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sweet-mary Mary

Ninguém te conta o que acontece depois do final feliz. Mas, e quem nunca viveu o final feliz? E para as histórias que se nem deveriam ter começado, não tiveram final?


Non-fiction All public.

#sofrimento #desamor #dor #desilusão #desengano #desilusão-amorosa #embuste #carta-aberta-a-alguém-que-partiu-o-meu-coração #desabafo #relacionamento-abusivo #coração-partido
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Faz cinco anos que tudo aconteceu

Faz cinco anos que tudo aconteceu.

Cinco anos.

O tempo que Sofia, a neta da minha vizinha tem de vida, é o mesmo em que alguém me matou em vida.

Desde então o mundo girou com mais intensidade e grandes mudanças ocorreram. Presumo que três anos bem emblemáticos foram 2012, 2015 e 2019.

No primeiro, ilusão. Iniciei 2012 muito esperançosa de que a vida iria melhorar, que meu grande amor iria chegar e no fim fui apenas espectadora do namoro dos outros, vendo tudo pela janela, pelas redes sociais, brigando com o espelho por não entender o que tinha de tão errado comigo.

Crendo nisso, descolori as pontas do cabelo para fazer as tais mechas californianas, a modinha da época. Segui o tutorial de uma adolescente babaca no Youtube e estraguei mais de seis anos de cuidado e dedicação.

Meu cabelo apodreceu.

Passei água oxigenada 40 volumes com pó descolorante e aqueles fios pesados, macios, que deixavam as outras com inveja, foram parar no chão. Foi difícil aceitar o Chanel depois de anos sendo Rapunzel, conhecida pelo cabelo gigante. Como o amor não aparecia, eu nutria a crença de que o problema eram as madeixas curtas que me faziam passar despercebida, sendo que o corte em si é lindo, arrojado, sensual e denota atitude por parte da mulher que o usa porque significa que ela é prática, tem atitude e se faz notar.

Em 2014 teve o boom de gravidezes no meu círculo de convivência e eu sentindo que "a idade estava chegando", me julgando a maior fracassada por ser virgem com 25 anos, sendo que eu era tão novinha ainda e casamento não é profissão. Além de que muitos dos casaizinhos melosos de 2012-2014 só trocaram alianças porque engravidaram e hoje nem se suportam, alguns até se separaram.

Ainda assim, como eu não era a Raven para saber do futuro, me sentia frustrada porque no ensino médio eu não namorei ninguém, então pensava que o problema eram os meninos da escola, que quando eu "crescesse", o tal príncipe apareceria. Não encantado, não em cima de um cavalo, mas viria.

E foram passando os anos, ele não veio... nem sinal de fumaça...

Eu acreditava que Deus tinha me esquecido.

Eu me considerava injustiçada por sonhar tanto com um amor e isso ser tão impossível, tão distante da minha realidade.

Por conta de um mal-entendido estúpido que inclusive me custou bem caro, perdi a amizade de alguém que eu gostava muito e mesmo que as minhas amigas tenham me perdoado pelo rompante de raiva, nunca mais as coisas serão iguais.

As gêmeas me perdoaram, no entanto, não significa que me queiram na vida delas de novo, então tudo que sei é dando uma xeretada de vez em quando e aprendendo a abrir mão dos achismos porque o problema da nossa realidade atual é não separar o joio do trigo.

Dói no meu coração saber que por causa da minha imaturidade no passado, eu não pude lhes dar força quando o pai delas morreu porque ao saber disso, fiquei mal como se tivesse morrido um tio meu, por mais que agora estejamos afastadas e eu às vezes tenha sumido por achar que elas não me amavam o bastante, porque eu achava que elas saíam comigo por dó e só me chamavam no MSN ou no chat do Facebook quando as outras amigas que tinham namorado estavam ocupadas, no entanto, hoje vejo que se elas se abriam a ponto de contar particularidades é porque confiavam em mim porque ninguém contaria tudo que sei para uma estranha.

As duas gostavam de mim sim, porém eu não entendia isso, que elas não eram infantis de se colocarem num pedestal e estrilarem de ciúmes porque queriam a exclusividade de uma amiga. Amigos em comum, sim, amigos de tribos diferentes, amigos de épocas distintas, que ao longo da vida tendem a somar.

Talvez elas não tivessem mentido quando diziam que eu já era uma escritora e me tratavam bem. Por conta de ter sido muito zoada na infância, acabei desenvolvendo esse comportamento de confiar desconfiando.

(e logo quando deveria ter um pé atrás, eu dei um passo adiante)

Rede social não é muro das lamentações para escrever textão desaforando ninguém. Se parar para analisar o escopo, é unir nossos contatos, os de perto e os de longe, é agregar, aproximar, não segregar, por isso essa proposta é tão sedutora, como poder seguir no Instagram pessoas que você não teria contato fora da internet, é saber o que aquela figura pública que você admira pensa e faz, como ela vê a vida, como ela ama, sem comparar sua vida com a dela.

As pessoas sempre vão expor momentos bons, selecionar a realidade de acordo com a impressão que querem deixar, elas criam um personagem e se você comparar a sua vida real com o recorte da vida de alguém que esteja despertando em seu coração o ciúme, a inveja, até mesmo o ódio, é melhor dar um tempo porque tem algo dentro de você que não vai bem.

Sentir aquela pontinha de ciúme quando um amigo seu começa a namorar é normal, talvez porque ele vai deixar de sair com você para passar o tempo livre com a namorada, inveja seria se você quisesse a moça e destruísse o relacionamento, cobiça seria você também querer namorar e desde que não prejudique ninguém, entendo que não é ruim, desde que você queira porque aquilo faz sentido, não só por modinha.

Uma psicóloga minha, que se formou nas coxas, nunca entendeu isso, quando eu comentava que todo mundo namorava, menos eu, EU NUNCA DISSE QUE NÃO QUERIA QUE AS OUTRAS PESSOAS NAMORASSEM, se eu tivesse dito isso, aí sim seria inveja, mas ela vivia refutando tudo que eu dizia: "isso é inveja", "você só quer o que é do outro", "seus desenhos são infantis", "as roupas que você veste são infantis". Quando eu comentava que me sentia sozinha era porque eu também queria ter alguém sem tirar o que os outros já tinham. Isso não é inveja.

Inveja seria se eu tivesse destruído o namoro das minhas amigas, ficado depois com os caras, as difamado para eles. Eu nunca quis os namorados delas. Eu apenas queria o meu amor.

Eu queria um amorzinho para chamar de meu.

Não era o namorado de nenhuma das meninas.

Ou seja, minha psicóloga deveria voltar para a faculdade e estudar um pouquinho mais.

Se eu tivesse seduzido o namorado de uma das minhas amigas SABENDO que ela gosta dele só para ela não ter, aí sim eu aceitaria ser chamada de talarica, invejosa, mas eu nunca fiz isso, aliás, nos passeios em que eu segurava vela, nunca nem olhava nos olhos dos rapazes.

Eu não sou de olhar nos olhos nem de quem eu gosto.

Eu estava cobiçando a ideia de começar a namorar, porque é normal, eu deixei de ser criança, até de ser adolescente, e pelo fato de ter sido a única que não encontrou ninguém, me senti deixada de lado, por mais que talvez para as meninas não fosse nenhum problema ter uma amiga solteira.

Todavia, na época eu não refletia tão profundamente sobre isso e o complexo de inferioridade me fez internalizar essa ideia de que eu era a "amiga feia" com quem elas saíam por dó nas horas vagas, que só me chamavam para conversar no chat porque as amigas que tinham namorado estavam ocupadas e fui aos poucos desenvolvendo certa raiva delas em segredo.

Um erro.

Elas nem sabiam o que se passava, eu fazia de conta que estava bem quando meu coração se contorcia de tristeza.

Eu achava que era menos mulher por não ser mulher aos olhos de alguém e isso me fez idealizar o Miguel, o amigo que lamento ter perdido com o tal mal-entendido que disse no começo dessa carta, pois eu o conhecia desde a época da escola e em 2009 éramos parceiros de MSN. Até minha mãe dizia que ele era um bom partido e devo dizer que, sim, pensar que ele me viu como mulher me anima um pouco.

Miguel nunca foi muito de se expor no Orkut, no MSN não colocava o nome dele nem nada no subnick, mas eu sabia que era dele por causa da foto e do jeito de escrever. Tinha 21 anos, era solteiro, alto, inteligente, de posicionamentos fortes e senso de humor que apenas pessoas não bitoladas entenderiam. De fato, eu gostava de conversar com ele, tanto, mas tanto, que tinha medo de ele arranjar uma namorada e se afastar.

Meu medo aconteceu e eu descobri isso no aniversário dele, quando abri a janelinha do MSN dele em off e escrevi uma mensagem, porque vi a foto dele com uma menina de olhos azuis e um emoticon de coração no subnick.

Antes disso, ele tinha um álbum no Orkut com poucas fotos e, dentre elas, uma que tirou comigo, na páscoa de 2008, não imaginei que aquela simples fotografia tivesse importância na vida dele e então me afastei quando o vi com uma namorada porque não queria ser o pivô de brigas e desentendimentos entre o casal.

Em 2010, as gêmeas deram algumas indiretas de que ele sentia muita saudade de mim, de que quando adoeci por causa da anorexia, o garoto notou tudo e ficou preocupado. Isso é fato. Quando lhe contei o meu diagnóstico, Miguel não torceu o nariz e me bloqueou, apenas pediu para eu me cuidar.

No entanto, vivemos nos desencontrando. Em 2011, tive uma breve esperança de que talvez pudéssemos voltar a ser os amigos de antes, mas foi apenas um intervalo entre uma briga e outra do casal. Depois, ele arranjou uma namorada no Rio de Janeiro, foi até lá ver o Rock in Rio com ela, em 2012 a pediu em casamento e eu o excluí do Facebook, comecei a chorar, mas em maio de 2013, ELE veio me adicionar.

Solteiro.

Falando que eu era linda, inteligente, talentosa, que as pessoas que faziam bullying comigo tinham inveja da minha escrita, que eu não "acontecia" porque direcionava meu trabalho ao público errado, me perguntou se eu já tinha apresentado algum namorado aos meus pais, se já tinha namorado alguém, completando que apesar de não ter carro, a hora que eu quisesse sair era só falar.

Acontece que eu deixei a decisão nas mãos dele e aí no ano seguinte, quando uma das gêmeas contou que ficou com ele na mesma época em que esses papos estavam rolando, entendi isso como uma traição e fiquei fora de mim a ponto de fazer algo que eu, em pleno juízo, nunca faria: brigar com uma amiga por causa de homem.

Em 2015/2016 ele namorou a irmã dela, porém em 2014 reatou com a noiva. A propósito, um dos motivos de ter deixado você se aproximar foi para afrontar o Miguel, sendo que aconteceu um fato no mínimo curioso: quando fui assistir ao filme do Bob Esponja (sim, eu amo o Bob), encontrei um monte de marmanjo da universidade que se situa bem perto desse shopping. Eu, que pensei que sofreria com crianças birrentas chutando minha poltrona, dando chiliques e atrapalhando, não imaginei que só veria adulto.

Nessa mesma semana, o Miguel fez uma solicitação de amizade no Facebook. Aquilo me deixou meio tentada. No fundo, senti medo e por isso não cliquei no "aceitar".

Apesar de tantos anos terem se passado, penso se em algum momento ele sente saudade de mim nem que seja por um minutinho, se mesmo com alguns desencontros, ele tem mesmo esse carinho de irmã por mim, como reiteraram as gêmeas no ano passado, quando acertamos essa situação.

Embora eu quisesse o Miguel como amigo e não como namorado, sempre botaram pilha que "combinávamos" e eu penso se perdi muita coisa por não ter ficado com ele, se rolou o tal do "não era para ser".

Aí começa o erro que eu cometo: me comparar.

Eu me comparava muito com essas gêmeas e criei alguns mitos dentro da cabeça e posso dizer que vivi de achismos, só que achismos não são verdades.

Ainda me sinto enciumada quando um rapaz lhes diz que são belas porque ainda preciso trabalhar uma ideia: eu posso não fazer o tipo de 99,9% da humanidade, meu biótipo não é o de mulherão que para quarteirão, eu sou tímida e recatada, não gosto de aglomerações, barulho, não quero ficar por ficar, sexo casual, quero me relacionar com algum propósito sério e com uma pessoa madura, que me assuma, me trate como gente.

Na verdade, eu sempre rejeito quem diz que sou linda, acho que a pessoa está tirando onda com a minha cara e dizendo isso para outras dezenas.

Graças a você.

Eu precisei entender quais eram os meus limites depois que você me machucou e eu perdi tanto a esperança nas pessoas, a confiança se quebrou em milhões de pedaços, se destruiu e até hoje eu não consegui abrir o meu coração, me sentir inteira de novo, o ódio e a raiva diminuíram, porque assumo minha parcela de responsabilidade: criei expectativas sobre você, sobre nós. Eu gostei da ideia de alguém gostar de mim e naquele momento em que ninguém me enxergava, as migalhas que você me deu me fizeram acreditar que minha sorte iria mudar, que enfim eu seria como todas as outras e não inferior a elas, que eu quebraria o tabu de ser sempre sozinha porque tinha encontrado alguém que se importava comigo, que realizaria meus sonhos mais puros de amor.

Só que você não honrou nada disso.

Você poderia ter ido embora da minha vida sem sumir, se despedindo, pois quando você desaparece depois de ir tão longe, a outra pessoa se questiona o que fez ou deixou de fazer, ela se culpa, se machuca, adoece, se afoga num mar revolto de suposições. Se você se colocar no meu lugar, talvez seja mais fácil. Eu nunca deixei ninguém se aproximar de mim, sempre me preservei de embustes, sempre me guardei para alguém que me merecesse.

O que te motivou a entrar na minha vida eu não sei, mas se você só pretendia se divertir, era mais fácil baixar o app do Tinder que ia ter muita periguete com corpo de academia, que aceitaria de bom grado o seu trato, para elas seria um contatinho, sem neura. Advirto que não sou e nunca serei o estilo de mulher que a Anitta é e prega em suas músicas.

Sou o extremo-oposto dela. Em tudo. Até porque sou do rock e me identificava com os emos, talvez a única “modinha” em que me encaixei por ter a ver comigo de verdade. Porque os emos eram zoados, mas as músicas falavam de amor, agora é só apologia ao sexo em tempo integral.

O romantismo se tornou careta, tosco, ridículo.

Ser romântico é sinônimo de “trouxa”.

Legal é deixar no vácuo, pegar e não se apegar, ter uma lista cheia de contatinhos e ao mesmo tempo não ter ninguém, ninguém de verdade, ninguém que te ame, que te honre, que decida abrir mão de todas as outras possibilidades para construir algo a dois, abrir mão do “eu” para pensar em “nós”, não digo você e eu, mas na primeira pessoa do plural. Olhar juntos na mesma direção. Sonhar junto, chorar junto, planejar um futuro junto, apoiar o outro, ouvir, ser o porto-seguro, o colo que conforta, o lugar preferido da outra pessoa.

Se isso fizer de mim piegas, que se danem os outros.

Prefiro morrer solteirona a estar de cama em cama.

Eu sou de uma pessoa só. Eu amo cada pessoa que amo não menos do que muito. Quem quer que seja o meu futuro amor vai ter que me respeitar porque não perdoo pulada de cerca, nada justifica traição, ou me honra ou cai fora. Ou me ama em completude e se entrega por inteiro ou vaza. Sem meio-termo.

Se em algum instante você gostou de mim nem que tenha sido um tiquinho, por que me abandonou? Por que você me deixou sozinha? Por que você fez eu me sentir especial e depois me destruiu com palavras? Por que você fez isso?

Tudo sempre foi do seu jeito. Você nunca pediu minha opinião. Nunca fez questão de conhecer minha família, meus amigos, minhas histórias, minhas origens, meus gostos, minhas manias, nunca se abriu para eu te conhecer de verdade, sempre agiu com frieza, distanciamento, determinou tudo de antemão e eu fui apenas um meio para chegar até um fim.

Se você me amasse ou pelo menos gostasse de mim o bastante para me ver como "gente", teria mensurado que eu não merecia aquilo.

Eu merecia escolher a minha hora, que meu "não" fosse respeitado, ser tratada como gente, porque apesar de você não acreditar, MULHER É GENTE.

Eu te admirava pra caramba até entender que não era recíproco, que você não estava nem aí para os meus sentimentos, que você teve atitudes inaceitáveis (tenho minha opinião formada sobre isso, embora saiba que você discorda, mas o que você fez foi MUITO errado, VOCÊ decidiu a minha hora e isso era algo que competia A MIM, então aquele NÃO solenemente ignorado fez um estrago em mim) e me deixou sozinha depois de me despertar ilusões.

Repito, eu assumo a minha parcela de responsabilidade porque alimentei as ilusões e me nutri delas até suas palavras destruírem tudo. Em algum momento, ainda que inconscientemente, você me deu esperança do que quer que fosse. De todas elas, a pior. A de que você era diferente. Que você era capaz de ver algo bom em mim. De me amar do jeito que eu era.

Talvez fizesse parte do seu estratagema estúpido dizer à uma moça frágil, carente e insegura tudo que ela não costuma ouvir com frequência, fazê-la se sentir especial e única para que ela se abra. Porque a carência tem dessas ciladas, você se apega a qualquer pessoa que te dê um pingo de atenção, mesmo com fome de completude, as migalhas são aceitas porque você prefere esmola emocional do que o nada. Do que não ser nada. E é aí que mora o grande problema: você não impõe limites. Você permite que te façam de chão. Que te tratem como se você fosse um trapo qualquer. Você consente porque acredita que é sua última esperança.

Entretanto, vem o baque: e quando essa pessoa te abandona, o que sobra?

Uma criança assustada, encolhida na escuridão, que soluça baixinho e abraça os joelhos com medo do frio, do vento, da chuva, da longa noite escura.

Você não sabe mais quem é e nem para onde ir.

Você não faz a menor ideia se existe um amanhã, uma nova chance, um novo amor...

Você, quando a torrente de lágrimas te derruba de vez, se pergunta se será possível viver e fazer algo de bom com o que sobrou de você.

Porque foi o que aconteceu comigo!

Você seguiu em frente depois de tudo que aconteceu e talvez as memórias só estejam vívidas porque eu não superei nunca a rejeição, o abandono, o vazio que ficou. Você tinha em mente me deixar e não se pode prender alguém que não quer ficar porque é preencher o recinto com alguém que não está verdadeiramente ali por você.

Insisto, eu amava a ideia de alguém me amar. E ainda assim é um verbo muito forte para algo tão frívolo e animal. Eu gostava dessa suposição de que tinha um tal alguém pensando em mim com carinho porque me proporcionava a sensação de ser querida e viver algo real porque todo mundo quer receber abraços apertados, beijinhos, colo, carinho, afagos, ter alguém que lhe ouça e lhe apoie.

Por que eu seria diferente?

Eu me deslumbrei com um abraço porque ninguém nunca tinha me abraçado. Antes de você, ninguém tinha me tocado. Ninguém nunca beijou os meus olhos e se você não se apaixonou por mim, então por que fez algo que apenas pessoas apaixonadas fazem (porque não sei se você sabe, mas beijo no olho significa que você ama a pessoa e quer que ela também te ame)?

Eu sempre senti falta de me sentir desejada, me sentir mulher, me sentir gostosa, viva, que meu corpo não era meu inimigo, que alguém era capaz de amar minhas cicatrizes visíveis e invisíveis.

Não se trata só de tirar a roupa, sussurrar safadezas, montar em cima da outra pessoa como um galo e sair de cima quando goza. Quando você faz amor de verdade com alguém, as almas se conectam, o problema é que hoje em dia é careta pensar em "fazer amor", se aprofundar, se entregar, as pessoas desistem na primeira dificuldade, no primeiro obstáculo, sem sequer tentarem e acham que putaria é legal, mas PUTARIA NÃO É AMOR.

Fazer amor com alguém não é deixar à mostra só o seu corpo nu, é abrir a sua alma e ver a alma da outra pessoa, é buscar mais do que o seu prazer, é fazer a outra parte feliz, é tocá-la com carinho, com devoção, com respeito, não deve ser banalizado.

Se você curte putaria e não quer se aprofundar, fique sempre solteiro e faça a festa no Tinder, em app para trepação, mas não entre na vida de uma mulher que esteja disposta a firmar um relacionamento sério, não desgrace a vida de quem não merece sofrer.

Eu não estou errada por desejar um amor verdadeiro e me guardar (porque, sim, depois de você, eu me fechei ainda mais para qualquer contato), são os meus valores e tenho orgulho deles porque os construí com base no que é importante para mim.

Você cuspiu neles.

Você cuspiu na minha honra.

Saí de 2015 destruída e a única forma de sobreviver ao mal que você me fez foi aprender a te odiar porque o ódio, apesar de não ser o melhor sentimento para alavancar uma superação, me manteve de pé. O problema é que tranquei as portas e janelas do meu coração para ninguém entrar. O estrago que você deixou foi equivalente ao que aquele terremoto fez no Haiti, dez anos atrás. Destrutivo.

Eu nunca vou ser quem eu era antes de você.

Tive que me tornar uma mulher fria, egoísta, insensível, dura e cruel porque se eu continuasse chorando pelos cantos, teria morrido de tristeza. Minha poesia chorava, minha escrita mudou demais e ainda é muito difícil escrever sobre amor porque inevitavelmente eu me vejo destilando o meu ódio por você, a minha dor nas linhas e meus projetos nunca terminam porque eu mexo em feridas abertas porque você nunca me pediu perdão, nunca imaginou como seria estar no meu lugar e ter que suportar tudo sozinha, sem apoio nenhum, carregando culpas mil e tentando entender o que fez de tão mau e errado para merecer o que aconteceu.

Você transformou a garota romântica e que acreditava no verdadeiro amor em alguém que desconfia, não crê que duas pessoas que estejam juntas se amem de verdade, me passou a ideia de qualquer médico jovem é estuprador, se aproveita da sua condição para tripudiar da ética e sair por aí achando que é dono do mundo, que pode tudo a hora que quiser, sem levar em conta os sentimentos dos outros.

Cinco anos é tempo demais para carregar no peito uma mágoa tão pesada.

Em 2019 eu vivi para ver coisas que jamais imaginei que fossem possíveis. Algumas boas, outras nem tanto. Mas o fato é que eu saí dele mais fortalecida do que de 2012 e 2015, porque agora sei que a década que chegou ao fim roubou algo de todo mundo. Alguns perderam entes queridos e/ou grandes amigos, outros o emprego e tiveram que repensar a carreira, outros, como eu, perderam a inocência.

Em maior ou menor proporção, todo mundo deixou de ser inocente.

Agora eu olho para 2010, 2011 e penso em como era feliz e nem sabia, como a vida era boa por conta da simplicidade. Meus pais ainda tinham uma saúde perfeita, minha irmã ainda não tinha adoecido, minhas amigas ainda levavam a vida despreocupada de quem está saindo da adolescência, nenhuma de nós tinha sofrido alguma perda ou desilusão muito forte, nada comparado ao que viria.

Elas ao menos tiveram sorte de namorar caras que souberam respeitá-las e perderam a virgindade de forma agradável, prazerosa e consensual. O mesmo não posso dizer de mim. Você me tirou esse direito. Quem deveria me possuir era a pessoa com quem eu trocaria alianças de compromisso e se você não era esse ser, com que direito fez o que fez?

Não, você não me amou.

Você nunca me amou.

Quem ama não faria o que você fez.

Você escolheu "ela" quando me contou que não poderia continuar falando comigo e ainda bem que a vida me mostrou que o maior perdedor foi você.

Você me fez pensar que ela era melhor do que eu por ter ficado com "a melhor parte".

E eu, nos meses mais escuros da minha vida, compreendidos entre julho de 2015 e abril de 2016, confesso que queria ser ela, que nas noites amargas de insônia eu desejei que você voltasse, que toda manhã eu ligava o celular e meu coração já se enchia de dor porque não tinha uma cartinha do Gmail com o seu nome, nem sequer as três linhas (depois de eu ir para o Word e abrir o coração, escrevendo textos alinhados e revisados com até 1000 palavras, compartilhando até da minha escrita contigo). Eu esperava anoitecer e cuidava de cada palavrinha, sendo que pouco antes de você me deixar em casa no referido dia da minha morte, respondeu-me que "sentia preguiça de ler".

Eu a imaginava como uma megera.

Eu fazia a imagem mental dela como o extremo oposto no sentido físico, imaginando-a como aquelas garotas perfeitas do Tumblr, com seus cabelos louros, gigantes e pesados, com rostinho de porcelana, barrigas negativas, coxas megafinas, olhos claros.

Eu imaginava que ela era médica, viajada, falava uns sete idiomas e talvez fosse até uma escritora publicada.

Eu imaginava, nos meus devaneios, que você me amava e não ficava comigo porque apesar de toda essa perfeição, ela era ciumenta, manipuladora, que seu relacionamento era de aparências e você refreava o amor que sentia por mim para não desapontar a "sociedade".

Eu imaginava que ELA era o obstáculo para a minha felicidade.

Pois bem, em 2019, quando eu disse sobre ser um ano emblemático, descobri que ELA não quer mais saber de você e tenta viver como se você nunca tivesse existido.

Ela, logo ela...

A Senhorita Perfeição.

O Fantasma que me tanto me atormentou, a quem culpei pelo seu sumiço, nem ela foi o suficiente para o seu ego.

Não, ela não era uma Tumblr Girl, uma thinspiration, não era médica, não falava sete idiomas, mas também descobriu que você é um canalha.

Nem ela foi o bastante para você.

O que você rejeitou pode ser tudo que alguém mais deseja, é tudo questão de percepção. Você não conseguiu aproveitar o privilégio que teve, porque a sorte bateu na sua porta, ter uma mulher como eu é para poucos, para os fortes, ter o meu respeito, a minha admiração e o meu tempo também não é para qualquer um (a).

E você jogou isso tudo para o alto.

Se você gostasse tanto dela, não teria procurado "diversão" fora.

A verdade é que você só gosta de si mesmo, é difícil para você enxergar que as pessoas não nasceram para te servir, que mulheres não são buracos em que seu pênis pode entrar e sair quando bem quiser.

Nem eu, nem ela, nem a mulher mais incrível do mundo seríamos o bastante.

Você destrói todas as mulheres que toca.

Você é aquele que destrói a autoestima e a honra de qualquer mulher e ainda a faz se sentir culpada por isso.

O que me impede de ser completa é saber que você nunca terá a sensibilidade de analisar sua consciência, calcular os danos que me causou e me pedir perdão, não para que fique com você, porque mais cedo, quando falei sobre limites, aprendi da pior forma que se eu não me impuser, pessoas como você pensarão que meu coração é um terreno baldio onde poderão jogar todo seu lixo.

Eu não ficaria com você.

O cristal se quebrou.

Não se faz um novo ano reincidindo em erros.

Lembra quando você dizia pelas entrelinhas que eu era um "erro"?

Quero te lembrar que eu não sou um erro, um desajuste, uma anomalia, um desvio da rota. Eu fui desejada pelos meus pais, nasci no dia em que estava previsto, fui um bebê saudável e perfeito, eu sou uma obra de Deus, logo como posso ser categorizada como um "erro"?

Por causa de um embuste?

Porque você é um embuste!

Você só atrasou a minha vida. De tanto você me diminuir e insistir que o problema era eu, não consegui perceber quantas coisas aconteceram depois que você foi embora, o quanto eu me empoderei, me fortaleci, conheci amigos que repudiam o que você fez comigo e esperam que você sofra da pior forma possível por ter me feito sofrer, eu entrei na faculdade e estando a um ano e meio da minha formatura, nunca contei a ninguém que nunca fiquei feliz de verdade porque quando você partiu o meu coração, levou consigo a pessoa que eu era antes.

Você levou minha inocência, minha bondade, minha pureza, minha capacidade de amar, levou tudo embora e depositou seu lixo em mim. Talvez eu me tornei um ser desprezível como você. Um espelho. Uma pessoa fria, egoísta, insensível.

Sério, estou tentando me recordar de algo bom que você tenha feito para que o perdão que preciso te liberar saia, mas não consigo encontrar.

Eu estou te perdoando porque apesar do ilustrado acima, dizem-me que você não me roubou nada disso, que me tornei uma mulher mais forte em razão da dor.

Eu não desejo nem o seu mal, posso ser abominável, mas não chego a tanto, não sei sentir contentamento com o pesar do outro, apesar de abrir uma emenda: eu queria que você passasse exatamente pela mesma situação que eu.

Que você conhecesse alguém que te enchesse de esperanças, te iludisse, fizesse você se sentir especial, depois sumisse e te tratasse como lixo.

Só isso.

Eu só queria que você sentisse o que é ter o coração partido bem no meio e essa dor ser tão forte a ponto de eu várias vezes achar que iria morrer, porque o coração doía de verdade. Eu queria que você soubesse o quão desolador é amargar a dor do abandono e não ter ninguém para te consolar. Queria que na pior noite da sua vida você se lembrasse de mim e que cada um colhe aquilo que semeia.

Ao brincar com o meu coração, você semeou a desgraça e um dia vai colhê-la.

Porque eu posso ser o que for, mas brincar com o coração das pessoas não é uma habilidade que tenho. Não tenho e desejo nunca ter.

Seria preferível curar corações.

Ainda assim, seria melhor que ninguém tivesse o coração partido. Reaprender a viver e a amar depois de sofrer uma grande desilusão é uma tarefa muito árdua porque você nunca mais volta a ser como era antes, sua confiança se esvai, convive com a insegurança de não ser o bastante, o medo constante de perder, de tudo não passar de mentira e ilusão.

Se cinco anos atrás eu soubesse do que sei hoje, meu coração talvez ainda fosse puro o bastante para se entregar ao verdadeiro amor sem reservas.

Somente os próximos capítulos dirão de fato se você matou o amor que havia em mim ou ele está apenas adormecido, esperando para curar alguém que conheceu alguém como você. No fim das contas, a vida sempre mostra a verdade. Sempre, sempre, sempre. Ela é infalível. E a justiça também, não se esqueça.

Dizem que meu coração não foi o único que você partiu, que pelo seu modus operandi, muitas outras foram vítimas do seu narcisismo, entretanto, não é lhe desejar o mal, cada vez que você machuca alguém, está gerando um carma ruim para cima de você, criando desafetos, mágoas e por mais que seja divertido na sua concepção ter alguns instantes de prazer, depois que você goza e volta para casa, se sente preenchido de verdade ou oco?

Porque você é oco. Superficial. Soberbo.

Você pode até ter títulos, dinheiro, pensar que sua profissão te faz superior a todo mundo, mas nada disso te traz luz própria porque você não cativa as pessoas por onde passa. Em vez disso, semeia raiva, rancor, engano.

Menos para mim é mais.

Eu gosto de pessoas verdadeiras, abertas, profundas, pessoas que agem como humanas, que choram, sentem, lutam por algo, levantam alguma bandeira, pessoas que podem não ser unânimes, mas ao menos são transparentes.

Eu gosto de pessoas que vivem com simplicidade, honestidade, que sabem se colocar no lugar do outro, que não pensam apenas em seus próprios prazeres devassos.

Eu gosto de pessoas que quando amam, se entregam e vivem esse amor. Mais, não só vivem um amor como inspiram outras pessoas a acreditarem.

Uma coisa eu te digo: se você só encontra prazer no sexo, tem alguma coisa muito errada na sua vida. Praticar um esporte é bom, ler um livro, jogar (já que você joga esses joguinhos de celular), curtir a natureza, conversar algo que não envolva as palavras p*u, c*, b*c*t*, orar, meditar, ouvir uma boa música, cozinhar, assistir a um documentário, um filme, uma série. O sexo é uma prática saudável, quando consentida também é boa porque conecta duas pessoas, mas tem muitas outras coisas boas além de viver pensando em putaria.

Daqui a cinco anos você vai ser como algum trauma infantil, apenas uma lembrança bem distante, mas como ainda não toquei a minha vida, saber que você não pagou pelo que me fez me deixa com muita raiva porque depois de se despedir de mim, você seguiu como se nada tivesse acontecido e em contrapartida eu nunca mais me senti inteira de novo.

Sim, eu sei que essa raiva me prejudica, mas a justiça está demorando para se fazer. Eu não queria me colocar no papel de Deus, porque tentando "controlar" as coisas, determino a Deus o que ele deve fazer e não é dessa maneira que o pensamento do Criador funciona. Por mais que você seja um embuste, ele te ama. Mesmo eu sendo imperfeita, ele me ama.

Não é que Deus castigue, Deus ensina e corrige, aprende quem tem discernimento, os outros seguem dando com a cabeça na parede.

Meu maior erro foi te conhecer.

Eu não queria saber o seu nome, nem que seu coração bate, mas te conheci, ainda me lembro do seu nome, tenho que conviver com as cicatrizes de tudo isso sem nenhuma ajuda profissional, tentando fingir para quem me ama (ainda que sejam poucos) que estou bem e a quem não estava presente naquela época, que você nunca existiu.

Eu tento, por mais que seja insano, condicionar meu cérebro a fingir que você nunca existiu.

Como eu tento.

Para não me tornar repetitiva em minha indignação, em meus versos, em minhas pautas.

Para olhar em volta e perceber o que restou de mim, que pode não valer nada, pode ser completamente inútil, mas ainda é o indício mais claro de que você me matou com palavras, mas das cinzas uma fênix é capaz de se refazer.

Se alguém te matar com palavras, o que vai restar de você?

Jan. 14, 2020, 1:01 a.m. 0 Report Embed 1
The End

Meet the author

Mary Curitibana, futura jornalista, escritora em constante progresso, escorpiana com ascendente e lua em peixes. Apaixonada por todas as singelezas da natureza, onde se encontra o olhar compassivo de Deus. Em matéria de livros, filmes e músicas, minha lista tende a crescer, mas sempre há aqueles que têm um espacinho especial no meu coração. Prazer, eu sou a Mary.

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