Mãos frias, corações quentes Follow story

saaimee Ana Carolina

Seus olhos se desviaram para baixo vendo suas mãos geladas se segurando entre suas pernas abertas. Ele quase podia ver as algemas machucando seus pulsos. Um suspiro cortou seus lábios sem desfazer o olhar solitário em seu rosto. — Algum dia... O peso invisível em suas costas o impedia de esticar o corpo. Era a culpa e a responsabilidade que o isolava naquela jaula. Doía não saber o que fazer e doía mais ainda acreditar que tudo era em vão.


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Capítulo Único

Majima tinha conseguido sair mais cedo do Grand pela primeira vez aquela semana e tudo o que queria era voltar para casa e se jogar em seu fino futon se entregando ao sono até o sol aparecer em sua janela para atrapalha-lo. Era o que queria, porém todo esse sonho se desfez em sua frente quando pisou na calçada do estabelecimento encontrando Nishitani parado na rua à frente com um sorriso provocante o encarando.

Não era comum receber esse tipo de visita dele a não ser quando estava desesperado por uma luta. Por isso a primeira reação do jovem foi cerrar os punhos deixando a tensão dominar seu corpo enquanto se preparava para qualquer ataque.

Foi essa reação instintiva que fez o mais velho rir quebrando o clima antes de finalmente andar na direção dele. “Só queria te ver, Majima-kun”, foi o que disse como se isso fosse normal, como se de alguma forma fossem próximos.

Majima não retrucou e nem se negou a andar com ele quando o convidou. Não que ele quisesse ver Nishitani, mas, por alguma razão, tê-lo ali não era tão ruim como parecia.

Por causa disso, agora, estavam andando pelas ruas de Sotenbori sentindo o sereno da noite chacoalhar os fios soltos de seus cabelos e aliviar o calor daquele dia preso em seus corpos.

O jovem não dizia nada e carregava uma expressão mais séria que o normal ignorando tudo ao redor. Nishitani tinha notado isso no momento em que o viu sair com a cabeça abaixada do Grand. Sabia que o jovem provavelmente ainda estava preso no cabaré, preocupado com as papeladas amontoadas no escritório. Devia estar até programando a agenda de amanhã para prevenir que qualquer acidente colocasse o local em risco ou apertasse ainda mais a coleira em seu pescoço.

Sagawa estava drenando tudo dele como sempre. Era cruel, mas o velho sabia que não havia maldade em suas intenções. Sabia que no fundo ele amava o garoto tanto quanto ele.

Era claro a lealdade de Majima a suas tarefas com o chefe, mas incomodava vê-lo gastar sua juventude criando rugas de desespero. Incomodava ainda mais o ciúmes que isso causava nele.

Sem avisar, Nishitani se inclinou jogando o peso sobre o corpo de Majima enquanto apoiava o braço ao redor do pescoço dele cortando toda a distância que existia. O susto foi grande com o impacto despertando o jovem que por pouco não perdeu o equilíbrio.

— Nishi–

— Será que vou ter que lutar com você pra notar com quem está agora, Majima-kun? – Sem deixar o rapaz questionar, falou aproximando seus rosto quase tocando suas bochechas.

O homem estava no lado cego de Majima e o rapaz sabia que se virasse para encara-lo agora seria impossível evitar que seus lábios se tocassem. Por alguns instantes aguardou ouvindo a respiração calma próxima de seu ouvido e a força do braço o impedindo de sair dali.

— Do que tá falando?

— Para de pensar no Sagawa por um minuto. Dá pra ser? – Seu tom não era brincalhão ou excitado como sempre, era denso, sério e obscuro. Sem entender o porquê aquilo fez o coração do jovem disparar. — Esse rosto... Não tá olhando pra mim. – Se afastando, Nishitani segurou o queixo dele o trazendo para sua direção o suficiente para ficarem de frente, com os olhos presos um no outro.

Sim, ele estava preocupado com Sagawa e sim, não estava prestando atenção nem mesmo aonde estavam indo àquela hora da noite. Por isso, olhar nos olhos do homem naquele momento foi como vê-lo pela primeira vez no dia. E foram esses olhos sério levemente irritados e a falta do sorriso que o fez engolir em seco.

Sua única reação foi empurrar o mais velho para trás enquanto buscava espaço entre eles.

— Me deixa! – Rosnou virando o rosto para disfarçar a agitação em seu peito. — Que tem de errado com você?

Nishitani não respondeu, apenas assistiu a distância crescer e os movimentos rápidos da mão no rosto disfarçando a vergonha. Majima tinha os socos mais firmes que o homem já sentiu e nunca caía nas batalhas, mas naquele momento o sorriso de canto no rosto de Nishitani brilhou quando percebeu que tinha o vencido.

Despreocupado olhou ao redor com as mãos na cintura assistindo a noite daquela cidade perdida brilhar ao redor deles quando viu no final da rua pessoas fazendo fila em frente a uma barraca esperando por suas caixas de Takoyaki.

— Majima-kun, já comeu hoje?

A pergunta aleatória chamou a atenção do rapaz que se virou sem entender a mudança rápida na conversa.

— Não…

— Então espera aqui.

— Que…

Se afastando com uma piscadela ele partiu na multidão ignorando a confusão que causou.

Estava sentado em um banco no parque olhando o lado da cidade que se escondia das luzes. Majima sabia que Nishitani tinha pedido para ficar lá o esperando, mas a ideia de ficar parado no meio da rua com pessoas indo e vindo o fez caminhar para onde estava agora, assistindo os bêbados se atrapalhando pelas ruas e os jovens machucados se ajudando a voltar para casa.

Era estranho como nada naquela cidade parecia ser real. Os risos, as conversas, os jogos de poder e mesmo assim todos pareciam felizes com o que tinham. Dava para ouvir os bêbados gargalhando por nenhuma razão e até aqueles garotos acabados encontravam motivos para sorrir em meio as dores.

Seus olhos se desviaram para baixo vendo suas mãos geladas se segurando entre suas pernas abertas. Ele quase podia ver as algemas machucando seus pulsos. Um suspiro cortou seus lábios sem desfazer o olhar solitário em seu rosto.

— Algum dia...

O peso invisível em suas costas o impedia de esticar o corpo. Era a culpa e a responsabilidade que o isolava naquela jaula. Doía não saber o que fazer e doía mais ainda acreditar que tudo era em vão.

Quebrando o silêncio que o cercava, Majima sentiu algo tocar sua cabeça o fazendo se mover por instinto. Viu, parado a sua frente, Nishitani com um olhar risonho e duas caixas de Takoyaki nas mãos.

— Pega.

Não esperou ser convidado e, logo que entregou a comida, se sentou ao seu lado com as pernas abertas soltando um suspiro cansado. Majima encarou os takoyakis confuso e depois se virou para ver o homem que o olhava.

— Você tava com cara de quem ia desmaiar. – Comentou vendo o rapaz desviar balançando a cabeça. — Não pode ser assim, Majima-kun.

— Cala boca, eu tô ótimo!

Nishitani riu em silêncio vendo de canto Majima pegar um dos palitos com calma e cutucar uma das bolas. Com cuidado assoprou uma, duas vezes antes de tomar em sua boca com um único movimento. Lentamente mastigou e quando sentiu o sabor quente, seu rosto relaxou sem nem perceber.

Nishitani sorriu se voltando para sua caixa antes de continuar a falar.

— Tá bom? – Perguntou fingindo não ter visto tudo aquilo. A resposta que recebeu foi o resmungo positivo do rapaz. — Bom, então me dá um pedaço.

— Que? – Como se estivesse ofendido com o pedido, Majima se virou, ainda mastigando, para encarar o homem. — Você já tem o seu!

— Eh, não seja egoísta! Além do mais, acho que eles são diferentes.

— Acha?

— É. Tenho certeza.

Majima o encarou. Algo estava errado naquele pedido. Tinha quase 100% de certeza de que era alguma armadilha. Dizer não só iria fazer o homem encher sua paciência e dizer sim poderia ter algum efeito colateral que não queria.

O mais velho fingia não o ver enquanto cutucava os takoyakis na caixa com a expressão sarcástica o desafiando a ariscar.

Irritado com a situação, Majima se virou estalando a língua para pegar outro palito quando sentiu a mão agarrar seu rosto o puxando para perto.

Em um flash, seus lábios se tocaram e antes de processar a armadilha ele sentiu a língua faminta do homem invadir sua boca em busca da comida.

Assustado e sem reação, o jovem viu os olhos dele transbordando luxuria enquanto fazia barulhos exagerados com a saliva. O beijo era violento como sempre, mas Majima conseguiu escapar quando se lembrou de onde estavam.

— Que tá fazendo?! – Empurrando o homem e colocando a mão na boca ele questionou raivoso e envergonhado.

— Provando. – Respondeu limpando a saliva do canto dos lábios. — E nem consegui provar direito pra saber se era diferente. – Resmungou assistindo o rapaz que com as sobrancelhas unidas o encarava tirando risos do mais velho. — Mas você continua delicioso como sempre, Majima-kun.

— Ah, se fude.

— O que? Você não gostou?

A questão soava mais como uma provocação sarcástica do que uma pergunta. Entretanto Majima não pôde responder. Aquilo tinha o assustado, sim, mas não tinha sido ruim. O ataque inesperado fez seu coração disparar e o calor dominar seu corpo. Todo o frio que estava sentindo sozinho naquele parque se foi.

Nishitani ouviu o silêncio se prolongar acompanhado da cabeça baixa do jovem e riu. Riu alto.

— Come e fica quieto!

Pegando um de seus takoyakis, Majima enfiou na boca de Nishitani enquanto ainda tentava disfarçar o rubor no rosto mordendo os dentes.

— Ah… Ah, tá quente!

Deviam ter passado mais do que só alguns minutos ali quando já estavam acendendo o segundo cigarro sem se importar com o tempo.

No mesmo banco, lado a lado, com as caixas — dos takoyakis e dos cigarros — descansando ao lado deles, ambos assistiam as poucas pessoas que ainda passavam pelo parque escuro enquanto sentiam o ar fresco se misturar com suas fumaças.

A calmaria incomum dominava o local e, por alguma razão, isso fazia Majima querer falar. Queria reclamar dos escândalos e agradecer pela comida. Também precisava voltar para casa e dormir algumas horas se não quisesse ter problemas pela manhã, mas não sabia por onde deveria começar ou se deveria.

— Nishitani...

— Fala.

— Você... Precisa de algo?

— Hein?

A pergunta não fazia sentido atraindo a atenção do homem que ergueu as sobrancelhas sem desviar a atenção do céu. Majima por outro lado mordeu os lábios com medo de perguntar mais e ouvir o que não queria.

— Por que veio?

Finalmente disse. Sentiu o estomago gelar com o medo de que tudo isso não tinha significado nenhum, medo de que Nishitani só precisava dele por algum motivo pessoal, medo de ser usado.

— Não te disse? Queria te ver.

Seu coração acelerou. Não perguntou para ouvir isso de novo, mas ser assegurado disso aliviou seu peito. De alguma forma aquilo o fazia se sentir próximo dele, talvez até amado. Precisava disso.

— Obrigado. – Sussurrou tentando controlar o sorriso agitado em seu rosto.

Sua voz fez o outro se virar para ele vendo os ombros relaxados e as mãos se apertando nervosamente como se não soubesse se deveria ter dito aquilo.

Nishitani teve vontade de pular dali direto para um abraço. Quis puxa-lo para perto e beija-lo até desmaiar. Nem iria se importar de transar com ele ali mesmo. Mas não fez. Nada disso.

Era óbvio que amava o garoto e por isso precisava se segurar. Dando um longo trago no cigarro ele sorriu.

— Me agradeça lutando comigo na próxima vez que te encontrar. – Comentou despreocupado olhando o céu estrelado.

Majima riu se jogando para trás no banco aceitando o acordo, ignorando as preocupações e se deixando sentir o que seu coração queria pelo menos dessa vez.

Dec. 12, 2019, 5:47 p.m. 0 Report Embed 0
The End

Meet the author

Ana Carolina Mãe de 32 personagens originais e outros 32 adotados com muito carinho, fanfiqueira nas horas vagas e amante das palavras em período integral. Apaixonada demais e, por isso, sou tantas coisas que me perco tentando me explicar. Daí eu escrevo. ICON: TsukiAkii @ DeviantArt

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