jpsantsil Jp Santsil

Sentia-se cansado depois de um longo dia de trabalho árduo. Tirou seus sapatos, e como de praxe, pendurou-os pelos cadarços em um extintor de incêndio que se encontrava na entrada do acampamento. Fazia isso, todos os dias, para que os insetos nocivos como aranhas e escorpiões não fossem ter seus calçados como abrigo. Tirou suas roupas de trabalho, que mais pareciam como fardas de soldado, e pendurou-as em um barbante que estava esticado ao lado das paredes feitas de pequenas varas de bambu...


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#ego #Psiquismo #psicologia #eu
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Inúmeros ‘eus’ demônios de mim

Sentia-se cansado depois de um longo dia de trabalho árduo. Tirou seus sapatos, e como de praxe, pendurou-os pelos cadarços em um extintor de incêndio que se encontrava na entrada do acampamento. Fazia isso, todos os dias, para que os insetos nocivos como aranhas e escorpiões não fossem ter seus calçados como abrigo. Tirou suas roupas de trabalho, que mais pareciam como fardas de soldado, e pendurou-as em um barbante que estava esticado ao lado das paredes feitas de pequenas varas de bambu. E ainda vestido com finas roupas brancas de baixo, pegara sua pequena sacola de pano, que comprara em viagem ao Peru, onde cotinha seus produtos de higiene e limpeza corporal, e fora rapidamente para o banheiro tomar uma ducha quente.

_ Finalmente! _ exclamara para si mesmo se enxugando e caminhado para vestir sua confortável roupa de dormir.

Pegou alguns pedaços de madeira, colocou em uma pequena lareira de ferro que se assentava ao solo, colocou um bule com água para esquentar na plataforma da lareira, e fora se sentar numa pequena poltrona ao lado, se aquecendo do imenso frio do inverno desértico israelense. E, com uma xícara de chá de Erva Luíza envolvida pelas suas mãos, para, também, aquecê-las, levava a boca dando pequenos goles em curtos espaços de tempo, onde seus pensamentos rodopiavam com os estalares da madeira incendiada, fazendo uma pequena retrospectiva do seu difícil dia.

Ao terminar de tomar o seu calmante chá, massageava seus pês com uma solução que fizera com alecrim, azeite de oliva, essência de lavanda, óleo de sementes de uva, óleo de amêndoa e mel.

Lamentavelmente, pensando, percebera que por falta de sabedoria os seres humanos construíam em suas vivências inúmeros ‘eus’ demoníacos, roubando-lhes suas consciências e alegria de vida. Pensava isso, pelo fato de presenciar nas atitudes de seus companheiros de trabalho, os muitos agregados psíquicos aproveitarem-se de alguns conhecimentos adquiridos para se auto afirmar. Conhecimentos estes, sequestrados pelo mau ego, que tornam o ‘pequeno eu’ perigosamente astuto, capaz de formular os piores crimes emocionais e sentimentais, explorando o homem pelo homem, destroçando as inúmeras capacidades intuitivas, e as diversas expressões artísticas, filosóficas e religiosas do ser.

Este ‘pequeno eu’ sabotador, que na verdade são múltiplos e se arma de intelectualidade, destrói os verdadeiros valores existenciais que sempre vem sustentando a espiritualidade humana, dando o pior de si mesmo em sua astucia mecanicamente intelectual, para conseguir seus “altos” níveis de prestígios sociais, políticos e econômicos. Imbuído de sua vaidade doentia e arrogante que crê firmemente que em si mesmo e por si mesmo está pensando, sem se dar conta que sendo um pobre mamífero e bípede intelectual, está apenas sendo controlado por seus múltiplos sentimentos e emoções que são subordinados aos seres semelhantes, assuntos e objetos externos, e, não a si próprio.

Intuitivamente, também, percebera em si mesmo os muitos ‘eus’ agregados e trapaceiros, que apesar de constituir uma só parte, ilusoriamente crera ser o todo em um dado momento. Nessa intuição, vira que quando surgia repentinamente um sentimento de ódio por uma determinada pessoa, pensara erroneamente que a totalidade do seu ser estava odiando, enquanto apenas um determinado eu era o autor de tal sentimento odioso.

Percebera-se diante de um mundo pluralizado dentro de si mesmo, em que no exterior confeccionava o indivíduo. Inúmeros pensadores que apesar de fazer parte de um só corpo e mente, se crê que é um todo, momento a momento.

Vira que os seus processos de identificação, empatia, amor, ódio, rejeição e discriminação eram apenas pequenos ‘eus’ interesseiros e oportunistas, em que o fazia de vítima ou vilão de cada situação. E, diante disso, queria sempre se manter alerta, questionando toda e qualquer forma de emoção, pensamento e sentimento autônomo que infortunadamente o dirigisse. Principalmente para o que dizia respeito as intenções, palavras e ações alheias. Não esquecendo, é claro! Que esses inúmeros ‘eus’ mesquinhos e desarmônicos, apoderam-se constantemente de situações que não foram devidamente analisadas e meditadas, que tornava a personalidade vítima das circunstâncias e intenções maldosas alheias.

Sentado no conforto da lareira, repetia para si mesmo mentalmente, exclamando:

_ Tenho que viver em estado de profundo alerta constante!

Desejava não mais ser enganado pelos inúmeros ‘eus’ internos que só lhe causavam discórdia, ou pretendia afastá-lo da senda do conhecimento místico espiritual. E, mentalmente dizia para si mesmo:

_ Se eu deixar que esses ‘eus’ demoníacos internos atuem... pensando e sentindo por mim, nunca estarei no real controle. Nunca serei o senhor do meu destino e de mim mesmo. Apenas pensarei estar pensando, sentirei que estou sentindo… enquanto é ‘outros’ agregados que pensa com minha mente, e sente como meu coração. Sendo eu arrastado pelo vento, levado pela correnteza e inflamado pelo fogo.

Se vira escravo… escravo das circunstâncias culturais que o acorrentaram desde o seu nascimento a um corpo animal cheio de desejos, vícios, medos, traumas, percepções e concepções errôneas do universo e da natureza em seu cotidiano urbano social. Que negativamente se fazia personificado nas associações e identificações mecânicas de si mesmo, e dos demais seres semelhantes no coletivo sentimentalismo mórbido e agregados psíquicos de um mundo em que a fantasia era a realidade do animal intelectual. Amando demasiadamente a si mesmo, se auto vangloriando, imbuído de autoconsideração que o conduzia inevitavelmente à autocomiseração. Pensado ser o “bom-homem”, no papel da vítima, em que ninguém ao seu redor sabia apreciá-lo. Tudo isso graças a má-educação psicofísica, somada a uma pitada de pobreza espiritual e ignorância cultural, que o tornava produto intelectual de formas estereotipadas de reagir sem pensar a toda e qualquer situação adversa, levando as diversas maneiras equivocadas de sentir e pensar nos inúmeros mecanismos autônomos negativos de se entregar a emoções inferiores, e luxuriosas do prazer e a da dor.

Nisso, percebera a compaixão que tinha que ter com seus semelhantes e consigo mesmo. Não punir, e nem se punir. Não condenar os seus sentimentos negativos e inferiores, e nem condenar esses mesmos sentimentos no seu semelhante. Nem tão pouco procurar motivos para justificá-los, mas, observar e se auto observar em um ato de recordação de si mesmo, na procura de conhecimentos ajudadores dos inúmeros estados que nos levam a tal decadência, e dos equívocos da consciência suprema espiritual. Em que vivemos lamentado o perdido… chorando pelo leite derramado na recordação atormentante dos velhos tropeços e calamidades… odiando o que desprezamos em nós e no outro… manifestando um amor-próprio narcisista exagerado… e em pensar se vamos ser aprovados pelos julgamentos alheios.

E, essa compaixão nada mais era do que sacrificar os nossos próprios sentimentos, emoções e pensamentos de quem somos. Sacrificar os nossos próprios sofrimentos, medos e complexos. E ser como o céu... que mesmo estando em toda parte, observando e englobando o todo de tudo, nunca pode ser tocado... nunca pode ser contaminado!

Jan. 17, 2020, 2:41 p.m. 0 Report Embed 2
The End

Meet the author

Jp Santsil Nasceu em Salvador, capital do Estado da Bahia, tendo se dedicado mais da metade de sua vida a projetos de ativismo social, educacional, cultural e ecológico com crianças e jovens em estado de risco e extrema pobreza nas favelas e comunidades carentes do Brasil e Ecuador. Atualmente vive e é cidadão do Estado de Israel, oriente médio asiático, onde se dedica a projetos ecologicamente sustentáveis. ​

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