Banquete Noturno Follow story

guilhermerubido Guilherme Rubido

Uma curta creepypasta de apenas uma página para uma leitura rápida. Barulhos estranhos despertam Caio durante a noite. O constante arranhar de ratos no porão e o som de algo que se arrasta todas as noites no andar de baixo faz com que ele se levante para descobrir o que está acontecendo.


Short Story Not for children under 13.

#creepypasta #monstro #mistério #Suespense #horror #terror #conto #microconto
Short tale
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Banquete Noturno

Banquete Noturno


Em uma casa distante de luzes pálidas, um casal morava com seus dois filhos pequenos. Eram dois garotos. O mais velho, com seus oito invernos, era o favorito das pessoas. O outro tinha apenas 7 anos e, já nessa idade, recebia olhares tortos de todos.

Caio, o mais velho, não gostava do irmão. Nunca gostou. O pequeno garoto o importunava quando ninguém estava olhando. O ameaçava. Sussurrava. Caio tinha medo dele. Muito medo. Toda noite, no meio da madrugada, Caio via o irmão se arrastar para fora das cobertas. Tempos depois, escutava algo vindo do sótão. O arranhar de unhas. Gostava de acreditar que eram apenas ratos esfomeados.

Raramente conseguia dormir. Não com ele por ali. Sentia-se observado. Sabia que algo se arrastava pela casa. Certa noite, desceu as escadas. Escondido, viu algo caminhar pela sala como um animal grotesco. Andava de quatro, bambeando e se contorcendo como se não possuísse ossos sob a pele. Animalesco, ele grunhia, conversando consigo mesmo em uma voz que oscilava entre o agudo asfixiado e o rouquenho grave, de modo a parecer que duas pessoas distintas conversavam na penumbra. Antes que Caio pudesse fugir, a criatura se virou sorrindo para ele. De sua face, escorria ódio e malícia. Sempre sorrindo. Não era um sorriso bonito, foi difícil para Caio dormir com aquela imagem assustadora na cabeça.

A família dormia e ele observava. Rondando pelos cantos à espreita. Sempre deslizando por perto; apenas apreciando e se deliciando com o medo em risadinhas roucas.

Em seu sonho, Caio pensou tê-lo visto parado à sua porta. Sentado como um cachorro de corpo retorcido, ele o vigiava. Seus olhos iluminados como faróis sangrentos e obcecados. Talvez um pesadelo. Era mais fácil pensar dessa forma. Assim podia voltar a dormir. Mas Caio não acreditava nisso.

Sorrindo.

Um dia, acordou com o barulho que vinha de fora do quarto. Ratos? Não. Parecia o som de água pingando, escorrendo sem parar. Um leve pinga, pinga, pinga solitário. Vinha do quarto de seus pais.

Tirando a coberta, levantou-se lentamente. Seu irmão não estava na cama. Na ponta dos pés, caminhou até a porta do quarto dos pais. Estava fechada. Percebeu que tremia sem parar sobre o chão gelado, pois o chapinhar molhado que vinha lá de dentro o assustava bastante. Muito. Vindos lá de dentro, gemidos baixos de prazer dançavam até seus ouvidos. Talvez seus pais estivessem fazendo a coisa feia. Mas e se não? Tinha que ajudá-los. Prendeu a respiração e abriu a porta.

A luz branca do corredor invadiu o quarto e iluminou a silhueta curvada que se empoleirava bizarra sobre a cama. Com as costas arqueadas revelando ossos pontudos e as costelas marcadas, a criatura se alimentava excitada feito um abutre jubiloso. Sob seu corpo retorcido, os corpos sangrentos dos pais das crianças descansavam com olhos arregalados. As barrigas dos dois estavam abertas como armários profundos e ocos. Os rostos mutilados. Havia sangue espalhado por toda a cama, escorrendo brilhante pelo lençol florido sob a luz do corredor. Caio ouvia o ruminar de algo sendo mastigado avidamente. Esticado. Cortado e triturado. Havia também uma respiração alucinad. Um cachorro sobre um osso suculento. Para Caio, o mais assustador eram as palavras que vinham daquilo. O ser conversava sozinho, rindo, xingando e elogiando enquanto se deliciava com os restos mortais. Um riso cortante e rouquenho.

Pinga, pinga, pinga. O sangue descia.

A criança deu um passo para trás assustada, e ele a ouviu. Em um piscar de olhos, virou-se para Caio. A cabeça contorcida, a pele do pescoço enrolada. A blasfema imitação de uma coruja dos infernos. Com um sorriso macabro estático, os olhos brilhantes fitaram Caio.

— Shhh, irmãozinho! — As palavras saindo como um assovio débil. — Nossos pais estão dormindo!
A criatura voltou-se para o banquete.

Pinga, pinga, pinga. O sangue escorre sem parar.

June 23, 2019, 1:31 a.m. 0 Report Embed 6
The End

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