Ernesto Prestes Investiga Follow story

u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

São Paulo, anos 1910. O Brasil há pouco se tornou uma República, e os coronéis do café regem os rumos do país. Nesse cenário que odeia, o inspetor de polícia Ernesto Prestes, com sua apurada erudição e capacidade de raciocínio, resolve os mais variados mistérios em meio à alta e baixa sociedade paulistana regando tudo com sua ironia e levando a desfechos capazes de surpreender.


Thriller/Mistery Not for children under 13.

#suspense #mistério #enigma #investigador #história #histórico #crime #criminal #investigação #policial #ficção-histórica #República-Velha #são-paulo #brasil #detetive
1
1.0k VIEWS
In progress - New chapter Every 30 days
reading time
AA Share

O Assassinato do Coronel Figueira

O Assassinato do Coronel Figueira


I


O ano era 1916.

Lembro-me daquela tarde de setembro como se houvesse sido ontem. Havia acabado de chegar em casa, após ter saído para comprar tabaco. Minha residência, que eu sempre considerei humilde e confortável, estava localizada no coração da cidade de São Paulo, contrastando com alguns palacetes imponentes dos cafeicultores – a elite parasitária que vinha dominando nosso país. Fachada simples, interior espaçoso. Enfim, uma moradia adequada para um inspetor de polícia.

Mas isto não vem ao caso agora...

Como dizia, eu havia chegado em casa naquele momento. Coloquei a caixinha de tabaco sobre a mesinha da sala, herança dos meus avós. Foi então que, olhando para a soleira da porta, percebi que o carteiro havia me deixado algo.

Fui examinar os papéis, que se encontravam presos por um elástico rústico. Examinei o que haviam me mandado: um exemplar da revista "Careta" cuja capa satirizava a guerra na Europa, algumas contas rotineiras e, finalmente, um belo e impecável envelope branco.

Abri-o, curioso. Era um convite, impresso em papel repleto de adornos. Coisa importante. Curioso, li seu conteúdo:


Prezado senhor,


O Royal Club convida Vossa Senhoria, Inspetor Ernesto Prestes, membro da tão ilustre e digníssima força policial paulistana, para o Baile de Primavera, a ser realizado no dia vinte e três de setembro às vinte e duas horas na sede do clube. Contamos com a presença de Vossa Senhoria.


Atenciosamente,

Diretoria – Royal Club de São Paulo.


Um baile da alta sociedade. Fechei os olhos, visualizando a cena. Um salão iluminado, damas e cavalheiros dançando, coronéis discutindo as ações do presidente...

Asco, profundo asco.

Por que ir, então? Bem, deve-se levar em conta que aqueles eram dias difíceis. A Grande Guerra surrupiava vinténs dos bolsos de todos, e eu via-me obrigado a multiplicar meus trabalhos como detetive particular para compensar o salário cada vez menor que a polícia me conferia. Mesmo odiando sanguessugas de fraque e suas esposas com mais vento no crânio do que miolos... eram eles que frequentemente pagavam por meus serviços, e precisava de seu dinheiro.

Seguir um esposo suspeito de infidelidade, investigar um sócio que aparentava estar fraudando um negócio... trabalhos simples, mas que para serem aceitos requeriam contato com a nata azeda da pauliceia, por mais odioso que isso fosse.

Mal sabia que aquele baile estaria longe de resumir-se somente a isso.


II


Lá estava eu, no Baile de Primavera.

O salão do clube era amplo e intensamente iluminado por belos e ostentosos lustres. Ao som de uma valsa, os casais apaixonados ou unidos apenas por interesse (o que era comum, diga-se de passagem – "caça-dotes" sendo mais perigosos do que os temíveis alemães nas trincheiras a serviço do Kaiser) dançavam pelo local. As damas exibiam bonitos e caros vestidos de renda; e os cavalheiros, por sua vez, sentiam-se incrivelmente garbosos em seus ternos exorbitantes.

Eu apenas observava, imóvel no alto de uma escada no centro do saguão. Por mais que mentisse, eu não fazia parte da alta sociedade. Não era um membro da elite agrária que dominava o país, tampouco simpatizava com os coronéis ou o presidente Venceslau Brás.

Enquanto me perguntava se fora válido mesmo o esforço de comparecer, veio aquele som, e eu comecei a entender o que o destino me reservava...

Um tiro.

A valsa parou, enquanto as mulheres gritavam de susto e os homens olhavam apreensivos ao redor, procurando em vão o autor do disparo. Lembrei-me de minha profissão. Inspetor de polícia – por mais que fosse tarefa ingrata servir àquela gente. Rapidamente saquei meu fiel revólver Colt M1892, o qual sempre trazia comigo num dos bolsos. Velha relíquia da força policial, era a arma que no Oeste Americano diziam ser capaz, com seis balas, de conseguir deter qualquer coisa que se movesse. No caso de São Paulo, era mais que o bastante para liquidar qualquer ser que se ostentasse.

Desci velozmente as escadas, seguindo na direção da saída do salão, observado por alguns curiosos.

- Não temam, sou da polícia! – exclamava, enquanto me dirigia até a porta.

Ganhei o exterior, a brisa da noite tocando levemente meu rosto como uma amante tímida. Sensação agradável, suprimindo um pouco o sentimento confuso a respeito do que diabos estaria acontecendo ali. Porém, não tinha tempo a perder. Segui em frente na direção de onde acreditava ter vindo o tiro.

Aos poucos, meus passos tornaram-se mais lentos. Vi uma pequena aglomeração de pessoas cercando alguma coisa. Temi o pior, caminhando até elas. Assim que me aproximei o suficiente, abri uma brecha entre seus corpos perplexos. Havia algo no chão.

Um cadáver. O indivíduo deveria ter uns cinqüenta anos de idade. Estava caído de bruços sobre uma poça de sangue, seu terno tingido de rubro.

Assassinato consumado.


III


A mulher chorava amarguradamente. O oficial da força pública ofereceu-lhe um lenço, o qual ela apanhou sem pensar duas vezes. Enxugou o rosto banhado em lágrimas, enquanto mais dois policiais ganhavam a sala.

- Procure se acalmar, senhora Figueira – disse o oficial que ofereça o lenço, Delegado Teixeira, que eu conhecia assim como todos os outros da cidade, devido ao meu trabalho. – Prometo que esclareceremos isso ainda esta noite! Dei ordens para ninguém poder sair do clube antes que terminemos as investigações!

Olhei mais uma vez para a viúva. Aos presentes, a situação ganhara todos os tons possíveis de lamento. Era esposa do falecido, o coronel Miguel Figueira, proprietário de incontáveis terras no interior do estado, e membro influente do PRP – o Partido Republicano Paulista. Homem poderoso, alvo cobiçado.

Nenhuma pista do atirador. Havia desaparecido na noite – mas, a não ser que houvesse criado asas nos pés feito Hermes para voar por cima do alto muro do clube, ainda permanecia nele – já que o porteiro e os guardas ao portão, preliminarmente questionados, não tinham visto ninguém passar após o tiro ser ouvido.

Naquele momento eu, o delegado, a viúva e alguns outros oficiais nos encontrávamos no escritório da administração do Royal Club.

- Concordo com o delegado – disse eu. – Pegaremos esse canalha, não será difícil. Ele ainda está entre nós.

Minhas palavras aparentaram ter um peso incômodo na sala; e pude perceber de relance um dos policiais arregalando os olhos. A viúva começou a chorar mais. A primeira impressão foi que a constatação aumentou ainda mais o peso que carregava.

Ela soluçou. Teixeira lançou-me um olhar que conhecia muito bem. Queria conversar comigo a sós. Assenti com a cabeça e nos dirigimos para fora da sala.

Era incrível como aquele homem era irritante. Trazendo consigo um potinho de rapé, o abria a quase todo momento e levava o pó até o nariz – como fez novamente ao atravessar a porta. Não deixei de notar a peculiaridade enquanto saímos, embora fosse feita por um homem tão aborrecível:

- Vício novo? Achei que antes era a cachaça...

Teixeira fungou, ao mesmo tempo em que depositava de volta o recipiente no bolso com a mão que não usara para cheirá-lo. Respondeu, rindo:

- Todo homem é uma coleção de vícios, inspetor.

No corredor, o delegado esperou até que alguns convidados se afastassem para dizer:

- Prestes, estou com um mandado de prisão aqui no bolso. Temos um suspeito em potencial.

- Quem? – indaguei, intrigado, porém não surpreso.

- Um dos convidados, coronel Onofre Cruz. Inimigo de morte de Figueira devido a disputas regionais na cidade deles. Ameaçou matá-lo diversas vezes, e parece que desta vez cumpriu o prometido.

- Você tem certeza?

- Absoluta!

- Tenho minhas dúvidas...

Dois empregados do clube passaram próximos a nós, fazendo com que disfarçássemos por um instante. Poucos segundos depois, disse eu ao delegado:

- Vou interrogar algumas pessoas. Não podemos tirar conclusões precipitadas, você sabe.

- Confio em você. Mostrou estar com a razão inúmeras vezes. Cumpra seu dever em nome da República, Inspetor.

Em nome da República? Eu tinha nojo a ela. Cumpriria meu dever apenas para que a Justiça triunfasse. A dama erguendo a balança estava sempre de venda, e por isso era preciso que alguém mostrasse a ela o que não conseguia ver...

Teixeira voltou para dentro do escritório, deixando-me sozinho no corredor, pensativo.


IV


Refletindo profundamente, caminhava pelo agradável jardim do clube. Olhei para o céu estrelado. Ah, as estrelas. Testemunhas perfeitas, se ao menos pudessem falar... bem, talvez não fossem lá grande serventia. A julgar pelos ridículos versos parnasianos em voga, só saberiam falar de futilidades como as mesmas jovenzinhas frígidas que as admiravam.

Sentindo o perfume da noite, unindo flores a suor, caminhei até o portão da propriedade. Lá permanecera um dos vigias, trajando uniforme caqui. A pessoa que poderia ter visto algo. O homem que poderia saber quem era o assassino.

- Hei, rapaz! – exclamei.

O guardinha caminhou até mim. Rapazote de bom porte, possuía ar de quem coleciona namoradas. Assim que se aproximou, tirou o quepe. Perguntei:

- Ficou sabendo do que houve?

- Sim, senhor – respondeu o vigia de modo rígido, como se diante de um sargento no exército. – O coronel Figueira foi morto! Uma barbaridade!

- Sabe de algo?

O jovem corou. Olhou para o firmamento e então para o chão. Sinal de insegurança. Insisti:

- Diga sem medo!

Ele engoliu seco. Fitou o quepe, coçou a nuca. Por fim desembuchou, atordoado:

- Vi um vulto correr para dentro da cozinha pouco depois do tiro. Parecia ter uma arma na mão. É tudo que sei!

Sorri, apesar da inutilidade da informação – a não ser a direção para onde o sujeito se esvaíra. O resto era previsto: afinal, não havia como o criminoso ter se desfeito em fumaça, ou pulado para o telhado como um macaco. O tal vulto podia ser muito bem um capanga a mando do coronel Cruz, mesmo eu não crendo nessa possibilidade. Precisava de mais informações, novos relatos, algo conclusivo...

Agradeci ao vigia e me afastei. A noite era ainda uma criança, e tinha de perder a inocência. Havia tempo de sobra para mais testemunhos.


V


A cozinha do clube, com seu forno que parecia ter saído de uma versão pós-Revolução Industrial do conto de fadas de "João e Maria".

Avancei alguns passos, olhando para as mesas e outros utensílios. Além de mim, havia apenas uma outra pessoa no recinto. O cozinheiro, usando uniforme branco com o típico chapéu parecendo a Torre de Pisa inclinada que a mim sempre tornou imensamente ridícula a profissão. Caminhei até ele.

- Boa noite! – saudei.

- Boa noite – respondeu ele. – O senhor é o inspetor, não?

- Exato – confirmei num sorriso. – Sabe algo sobre o assassinato do coronel?

Ele pareceu estranhar a pergunta. Fitei sua roupa, alargada como uma tenda. Ocultava em parte a obesidade do cozinheiro. Dei alguns passos ao redor de uma mesa, dizendo:

- O vigia do portão me informou que viu um vulto entrar aqui na cozinha pouco depois do disparo. Por acaso o senhor não viu ou ouviu nada suspeito?

O tenso empregado do clube olhou para o chão, coçando o queixo. Estava tentando se lembrar, eu já descartando de cara a hipótese do coitado ter alguma culpa. Aguardei, sereno e paciente. Nenhuma informação poderia me escapar.

Por fim o cozinheiro ergueu a cabeça, olhar determinado. Seguro de si, respondeu-me:

- Não ouvi o tiro, pois tinha meus ouvidos tampados com algodão. Não gosto de ser perturbado por nenhum ruído enquanto cozinho. Porém, alguns segundos depois, destampei-os para ir perguntar algo a um dos garçons. Foi quando ouvi um espirro, virando-me para trás. A única coisa que vi foi um vulto cruzando a porta que leva ao salão. Julguei ser um dos rapazes servindo os convidados, só não tenho certeza, então é algo a ser registrado. Lamento não poder ajudar mais que isso.

Assenti com a cabeça. Não havia feito praticamente progresso algum, mas não desistiria tão facilmente. Um mistério costuma primeiro dar migalhas de sua solução, para só ao final prover os maiores pedaços.


VI


Voltei ao escritório da administração do clube. Lá estava o delegado, cara de poucos amigos. A viúva encontrava-se sentada no mesmo lugar, abraçada agora por um homem.

Ele tinha cabelos negros, porte alto, olhar desafiador. Consolava a senhora Figueira com enorme afeição, como se ambos já se conhecessem há anos. Intrigado, aproximei-me de Teixeira e perguntei, disfarçadamente:

- Quem é esse indivíduo?

- O senhor Rodolfo Moreira, amigo de longa data da família Figueira – respondeu o delegado. – Também foi cabo eleitoral do falecido coronel nas últimas eleições. Está prestando consolo à pobre viúva.

- Não o conhecia...

- Descobriu alguma coisa?

- Sim, mas nada realmente útil – respondi, num suspiro. – Um vulto cruzou a cozinha em direção ao salão pouco depois de efetuado o tiro. Espirrou enquanto passava próximo ao cozinheiro.

- Como assim, nada útil? – sobressaltou-se Teixeira, arregalando os olhos. – Um dos capangas do coronel Cruz, de nome Gaspar, está constipado! Eu o vi com o nariz escorrendo agora há pouco no corredor! Só pode ter sido ele, Prestes!

- Acalme-se, delegado. Ainda não temos certeza. Vou interrogar mais algumas pessoas e, se eu não conseguir nenhuma informação que inocente o coronel em uma hora, prometo que poderá prender a ele e seu capanga.

- Estamos combinados.

A passos tranquilos, deixei o escritório. Já podia sentir a verdade a meu alcance, tentando-me a cada instante. O leitor pode estar estranhando meu comportamento. Se todas as evidências acusavam o coronel Cruz, para que insistir no contrário?

Digo-lhes apenas que o inusitado é o tempero da vida.


VII


Estava eu sozinho no salão do clube, antes tão alegre e festivo, agora um antro dominado pelo fantasma da suspeita. Dei alguns passos. Precisava encontrar a minha última testemunha, aquela cujo relato me levaria ao indivíduo que, devido à perfeição de seu álibi, ninguém ousara tê-lo como suspeito.

Encontrei-a.

Próximo à porta do salão que eu antes havia cruzado ao ouvir o tiro, estava um sujeito de uniforme azul-escuro e chapéu de abas curtas. Um legítimo empregado.

Aproximei-me.

Ele só me percebeu quando minha pessoa se encontrava a poucos passos de distância. Possuía bigodes ralos, olhos miúdos. Sem demora apresentei-me:

- Inspetor Prestes – disse eu, estendendo minha mão direita ao indivíduo.

- Rubens! – sorriu ele, retribuindo ao cumprimento de um modo humilde e simples.

- O senhor é...

- Motorista do senhor Moreira! – respondeu o prestativo empregado. – O senhor ficou sabendo do crime?

- Estou tentando descobrir quem foi o culpado...

- Oh, sim... – disse ele, assentindo levemente com a cabeça. – Boa sorte!

Virei-me, certo de que havia me enganado sobre aquele humilde motorista ser minha testemunha-chave. No entanto, a própria ingenuidade de um ser humano pode se mostrar o caminho mais rápido a uma verdade oculta. Após afastar-me alguns passos de Rubens, lembrei-me de algo que vira numa das mãos do empregado...

Voltei-me novamente para o homem, confirmando minhas suspeitas. Ele segurava uma caixa de lenços importados da Europa – alguma marca francesa, como se por ter sido feito em Paris o tecido tornasse o muco menos repugnante quando assoado nele. Perguntei, intrigado:

- O senhor anda sempre constipado, é?

- Não, estes lenços não me pertencem – sorriu Rubens, compreendendo minha indagação. – São do meu patrão, que sofre de alergia! Não pode chegar perto de flores ou gatos que já começa a espirrar...


VIII


Voltei à cozinha para deparar-me com um detalhe que não havia notado quando estivera ali interrogando o cozinheiro. Sobre uma mesa coberta por uma bonita toalha bordada, contemplei uma cesta que possuía um lindo arranjo de flores feias: antúrios vermelhos como o sangue derramado do coronel Figueira – os espádices amarelos projetando-se das corolas como rijos dedos em pose de acusação.

Um simples detalhe causou uma reviravolta no mistério. Um terrível deslize num crime aparentemente perfeito. Mas não existem delitos sem falhas. A vã e aparente perfeição de um crime está nos olhos daqueles que são logrados pelos meliantes – quase sempre amadores, ou amadores manipulados por outros amadores.


IX


Confrontado pela nova evidência, fui obrigado a recorrer à mais antiga e infame fonte de informação existente: a fofoca. Sim, ela, terrível Amazona da calúnia e hipocrisia, que já habitou cortes luxuosas, palacetes imponentes e insalubres habitações de periferia.

Fiquei sabendo que uma das empregadas da família Figueira havia acompanhado os patrões à festa. Seu nome era Georgina, senhora de contornos avolumados e cabelos brancos. Rechonchuda, eu diria até roliça.

Mal me apresentei e a velha começou a falar pelos cotovelos. Era muito estimada pelos Figueira, e por isso sabia de tudo que ocorria na casa do falecido coronel, inclusive assuntos íntimos.

Logo de início comentou o assassinato do patrão. Verdadeira atrocidade. Após soltar incontáveis exclamações contra o criminoso, rogando cem mil pragas, a empregada perguntou-me se eu poderia guardar um segredo.

Respondi afirmativamente. Ela então começou a falar sobre o comportamento estranho da patroa nos últimos tempos, e a fala deixou clara a antipatia da empregada pelo senhor Moreira, que logo estava envolvido na história como um país neutro na guerra européia.

Porém, aos poucos, percebi que de neutro Moreira não tinha nada. Pelo menos segundo a velha. Ela disse que eles conspiravam às escondidas, tramando algo perverso, digno do "capeta". De acordo com o relato, a esposa do coronel Figueira, Dona Rita, havia se casado com o proprietário de terra por obrigação, e que nunca fora feliz no matrimônio – totalmente arranjado. Insinuou até que ela era apaixonada por Moreira, e que o marido não lhe era nada mais que um fardo.

Agradeci, sorrindo. Mais incriminador que aquilo, impossível. Só muito óbvio. E eu detesto o óbvio.


X


De pé junto à entrada do Royal Club, tendo ao meu lado o delegado Teixeira, observava o senhor Moreira, algemado, sendo levado para dentro de um camburão da polícia. Dona Rita, sua cúmplice, vinha logo atrás, o fracasso estampado em seu pálido rosto.

Tudo se sucedeu da seguinte maneira:

Após ter falado com a empregada dos Figueira, voltei ao escritório da administração e relatei a Teixeira minha descoberta. O Delegado conversou com Moreira a sós, e o cego amante sumariamente confessou o crime, acusando a participação da viúva.

Um crime insano movido por uma paixão totalmente inconsequente. Quase uma tragédia grega, mas em nossa versão tupiniquim Moreira não teve a mesma coragem de Édipo em furar os próprios olhos. Mesmo assim, todos no local foram sumariamente conquistados pelo tom inusitado da história. Um verdadeiro escândalo.

Realmente, o plano fora bem elaborado. Efetuado o disparo, as suspeitas cairiam sobre o coronel Cruz. O álibi dos amantes era praticamente perfeito, já que Moreira voltara ao salão tão rápido quanto saíra. Porém, o apaixonado não contava com as flores na cozinha. Uma falha imperdoável num esquema que tinha tudo para dar certo. Mas um criminoso não escapa ao peso da Lei, nem que isso leve tempo e enganos. Mesmo num país dominado por oligarquias agrárias, ainda havia Justiça. Aplicável a todos, inclusive amantes inconseqüentes ou alérgicos a antúrios. Ou talvez não...

A peça fora encenada. Agora faltava pegar o autor daquele roteiro tão barato.


XI


Pensando novamente no assassinato e em todas as pessoas envolvidas nele, vi-me mais uma vez circulando pelo jardim do Royal Club, braços cruzados atrás da cintura. De alguma forma, eu desconfiava que o mistério ainda não fora totalmente solucionado. Teria sido mesmo um crime passional? Ou haveria algum outro motivo por trás de tal barbárie?

Ouvi o engatilhar de uma arma atrás de mim, certo de que as respostas necessárias haviam acabado de chegar junto com ele. Virei-me lentamente. Talvez o leitor se impressione, mas o indivíduo que vi diante de meus olhos naquele momento não me causou surpresa alguma: tratava-se do Delegado Teixeira, o qual apontava um revólver Colt em minha direção, mas de modelo mais recente. Um M1905, pelo que pude perceber.

- Será verdade o que penso neste exato instante? – indaguei, erguendo os braços. – De fato, rapé serve bem para camuflar fragmentos de pólvora nas mãos. E alguns homens acumulam mais vícios do que outros...

- Você sempre foi o melhor investigador da força policial, Prestes... – murmurou o oficial, aproximando-se de mim com uma expressão lunática em seu semblante. – Assim como eu previ, não aceitou facilmente o fato do coronel Figueira ter sido morto por um capanga do Cruz. Por isso armei todo esse teatro para despistá-lo. Uma história falsa menos óbvia para que ficasse satisfeito. Aproveitei o fato de a viúva ter um amante e manipulei a ambos. Acha mesmo que aquela meretriz que traía o falecido por toda parte ia chorar a morte dele? As lágrimas eram devido à minha chantagem; porém calharam muito bem. Pagaram por um crime que eu cometi. Aliás, o falso espirro que dei na cozinha conseguiu mesmo chamar a atenção do cozinheiro!

- E agora vem contar tudo a mim, confirmando o perfil narcisista que possui... – riu o inspetor, mãos ainda levantadas. – Bandidos como você são mais fáceis de pegar do que um bonde vazio, delegado!

- Não venho até você contar tudo apenas para enaltecer meu ato, Prestes. Nisso se engana. Tenho outro objetivo... És um homem de valor, meu caro. Mas não consegue ver como está nosso país? Controlado por uma maldita elite rural desde a época do Império! O que a República mudou em nossas vidas? Em que ela melhorou esta nação? Junte-se a mim, Prestes. Juntos poderemos botar um fim no poder desses coronéis que arruínam o Brasil a cada novo dia. Com sua inteligência e minha dissimulação, seremos capazes de assassinar Venceslau Brás e desestruturar a vil oligarquia. E então, irá se juntar a mim? Sei que os odeia tanto quanto eu!

- Você enlouqueceu, Teixeira... Infelizmente, sozinho um homem não é capaz de mudar um país... Por que está fazendo isso?

- Meu pai morreu em Canudos! – exclamou o delegado, arregalando os olhos e encostando o cano da arma em minha testa suada. Estava a um passo de perder por completo o controle, e isso requeria tato da minha parte. – Ele era um dos principais combatentes do arraial, homem de convicções sábias e puras, morto de modo covarde pelas tropas republicanas, que também massacraram mulheres e crianças! Eles não eram rebeldes selvagens como a imprensa e os documentos oficiais pintaram, inspetor, apenas pobres sertanejos lutando por uma vida melhor. Eu farei com que os sonhos dele se tornem realidade!

- Pois não conte comigo.

- Se prefere assim...

Quando Teixeira ia apertar o gatilho, foi derrubado com uma forte pancada nas costas. Veio ao chão num gemido frustrado, enquanto eu o desarmava, fitando o indivíduo que evitara minha morte: o mesmo vigia interrogado por mim mais cedo aquela noite, farda e quepe de cor caqui. Empunhando seu cassetete, o jovem chamou um grupo de policiais para que prendessem o delegado.

- Obrigado – agradeci, um tanto frustrado por ter dependido de força para subjugar o meliante, ou acabaria morto. Era um erro a evitar, da próxima vez. Meu prazer em ver o próprio imbecil se desmascarar poderia ter custado caro, sendo que eu poderia ter exposto antes minhas conclusões.

E em seguida me afastei, sentindo finalmente que o caso estava solucionado. Teixeira não estava de todo errado em seu idealismo, mas agira de forma intolerável. Eu teria me juntado a ele se minha consciência não fosse tão coerente e sagaz quanto a própria Atena – que, mesmo tendo um lado guerreiro, também possuía um bastante sensato. Como diria o bravo marechal Cândido Rondon, "Morrer se preciso for, matar nunca!".

Aplicável a índios, criminosos e poderosos coronéis dos cafezais...

Dec. 5, 2019, 11:54 p.m. 0 Report Embed 1
Read next chapter O Caso do Vaso Chinês

Comment something

Post!
No comments yet. Be the first to say something!
~

Are you enjoying the reading?

Hey! There are still 1 chapters left on this story.
To continue reading, please sign up or log in. For free!