dissecando Edison Oliveira

Lembra de nossos medos durante a infância, de simplesmente ir até o banheiro quando estava tudo escuro? Quando as luzes se apagam, o mundo realmente se transforma...


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GUIA PARA CRIANÇAS ANDAREM NO ESCURO



Havia um garotinho deitado em sua cama, em seu quarto, um lugar onde ainda cheirava a leite e com pequenos super-heróis de plástico jogados pelo chão. Ele ainda não fazia ideia, mas dentro de alguns minutos, sentiria uma vontade absurda de ir até o banheiro. Sua bexiga iria se encher e incomodar, se remexer dentro de seu corpo miúdo. Só então eu poderia entrar em cena. Não me entenda mal. Eu não faço o tipo pervertido, que cuida as criancinhas enquanto elas dormem; estou mais para um aventureiro, um ser em busca de novos caminhos.
Existem outros como eu. Muitos, para dizer a verdade. Cada um de nós tem a missão (ou o dever, dependendo de que ponto você absorve a informação) de guiar as criancinhas pelo escuro. Parece uma coisa estúpida, e não culpo você caso pense desta maneira. É que o mundo adulto e o mundo infantil são maravilhas completamente opostas. Em ambos existem perigos, mas apenas na infância é que os monstros costumam mostrar o rosto. E, acredite, você não gostaria de olhar diretamente nos olhos de um.

Já começava a pensar que havia sido enviado para um alarme falso (aconteceu uma vez com uma criança para os lados do norte) quando escutei alguma coisa se mover do meu lado esquerdo. Era o garoto, começando a se virar na cama, lutando contra a vontade de fazer xixi.
Sabia que aquela era uma batalha perdida, pois urina e medo formam uma combinação explosiva. Era sempre difícil chegar até eles. Tinha de se ter um cuidado extremo para não assustá-los, o que certamente arruinaria a missão. Se um guia perde a sua criança, ou a assusta de alguma maneira, ele é exonerado para todo sempre. Dizem no meu mundo, que Bernard 0976, um antigo guia das sombras, caminha até hoje pelo deserto lunar em busca de redenção por ter deixado uma garotinha desaparecer.
Ouvi o menino se virar na cama pela terceira vez, e com cuidado me aproximei até ficar a poucos centímetros de seu rosto. Não dava para enxergar muito bem, mas a julgar pela circunferência de sua cabeça, ele era de fato muito pequeno. Com aquilo em mente, já começava a não gostar para onde haviam me enviado. Quanto mais jovem a criança, mais fácil de tudo ser um completo desastre.
Respirei fundo, contei mentalmente até dez e toquei a ponta do nariz dele com o meu indicador. Ele fungou, mas não abriu os olhos. Insisti, e duas tentativas depois, o menino resmungou alguma coisa. Provavelmente estava perguntando se eu era o pai dele, pois pensei ter escutado um nome masculino.
— Você precisa ir ao banheiro, — falei, baixinho. Ele não demostrou estar assustado, e coçou o nariz de modo rápido.
— Que coceira! — retrucou ele, e sabia que tinha razão. Todas as crianças agiam da mesma forma quando eram tocadas por nós.
Talvez seja uma reação a nossa pele; somos constituídos de poeira estelar, sonhos e sombra. Sei que não fará sentido algum para você, mas não estou aqui para lhe convencer sobre nada.
Afastei o meu corpo translúcido um pouco da cama. Quis que o garotinho se adaptasse, que encarasse tudo aquilo como um sonho, algo bonito e convidativo como uma loja de doces. Ele ficou apoiado nos cotovelos, procurando ao redor. Era quase impossível ver um de nós na escuridão, e esta sempre foi a ideia.
— É o meu pai? — perguntou ele para o escuro.
Sem muitas alternativas, respondi:
— Sim. Ou quase. Você sabe o que é um anjo da guarda, filho?
— Acho que sim. Minha mãe disse que agora o meu pai é um.
Ótimo. Estava ainda mais preocupado após escutar aquilo. Não podia assustar o garoto, mas também não queria iludi-lo. Devagar, retirei das minhas costas o vasilhame dos vaga-lumes. Para que você entenda, era uma espécie de lampião, onde nós os guias prendemos milhares de insetos de traseiros acesos dentro de um recipiente de vidro. Você não imagina o quanto de luz aquilo era capaz de gerar.
Apontei ele na direção do garoto. Pela primeira vez pude ver o rosto dele, magro e com cabelos ruivos.
— Que é isso daí? — ele quis saber, esfregando os olhos com os nós dos dedos.
— É uma lanterna, — despistei. Daquele ângulo, ele não era capaz de me enxergar. — Venha, você precisa ir até o banheiro.
— Mas por quê tudo isso? O banheiro é no final do corredor.
— Não, não é — falei, dando as costas e abrindo a porta de seu quarto. — Você está com medo, não está?
— Sempre sinto medo do escuro, — me confessou o menino ruivo. Pareceu ficar constrangido após dizer aquilo, remexendo nas mãos enquanto olhava para elas.
— Não há porque sentir vergonha, pequeno. Na verdade, isso é muito comum na sua idade. Mas quando crescer, verá o mundo de outra maneira.
— É melhor mijar na cama, — falou ele, e se pudesse, eu teria achado graça daquilo.
Eis o que não somos capazes de fazer: sorrir, chorar, procriar ou negar uma missão. Há muito mais, mas não quero me estender em um assunto que você seria incapaz de compreender.
Quando percebi, o ruivinho já estava ao meu lado. Acho que ele procurou pelo meu corpo, mas logo ignorou este fato. Talvez por achar mesmo que se tratava do fantasma de seu pai.
Assim que deixamos o seu quarto, ele logo percebeu a diferença. Para mim era algo perfeitamente natural, mas no menino aquilo causou calafrios.
— Que é essa coisa verde? — ele quis saber, se referindo ao musgo que cobria o chão e as paredes.
Eu quis explicar, mas não achei que ele entenderia. Então falei outra coisa:
— Venha, o banheiro está logo ali.

Era como andar no fundo do mar, só que em terra firme, e ao invés de água o que nos cercava era um cheiro pantanoso, muito forte e que irritava o nariz do garotinho. Por vezes ele se queixou daquele fedor, enquanto pisava com delicadeza no piso de musgo. Dava para escutar um ruído molhado quando os pés descalços dele se afundavam na lama.
Andamos por alguns minutos (no terror noturno infantil, tudo leva horas, meses ou anos) até que (enxerguei) com o canto do olho alguma coisa passar rastejando bem ao nosso lado.
— Espere! — resmunguei para o ruivo. O vasilhame de vaga-lumes sacudiu com o movimento de meu corpo espectral.
— O que foi?
— Só fique calmo, está bem? — apontava o vasilhame na direção onde tinha certeza de que havia visto alguma coisa.
A luz refletia através do verde, criando um ambiente tenebroso, repleto de medo e angustia, coisas que apenas o inconsciente infantil pode conceber.
Fixei o vasilhame por mais alguns instantes, até que, sem nada para temer, o apontei outra vez para frente.
Não falei nada para o garotinho, mas falarei para você; achei que era uma serpente do limbo. Esta serpente, não possui veneno algum, mede uns três metros e come almas. Dizem também que ela pode falar, mas honestamente, nunca me deparei com uma que me dissesse olá. Sabe, em meu mundo, assim como no seu, também existem lendas.
Continuamos por mais uns minutos, o ruivo atrás de mim com pisadas molhadas e lentas, enquanto eu abria caminho sem encostar meu corpo no chão, já que flutuar era um dom que vinha em nossas mochilas. Chegamos diante da porta do banheiro, senti um certo alívio e como da vez anterior, teria sorrido se pudesse.
— Entre e faça o que precisa fazer, — falei para o ruivinho. Não queria demostrar impaciência, mas talvez tenha falhado nesse quesito.
— Estou quase fazendo nas calças, — ele me disse, passando por mim e adentrando no banheiro.
Escutei a porta se fechar, e só então percebi o meu erro: eu não verifiquei o local antes dele.

Em um mundo onde se tem sete, oito, nove anos, e o medo lhe cerca o tempo todo como um lobo escondido na mata, as portas não se abrem depois que elas fecham. Você pode esmurrar, dar coices, e será tudo em vão. Então, naquela noite em que minha missão estava indo para o deserto lunar, tentei fazer as mesmas coisas inúteis que acabei de lhe dizer, e não preciso nem comentar que elas provaram serem de fato inúteis.
Confuso, com medo e sem muitas alternativas, decidi chamar o ruivinho de alguma maneira.
— Garoto? — sussurrei. Não obtive resposta alguma, nem ao menos o ruído do xixi caindo na privada.
Insisti:
— Garoto, se estiver aí, preciso que abra essa porta. Ou me dê algum sinal de que… de que está tudo bem.
Mas isso ele também não fez. Começava a suspeitar de que algum Otty poderia estar lá dentro com ele. Um Otty é um ser barbudo e baixinho, que possui apenas um único olho e vários outros em um colar repugnante que usa no pescoço como um prêmio. Cada vez que ele caminha, os olhos do colar piscam para a criança, e o feitiço está feito.
Havia se passado quase um mês, creio eu, mas no seu mundo apenas alguns minutos. Estava começando a me sentir fraco (quando não somos utilizados, padecemos como se estivéssemos com alguma doença mortal) e sem outra opção, parti. Fui recepcionado por um corredor repleto de outros guias, todos em guarda e sem empatia no olhar.
Flutuei por eles, ciente de que tudo estava acabado para mim, até chegar diante de nossa força maior, o ancião dos anciões, um ser que você talvez sentisse pavor se o visse em seu mundo. Agora, não posso dizer mais nada. É contra a nossa lei revelar as nossas próprias punições, mas posso garantir que a minha culpa será a única companhia que terei na jornada pelo universo do fracasso e da trevas.
Mas recebi um benefício. Fui contemplado em poder escrever para você, Tatiana, e peço que acredite ao menos no que lhe direi a partir de agora.
O menino que está em sua casa, não deve ser o seu filho. O garotinho ruivo que conduzi até o banheiro, se foi. Quem está aí com você, se alimentando e sem interesse algum por desenhos animados ou em brincar com os amigos, é algo podre. Não sei se é um Otty. Acho que pode ser algo pior, algo que não deve ser mencionado nem mesmo em palavras escritas.
Veja se ele ainda tem dez dedos. Verifique se há pedrinhas vermelhas em suas fezes. Se ele roncar enquanto dorme, não é um ronco. É uma forma de se comunicar com as outras pragas.
Faça isso, Tatiana. Espero, com essas palavras, poder fazer por você o que não fui capaz de fazer com seu filho.

Jan. 16, 2020, 10:40 p.m. 5 Report Embed 6
The End

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Leandro Severo Leandro Severo
Favor, 2 autógrafos. Abraços
3 weeks ago
Wesley Deniel Wesley Deniel
Fascinante ! Sempre nos brinda com histórias magníficas. Eu o leio desde o Recanto das Letras e ainda lá, certa vez lhe disse a respeito de como suas histórias me fazem lembrar Neil Gaiman. Acredito que deveria reuni-las numa coletânea, amigo. Tenho certeza de que seria um sucesso ! Grande abraço pra você ! Namastê.
March 20, 2020, 07:57
tiago líreas tiago líreas
mas, se houvesse uma crítica que eu teria de fazer seria em relação ao título
January 21, 2020, 15:05
tiago líreas tiago líreas
Sinceramente, uau. De tudo que li seu, esse é o meu favorito, iNdUbItAVelMeNTe. Não senti que houve nenhuma ação ou descrição que não faziam sentido estarem incluídos no geral do texto; me senti da pele (ou poeira de estelar) de ambas as personagens principais nos momentos de maior tensão; alguns conceitos achei tão criativos e específicos que nem acreditei durante algum tempo que tivessem sido criados por você próprio (o do Otty, sobretudo) e que provinham de algum livro, filme ou uma outra mídia qualquer; senti medo ou receio de verdade, algo que só o "METÁLICO" me tinha causado até agora. Nunca me vou esquecer da maneira como você interpretou essa ideia do "anjo da guarda", nem de como você imaginou uma atividade que parece tão vulgar mas que você provou ter infinito potencial de nos lembrar das nossas infâncias como um prologando período de medo e incompreensão do mundo visível e invisível. Parabéns. Quero um autógrafo agora.
January 21, 2020, 15:00

  • tiago líreas tiago líreas
    "me senti Na* pele" e "(ou poeira estelar*)" January 22, 2020, 12:11
~