dcsales D.C. Sales

Eu era um segredo, um escândalo e agora órfã. Em um mundo de segredos e mentiras, eu tentava tentar entender memórias confusas e incompletas até que minha doença surgiu. Decifrar o passado se tornou essencial para ter uma chance para ter um futuro.


Romance Young Adult Romance All public.

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I - O mundo é da cor que seus olhos enxergam

Eu soltava as mãos da bicicleta e abria os braços para sentir o vento soprando a brisa da manhã. O sol iluminava meu rosto brilhando meus cabelos, que se tornavam dourados com a luz do sol. O céu azul me fazia me perguntar se o mar era daquela cor e as nuvens como as ondas do mar. Ouvir os pássaros cantando eram como música para meus ouvidos. Gostava de colher flores coloridas e enfeitar o caixote que usava como cesta para minha bicicleta amarela camuflado suas ferrugens e com meu sorriso esconder minhas lágrimas.

Não importa o quão ruim tivesse sido o dia anterior, meus olhos brilhavam as quartas-feiras quando cruzava a ponte em direção a Paradise, a cidade de flores e pedras no caminho. O momento que a vida me permitia sonhar ter uma vida longe dos meus temores.

Ainda que houvesse beleza em Paradise, a vida era como um livro que sempre voltava para o mesmo capítulo. Para os menos afortunados, a monotonia dos dias. Para os ricos, a futilidade das almas vazias. Sempre senti que não havia para mim um lugar no universo finito de Paradise, eu não pertencia a nenhum dos dois mundos.

Nem tudo eram rosas, mas também não havia somente espinhos, devo reconhecer. Como água correndo através das pedras, em meio as belas flores coloridas de Paradise, era a biblioteca pública da cidade.

Não havia como ir a cidade e não passar pela praça e observar um enorme tronco de árvore onde foram colocados muitos livros meticulosamente organizados. O lugar onde uma árvore ancestral morta foi transformada na biblioteca de Paradise.

O conhecimento era como uma planta que precisava ser regada até que se tornasse uma bela árvore, e eu uma semente que nunca fora plantada, mas que ansiava um dia florescer. Eu talvez fosse a única que desejasse virar um novo capítulo da minha vida, e acreditava que a resposta estava ali, mas nunca tinha coragem de entrar na biblioteca.

Sempre nas tardes de quarta-feira, eu observava um jovem com os cabelos estranhamente penteados, olhos pequenos e castanhos sempre distantes e o uniforme de camisa branca com o emblema verde da escola Real Paradise. Ele entrava na biblioteca com um livro e pouco depois sair com outro. Sabia quem era ele, e porque não podia me aproximar. Eu o conhecia. Bernardo era seu nome e ele certamente se tornaria médico em Paradise, exatamente como o pai.

Não me era permitido ir à escola, mas a Alice sim. Minha meia-irmã era aluna da escola onde os herdeiros de Paradise se preparavam para seguir as carreiras de seus pais. A de minha irmã, se casar com um jovem rico. Alice sempre me lembrava que eu era pequena e magra para minha idade e se gabava do quanto era admirada pelos meninos da escola, mas ela só tinha olhos para o filho do médico mais famoso de Paradise.

Eu tinha até o por do sol para retornar para casa, e o sino da escola funcionava como um toque de recolher. Eu saía da praça com a bicicleta e voltava para casa do outro lado da ponte. De toda forma eu saída da escola naquele horário para evitar encontrar com Alice e suas colegas de Real Paradise. Esses encontros eram quase sempre desastrosos, ao menos para mim.

Perseguição, provocação e agressão.

Eu comprava pipoca do carrinho vermelho quando sobravam algumas moedas do dinheiro que minha madrasta me dava para fazer compras no centro de Paradise, ainda que eu achasse que ela me dava esse dinheiro por outro motivo. Como sempre, eu parava com a bicicleta e me sentava junto ao chafariz da praça, observando os pombos voarem com um sorriso no rosto e uma dor no coração desejando ser um pássaro voando no horizonte.

Duas crianças sentarem-se nas margens da fonte, certamente elas não estudavam na Real Paradise, suas roupas simples, rostos sujos e seus olhares famintos e tristes diziam que não tinha outra alternativa a não ser dar a minha pipoca para elas. Após comerem todos os grãos até mesmo os que não estouraram, o menino mais velho quis mostrar algo que ele chamava de especial a sua irmã, algo que para ele era apenas uma habilidade, mas para mim, uma memória.

Uma lembrança confusa e incompleta.

O menino ensinou a irmã a fazer um pequeno barco com o saco de papel e o colocou para flutuar na fonte. As nuvens descobriram o sol, e meus olhos se voltaram para um passado não tão distante às margens do rio de Paradise. Eu não estava sozinha. Minha mãe pegou duas folhas de papel e fez um barco grande e outro pequeno. Com a mesma bicicleta que agora me pertencia e eu sentada na garupa, ela me levou às margens do rio que passava pela cidade. Ao colocar dois barquinhos na água ela me explicou que nós éramos aqueles barquinhos que um dia iriam navegar muito além de Paradise.

Navegar para longe era tudo o que minha mãe queria. Não importava a direção seja norte ou sul, das profundezas do mar ou até as nuvens. Eu ainda não entendia, talvez ainda não entenda, mas a âncora de mamãe estava firmemente agarrada a ideia de que meu pai me reconheceria como filha dele, não se importando se ela tivesse de dar a vida por isso. Foi as margens do rio de Paradise em meio as águas profundas que eu vi o barco maior afundado e o pequeno encalhado na margem.

Eu era um segredo, um escândalo e agora órfã.

Fui levada para a mansão onde minha madrasta não me trataria como uma filha, mas como uma criada.

Voltei-me para a realidade, de volta à praça de Paradise quando um trabalhador mal-humorado que limpava a fonte colhendo suas folhas tentava expulsar eu e as duas crianças que estavam sentadas ao meu lado.

Era a vida impedindo mais uma vez de sonhar.

Ao finalmente conseguir fazer as crianças voltarem para suas vidas e sem piedade alguma, o homem de barba mal aparada e roupas sujas colocou o barco feito do saquinho de pipoca na sacola preta, como se ele fosse apenas mais uma daquelas folhas que um dia já enfeitaram uma bela árvore, mas agora eram apenas lixo. Eu poderia ter dito alguma coisa , mas nos meus 15 anos de vida, não era ainda capaz de enfrentar a realidade da minha própria vida.

O céu se fechou novamente, e me lembrei que em meus pesadelos eu podia ver uma mulher cruel afogar os sonhos de mamãe e levá-la para navegar para longe de mim. Isso era um devaneio ou apenas mais uma lembrança? Não importa, a visão se tornou tão vívida, ao ponto de não ter ouvido o sino da escola. Tarde demais quando percebi que Alice se aproximava e ela não estava sozinha.

Ofegante corri com a bicicleta o mais rápido que pode. Não seria a primeira vez que elas me machucariam sem qualquer motivo, aguardando apenas a próxima ocasião. Mas dessa vez seria diferente, um acidente seria confundindo com uma provocação.

Eu desnorteada andei com a bicicleta em direção a biblioteca e esbarrei no jovem que sempre observava à distância sair de dentro da biblioteca. Acabei derrubando o livro de letras prateadas que ele carregava e a minha bicicleta que entortou a roda. Bernardo pareceu não se incomodar com o fato do livro ter caído, e ajudou a me levantar.

— Você se machucou? — Perguntou Bernardo parecendo preocupado com o fato da minha perna ter se cortado com a bicicleta.

Aquela seria apenas mais uma das muitas cicatrizes que já tinha. Bernardo tateou o chão me ajudou a recolher as frutas que havia comprado no mercado e haviam se espalhado com a queda.

— Estou bem, obrigada! — Eu disse sem ter coragem de olhar nos olhos dele.

Terminei de recolher as maçãs me preparando para subir novamente na bicicleta, só então percebendo que não conseguiria voltar a pedalar.

— Qual o seu nome? Porque nunca te vi na escola? É nova em Paradise? — O garoto insistia em fazer tantas perguntas, embora eu não respondesse nenhuma delas.

— Desculpe! — Engoli a saliva quase não conseguindo falar—Preciso ir agora!

— Meu nome é Bernardo, posso ajudar com a roda da sua bicicleta, conheço alguém que pode conserta-la.— Ele insistia de alguma forma prender a minha atenção.

Eu me distanciava empurrando a bicicleta. Parei por um instante e olhei para trás, Alice e as outras meninas vinham em minha direção. Não havia tempo a perder.

— Estou grata, mas não será necessário. Perdoe-me por ter derrubado o livro.

Eu me distanciava ainda tentando pedalar a bicicleta com a roda empenada e acabei por apenas empurra-la.

— Foi um prazer conhece-la! — Foram as últimas palavras ditas por Bernardo, embora eu preferisse que ele não as tivesse dito, pois acredito que Alice tenha ouvido.

Olhei novamente para trás por um momento, Bernardo conversava com Alice, ela me olhou por um segundo, senti um arrepio passando pelas minhas costas. As amigas de Alice aproximavam e me seguiam. Fugir era o mais importante. Deveria ter cruzado a ponte, mas eu estava sem fôlego empurrando a bicicleta e era um longo trajeto até a casa onde vivia.

Entrei por uma viela sem saída achando que as havia despistado. Vão engano. Tentei fugir novamente, mas as amigas de Alice que eram bem maiores do que eu e me seguraram contra a parede.

Alice apareceu se aproximou da bicicleta e jogou no chão todas as frutas que haviam restado. Se eu não chegasse a mansão antes do por do sol, certamente seria castigada por Teresa. Minha meia-irmã se aproximou segurou no meu queixo e olhou bem próximo dos seus olhos.

— A princesa recolheu flores no campo para enfeitar a sua bicicleta? Acorda Gata Borralheira, quem disse que você pode conversar com o Lorde? Ele é meu e eu a proíbo de se aproximar dele.

Esse era o apelido que Bernardo havia recebido das meninas de Paradise ao longo dos anos, agora eu talvez entendesse o porquê.

— E eu não estava conversando com ninguém, houve um acidente ...— Eu respondi a Alice e ela cuspiu no meu rosto.

Minha meia-irmã gritou:

— Não me interessa suas desculpas! Você fez isso de propósito. Quando eu contar a mamãe que você vem para a cidade para ficar conversando com rapazes, ao invés de fazer compras no centro, ela nunca mais vai permitir que você saia da mansão. É o que quer? Ficar presa naquele porão? Você é uma qualquer como sua mãe!

— Nunca mais fale da minha mãe, ou eu sou capaz de...de...

Alice desdenhou:

— Você não é capaz de nada. Pois é isso o que você é: um nada.

As amigas da minha meia-irmã riram e finalmente me soltaram, mas Alice facilmente me colocou contra a parede novamente. Ela era mais velha e mais forte e se gabava por isso. Alice tinha 16 anos, um ano a mais do que eu. O seu cabelo preto e a franja moldava seu belo rosto, era tão bonita quanto a mãe, e as vezes mais cruel que ela. E agora minha irmã tentava me agredir.

Meus pés eram pequenos, mas os braços fortes. Eu segurava as mãos de Alice tentando evitar que ela batesse e acabei acertando minha meia-irmã fazendo-a cortar a boca. Alice acertou um soco no meu olho deixando-me logo depois com um hematoma no olho.

Eu sabia que aquela violência não era apenas para me ferir fisicamente. Ao perceber meu silêncio e que finalmente havia me atingido além do meu olho, Alice não se deu por satisfeita e ordenou as suas amigas:

—Deem uma lição nela, para que ela nunca mais se aproxime do Lorde. E quanto a você Clara — falou meu nome com desdém — Quer se livrar de tudo isso? Vá embora e não volte nunca mais.

Era certamente o maior desejo de Alice, mas havia alguém que queria com mais intensidade que eu partisse. Eu sabia que a madrasta permitia que eu saísse da mansão todas as semanas com a esperança que eu simplesmente fosse embora. E como Teresa se decepcionava as quartas-feiras no fim da tarde quando me via retornar para casa e não raro encontrava algum motivo para me castigar.

Antes que as amigas de Alice me machucassem, uma falta de ar e dor no peito e um pedido de socorro rouco e praticamente sem voz me fizeram quase desmaiar. As duas meninas achando que eu estava morrendo, entraram em pânico ao ouvirem passos se aproximando e antes que eu perdesse os sentidos completamente, fugiram.

Eram um par de sapatos verdes amarrados com cardaços, eu não consegui identificar de quem eram, mas certamente salvaram a minha vida.

Dec. 19, 2019, 3:40 p.m. 0 Report Embed 1
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