
O jovem já havia topado com Orton umas três vezes, sempre em situações delicadas, onde coisas deveriam “desaparecer” no infinito, deixando apenas um boato que possivelmente viria a público uma ou duas semanas depois. O jovem era bom nesse tipo de coisa. Ele costumava ser o responsável por tudo que surgia no YouTube referente ao caos, ao medo e a dúvida. Era ele quem criava os rumores, enquanto as verdades eram levadas para além das fronteiras do universo.

Eles já estavam ali há quase uma hora, e o velho ainda não dissera coisa com coisa, mas o jovem já tinha as suas suspeitas. Quando um dos Deuses pedia uma reuniãozinha com ele, significava que as coisas não estavam bem em algum lugar. As luzes da praça haviam sido acesas, e a sensação de frio parecia ter aumentado.
O jovem enfiou as mãos nos bolsos e pediu para o velho começar a falar.
— Algumas fendas estão aumentando, — revelou o velho, agora sim olhando nos olhos do jovem. — Não vai demorar para que cheguem aqui.
— Pensei que o restante do universo estava hibernando.
— Escutou o grito vindo dos céus, cerca de um mês atrás?
O jovem havia escutado. Foi uma coisa medonha, horripilante de se escutar, algo que se espalhou de ponta a ponta nas fronteiras da galáxia. Algumas pessoas alegaram ter ouvido também, mas o jovem fez a sua parte e nada veio a público.
O velho tornou a alisar a barba, num gesto sábio.
— Aquele grito foi apenas o começo. Estão abrindo as portas com os dentes, dia após dia. Acho até que já enviaram algumas coisas para cá. Coisas menores, quero dizer. Eu mesmo vi por onde talvez tenham passado. Pequenas fendas, do tamanho de pessoas.
O jovem imaginou o que estava por vir, e não gostou. Entre os colegas, era conhecido como Devastador; as coisas ruins se aproximavam, depois as pessoas da terra ficavam sabendo de um jeito ou de outro (avistamentos estranhos no céu, boatos de desenhos com formas estranhas em algumas plantações) e pronto, lá ele tinha de mudar a história. Normalmente, histórias eram mudadas com sangue, já que sacrifícios são necessários para manter um certo equilíbrio.
— Quanto tempo temos? — quis saber o jovem, sabendo que isso era algo primordial.
O velho deduziu que eles tinham pouco. Depois, reconsiderou e disse que talvez umas duas semanas no máximo.
— Ainda é pouco, — resmungou o jovem, fechando os olhos e alisando a testa.
— Mas é o que temos, se tivermos sorte. Você já fez isso antes, acredito em você.
— Não em tão pouco tempo.
O velho olhou para ele desconfiado.
— Você não dizimou Aurora em três dias?
— De fato. É que a terra tem o triplo do tamanho — disse o jovem, um tanto abatido.
Ele já fizera o improvável para guardar certos segredos (por fogo em Roma foi um mal necessário, e Nero levou a culpa sem ao menos saber o porquê), mas tinha um carinho especial pela terra. Já estava infiltrado ali há quase trezentos anos, quase sempre disfarçado de jovem despreocupado, como alguém que acabara de entrar na onda do grunge. Participou até de algumas festas peculiares, coisas malucas onde mulheres desfilavam seminuas e quase todos sugavam um pó branco utilizando o nariz. Era um lugarzinho hediondo, que talvez vivesse por mais uns cinquenta anos, mas o velho lhe trouxera más notícias.
O jovem pensou em perguntar sobre o dilúvio, se fora mesmo o velho quem abrira a torneira e depois escondera a arca, mas preferiu colocar outro chiclete na boca. Começado a mascar, falou:
— Isso vai ser mesmo necessário?
— Creio que sim. É uma pena, e sinto muito, acredite. Também detesto extermínio em massa. Mas não podemos desfazer o equilíbrio. Se aquelas coisas forem descobertas, logo nós também seremos. Então é preferível uma aniquilação conjunta do que o fim da nossa causa. Há outros mundos para serem protegidos.
— Por quê não deixamos que as criaturas entrem e façam o trabalho?
O velho sorriu, se levantou e pôs a sua mão enrugada e de apenas três dedos no ombro do jovem.
— Porque esse é um fardo unicamente nosso — disse, e os dois começaram a andar. — Você ainda é jovem, meu caro. Ainda precisa aprender uma série de coisas, e muitas delas não são agradáveis.
— Cite uma, — pediu o jovem.
Eles caminhavam por uma passagem de concreto, com grama verde e aparada dos dois lados. Não havia movimento por ali, e um vento gelado e cortante começava a soprar. A noite já havia caído, e as estrelas surgiam uma após a outra, fazendo o jovem se lembrar de que a maioria delas eram apenas restos brilhantes de planetas que já havia destruído.
— Posso citar inúmeras, mas uma delas é a mais importante, — alertou o velho.
— E qual é?
— Deuses também cometem pecados, — respondeu, e ambos seguiram pela praça quase deserta.

Jan. 23, 2020, 1:18 a.m. 1 Report Embed 4
The End

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tiago líreas tiago líreas
Noto que você começou a mexer com assuntos menos tocados ou usados pra histórias, talvez até arriscados, e isso só me fez te apreciar como escritor ainda mais. Sinto que você pretende fascinar agora pra além de amedrontar. Achei esse conto muito "feito pra mim" porque o tema de Deus/deuses ou a possibilidade da existência deles em si me interessa e estimula mais do que quase qualquer outro. Pena que fiquei com um gosto forte de ver mais. Até a última frase implica que a conversa continuou e o jovem desleixado e o sábio da barba longa passaram o resto da tarde relembrando outros eventos históricos que aconteceram de maneira diferente do que sempre pensamos
January 24, 2020, 21:28
~