S06#13 - HOMEM SOLTEIRO PROCURA... BABÁ??? Follow story

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O que pode acontecer quando Mulder decide contratar uma babá? Será que ele vai encontrar a babá perfeita, ou a babá perfeita é um Arquivo X? Qualquer semelhança com nomes não terá sido mera coincidência. Aqueles que se cadastraram no fórum do site, vão ter uma surpresa. Não era piada quando eu disse que Mulder procurava candidatas a babá...


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S06#13 - HOMEM SOLTEIRO PROCURA... BABÁ???

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INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

Residência dos Kewnan – Washington D.C. - 12:36 P.M.

Movimento de carros do FBI e da polícia na frente da casa. Agentes armados mirando a residência. O casal Kewnan abraçado. A esposa chora, o marido tenta acalmá-la com carinhos nos cabelos.

A velha mãe do sr. Kewnan, Heidy, uma mulher alta e bem conservada, observa de braços cruzados, com ar de 'eu sabia que ia acontecer'.

Os policiais afastam a multidão que começa a se juntar, com pedaços de paus, barras de ferro e ferramentas nas mãos.

Scully atrás da porta do carro, mirando a arma na porta da casa. Mulder atrás da outra porta do carro, também mirando a arma na casa. As janelas e portas da casa fechadas. Mulder e Scully trocam um olhar. Mulder olha pra casa.

MULDER: - (GRITA) Entregue-se senhorita Barlas! Não tem como escapar! Será melhor pra você se fizer isso!

Nenhuma resposta.

MULDER: - (GRITA) A casa está cercada! Não tem como fugir!

BARLAS: - (GRITA) Estou armada! Eu vou matar todos eles!!!!!

Scully volta a atenção para a multidão aglomerada e olha pra Mulder.

SCULLY: - Mulder...

Mulder vira-se. Vê a multidão que está embolada, olhando com raiva pra casa, pronta para invadir.

MULDER: - Droga!

Mulder entrega a arma pra Scully. Começa a se aproximar pelo jardim. Mãos pra cima. Scully mantém a arma apontada para a casa, atenta a porta e janelas.

MULDER: - (GRITA) Senhorita Barlas, sou o agente Mulder, do FBI. Estou entrando e você vai sair comigo para sua própria segurança!

A multidão começa a gritar: 'Fora polícia!' . Scully olha pra trás, tensa. Krycek aproxima-se agachado, segurando a arma.

KRYCEK: - Os rapazes não vão segurar essa gente por muito tempo. Pedi reforços para outras delegacias.

Mulder chega em frente da porta. Observa. A porta abre-se numa fresta. A babá, com o menino de 3 anos no colo, mantém a faca no pescoço da criança que olha assustado pra Mulder.

BARLAS: -(NERVOSA/ ACUADA) Eles vão me matar!

MULDER: - Vão. Vão esfolar você viva. Por isso venha comigo, terá proteção. Estão aí fora como abutres famintos pela sua carne.

Mulder percebe com o canto dos olhos a bebê que está deitada no chão, choramingando. A irmã de 8 anos ao lado dela.

BARLAS: - E-eu não fiz nada errado! Não quero ser presa!

Mulder mantém os olhos na faca.

MULDER: - Solte o menino, vamos conversar. Estou desarmado. Só quero ajuda-la a sair disso com segurança.

BARLAS: - (CHORANDO) Não entende? Não fiz nada de errado!

MULDER: - Não é meu dever de policial julga-la. Estou aqui para negociar a situação. Meu dever é proteger os cidadãos e agora é você quem está precisando de proteção. Solte o menino. Vem comigo, eu cuidarei de você. Facilite as coisas e se entregue. Você está doente. Precisa de ajuda.

Barlas olha pra Mulder. Balança a cabeça em negação.

BARLAS: - Não! Eu vou matar todos eles! Eu vou! Não entende? Eles me infernizam!

MULDER: - (SORRI) É, eu posso imaginar. Sei como são as crianças.

BARLAS: - Sabe???

MULDER: - (OLHOS NA FACA) Sei, tenho uma filha pequena. Faz muita bagunça.

BARLAS: - Eles não me pagam o que eu mereço, sabia? Eu aturo essas pestes o dia todo! Você me condena por ter que usar de força pra mantê-las caladas?

MULDER: - Claro que não. Uma boa surra faz bem pra educar. Quer ver a foto da minha filha? É um terror!

Mulder leva a mão lentamente até o paletó. Barlas desvia a atenção pra mão de Mulder. Mulder leva a mão rapidamente à mão de Barlas, segurando seu pulso. Ela tenta cortar a criança, mas Mulder segura-a pelo braço. Consegue soltar o menino no chão. Mulder a empurra, forçando a mão dela contra as costas. A faca cai ao chão. Mulder a algema.

MULDER: - Está presa, senhorita Barlas. Tem o direito de ficar calada ou tudo que disser será usado contra você num tribunal...

Mulder a empurra porta à fora. Os policiais correm, fazendo um escudo humano para levar Barlas até o carro. As pessoas querem linchá-la.

Scully entra na casa e examina as crianças. Os pais entram assustados. A velha Heidy entra, apressada e pega a bebê, enchendo-a de beijos. Scully olha pra bebê, num sorriso. Percebe o alfinete de ouro com uma figa, em sua roupinha. A senhora Barlas, aos prantos abraça a filha. O pai toma o menino e aproxima-se de Mulder.

KEWNAN: - Obrigado.

Mulder passa a mão nos cabelos do menino.

MULDER: - (SORRI) Agora tudo está bem, não é?

O menino acena negativamente com a cabeça.

MENINO: - Não. Eles ainda estão debaixo do chão.

Mulder e Scully se entreolham, sem entender nada.

VINHETA DE ABERTURA: A VERDADE ESTÁ LÁ FORA



BLOCO 1:

Arquivos X – 4:27 P.M.

Mulder atento ao fax que chega. Scully entra na sala, com uma pasta.

SCULLY: - Não fizeram perícia alguma no local, alegando que não há necessidade porque nenhum crime de morte aconteceu.

MULDER: - Temos como obter um mandado pra checar a casa?

SCULLY: - (ERGUE A PASTA)

MULDER: - (SORRI) Grande parceira! Sempre na frente de todo mundo.

SCULLY: - Não sorria muito, Mulder. Precisa de aprovação ainda.

Scully coloca a pasta sobre a mesa de Mulder. Pega sua bolsa.

MULDER: - Vai almoçar?

SCULLY: - Não. Eu... Tenho coisas a resolver.

MULDER: - Queria convidar você pra almoçar comigo... Numa boa, sem nenhuma outra intenção.

SCULLY: - Eu... Eu preciso sair mais cedo. Se precisar, me ligue.

MULDER: - ... Tá... Algum problema?

SCULLY: - Não.

Scully sai. Mulder a acompanha com os olhos, preocupado.


6:01 P.M.

Mulder olha pro relógio em seu pulso. Fecha a pasta de papéis. Levanta-se rapidamente. Pega o paletó.

MULDER: - (REVIRANDO OS BOLSOS) Onde coloquei a listinha? Eram lenços umedecidos, leite em pó... Tinha outra coisa...

Kersh entra.

KERSH: - Vai a algum lugar?

MULDER: - Algum problema nisso?

KERSH: - Por que sua parceira pediu um mandado pra revistar a casa dos Kewnan? Homenzinhos verdes?

MULDER: - São cinzas. E não é o caso.

KERSH: - Pedido negado. Não vou deixar que perturbem essa gente sem motivo algum.

Mulder veste o paletó.

KERSH: - O que espera encontrar lá?

MULDER: - Eu não sei. E nem devo satisfações pra você. Meu chefe se chama Walter Skinner e não Alvin Kersh.

KERSH: - Sou o diretor-delegado e deve saber que tudo o que se remete a agentes aqui dentro é da minha conta, agente Mulder.

MULDER: - Então faça o que quiser. Eu tenho outros meios.

KERSH: - Não vai sair agora.

MULDER: - É o fim do meu expediente. Tenho que pegar minha filha.

KERSH: - Não me importam seus problemas pessoais. Vamos discutir a situação da sua parceira, se ela fica ou tira licença. Ao meu ver ela está biruta demais pra sair por aí armada e gritando 'FBI'.

MULDER: - Eu já dei meu parecer clínico sobre isso.

KERSH: - Eu li o seu parecer. E quero saber se, além de se responsabilizar como parceiro dela, ainda vai assinar um termo de compromisso como clínico, se responsabilizando pelas atitudes dela. Já que resolveu repentinamente criar laços com o Conselho de Psicologia alegando que vai clinicar. Acha que vai ter tempo pra isso? Ou pensa em realizar meu sonho e deixar de vez o FBI?

MULDER: - Estou com vontade de voltar a estudar. Algum crime nisso?

KERSH: -Quero o parecer de um profissional atuante e não de um psicólogo teórico de faculdade! Sabe que se ela fizer besteira, é em você que vai estourar. Se ela atirar, matar alguém, ou der algum parecer investigativo errado, é em cima de você que eu e Carter vamos cair. Me entendeu?

Kersh sai. Mulder suspira.

MULDER: -(CANSADO) Só amor demais mesmo, Scully, porque eu já perdi a conta do que estou pagando de pecados em seu nome! Você só me traz preocupações, torna o que não está fácil mais difícil ainda... E eu começo a duvidar que homem algum no mundo passaria pelo que estou passando só por amar uma mulher... Desistiriam de tudo e partiriam pra outra... Bem que eu queria ser assim, seria tudo mais fácil...

Mulder pega o telefone e disca.

MULDER: - (CANSADO) Meg, é Fox... Eu vou me atrasar, pode ficar com Victoria por mais uma hora? ... Sei... É dia de bingo... Tá, Meg, estou indo, chego aí em 20 minutos.

Mulder desliga. Suspira, passando as mãos nos olhos.


Residência dos Mulder – 11:39 P.M.

[Som: Bryan Adams & Melanie C - When You're Gone]

Mulder tira as roupas da máquina de secar. Coloca no cesto. Liga o ferro de passar. Vai pra cozinha. Serve a ração do cachorro e da coelha. Põe no chão. Cookie aproxima-se. Nine também. Mulder vai pra sala. Dá comida pro peixe. Observa a estante empoeirada. Passa o dedo. Faz careta. Volta pra cozinha. Victoria chora. Mulder volta pra sala. Sobe as escadas. O cachorro vira a tigela de ração pela cozinha, brigando com a coelha. A coelha o encara, mexendo o nariz. Cookie sai ganindo pro jardim. Mulder entra com Victoria na cozinha. Victoria meio dormindo. Mulder abre a geladeira e pega a mamadeira. Leva ao fogão. O telefone toca. Mulder solta Victoria na cadeirinha. Atende o telefone, enquanto percebe a sujeira no chão.

MULDER: - Mulder... (INCRÉDULO) Agora??? Eu...

Cookie entra na cozinha, encarando assustado a coelha e deixando um rastro de lama pelo piso. Mulder fecha os olhos, cerrando o pulso.

MULDER: - Eu não posso sair agora, eu não tenho com quem deixar minh... (OLHA PRO TELEFONE) Ele desligou na minha cara?

Victoria ergue a mão e traz o pote de biscoitos até ela. Mulder suspira. Pega os biscoitos.

MULDER: - Nah! Não é hora de biscoitos.

VICTORIA: - Dah!

MULDER: - Não! ... (PÂNICO) Ah meu Deus! O ferro de passar!

Mulder volta correndo pra lavanderia, quase pisa na coelha, dá um salto e acaba esbarrando na porta, caindo ao chão. Victoria olha pra ele, espantada. Mulder tenta se levantar, mas acaba desistindo. Fica deitado no chão, com as mãos no rosto.

MULDER: - Eu vou enlouquecer... Definitivamente eu vou enlouquecer! (PÂNICO) A mamadeira!!!!!


3:33 A.M.

[Som: Bryan Adams & Melanie C - When You're Gone]

Mulder entra em casa, Victoria nos braços dele, dormindo. Mulder se arrasta, passando entre os brinquedos no chão. Sobe as escadas.


8:58 A.M.

[Som: Bryan Adams & Melanie C - When You're Gone]

Mulder se acorda. Olha pra Victoria dormindo. A coelha ao lado dela, o cachorro nos pés da cama. Mulder olha pro relógio. Faz cara de pânico, saltando da cama. Começa a vestir as calças.

MULDER: - Ah meu Deus! Atrasado! Atrasado de novo! Pinguinho, acorda!

Victoria dormindo. Mulder olha apiedado pra ela. Olha pra janela, o vento frio chega a cristalizar as folhas das árvores. Mulder suspira. Começa a procurar uma camisa.

MULDER: - Droga, o que não queimou está amarrotado pra passar! ... Filhinha, me dói o coração, mas... Precisa levantar, tenho que trabalhar. Se eu não fizer isso, quem vai pagar nossas contas?

Victoria senta na cama, esfregando os olhinhos, o corpo pendendo de sono. Ela fecha os olhos, o corpo balança, ela cai dormindo de novo.


FBI - 10:03 A.M.

Mulder entra na sala de reuniões. Vestido de sobretudo, numa calça de jeans justíssima e rasgada, blusão de lã dos Knicks e tênis coloridos. Todos olham pra ele. Skinner puxa os óculos sobre o nariz, pasmo. Carter inclina a cabeça pro lado, estudando as 'formas' do agente. Kersh olha pra Carter, incrédulo. Mulder senta-se.

KERSH: - Então reunião encerrada. Lamento que o agente Mulder tenha chegado com duas horas de atraso.

MULDER: - E-eu tive uns problemas...

KERSH: - Pouco importam os seus problemas, agente Mulder. Todos temos problemas.

Skinner olha pra Mulder. Todos se levantam e saem. Kersh, Carter e Skinner permanecem.

KERSH: - Isso são roupas para um agente do FBI?

MULDER: - Não tive tempo de...

CARTER: - Não quero ser grosseiro, agente Mulder. Mas tenho recebido ligações de pessoas que dizem terem visto você com uma criança aqui o tempo inteiro. Isto vai contra qualquer procedimento de segurança e contra a nossa imagem.

MULDER: - É que...

CARTER: - Não me interessam suas desculpas. Está chegando atrasado, traz a filha pro trabalho quando a agente Scully não está, virou insubordinado e relapso, não participa mais das reuniões e nega-se a cumprir ordens.

MULDER: - Mas como vou sair de casa às 2 da manhã com um bebê?

KERSH: - Problema seu, não nosso. Não vai colocar nossa imagem em risco e uma criança em risco. Sabe das regras de conduta e concordou com elas quando entrou aqui.

MULDER: - Mas é a minha filha! Não tenho com quem deixa-la e...

KERSH: - Problema seu. Não terá segundo aviso.

Carter e Kersh saem da sala. Mulder respira fundo. Skinner se levanta.

SKINNER: - Contrate uma babá, Mulder. Ou vai se acabar desse jeito.

Mulder olha pra ele. Skinner caminha até a porta. Vira-se pra trás.

SKINNER: - Tire o dia de folga, vá lavar as roupas, cuidar da casa e da menina. Eu cubro sua saída.

Mulder olha incrédulo pra ele. Skinner sai, se fazendo de difícil, mas o coração apertado.

MULDER: - (SORRI) ... Girafão... Você tenta, mas não consegue ser indiferente aos problemas dos outros.


Residência dos Mulder – 11:48 A.M.

Mulder na cozinha, olheiras enormes, só com uma camiseta do Bob Marley e uma calça de algodão toda colorida. Pega uma panela e olha o frio lá fora. A pia cheia de louça suja.

MULDER: - Queria uma fada madrinha agora...

Victoria sentada na cadeirinha, mexendo na cesta de frutas. Mulder afasta a cesta de frutas dela. Victoria faz beiço.

Krycek entra pela porta dos fundos, segurando um Mickey de pelúcia. Ao ver Mulder, leva um susto.

KRYCEK: - Você tá com uma aparência horrível! Posso saber por que está usando calças de algodão coloridas e uma camiseta de manga curta do Bob Marley em pleno inverno? Alguma coisa como 'Jamaica abaixo de zero'?

MULDER: - Ainda não tive tempo de lavar a roupa. (OLHANDO PRO MICKEY) O que é isso?

KRYCEK: -Não reconhece o símbolo maior do seu país capitalista? Oi, Scullyzinha! Trouxe o Mickey pra você. Todo americano tem que ter um Mickey Mouse na infância.

MULDER: - Não mesmo! Não quero minha filha tendo contato com ratos de nenhuma espécie! Nem de pelúcia!

Krycek entrega o boneco. Victoria abre um sorriso, abraçando o boneco.

KRYCEK: - (DEBOCHADO) Ela gosta de ratinhos.

MULDER: - É. Vai fazer um ratinho pra você e deixa a minha filha em paz!

KRYCEK: - Pra fazer um filho precisa de uma mulher, Mulder. Esqueceu? Conhece alguma interessante e que não pense que eu sou gay?

MULDER: - Eu já disse pra ir até lá e mostrar que você não é gay. Olha, Rato... Eu amo a minha mulher, mas você o que te prende? Ahn? Se eu não amasse a Scully, não estaria nessa seca! Eu estaria aprontando por aí... É, me chame de idiota fiel.

Mulder começa a descascar legumes. Krycek pega o celular e observa.

KRYCEK: - O Delegado "Chuck" Norris não para de encher meu saco... Mulder, eu não vou chamar você de idiota fiel. Mas estou curioso. Como você se contém? Como funciona isso na cabeça de um cara casado?

MULDER: - Respeito, eu acho. Amor... Sei lá. Eu penso que não tenho o direito de fazer isso com ela, que nunca fez comigo. Pelo menos você disse que não!

KRYCEK: - Pode ficar tranquilo. Não tem nada entre ela e eu. Só na cabeça dela... Mulder, e se você aprontasse sem ela saber? Conseguiria?

MULDER: - Não. Eu não consigo mentir pra Scully. Eu me sentiria culpado por mentir ou omitir uma coisa dessas. Por que a pergunta? Vai me emprestar sua agenda para o fim de semana?

Victoria observa os dois sem eles perceberem.

KRYCEK: - Se fosse pra outro cara sim. Pra você não... Mulder, já juntou as roupas sujas?

MULDER: - Já. Depois vou colocar na máquina. Primeiro o almoço da Pinguinho.

Krycek vê o cesto de roupa. Pega e vai pra lavanderia.

MULDER: -O que tem de errado comigo? Não estou à altura das suas amiguinhas?

KRYCEK: -Você e Scully são meus amigos. Não quero a desgraça de vocês. Não vou incentivar você a trair minha amiga num momento desses. E nem vou usar da fragilidade e da confusão mental da Scully pra me aproveitar dela e trair o meu amigo. Não sou esse tipo de canalha!

Som da máquina ligando. Krycek volta pra cozinha.

MULDER: - Krycek... Eu julguei você erroneamente. Desculpe por isso.

KRYCEK: - Não peça desculpas. Nosso passado nos condena... Se eu estivesse no seu lugar também ficaria desconfiado... Mulder, você se apaixonou por alguém que também se apaixonou por você, e isso é algo louvável, pois é muito difícil encontrar a pessoa certa. E você já foi solteiro. Sabe que a farra um dia cansa.

MULDER: -(INCRÉDULO) Sério? Sexo pode cansar um homem? Ser livre e sair com quem quiser, transar com mulheres diferentes toda a semana?Seu Rato infeliz e desgraçado, por que não ficou meu amigo quando eu ainda era solteiro e podia aproveitar essa sua agenda?

KRYCEK: -Mulder, você é meio inexperiente com essas coisas, não é? Acho que passou sua vida atrás de discos voadores ao invés de calcinhas. Tudo bem, não estou criticando. É que chega um ponto que isso perde a graça. Não tem mais nada além de pele, envolvimento passageiro... Você não sabe quem é a pessoa, ela não sabe quem você é. Sei lá... Ah, estou na crise dos 40! Não quero morrer sozinho!

Mulder pega a aveia do armário.

MULDER: - Sabe de uma coisa? Eu pensei o mesmo que você quando percebi o vazio da minha vida de solteiro: Não quero morrer sozinho... Acho que isso é o que soa na sua cabeça quando finalmente percebe que a vida está passando e você passando com a vida. E o relógio corre... É uma verdade incontestável: Mais cedo ou mais tarde, você cansa de chegar em casa e não ter com quem conversar. Cansa de estar sozinho. Isso não é da natureza humana.

KRYCEK: -Agora você está me entendendo. Chega um ponto na vida que toda a sua concepção de felicidade e estilo de vida mudam... Mulder, você está com a Scully há muitos anos, então não sabe mais como está o mercado aí fora. Acredite, bem difícil! Tem mulheres que só querem sexo sem compromisso. Outras querem você só pra sexo casual porque preferem viver com outra mulher. Tem as que não querem homem pra nada, só querem mulheres. E tem as mães profissionais.

MULDER: - Que droga é essa?

KRYCEK: - Aquelas que juram amor, ficam com você até engravidar e depois querem metade dos seus bens e uma pensão. Elas sobrevivem tendo filhos e pensão de cada otário que agarram. E tem as que já tem filhos, ficam um tempo com você pra criar os filhos delas, criar um vínculo entre você e as crianças que não são suas, e depois vai embora levando metade do que você tem e você paga pensão eterna pra filhos emocionais. Se não pagar, vai em cana. Filho emocional ou sanguíneo pra lei é a mesma coisa.

MULDER: - (INCRÉDULO)E o feminismo? A coisa dos direitos iguais...

KRYCEK: - Que feminismo?

MULDER: -(PÂNICO) A coisa tá tão feia assim lá fora?

KRYCEK: - Somos uma espécie em extinção, Mulder. Já não servimos mais pra sexo, tem toda a espécie de vibrador na prateleira. Daqui um tempo não serviremos nem pra fazer filho! E tem as que só querem você de acordo com o seu bolso e o seu carro. Esse tipo é velho... Lute pela sua mulher, porque mulher de verdade também está em extinção. Sabe aquela que cuida do marido, dos filhos, aquela que ajuda você a construir uma vida, um lar, se preocupa com você, não fica ofendida em você abrir a porta do carro, dar flores e pagar a conta do restaurante... É, se souber onde tem uma que acredita nisso, me apresenta. Acho que as mulheres viraram homens. Perderam a graça de serem mulheres. Tem mulher que dorme com você e você até pensa se realmente é mulher, porque parece um homem casado fugindo da casa da amante deixando você sem um bom dia ou pelo menos um "valeu a noite, cara".

Mulder desvia a atenção para Victoria que observa os dois atenta no assunto.

MULDER: - Ô parabólica, desconecta, ok? É assunto de homem e de adulto!

KRYCEK: - Acha que ela entende o que a gente fala?

MULDER: - Eu acho que tudo não, mas se entende pelo menos está vendo que o pai dela tem caráter e descobrindo que homens também sofrem... Não tá fácil criar um filho nos dias de hoje. Por hora tá tranquilo, mas deixa ela crescer... Aí você vai me ver com olheiras maiores!

Krycek abre a máquina de lavar louça.

MULDER: - Estragou. Não tive tempo pra arrumar. Rato, você não precisa me ajudar... (DEBOCHADO) Não leva a sério o meu pedido de casamento.

KRYCEK: - Vá se danar, Mulder!Prefiro ajudar você com essa bagunça a ficar sentado naquela delegacia criando calo no traseiro, pagando castigo pro Norris só porque deixei escapar meia dúzia da máfia chinesa. E confesso, nunca apanhei tanto na vida! Aqueles caras sabem bater. Eu deveria ter aprendido artes marciais. Agora é tarde. Se tentar isso vou acabar com a minha coluna ferrada!

Mulder começa a rir. Krycek tira a jaqueta, arregaça as mangas e começa a lavar a louça.

KRYCEK: - Hum, o que está saindo de bom aí, velho ranzinza?

MULDER: - Sopa de legumes com aveia. Diga em voz alta que é a oitava maravilha do mundo, ou a ferinha ali vai fazer cara feia e querer pizza.

KRYCEK: - Victoria deve comer isso, mas você?

MULDER: - Faço pra ela, eu almoço fora. E tem comida congelada se não dá tempo.

KRYCEK: -Sabe a babá que você prendeu? Tem tudo pra pegar perpétua. Os exames nas crianças indicaram lesões graves. O bebê é o que está pior. Mas achei errado o fato dos pais terem desconfiado e ido fazer queixa juntos, deixando a babá sozinha na casa com as crianças. Podia ter dado mais desgraça ainda... Felizmente, acabou tudo bem.

Victoria leva a mão pra alcançar as frutas. Mulder afasta de novo.

MULDER: - Pra você ver como as pessoas não tem mais amor umas pelas outras. Você tem que trabalhar, paga alguém pra tomar conta dos seus filhos e tem que ficar o dia todo preocupado se as crianças estão bem. Olha o ponto a que chegamos de ter que deixar câmeras escondidas pela casa porque não confiamos nossos filhos com a babá, que deveria ser a segunda mãe deles. No meu tempo as babás eram como aquelas mãezonas, sabe?

KRYCEK: -É... Mas faz muito tempo que a pré-história acabou, Mulder.

VICTORIA: - (GRITA) Dah!!!!!!!!!

MULDER: - Não, está na hora do almoço!

VICTORIA: - (FAZ BEIÇO) Nah é a mama!!!

Krycek olha pra ela e começa a rir. Mulder pega Victoria.

MULDER: - Vou cortar a Família Dinossauro do seu guia de programação, mocinha. Eu sei que não sou a mamãe.

VICTORIA: - (RINDO) Nah é a mama!!!!!!! Nah é a mama!!!!!

Mulder vai pra sala e a coloca no cercadinho. Volta pra cozinha. Krycek continua lavando a louça.

MULDER: - TV... Olha o que a TV faz com as crianças... Essa menina não é uma criança, é uma antena parabólica! O pior é que descobriu o meu celular! Geração infeliz da tecnologia. Nem sabe falar e já quer mexer em celular! Mas eu vou dar conta. Eu consigo. Eu vou conseguir.

KRYCEK: - Não vai conseguir nunca, sabe por quê? Porque você é homem. Admita, Mulder. Nós não nascemos pra isso! Homens são incompatíveis com tarefas domésticas, trabalho e maternidade tudo ao mesmo tempo. Temos que ser sinceros e dizer que não temos neurônios pra isso. Elas nos ganham de virada!

MULDER: - Eu consigo. Eu posso.

Krycek termina de lavar a louça. Puxa a cadeira e senta.

KRYCEK: - Mulder, você tá se saindo um ótimo pai. Mas não tá conseguindo ser dona de casa, pai e agente do FBI ao mesmo tempo.

MULDER: - Entendo o que Scully queria dizer com 'estou doida'.

KRYCEK: - Mulder, relaxa. Contrate uma babá, uma empregada.

MULDER: - Já coloquei um anúncio através de uma agência, mas não tenho coragem. Olha pra ela, como vou deixa-la nas mãos de uma estranha? Em quem vou confiar? Além do medo de deixa-la com alguém que pode machucá-la, ainda tenho medo de alguém do Sindicato infiltrado!

KRYCEK: - E se Scully não voltar? Vai viver sozinho o resto da vida?

MULDER: - (REVOLTADO) Vou! Chega de mulher! Já cansei, todas são iguais! E agora você me assustou mais ainda! Estou com alergia de mulher! Me coço todo só de imaginar uma! Estou tão indignado com essa raça que eu não quero saber de mulher nem na minha cama! Eu vou me tornar monge, vou fazer votos de abstinência sexual... Ou vou voltar a comprar minhas revistas.

Krycek acena negativamente com a cabeça. Mulder coloca a panela no fogo. Krycek observa, incrédulo, a maçã que levita da mesa pra sala. Vê Victoria com a mão estendida pegar a maçã. Krycek olha pra Mulder e segura o riso.

KRYCEK: - Mulder, Mulder... Não vai ser fácil. Pode ficar o resto da vida desse jeito aí. Se Scully se curar e não quiser voltar pra você, vai ficar sozinho? Acha justo isso com você?

MULDER: - Questão de precaução. E ela vai voltar pra mim. Nós nos merecemos. Scully é uma vaca e eu sou um touro.

KRYCEK: - Se você está falando que é um touro não sei de nada. Não fui eu quem ajudou nos seus chifres, já disse.

MULDER: - Mesmo que não tenha acontecido, você não gostaria que uma mulher trocasse o seu nome no meio do 'faz-me rir'. Bom... Tá certo... Afinal o nome Mulder é muito parecido com Alex mesmo. Dá pra se confundir.

Krycek se levanta, segurando o riso. Pega a jaqueta.

KRYCEK: -Coragem Mulder. Você já enfrentou coisas bem piores. Depois te ajudo com a máquina de lavar louça... Vou trabalhar antes que tome outra suspensão.

MULDER: - Alienígenas, conspiração, demônios e monstros são bem menos assustadores que ser dona de casa.

KRYCEK: - Se quiser, eu caso com você. Você toma conta da casa e da criança... Mas sabe as regras. Eu sou o homem. E você precisa aprender a cozinhar algo melhor que sopa de legumes com aveia. Isso não segura marido.

Mulder atira uma batata em Krycek que sai correndo pela porta. Volta a atenção pra panela. Para, desconfiado. Vira-se rapidamente pra trás. Percebe o pote de biscoitos flutuar pra sala.

MULDER: - (GRITA) Victoria Mulder!!!!!!!! Não me teste! Não abuse da minha paciência!

O pote volta pro lugar. Mulder volta a atenção pra panela.


1:24 P.M.

Mulder olha pra Victoria brincando. Olha pro telefone. Olha pra sala, cheia de pó. Olha pro telefone. Pega-o. Disca.

DANI (OFF): - Agência de babás e domésticas D.A.N.I. Se você está precisando de uma babá aperte a tecla 1. Se está precisando de uma doméstica, aperte a tecla 2. Se precisa de outro profissional, desligue.

Mulder olha incrédulo pro telefone. Aperta a tecla 1.

DANI (OFF): -Se você já tem cadastro conosco, digite a tecla 1. Se não tem cadas...

MULDER: - (INDIGNADO) Puta que me pariu mesmo! Eu vou ficar apertando tecla o dia todo aqui????

Mulder aperta a tecla 1.

DANI (OFF): - Se você é do estado da Virgínia, tecle 1. Se for de outro estado tec...

Mulder aperta o 1 com raiva.

DANI (OFF): -Aguarde que sua ligação está sendo encaminhada para um de nossos atendentes. Obrigado por sua ligação. Você é muito especial para nós.

MULDER: - Meu dinheiro é especial, você quer dizer.

DANI (OFF): -Dicas para tornar sua vida mais feliz...

MULDER: - Ah meu Deus! Quanto tempo vou ficar pendurado aqui ouvindo musiquinha e dicas pra me tornar mais feliz??? Eu não estou feliz com isso!!!

BIRA (OFF): - Agência D.A.N.I. Em que posso ajuda-lo?

MULDER: - Meu nome é Fox Mulder. Fiz um cadastro com vocês procurando uma babá. Vocês me ligaram, mas não dei retorno. Preciso de uma babá pra ontem.

BIRA (OFF): -Um momento, por favor.

MULDER: - (SUSPIRA) Começou... Mais musiquinha...

DANI (OFF): -Boa tarde, senhor Mulder! Que bom que tenha nos ligado.

MULDER: - Preciso de uma babá. Mas nas condições que combinamos. Eu quero fazer a entrevista.

DANI (OFF): -Temos psicólogos especializados e...

MULDER: - Eu sou psicólogo e as condições são estas. Expliquei que minha filha tem necessidades especiais e não pode ser qualquer pessoa pra cuidar dela.

DANI (OFF): -Sua filha é... Bem, ela... É uma criança com necessidades especiais...

MULDER: - Ela não é retardada se é isso o que quer saber. Ela só é esperta demais pra idade. E precisa de alguém muito especial pra lidar com ela.

Mulder observa Victoria que brinca com a TV, olhando apenas para a tela. Ela desliga e liga a TV usando a mente e achando graça naquilo, a risadas altas.

DANI (OFF): -Bem, tenho uma lista que elaborei para o senhor, com profissionais muito dedicadas mesmo. Vou mandar uma delas até sua casa hoje. Tenho certeza que gostará muito dela.


2:38 P.M.

Mulder abre a porta. Olha pra baixo. Vai erguendo a cabeça, boquiaberto, percorrendo as pernas, os peitos enormes no uniforme de babá, os cabelos louros e o sorriso da jovem.

DEIA: - Senhor Mulder? Sou a babá.

MULDER: - (CATATÔNICO) ...

DEIA: -Posso entrar?

MULDER: - (CATATÔNICO) Deve...

Déia entra, pisando leve com os saltos e requebrando os quadris. Mulder, distraído com a moça fecha a porta nos dedos. Segura o grito. Leva os dedos à boca, morrendo de dor. Déia olha pra Victoria, que a encara séria, enquanto brinca.

DEIA: - Oh, que gracinha! É ela de quem devo tomar conta?

MULDER: - (CATATÔNICO) Acho melhor... Você tomar conta do pai dela...

Victoria olha pra Mulder num daqueles beiços de Scully. Olha pra Déia. Déia se agacha. Aperta a bochecha de Victoria.

DEIA: - Oh que neném mais fofo! Olá neném?

VICTORIA: - ... Nahhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!!!

Déia se aproxima de Mulder.

DEIA: - Bem, eu cuido dela e faço todo o serviço.

MULDER: - (SACANA) Todo???

DEIA: - Sim e posso morar no serviço.

MULDER: - (MEIO TAPADO) Ahn???

Déia zanza pela sala, observando a casa.

MULDER: - (PRA SI MESMO) Isso não vai dar certo... Ah não vai... Eu tô sofrendo! Eu tô na secura há meses, isso não vai dar certo...

DEIA: - Ela ainda mama?

MULDER: - (OLHANDO PROS PEITOS DELA) ... Sim... Quer d-dizer, não...

DEIA: - Bem, eu posso cuidar de tudo aqui pra você, enquanto estiver trabalhando. Leu meu currículo?

MULDER: - ... E precisa??? Er... Bem, eu... Eu acho seu currículo muito apreciável.

DEIA: - Ahn??

MULDER: - Olha, me dá um minutinho, eu... Eu preciso falar com a minha filha. Pode me esperar na cozinha?

Déia vai pra cozinha. Mulder se agacha e olha pra Victoria que está irritada e de beiço.

MULDER: - Pinguinho, por que não gostou da moça? Eu gostei.

VICTORIA: - (IRRITADA)Nahhhhhh!!!!

MULDER: - Ela é...

VICTORIA: - (IRRITADA) Nahhhhh! Obo! Ox obo! Naaaaaaaaahhhhhh!!!!!!!!!!!! Nah é a mama!

MULDER: - Pinguinho, eu sei que ela não é a mamãe, mas precisamos de alguém pra ficar com você, enquanto papai trabalha.

VICTORIA: - Nahhhhhhhh!!!!!!!!!!!

MULDER: - Ela é uma moça legal.

VICTORIA: - Nahhhhhhhhh! Ox obo!

Mulder suspira.

MULDER: - Tem razão, Pinguinho. Não vai dar certo. Seu pai vai fazer besteira. A oportunidade faz o criminoso...

Mulder se levanta. Olha pra Déia. Déia volta pra sala.

MULDER: - Andréia, não é?

DEIA: - Sim.

MULDER: - Lamento muito, mas... Você não se encaixa no perfil que eu preciso.

DEIA: - Não tenho os requisitos que você necessita, é isso?

MULDER: - Olha, pra dizer a verdade... (DEBOCHADO) Você tem todos os requisitos do que eu mais necessito no momento, mas...

Victoria irritada ergue a mãozinha e aponta pra porta. A porta se abre sozinha. Déia olha pra porta. Mulder põe as mãos na cabeça. As portas da casa e as janelas começam a abrir e fechar em sequência. Déia sai correndo apavorada gritando "fantasma!"


3:14 P.M.

Mulder atravessa a sala com uma porção de papéis na mão. Abre a porta. Olha assustado pra Joan, em um tailleur sóbrio, óculos, cabelos presos e um crucifixo enorme no pescoço. Segura um guarda-chuva na mão. Mulder olha pros papéis.

MULDER: - Ahn... Você é a... Joan?

JOAN: - Sim.

MULDER: - Entre.

Joan entra, olhando tudo.

JOAN: - Precisa de um toque feminino por aqui, senhor Mulder. Está horrível!

MULDER: - É, concordo... Você é babá há muito tempo?

JOAN: - Sim. Sou a pessoa que o senhor precisa.

Victoria espia Joan, de trás do sofá, olhos assustados.

MULDER: - Bem, pode me contar com suas palavras a sua experiência como babá...

JOAN: - Na base da educação tradicional. (BATE O GUARDA-CHUVA NO CHÃO) Crianças devem ser obedientes, quietas e prestativas. E acima de tudo, serem religiosas!

Victoria se encolhe atrás do sofá. Mulder olha pra Joan, observando as pernas dela.

MULDER: - Sei... Ahn, você foi criada em escola de freiras?

JOAN: - Sim, tive educação tradicional e religiosa.

MULDER: - (SAFADO) É, eu... Eu conheço bem as garotas criadas em escolas católicas... São... Confiáveis. Mas... Joan, eu acho que...

Mulder olha pra Victoria que está assustada.

MULDER: - Eu não sei se você se encaixa no perfil do que eu preciso. Minha filha é... Uma criança diferente.

JOAN: - Garanto que não irá se arrepender de me contratar, senhor Mulder. Sua filha precisa da melhor educação que o senhor puder dar a ela.

MULDER: - É, eu sei... Quer um chá?

JOAN: - Aceito.

Mulder vai pra cozinha. Joan observa a sala. Então olha pra Victoria escondida atrás do sofá.

JOAN: - (SORRI) Olá garotinha! Vem com a titia, vem!

Victoria sai engatinhando a mil pela sala, fugindo dela.

JOAN: - Que menininha mais mal educada!

VICTORIA: - Nahhhhhhhhhh!!!!!!!!

JOAN: - É sim!!!

Victoria ergue a mãozinha. Os livros começam a voar pra fora da estante e a flutuar como pássaros de asas abertas, na frente da assustada Joan, que faz o sinal da cruz, arrepiada.

JOAN: - O demônio!!!!!!! O demônio está aqui! Xô Satanás!!!! Xô!!! Sangue de Jesus tem poder! Sangue de Jesus tem poder!!!!

Joan sai correndo aos gritos pra fora da casa. Mulder entra na sala. Tudo normal, os livros no lugar. Mulder olha sério pra Victoria.

MULDER: - O que fez com a moça?

VICTORIA: - (CARA DE SANTINHA) ...

MULDER: - Ok, 'Sabrina'. Também concordo que ela não era o tipo certo pra cuidar de você. Mas não precisava assustar a mulher desse jeito!



BLOCO 2:

4:31 P.M.

Mulder abre a porta. Krycek parado ali.

MULDER: - (DEBOCHADO) A agência mandou você também? Lamento, macho aqui dentro só eu e o cachorro. E sem sexo definido já tem o peixe.

KRYCEK: - As crianças dos Kewnan foram agredidas de novo.

MULDER: - (INCRÉDULO) O quê?

KRYCEK: - O bebê deu entrada no hospital com asfixia. Prendemos os pais, mas não podemos mantê-los presos sem provas. Mulder, o caso passou pra vocês federais. Scully está na delegacia e você precisa ir pra lá também.

MULDER: - Essa agora... Mas com quem vou deixar Victoria??? Entra aí. Eu tô no telefone.

Krycek entra. Mulder pega o telefone.

MULDER: - (IRRITADO) Não, senhorita Dani! Não me mande mais nenhuma babá crente ou gostosona. Eu quero uma pessoa divertida, não séria. Sem religião definida. E também não quero nenhuma Pamela Anderson! Eu quero uma pessoa comum!

Krycek olha pra Mulder. Mulder desliga.

MULDER: - Você não imagina que dificuldade pra arrumar uma babá.

KRYCEK: - Tem o endereço da agência? Acho que vou contratar uma dessas pra mim...

A campainha toca. Mulder atende. Darliene parada, mascando chicletes, vestida num uniforme colegial.

DARLIENE: - Oi, Fox! E aí, tudo em cima?

MULDER: - (INCRÉDULO) Você é a Darliene?

DARLIENE: - Correto. Onde está a menina?

MULDER: - (PÂNICO) ... Só uma pergunta, você é maior de idade???

Darliene entra. Mulder olha pra Krycek, que fica sem tirar os olhos de Darliene. Darliene se aproxima de Victoria.

DARLIENE: - Ah, que gracinha! Qual o nome dela?

KRYCEK: - (SE ADIANTA/ SACANA) Victoria. Gostou? Fui em quem fiz. Posso fazer outra.

Mulder empurra Krycek, indignado.

MULDER: - Darliene, há quanto tempo cuida de crianças?

DARLIENE: - Olha, Fox, eu cuido de crianças há bastante tempo, mas tenho que dizer que estudo e não posso cumprir horário integral.

MULDER: - Certo. Estuda à noite?

DARLIENE: - Não, durante o dia.

KRYCEK: - (EMPOLGADO) Onde?

Mulder empurra Krycek. Olha pra ele o censurando.

MULDER: - O problema, Darliene, é que eu preciso de alguém pra cuidar dela durante o dia. E preciso de alguém com experiência.

KRYCEK: - Eu também preciso de uma babá, mas pode ser no turno da noite. Nem precisa experiência alguma, eu ensino a função...

Mulder se põe na frente de Krycek. Victoria olha pra Darliene, num beiço.

VICTORIA: - Naaaahhhhhhhhhhh!!!!!!!!

MULDER: - Pinguinho, não começa! E ai de você se... Se fizer aquelas coisas, tá? Vamos conversar de pertinho.

Victoria faz beiço. Mulder olha pra Darliene.

MULDER: - Vou fazer algumas perguntas pra você, Darliene. Não se ofenda, porque eu amo muito a minha filha e me preocupo com quem vai tomar conta dela.


7:46 P.M.

Krycek dirige o carro. Mulder ao lado dele.

MULDER: - Mesmo assim, ainda tô preocupado. Não gosto de ficar longe da Pinguinho...

KRYCEK: - Acalme-se Mulder... Victoria vai ficar bem com a Darliene. Se você contratar a colegial sexy saída de um mangá, eu vou visitar você todo o dia!

MULDER: - Não, porque eu preciso de alguém pro dia todo. A noite é o de menos. Mas ainda bem que ela topou ficar com Victoria esta noite. "Tio" Krycek é bom de lábia...

Mulder estaciona o carro na frente da delegacia. Desce. Krycek o segue. Scully ao ver os dois juntos, se surpreende.

SCULLY: - (DESCONFIADA) O que os dois fazem juntos?

KRYCEK: - Não gosta de ver seus dois homens juntos? Em paz? Hum? A gente fez as pazes. Pode ficar tranquila. Não vamos mais brigar.

Scully se afasta, sorrindo. Mulder olha pra Krycek e o belisca.

MULDER: - Você tá adorando tirar sarro da minha cara, né, Rato? Pega leve ou vai aparecer com a boca cheia de formiga.

KRYCEK: - Mas ratos não gostam de formigas. Ratos gostam de queijo.

MULDER: - Tente comer a mussarela da minha mulher e eu corto o seu gorgonzola fora!

Krycek começa a rir. Os dois entram na delegacia.


8:11 P.M.

Scully anda pela sala. Mulder parado, observa Kewnan sentado. Pensamento distante. Kewnan com o paletó meio amassado, a gravata aberta, fisionomia cansada.

SCULLY: - Tem certeza absoluta de que sua esposa...

KEWNAN: - Nem eu, nem minha esposa tocamos um dedo nas crianças! Sei bem o que querem insinuar! Eu vim até aqui, preocupado com manchas roxas nas crianças, vocês vão investigar e a babá faz meus filhos de reféns! Vocês viram, ela admitiu ter espancado as crianças!!!!! Querem prova maior do que o que aconteceu?

SCULLY: - E como explica que seu bebê de 1 ano deu entrada no hospital com insuficiência respiratória?

KEWNAN: - Eu não sei! Rachel simplesmente começou a chorar, eu me levantei e ela estava ficando roxa! Minha esposa estava dormindo ao meu lado! Não havia mais ninguém na casa!

Scully apoia as mãos na mesa. Olha fixamente pra ele.

SCULLY: - Sr. Kewnan, criança nenhuma na idade de 1 ano se asfixia sozinha no berço. Não com essa idade. Conheço muitos relatos de pais que se desfazem dos filhos porque eles 'choram muito'.

KEWNAN: - Está me ofendendo, agente Scully!!!! Eu nunca toquei um dedo nos meus filhos!!!

MULDER: - Eu acredito nele.

Scully olha pra Mulder.

MULDER: - É um pai que rala o dia todo pra dar o melhor pros filhos. Basta ver a roupa dele. Nem tirou a roupa do trabalho. Não é um crápula violento que faria isso com criança alguma.

SCULLY: - Como pode confiar em alguém que desconhece?

MULDER: - Porque eu posso ver nos olhos dele que ele não é o que você está pensando.

SCULLY: - Ótimo! Me conteste na frente do acusado!

Scully sai furiosa da sala. Kewnan olha pra Mulder, em lágrimas.

KEWNAN: - Eu não tenho como explicar porque os médicos disseram que minha filha foi sufocada... Eu só agradeço a Deus por ela estar bem e por você acreditar em mim.

Mulder sai da sala. Puxa o celular. Aperta uma tecla. Aguarda. Aguarda.

MULDER: - Ocupado???

Mulder volta pra sala de interrogatórios.


9:49 P.M.

Mulder anda de um lado pra outro, nervoso, olhando para o celular. Scully olha pra Sra. Kewnan.

SCULLY: - Sua filha caçula não tem nenhuma doença respiratória em nenhum registro pediátrico. Não havia nenhum tipo de material estranho bloqueando as vias respiratórias, o que é causa comum em crianças, por colocarem objetos nas narinas.

SRA. KEWNAN: - É mãe, agente Scully?

Mulder olha pra Scully.

SCULLY: - Sim, sou mãe.

Mulder sorri.

SRA. KEWNAN: - Então sabe o que uma mãe faz por um filho. Você abandonaria seu filho? Você por acaso iria dormir sabendo que ele está doente? Não, não é mesmo?

Scully se cala.

SRA. KEWNAN: - Como você é mãe, eu também sou. E se minha filha estivesse doente, eu passaria a noite ao lado dela! Portanto, Rachel não estava doente, não havia ninguém mais na casa, e eu jamais tocaria um dedo na minha filha, quanto mais sufocá-la!

Mulder sai da sala. Pega o celular. Disca.

MULDER: - (INCRÉDULO) Ainda ocupado?

Mulder desliga. Pega o telefone da mesa do delegado. A policial olha pra ele.

MULDER: - Posso ligar pra companhia telefônica? Acho que o telefone da minha casa está com problemas e tô preocupado com a minha filha.

A policial consente com a cabeça.

Corte.


[Som: Bryan Adams & Melanie C - When You're Gone]

Casa de Mulder. Na sala, Darliene deitada de bruços no sofá, mexendo as pernas e falando ao telefone.

DARLIENE: - Não! Imagina! Aí sabe o que eu fiz??? Eu disse umas boas verdades na cara dele. Ele tava merecendo. Ah, mas deixa te contar! Saí com o Edgar ontem! ... Claro! Menina, mas ele beija tão bem!!!!!!

Corta pra Victoria, dentro do cercadinho, rosto sujo de chocolate, olhando pra Darliene. Victoria começa a chorar.

DARLIENE: - Só um minutinho, Cris! (OLHA PRA VICTORIA) O que você quer neném?

VICTORIA: - Dada!

DARLIENE: - Tá com fome ainda? Nossa, como essa criança come!... Cris, só um minuto, vou dar mais chocolate pro neném e já falamos. Preciso te contar o que aconteceu com a Sandra! Sim, a Sandra! Você nem imagina que...


Residência dos Mulder - 10:16 P.M.

Mulder retira o dinheiro da carteira e entrega pra Darliene. Olha pra ela invocado. Darliene pega o dinheiro.

DARLIENE: - Quando precisar...

Mulder acompanha Darliene com os olhos, irritado. Darliene sai. Mulder olha pra Victoria toda lambuzada de chocolate até nos cabelos. Victoria olha assustada pra Mulder. Mulder enfurecido pega o telefone. Disca. Victoria põe as mãos no rosto.

DANI (OFF): - Agência de babás e domésticas D.A.N.I. Se você está precisando de uma babá aperte a tecla 1. Se está precisando de uma doméstica, aperte a tecla 2. Se precisa de outro profissional, desligue.

Mulder começa a rosnar. Victoria o espia por entre os dedinhos.

DANI (OFF): -Se você já tem cadastro conosco, digite a tecla 1. Se...

Mulder digita com raiva a tecla 1.

DANI (OFF): - Se você é do estado da...

Mulder aperta o 1 com mais raiva ainda.

DANI (OFF): -Aguarde que sua ligação está sendo encaminhada para um de nossos atendentes. Obrigado por sua ligação. Você é muito especial para nós.

Mulder rosnando, quase virando Jack Nicholson em "O Iluminado".

DANI (OFF): -Dicas para tornar sua vida mais feliz...

Mulder ficando vermelho de raiva.

MULDER: -(GRITA OLHANDO PRO FONE) Eu vou mostrar o quanto eu vou ficar feliz quando esganar vocês!!!

A campainha toca. Mulder olha incrédulo pra porta. Olha pro telefone. Desliga, num suspiro. Vai até a porta e a abre. Dana, traços orientais, de mochila nas costas, olha pra ele.

DANA: - Oi, sou Dana. A agência me mandou.

MULDER: - Dana???

DANA: - Sim.

MULDER: - (INCRÉDULO) Seu nome é Dana???

DANA: - Algum problema?

MULDER: - Por que não se chama Yoko? Mae? Akiko? Hanako? Até Sarah Lee?

DANA: - Como vou saber?

MULDER: - Lamento, mas nenhuma Dana entra mais nessa casa! Todas as Danas cheiram a problema!

Dana se encolhe assustada. Mulder fecha a porta na cara dela.

MULDER: -(IRRITADO) Dana... Não, mais uma não!!!!! Nem em versão japonesa!


10:19 P.M.

[Som: Bryan Adams & Melanie C - When You're Gone]

Mulder, quase chorando, segura o telefone contra a orelha.

DANI (OFF): - Aguarde que sua ligação está sendo encaminhada para um de nossos atendentes. Obrigado por sua ligação. Você é muito especial para nós... Dicas para tornar sua vida mais feliz.

MULDER: - (DESESPERADO) Eu tô sofrendo!!!!!! Buaaaaa!!!!!!!!!!!

Victoria olha apiedada pra Mulder. Cookie se esfrega nas pernas de Mulder, tentando consola-lo.


Agência D.A.N.I. – 10:23 P.M.

Dani, só de lingerie e cintas liga, cabelos revirados, sentada sobre a escrivaninha, falando ao telefone.

DANI: - Hum... Sério??? Você tá só de meias como eu gosto??? Hum??? Ai, espera aí que tem uma ligação aguardando. Já volto loguinho pra gente terminar nossa conversinha noturna... Não desliga!

Dani aperta outra tecla do telefone.

DANI: - Boa noite, agênc...

MULDER (OFF): - (ENFURECIDO) Eu contratei vocês pra quê? Ahn? Não podem simplesmente me mandar uma babá? Não quero nenhum símbolo sexual, nenhuma crente, nenhuma Maria tagarela e nenhuma DANA!!!! Eu quero uma babá!

DANI: - É o senhor Mul...

MULDER (OFF): -É o senhor Mulder sim!

DANI: - Dana não foi do seu agrado???

MULDER (OFF): -Não! Não quero ninguém que se chame Dana dentro da minha casa! Ou quem se 'dana' sou eu!

DANI: - Certo... E Darliene, não foi do seu agrado?

MULDER (OFF): - Não, porque ela fala demais e eu não sou sócio da companhia telefônica!

DANI: - Mandarei outra candidata amanhã cedo.

MULDER (OFF): -E tem que ser antes das oito porque eu tenho que trabalhar! E espero que dessa vez me mande alguém mesmo! Não um bando de doidas! Onde você contratou suas babás? Ahn? No "fórum de um site de fanfics" na internet?

DANI: - (SE CALA) ... Er... Ahn... Pode deixar, senhor Mulder. Não descansarei enquanto não encontrar a babá perfeita pra sua filha.

MULDER (OFF): -Eu é que não vou deixar você descansar se não fizer isso!

DANI: - Se ajuda, eu tenho uma candidata disponível pra entrevistas agora. Posso manda-la.

Mulder bate o telefone na cara dela. Dani desliga. Respira fundo. Aperta a outra tecla.

DANI: - Desculpe. Era um cliente muito nervoso... Onde estávamos? Ah sim... Meias, adoro homens que só usam meias pela casa...


Residência dos Mulder -11:34 P.M.

Na sala, Mulder analisa Cassy com os olhos, de cima a baixo.

CASSY: - Cara, pode apostar legal que eu posso dar conta do serviço.

MULDER: - Não sei por que, mas... Acho que conheço você de algum lugar... Tinha um gato persa e um girafão na história...

O telefone toca. Mulder pede licença e atende. Cassy olha sorrindo pra Victoria.

CASSY: - Você é uma gracinha, sabia?

VICTORIA: - (BEIÇO) ...

Mulder desliga.

MULDER: - (TENSO) Você tem condições de ficar com ela até às 6 da manhã? Estão me chamando no trabalho.

CASSY: - Sem problemas.

MULDER: - Depois eu vou analisar perfeitamente os seus dados e conversamos. Eu pago extra hoje.

CASSY: - Ok.

VICTORIA: - Naaaaaahhhhhhhhh!!!!!!

Mulder beija Victoria. Pega o sobretudo e sai se arrastando. Cassy o observa pela janela. Corre pro telefone.

CASSY: - Jorjão??? Oi, tô ligando pra dizer que vou trabalhar de babá hoje... Sim, até as seis da matina a casa tá livre! Anota o endereço aí... Ainda não chequei, mas claro que deve ter cerveja na geladeira!


Residência dos Kewnan - 12:14 A.M.

Mulder empurra a porta. Scully entra atrás dele. Os dois acendem as lanternas.

MULDER: - Temos exatamente quatro horas pra verificar tudo antes que os Kewnan sejam soltos por faltas de provas.

SCULLY: - Não gostei da sua atitude hoje, Mulder, na frente do senhor Kewnan.

MULDER: - Desculpe, parceira, não foi nada pessoal. Apenas reconheci um semelhante da causa paterna.

Os dois miram as lanternas no chão.

MULDER: - Percebeu o que o garoto disse aquele dia?

SCULLY: - Crianças têm imaginação fértil, Mulder. Elas veem coisas na TV e saem repetindo.

MULDER: - Sei, conheço bem a rotina... Sua... (SE CORRIGE) Minha filha anda dizendo que 'não sou a mamãe'. Vou me preocupar quando ela começar a me agredir com a frigideira...

Mulder sobe as escadas. Scully sorri.

SCULLY: - "Não é a mamãe"...

Scully fica parada, com ares saudosos. Muda rapidamente a fisionomia.


12:37 A.M.

Mulder, no quarto das meninas, mira a lanterna pela cama, pelo berço. O quadro da menina de 8 anos, vestida num uniforme de basquete, ao lado do Michael Jordan, autografado, segurando uma bola.

MULDER: - (SORRI) Ela tem bom gosto pra esporte.

Mulder continua mirando a lanterna pelos brinquedos nas prateleiras. Scully entra, de luvas e com um saco plástico de provas contendo um frasco. Mulder vira-se pra ela. Mas vira-se novamente pra prateleira de brinquedos. Mira a lanterna, intrigado.

SCULLY: - Achou algo?

MULDER: - Não. (DESVIA O FOCO DA LANTERNA) ... Pensei ter visto alguma coisa...

SCULLY: - Não encontrei nada lá embaixo. Mas encontrei isso no banheiro do casal.

Scully mostra o frasco de remédios.

MULDER: - O que é isso?

SCULLY: - Serve para pessoas adultas que sofrem de pânico noturno.

MULDER: - (FRUSTRADO) Se ministrado em super dosagem pode matar por insuficiência respiratória.

SCULLY: - Eu não disse?

MULDER: - Mas como vamos provar que...

Barulhos. Mulder e Scully se entreolham.

SCULLY: - (COCHICHA) Ouviu isso?

MULDER: - (COCHICHA) Ouvi... (PUXA A ARMA) Acenda as luzes.

Scully recua silenciosamente, levando a mão ao interruptor. A luz do quarto se acende. Mulder mira a arma por todo o lugar procurando algo. Olha para o chão. Nada. Scully puxa a arma e sai do quarto. Mulder guarda a arma e a lanterna. Fecha as cortinas para a luz não chamar a atenção dos vizinhos. Ergue o tapete do chão. Começa a arrastar os móveis. Scully entra.

SCULLY: - Nada lá embai... O que está fazendo, Mulder?

MULDER: - Não sei. O garoto disse que tinha alguma coisa embaixo do chão.

SCULLY: - Ratos? A casa é velha, pode haver ratos... Cupins também fazem barulho. Sabe qual a incidência de cupins pelo país? Alta demais. Uma praga incontrolável.

MULDER: - Nenhum cupim faria o barulho que ouvimos.

Mulder afasta o armário. Olha pro buraco na parede, rente ao chão. Scully se aproxima.

MULDER: - Aonde quer que eu vá sempre tem um rato. Acho que é carma. Eu não tenho medo de ratos, você, por ser mulher, é quem deveria ter. (DEBOCHADO) Quem dorme com ratos pega leptospirose, Scully.

Scully o censura com um olhar. Mulder pega a bola de basquete sobre o armário.

SCULLY: - Adoro ratos! Grandes e fortes.

MULDER: - Eu sei. (PIDÃO) Mas deveria dar atençãozinha também as raposas. Elas são doidas por você.

Mulder quica a bola e a coloca sobre o armário num gesto de quem faz cesta. Sai do quarto. Scully o acompanha com os olhos.

SCULLY: -(SORRI) Não sabe o quanto eu gosto dessas lábias da raposa...


12:59 A.M.

Scully desce as escadas do porão. Na quase escuridão, não percebe Mulder e esbarra nele com tudo. Os dois se afastam um do outro, nervosos.

SCULLY: - Desculpe.

MULDER: - ... Não foi nada.

Os dois ficam se olhando. Tensão. Desviam rapidamente o olhar. Mulder sobe as escadas. Ela vai atrás dele. Mulder acende a lanterna. Começa a andar e mirar a luz no forro da casa.

MULDER: - Você lembra de um filme do Stephen King chamado "Olhos de Gato"? Numa das histórias um duende atacava a pequena Drew Barrymore sempre que ela dormia?

SCULLY: - (O SEGUINDO) Mulder, não está sugerindo que há duendes nessa casa!

MULDER: - Não.

SCULLY: - Ótimo! Caso contrário, eu iria sugerir que parasse de fumar aquela que matou o traficante.

Mulder olha pra ela, rindo. Scully continua séria.

MULDER: - Scully, você fez uma piada?

SCULLY: - Qual é o problema?

MULDER: - (CONTINUA ANDANDO E PROCURANDO) Nenhum. Só fazia tempo que eu não ouvia uma piada sua. Admito, gostei dessa.

Barulhos. Os dois param. Ficam de costas um pro outro.

SCULLY: - Isso não é cupim.

MULDER: - (PÂNICO) Então é um rato.

SCULLY: - Eu não estou gostando disso.

MULDER: - (MEDO) Você não tem medo de nada. Medo é algo irracional, você sempre me disse e eu concordo com isso.

SCULLY: - Eu tenho medo sim. Medo do que eu desconheço, medo de morrer e medo de sentir frio na espinha.

Mulder vira-se, olhando incrédulo pra ela. Scully abaixa a cabeça.

SCULLY: - Eu admito sim que estou ficando velha e comecei a ter medo até da minha sombra! Principalmente dessas coisas com as quais lidamos. Preciso voltar a dominar isso.

MULDER: -(ATENTO AO TETO/ NERVOSO) Se consola você, eu também tenho medo algumas vezes.

SCULLY: - Isso não é algo que uma mulher goste de ouvir de um homem numa situação dessas, Mulder!

MULDER: - (NERVOSO) Que homem???

Scully começa a rir.

SCULLY: - Mulder, você está com medo!

MULDER: - Não estou não.

SCULLY: - Está sim! Você está com aquela cara de pânico!

Mulder olha pra ela em pânico.

MULDER: - Não estou com nenhuma cara de pânico.

SCULLY: - (RINDO) Oh Mulder! Queria que visse sua cara num espelho!

Mulder olha pras escadas. A bola de basquete vem rolando degraus à baixo, parando nos pés de Scully. Scully fica branca e gelada. Fecha os olhos.

MULDER: - Sabe de uma coisa? Não conheço ratos e cupins que joguem basquete.

Scully está bloqueada de medo, olhos fechados, não se move. Mulder olha pra ela.

MULDER: - (TENTANDO ACALMÁ-LA) Ei, Scully. Relaxa. É o Michael Jordan que está aqui escondido da imprensa.

Scully esboça um sorriso. Mulder olha ternamente pra ela.

MULDER: - Tem algum outro jeito de descobrir se não subindo as escadas?

SCULLY: - Me diz que tem, Mulder.

MULDER: - Vou na frente, você fica atrás de mim. Se algo acontecer, saia correndo e não olhe pra trás.

Mulder vai subindo. Scully o segue, atenta. Mulder puxa a arma. Scully olha confusa pra ele.

SCULLY (OFF): - Como alguém que me destratava pode ter sentimentos de proteção para comigo??? Se ele me batia, por que me defende?

Scully para na escada. Mulder olha pra ela. Scully põe as mãos na cabeça, sacudindo a cabeça, parece estar tendo um ataque. Mulder a segura.

MULDER: - Scully??? Scully????

Mulder a sacode. Scully para. Olha pra ele, o estranhando. Olha pras escadas.

MULDER: - Scully, sou eu. Estamos investigando a casa dos Kewnan. Me ouviu, Scully?

SCULLY: - Sim... O que houve?

MULDER: -(PREOCUPADO) ... Você parecia estar tendo algum tipo de crise.

SCULLY: - Eu não tenho crises.

Mulder solta um suspiro. Sobe as escadas, lentamente. Scully atrás dele.

MULDER: - Eu juro que deixei aquela bola de basquete no armário da garota. Não poderia ter caído de lá, dobrado o corredor e descido as escadas sozinha.

Scully para no corredor. Mulder vira-se. Olha pra ela. Vê Scully imóvel.

MULDER: - Scully??? Você está bem?

SCULLY: - (TONTA) Vamos sair daqui, Mulder... Eu... Eu acho que vou desmaiar.

Scully cai ao chão.


Residência dos Mulder – 3:38 A.M.

Mulder entra. Acende a luz da sala. Tira o sobretudo. Sobe as escadas. Caminha até o quarto de Victoria. Ela dorme profundamente, no bercinho, de chupeta na boca. Mulder sorri.

MULDER: - Finalmente! Achei uma babá!

Mulder encosta a porta do quarto. Para na escada. Olha pra baixo.

MULDER: - Cassy???

Nada. Mulder olha pra porta do quarto de visitas. Se aproxima. Bate na porta.

MULDER: - Cassy???

Barulhos. Mulder empurra a porta. Arregala os olhos.

Corte.


[Som: Bryan Adams & Melanie C - When You're Gone]

Cassy sai correndo pra fora da casa, enrolada num lençol. Jorjão atrás dela, só de cuecas, segurando as roupas. Mulder atrás deles com a arma, atirando pra cima, irritado. Nancy, a vizinha, mete a cara na janela com a cabeça cheia de bobs. Leva as mãos na cabeça.

NANCY: - Eu não aguento mais esse sujeito, George! Tem uma mulher e um homem nu correndo pela rua e ele está atrás deles! Isso é... Doentio! Aposto que cobraram muito alto pela orgia e ele não quis pagar!

GEORGE: - (MEIO DORMINDO) Quem está atirando na rua a essa hora? Que orgia? Quem tá nu?

NANCY: - O pervertido do nosso vizinho! Quem mais seria? Eu disse pra você que tem coisa errada acontecendo nessa casa ao lado, mas você nunca me dá ouvidos! Pra mim a mulher cansou e foi embora, ou tá viajando, não vi mais a cara enjoada dela. E o safado tá aproveitando! Faz uns dois dias que é um entra e sai de mulher aí do lado... Quase todas jovens, acredita? Tarado, nojento!

GEORGE: - Nancy, vem dormir. Deixa os vizinhos em paz! Vivemos numa democracia!

NANCY: - Eu vou falar com o Comitê da Moralidade Cristã! Vou falar até com o Padre! Isso não vai ficar assim. Vou convidar todas as moradoras desse bairro, pode deixar. Ele vai ter que se mudar daqui! Aquele... Aquele depravado... Grande... Meu Deus, como era grande!


4:23 A.M.

[Som: Bryan Adams & Melanie C - When You're Gone]

A TV ligada passando o vídeo clipe da música. Todas as luzes acesas. Mulder insone, jogando basquete pela sala. Cookie no sofá ergue a cabeça olhando pra ele.

MULDER: - (CANTANDO) Baby when you're gone, I realise I'm in love... Days go on and on... And the nights just seem so long...

Cookie abaixa a cabeça. O cachorro e Mulder soltam um suspiro ao mesmo tempo. Mulder faz cesta no armário. Volta a jogar.

MULDER: - Scully, se você soubesse a falta que me faz... Em todos os sentidos! Essa casa não é mais um lar. Nem é mais uma casa. E falta pouco pra eu perder minha sanidade mental...

Mulder, maquiavélico, mira a bola no porta-retratos com a foto de Scully. Joga a bola. O porta-retratos cai no chão.

MULDER: - Ponto pra mim! Mulder 1, Scully 0.

Mulder senta-se no sofá, ainda quicando a bola.

MULDER: - A coisa tá difícil. De dia ainda vejo você, mas à noite, a saudade vem cruel... Até Bryan Adams eu tô ouvindo! Mas hoje eu não vou entrar no closet pra cheirar suas roupas. Não vou mesmo! Eu tenho que ter um pingo de orgulho próprio...

Mulder olha para o celular.

MULDER: - E diria o quê para justificar uma ligação a essa hora? Só queria ouvir sua voz, Scully?(FECHA OS OLHOS) Eu realmente não tenho um pingo de orgulho próprio!

Mulder pega o celular. Observa as teclas. Desiste.

MULDER: - Não posso irritá-la, vou jogar contra mim mesmo se fizer isso... Saco! Sem sono, sem nada pra fazer, sem boliche com os Pistoleiros, sem amigos... (SORRI) Ei, eu ainda tenho um amigo!

Mulder pega o celular. Aperta uma tecla. Aguarda.

MULDER: - ... (SACANA) Boa noite, detetive. Eu quero registrar uma queixa de roubo... Um rato russo filho da mãe roubou a minha mulher... Se posso descrever o rato? Ele tem por volta de 1,80, olhos verdes, usa jaqueta de couro e brinco na orelha, todo metido a malandrão, mas acho que é a crise da meia idade, porque já começou a atacar as babás de 20 anos... É você conhece o tipo... Devo comprar uma ratoeira enorme pra pegar o desgraçado? Coloco uma ruiva como isca? (RINDO) É, acertou. Sem sono, já fiz tudo o que tinha pra fazer e estou irritado com a última babá... Sério? Washington está em paz essa noite? ... Tenho cerveja. Traz a pizza.

Mulder desliga.

MULDER: -O pior é que não consigo ter raiva do cara, eu sei que ele é tão vítima quantos nós nessa história... Freud explicaria isso?


4:55 A.M.

Krycek entra no pátio com a picape preta. Desliga os faróis. Na casa ao lado, Nancy acordada na cozinha, observa curiosa pela janela. Krycek desce, veste a jaqueta de couro e pega a pizza. Entra pela porta dos fundos.

NANCY: - Esse sujeito aí de novo? Aposto que é traficante! Esconde a droga na pizza!

Corte.


5:11 A.M.

A maleta de ferramentas sobre a mesa. Mulder deitado no chão da cozinha com metade do corpo pra dentro do balcão da pia.

KRYCEK: - Descobriu?

MULDER: - É a droga do serviço podre daqueles encanadores! Não entra água na mangueira, por isso a máquina não funciona. Apertaram tanto essa mangueira no cano que não consigo desenroscar nem com o alicate! Deve estar entupida!

Krycek agacha-se e olha pra dentro da pia.

KRYCEK: -Você pagou por isso?

MULDER: - É, paguei. Mas não chequei. Agora se foi a garantia...

Krycek se levanta.Pega outro alicate das ferramentas.

KRYCEK: - Mulder, tenta segurar com o alicate aí embaixo, eu vou desenroscar o cano aqui em cima.

O celular de Krycek toca. Krycek olha no visor.

KRYCEK: - Aguenta aí, Mulder, preciso atender, é do plantão... (AO CELULAR) Fala, Frank... Ahn... Tráfico de drogas? Dá o endereço que estou perto e posso checar a denúncia... Rua 1... 3112.

Krycek tapa o celular.

KRYCEK: - Mulder, sua casa não é 3112?

MULDER: - É. Rua 1, 3112. Por quê?

Krycek volta pro celular.

KRYCEK: - (RINDO) Qual é Frank! Tá de sacanagem comigo? ... Como assim? ... Tá, eu vou checar. Deixa comigo essa história.

Krycek desliga. Pega o alicate novamente.

KRYCEK: - (RINDO) Algum vizinho seu reportou que um sujeito estranho numa picape preta está traficando drogas na pizza e vendendo na Rua 1, número 3112.

Mulder sai de baixo da pia.

MULDER: - (INCRÉDULO) Quê????

KRYCEK: - (RINDO) Alguém por aqui não gosta de você. E me confundiu com um traficante.

MULDER: - (IRRITADO) Eu faço ideia de quem seja. Essa velha aí do lado não dorme nem de noite? Pra quê câmera de vigilância quando se tem "Nancy Linguaruda" como vizinha? Eu não sei de onde arranja tanto tempo e dedicação pra cuidar da vida dos outros! E criatividade! Se dane ela e o comitê cristão dela! Uma hora eu vou aprontar uma, ela que me aguarde.

Mulder volta pra baixo da pia. Krycek segura o cano com o alicate.

KRYCEK: - Mulder, segura aí que vou girar pra ver se afrouxa. Avisa quando der.

Corte.


[Som: Bryan Adams & Melanie C - When You're Gone]

Nancy se aproxima esquivamente da janela da cozinha de Mulder. Como as luzes estão acesas, ela fica agachada tentando adivinhar o que está acontecendo.

KRYCEK: - Tá muito apertado, Mulder. Vou ter que forçar. Não mexe!

MULDER: - Força com cuidado! Uh! Tá difícil... Deixa eu respirar aqui embaixo!

KRYCEK: - Tá indo?

MULDER: - Não! Empurra mais! Faz força aí!

KRYCEK: - Já empurrei tudo. Não tenho mais força, tá apertado pra caramba! Quem sabe eu pego um óleo?

MULDER: - Não, vai no seco mesmo. Não quero perder tempo procurando óleo!

Nancy arregala os olhos. Faz o sinal da cruz.

MULDER: -Para, para, para! Deu... Ufa! Ei, vira isso pra lá que agora tá pingando tudo na minha cara.

Nancy se ergue, olhos esbugalhados e sai correndo pra casa dela, apavorada.


7:24 A.M.

Mulder sonolento prepara a mamadeira de Victoria. Victoria sentada na cadeirinha, brincando com uma colher, com a chupeta na boca.

Som da campainha.

Mulder caminha até a porta e a abre. Dri parada na porta, olha pra ele num sorriso.

DRI: - Bom dia, meu nome é Adriana, mas me chame de Dri. A agência me mandou.

MULDER: - Entre, Dri. Sou o Mulder. Tem namorado? Esqueça, estou ficando paranoico.

Dri entra. Tropeça em nada. Mulder vai pra cozinha.

MULDER: - Pode entrar, estou preparando a mamadeira dela.

DRI : - Essa é sua neném? Ai que fofa! Parece com a minha Emilinha!

MULDER: - (SORRI) Você tem filhos?

DRI: - Não, é minha sobrinha. Um doce!

MULDER: - Sente-se Dri. Eu preciso fazer uma entrevista de praxe...

DRI: - Entendo, sr. Mulder. Não se pode mais confiar os filhos assim a quem não se conhece. É uma triste realidade.

Dri vai se sentar e quase derruba a cadeira. Mulder não percebe. Victoria deixa a chupeta cair da boca, incrédula.

MULDER: - É verdade... É babá há muito tempo?

DRI: - Nem tanto, desde que Emilinha nasceu. Adoro cuidar dela, então descobri que amo crianças.

MULDER: - (NUM ALÍVIO) Tem disponibilidade pra cuidar dela o dia todo?

DRI: - Claro, eu só estudo à noite.

Mulder olha pra Victoria que está encarando Dri num beiço. Mulder fica incrédulo.

MULDER: - O que há com você, Pinguinho? Também não?

VICTORIA: - Nah!

MULDER: - Você não gosta de ninguém, não é?

VICTORIA: - Goto.

MULDER: - Então, pra que esse beiço? Não é ela a pessoa ideal?

VICTORIA: - Nah!!!!!!!

MULDER: - Por quê? ... (OLHA PRA DRI) Desculpe, ela é muito retrucona. A culpa é minha que dou muita liberdade.

Victoria franze o cenho. Dri sorri.

DRI: - Deixa que eu faço a mamadeira. O senhor tem que trabalhar ainda não é?

MULDER: - Obrigado. Eu vou pegar uns papéis antes de sair...

Dri pega a panela e acaba virando no chão. Mulder olha pra ela.

DRI: - Lamento muito, e-eu... Eu só sou meio desastrada, sabe?

Mulder olha pra Victoria. Victoria olha pra Mulder com ar de quem sabe tudo. Depois olha pra Dri. Fecha os olhos e começa a levitar. Dri arregala os olhos. Mulder suspira desanimado.


Arquivos X – 8:56 A.M.

Skinner entra na sala. Scully olha pra ele.

SKINNER: - Onde está Mulder?

SCULLY: - Ligou dizendo que está se sentindo mal. Vai ao médico. Talvez não venha hoje.

SKINNER: - Ele me pediu um mandado. O que viu lá, Scully?

SCULLY: - Eu... (FORÇANDO A MEMÓRIA) Eu... Eu não sei.

Skinner olha pra ela, a estranhando.

SKINNER: - Começo a pensar que o bebê pode estar sendo vítima de algum parente, vizinho. Nada diferente aconteceu com as outras crianças, desde que a babá se afastou. Apenas com o bebê.

SCULLY: - Os exames no bebê não acusaram presença de nenhum componente químico na comida. Ela não foi envenenada e nem dopada como eu pensei. A causa da falta de ar foi asfixia provocada por algum fator externo, como se alguém colocasse um travesseiro e o apertasse sobre o rosto da menina.

SKINNER: - Fale com Mulder sobre isso. Eu ficarei fora o dia todo, tenho uma reunião em Boston. Qualquer coisa me ligue... E Scully, você me garante que realmente está bem?

SCULLY: - Estou senhor. Nunca me senti melhor.

SKINNER: - Não sabe o quanto tive que ser convincente pra que continuasse trabalhando e ainda por cima armada. Se sentir que não tem condições psicológicas, Scully, por favor me diga. Ou vai colocar a cabeça de Mulder na mesa.

SCULLY: - O que tem Mulder a ver com isso?

SKINNER: - Ele assinou um termo se comprometendo por seus atos. Como responsável pelo departamento e como psicólogo. Se você falhar, ele está fora do bureau. Tenha em mente que é tudo o que eles querem lá em cima. O objetivo continua o mesmo: ferrar com o Mulder.

Skinner sai. Scully volta sua atenção para os papéis. Olha pra mesa de Mulder. Fecha os olhos, angustiada.

SCULLY: - Por que Mulder faz isso por mim? E-eu não entendo...


Residência dos Mulder - 9:16 A.M.

Mulder sentado à mesa da cozinha, de óculos, lendo os currículos. Victoria na cadeirinha, brincando com a gelatina verde.

MULDER: - Impressionante, mas o que será que virá agora? Já temos a gostosona, a beata, a tagarela, a clone, a tarada e a desastrada...

VICTORIA: - ... Etê!

Mulder olha pra ela. Victoria balança a gelatina verde. Mulder ri.

MULDER: - Não é um ET. É gelatina... Pinguinho, eu sei que devo confiar em você pra escolher a babá. Sei que você tem um sexto sentido aguçado e não vou mais me opor. Sei também que são boas pessoas, e realmente não é qualquer um que consegue conviver com uma criança especial como você. Eu que tenho a mente aberta me assusto algumas vezes! Imagina uma pessoa comum? Portanto, quando você disser não, eu dispenso a candidata. Mas chega de assustar as moças! Combinado?

Som da campainha.

MULDER: - É... Começamos tudo outra vez...



BLOCO 3:

9:39 A.M.

Mulder morde a tampa da caneta, observando Bellatrix, que segura um lencinho, derrubando lágrimas.

MULDER: - Sei...

BELLATRIX: - É que... Sou muito sensível.

MULDER: - Entendo... Então tudo o que me pede é que possa ter sua própria televisão para assistir novelas mexicanas?

BELLATRIX: - Sim, senhor. Adoro novelas mexicanas! O senhor também oferece pipocas?

Mulder olha pra Victoria. Victoria acena negativamente com a cabeça.

MULDER: - (SORRI) Obrigado, Bellatrix... Lindo nome o seu, é o nome de uma estrela da constelação de Orion. Eu vou avaliar seu currículo e entro em contato depois...

BELLATRIX: - Tem certeza? Posso começar agora.

Victoria olha pra xícara de chá sobre a mesa. Empurra com o olhar a xícara em cima de Bellatrix.


11:47 A.M.

Mulder olha catatônico pra Luana.

LUANA: - ... E só babá. Eu conheço bem vocês, os tipos de patrões exploradores que não respeitam o sindicato. Ah eu conheço! Eu sou apenas babá, não faço serviços domésticos. Se quiser isso vai ter que pagar mais.

MULDER: - (CATATÔNICO)

LUANA: - E tem mais! Carteira assinada, quero todos os meus direitos. E ajuda pro transporte. Adicional noturno quando tiver que passar a noite aqui...

MULDER: - Muito obrigado, Luana. Eu entro em contato depois.

LUANA: - Aposto que não gostou, mas eu não sou escrava não, entendeu?

Mulder olha pra Victoria.

MULDER: - Vai, Pinguinho. Tem minha permissão.

Victoria ergue o braço e as frutas da cesta começam a levitar pela cozinha. Mulder observa num sorriso. Luana arregala os olhos e sai correndo. Mulder pega uma maçã no ar. Dá uma dentada. As frutas voltam pro lugar. Mulder olha pros papéis sobre a mesa.

MULDER: - Vamos ver quem eliminamos... A gostosona, a crente, a faladeira, a Dana, a namoradeira, a estabanada, a noveleira, a sindicalista... Pinguinho, tem apenas mais uma. E eu já estou começando a achar que não vamos realmente encontrar ninguém pra cuidar de nós... Digo de nós, porque eu também tô precisando de alguém que cuide de mim.

Mulder abaixa a cabeça sobre os braços. Victoria olha triste pra ele.

VICTORIA: - Nah, papai! Nah chóla! Neném tuida papai!

Mulder olha pra ela. Sorri, cansado. Victoria aponta o dedinho pra pia e a torneira se abre, caindo água sobre a louça.

MULDER: - Não Pinguinho. Não é assim que se faz o serviço.

Victoria para.

MULDER: - Que falta faz sua mãe na nossa vida! Juntos a gente conseguia conciliar tudo, mas sozinho... Pinguinho, só quero que saiba de uma coisa. Se eu não encontrar ninguém pra cuidar de você, eu peço demissão do FBI e vou trabalhar por conta própria. Deixar você sozinha ou nas mãos de alguém que não tenha responsabilidade suficiente... Eu não posso.

Krycek entra pela porta dos fundos, empolgado.

KRYCEK: - Achou uma babá?

MULDER: - Ainda não. Quando elas não dão o fora por si mesmas, Victoria as põe pra correr.

KRYCEK: - Scully me ligou...

VICTORIA: - ... Iscâli... ligou... Mama... Iscâli!!!

KRYCEK: - Desculpe, Mulder. Falei o nome...

MULDER: - Parabólica, esqueceu?

KRYCEK: - Quer melhorar o seu humor?

MULDER: - (OLHA PRA ELE DESANIMADO) ...

KRYCEK: - Scu... (SE CORRIGE) Ela me ligou há quinze minutos e disse: Alex, Mulder me ligou dizendo que está doente. Pode ir até lá saber com certeza se ele está bem? Se não precisa de algo? Estou preocupada.

Mulder abre um sorriso quase chorando.

MULDER: - Mentira! Tá dizendo isso pra me animar.

KRYCEK: - Juro pra você! Nessas palavras! Eu desconfiei que você tinha aplicado uma desculpa no bureau pra procurar uma babá. Mas fiquei quieto, disse que viria ver como você está e depois ligaria pra ela... Então, Mulder, você está convalescendo às portas da morte ou digo que já está pedindo a extrema unção?

MULDER: - Não, diga que é apenas um resfriado. Não quero assusta-la. Nem quero que ela se sinta culpada pelo que estou passando, não ajudaria em nada. Eu só preciso agora de uma babá de verdade. É a última candidata.

KRYCEK: - E se não achar?

MULDER: - Vou adiantar o que já tenho em mente pra minha velhice. Saio do FBI e monto a minha agência de investigações paranormais. Tem vaga pra você. Com sorte e trabalho sério a gente consegue um programa num desses canais a cabo... Patrocinadores. E vamos à luta. Porque eu não me vejo fazendo outra coisa. E trabalho sem diversão faz de "Mulder" um bobalhão.

KRYCEK: - Vai perder mais de vinte anos de emprego público? Mulder, já passou por isso...

MULDER: - É, já passei e foi bom passar porque agora fiquei mais esperto e não vou passar de novo. Fiz minhas reservas. Pago aposentadoria privada pra quê? Tem que se dar uma de doido algumas vezes na vida. Aquilo que chamamos 'adapte-se a situação'. Agora tenho uma criança, estou sozinho, tenho que levar a vida adiante da melhor forma possível.

KRYCEK: -Mulder, por favor, mas já notou que estamos mais pro lado da senilidade que outra coisa? Já estou com alguns cabelos brancos. Comecei a ficar fissurado por aparelhos de ginástica antes que eu vire um monte de pele flácida! Estamos nos preparando pra velhice? Não! Ainda temos muito pra rodar!

MULDER: - Temos. Mas eu já estou pintando meus cabelos há tempos, não consigo mais correr atrás de suspeito berrando por aí, pulando cerca e fazendo maratona. E minha costas andam me matando.

KRYCEK: - Quando me lembro de nós dois há uma década atrás, eu tinha uns trinta! Me lembro de você magrão, aquela cara de garoto, correndo atrás de tudo que voava e gritando: 'Samantha'!!! E eu achava você um idiota.

MULDER: -E eu me lembro de você tentando me ferrar de todos os lados. Me lembro da gente brigando, me lembro que você aprontava uma e eu devolvia o troco, e assim ia... Não tenho mais saudade dessa época de vingança cega. Estou velho pra vingança, quero é paz. O tempo passa muito rápido. Daqui à pouco estamos com cinquenta. Minha filha casando, eu de cabelos brancos e barrigudo, cercado de netinhos me chamando de vovô Spooky....

KRYCEK: -Barrigudo você tá ficando...

MULDER: - Tenho que voltar a malhar... Estou ficando velho e acomodado... Acho que vou frequentar uma academia. Ou a Scully não vai se interessar por um velho flácido...

KRYCEK: - Mulder, a propósito... Notou que Scully não envelhece? Ela parece sempre a mesma...

MULDER: - Ah, é uma longa história. Mas já digo. Vamos estar enrugados e ela vai continuar igual. Acredite. Pega cerveja pra nós na geladeira que eu conto o caso do fotógrafo e da maldição de imortalidade que ele passou pra Scully. Hoje vamos almoçar comida chinesa.

VICTORIA: - Oba!!!!!!!!!!!!!

MULDER: - Você não, tem papinha na geladeira.

Victoria faz beiço e abaixa a cabeça, tristonha.

KRYCEK: - Mulder, que maldade! Ela já tem dentes pra comer macarrão!

MULDER: - Eu sei. E ela adora!

Mulder começa a rir. Dá um beijo estalado em Victoria.

MULDER: - Papai tá brincando, tá? Tem comida chinesa pra você sim e até biscoitinho da sorte. Por causa dessas babás, eu me atrasei pra fazer o almoço.

Victoria começa a pular na cadeirinha.


2:24 P.M.

Krycek analisa a candidata de cima a baixo. Victoria com um beiço enorme. Mulder olha pra Tata.

MULDER: - Hum... Seu currículo é interessante, porém só me assusto com um detalhe: você é amiga da Darliene. Gosta muito de telefones, é?

TATA: - Detesto telefones!

MULDER: - Ótimo! Mas preciso avaliar se você realmente está apta pra função.

KRYCEK: - Pra mim tá mais que apta... Posso avaliar ela pra você, Mulder...

Mulder olha invocado pra Krycek. O puxa pelo braço. Os dois começam a cochichar. Tata observa os dois.

MULDER: - Por que você sempre quer ter tudo primeiro, ahn? (VINGADO) Eu não fico com os seus restos, você que fica com os meus!

KRYCEK: - Tá se especializando em hipocrisia masculina ou estou tendo devaneios? O bad boy aqui sou eu, detesto concorrência! Essa fala deveria ter sido minha. Eu sou o canalha por aqui!

Mulder se aproxima de Tata.

MULDER: - Ok. Fico com você em regime de experiência. Mas fique longe desse cara aqui. Ele morde.

TATA: - Eu sabia! Eu sou demais mesmo. Você não vai se arrepender, Mulder. Eu serei a babá dos seus sonhos.

KRYCEK: - Podia ser dos meus...

Mulder o empurra.

MULDER: - ... Veremos. Pode começar me fazendo um favor? Estou cheio de roupa pra lavar, podia ir ao mercado trazer algumas coisas? (ENTREGA AS CHAVES DO CARRO) A notinha está sobre o balcão.

TATA: - Sem problemas.

Tata sai. Mulder olha furioso pra Krycek.

MULDER: - Quer parar com isso? Por que fica cantando as minhas candidatas a babá?

KRYCEK: - Eu não sou o mocinho, posso dormir com quem quiser nessa série que nenhum fã vai fazer abaixo assinado! Dane-se você! Azarão!!!

Mulder faz beiço.

3:47 P.M.

[Som: Bryan Adams & Melanie C - When You're Gone]

O caminhão guincho se afasta. Mulder, parado no quintal, completamente sem fisionomia alguma, apático, olhando pro carro. A frente destruída. Krycek, mãos nos bolsos da jaqueta, masca chicletes, analisando a lataria.

KRYCEK: -Foi só um arranhão. Pelo menos a garota tá ilesa, podia ter sido pior. É, eu sei, quem esquece de puxar o freio de mão quando estaciona numa descida...

O farol esquerdo se desprende e cai no chão. Krycek tenta consolá-lo.

KRYCEK: - Veja pelo lado bom: o carro ficou intacto até os dois mil quilômetros...

O motor do carro cai no chão. Mulder encosta o rosto na parede da casa e começa a chorar.

KRYCEK: -Mulder... Pior fui eu que perdi uma picape novinha... O seguro me deu outra igual... Mulder, para de chorar... O seguro vai dar perda total e você pega um zero de novo.

Mulder olha em pânico pra ele. Enfia a cabeça no meio dos arbustos e começa a gritar de raiva. Krycek olha pra ele.

MULDER: - Eu vou matar a dona daquela agência!!!!!! Eu vou matar!!!! Eu juro que vou esganar aquela maluca com as minhas próprias mãos!!!!!!!!! O que mais falta acontecer? O que mais???

O celular de Mulder começa a tocar. Mulder atende.

MULDER: -(IRRITADO) Qual é a merda agora? ... (SORRI/VOZ DOCE) Ah, Scully, é você? Desculpe, eu...

Krycek segura o riso.

MULDER: - Sério? (PÂNICO) Agora? ... Não, eu... Estou melhor sim, Scully. Tô indo.

Mulder desliga. Olha pro carro. Olha pra Krycek. Olha pra picape.

MULDER: - Me empresta sua picape.

KRYCEK: - Pra quê?

MULDER: - Conseguimos um mandado.

Krycek joga as chaves pra ele. Mulder anda em direção à picape.

KRYCEK: - Não tá esquecendo de nada?

MULDER: - Do quê?

KRYCEK: - Sua filha.

MULDER: - A mamadeira tá na geladeira, é só esquentar. Tem fraldas na gaveta e se ela pedir chocolate não dê. Mesmo que ela levite você até o teto, diga não até o fim.

Mulder entra na picape. Liga. Krycek arregala os olhos.

KRYCEK: - (DESESPERADO) Mulder, isso não!!!!! Mulder! Mulder volta aqui!!!!!!! Mulder eu não sei nada de crianças!!!!!! Mulder!!!!!!!!!

MULDER: - (GRITA) Vai treinando, não quer ser pai um dia???

Mulder parte. Krycek põe as mãos na cabeça.

KRYCEK: - Ferrou!

Victoria começa a chorar. Krycek entra correndo na casa. Victoria no cercadinho, chorando.

KRYCEK: - Scullyzinha, pega leve comigo. Eu não entendo nada de mulheres da sua idade!

VICTORIA: - (CHORANDO)Papai...

KRYCEK: -Ele já volta, tá? O Tio Alex vai ficar com você...

Victoria continua chorando. Krycek a pega no colo. Embala. Ela não para.

KRYCEK: - Fome? (PÂNICO) Fralda suja?

VICTORIA: -(CHORANDO) Nah!!!!! Papai!!!!!!

Krycek pega um brinquedo e mostra pra ela. Victoria continua chorando.

KRYCEK: - ... (CANTANDO) Rastsvetali yabloni I grushi... Poplyli tumany nad rekoi...Vyhodila na byereg Katyusha...Na vysoki, byereg na krutoi...

(Cresciam as maçãs e peras. Pairava a névoa sobre o rio. E surgia na margem, Katyusha. Na alta encosta da margem.)


Victoria se cala, curiosa.

KRYCEK: -(CANTANDO) Vyhodila na byereg Katyusha... Na vysoki, byereg na krutoi...

(E surgia na margem, Katyusha. Na alta encosta da margem.)

Victoria sorri pra ele.

VICTORIA: - "Tuscha".

Krycek sorri e dança com ela no colo.

KRYCEK: - (CANTANDO) Vyhodila, pesnyu zavodila... Pro stepnogo, sizogo orla... Pro togo, kotorogo lyubila...Pro togo, tchi pisma beregla...

(Ela surgia, cantando uma canção. Sobre a cinzenta águia das estepes. Sobre aquele, que amava. Sobre aquele, cujas cartas guardava.)


Victoria sorrindo e pulando no colo dele enquanto Krycek canta e dança com ela.

KRYCEK: - (CANTANDO) Pro togo, kotorogo lyubila... Pro togo, tchi pisma beregla...

(Sobre aquele, que amava. Sobre aquele, cujas cartas guardava.)


FBI – 6:44 P.M.

Mulder se encolhe, fazendo cara de pânico. Scully, de olhos arregalados, acompanha com o olhar, Kersh que anda de um lado pra outro da sala.

KERSH: - (AOS GRITOS) Estão fora!!!!!! Fora, me entenderam? Foraaaaa!!!!!!! Fora do caso!!!!!!!!!

Skinner, sentado, põe a mão na testa, nervoso.

KERSH: - Agora saiam da minha frente antes que coloque os dois num hospício!!!!!

Mulder se levanta rápido. Scully o segue. Os dois saem da sala. Mulder se encosta na parede do corredor. Fecha os olhos.

MULDER: - Juro que dessa vez eu me assustei. Pensei que ele ia morder. Já me imaginava tomando anti-rábica!

SCULLY: - Imbecil. Como um imbecil dessa qualidade chega num cargo de diretor-delegado? Ele vai ouvir umas...

Scully avança pra dentro da sala, Mulder a puxa pelo braço.

MULDER: - Scully, fica calma. Deixa assim. Não vai adiantar nada você dizer qualquer coisa pra ele.

SCULLY: - Ele não tem o direito de nos tratar aos gritos como débeis mentais! Nem débeis mentais são tratados dessa maneira!

MULDER: - Baixinha, se acalme, não me cria mais confusão.

SCULLY: - (OLHA PRA ELE) Do que me chamou?

MULDER: - ... Desculpe. Olha Scully, não podemos julgar o Kersh. No lugar dele, até eu ficaria puto se acontecesse algo assim. Imagina se alguém batesse na minha porta, com um mandado da justiça, dizendo os motivos que você falou.

SCULLY: - Qual é o problema, Mulder? Ahn? Não devemos ser honestos e trabalhar pela justiça? Eu fui honesta!

MULDER: - Seja sempre honesta e justa Scully, mas não seja tão sincera. Da próxima vez que mostrarmos um mandado, não diga aos donos da casa, que precisamos verificar a existência de fantasmas ou espíritos sombrios. Eu sei que você esqueceu algumas coisas, mas...

SCULLY: - (INCRÉDULA)O que tem de errado?

MULDER: - (SORRI)Da próxima vez, você fica quietinha. Deixa que eu abra a boca. Tá? O Estranho sou eu.


7:24 P.M.

A TV ligada. Mulder sentado na cama, secando os cabelos de Victoria, enrolada numa toalha, sentada no colo dele, brincando com o pato de borracha.

MULDER: - Ok, Pinguinho. Me dá uns dias pra forçar minha demissão. Depois vamos começar vida nova. Ficarei o dia todo com você e caso precisar sair, você vai junto. Não terei chefe pra torrar meu saco.

VICTORIA: - (MORDENDO O PATO)

MULDER: - Pronto, mocinha. Vou buscar seu pijama. Vamos dormir cedo hoje. Eu tô morto de cansado. O dia foi cheio!

Mulder a coloca na cama. Sai do quarto. Victoria desce da cama. A propaganda na TV com uma música de fundo. Victoria se apoia na mesa da TV, dobra as pernas e as estica, dançando, sem desgrudar os olhos da televisão. Mulder entra no quarto. Para. Sorri, admirando a filha. Victoria olha pra ele e sorri, encabulada.

MULDER: - Dançando, é? Você adora música.

Victoria ri. Mulder se aproxima.

MULDER: - Ok, vamos colocar a roupa.

Victoria senta-se e sai engatinhando, fugindo de Mulder.

MULDER: - Pinguinho, tá frio!

VICTORIA: - Nahhh!!!!!!!!

MULDER: - Vem aqui, sua fujona! Que vergonha! (TAPA OS OLHOS) Mulher pelada!!!!!

Ela ri e se arranca em direção às escadas. Mulder a agarra, erguendo-a no ar. Ela esperneia.

VICTORIA: - Naaaahhhhhhhh!!!!!

MULDER: - Simmmmmmmmmmm!!!!!

Mulder a coloca na cama. Começa a vestir as fraldas nela.

MULDER: - Agora sim, tá cheirosa e limpinha. Não vou dormir com uma porquinha do meu lado.

VICTORIA: - Nahhh!

MULDER: - Porquinha sim.

VICTORIA: - (RINDO) Nahhh!!!!!

MULDER: - (RINDO) Sim!

VICTORIA: - Naaaaaahhh papai!!!!!!!!!

MULDER: - Sim!!!!!!! (MORDISCA A BARRIGA DE VITORIA) Oinc! Oinc!

VICTORIA: - (GARGALHANDO/ ENCOLHENDO AS PERNAS) Naaaaaahhhhhh!!!! (COM CÓCEGAS) Paaaaaaala!!!!!!!!

MULDER: -(RINDO) Oinc, oinc!

VICTORIA: - (GARGALHANDO/ AOS GRITOS) Papai, naaaaahhhhhhhhh!!!!!!

MULDER: - Só paro se me chamar de papai de novo.

VICTORIA: - (SORRI) Papai!!!!!!!!

Mulder para. Olha sério pra ela. Mexe o nariz.

MULDER: - Mulder, o porquinho travesso ataca novamente...

Mulder volta a fazer cócegas mordiscando a barriga de Victoria. Ela grita, aos risos altos, empurrando Mulder pela testa. Mulder para. Ela sorri, cansada, olhando atenta pra ele. Mulder ameaça. Ela grita.

MULDER: - Tá bom... Chega, Pinguinho. Dá o pezinho aqui pro papai. Vamos colocar esse pijama... Para, filha! Não esperneia!... Pronto, tá quase pronto... Fechando os botões... Calma aí... Pronto!

Mulder a pega no colo. Desfaz a cama. A coloca deitada e a cobre.

MULDER: - Fica quietinha olhando desenho aí. Papai precisa tomar banho... Não saia daí. E não apronte nada!

Victoria o observa. Mulder entra no banheiro. Victoria se arrasta até a ponta da cama, de bruços, atenta no pai dela. Mulder suspira. Afrouxa a gravata e se olha no espelho.

MULDER: - Que dia! Acho que vou desabar na cama!

Mulder abre as calças e se põe na frente do vaso. Victoria o observa.

VICTORIA: - Papai???

MULDER: - Já vou, tô fazendo pipi!!!

VICTORIA: - (PENSATIVA) Pipi???


6:49 A.M.

Mulder abre as cortinas.

MULDER: - Levanta, Pinguinho. Juro que seus dias de levantar cedo nesse frio vão acabar logo.

Victoria senta-se na cama, tonteando de sono. Mulder a olha com piedade.

MULDER: - Vamos parceira... Hum? Faço aquela banana amassada com aveia e leite que você adora. Que tal?

Victoria sorri. Esfrega os olhinhos. Mulder pega a tolha da poltrona e entra no banheiro. Pega a espuma de barbear. Começa a passar no rosto. Victoria desce da cama, engatinhando até o banheiro. Senta-se e fica observando Mulder passando a espuma de barbear. Mulder percebe e olha pra ela pelo espelho.

MULDER: - O que foi?

VICTORIA: - (OBSERVANDO CURIOSA) ...

MULDER: - (DEBOCHADO) Eu sei que sou bonito e as garotas não resistem ao meu charme.

VICTORIA: - (RINDO/ BOTA AS MÃOZINHAS NO ROSTO) Papai... Indo!

MULDER: - (SORRI) Coisinha mais engraçadinha da minha vida! Sabia que você é muito fofa? Hum? Dá vontade de morder!

VICTORIA: - Naaahhhhhh!!!!!! Dói!!!!!

MULDER: - (RINDO) Mordida de amor não dói não. Já dizia o vampiro apaixonado.

VICTORIA: - (OLHANDO PRA ESPUMA NO ROSTO DE MULDER)

MULDER: - Estou fazendo a barba.

VICTORIA: - (CURIOSA) Aba?

MULDER: - É, barba. Pra ficar bonito.

VICTORIA: -(ESTENDE A MÃO) Nenê... onito... aba... Dahh!!!!!!

MULDER: - (RINDO) Não! Neném não faz a barba não. Você é menina. Meninas não têm barba. Só os meninos têm barba.

Victoria sorri. Mulder pega o aparelho de barbear.

MULDER: - (RINDO) Crianças... Saem com cada uma... Com toda a agitação que a minha vida se tornou por sua causa, Pinguinho... Eu nunca pensaria duas vezes se tivesse que ser pai de novo. É a melhor coisa que pode acontecer a uma pessoa.

Mulder passa o aparelho no rosto.

MULDER: - Sabe de uma coisa? Antes de você nascer eu tinha muito medo de ser pai. Fiz cada besteira que deixava sua mãe maluca, de tanto medo que eu tinha de ter um filho... Não pela responsabilidade, mas eu tinha medo justamente por causa dos meus genes... Tinha medo de colocar uma criança nesse mundo pra continuar o sangue maldito do meu pai...

Mulder lava o aparelho. Coloca no rosto novamente.

MULDER: - Mas eu aprendi que ter o sangue de Mulder e Spender, não me torna igual a eles. Depois até me preocupei com o fato de ser geneticamente modificado... Mas hoje eu olho pra você e não me culpo por isso. Você está aí cheia de saúde, nunca teve uma doença... E não importa seus dons, a gente vai trabalhar nisso juntos... Eu te amo! Hoje vamos almoçar fora. Depois das seis da tarde, vamos no mercado comprar coisas... Voltamos a andar com o carro do FBI até a seguradora resolver a situação... E tenho que esganar a dona Daniela Rosa com suas babás... Minha nossa, tenho tanta coisa pra fazer hoje... (OLHA COM O RABO DOS OLHOS PRO CHÃO) Pinguinho?

Sem resposta. Mulder tira o aparelho do rosto e percorre os olhos pelo banheiro. Arregala os olhos, incrédulo.

MULDER: - (PÂNICO) O que está fazendo, Pinguinho?

Victoria sorri pra ele, em pé na frente do vaso, fazendo xixi pelas pernas.

VICTORIA: - (RINDO) Pipi, papai! Pipi!!!!

Mulder leva a mão à testa.


Gabinete do Diretor Assistente – 8:39 P.M.

Mulder entra. Scully trabalhando na mesa de Skinner.

SCULLY: -Eu... Skinner me deixou ficar trabalhando aqui... Soube que trouxe Victoria, que ela está lá embaixo... E-eu não quero vê-la, eu...

MULDER: - Tudo bem... Scully, soube que o bebê dos Kewnan deu entrada no hospital novamente essa madrugada. Precisamos fazer alguma coisa. Pela menina.

SCULLY: - O que sugere? Invadir a casa dos Kewnan novamente?

MULDER: - Me ajuda, me dá uma ideia, eu... Eu tô meio cansado hoje.

SCULLY: - A gripe ainda?

MULDER: - Não é que... Deixa pra lá, problemas meus.

Mulder vai saindo.

SCULLY: - Não quer falar? Posso ouvir.

MULDER: - ... Não, deixa pra lá. É sobre Victoria.

SCULLY: - (PREOCUPADA) Aconteceu alguma coisa?

Mulder vira-se pra ela.

MULDER: - ... Ela... Como vou dizer isso?

Scully solta a caneta e olha pra ele, erguendo as sobrancelhas.

MULDER: - Ela... Agora não quer mais fazer xixi nas fraldas.

SCULLY: - E o que tem de errado? Além do fato de que é cedo demais pra ela ter consciência de fazer suas necessidades sem fraldas.

MULDER: - ... Acontece que hoje de manhã ela... Tava fazendo xixi em pé, na frente da privada.

Scully olha pra ele, segurando o riso. Mulder tenso, olhando pro nada.

MULDER: - E-eu não tenho a mínima ideia de como vou ensina-la a fazer xixi... Como menina, sabe? Victoria tá querendo até fazer a barba! Acho que ela tá precisando de companhia feminina...

Scully começa a rir. Mulder olha pra ela. Os dois riem juntos.

SCULLY: - (RINDO) Em pé? Na frente do vaso?

MULDER: - (RINDO) É... Eu queria ter tirado uma foto da situação insólita...

SCULLY: - (RINDO) O que esperava, Mulder? O pai dela faz xixi em pé, ela segue o exemplo que conhece, oras...

Scully respira fundo, não consegue parar de rir. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Scully, sério. Sei que é engraçado, mas é preocupante... Claro, ela convive comigo, quer aprender a fazer tudo o que eu faço, só que... Ela é garota, Scully. E eu não sei como... Como explicar pra ela coisas de garota.

SCULLY: - Mulder, isso é uma fase da criança. É só você explicar que ela é menina, que você é menino e que meninas não fazem pipi em pé.

MULDER: - Falar é fácil... Daqui à pouco ela quer usar cuecas...

Mulder sai nervoso. Scully o acompanha com os olhos. Respira fundo. Pega a bolsa e sai da sala.


Arquivos X – 2:23 P.M.

Mulder sentado à mesa, digita algo no teclado. Batidas na porta.

MULDER: - Entra!

Batidas. Mulder levanta-se e abre a porta. Scully, parada, com um grande pacote de presente.

SCULLY: - Ela está aí?

MULDER: - Dormindo.

SCULLY: - ... Mulder, eu... Dê isso aqui pra ela. Vai ser mais fácil. É um daqueles penicos de criança, em formato de bichinho...

Scully entrega o embrulho. Mulder o pega, estranhando. Scully sai. Mulder fecha a porta. Sorri.


4:17 P.M.

Victoria, curiosa, brinca com o penico em formato de joaninha. Mulder ao telefone.

MULDER: - Eu tô subindo agora.

Mulder desliga. Levanta-se. Olha pra Victoria.

MULDER: - Pinguinho, preciso ir até a sala do Kersh. Por favor, só 10 minutos, não mexa em nada, não chore, fique quietinha, tá bom?

VICTORIA: - Tá!

Mulder sorri. Sai, fechando a porta. Victoria continua brincando com o penico. A tampa abre e fecha e ela acha engraçado. Coloca peças do quebra cabeça espalhado pelo chão, dentro do penico. Fecha. Começa a rir. Abre o penico, tira as peças, e vai se divertindo.

A porta abre-se lentamente. Scully a espia. Victoria pressente. Olha pra frente, fecha os olhinhos. Aspira o ar. Mas não se vira.

Scully enche os olhos de lágrimas. Entra. Fecha a porta. Victoria olha pra ela. Scully se ajoelha e a toma contra o peito, aspirando o perfume dela, derrubando lágrimas, num abraço apertado. A enche de beijos, cheirinhos, abraços. Victoria se abraça nela, passando as mãos no rosto e cabelos Scully. Scully a examina, olha atenta pra filha.

SCULLY: - Seu pai está se saindo bem, não? Você está muito fofa, saudável, corada... Linda! Anda dando muita dor de cabeça pro papai é?

VICTORIA: - (FELIZ/ GRUDADA EM SCULLY) Mama!!!!

SCULLY: - Vem, mamãe quer conversar com você, tá? Mas é segredo nosso, de amigas, tá bom?

VICTORIA: - Tá!

SCULLY: - (SORRI/ BEIJA A PONTA DOS DEDOS E LEVA AO CORAÇÃO DE VICTORIA) Juramento de amigas.

Victoria observa e repete o gesto, levando a mão ao coração de Scully.

VICTORIA: - Migas.

SCULLY: - Sei que você é diferente. E eu... Eu quero entender isso. Não fique magoada comigo, estou precisando de um tempo, as coisas todas na minha cabeça estão rodando e eu digo coisas que magoam você e... Eu não quero ficar perto de você pra não a magoar mais, porque... (DERRUBANDO LÁGRIMAS) Mamãe está ficando louca e não quer machucar o bebezinho dela. Tá certo? Eu a amo demais, pra ficar do seu lado e arriscar ferir você, meu amor...

Victoria coloca as mãozinhas nos lábios de Scully. Olha pra ela com a ternura e o ar de quem entende. Scully derruba lágrimas. A solta. Levanta-se. Estende as mãos pra ela. Victoria se levanta e segura nas mãos de Scully e sai andando com ela.


Residência dos Mulder - 7:08 P.M.

Mulder entra em casa, com Victoria no colo, sacola de bebê, o penico, sacos de compras. Coloca Victoria no chão. Lhe entrega o penico. Cookie vem correndo.

MULDER: - Vai brincando com isso daí, até eu bolar um jeito de ensinar a utilidade dele pra você. Vou guardar as compras. Vamos tomar um banho e depois faço aquela mistura de frutas que você adora. E você, pulguento, tem banho pra você no sábado!

Mulder vai pra cozinha. Cookie vem até Victoria, lhe enchendo de lambidas. Victoria abraça Cookie.


Apartamento de Ellen - 7:11 P.M.

Scully entra no apartamento, com sacos de compras, fazendo rebuliço. As laranjas caem no chão. Ellen sai da cozinha, secando as mãos num pano de prato.

SCULLY: - Hum... Cheirinho de bolo?

ELLEN: - ... É. O que houve com você?

SCULLY: - (RINDO) Estou feliz hoje.

ELLEN: - Hum, e posso saber por quê?

SCULLY: - Ellen, vi minha filha. Eu toquei nela!

ELLEN: - ???

SCULLY: - Hummmmm... Senti aquele cheirinho gostoso que ela tem... Ai, cheirinho de neném fofo, aquela pele, aquelas dobrinhas...

ELLEN: - (SORRI) E o que fizeram juntas?

SCULLY: - Segredos de mãe e filha. (SÉRIA) Por favor, não quero que ninguém saiba disso. Estou feliz, mas triste ao mesmo tempo, porque não posso me aproximar dela.

ELLEN: -(INCRÉDULA) Mulder proibiu você de...

SCULLY: - Não! No estado deplorável em que estou, melhor nem vê-la. Posso fazer alguma coisa ruim contra Victoria. Tenho medo de mim mesma, Ellen. Não confio mais no meu cérebro.

ELLEN: - (ABRE UM SORRISO) Sério?

SCULLY: -(SORRI/ OLHOS EM LÁGRIMAS) Eu dei de mamar pra ela! Senti tanta falta disso... E confesso, sabe o bolo que levei pra lanchar? Dei pra ela. Ela ama o meu bolo!

Scully larga as compras nas mãos de Ellen e sai feliz, indo pro banheiro. Ellen a acompanha com os olhos.

ELLEN: - Impressionante! Mulder tem razão, só o amor! Ela vai voltar, é só ter paciência... Deus, obrigada! E não esquece, eu vou subir as escadarias da igreja de joelhos se trouxer minha amiga de volta a realidade!!!


Residência dos Mulder - 7:17 P.M.

Mulder termina de secar e guardar a louça. Olha pra Victoria, na cadeirinha.

MULDER: - (PREOCUPADO) Pinguinho, você nem tocou nas frutas. Não comeu nada a tarde toda. O que tá acontecendo, hum? Tá dodói?

Mulder coloca a mão na testa dela.

MULDER: - Hum, sem febre... Estranho você não comer nada, sua maria comilona... Não dei nem mamadeira hoje, você não quis...

VICTORIA: -(SORRI) Migas... Mama.

MULDER: - Formigas? Onde tem formigas? Na mamãe?

VICTORIA: - Nah! Olo!

MULDER: - No bolo?

VICTORIA: - Nahhhhhhhhhhh papai!

MULDER: - Quer bolo? Papai comprou bolo.

VICTORIA: - Nah! ... Olo mama...

MULDER: - É, eu sei. Não tem bolo igual ao da sua mãe em todo o mundo. Aliás, ninguém no mundo faz comida melhor do que a sua mãe... Tô com saudades do bolo... Na verdade... Tô com saudades do carinho que o bolo representava.

Mulder brinca com o pano de prato, olhar perdido no nada. Larga o pano. Pega Victoria. Sobe as escadas. Victoria abraçada nele, segurando a raposa.

MULDER: - Vamos pra cama. Hum? Trabalho se faz no porão do FBI, não em casa. Vamos dormir. Vou te contar uma historinha.


8:46 P.M.

Mulder sentado no seu velho sofá de couro, no sótão. Olhos cansados, como quem chorou por um bom tempo. Levanta-se. Desce as escadas. Caminha até o quarto. Victoria dorme, cansada. Mulder a cobre e a beija. Sai do quarto. Faz um cafuné em Cookie, deitado nas escadas. Mulder desce até a sala. Pega a coelha da poltrona e senta-se. Fica fazendo carinhos na coelha.

MULDER (OFF): - (PREOCUPADO/ CHATEADO) Eu não atentei pra coisa mais óbvia: ela é menina. E ela vai crescer um dia. Sem uma presença feminina ao lado. Eu sou homem, tem coisas que não sei explicar pra ela... Até sei explicar, mas nunca passei por isso pra dar conselhos... Duplamente complicado ensinar as coisas pra ela... (SUSPIRA) Se pra ensinar a fazer xixi já tô em nervos, imagina quando ela menstruar? Quando os seios começarem a crescer? Quando ela começar a ter curiosidade sobre o sexo? Como vou explicar essas coisas pra ela? Eu sou homem, vou dar minha visão masculina sobre as coisas. Na verdade estarei falando sobre o que nunca passei!

Mulder se levanta. Coloca a coelha no chão. Liga o som.

[Som: Century - Lover Why?]

Mulder vai até a cozinha, pega uma garrafa de uísque do armário. Pega um copo. Olha pro copo. Respira fundo. Empurra o copo e pega a garrafa. Empina longos goles. Perde o olhar no nada, derrubando lágrimas.

MULDER (OFF): - Scully, volta, por favor! Eu não aguento mais tanta dor no meu peito! A saudade me mata aos poucos, um dia de cada vez...

Mulder se apoia na pia. Começa a chorar convulsivamente. Deixa o corpo cair ao chão. Seca as lágrimas com a manga da camisa. Bebe. Derruba lágrimas.

MULDER (OFF): - Eu... Eu não sei mais viver só... Eu me sinto vazio. Atirado feito brinquedo velho, trocado por brinquedo novo... Só eu a dar amor. E estou cansando... Eu só queria receber um carinho, um 'eu me importo'... Eu tô me sentindo muito sozinho. Eu não gosto mais de me sentir sozinho... Como um cão abandonado. Eu quero alguém que cuide de mim... Que se importe comigo... Eu quero você de volta!

Mulder se encolhe no chão. Começa a chorar, feito uma criança perdida.


9:12 P.M.

Mulder abre a porta, olhos inchados, já bêbado. Ellen parada, segurando um embrulho num pano de prato. Olha pra ele assustada.

ELLEN: - Que cara é essa?

MULDER: - A cara de um homem que chorou. Conhece? Não é mito. Homens choram.

Ellen entra. Olha preocupada pra ele.

ELLEN: - Não devia beber tanto...Sei que não é hora de vir na casa dos outros, mas tinha algumas coisas pra contar e... Fiz isso pra você e Victoria.

Ellen entrega o embrulho. Mulder abre. Ao ver o bolo, sorri, enchendo os olhos de lágrimas.

MULDER: - (QUASE CHORANDO) Você se lembrou que eu gosto de bolo de cenoura?

ELLEN: - Ah e não me agradeça! Eu sei que o bolo que você faz já foi altamente recomendado por engenheiros civis como material de construção alternativo.

Mulder sorri, derrubando lágrimas. Olha pra ela ternamente. Visivelmente bêbado, confuso e carente.

ELLEN: - Bem... Onde está Victoria?

MULDER: - (OLHANDO PRA ELA/ OLHOS EM LÁGRIMAS) Você fez um bolo pra mim?

ELLEN: - Sim, o que tem?Quando quiser bolo, fale comigo. Futuramente montarei uma confeitaria... Hum, nem tão futuramente.

Mulder coloca o bolo sobre um móvel. Se aproxima de Ellen. Tomo o rosto dela com as mãos e aproxima os lábios dos dela. Ellen arregala os olhos e o empurra. Olha pra ele, nervosa. Mulder põe as mãos no rosto.

ELLEN: - Mulder... Não confunda gentileza com outras coisas. Você está bêbado e carente.

MULDER: - ... Desculpe, e-eu...

ELLEN: - Não precisa dizer nada. Eu posso entender o que está passando, Mulder. Eu sei o que é ser sozinha, ter um filho pra criar, e a pessoa com quem você fez planos pra toda a vida deixar você largado num canto, como um passado esquecido.

Mulder morde a mão, segurando o choro. Ellen percebe a aliança no dedo dele.

ELLEN: - Reaja, Mulder. Sei o quanto é difícil, o quanto se sente só, o quanto queria só um chamego. Mas não é de mim que você quer, e eu nem posso dar isso pra você. Eu só vim até aqui fazer essa gentileza, porque eu considero você um grande amigo. Eu o respeito como o marido da minha melhor amiga. Mas nada além disso, Mulder. Nem pensar.

MULDER: - Desculpe, Ellen... Acho que... Preciso de uns dias de sono...

ELLEN: - Você bebeu demais. Acho que deve ir se deitar. Amanhã vai se acordar e o sol vai inspirar você a seguir adiante. As coisas vão melhorar. E eu estou aqui pra ajudar a juntar vocês dois novamente. Sabe que se precisar de mim, eu virei correndo. Menos pro que está pensando.

Mulder sorri de si mesmo, encabulado.

ELLEN: - Eu vim dizer que você está certo no que propôs. Consegui segurar Dana pra morar comigo. Ela está questionando as coisas, como você disse que aconteceria. Hoje ela parecia outra pessoa, feliz. Contou que esperou você sair da sala de vocês no FBI, entrou lá, agarrou a filha de vocês, matou a saudade, e se não bastasse ainda amamentou Victoria e deu um pedaço de bolo pra ela. Coisa de amigas. E tem mais: ela disse que ama a filha, mas prefere ficar longe com medo de machucá-la porque não confia mais em seu cérebro.

Mulder abaixa a cabeça, sorrindo em lágrimas.

MULDER: - Pinguinho fofoqueira, eu que não entendi... "Migas... Mama... Olo"...

ELLEN: - E eu me sinto outra fofoqueira, mas é por uma boa causa.

Ellen passa a mão no rosto dele.

ELLEN: - Vai dormir. E tranque bem as portas. Se cuida, Mulder. Você vai ter Dana de volta. Eu acredito nisso, com toda a minha fé. Ainda mais depois do progresso de hoje. Fica bem, tá? Deus tá contigo. Eu creio!

Ellen sai. Mulder fecha a porta. Recosta-se na porta, deixando o corpo cair, cansado.



BLOCO 4:

8:12 A.M.

Som de buzina.

Mulder dormindo no sofá.

Som de buzina.

Mulder acorda-se. Olhos inchados. Alguém continua buzinando. Mulder, se levanta e vai até a janela, abre a cortina levando o braço aos olhos, fugindo da luz.

Krycek parado ao lado do Ford, igual ao carro de Mulder. Acena pra ele. Mulder sai pra fora da casa.

KRYCEK: - Ei, que cara é essa? Bebeu e chorou a noite toda? O pior é que nem me convidou! E eu ando precisando disso.

MULDER: -Não ia querer me ver ontem, Rato... O que é isso?

Krycek atira as chaves pra ele.

KRYCEK: - Seu carro. Igualzinho.

MULDER: - Mas...

KRYCEK: - Seguradoras exigem rapidinho o boletim de ocorrência, mas levam semanas por burocracia. Acontece que eu tenho uma amiga, uma daquela agenda, sabe?

Mulder segura o riso.

KRYCEK: - Então liguei pra ela, contei sobre a sua situação triste. Logicamente ela se comoveu com o papai solteiro, revirou os contatos dela com a sua seguradora. Aí aproveitei pra falar que eu, mesmo não sendo papai solteiro, estou me sentindo tão carente, o quanto é triste passar uma noite de inverno sozinho, antes de viajar pra Europa... Bem, você tem que ser esperto e deixar claro que não vai voltar amanhã, entendeu? É só uma noite... Pronto, seu problema está resolvido. E o "meu problema" também. Agora vou pra casa tomar um banho e dormir porque a noite foi longa.

Mulder começa a rir. Krycek vai em direção a picape. Olha pra caixa de correio. Para.

KRYCEK: -(INCRÉDULO) Mulder... Já viu isso?

Mulder se aproxima. Olha pra caixa de correio. Arregala os olhos.

MULDER: - Gay? Quem escreveu isso na minha caixa de correio? Por qual motivo?

KRYCEK: - Bom, pelo menos eu não sou o único com a injusta fama de gay. Isso tá virando moda! Acha que foi sua vizinha?

Mulder olha maquiavélico pra casa de Nancy, olhos cerrados de raiva.

KRYCEK: -(RINDO) Mas por quê? Ela não deveria ter escrito "drogado" já que pensa que sou o seu "traficante de pizza"? (SÉRIO) Ou acha que ela pensa que você e eu... Ah não, de novo não!

MULDER: -Ela pensa, pode apostar que aquela mente desocupada e infeliz que abre a boca pra comer hóstia e depois usa a mesma boca pra falar mal das pessoas... Ah, ela pensa. Tem visto você na minha casa até de madrugada... Pensa sim. Ela fica observando, feito câmera de reality show, deduzindo coisas e louca pra comentar o programa do dia com aquele comitê de frígidas da moralidade cristã...

KRYCEK: - Dois homens não podem ser amigos? Quer dar queixa disso? Danos a propriedade privada, calúnia, difamação... E mesmo que você fosse gay, isso é crime de preconceito. Tira uma foto, eu faço a ocorrência, a prova tá aí. Processe!

MULDER: -Não, o George não merece isso, vai doer no bolso dele e ele é muito gente boa. Ele levou Scully pro hospital quando Victoria nasceu. Não. Deixa assim. Eu tenho outros métodos de enfartar a jararaca peçonhenta. Ela que me aguarde...

Krycek vai em direção a picape.

MULDER: - Krycek...

Krycek se vira.

MULDER: - Obrigado.

KRYCEK: - Que alívio ouvir isso, Mulder! Pensei que você diria que me ama!

Mulder abaixa a cabeça rindo. Nancy sai pra fora com uma vassoura. Arregala os olhos ao ver os dois. Krycek entra na picape. Mulder ao ver Nancy, sorri sacana.

MULDER: -(GRITA) Ei, Krycek!!!

KRYCEK: - O que foi?

MULDER: -(GRITA) Eu te amo!!!

Nancy sai apavorada pra dentro de casa deixando até a vassoura cair.


9:49 P.M.

Na cozinha, Victoria sentada na cadeirinha, brincando com a raposa de pelúcia. Mulder serve uma xícara de café. Senta-se à mesa. Pega as pastas de papéis.

MULDER: - Eu ainda tenho que ver umas coisas, depois vamos dormir.

Victoria abraça a raposa.

MULDER: - É, filha... Não vou esperar mais. Amanhã cedo eu vou entregar a minha demissão. É isso que estou rascunhando aqui. As coisas conspiram a favor do destino. Talvez seja a hora de eu sair fora do FBI. Acho que cumpri minha missão com eles. Nem deveria ter voltado, a bem da verdade. Mas a situação estava caótica financeiramente... Confesso que queria ficar mais um pouco pra gente ter uma reserva melhor, mas...

Victoria o observa.

MULDER: - (ARRUMANDO A PAPELADA) Vamos ver como as coisas se ajeitam. Eu preferia vender essa casa e ir pro interior, mas... Temos a mamãe. Nós temos que cuidar dela, mesmo que à distância. E eu desisto, nunca vamos achar alguém pra confiar sua segurança. Não arriscaria deixar você com ninguém mesmo. Não sei aonde estava com a cabeça em procurar babás! O que eu preciso é de um anjo!

Victoria estende a mãozinha, pra pegar uma folha.

MULDER: - Nopes! Relatório do papai.

A campainha toca. Mulder olha pra Victoria. Olha pro relógio.

MULDER: - Quem será numa hora dessas?

Mulder se levanta. Victoria o acompanha com os olhos. Mulder atravessa a sala. Abre a porta.

Baba, com a sacola de viagem na mão, de óculos escuros, cabelos rastafáris, roupas coloridas, abre um sorriso. Abaixa os óculos por sobre o nariz.

BABA: - Fox Mulder?

MULDER: - Sim.

BABA: - Meu nome é Baba.

MULDER: - Baba???? Baba ou Babá?

BABA: - Baba, sem acento. É de origem africana. Ouvi dizer que precisa de babá.

MULDER: - Não preciso mais.

Mulder fecha a porta na cara dela. Baba fica boquiaberta. Bate novamente. Mulder abre. Baba olha invocada pra ele, gesticulando.

BABA: - Olha aqui, mal educado, está me dizendo isso e fechando a porta na minha cara por que sou negra? É isso?

MULDER: - (IRRITADO) Eu não quero ofender, mas não há babás pra cuidarem da minha filha em qualquer parte desse mundo! Portanto, diga pra dona daquela agência que eu vou processá-la! Bateram meu carro, fizeram sexo na minha cama, usaram meu telefone...

BABA: - Não vim pela agência! Antes de me descartar, não pode ao menos me dar a chance de uma entrevista primeiro?

MULDER: - Não!

Mulder vai fechando a porta.

BABA: - (DEBOCHADA) Ah, e antes que bata a porta novamente, cuidado pra não deixar seu 'narizinho' preso nela.

MULDER: - (INCRÉDULO) ...

BABA: - Está bem... Vou processá-lo por racismo.

MULDER: - (IRRITADO) Eu não sou racista! Eu sou é anti-babás! Vocês são todas doidas!

Baba e Mulder ficam se olhando. Mulder bate a porta na cara dela. Baba coça a cabeça, pensativa. Bate de novo. Mulder abre, furioso.

MULDER: - (AOS GRITOS) Eu já não falei que não?

Baba abaixa a cabeça. Ergue as mãos na defensiva.

BABA: - Ok... Vamos zerar e começar de novo. Você fecha a porta, eu bato e você abre. E seremos gentis e educados, certo?

MULDER: - (INCRÉDULO) Que espécie de maluca é você que eu ainda não conhecia?

BABA: - Olha, Fox...

MULDER: -É Mulder. Eu não gosto que me chamem de Fox.

BABA: - (MURMURA DEBOCHADA) Também não gostaria... Desculpe a insistência, mas... Realmente preciso de emprego. Não sabe em quantas portas eu bati e... A minha cor e sexo não ajudam muito em bairro de branquelas. Vamos ser sinceros.

Mulder olha sério pra ela. Baba faz carinha de 'por favor', piscando os olhos diversas vezes. Mulder suspira. Abre a porta.

MULDER: - Entra. Vamos pra cozinha, "Irmã Mary Clarence", você faz o seu show e depois cai fora. Mas já aviso, vai sair correndo daqui em menos de três minutos.

BABA: - (OLHANDO PRA COOKIE) Por quê? O cachorro morde?

Baba vai indo pra cozinha, observando a sala. Passa o dedo num móvel. Ao ver o pó, faz careta. Mulder senta-se à mesa. Victoria sentada na cadeirinha olha pra Baba. Baba lhe sorri. Senta-se na frente de Mulder.

MULDER: - Quer um café?

BABA: - Não, obrigada. Tem uma filha bonita.

MULDER: -Obrigado. Bem, tem um currículo, "Corina"?

BABA: - (APONTA PRA CABEÇA) Aqui dentro...

MULDER: - (ENTEDIADO) É babá há muito tempo?

BABA: - Pra falar a verdade, não. Meu último emprego foi como cozinheira num restaurante.

MULDER: - Certo...

BABA: - Tenho experiência com crianças. Também sou mãe.

MULDER: - E precisa de lugar pra morar com seu filho?

BABA: - Filha. Não. Ela mora com o pai.

MULDER: - Precisa de folga pra vê-los?

BABA: - Não. (SORRISO FORÇADO) Só no feriado de Finados.

Mulder se cala. Olha triste pra ela.

MULDER: - Lamento muito...

BABA: - Não lamente. O tempo nos conforma.

MULDER: - Eu preciso de uma pessoa de confiança. Pra tomar conta da minha filha. Nem precisa tomar conta da casa. Basta tomar conta da menina. Meu trabalho exige que eu viaje, que não tenha horários certos pra sair de casa...

BABA: - É vendedor?

MULDER: - Tenho cara de vendedor?

BABA: - Tem. E daqueles vendedores que vendem gato por lebre. Aposto que é judeu. Certo? O nariz entrega a origem.

Mulder olha pra ela, incrédulo. Baba abaixa a cabeça e sorri.

BABA: - Posso cuidar da sua filha e da casa por um salário razoável. Não tenho aonde morar.

MULDER: - Eu pago um bom salário, desde que tome conta da minha filha direitinho. E pode morar aqui também. Tem um quarto extra na frente do quarto da menina. Somos apenas eu e Victoria.

BABA: - Viúvo?

MULDER: -Separado.

Baba olha pra ele. Olha pra Victoria.

BABA: - Lamento. Perdas não são fáceis.

MULDER: - Já lamentei o que chega... Olha, Baba, o serviço não é fácil.

BABA: - Está tentando me fazer desistir?

MULDER: - Não é isso. Minha filha é uma criança especial. Ela... Ela é incomum. Preciso de alguém que me substitua quando eu não estiver, que a eduque, que tenha paciência com ela. Victoria é uma criança realmente muito especial.

BABA: - (OBSERVA VICTORIA) Imagino... (OLHA PRA MULDER) O quanto?

MULDER: - Ela não é retardada, já aviso. É superdotada demais pra idade dela... Na verdade, preciso de uma mãe pra minha filha.

BABA: - (ENGROSSANDO) Ei, ei cara! Espera aí! Que tipo de tarado doido é você, ahn? Pelo amor dos santos! Isso não inclui ter que dormir com você, né? Por favor, me revirou o estômago agora!

Mulder olha incrédulo pra ela. Victoria solta uma risada alta. Mulder e Baba olham pra ela. Victoria abaixa a cabeça.

BABA: - Acha que ela entendeu o que eu disse?

MULDER: - Acho que não. Mas o tom da sua voz deve ter feito ela rir. Pra dizer a verdade, já nem sei mais o que ela entende ou não. E nem como entende! Você tem alguma carta de recomendação?

BABA: - ... Infelizmente não.

MULDER: - Fica difícil sem isso... Tem documentos?

BABA: - Tenho sim.

MULDER: - Pode me deixar vê-los?

Baba retira os documentos da bolsa e entrega pra Mulder. Mulder se levanta.

MULDER: - Eu já volto.

Mulder sai da cozinha levando os documentos. Baba sentada, observa a cozinha. Olha pra Victoria.

BABA: - Oi.

Victoria olha pra ela, curiosa.

BABA: - Que raposa mais bonita! Como ela se chama?

VICTORIA: - Nana!

BABA: - Hum, que nome bonito pra uma raposa. Nem se percebe que você é doida por seu pai. Gosta dele, não?

VICTORIA: - (RINDO) Goto!

BABA: - Seu pai tá meio chateado da vida, não é? Não o culpo. Se eu estivesse sozinha, me chamasse Fox e tivesse um nariz daquele tamanho, também ia ficar chateada.

Victoria começa a rir.

BABA: - É, acho que você entende mais do que a gente pensa! É uma bonita casa. Grande demais pra vocês dois. E pra um homem tomar conta... O que houve com sua mãe? Cansou dele?

VICTORIA: - Nah. Iço, Baba, Iço!

BABA: - Ah, o 'bicho pegou' feio, foi? Não se culpe. Adultos são confusos. Uma hora estão bem, outra hora acham que nada está bom... Deixa eu te contar uma história. Eu estava trabalhando em Belle, tinha uma mulher muito chata chamada Kristen, ela...

Corte.


Mulder sentado ao computador, no sótão, acessa o sistema do FBI. Pega os documentos de Baba. Começa a digitar. Aguarda. Arregala os olhos. Manda imprimir. Fica observando a tela.

MULDER: - (LENDO) ... Eu não acredito!

Corte.


Victoria sorri. Ergue a mãozinha. Baba a observa. Victoria aponta pro armário. A porta abre-se. A xícara vem até a mesa na frente de Baba.

BABA: - (SORRI) Pelo menos não terei de guardar os pratos?

Victoria sorri.

BABA: - Não, obrigada. Eu não quero café. Tomei café a tarde toda. Andei por todos os restaurantes e cafeterias da cidade tentando um emprego.

VICTORIA: - (OLHANDO PRA ELA) ...

BABA: - Mas eles não gostam de dar empregos pra pessoas de fora daqui.

Baba aproxima o rosto de Victoria, a observando.

BABA: -Você é uma bruxinha ou o quê?

Victoria sorri, mordendo as mãos.

BABA: - Você é especial, é isso o que seu pai quis dizer... Você tem o dom, não é? Não deve ser fácil pra ele viver com medo... Sei disso.

Mulder entra na cozinha, com folhas de papel. Senta-se. Entrega os documentos dela.

MULDER: - (SÉRIO) De onde você é?

BABA: - Mississipi. Gosta de comida sulista?

MULDER: - ... Não tem nada pra me dizer?

BABA: - Talvez tenha esquecido de dizer que sou recém chegada na cidade. Bem, acho que disse tudo de mais importante.

MULDER: - E não acha importante mencionar que cumpriu pena de 20 anos por assassinato de sua filha e marido? Como escapou da sentença de morte?

BABA: - (IRRITADA) ... Quem é você? Policial?

MULDER: - Agente Fox Mulder, do FBI.

VICTORIA: - Naaaaaahhhhhhhh!!!!!!

Mulder olha pra Victoria.

MULDER: - Você falhou, Pinguinho. E falhou feio!

VICTORIA: - Naaaaaaahhhhhhhhhhh!!!!!!!!

BABA: - Eu não acredito! Com tanto lugar pra procurar emprego venho cair diretamente na casa de um federal? E que se chama Fox? Que diabo de nome é esse?

MULDER: - (OLHANDO PRAS FOLHAS) Mary Valentine Wolf... Isso sim é pior do que Fox!

BABA: -Tá legal, mas lobos pelo menos são confiáveis. Eu prefiro ser chamada de Baba. Todo mundo me conhece por Baba.

MULDER: - ... Nascida no Mississipi, 49 anos, condenada a 20 anos pelo assassinato do marido e filha, em 04 de setembro de 1980... Os corpos nunca foram encontrados.

Baba se levanta. Respira fundo, segurando as lágrimas.

BABA: - (DEBOCHADA) Não estou violando a condicional, se é o que quer saber, Mr. Fox FBI.

Baba sai. Victoria fica triste. Mulder olha pra Victoria, incrédulo.

MULDER: - Não vai levitar nada? Não vai fazer as coisas todas voarem em cima dela?

Victoria faz que não com a cabeça, dando um suspiro. Mulder pula da cadeira. Olha pra Victoria.

MULDER: - Filha, é ela que você quer? Tem certeza?

VICTORIA: - Baba...

MULDER: - Mas... Você nem imagina o tamanho da ficha dela!

VICTORIA: - Nah, Ox... Obo!

Mulder sai correndo pra sala. A porta aberta. Mulder sai pra rua. Baba já distante, cabisbaixa, andando pela calçada. Mulder corre atrás dela. A segura pelo braço.

MULDER: - O que houve com seu marido e filha?

BABA: - Está na minha ficha. Eu os matei. Sou louca.

MULDER: - Armaram pra você, não foi?

BABA: - ...

Mulder se põe na frente dela.

MULDER: - Está fugindo de alguém?

BABA: - Fujo de mim mesma. Olha, Fox FBI, me deixe em paz. Eu tenho nojo de federais! Vocês fazem o serviço sujo do governo junto com a CIA!

MULDER: - O que você fez pro governo? Ou devo perguntar o que o governo fez pra você?

BABA: - Estou aqui por destino, seguindo uma estrela como uma idiota, pensando que seja a minha família morta me ajudando! Então me sento num café em Washington pra pedir emprego e escuto um sujeito baixinho falando assuntos do meu interesse e ele cita seu nome com a palavra "maluco" no fim da frase. Só esqueceu de citar que além de maluco, você é agente do FBI e se chama Fox! Na hora alguma coisa me mandou bater em sua porta. Descobri seu endereço, vim, mas não tive coragem. Então comecei a ver as babás, tá legal? Pensei que o destino estava finalmente me sorrindo, trabalhar pra um cara que investiga os céus e ao mesmo tempo conseguir respostas. Eu ouvi o sujeito dizer que você é o cara, que você se preocupa em pegar canalhas mentirosos, em mostrar a verdade, mas tudo o que ouvi eram mentiras. Porque vi um sujeito amargurado, que não acredita em mais nada, nem em si mesmo!

Mulder se cala. Baba segue. Mulder vai atrás dela.

MULDER: - Quem é você?

BABA: - Ex-presidiária, assassina de marido e filha.

Baba para. Passas as mãos nos olhos.

MULDER: - O que quer de mim?

BABA: - Algumas respostas sobre os céus. E ajudar alguém que é tão maluco quanto eu a não perder a família como eu perdi a minha.

MULDER: - Levaram eles, não foi? Sim, levaram. Levaram seu marido e sua filha e você não pôde fazer nada. Ficou trancafiada na prisão, por 20 anos, pagando um crime que não cometeu.

BABA: - Não sou inocente. Paguei o que devia. Deveria ter olhado mais pros céus ao invés de fixar meus olhos na terra.

Baba segue andando.

BABA: - Não confie sua filha a ninguém, Fox. Você é pai de algo que nem os homens ainda entendem.

MULDER: - O emprego é seu.

Baba olha incrédula pra ele.

MULDER: - Não vou argumentar nada, porque se a minha filha me diz pra confiar em você, eu confio cegamente na minha filha. E confio em você. Não confie em ninguém pode ser algo infinito demais, não acha?

Baba olha pra ele.

BABA: - Muito bem, o emprego é meu. A única dúvida é qual das duas crianças eu tenho que cuidar? Da mais velha ou da mais nova?


Residência dos Mulder – 7:29 A.M.

Mulder desce as escadas. Entra na cozinha. O café servido à mesa. Mulder sorri. Baba sai da lavanderia.

BABA: - Tão cedo?

MULDER: - Acredite, mais tarde do que quando tenho que levá-la comigo... Deixei ao lado do telefone o número do meu celular, o número do FBI, o número do hospital...

BABA: - Quer relaxar? Por que não deixa o número do seu cartão de crédito?

MULDER: - (DEBOCHADO) Também tem dinheiro dentro da gaveta dos 'achados e perdidos'.

Mulder abre uma das gavetas do armário da cozinha. Baba espia.

BABA: - Minha nossa! O que cai aí nunca mais se acha! É um buraco negro!

MULDER: - É a popular gaveta da bagunça. O que não souber aonde vai, jogue aqui. Qualquer coisa, ligue pro meu celular. É meio difícil eu ficar parado na sala. Caso eu não atenda, liga pra Alex Krycek. O número tá na geladeira.

Mulder pega a xícara de café e bebe um gole. Para. Olha pro café.

BABA: - Algo errado?

MULDER: - (SORRI) Isso sim é café de verdade...

BABA: - Coma suas torradas. Está anêmico e apático, Fox.

MULDER: -Me chame de Mulder. Eu detesto Fox... E Baba... Não me decepcione.

Mulder pega uma torrada e sai. Baba o acompanha com os olhos.

BABA: - Eu que teria de dizer isso!


Apartamento de Ellen - 7:36 A.M.

Ellen termina de tomar o café. Coloca a xícara na pia. Scully ao telefone, aguardando.

ELLEN: - Torça pra que eu consiga vender aquela casa pros Sanders hoje. A comissão será pra arrebentar. Vamos comprar as mesas hoje à tarde. Estou sentindo firmeza na nossa sociedade.

SCULLY: - (AO TELEFONE) ??? Q-quem fala?

Ellen olha pra ela. Scully desliga. Olha pra Ellen.

ELLEN: - O que foi?

SCULLY: - ... (INCRÉDULA) Uma mulher.

Ellen fecha os olhos.

SCULLY: - Tem uma mulher na casa do Mulder.

ELLEN: - Por que não perguntou quem era?

SCULLY: - (ENCIUMADA) Pra quê? Se está lá às 7 da manhã, sinal que esteve lá a noite toda! Vadia descarada! E ele é um cretino! Aposto que é uma garota de programa! Na minha casa e na frente da minha filha... (FURIOSA) Na cama em que dormíamos! Que cachorro!!!!!!!!!!

Scully pega a bolsa e sai num beiço quilométrico. Ellen a segue.

ELLEN: - Dana, não entendo você. Se odeia o cara, se não quer mais nada com ele, por que fica com ciúmes?

SCULLY: - Não tô com ciúmes!!!!!!!!!!!!!

Scully sai batendo a porta. Ellen coça a cabeça.

ELLEN: - Imagina quando está!


Arquivos X – 9:19 A.M.

Mulder ajeitando a papelada em cima da mesa. Scully olhando pra ele, sentada à sua mesa, o fuzilando com os olhos. Mulder nem percebe.

SCULLY: - Dormiu bem?

MULDER: - Muito. Fazia tempos que não dormia tão bem. Por quê?

SCULLY: - Por nada... Victoria está usando o penico?

MULDER: - Não tocou mais no assunto. Continua usando fraldas, pro meu alívio.

Scully se levanta. Pega a bolsa.

MULDER: - Onde vai?

SCULLY: - Ver como está o bebê Kewnan.

MULDER: - Estamos de mãos amarradas.

SCULLY: - É. Muito amarrados mesmo. Completamente amarrados, não é Mulder?

MULDER: - ???

SCULLY: - (CAINDO EM SI) Ah Deus! Amarrados!

MULDER: - O que foi?

SCULLY: - (SOLTA A BOLSA) O telefone dos Kewnan.

MULDER: - Quer me dizer o que...

SCULLY: - A avó! A avó do bebê! É ela!

MULDER: - Scully quer me dizer o que está teorizando?


Residência dos Kewnan - 9:47 A.M.

Mulder observa Scully, sem entender nada. Scully embala a bebê no colo, sorrindo. Mexe na figa que a menina tem na roupa. A Sra. Kewnan serve cafezinhos.

SRA. KEWNAN: - Nem consigo mais trabalhar com tudo isso...

SCULLY: - Sua sogra... É a neta preferida, não é?

SRA. KEWNAN: - Nem me fale. Ela liga toda hora, passa os finais de semana aqui, não solta a menina. Tem ciúmes de qualquer um que toque na Rachel. Até de mim!

Scully entrega a menina.

SCULLY: - Senhora Kewnan, preciso falar com meu parceiro.

Scully puxa Mulder pelo braço. Empurra a porta de vidro. Os dois saem pra varanda. Scully fecha a porta.

MULDER: - Deve estar louca se pensa que a velha está fazendo isso com a neta! Ela nem estava na casa nas duas vezes que o bebê sofreu asfixia!

SCULLY: - E precisa?

Mulder olha pra Scully.

MULDER: - Ok, agora você tá dando uma de Mulder, o Estranho!

SCULLY: - Sabe por que se colocam alfinetes de segurança com figas em crianças pequenas, Mulder?

MULDER: - Superstição? Contra olho grande?

SCULLY: - Exato. A mãe o fez por precaução. E estava certa em fazer, porque a sogra está com olho gordo na criança. Não é uma atitude consciente dela, não faz por mal, mas está bruxando a criança.

MULDER: - (INCRÉDULO) Como assim?

SCULLY: - Nunca ouviu falar em bruxismo, Mulder? A pessoa sem querer parasita o bebê, por excesso de zelo. Acaba atraindo espíritos ruins pra perto da criança. A criança definha, não desenvolve, sofre ferimentos involuntários, é atacada... Isso justifica tudo o que vimos acontecer até agora. Algo ruim está nessa casa, atacando a bebê por conta da sogra.

MULDER: - (PASMO) ...

SCULLY: - Tudo o que precisamos fazer é convencer a sra. Kewnan a procurar uma velha benzedeira. Ou uma bruxa, se preferir.

MULDER: - (EMPOLGADO) Scully, é você mesmo falando em encontrar bruxas e benzedeiras?

SCULLY: - Mulder, nunca brinque com o desconhecido quando se trata de um filho, ok? Nem a razão e a ciência explicam o zelo e o amor de uma mãe.


Agência D.A.N.I. – 5:46 P.M.

Babás sentadas pela sala de estar. Mulder irrompe na agência. Aproxima-se da recepção. Rafa sentada, lixando as unhas.

RAFA: - Pois não?

MULDER: - Daniela Rosa.

RAFA: - Quem gostaria?

MULDER: - Osama Bin Laden.

Rafa olha pra ele, desconfiada. Afasta-se. Mulder observa a placa na parede.

MULDER: - (PÂNICO) D.A.N.I... Uma empresa do grupo O.N.E.? Ah meu Deus! Agora tá explicado!!!!! Que furada a minha!

Rafa volta com Bira.

BIRA: - Pois, não? Em que posso ajuda-lo?

MULDER: - Olha aqui, Mr. 'Meias', quero falar com a sua amiguinha de conversas telefônicas.

BIRA: - (ASSUSTADO) ...

MULDER: - Agora! Meu nome é Mulder.

Bira sai rapidamente. Volta com Dani. Mulder olha pros dois.

MULDER: - Eu não recomendaria esta agência nem pra um inimigo!

DANI: - Não gostou dos nossos serviços, senhor Mulder?

MULDER: - Não!!!!

DANI: - Pode preencher um formulário da nossa caixa de sugestões...

MULDER: - Sabe o que pode fazer com os formulários da sua caixa de sugestões! Minha sugestão é que vocês devem reclamar com a companhia telefônica. Seu sistema de troca de linhas permite os usuários escutarem o que vocês falam intimamente em outra linha, ao invés de 'dicas para tornar sua vida mais feliz'. (MAQUIAVÉLICO) Por que eu não disse antes? Foi a minha vingança. O estado inteiro deve estar 'ficando mais feliz' quando liga pra cá. Não é Mr. Meias???

Bira e Dani se olham, desconcertados. Mulder sorri vingado. Ajeita a gravata e sai.


Gabinete do Diretor Assistente Skinner – 6:37 P.M.

Skinner lendo o relatório. Olha pra Scully.

SKINNER: - Onde está Mulder?

SCULLY: - Disse que ia se vingar da 'senhorita meias'. Não entendi.

SKINNER: - Então, desde que... A benzedeira fez um ritual, o bebê começou a se desenvolver e não teve mais problemas...

SCULLY: - Exatamente.

SKINNER: - Bruxismo... Como descobriu isso, Scully?

SCULLY: - Minha mãe sempre usou figas em todos os filhos. Superstição de mãe.

SKINNER: - Nunca usou com a sua. Você é uma pessoa científica.

SCULLY: - (OLHA PRA BAIXO) É...


Residência dos Mulder - 10:12 A.M.

Baba bate à porta do quarto, que está entreaberta. Espia. Mulder dorme. Baba entra, com uma bandeja de café. Mulder dorme de bruços, boca aberta, exausto. Baba sorri. Deixa a bandeja no criado-mudo. Sai do quarto fechando a porta.

Baba vai até o quarto de Victoria. Observa o livro de anjos, os anjinhos pelo quarto. Tira os lençóis do berço. Ergue o colchão. Olha pro estrado. Sorri. Pega as folhas de louro.

BABA: - É... Alguma mãe por aqui temia olho grande... Altas proteções!

Baba devolve as folhas de louro. Pega os lençóis e desce as escadas. Victoria sentada na cadeirinha, comendo biscoito. Baba entra na cozinha, coloca os lençóis na porta da lavanderia.

BABA: - Há quantos meses seu pai não dorme direito? Você incomoda tanto assim?

VICTORIA: - Nah!

BABA: - Ok, minha Bruxinha. Acho melhor começar a dar uma geral por aqui, antes que os ácaros entupam nossos narizes.

VICTORIA: - (BATE PALMAS)

Baba retira o bolo do forno. Victoria fica irrequieta.

BABA: - Ah, gosta de bolo?

VICTORIA: - Im!

BABA: - Modéstia à parte, mas eu garanto o que cozinho. Mas vamos esperar esfriar. Bolo quente dá desastre nas fraldas.

Victoria ri. Baba senta-se ao lado dela.

BABA: - Bem, hoje é sábado. Sabe o que significam os sábados?

VICTORIA: - (PRESTANDO ATENÇÃO)

BABA: - Um dia santo, escolhido por Deus. Sábados são abençoados. Nem foi porque Deus descansou não. Na verdade, todo mundo pensa que Deus criou o mundo e no sábado foi descansar. Mentira! No sábado, Deus sentou-se no jardim e ficou olhando pra Terra. Sabe o que Deus viu?

VICTORIA: - Nah.

BABA: - Viu que nunca havia criado seres tão belos pela sua complexidade. Deus viu que podia perfeitamente acreditar neles, embora muitos deles se deixassem enganar pelas aparências. Mas Ele viu que poderia perdoar todos eles. E sabe então o que Deus fez pelo resto do sábado?

VICTORIA: - Nah.

BABA: - Ele ergueu seus braços... Deus tem braços enormes, chamados anjos. E então Deus abraçou toda a humanidade, como um Pai que abraça com força os filhos que ama. E depois foi fazer festa com eles.

VICTORIA: - (SORRI) Baba... uxa.

BABA: - Hum... É. Eu sou uma bruxa sim. O universo me disse: ajude aquele homem. E cá estou eu, vaguei quilômetros tentando saber onde era meu lugar. Mas não vamos falar disso pra ninguém, não é? Quem acreditaria em nós? Cada um tem seu momento e seu papel na revelação da vida. Você tem o seu. Eu tenho o meu. Seu pai o dele.

Baba respira fundo. Leva a mão ao bolso. Retira um amuleto.

BABA: - Está vendo isso?

Victoria observa curiosa o amuleto em forma de triângulo, com uma pedra dourada.

BABA: - Sinto que tem alguma coisa ruim. Alguma energia terrível batendo na porta. Eu não sei bem o que é, mas... Isso vai proteger vocês daquela coisa que ronda faminta lá fora. Aquela coisa ruim que tirou mamãe daqui. Um dia, aquela coisa mostrará sua face e nesse dia, seu pai o pisoteará sem dó como o bicho asqueroso e nojento que é.

Victoria bate palmas.

BABA: - Ok, Bruxinha. Hora de brincar. Enquanto você brinca, vou dar uma geral por aqui, porque sujeira, afasta até anjo da guarda! Quanto mais bruxas!

Baba pega Victoria no colo. Victoria se abraça nela.



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02/09/2002

Sept. 30, 2019, 8:03 a.m. 0 Report Embed 1
The End

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Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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