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00; Era lindo o seu olhar.

Quando Kléber pôs um pé no trem naquele dia, estranhou o fato de estar tão vazio, entretanto, agradeceu, pois sua cabeça latejava de tanto se entregar à sua rotina chata. Sentou-se com tudo num dos assentos, fitando, de relance, a sua figura cansada e turva refletida nas janelas à sua frente, mesclando-se à paisagem fugaz do lado de fora.


Ao seu lado estava uma jovenzinha vestida de preto dos pés à cabeça, parecendo um corvo; a atração foi instantânea. Pensamentos de como abordá-la assomaram o cérebro fervilhante do rapaz. Com o rabo do olhar, tentando não ser tão invasivo, notou um mp3 bastante antigo, as unhas afiadas e negras tamborilando contra o aparelho oldschool.


“É uma vintage...”, pensou Kléber, materializando sua euforia e ansiedade nos pés batucando o chão linóleo do vagão. Deslizou o atrito dos jeans no banco, aguçando os ouvidos para tentar escutar o que ela ouvia. “Pepita de ouro, bicho...”.


E ela notou. Os olhares se chocaram; ele sentiu o sangue borbulhando no seu rosto, e a garota abriu um sorriso enorme com a imensidão opaca que eram os seus lábios. Retirou um dos fones, sustentando um olhar adorável, esboçando um semblante totalmente contra o estilo bastante assustador.


— Você quer escutar, né? — ela questionou, de repente, como se conseguisse ler os pensamentos alheios. A voz doce, bondosa. — A viagem pode ser tediosa quando se é tão cedo assim.


Kléber, todo envergonhado e sem ter onde enfiar a cabeça, assentiu, aproximando-se um pouco mais.


— Sim, pode ser. Com licença.


Esperou os riffs agressivos do Rammstein. Ou sensuais e mórbidos, do tipo Marilyn Manson e Nine Inch Nails. Quiçá alguma coisa que criticasse a sociedade, como o Death e Metallica.


Mas não. Ecoou sobre toda a sua cavidade auditiva a melodiosa, nostálgica e adorável voz do menino Claudinho, cantarolando: “Naquele lugar, naquele local, era lindo o seu olhaaaaaaar...”.


Pigarreou para não rir. Um súbito tom melancólico dominou o rosto macilento, ossudo e coberto de maquiagem preta da jovem, e ouviu-se um suspiro pesado e melancólico preenchendo cada cubículo do ambiente mórbido do vagão. Ela explicou:


— Estamos há dezessete anos e três dias sem Claudinho e Buchecha...


Kléber murmurou um “ah...” sem humor, e ambos ficaram daquele jeito, juntos e quietos, viajando ao passado numa playlist de funk carioca raiz até a penúltima estação.

July 18, 2019, 10:36 p.m. 0 Report Embed 3
The End

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